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AULAS ESPECIAIS
PORTUGUÊS
AS OBRAS DA FUVEST

A RELÍQUIA
1855 – D. Pedro V sobe ao trono português.
1856 – Epidemia de cólera.
– Inauguração da rede de telégrafo elétrico.
– Proclamação da República Portuguesa.
1857 – Na França, Gustave Flaubert lança Madame
Bovary, dando início ao movimento realista.
– Charles Baudelaire publica Flores do Mal.
– Epidemia de febre amarela.
1858 – Primeiras viagens regulares em barco a vapor
entre Portugal e Angola.
1859 – Darwin publica A Origem das Espécies, defen-
dendo a seleção natural.
1861 – Eça de Queirós inicia o curso de Direito em
Coimbra.
– Morte de D. Pedro V e início do reinado de seu
irmão D. Luís.
Eça de Queirós. 1864 – Portugal liga-se à Europa pelo caminho de ferro.
1865 – Pinheiro Chagas publica Poema da Mocidade.
1. CRONOLOGIA – Antero de Quental edita Odes Modernas.
– Início da Questão Coimbrã.
1845 – Nascimento de José Maria de Eça de Queirós 1866 – Os negros norte-americanos são reconhecidos
no dia 25 de novembro, em Póvoa de Varzim, cidadãos livres.
cidade da Região Norte de Portugal. – Eça de Queirós forma-se em Direito, muda-se
– Morse inventa o telégrafo elétrico. para a casa paterna, em Lisboa, funda e dirige o
1846 – Crise financeira portuguesa. jornal Distrito de Évora.
– Fundação do Banco de Portugal. 1867 – Abolição da pena de morte em Portugal.
1847 – Nascimento de Castro Alves. 1868 – Tumulto popular em Lisboa.
1848 – Marx e Engels lançam o Manifesto Comunista 1869 – Extinção da escravatura nos territórios sob
na Inglaterra. domínio português.
– Primeiras estradas macadamizadas em Portugal. – Encontros do Grupo Cenáculo.
1849 – Eça de Queirós é entregue aos avós paternos. – Eça de Queirós viaja ao Egito.
1851 – Golpe de Estado português. 1870 – Eça é nomeado administrador do Concelho de
– Início do período de monarquia constitucional Leiria.
conhecido por Regeneração, que duraria até – Cabo submarino de Portugal à Inglaterra.
1910. 1871 – Conferências Democráticas no Cassino Lisbo-
1852 – Representação, na França, de A Dama das nense. Eça profere a quarta conferência (12 de
Camélias, de Alexandre Dumas Filho. junho): “O Realismo como nova expressão da
1853 – Morte de D. Maria II e regência de D. Fernando, Arte”.
seu marido. – Morte de Júlio Diniz.
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1872 – Primeiras greves em Lisboa. – Fundação da Academia Brasileira de Letras.


– Eça é nomeado cônsul em Havana. 1900 – Eça publica A Ilustre Casa de Ramires, e Freud,
1873 – O autor vai aos Estados Unidos em missão A Interpretação dos Sonhos.
oficial. – Morte de Nietzsche e Oscar Wilde.
1874 – Eça é transferido para o Consulado de – Morre Eça de Queirós em Paris, em 16 de agosto,
Newcastle upon Tyne. em sua casa de Nevilly.
1875 – Fundação do Partido Socialista Português.
– Aparecem na Revista Ocidental os cinco pri-
meiros capítulos de O Crime do Padre Amaro. 2. REALISMO EM PORTUGAL
1876 – Crise financeira.
– Fundação do Partido Republicano. A mentalidade ultrapassada dos românticos encontrou
1877 – Eça começa a publicar no jornal Atualidades, do oposição direta na nova visão de mundo dos realistas
Porto, as suas Cartas de Londres. liderados pelos jovens que estudavam na Universidade de
1878 – Publicação de O Primo Basílio. Eça de Queirós Coimbra, conduzidos pelas fórmulas vanguardistas euro-
transfere-se para Londres. peias, como o Evolucionismo de Darwin, o Socialismo de
1880 – Grandes comemorações do tricentenário da Proudhon, o Determinismo de Taine e o Positivismo de
morte de Camões. Comte.
– O Diário de Portugal começa a publicar O Man- Porém, o espírito decadente romântico se negava a
darim. morrer, e o Poema da Mocidade, de Pinheiro Chagas, com
1881 – Machado de Assis publica Memórias Póstumas o posfácio de Castilho, referindo-se aos moços de Coim-
de Brás Cubas. bra, dizendo que lhes faltava bom senso e bom gosto, fez
1884/85 – Conferência de Berlim. com que eclodisse a Questão Coimbrã, a qual trouxe
1886 – Casamento de Eça com Emília Pamplona, filha Antero de Quental na resposta a Castilho.
de seu amigo Conde de Resende. Outras manifestações solidificaram os ideais revolu-
1887 – A Relíquia concorre a prêmio oferecido pela cionários vitoriosos, como O Cenáculo, As Conferências
Academia Real das Ciências. do Cassino Lisbonense, interrompidas pela polícia, e o
1888 – Eça de Queirós é transferido para o consulado grupo Os Vencidos da Vida.
de Paris. A obra literária produzida no período realista
– Abolição dos escravos no Brasil. português é das mais ricas em matéria de poesia, romance,
– Eça integra o grupo Os Vencidos da Vida. conto, historiografia e crítica, sobretudo pela qualidade.
– Posto à venda o romance Os Maias. Guerra Junqueiro, Antero de Quental e Teófilo Braga
1889 – Proclamação da República Brasileira. defendem a revolução e a reforma; Cesário Verde produz
– Fundação da Revista de Portugal. a poesia do cotidiano; no romance e no conto, destaca-se
1890 – Suicídio de Camilo Castelo Branco. Eça de Queirós.
– Publicação de Oaristos, de Eugênio de Castro, Surgem os periódicos As Farpas, de Ramalho Ortigão
seguindo o modelo francês simbolista. e Eça de Queirós, e Os Gatos, de Fialho de Almeida. O
– Ultimato inglês a Portugal. teatro torna-se irrelevante, por não concretizar a ideolo-
1891 – Revolta popular de 31 de janeiro contra o regime gia realista.
monárquico em Portugal. A poesia pretende ser a arma de combate ao espírito
1893 – Cruz e Sousa publica Broquéis, marco do início decadente e mórbido do movimento romântico, perce-
do Simbolismo brasileiro. bendo-se a intenção de engajamento aos problemas sociais
– Nascimento de Mário de Andrade. e construção de uma inquietante manifestação crítica.
1894 – Eça de Queirós escreve, em Paris, A Ilustre Casa Antero de Quental e sua poesia metafísica, na angustiosa
de Ramires e tem no prelo a Correspondência procura de Deus, coloca-se ao lado de Pessoa e Camões,
de Fradique Mendes. sendo um dos mais perfeitos sonetistas em Língua
1896 – Machado de Assis publica Várias Histórias. Portuguesa; Cesário Verde apresenta um tom de
– Primeira sessão de cinema. subjetividade do mundo concreto que não o preenche.
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O romance e o conto preocupam-se em atacar os – Eça busca a consciência e percebe que o ataque
valores institucionais e a burguesia em decadência, de- às instituições fortalecidas na sociedade fora em
monstrando o casamento em declínio, analisado e critica- vão. Procura, então, alimentar a ideia da constru-
do – já que representa o próprio sistema burguês –, e o ção e da fé, cultuando a alma e o espírito.
adultério como consequência desse desmoronamento. – A Ilustre Casa de Ramires, A Cidade e as Serras,
A Relíquia e Obras Póstumas.

3. EÇA DE QUEIRÓS E O REALISMO


4. AS OBRAS MAIS IMPORTANTES
Gustave Flaubert, criador do romance realista com
Madame Bovary, tem em Eça de Queirós um seguidor que, O CRIME DO PADRE AMARO
numa linguagem preciosa e maleável, retrata fielmente a Leiria, cidade provinciana influenciada pelo clero, é
sociedade portuguesa do século XIX, satirizando-a e cenário da corrupção e do caso amoroso entre o Padre
criticando-a, sendo considerado o melhor da prosa realista Amaro e Amélia, moça solteira, filha da hospedeira, que
portuguesa. acreditava piamente em padres. Ele faz um filho em
Amélia e ela morre em decorrência de complicações do
Tradicionalmente, a obra de Eça de Queirós é dividida parto. Existiram, antes da versão oficial, outros dois
em três fases:
desfechos para o livro, em que Amaro matava o filho. Eça
desistiu do crime, porém o título conservou essa ideia.
I – Primeiros textos: folhetins ainda com fortes re-
síduos românticos e influência de Baudelaire.
O PRIMO BASÍLIO
– Prosas Bárbaras (1865).
Crítica à burguesia lisboeta, sentimento de frustração
– Pertencem a essa fase: O Mistério da Estrada de
familiar, falso moralismo e adultério. Luísa (romântica
Sintra (1.ª versão – 1870), uma espécie de
fantasiosa e fútil que espera viver um grande amor, como
romance policial, sério e irônico, em parceria
o das obras que lia), Basílio (rapaz de índole duvidosa que
com Ramalho Ortigão; e As Farpas, jornal
procura divertir-se gratuitamente) e Juliana (revoltada per-
satírico.
manentemente com sua condição miserável de existência)
confrontam-se nesse Episódio da Vida Doméstica.
II – Fase realista: retrata a cidade provinciana, o
clero, a burguesia e os intelectuais, combatendo
as instituições vigentes e atacando a sociedade OS MAIAS
portuguesa por meio da sátira e da ironia, o que Voltado para a alta sociedade de Lisboa, onde imperam
confere atualidade à obra. jogatinas, festas, adultérios, corridas de cavalo e incesto.
– Linguagem original, natural, antideclamatória,
precisa e direta, unida a um certo lirismo melan- A CIDADE E AS SERRAS
cólico que leva até ao ridículo de algumas perso- A vida no campo, numa pequena aldeia, é a única
nagens formais, vazias, que, hipocritamente, de- forma de se obter a verdadeira felicidade, justamente onde
fendem a moral e os bons costumes portugueses. Jacinto de Tormes encontra a existência perfeita.
– O Crime do Padre Amaro, O Primo Basílio, Os
Maias (as três compõem a Trilogia “Cenas A ILUSTRE CASA DE RAMIRES
Portuguesas”) e O Mandarim. Nessa obra, Eça preocupa-se em mostrar a expansão
portugue-sa na África. Gonçalo Mendes Ramires é um
III– Pós-realista: fase nacionalista, defesa do colo- fidalgo de família tradicional, experiente fracassado, escritor
nialismo e da vida pura no campo. de uma novela histórica em que Tructesindo Mendes
Procura refletir maduramente sobre suas inves- Ramires, seu antepassado, tem seus feitos de glória contados
tidas contra a burguesia e a família. A esperança no livro A Torre de D. Ramires (ele assistira à morte de seu
toma o lugar da descrença. filho e desejava vingar-se dos culpados).
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5. RESUMO DA OBRA A RELÍQUIA Enquanto peregrinava diariamente por igrejas, a fim


