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PORTA ABERTA

Motrivivência Ano XXII, Nº 34, P. 245-255 Jun./2010


DOI:10.5007/2175-8042.2010n34p245

OS “LEGADOS” DOS MEGAEVENTOS


ESPORTIVOS NO BRASIL: algumas
notas e reflexões

Juliano de Souza1
Wanderley Marchi Júnior2

Resumo Abstract
No presente texto procuramos In this paper we seek to outline
esboçar algumas reflexões críticas some critical reflections on the
sobre a temática do “legado” theme of “legacy” on sports and
esportivo e sobre a forma com que the way that this idea has been
esta idéia vem sendo lançada e launched and is reflected in the
tem repercutido no espaço social Brazilian social space. More preci-
brasileiro. Mais precisamente, nos
sely, we propose to evaluate, on a
propomos em avaliar, de forma
preliminary basis and without the
preliminar e sem cair na tentação do
profetismo, algumas das dimensões temptation of prophecy, some of the
sociais (traduzidas sob o termo social dimensions (translated under
“legados”) inerentes à conjuntura the term “legacy”) inherent in the
de realização desses megaeventos context of achieving these sporting
esportivos no Brasil. mega events in Brazil.
Palavras-chave: “Legado”, Keywords: “Legacy”, Mega Events,
Megaeventos, Brasil. Brazil,

1 Mestrando em Educação Física. Centro de Pesquisas em Esporte, Lazer e Sociedade (CEPELS).


Asociación Latinoamerica de Estudios Socioculturales del Deporte (ALESDE). Universidade Federal
do Paraná. Contato: julianoedf@yahoo.com.br.
2 Doutor em Educação Física. Centro de Pesquisas em Esporte, Lazer e Sociedade (CEPELS). Aso-
ciación Latinoamerica de Estudios Socioculturales del Deporte (ALESDE). Universidade Federal
do Paraná. Contato: marchijr@ufpr.br.
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As breves reflexões e dis- deixar claro que por megaeventos


cussões sobre os “legados” espor- esportivos entendemos a conjuntura
tivos que propomos nesse texto, material e simbólica, o que inclui
partem de algumas inquietações a mobilização de muitos agentes e
que nos tem sido suscitadas nesses estruturas dos mais distintos campos
últimos anos por conta de nossa sociais (esportivo, econômico, polí-
participação em alguns eventos da tico, midiático etc.), constituída em
Sociologia e da Educação Física, torno do esporte fazendo do mesmo
especialmente, nos grupos de tra- tanto um meio quanto um fim para
balho próprios de Sociologia do reunir adeptos e consumidores em
Esporte ou então naqueles grupos escala global e de modo a romper
que prevêem um espaço e abertura com as fronteiras culturais e eco-
para discussão do esporte em uma nômicas que se impõe em termos
perspectiva sociológica, histórica e de nação, região e grupos, ou no
política. Fator decisivo e motivador mínimo, imprimir novos sentidos e
para escrita desse texto foi também dinamismos as mesmas.
termos nos deparado com o último Por sua vez, exemplos
número da revista Motrivivência (n. desses megaeventos esportivos são
32-33) que ao apresentar um dossiê os Jogos Pan-americanos, os Jogos
sobre os megaeventos esportivos, Olímpicos e as Copas do Mundo de
contribui decisivamente para lan- Futebol, sendo que o primeiro já foi
çar essa discussão sobre “legados” realizado no Brasil em 1963 e, re-
esportivos de forma sistemática no centemente, em 2007, assim como
campo acadêmico-científico da a Copa do Mundo que o Brasil já
Educação Física no Brasil, reeditan- sediou em 1950 e repetirá o feito
do, inclusive, a própria iniciativa já em 2014. Já os Jogos Olímpicos,
ensaiada no mesmo periódico no o Brasil e, diga-se de passagem,
ano de 2006. nenhum outro país da América do
Dito isso, convém avançar- Sul teve antes a oportunidade de
mos ao argumento central que orien- sediar e, talvez, seja por isso que a
ta todo o esforço crítico-reflexivo que edição dos Jogos Olímpicos e Para-
mobilizamos no decorrer do texto olímpicos a ser realizado na cidade
e que tem como ponto de partida do Rio de Janeiro/ Brasil em 2016
o seguinte questionamento: Quais esteja se revestindo de tantas expec-
dimensões sociais que o contexto de tativas, anseios e discursos que ora
realização dos megaeventos trouxe assumem contornos carregados de
ou, por ventura, pode trazer para tons emocionais e apelativos, ora
o Brasil? Primeiramente, devemos de tons políticos, salvacionistas e,
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acima de tudo, centrados na idéia se tornaram frágeis e saturados do