de fazer sua tia acreditar que ele era um homem de fé,
Teodorico Raposo, alcunhado Raposão, inicia o relato rezando quase ininterruptamente, Raposão também
de suas memórias esclarecendo o motivo de tê-las escrito: frequentava a casa da prostituta Adélia e, em encontros
secretos, satisfazia seus desejos sexuais. A estratégia de
Decidi compor, nos vagares deste verão, na minha quinta do parecer à tia um homem sem pecados surtia efeito, e
Mosteiro (antigo solar dos condes de Lindoso), as memórias Teodorico conseguiu, assim, uma vida menos vigiada:
da minha vida — que neste século, tão consumido pelas
incertezas da Inteligência e tão angustiado pelos tormentos do Começou daí, farta e regalada, a minha existência de sobrinho
Dinheiro, encerra, penso eu e pensa meu cunhado Crispim, da senhora D. Patrocínio das Neves. Às oito horas,
uma lição lúcida e forte. (AR1, p. 47) pontualmente, vestido de preto, ia com a Titi à igreja de
Santana, ouvir a missa do Padre Pinheiro. Depois do almoço,
Órfão de pai e mãe, Teodorico foi criado pela Tia tendo pedido licença à Titi, e rezadas no oratório três Gloria
Patrocínio, a Titi, filha do comendador G. Godinho, beata Patri contra as tentações, saía a cavalo, de calça clara. Quase
rica, amarga, que, fanática pela religião, reprova qualquer sempre a Titi me dava alguma incumbência beata: passar em
demonstração de afeto ou relacionamento amoroso, São Domingos, e dizer a oração pelos três santos mártires do
principalmente em sua perspectiva sexual, e desfruta, por Japão; entrar na Conceição Velha, e fazer o ato de desagravo
causa de sua fortuna material, imenso prestígio na pelo Sagrado Coração de Jesus...
sociedade de Lisboa, principalmente com os membros da E eu receava tanto desagradar-lhe, que nunca deixava de dar
Igreja Católica, sendo obedecida por todos que a rodeiam. estes ternos recados que ela mandava à casa do Senhor.
Raposão e a Tia Patrocínio caracterizam-se por Mas era este o momento desagradável do meu dia: às vezes, ao
personalidades opostas: o mundano de sexualidade quase sair, sorrateiro, do portão da igreja, topava com algum
insaciável e a beata fervorosa e ressequida. Desse modo, condiscípulo republicano, dos que me acompanhavam em
para conviver com a Titi, Teodorico forja uma identidade Coimbra, nas tardes de procissão, chasqueando o Senhor da
plenamente cristã, temente a Deus e sexualmente pura, Cana-Verde.
quando, na verdade, driblava essa devoção teatral com — Oh, Raposão! pois tu agora...
uma vida libertina, rodeada de mulheres. Eu negava, vexado:
Quando aluno do Colégio dos Isidoros, Teodorico fez — Ora essa! Não me faltava mais nada! Sou mesmo lá de
amizade com Crispim e seguiu vida universitária, carolices... Qual! Entrei aqui por causa de uma rapariga...
cursando Direito em meio a vida boêmia intensa, período Adeus, tenho a égua à espera.
em que recebeu o apelido de Raposão pela sua sagacidade, Montava, e de luva preta, a perna bem colada à sela, um
a qual, diante da tia, revela-se inútil. botãozinho de camélia no peito, ia caracolando, em ócio e
A personalidade de Teodorico demonstra-se, às vezes, luxo, até ao Largo do Loreto. Outras vezes deixava a égua no
caridosa, como na situação que envolve o primo Xavier, o Arco do Bandeira, e gozava uma manhã regalada no bilhar do
qual vivia com uma espanhola, Carmem, e os três filhos Montanha. (AR, p. 77)
dela, em miséria total. Raposão tenta interceder junto à Tia
Patrocínio para que ela ajude o pobre familiar. No entanto, Teodorico conheceu Adélia e com ela teve um
a amarga senhora destila seu fel ante a situação de Xavier: envolvimento sexual, até ela trocá-lo por Adelino, o que
deixou Raposão em forte crise emocional. Nessa ocasião,
– Que se aguente... É o que sucede a quem não tem temor de o narrador viu-se em um momento inesperado: em uma
Deus e se mete com bêbedas... Não tivesse comido tudo em conversa com os frequentadores de sua casa, principal-
relaxações... Cá para mim, homem perdido com saias, homem mente padres, Dona Patrocínio acolheu uma ideia de fazer
que anda atrás de saias, acabou... Não tem o perdão de Deus, Teodorico peregrinar pela Terra Santa, para purificar os
nem tem o meu! Que padeça, que padeça, que também Nosso pecados dela e fazê-la ganhar uma ida para o céu
Senhor Jesus Cristo padeceu! (AR, p. 71) santificada.
Assim, Raposão seguiu rumo a Jerusalém para
1 Todas as passagens extraídas do romance A Relíquia serão indicadas por AR neste
representar Dona Patrocínio (rezando em seu nome na
trabalho (Eça de Queirós. A Relíquia. 3. ed. Cotia/SP: Ateliê Editorial, 2017).
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peregrinação pelos caminhos santos, já que ela era muito definitiva diante da tia, entregou a relíquia sagrada que
idosa para fazer o percurso) e, indiretamente, conseguir a tinha trazido para Dona Patrocínio:
purificação dela. Antes da partida, Teodorico recebeu dos
amigos de Dona Patrocínio pedidos de lembrancinhas da — Titi, meus senhores... Eu não quis revelar ainda a relíquia
Terra Santa, e Titi, depois de dizer que nada queria de lá, que vem aqui no caixotinho, porque assim mo recomendou o
a não ser orações, ouviu do sobrinho que lhe traria uma senhor Patriarca de Jerusalém... Agora é que vou dizer... Mas
relíquia. antes de tudo, parece-me bem a pelo explicar que tudo cá nesta
Iludido pela possibilidade de descobrir nas belezas relíquia, papel, nastro, caixotinho, pregos, tudo é santo! Assim,
das mulheres orientais grandes prazeres físicos, Raposão, por exemplo, os preguinhos... são da Arca de Noé... Pode ver,
que inicialmente rejeitara a ideia da viagem, partiu para senhor Padre Negrão, pode apalpar! São os da Arca, até ainda
Jerusalém. Ao chegar a Alexandria, conheceu um cientista enferrujados... É tudo do melhor, tudo a escorrer virtude! Além
alemão, Doutor Topsius, homem de conhecimento disso quero declarar diante de todos que esta relíquia pertence
enciclopédico, sócio do Instituto Imperial de Escavações aqui à Titi, e que lha trago para lhe provar que em Jerusalém
Históricas, e seguiram viagem juntos. não pensei senão nela, e no que Nosso Senhor padeceu, e em
Em Jerusalém, Teodorico envolveu-se com uma lhe arranjar esta pechincha...
luveira, chamada Miss Mary, e com ela viveu grandes — Comigo te hás de ver sempre, filho! — tartamudeou a
momentos de intensa relação amorosa. Ao se despedir da horrenda senhora enlevada.
sua “Maricoquinhas”, ela o presenteou com uma camisola Beijei-lhe a mão, selando este pacto de que a Magistratura e a
e uma dedicatória, na qual escreveu: “Ao meu Teodorico, Igreja eram verídicas testemunhas. Depois, retomando o
meu portuguesinho possante, em lembrança do muito que martelo:
gozamos”(AR, p.130), assinando M.M. — E agora, para que cada um esteja prevenido e possa fazer as
Seguindo para Jerusalém, Raposão experimentou orações que mais lhe calharem, devo dizer o que é a relíquia...
diversas novidades e, encontrando uma árvore de Tossi, cerrei os olhos:
espinhos, ouviu de Topsius a certeza de que daquele — É a coroa de espinhos!
arbusto teriam saído os galhos que compuseram a coroa de Esmagada, com um rouco gemido, a Titi aluiu sobre o caixote,
espinhos de Jesus Cristo. Logo depois, teve Teodorico um enlaçando-o nos braços trêmulos... Mas o Margaride coçava
sonho/delírio, no qual foi testemunha do julgamento, pensativamente o queixo austero; Justino sumira-se na profun-
condenação e crucificação de Jesus. didade dos seus colarinhos; e o ladino Negrão escancarava para
Ao recobrar a consciência, Raposão contrastou o mim uma bocaça negra, de onde saía assombro e indignação!
ambiente sonhado com a realidade e, no final de sua Justos céus! Magistrados e sacerdotes evidenciavam uma
peregrinação, encontrou-se com uma mulher, em meio a incredulidade — terrível para a minha fortuna!
cardos e pedras, com uma criança ao colo, e decidiu, por Eu tremia, com suores — quando o Padre Pinheiro, muito sério,
pena, dar-lhe o embrulho fechado contendo a camisola de convicto, se debruçou, apertou a mão da Titi a felicitá-la pela
Miss Mary, pensando que, ao vendê-la, a pobre mulher posição religiosa a que a elevava a posse daquela relíquia.
conseguiria dinheiro para comprar alimentos. Então, cedendo à forte autoridade litúrgica de Padre Pinheiro,
Teodorico regressou a Portugal e foi recebido como todos, em fila, numa congratulação, estreitaram os dedos da
santo na casa de Dona Patrocínio, acreditando estar babosa senhora.
garantido como herdeiro da fortuna de Titi. Realizou-se Estava salvo! Rapidamente, ajoelhei à beira do caixote, cravei
uma reunião com os amigos de Dona Patrocínio para o formão na fenda da tampa, alcei o martelo em triunfo...
Raposão relatar sua peregrinação pela Terra Santa, mas, — Teodorico! Filho! — berrou a Titi, arrepiada, como se eu
entre os presentes, havia um novo padre, oportunista, fosse martelar a carne viva do Senhor.
denominado Negrão, o qual, durante a ausência de — Não há receio, Titi! Aprendi em Jerusalém a manejar estas
Teodorico, conquistara a confiança de Dona Patrocínio. coisinhas de Deus!...
Em meio aos relatos de Raposão sobre sua Despregada a tábua fina, alvejou a camada de algodão. Ergui-a
peregrinação santa pelos caminhos de Jesus, Negrão fazia com terna reverência; e ante os olhos extáticos, surgiu o
insinuações maldosas em relação às histórias de sacratíssimo embrulho de papel pardo, com o seu nastrinho
Teodorico, que, para calar o padre e ganhar notoriedade vermelho.
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“A camisinha da Mary”, caricatura de A Relíquia. A volta de Jerusalém. O


Raposão. A camisinha da Mary. Des., R. Bordalo Pinheiro. In: A Paródia, Lisboa,
1905, v. 5, p. [1]. BN J. 1567 B.
(Disponível em: <http://purl.pt/93/1/iconografia/imagens/j1657b_1905_1/j1657b_1905.html>.
Acesso em: 4 jul. 2018.)

— Ai que perfume! Ai! ai, que eu morro! — suspirou a Titi a com a oferta em letra encorpada: — “Ao meu Teodorico, meu
esvair-se de gosto beato, com o branco do olho aparecendo por portuguesinho possante, em lembrança do muito que
sobre o negro dos óculos. gozamos!” Assinado, M. M.... A camisa de dormir da Mary!
Ergui-me, rubro de orgulho: Mal sei o que ocorreu no florido oratório! Achei-me à porta,
— É à minha querida Titi, só a ela, que compete, pela sua enrodilhado na cortina verde, com as pernas a vergar, num
muita virtude, desembrulhar o pacotinho!... desmaio. Estalando, como achas atiradas a uma fogueira, eu
Acordando do seu langor, trêmula e pálida, mas com a sentia as acusações do Negrão bradadas contra mim junto à
gravidade de um pontífice, a Titi tomou o embrulho, fez touca da Titi: – “Deboche! Escárnio! Camisa de prostituta!
mesura aos santos, colocou-o sobre o altar; devotamente Achincalho à senhora Dona Patrocínio! Profanação do
desatou o nó do nastro vermelho; depois, com o cuidado de oratório!” Distingui a sua bota arrojando furiosamente para o
quem teme magoar um corpo divino, foi desfazendo uma a corredor o trapo branco. Um a um, entrevi os amigos
uma as dobras do papel pardo... Uma brancura de linho perpassarem, como longas sombras levadas por um vento de
apareceu... A Titi segurou-a nas pontas dos dedos, repuxou-a terror. As luzes das velas arquejavam, aflitas. E, ensopada em
bruscamente — e sobre a ara, por entre os santos, em cima das suor, entre as pregas da cortina, percebi a Titi caminhando para
camélias, aos pés da cruz — espalhou-se, com laços e rendas, mim, lenta, lívida, hirta, medonha... Estacou. Os seus frios e
a camisa de dormir da Mary! ferozes óculos trespassaram-me. E através dos dentes cerrados
A camisa de dormir da Mary! Em todo o seu luxo, todo o seu cuspiu esta palavra:
impudor, enxovalhada pelos meus abraços, com cada prega — Porcalhão!
fedendo a pecado! A camisa de dormir da Mary! E pregado E saiu. (AR, p. 322-324)
nela por um alfinete bem evidente ao clarão das velas, o cartão

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Acidentalmente, os pacotes da camisola e da coroa de autenticidade dessas missivas, que têm nas dobras a
espinhos tinham sido trocados e Teodorico dera à pobre fragrância do paraíso? Os dois sacerdotes, Negrão e Pinheiro,
mulher com a criancinha no colo em Jerusalém a coroa de cônscios do seu dever, e na sua natural sofreguidão de procurar
espinhos; e à Titi, a camisola de Miss Mary. esteios para a fé oscilante — aclamariam logo na camisa, na
Raposão foi expulso da casa da Tia Patrocínio, indo carta e nas iniciais, um miraculoso triunfo da Igreja! A tia
morar em um hotel, onde começou a vender relíquias Patrocínio cairia sobre o meu peito, chamando-me “seu filho
sagradas, intermediado pelo Senhor Lino. e seu herdeiro”. E eis-me rico! Eis-me beatificado! O meu
Como o negócio das relíquias prosperava, Teodorico retrato seria pendurado na sacristia da Sé. O Papa enviar-me-
passou Lino para trás e tomou conta das vendas sozinhos, ia uma bênção apostólica, pelos fios do telégrafo.
mas se pôs a falsificar as relíquias sagradas e o empreen- Assim ficavam saciadas as minhas ambições sociais. E quem
dimento fraudulento teve curta duração. sabe? Bem poderiam ficar também satisfeitas as ambições
Dona Patrocínio das Neves faleceu deixando seus intelectuais que me pegara o douto Topsius. Porque talvez a
bens para a Igreja, e Padre Negrão, favorecido com parte ciência, invejosa do triunfo da fé, reclamasse para si esta
da herança, ainda, tornou-se amante da Adélia, com quem camisa de Maria de Magdala, como documento arqueológico...
Raposão se envolvera anteriormente. A Teodorico coube Ela poderia alumiar escuros pontos, na história dos costumes
herdar o óculo de Titi que ficava dependurado na sala de contemporâneos do Novo Testamento — o feitio das camisas
jantar. na Judeia no primeiro século, o estado industrial das rendas da
Mas a sorte de Teodorico volta a brilhar, quando Síria sob a administração romana, a maneira de abainhar entre
reencontra Crispim, o amigo da época do colégio, “filho as raças semíticas... Eu surgiria, na consideração da Europa,
da Teles, Crispim & Cia.”, o qual lhe dá emprego e a irmã igual aos Champollions, aos Topsius, aos Lepsius, e outros
Jesuína em casamento, mesmo sabendo que Teodorico sagazes ressuscitadores do passado. A academia logo gritaria

não a amava, conforme ele mesmo confessara a Crispim. — “A mim, o Raposo!” Renan, esse heresiarca sentimental,

No desfecho de suas memórias, Teodorico diz: murmuraria — “Que suave colega, o Raposo!” Sem demora se
escreveriam sobre a camisa da Mary sábios, ponderosos livros

Recolhi à minha família, pensativo. Tudo o que eu esperara e em alemão, com mapas da minha romagem em Galileia...

amara (até a Adélia!) o possuía agora legitimamente o Eis-me aí benquisto pela Igreja, celebrado pelas universidades,

horrendo Negrão!... Perda pavorosa. E que não proviera da com o meu cantinho certo na bem-aventurança, a minha

troca dos meus embrulhos, nem dos erros da minha hipocrisia. página retida na história, começando a engordar pacificamente

Agora, pai, comendador, proprietário, eu tinha uma dentro dos contos de G. Godinho!

compreensão mais positiva da vida; e sentia bem que fora E tudo isto perdera! Por quê? Porque houve um momento em

esbulhado dos contos de G. Godinho simplesmente por me ter que me faltou esse descarado heroísmo de afirmar, que,

faltado no oratório da Titi — a coragem de afirmar! batendo na terra com pé forte, ou palidamente elevando os