do esporte como apaziguador e ponto de vista da demanda e da so-
atenuador das tensões. licitação em massa de seus serviços
Visto por um ângulo glo- por parte dos consumidores.
bal e conjuntural, os megaeventos Não obstante essa lógica
esportivos nessas últimas décadas, mercantil e consumista sugerida
no nosso ponto de vista, elucidam é de suma importância notar que
com bastante clareza o movimento o processo de expansão e conso-
de expansão e consolidação do lidação do mercado esportivo não
mercado esportivo capitalista. Se opera apenas por via da desterri-
pensarmos, sobretudo, nesses últi- torialização do espaço e mundia-
mos anos isso é bastante verdade, lização da economia e da cultura.
na medida em que o continente Existe também no interior desse
africano foi “premiado” para sediar jogo a constante preocupação de
sua primeira Copa do Mundo, a “superar” – não no sentido de re-
qual veio a ser realizada nesse ano solver – as barreiras de classe, de
de 2010 na África do Sul, além, idade, de gênero, de preconceitos
é claro, dos recentes exemplos com deficientes, com homossexuais
constituídos na figura da Copa do etc. No esporte isso se traduz mui-
Mundo que depois de sessenta anos to bem no desejo dos organismos
retorna ao Brasil e dos Jogos Olím- responsáveis pela gestão esportiva
picos que pela primeira vez será assim como dos grupos econômi-
sediado por um país sul-americano, cos e políticos adjacentes a esses
curiosamente, o próprio Brasil. E o organismos em disseminar o raio de
que dizermos dos Jogos Olímpicos ação de suas práticas (nesse caso,
de Pequim realizados na China em as esportivas) para vários segmen-
2008? Nesse propósito cabe aqui tos populacionais, condição essa
apenas uma observação: muita gen- que, na linguagem da aristocracia
te trabalhando e consumindo. Por esportiva, tem seu equivalente em
conseguinte, essas escolhas realiza- espalhar o fair-play pelo mundo
das pela FIFA e pelo COI (incluam- como eles insistem em crer.
se também as grandes corporações) Nesse quesito menciona-
talvez tenham alguma relação com do, a primeira iniciativa que nos
o fato da Europa estar enfrentando veio à mente talvez seja a criação
nessa última década uma crise po- das “Olimpíadas dos Portadores
lítica e, principalmente, econômica de Deficiência” no ano de 1960
que reflete diretamente em seus em Roma, as quais vieram a ser
mercados de modo que os mesmos oficializadas pelo COI em 1984 na
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condição de Jogos Paraolímpicos. um subterfúgio na busca de consa-


Como exemplo mais recente temos gração e legitimação mediante as
a efetivação do 1º Jogos Olímpicos redes sociais mais amplas.
da Juventude realizado em Cingapu- Em que se pesem essas
ra entre os dias 14 e 26 de agosto de breves incursões e argumentações
2010. Vale notarmos que no último desenvolvidas, podemos dizer,
caso, muito possivelmente o que portanto, que o nosso principal
deve estar em jogo nessa iniciati- “legado” (usamos o termo embora
va, dentre outros fatores, é o fato não concordemos com a forma com
dos jovens nessas últimas décadas que o mesmo vem sendo tratado
estarem se tornando a população pela academia, isto é, como um
ativamente mais consumidora dos a priori – por vezes, carente de
produtos esportivos e da indústria uma reflexão sócio-filosófica mais
do entretenimento no mundo. profunda – para subsidiar algumas
Se no âmbito do esporte primeiras análises e avaliações
regulamentado e gerenciado pelo sobre a temática dos megaeventos)
COI, esses exemplos são bastante é a entrada “oficial” do Brasil no
elucidativos e caricaturais, no âm- circuito dos megaeventos esporti-
bito do esporte amador e não regido vos, eles próprios inseridos em um
pelo COI, poderíamos citar os Jogos sistema mercadológico de práticas e
Olímpicos Gays que foram para consumos regidos por leis de oferta
sua oitava edição agora em 2010 e procura da sociedade capitalista.
quando da ocasião da realização Dito em outros termos, somos ten-
do evento em Colônia/Alemanha no dentes a crer que o grande “legado”
mês de agosto. Interessante notar- dos Jogos Pan-americanos Rio-2007,
mos que iniciativas de participação por exemplo, tenha sido a contribui-
no esporte federado e regido por ção para expansão de um mercado
instâncias legitimadoras, indepen- esportivo que certamente não está
dentemente do público referido ou preocupado com a formação de
da causa defendida, parecem soar praticantes esportivos, mas com a
como uma conquista e, de fato, o é, formação de disposições práticas
mas não no sentido que uma leitura para o consumo do esporte e dos
preliminar tende a conferir, ou seja, produtos esportivos adjacentes.
exaltando as diferenças e procuran- Quanto aos “legados” (ou
do invertê-las. Trata-se sim de uma promessas de “legados”) da Copa
conquista: uma conquista ao direito do Mundo de Futebol de 2014 e
de consumir e buscar uma distinção dos Jogos Olímpicos de 2016 en-
no universo esportivo quando senão tendemos como um tanto quanto
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prematuro falar nesses termos. Esse nável que seja, é a veiculação de


tipo de discurso, aliás, é bastante uma suposta identidade brasileira
compreensível em se tratando dos – estamos voltando nosso foco
órgãos e grupos políticos que esti- quase que exclusivamente para a
veram à frente das campanhas de dimensão dos “legados” e, sobre-
candidatura apresentadas a FIFA e tudo, do “legado esportivo-social”.
ao COI, assim como no caso dos Essa preocupação com o “legado
mais distintos especialistas cul- social” dos megaeventos, de fato, é
turais que concorrem no interior comovente, ainda mais se pensar-
do campo midiático. Interessante mos no fato de que em nosso país
também notarmos que o “discurso mais de um terço da população vive
dos legados” já passa a fazer parte, em condições subumanas e de mi-
com certa freqüência, do dia-a-dia séria. No entanto, o que “não con-
dos mais diferentes agentes que se seguimos entender” é por que esse
movimentam no espaço social bra- discurso sobre o “legado social” do
sileiro, constituindo e reforçando, esporte só veio vir à tona de uma
de certo modo, aquele fenômeno maneira mais incisiva e midiatizada
social que o filósofo italiano Um- justamente no momento em que o
berto Eco (1984) veio chamar de “fa- Brasil se prepara para sediar uma
lação esportiva” e que, no caso da Copa do Mundo e uma edição dos
análise da relação entre o universo Jogos Olímpicos?
de produção midiática e o universo Gostaríamos de saber tam-
esportivo no Brasil, veio a ser recu- bém se o acréscimo do termo “lega-
perado como conceito analítico e do social”, num primeiro momento,
estruturante pelo Professor Mauro nos projetos de candidatura brasilei-
Betti (2009) para pensar o “esporte ra como país-sede dos megaeventos
telespetáculo”. e, num segundo momento, nos pro-
Essa “falação” sobre os “le- jetos e subprojetos de financiamen-
gados”, por sua vez, reforça ainda to dos referidos eventos esportivos
uma espécie de inversão de priori- que estão sendo apresentadas nas
dades no que se refere à estrutura instâncias públicas ou então priva-
de planejamento para sediar os me- das, garante alguma vantagem sim-
gaeventos. Referimo-nos ao fato de bólica e, especialmente, material
que ao invés de nos preocuparmos aos agentes, estruturas e instituições
primeiramente em organizar esses proponentes dos mesmos? Muito
eventos da melhor e mais honesta possivelmente sim. Entretanto, o
forma possível – afinal o que está mais lamentável nessa lógica não é
em movimento, por mais questio- o uso da logomarca “legado social”
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(responsabilidade social também é dível frisarmos que nosso argumento