Sim! Quando em vez de uma coroa de martírio aparecera, olhos ao céu — cria, através da universal ilusão, ciências e

sobre o altar da Titi, uma camisa de pecado — eu deveria ter religiões. (AR, p. 346-348)

gritado, com segurança: “Eis aí a relíquia! Quis fazer a


surpresa... Não é a coroa de espinhos. É melhor! É a camisa de
6. BREVE ANÁLISE DE A RELÍQUIA
Santa Maria Madalena!... Deu-ma ela no deserto...”
E logo o provava com esse papel, escrito em letra perfeita: Ao Eça de Queirós inscreveu o romance A Relíquia em
meu portuguesinho valente, pelo muito que gozamos... Era um concurso da Academia das Ciências de Lisboa com o
essa a carta em que a santa me ofertava a sua camisa. Lá propósito de, nas palavras do autor, “gozar a atitude da
brilhavam as suas iniciais — M. M.! Lá destacava essa clara, Academia diante de D. Raposo!” (QUEIRÓS, 1979, p.
evidente confissão — “o muito que gozamos”; o muito que eu 136), já prevendo que sua obra não seria bem recebida
gozara em mandar à santa as minhas orações para o céu, o pela crítica da época. Pinheiro Chagas desclassificou o
muito que a santa gozara no céu em receber as minhas orações! romance em decorrência da “inverossimilhança do sonho
E quem o duvidaria? Não mostram os santos missionários de de Raposão”, conforme afirma Campos Matos, reprodu-
Braga, nos seus sermões, bilhetes remetidos do céu pela zindo a crítica de Pinheiro Chagas sobre Teodorico, no
Virgem Maria, sem selo? E não garante a Nação a divina Dicionário de Eça de Queirós:
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Teodorico, mentiroso contumaz, quase um mitômano,


“Um pateta moderno, um devasso reles, vicioso e beato, mantido convive com a farsa social portuguesa, sabedor de que
por uma tia no culto piegas de Nossa Senhora da Conceição e suas falácias lhe garantiriam alcançar seu principal
no sagrado horror de saias e fazendo às furtadelas as suas objetivo de enriquecer, tanto que, mesmo depois de ter
incursões pelo campo do amor barato” não podia alçar-se às descoberta sua falsa história de peregrinação à Terra
alturas do sonho da crucificação de Cristo tal como Eça o Santa, repleta de feitos quase sacralizantes de sua
descreve, devia era dar “um Evangelho burlesco”, isso é que identidade, mantém-se no mundo das mentiras,
seria verosímil (MATOS, 1988, p. 831). comercializando falsas relíquias “advindas” de Jerusalém.
A epígrafe do romance A Relíquia, “Sobre a nudez
Desse modo, Pinheiro Chagas e os membros da forte da verdade, o manto diáfano da fantasia”, pode ser
Academia rejeitaram a possibilidade de Teodorico ter uma confirmada já no prólogo que Teodorico redige de suas
revelação cristã, já que a personagem era falha em memórias, no qual afirma ser a verdade apresentada “ora
elementos psicológicos e também de caráter duvidoso. embaraçada e tropeçando nas pesadas roupagens da
Eça de Queirós, lucidamente crítico, afirmou que História, ora mais livre e saltando sob a caraça vistosa da
Farsa” (AR, p. 51).
A Relíquia é certamente um livro malfeito. Às suas Sobre a epígrafe, Beatriz Berrini afirma que:
proporções falta harmonia, elegância e solidez; certos
personagens, apenas recortados e não modelados, oferecem (...) o autor expõe de forma exata e dura a crueza da Verdade,
uma notação uniforme e esfumada; a forma não tem suficiente tudo revelado pelo qualificativo forte.
fluidez e ductilidade, antes por vezes encaroça e empasta, e O tímido manto da Fantasia mal consegue revestir, sequer
por querer ser grave parece hirta como sucede aos grandes ocultar a Verdade.
homens da província, etc., etc... Mas estes defeitos, que só Aludirá o narrador, por isso mesmo, já no Prólogo, às
podem ser sentidos por um gosto muito afinado na perene incertezas da Inteligência e aos tormentos do Dinheiro, tudo
convivência das coisas de Arte, nunca poderiam provocar a resumido numa breve frase: eis a lição lúcida e forte, que ele,
condenação dum livro numa Academia que não está povoada Teodorico, extraiu das experiências de toda uma vida
de artistas (QUEIRÓS, s/d., v. 2, p. 1456). (BERRINI, 2009, p. 54).