um jargão freqüentemente utiliza- não se constitui no sentido de colo-
do) para justificar, angariar fundos car sob suspeição o caráter educativo
e promover os megaeventos, mas o ou, até mesmo, de transformação
uso inadequado do que é arrecada- social que a prática esportiva, des-
do ou “financiado”. de que devidamente desenvolvida,
Diante dessa incoerência, pode fomentar no interior da socie-
resta a nós, inseridos nos âmbitos dade brasileira. Para isso, entretanto,
acadêmicos – desde que armados existem muitas pessoas esforçadas,
de um senso crítico e de reflexivi- dotadas de muito mais boa vonta-
dade – procurarmos desfazer ou, de ainda e, na maioria das vezes,
no mínimo, alertar sobre os perigos ganhando salários e bolsas-auxílios
de levarmos a diante essa crença do irrisórias para desenvolver o traba-
“legado esportivo-social”. Apenas lho com o esporte na perspectiva
para apontar um dos contratempos do “corpo-a-corpo” e sem o menor
de promoção social ou acadêmica reconhecimento. Além disso, o es-
dessa crença poderíamos exempli- paço das aulas de Educação Física
ficar com o fato de que ao evocá- nos colégios e nas escolas, somadas
la e reproduzi-la irrefletidamente a uma proposta de “educação olím-
corremos o sério risco de construir- pica”, também se constitui como um
mos nos próximos anos de forma espaço fértil, senão para algumas
automática, consensual, tornada primeiras mudanças possíveis e de
habitus e, portanto, encarnada nos urgência, ao menos para a conscien-
corpos, uma cultura do “legado tização social de alguns indivíduos
social”, sem, no entanto, superar como bem sugeriu a Professora Kátia
ou no mínimo amenizar os graves Rubio (2009).
problemas de desigualdade que a Dito de outro modo, nos-
sociedade brasileira carrega como so argumento quanto aos “legados
traço singular do tipo de moderni- sociais” do esporte em se tratando
dade que aqui foi construída no de- dos megaeventos é que não deve-
correr da história. Acrescendo mais mos depositar nossas esperanças
elementos a essa análise e usando a de construção de um projeto de
expressão do Professor Jay Coakley sociedade mais justa e igualitária
(2010), correríamos também o sério na realização pontual de uma
risco de nos tornarmos os novos Copa do Mundo ou de uma edição
“evangelizadores” do esporte. dos Jogos Olímpicos. Além disso,
Não obstante esse conjunto devemos ser reflexivos o bastante
de amarrações teóricas é imprescin- para não acabarmos reeditando sob
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termos re-estilizados, quando senão sentadas pelas classes dominantes.