Em uma carta a Luís de Magalhães, o autor tece O primeiro romance picaresco conhecido oficialmente
considerações ao comportamento de Teodorico Raposo: é O Lazarillo de Tormes e das suas Fortunas e Adver-
sidades, obra de autor anônimo e de tradição oral, a qual foi
Eu por mim, salvo o respeito que lhe é devido, não admiro publicada em 1554 e censurada pela Inquisição, uma vez
pessoalmente A Relíquia. A estrutura e a composição do livreco que o clero espanhol era o alvo principal do romance.
são muito defeituosas. Aquele mundo antigo está ali como um O protagonista dessa obra é um anti-herói, o qual tem
trambolho, e só é antigo por fora, nas exterioridades, nas vestes por principal meta a de ascensão social, mesmo que para
e nos edifícios. É no fundo uma paráfrase tímida do Evangelho consegui-la fosse necessário agir de forma ilegal. No
de S. João, com cenários e fatos de teatro; e falta-lhe ser romance, narrado em primeira pessoa, Lazarillo relata que
atravessado por um sopro naturalista de ironia forte, que daria nasceu à beira do rio Tormes, sendo seu pai ladrão e ele
unidade a todo o livro. D. Raposo, em lugar de se deixar entregue pela mãe a um cego, para ser seu guia, passando,
assombrar pela solenidade histórica, devia rir-se dos Judeus e por causa dele, fome. Em decorrência da necessidade de
troçar dos Rabis. O único valor do livreco está no realismo comer, Lazarillo desenvolve suas habilidades trapaceiras,
fantasista da Farsa (QUEIRÓS, 1979, p. 575). passa para o domínio de um clérigo, extremamente
avarento, é descoberto em suas mentiras e trapaças e acaba
Considerando-se que a crítica social é um dos despedido.
propósitos da escola realista, pode-se afirmar que, em A Após ter trabalhado como criado de um escudeiro
Relíquia, Eça atingiu seu objetivo de apresentar a falido, Lazarillo trabalha para um frade de comportamento
sociedade portuguesa, especificamente de Lisboa, repleta nada confiável e, depois, vai servir a um buleiro
de hipocrisia e corrompida pela falsidade religiosa. trapaceiro. Começa a vender água para um capelão e a se
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vestir melhor, até se tornar pregoeiro, ocasião em que junto ao túmulo de Cristo, do seu Senhor, rompe como um rafeiro
conhece um arcipreste. Esse religioso oficializa o a buscar um rostinho gordinho e sardento. Chega a dizer
casamento de Lazarillo com a própria criada, que, na explicitamente: “Caramba, eu vim aos Santos lugares para me
verdade, era amante do presbítero, o qual, desse modo, refocilar (...). Quero regalar a carne” (...).
encobria sua desobediência ao celibato clerical, man- Essa sede de prazer, essa sensualidade tão marcada,
tendo-se, diante da sociedade, como um religioso de contrabalançam o exagero e insistência da tia Patrocínio em
reputação ilibada. relação à impureza, aos pecados contra a castidade. Não pode
Alguns dos elementos que Eça de Queirós apresenta ela sequer ouvir falar em filhos, em relações entre um homem
em A Relíquia podem ser associados ao anti-herói e uma mulher. Tudo lhe cheira a porcaria. Por outro lado, tudo
Lazarillo, como, por exemplo, a busca pela ascensão quanto possui, mesmo remotamente, alguma relação com a
social, a narrativa em primeira pessoa, as habilidades em Igreja, parece-lhe abençoado. Assim, as cartas de doutor de
trapacear e o convívio com padres não muito confiáveis. Teodorico, trazidas de Coimbra, são examinadas com
Pode-se, nestes termos, associar Teodorico Raposo à reverência por serem escritas em latim, com paramentosas fitas
imagem do pícaro, que se caracteriza pela origem social vermelhas e o selo dentro de seu relicário. Por isso mesmo,
baixa e pelo projeto de ascender na sociedade por meio sufocado em tal ambiente, Teodorico irá atrás de saias e
da astúcia e de mentiras. O trabalho é uma ideia distante expressar-se-á em linguagem vulgar, ou seja, aproximar-se-á
numa vida repleta de aventuras e simulações, em que a de tudo quanto lhe parece ser a anti-D. Patrocínio (BERRINI,
aparência social de homem de bem e rico é ingrediente 1982, p. 208-209).
indispensável, comportamento que não traz crises de
consciência a Raposão. Depois de ser deserdado pela tia, Teodorico continua
Assim é Teodorico Raposo, personagem de origem a mentir e parte para a venda de relíquias falsas,
baixa, criado sem mãe nem pai, convivendo com a Tia reforçando o autor sua crítica à hipocrisia da religiosidade
Patrocínio, mulher rica e amarga, rodeada pela falsa que se apega a qualquer símbolo em busca da purificação
burguesia portuguesa e por religiosos interesseiros. Para dos pecados e do alcance de proteção divina.
conseguir seus objetivos, Raposão mente, trapaceia e cria Após ser informado de que Dona Patrocínio deixara
uma imagem de homem casto e temente a Deus, um apenas seu óculo como herança ao sobrinho e os demais
anti-herói que não tem limites para alcançar a meta de bens para a Igreja, Raposão faz uma autoanálise sobre seu
enriquecer herdando os bens de Titi. comportamento falsamente beato. Ao culpar Cristo pela
Beatriz Berrini assim caracteriza Teodorico: troca dos pacotes, que continham a camisola de Miss
Mary e a falsa coroa de espinhos de Jesus (talvez a maior
Teodorico Raposo aparece-nos como um sujeito interesseiro, demonstração da hipocrisia e desfaçatez de Teodorico), o
inclinado aos prazeres carnais, apreciador de bons pratos e de narrador vivencia uma situação fantástica em que Cristo
champanha, praticando uma religião marcada por ambições sai da cruz e responde-lhe as acusações a Ele imputadas,
pessoais, egoístas e materiais, impregnada de crenças mostrando-lhe a hipocrisia de sua fé e de sua conduta, ao
supersticiosas e idólatras. esconder de Titi seu desejo, quase incontrolável, por
Seu objetivo primordial é o dinheiro. Poderia ser diferente? mulheres, sua falta de interesse pela religiosidade e o
Desde criança imprimiram-lhe na alma que a titi era rica e que desrespeito pela Terra Santa, onde não conseguiu resistir
por isso era necessário gostar muito da titi, dizer sempre sim à titi, a tentações, principalmente por gostar delas.
agradar sempre à titi... Já estava traçado portanto o caminho para Para Beatriz Berrini:
chegar ao dinheiro e a ele cabia apenas percorrê-lo: agradar a D.
Patrocínio para lhe herdar a fortuna. É devoto por interesse e, O único objetivo da busca de Teodorico Raposo é a fortuna da
sendo necessário, multiplica os beijos no pé do Senhor dos titi. E para comprovar que o verdadeiro deus daquela
Passos, “sujo de tanta boca fidalga” (...), as novenas, as práticas sociedade burguesa, civis e sacerdotes, é o dinheiro, simbo-
de adoração diante do Santíssimo, ajoelhando-se diante licamente refulge no oratório da Tia Patrocínio um Jesus de
“do corpo dum Deus magro e cheio de feridas”, etc. Mas ouro, isto do começo ao final da obra. Ao vê-lo pela primeira
Teodorico tem uma outra vida, que a titi ignora: corre atrás de vez, o menino Teodorico ficara tão deslumbrado que imaginara
saias, esquece S. José e a sua jaculatória e, quando se encontra que o céu, anjos e santos, Nossa Senhora e o Pai eram todos
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assim de ouro, cravejados talvez de pedras preciosas. No final, coincide com aqueles oficialmente impostos pela doutrina
quando o Raposo retorna de Jerusalém, e, no oratório, vai fazer cristã, o vício mais comum e vituperado é a hipocrisia. O apego
a entrega da relíquia à titi, o Cristo surge “riquíssimo, maciço, ao dinheiro e a gula excessiva, os desejos lascivos são pecados
todo de ouro, suando ouro, sangrando ouro” (...). aos olhos da Igreja. Assim, impossível ambicioná-los
A Consciência, materializada na figura do Cristo da litografia, claramente. Só mesmo ocultando-os atrás de aparências
dirá explicitamente a Teodorico que o Deus perante o qual ele (BERRINI, 1982, p. 205).
se prostrara era o dinheiro de G. Godinho; e o Céu para o qual
os seus braços se tinham erguido era o testamento da titi Alguns elementos históricos e bíblicos permitem ao
(BERRINI, 1982, p. 283). leitor de A Relíquia entrar em contato com situações
ficcionais, mas também proporcionam reflexões sobre
No final do diálogo com Jesus, Teodorico ouve d’Ele questões reais, como o momento em que é pedida a
que, na verdade, quem estava falando com Raposão era a crucificação de Jesus, porque ele representava uma ameaça
sua própria Consciência, já que a Verdade não pode ser à estabilidade judaica, já que parecia oferecer perigo a
encontrada nas religiões, mas na Consciência, a qual faz o alguns interesses e poderes políticos e religiosos da época.
homem agir sem burlar regras morais da sociedade e da vida. O sonho de Raposão com o tempo de Jesus Cristo
Embora A Relíquia não tenha sido aceita pela crítica realiza a habilidade de Eça de Queirós com a literatura
portuguesa e brasileira da época de sua publicação, foi fantástico-maravilhosa. Teodorico entra em contato com
uma obra reconhecida em outros países pela “sátira uma versão diferente da verdadeira história, mas a sabedoria
aristofanesca, poesia bíblica e romance” (DA CAL, 1970, científica, que Doutor Topsius representa ironicamente,
p. 7), sendo um dos romances de Eça de Queirós mais retira-o do delírio, ao puxá-lo pelo braço para partirem do
traduzidos e editados no mundo, principalmente pela local em que Cristo fora sacrificado, trazendo-o de volta à
crítica à hipocrisia social, ao comportamento religioso realidade cristã proclamada pela Bíblia:
fraudulento e ao caráter humano, sendo o Homem levado
a atitudes ilícitas para conquistar a ascensão, especial- Depois de amanhã, quando acabar o Schabat, as mulheres de
mente econômica. Galileia voltarão ao sepulcro de José de Ramata, onde
Em vez de conquistar seus desejos por meio do deixaram Jesus sepultado... E encontram-no aberto,
trabalho, Teodorico espera ansiosamente a morte de Dona encontram-no vazio! “Desapareceu, não está aqui!...” Então
Patrocínio das Neves, manipulando sua falsa fé, caminho Maria de Magdala, crente e apaixonada, irá gritar por
pelo qual Eça de Queirós encontra a possibilidade de Jerusalém – “ressuscitou, ressuscitou”. E assim o amor de uma
criticar intensamente as religiões e suas origens, apresen- mulher muda a face do mundo, e dá uma religião mais à
tando a Consciência como o percurso para a moralização. humanidade! (AR, p. 274).
Por exemplo, a Paixão de Cristo, que é testemunhada
por Raposão em seu sonho, desmitifica o Cristianismo ao Assim, a paródia ou ironia caracteriza-se, em A
apresentar Jesus como um homem semelhante aos Relíquia, por meio da polêmica entre o real e a ilusão
humanos comuns, criticando o autor os rituais da Igreja religiosa vivida por Raposão, apresentando-se ao leitor uma
Católica e a prática fanática de suas regras, denunciando forte caricatura do martírio de Cristo. O autor vale-se da
alguns prejuízos que a estrutura da fé cristã pode trazer a Sagrada Escritura para criar uma versão paralela, tratando o
seus representantes, os quais, muitas vezes, por falta de Sagrado de maneira irônica, tal como o Naturalismo apregoa
vocação sacerdotal, vivem uma fraudulenta religião, como o amoralismo, que pode ser verificado no comportamento de
afirma Beatriz Berrini: Teodorico frente à fé cristã durante toda sua vida e também
em seu sonho/delírio com Jesus Cristo.
Predominância esmagadora de maus sacerdotes. Eça de A influência dos ditames naturalistas também pode
Queirós é um crítico de costumes. Além disso, recrutados ser observada nas aproximações ao comportamento
quase todos entre ambiciosos ou indiferentes, quase todos animal, do qual Eça de Queirós faz uso para caracterizar
muitíssimo ignorantes, dominam-nos a sede de riquezas, a algumas das personagens, bem como na ridicularização
avidez dos manjares, o desejo de prazeres carnais vedados do comportamento apaixonado de Raposão em suas
pelas leis eclesiásticas. Como nenhum de tais objetivos relações afetivas com Adélia e Miss Mary.
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Teodorico concretizou as fantasias de seu escola ao criticar os valores da fé, da verdade e da justiça,
inconsciente no sonho, conduzindo o leitor ao insólito, ao apresentar personagens corrompidas pelo dinheiro,
que caracteriza a literatura fantástica, a qual, no romance sejam elas religiosas ou não. A ambição econômica faz de
de Eça de Queirós, abre caminho para a profanação Teodorico um anti-herói influenciado pelo meio ao qual
religiosa e para a crítica à Igreja Católica e suas está submetido, percebendo-se o Determinismo de meio
penitências obrigatórias. Como resume Beatriz Berrini, tão explorado nas obras naturalistas.
O romance, tendo um narrador em primeira pessoa,
Eça de Queirós mostrou-se duplamente revolucionário. permite a criação de dois Teodoricos distintos: o narrador,
Primeiro deu de Cristo uma versão profana, apresentando distante do tempo da ação relatada; e o protagonista,
explicações naturais para os fatos evangélicos. Atingia desta presente às situações narradas, que envolvem o período
forma a própria doutrina da Igreja. E, em segundo lugar, que vai desde a infância até o casamento de Raposão com
mostrou que os ensinamentos de Jesus Cristo, se levados a Jesuína. Assim, o Teodorico que reconstrói o passado é
sério, se cumpridos, ocasionariam uma revolução social. capaz de julgar e analisar os fatos, distanciado que está
Provou Eça de Queirós ter percebido, com toda a lucidez, a deles, avaliando sua transformação, ou não, de caráter,
incompatibilidade entre a pregação de Cristo e os valores do uma vez que ele culpa o mundo, a orfandade, a falta de
mundo burguês. Assim, este só podia dizer-se cristão à medida amor familiar e o convívio com a “horrenda senhora”
em que se ocultava, em que se revestia de mentira, tentando (como Raposão se refere à sua tia diversas vezes ao longo
em vão e hipocritamente conciliar o inconciliável (BERRINI, de suas memórias) pelo caminho que deu à sua existência.
1982, p. 239). No desfecho da narrativa, o leitor mais inocente pode
crer na mudança de Raposão quando ele se torna pai de
Desse modo, por meio do Fantástico, A Relíquia família, homem de bem, respeitável. Mas Teodorico – que
apresenta dois tempos, o presente do século XIX e o fora alcunhado de Raposão, na época da escola, apelido
passado bíblico de Jesus Cristo. Portanto, o tempo adequado à sua índole, já que a raposa2 é um animal
psicológico do inconsciente e do fantasioso caminha ao oportunista, esperto e astuto – tem como lição de vida que
lado da vida cronológica de Raposão, que percorre sua sua pouca sorte decorreu da falta do descarado heroísmo
infância, vida adulta e o momento da escrita das de afirmar.
memórias.
2 Nafábula A raposa e as uvas, de Esopo, a raposa desdenha das uvas, sendo a
Eça de Queirós, em A Relíquia, afasta-se do ideal
moral da história o famoso ditado “Quem desdenha quer comprar”, tal qual
realista-naturalista ao criar uma narrativa com elementos Raposão, que desdenha da vida sexual, mas tem fascínio por mulheres e
exercita sua sexualidade frequentemente, embora faça a Tia Patrocínio
sobrenaturais, mas se aproxima dos propósitos dessa acreditar em sua castidade.

ANEXO – Recepção literária de Eça no seu tempo


A Relíquia (Junho de 1887). Esta novela refundida e drama de Henrique Lopes de Mendonça, o que dá origem
emendada três vezes, assim confessou Eça a António a uma viva polémica com E. Q. Note-se que, quando Eça
Nobre, segundo carta que este escreveu a Alberto de foi admitido como sócio correspondente desta Academia,
Oliveira, foi publicada na Gazeta de Notícias do Rio, entre em 1883, precisamente Pinheiro Chagas, secretário-geral
24 de Abril e 10 de Junho de 1887. A edição em livro foi dessa associação, assinou, com Bulhão Pato, um parecer
impressa no Porto nesse mesmo ano, quando no Brasil em que chamou a Eça “uma das glórias literárias do
faltava à Gazeta publicar os dois capítulos finais da obra. Portugal do séc. XIX”.
O seu êxito foi enorme no Brasil, suscitando a reacção dos O parecer negativo de Pinheiro Chagas sobre A Relíquia
sectores católicos. Em 1891 sairia uma 2.ª edição. era essencialmente baseado no argumento, que chegou até
No mesmo ano da sua publicação, a Academia Real aos nossos dias, da inverosimilhança do seu entrecho. Para
das Ciências lançou um concurso literário “Prémio Luis Chagas essa obra era uma méprise do autor. A explicação
I”. Eça concorre com A Relíquia. O júri, presidido por seguir-se-á, minuciosa: “Imaginou, supomos, que seria
Pinheiro Chagas, relator do concurso, dará o prémio a um original e estranho fazer contemplar e descrever a paixão de
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Cristo por um pateta moderno, um devasso reles, vicioso e Seguir-se-á o elogio, que Pinheiro Chagas não
beato, mantido por uma tia no culto piegas de Nossa Senhora regateia: “Mas o gênio do escritor sente-se em todo o caso
da Conceição e no sagrado horror das saias, e fazendo às nesse livro, tão falto de unidade lógica, e o sonho da
furtadelas as suas incursões pelo campo do amor barato, e do Paixão, logo que o leitor se esqueça de quem é o
cigarro e da genebra à mesa do botequim. Este homem, personagem que sonha, é de uma beleza verdadeiramente
transportado fantasticamente para Jerusalém do tempo de admirável. Sobretudo apontamos, como um dos trechos
Cristo, vendo e descrevendo o grande drama sagrado, devia mais brilhantes, que resplandecem na nossa literatura, a
dar ao mundo um Evangelho burlesco, ímpio decerto, muito transição da realidade para o sonho. É meia-noite, o
mais escandaloso que as Memórias de Judas, mas que podia protagonista acorda ou julga acordar na sua tenda de
ser, em todo o caso, uma obra de arte notável. Acontece, viajante, e vê à luz vacilante da vela o sábio alemão que o
porém, que o autor parece ter feito à parte o seu romance da acompanha, como que revestido de uma túnica antiga.
Paixão de Cristo, colocando-o depois à pressa nas páginas Montam a cavalo e partem para Jerusalém [...].” E por
do outro. Quem adormece é Teodorico e quem sonha é o fim: “Se um trecho destacado bastasse para darmos a
autor, e com grande surpresa nossa, vemos aquele adorador palma a uma obra qualquer, tê-la-ia decerto, A Relíquia; se
de santinhos e frequentador das ruas suspeitas de Lisboa pudéssemos ver a obra completa do autor por trás do livro
sonhando que vê a Paixão de Cristo em todo o seu grandioso que nos é enviado, não hesitaríamos, decerto, em o colocar
aspecto histórico. Mal se pode imaginar o disparatado efeito no primeiro plano.”
que produz este contraste, e pior é ainda quando o autor se Mariano Pina, director da revista A Ilustração,
lembra, de súbito, que é o seu protagonista que está publicada em Paris, seria o primeiro a reagir à decisão do
sonhando e introduz nas cenas mais belas uma nota que júri deste concurso, num artigo de 5-1-1888, “Um
arrepia com uma desafinação flagrante: – Teodorico a sonhar concurso literário”, com a defesa veemente de Eça. As
que acende um cigarro no meio da agitação que produz em suas razões eram centradas sobre a celebridade literária
Jerusalém a notícia da morte de Cristo! Mas a que propósito do escritor e sobre a incompetência do júri, ao escrever:
vem este sonho fantástico? Serve para transfigurar “No primeiro concurso literário que se instituía no nosso
Teodorico? Voltando à realidade com as impressões do país, a que concorria um escritor ilustre que escreveu As
sonho, aquele burguês devasso e tolo sente a sua alma Farpas com Ramalho Ortigão, O Crime do Padre Amaro,
inundada de uma luz nova? Sai daquela crisálida de chinelos O Primo Basílio, O Mandarim, A Relíquia... não dar o
e de barrete de algodão uma borboleta mística? Nada disso. prémio a esse escritor, que é uma glória essencialmente
Teodorico volta a ser o que fora, a sua transformação no final moderna – é um erro, é uma injustiça..., é quase um insulto
do romance em nada modifica a sua fisionomia burlesca. a todos quantos, livremente, sem preocupações de espécie
Singular equívoco foi este, e que nos faz supor que o sr. E. alguma, prezam as letras portuguesas!” Mariano Pina
Q. não quis sacrificar trabalho já feito com intuitos diversos refere depois que num júri literário de 9 membros havia
para refazer a grande cena histórica já por ele traçada, apenas 3 escritores – Pinheiro Chagas, Serpa Pimentel e o
colocando-a no foco da luneta de Teodorico. Pois esse ponto visconde de Banalcanfor, e que os sócios correspondentes
de vista funambulesco e pouco simpático, porque é sempre também tiveram voto, sendo que entre estes temos –
repugnante ver sacrificadas ao aviltante motejo offenba- “estimáveis pessoas que talvez não possam resistir a um
chiano as grandes cenas consoladoras da história da benévolo exame de instrução primária”.
humanidade, era em todo o caso o ponto de vista carac- E terminará por afirmar que, voto e concurso literário
terístico do romance.” são “tudo amáveis comédias... tudo adoráveis comédias...”.
Pinheiro Chagas aponta depois a grande “defor- A 25 de Janeiro de 1888, Eça dirige a Mariano Pina
midade” da obra: “Que significa o sacrilégio à uma carta para o Repórter, cuja publicação será retardada,
Pigault-Lebrun da camisa confundida com a coroa de visto que Chagas acabara de ser vítima de um atentado
espinhos, se a alma de Teodorico se mostra apta a com- que o pusera às portas da morte. Esta carta seria transcrita
preender o que há de grandioso e de sublime no drama de n’A Ilustração de 20-5-1888, e foi recolhida nas Notas
Cristo? Eis o defeito irremediável do livro, defeito que o Contemporâneas sob o título “A Academia e a literatura”.
coloca longe das obras-primas com que o sr. E. Q. tem Nesse artigo Eça faz humor com os argumentos do
enriquecido a literatura portuguesa.” relatório de Pinheiro Chagas lamentando-se por não “ter
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mostrado Jesus de chapéu de coco e lunetas defumadas, do Evangelho de S. João, com cenários e fatos de teatro;
Pilatos deixando cair o pingo de rapé sobre o Diário de e falta-lhe ser atravessado por um sopro naturalista de
Notícias e ao lado de Oseias, vogal do Senedrim, numa ironia forte, que daria unidade a todo o livro. D. Raposo,
fardeta de polícia civil, com um número na gola, em lugar de se deixar assombrar pela solenidade histórica,
escabichando um dente furado”. Quanto à organização do devia rir-se dos Judeus e troçar dos Rabis. O único valor
concurso, dizia, ela devia ter sido “obra de um dentista”. do livreco está no realismo fantasista da Farsa.” (Carta de
Pinheiro Chagas não desarma, responde no Repórter de 2-7-1887.) Esta autocrítica, formulada quase meio ano
8-6-1888, artigo este que A Ilustração transcreve a 5-7-1888. antes do relatório de Pinheiro Chagas, antecipa estranha-
Chagas considera que Eça “manifesta não uma opinião e mente a objecção principal deste polígrafo a A Relíquia.
uma convicção, mas um ressentimento e um despeito”, Mas, admitindo que Eça estava a ser sincero na sua
escrevendo, com condescendência: “E. Q. enriqueceu a confissão a Luís de Magalhães, não podia ele próprio
literatura portuguesa com duas ou três obras-primas. Não enganar-se sobre o valor da sua obra?
entra nesse número A Relíquia.” E retomará a sua acusação Luís de Magalhães, monárquico, católico, conservador,
do relatório: “a de ser um livro sem unidade lógica, um na Revista Ilustrada de 30-9-1890, não poupa elogios ao
agregado extravagante de duas individualidades incom- que apelida “essas maravilhas que se chamam O Mandarim
patíveis, a do Teodorico Palerma que atravessa a maior parte e A Relíquia.” E dirá ainda: “cujo carácter íntimo está
do romance com grande fadiga para o leitor que tem de o justamente no facto, à primeira vista paradoxal, de ser,
acompanhar por longos capítulos bem pouco dignos do como muito subtilmente a definiu Oliveira Martins, uma
autor d’O Crime do Padre Amaro e d’O Primo Basílio, e a fantasia realista. A realidade transfigurada pela incoerência
do Teodorico, em cuja imaginação maravilhosamente do sonho – eis o que constitui o fundo, a urdidura dessas
fecundada pelo sol da Palestina se elabora esse famoso obras. Há nisto uma faculdade de visão especial, talvez uma
sonho [...]”. deformação patológica da retina artística, que descobre nas
Eça irá replicar no Repórter de 5-7-1888, “Ainda coisas e nos seres aspectos imprevistos, inconsequentes e
sobre a Academia”, texto recolhido postumamente por seu bizarros. Essa imaginação é qualquer coisa como um delírio
filho, em Cartas Inéditas de Fradique Mendes e Mais lúcido, onde, através das curvas, das volutas caprichosas e
Páginas Esquecidas. Nesta réplica de típica e saborosa febricitantes do desvairamento imaginativo, a razão
prosa, Eça não hesita em afirmar: “O concurso foi uma conserva a sua serenidade, a sua força pensante, a sua acção
burla, uma ficção.” Insistia em que não se podiam crítica” (in E. Q. Visto pelos Seus Contemporâneos, p. 227).
comparar géneros tão diversos como “poemas, romances, Um mês depois da publicação d’A Relíquia, Mariano
dramas, livros de viagens, odes e almanaques”. A Pina, ainda, fazia no número de 20-7-1887 de A Ilustração
discussão incidirá também sobre se Chagas disse ou não a recensão desta obra, cujos pontos de vista talvez
que Teodorico devia dar ao mundo um Evangelho tivessem influenciado Pinheiro Chagas no parecer de 11-
burlesco, pondo assim de acordo uma personalidade de 12-1877, que sobre ela elaborou, quando do concurso da
sujeito mais ou menos reles com o próprio pensamento, o Academia das Ciências. Mariano Pina começa por
que daria lógica à sua actuação. Eça reclamará ainda de lamentar o silêncio existente à volta do que ele chamou
Pinheiro Chagas “razões nítidas, positivas, especiais, as “400 páginas desse volume meio incoerente mas
técnicas, d’homem do ofício”. E acrescenta: “Quero sempre superior”, afirmando “que é um crime não discutir
literatura e crítica – e não ênfase e rabulice. Quero a esse livro, que é um crime este silêncio-escrito que eu vejo
demolição, argumento por argumento, da minha tese.” fazer-se em torno da nova obra de um dos espíritos mais
Torna-se curioso observar que Eça, como sempre vivos e mais eminentes do nosso tempo”. Ataca depois
crítico severo das suas próprias obras, um ano antes desta frontalmente o que considera o seu “defeito artístico” – o
sua réplica confessava a Luís de Magalhães: “Eu por mim, de Eça apresentar “uma personagem bastante medíocre e
salvo o respeito que lhe é devido, não admiro pessoal- bastante ignorante, recebendo durante a sua viagem de
mente A Relíquia. A estrutura e composição do livreco são Lisboa a Jerusalém, impressões e sensações como só as
muito defeituosas. Aquele mundo antigo está ali como um recebe um espírito superior, e vendo aspectos e indivíduos
trambolho, e só é antigo por fora, nas exterioridades, nas através de um prisma como só pode possuir e manobrar