sob outra roupagem, o discurso A isso, o sociólogo francês Pierre
salvacionista do esporte, o qual, Bourdieu (1989; 2007) deu o nome
diga-se de passagem, é teorica- de violência simbólica: violência
mente interessante para os grupos sutil, dissimulada, que conta com
dominantes e, em contrapartida, a cumplicidade tácita dos domina-
com efeitos práticos quase que dos e que exerce um grau de efeito
nulos e inatingíveis para os grupos dominante proporcional ao desco-
dominados. nhecimento que engendra. Essas
Ainda sobre os “legados amarrações teóricas, por sua vez,
esportivo-sociais” poderíamos de- nos sugerem a hipótese de que mui-
monstrar a ambigüidade desse to provavelmente o monopólio da
projeto evocando uma variedade de violência física na figura do Estado
exemplos referentes ao período pós- está relacionado, no caso do Brasil,
Jogos Pan-Americanos Rio-2007, ao exercício da violência simbólica
que veio e ainda está a contradizer sobre as classes mais baixas.
a fase propositiva de realização Nessa mesma linha de
desse megaevento. Para não nos es- raciocínio, é possível ainda indagar
tendermos muito, basta mencionar se a mera construção de espaços
apenas a construção dos grandes esportivos que possibilitassem a
complexos esportivos nas regiões oferta de esportes historicamente
mais nobres do Rio de Janeiro e, pouco acessíveis aos estratos sociais
portanto, vetadas geograficamente mais baixos garantiria a “inclusão”
aos estratos sociais mais baixos. dos indivíduos pertencentes a
Some-se a essa análise o imperativo essas mesmas classes no universo
de que a segurança pública de Esta- esportivo de modo que pudessem
do impõe um poder restritivo à cir- se apropriar de uma forma mais
culação em larga escala, nos bairros justa da distribuição dos capitais
reservados às elites, de indivíduos em jogo? Do mesmo modo e como
que habitam nos morros e que, por bem foi demonstrado por Bourdieu
conseguinte, carregam as marcas e Darbel (2003) no clássico estudo
desses espaços de maneira visível que realizaram sobre os museus
em seus próprios corpos. na Europa, para tornar a arte mais
Ocorre também dos habi- “acessível” seria apenas necessário
tantes dos morros, interiorizarem construirmos mais museus? Óbvio
em suas formas de ver o mundo, as que não. Pelo contrário, possibilitar
divisões físicas e materiais do espa- o acesso coletivo à arte, aos esportes
ço social conforme lhes são apre- “culturalmente restritos” e o que
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quer que seja não se trata apenas questão que os próprios argumentos
de uma questão de maximizar os apresentados nos parágrafos acima
locus de oferta ou ainda construir já dariam conta de responder: De
esses espaços em lugares estratégi- que forma as crianças e adolescen-
cos onde as classes mais pobres e tes que se amontoam nos morros
excluídas da cultura legítima pudes- cariocas poderiam desenvolver
sem ter acesso – sem o peso do veto um habitus para a prática esportiva
simbólico e físico anteriormente utilizando e se usufruindo do Com-
comentado – a esse conjunto de plexo Aquático Maria Lenk situado
bens e práticas culturais. no bairro Barra da Tijuca no Rio
Dito em outros termos, para de Janeiro? Parece irônico, mas é
se construir uma cultura de acesso à exatamente esse tipo de questiona-
cultura erudita é necessário, antes de mento que deveriam ser pondera-
tudo e principalmente, desenvolver dos pelos porta-vozes políticos do
nos agentes um senso de julgamento “legado social” dos megaeventos
e apreciação estética para que efetiva- antes de saírem espalhando para a
mente possam desfrutar e consumir, sociedade brasileira pelas vias insi-
por exemplo, os códigos artísticos e diosas do campo midiático a idéia
esportivos inerentes a determinadas de que a realização de uma Copa
práticas circunscritas. Esse senso de do Mundo ou dos Jogos Olímpicos
julgamento e apreciação, por sua vez, pode contribuir diretamente para
só se constrói mediante o trabalho e reduzir as desigualdades no país. O
retorno reflexivo dos agentes sobre esporte, de fato, e conforme foi dito
eles mesmos e, nesse quesito, a anteriormente, tem seu papel mo-
instituição escolar tem, ou ao menos bilizador nesse sentido recobrado
deveria ter, um papel fundamental e, desde que associado a uma política
sobretudo, engajado. Tal retomada, de re-educação que não necessaria-
entretanto, não é isenta de confronta- mente está vinculada somente ao
ções, uma vez, que quando as classes esporte escolar, mas ao esporte de
populares se apropriam das práticas uma forma geral e em seu caráter
eruditas e distintas da cultura legíti- polissêmico de patrimônio cultural
ma, as classes mais altas logo tratam da humanidade.
de procurar um lucro distintivo em Por conseguinte, essas
outras práticas de modo a reavaliar e confusões a respeito das inter-rela-
ressignificar a cultura legítima. ções entre megaeventos, “legado”,
Diante, portanto, desse esporte e redução das desigualdades
quadro social rapidamente es- sociais, em parte, se devem à falta
boçado podemos formular outra de reflexão metódica e sistemática
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por parte de quem está à frente da mico” está intimamente associada