vestes e nos edifícios. É no fundo uma paráfrase tímida um artista maravilhosamente dotado como é o Snr E. Q.”.
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Mariano Pina não pode compreender que aquela Outras recensões mereceu ainda esta obra. Moniz
personagem a quem chama “abominável, execrável, pela Barreto, o mais encartado dos críticos do seu tempo,
sua banalidade, pela sua pelintrice e pela sua hipocrisia” escreveu n’O Repórter de 25-7-1888: “A Relíquia contém
e, mais adiante – “bacharel vadio e hipócrita” e “detestá- porventura as páginas mais belas que saíram da pena do
vel e imundo cretino”, possa escrever este trecho sobre a Sr. E. Q. e que durarão tanto como a língua portuguesa.
Grécia: “Desde a aula de Retórica ela aparecera-me Mas a falta de proporção na composição do livro, a
sempre como um bosque sacro de loureiros onde alvejam ausência de unidade dramática e de interesse narrativo, e
frontões de templos, e, nos lugares de sombra em que a demasiada transparência do personagem principal
arrulham as pombas, Vénus de repente surge, cor de luz e reduzido ao papel de porta-voz, prejudicam este livro
cor-de-rosa, oferecendo a todo o lábio, ou bestial ou extraordinário.” (In E. Q. Visto pelos seus Contem-
divino, o mimo dos seus seios imortais”, e vai depois porâneos, p. 157.)
escrever, “o bruto”: “E gritei, com um murro sobre o Também Camilo reprova esta obra, anotando no
Atlas, que fez estremecer a castíssima Senhora do Patro- exemplar da sua biblioteca, em Seide: “Este livro tem duas
cínio e todas as estrelas da sua coroa: – Caramba, vou partes: 1ª, porcaria, 2ª maçada. É uma pochade à P. de
fartar o bandulho!” Kock; chalaças hiperbolicamente inverosímeis – uma
E ali estava um “defeito”, segundo este crítico, que o vontade despótica de fazer rir à custa de tudo; mas nem é
autor podia modificar numa 2.ª edição, era “uma questão isso que o torna um mau livro: é a falta absoluta de bom
senso e de bom gosto. Pode considerar-se uma decadência
de simples retouche”. E, no entanto, ele era levado a
por ter sido escrito depois d’Os Maias, que deve ser
confessar: “Mas A Relíquia não passa de uma fantasia fora
melhor.” No anterrosto do seu exemplar Camilo
de todas as leis que a estética pode impor ao romance.”
escreveria ainda: “Tirante as descrições topográficas de
Mariano Pina acaba por exaltar a visão de Teodorico
alguns pontos da Palestina – decerto exageradas pelas
Raposo, no capítulo III da obra, como “um dos mais belos
tintas fictícias – este livro – como romance, é uma
esforços de inteligência e de erudição que se conhece na
pochade, em que todos os caracteres são caricaturas, e
língua portuguesa, não só pela riqueza, pela propriedade,
armadilhas às gargalhadas de baixa comédia. Os plágios
pelo brilho do estilo, mas também pelo escrúpulo histórico
são frequentes.” No capítulo II, a propósito da carta do
e pela impressão de verdade flagrante que se evola de cada
Raposão à titi anota: “Quando forçamos a graça, tocamos
uma dessas páginas.” E mais, ainda –, é “uma obra-prima
a sensaboria.” No cap. V, à margem de uma fala do Dr.
da arte escrita, uma joia a colocar ao lado das mais caras e
Margaride para o Raposão, em que aquele observa – “e
das mais vivas da prosa portuguesa de todos os tempos...”
fica-lhe bem ter levantado assim as coisas portuguesas!”
(in, E. Q. Pelos Seus Contemporâneos, pp. 165, 177). Camilo escreve: “Note-se que todos os homens graves
Eça agradece de Bristol esta crítica de Mariano Pina, deste romancista são Conselheiros Acácios, nunca varia a
sobretudo para se rejubilar com o ataque deste jornalista caricatura.”
“ao focinho sorumbático da imprensa” que, ironicamente, Como resposta ao importanto prefácio que Eça
acaba por considerar injusto, pois que “a Imprensa em escreveu para o livro de contos Azulejos, do conde de
Portugal, tal como está organizada, tem tanto que ver com Arnoso, Camilo, no Óbulo às crianças (1887), voltaria a
a literatura como as figuras do Arco da Rua Augusta têm referir-se à Relíquia, agora publicamente: “A Relíquia,
que ver com a escultura” (carta de 28-8-1887). esse é uma variegada urdidura de fios do estilo rendilhado
Maria Amália Vaz de Carvalho, no “Relatório de de Edgard Quinet, cartonado em pedaços do velho cenário
Pinheiro Chagas” (in, Crónicas de Valentin, 1890) escreve: burlesco de Paulo de Kock e Crébillon – figurações e
“Acaba de fazer-se uma grave e crudelíssima injustiça” a E. tramoias de peça mágica. A alma esplêndida do livro,
Q., embora acrescente: “cuja Relíquia apesar de algumas metida em corpo assaz deformado de gibosidades, é o
das suas páginas deslumbradoras em que a cor do Oriente sonho da Paixão de Jesus de Nazaré, um 5.º Evangelho,
ofusca a vista e estonteia a imaginação, é o livro menos sonhado pelo pulha Dom Raposo, desbragado garoto.
próprio que existe para ser premiado e aplaudido por uma “Em que miolos tão reles, hipnotizados em todos os
Academia, quer dizer, por um representante das puras e alcouces daquém e dalém mar, o refulgente frasista su-
genuínas tradições clássicas.” geriu um sonho de transcendente ascese com 150 páginas!
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Aquele bigorrilhas, que nunca teve palavra sincera nem “Mas em parte nenhuma o sentimento católico se
pensamento limpo, Dom Raposo, que adormecia ébrio do apresenta mais forte do que n’A Relíquia. O seu violento
seu alcoolismo de asneiras e aspirações canalhas, fazia ódio pela grosseira idolatria, pelo fetichismo ininteligente,
aqueles sonambulismos messiânicos de 150 páginas em 8.º! pela ingénua impiedade da devoção interesseira são outros
Que desgraçada ideia romancear uma novela da Paixão de tantos indícios significativos. Um indiferente não tem destas
Cristo por conta do plangente canto dos fadinhos da cóleras. Nem, sobretudo, destes acentos de amor. Porque
Adélia! A filosofia racionalista da Península dá isto e mais através dos lábios dos personagens imaginários soa forte-
nada para os modernos estudos da Cristologia. Foi tudo mente a voz dos sentimentos pessoais. Jamais a adoração do
isso um histerismo da imaginação esquipática, uma Crucificado encontrou iguais expressões de piedade
nevrose do talento, não lhes parece?” apaixonada!” (Moniz Barreto, Estudos Dispersos, p. 44.)
Mais benevolente e lúcido, Oliveira Martins regista: Curiosamente, no Jornal dos Novos, do Porto, a 1-7-
“O génio de E. Q., um Goya literário, é profundamente 1887, cerca de um mês depois da publicação d’A Relíquia,
peninsular. Junte-se Heine a Quevedo, e tem-se a fisionomia surge Abel Magro a salientar a independência criativa de
literária de E. Q., educada porém exteriormente pelos Eça, ao escrever “Natureza prodigiosamente dotada, o snr.
romancistas modernos da França: Balzac, o mestre, Flaubert, E. Q. é o mais eloquente exemplo dum organismo
Zola. Daí veio a confusão dos críticos, justificada pela ilusão impressionável ao infinito, ferindo-se dos mais fugitivos
do próprio escritor, que procurava e não achava o seu aspectos das coisas, com as faculdades de assimilação, as
caminho no género do romance moderno, criado por mais poderosas e mantendo-se, por uma alta disciplina
Diderot. Fazia superiormente o realismo, como o prova n’O crítica, num juízo nítido e imperturbado que faz com que
Primo Basílio; mas nesse próprio livro, e muito mais ainda ele, propriamente, não seja escritor de escola alguma, mas
n’O Crime do Padre Amaro, os que sabem ver encontravam único, profundamente pessoal.” Abel Magro, nome este
échapées magníficas em que se revelava o antigo autor das sobre o qual não possuímos quaisquer referências, além
fantasmagorias da Gazeta de Portugal, primeiras revelações de considerar A Relíquia “uma obra singular, sem equiva-
do seu talento. Depois O Mandarim, e sobretudo agora A lente em outras literaturas”, observaria lucidamente o que
Relíquia, são a confirmação disto que dizemos. muitos críticos do seu tempo não descortinaram – o facto
A Relíquia é o pandemónio mais incongruente, mais de o cânone fantástico da obra a dispensar do entrecho
extravagante, mais inconcebível que se pode imaginar. lógico que tais críticos lhe exigiam, ou seja, o acordo entre
Desde a farsa até à epopeia; desde a gargalhada, pelo a relice da personagem do narrador, o Raposão, e o que
sorriso, até ao patético mais puro; desde a aventura ele nos relata. E é nesta conformidade que este articulista
picaresca, até aos episódios sublimes; desde a anedota do escreve: “O corte imprevisto deste livro espantou. A
bacharel em viagem, até ao quadro nobremente sereno da crítica chamou-lhe doentio – voltairiano, jacobino. O
vida antiga; desde a troça desenfreada, até à história mesmo género de novela fantástica absolvia-o do que nele
severa; desde a pochade grotesca, até à paisagem larga e houvesse de paradoxal.” O final do artigo é uma
monumental; desde a blasfémia, até ao hino – há de tudo recriminação a Camilo por ele ter trazido para a crítica
neste livro, que é a obra acabada de um fantasista de raça. d’A Relíquia os seus preconceitos religiosos e por se
“Literariamente, A Relíquia é uma obra-prima.” (11-4- limitar a chamar “parcamente” a Eça “refulgente frasista”.
1887, A Província, vol. IV, p. 86.) Em nota de pé de página Abel Magro dá-nos ainda
Moniz Barreto, num estudo póstumo publicado em uma informação sobre a recepção d’A Relíquia que
1897 na Revista Brasileira, intitulado “O Sr. E. Q.”, interessa transcrever: “Em geral os escritores que escre-
começando por referir o final da “Carta a Carlos Mayer”, veram do livro são pouco amenos. J. A. Vieira chama-lhe
de Eça, em que este exalta “a ternura luminosa” que vinha borracheira fantástico-literária; ao sr. E. Q. – o Withoine
de Jesus, e o texto sobre “A Morte de Jesus”, publicado da literatura, Crítica à grossa boutade!”
também nas Prosas Bárbaras, escreve: “É preciso ler esse Também Guiomar Torresão (1844-1898) nos deu nas
escrito para medir a intensidade do amor que lhe ficou na páginas d’A Ilustração Portuguesa, de 27-7-1887, as suas
alma por aquele que desde a infância se acostumara a impressões sobre esta obra, que a deixou perplexa,
chamar o seu Redentor e o seu Cristo. Com que ternura ele levando-a a confessar-se incapaz de penetrar o seu sentido
o descreve e o acompanha só se imagina lendo-o. profundo. “Acabo de ler este livro estranho e incoerente,
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brilhando a espaços de uns esmaltes lucilantes, pintado, não obras mais originais de E. Q. A sua estrutura narrativa foi
raro, com uma maravilhosa ciência da cor, e pergunto a conotada com o romance picaresco e cervantesco
mim mesma que espécie de corolário hei-de deduzir da (Machado da Rosa e Guerra da Cal) e as suas análises não
confusa e quase dolorosa impressão que ele deixou no meu esquecem, actualmente, que ela é essencialmente uma
espírito.” Eis como abre a sua notícia crítica esta autora que, farsa e que, com tal, terá de ser analisada, se queremos
não reconhecendo n’A Relíquia o cânone naturalista-realista evitar os enormes equívocos de muitas das críticas que
a que O Crime do Padre Amaro e O Primo Basílio a tinham acabamos de ler.
habituado, pretende que ela é uma “obra falsa e ilógica”, Emilia Pardo Bazán, a romancista galega, um ano
percebendo apenas que terá de a situar na “escola român- após a sua publicação, considerou-a uma das obras mais
tica” – “no seu período menos coerente, na sua mais “singulares que a literatura moderna tem produzido” e,
inverosímil e desordenada expressão”. entre as obras de Eça, “a mais estranha e a mais sua”.
Para terminar a resenha das recensões sobre A
Relíquia, diremos que ela é considerada hoje uma das (MATOS, 2000, p. 538-542.)