execução, divulgação e, até mesmo, ao discurso do “legado social” tanto
da abordagem acadêmico-científica na esfera do senso comum quanto
dessas temáticas. E mais, diríamos na esfera política e científica (nesta
que essas confusões não se restrin- última talvez por conta de uma
gem apenas aos supostos “legados indevida utilização ou apropriação
sociais”, mas também avançam para de alguns referenciais teóricos das
a esfera dos chamados “legados Ciências Sociais e Econômicas),
econômicos” e “desenvolvimentis- uma vez que quase que milagrosa-
tas”. Há, nesse propósito, todo um mente se espera que do progresso
movimento social articulado em e crescimento econômico possam
torno da crença de que o progres- ser resolvidos os dilemas sociais
so econômico brasileiro (segundo brasileiros, argumento esse, que cai
se dissemina nas mais diferentes por terra ao notarmos que dos anos
instâncias midiáticas, o Brasil pos- 1940 até os anos 1980, conforme
sivelmente será a quinta economia indica o sociólogo brasileiro Jessé
do mundo em 2016) será elevado Souza (2006), a economia do Brasil
a novos patamares por conta dos foi a que mais cresceu no mundo
megaeventos. sem, no entanto, reduzir os índices
De fato, podem ocorrer de desigualdade e injustiça social.
uma série de alterações sociais no Se no campo da eco-
âmbito da circulação turística e nomia e no âmbito da redução
desenvolvimento do potencial tu- das desigualdades é no mínimo
rístico de algumas cidades e regiões duvidoso e controverso falar de
brasileiras, assim como um acrés- “legado” dos megaeventos, no
cimo na exportação dos produtos universo da cultura onde cons-
e bens de consumo produzidos no tantemente são ativados elemen-
Brasil para o exterior. Entretanto, tos e esquemas próprios de uma
entendemos que, do ponto de vista economia simbólica e emocional
econômico, o impacto direto e, até geneticamente interligada à oferta
mesmo, indireto da realização dos e consumo esportivo, podemos
megaeventos no Brasil são questio- sim pensar numa espécie de “le-
náveis e os especialistas em macro- gado” dos megaeventos esportivos
economia podem nos corroborar e para o Brasil e para os brasileiros.
são os mais indicados para tecerem Sem a pretensão de aprofundar
esse tipo de análise. nessa temática que certamente
Devemos também frisar daria alguns pares de artigos,
que essa crença no “legado econô- cabe-nos primeiramente dizer
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que no âmago de nossa história oportunidade foi que por conta da


enquanto nação autônoma foi escolha do Rio de Janeiro como
construída uma identidade nacional sede dos Jogos Olímpicos de 2016,
que faz às vezes de uma “fantasia o Brasil ganhou definitivamente sua
compensatória” de que apesar de cidadania internacional. Cabe para
termos todos os nossos problemas este fato apenas uma nota de que
sociais, nenhum povo nesse planeta se o escritor e dramaturgo Nelson
é tão “hospitaleiro”, “simpático”, Rodrigues tivesse visto a referida
“sensual”, com festas tão bonitas cena ou ouvido sobre a mesma,
e que jogue um futebol “gingado” mais uma vez teria escrito sobre a
e “moleque” como nós jogamos. “síndrome de vira-latas”.
Indiscutivelmente, a construção O que, entretanto, que-
efetiva e duradoura desse mito se remos sugerir com essa passagem
deve em muito às idéias de Gilberto é que a conjuntura e a escolha do
Freyre (1996; 2000), Sérgio Buarque Brasil como sede dos principais
de Holanda (1994) e, nessas últi- megaeventos esportivos do planeta
mas décadas, de Roberto DaMatta já está contribuindo para reacender
(1979). As reflexões desses autores alguns elementos identitários que
engendram uma análise de quem vêm sendo articulados de forma
gosta do Brasil e, portanto, essas singular à cultura esportiva brasilei-
idéias acabam fazendo a cabeça do ra mediante a implantação de um
“BRASIL MODERNO”. mercado esportivo no decorrer de
Por conseguinte, esses nossa história. Além disso, ainda que
elementos identitários, emocionais entendamos que, de fato, a singula-
e efusivos supracitados são bastante ridade do projeto de construção da
recorrentes no cotidiano brasileiro modernidade brasileira não reside
e, dentre outras oportunidades, e não se assenta sobre as caracte-
transpareceram explicitamente na rísticas identitárias e emocionais
entrevista do Presidente da Repú- do “homem-cordial que, associada
blica Luiz Inácio Lula da Silva con- como resposta compensatória e ime-
cedida aos jornalistas estrangeiros diata as nossas mazelas e misérias
e nacionais no dia 02 de outubro numa mistura de traços tradicionais,
de 2009 em Copenhague/Suíça pré-modernos e modernos, constitui
após o anúncio da cidade do Rio o chamado “dilema nacional” iden-
de Janeiro como sede dos Jogos tificado na abordagem teórica de
Olímpicos de 2016. Mas talvez o DaMatta (1979), não podemos negar
que mais de impressionante o Pre- que a conjuntura dos megaeventos,
sidente Lula (2009) tenha dito nessa na qual adentramos nesses últimos
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anos e no mínimo pela década que acesso e interpretação da realidade


está por vir, de alguma forma está empírica. Esse deslocamento rei-
mexendo com o auto-estima e o vindicado, por conseguinte, é de
brio de uma boa parte da população extrema urgência para subsidiar os
brasileira. estudos no âmbito da Sociologia
No entanto, afirmações do Esporte e das Políticas Públicas
ou elucubrações mais precisas de Esporte e Lazer, uma vez que ao
sobre esse argumento requerem tomarmos a idéia de “legado” de
um trabalho empírico minucioso, forma naturalizada ou então como
exaustivo e guiado teoricamente. O um à priori, muito possivelmente
que podemos sugerir ou, até mesmo, nos predispomos em anular ou,
afirmar no presente momento, é que até mesmo, desfazer o caráter pro-
a perspectiva de identificação de um cessual das relações sobre as quais
provável “legado simbólico” e “emo- nos debruçamos. Certos ainda de
cional” dos megaeventos esportivos que não foi possível aprofundar
tem potencialidade de se constituir todas as frentes de apreciação aqui
como um programa de pesquisa que abertas, reservamos uma discussão
ao lado da constatação de que um com maior grau de acuidade teóri-
dos principais “legados” dos mega- ca e embasamento empírico para
eventos, de fato, é a expansão de oportunidades futuras.
um mercado esportivo preocupado
com a formação de disposições para
o consumo, daria conta de englobar Referências
aquilo que poderíamos denominar
de uma “sociologia dos ‘legados’ dos BETTI, M. A janela de vidro: esporte,
megaeventos esportivos”. televisão e educação física.
Como última observa- Campinas: Papirus, 1998.
ção, devemos frisar que para que BOURDIEU, P. O poder simbólico.
uma “sociologia dos ‘legados’ dos Lisboa: Difel, 1989.
megaeventos esportivos” possa se BOURDIEU, P. A dominação
constituir de forma rigorosa e re- masculina. Rio de Janeiro:
flexiva, é necessário que deixemos Bertrand Brasil, 2007.
primeiramente de tomar a noção BOURDIEU, P; DARBEL, A. O amor
de “legado” (legatum) como um pela arte: os museus de arte na
ponto de partida de nossas análises Europa e seu público. São Paulo:
e, passemos, a tratá-la na condi- Zouk, 2003.
ção de uma categoria sociológica COAKLEY, J. Deporte y identidade
de reflexão sócio-filosófica e de nacional: El caso de América
256

Latina. Palestra de abertura RUBIO, K. Esporte, educação e


do 2º Encontro da Asociación valores olímpicos. São Paulo:
Latinoamericana de Estudios Casa do Psicólogo, 2009.
Socioculturales Del Deporte, SILVA, L. I. L. Entrevista aos
Maracay, Venezuela, set. 2010. jornalistas após a escolha do
DAMATTA, R. Carnavais, malandros Rio de Janeiro como sede dos
e heróis: para uma sociologia do Jogos Olímpicos de 2016, 02
dilema brasileiro. Rio de Janeiro: de outubro de 2009. Disponível
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