Referências
BERRINI, Beatriz. A Relíquia: uma nova leitura. São Paulo: EDUC-FAPESP, 2009.
_____. Portugal de Eça de Queiroz. Dissertação de Doutoramento. Universidade de São Paulo, 1982.
DA CAL, Ernesto Guerra. A Relíquia: romance picaresco e cervantesco. Lisboa: Editorial Grémio Literário, 1970.
FERREIRA, Ana Letícia Pereira Marques. A Relíquia: romance neopicaresco vitoriano. Dissertação de Mestrado.
Universidade do Estado do Rio de Janeiro, 2005. Disponível em: <http://www.ibamendes.com/2011/09/reliquia-romance-
neopicaresco-no-seculo.html>. Acesso em: 4 jul. 2018.
GONZÁLEZ, Mário M. A saga do anti-herói. São Paulo: Nova Alexandria, 1994.
_____. Introdução ao Lazarillo de Tormes. São Paulo: Página Aberta, 1992.
MATOS, A. Campos (Org. e Coord.). Dicionário de Eça de Queirós. 2. ed. Lisboa: Caminho, 1988.
_____. Suplemento ao Dicionário de Eça de Queirós. Lisboa: Caminho, 2000.
QUEIRÓS, Eça. A Relíquia. 3. ed. Cotia/SP: Ateliê Editorial, 2017.
_____. Correspondência. In: Obras de Eça de Queiroz. Porto: Lello & Irmão Editores, 1979, v. III.
_____. Notas contemporâneas. Porto: Lello & Irmão Editores [s/d].

Exercícios
1. De acordo com Beatriz Berrini (1982, p. 136),
A concepção da mulher, na Relíquia, portanto, é extremamente desfavorável, como também no Mandarim. São
objetos de prazer que se compram com dinheiro, sem qualquer outro atrativo. Por serem apreciadas pelo Raposão,
valorizadas pelos seus olhos de narrador, desvalorizam-se perante o leitor.
A partir disso, indique duas personagens femininas que comprovam tal crítica.

2. Segundo a crítica sobre o romance de Eça de Queirós,


O narrador “ingênuo” revela ao leitor características que o tornam desprezível a seus olhos, mas que desvelam, pela
força caricatural e simbólica do texto, a realidade. No caso da Relíquia, através do Raposo, tem-se a crítica da
burguesia urbana, beata e interesseira, ávida de dinheiro e dos prazeres que com ele se compram (BERRINI, 1982,
p. 136).
Explique como se dá a crítica à burguesia e à religiosidade no romance A Relíquia.

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3. Para Campos Matos (1988), a figura da beata


é produto burguês típico de um ambiente clerical retrógrado, alimentado por sacerdotes cujo comportamento é a
cabal antítese do entendimento da religião como pura prática de espiritualidade e consciência moral. Consubstancia
este tipo de beata, n’ Relíquia, um retrato a duas dimensões fortemente carregado de tons de humor e farsa,
desenhado com a fundamental intenção crítica de demolir as deformas e ignaras praticantes de grosseiros rituais,
nos antípodas da verdadeira religião.
A partir dessas informações, identifique a beata e os sacerdotes do romance A Relíquia, explicando como se dá no
livro a farsa de intenção crítica do autor Eça de Queirós.

4. Leia o trecho de A Relíquia a seguir para responder à questão.

Apenas Topsius voltou da sacra fonte de Eliseu — eu ofereci, para celebrar o encontro providencial da grande
relíquia, uma das garrafas de Champagne, que Potte trazia nos alforjes, encarapuçadas de ouro. Topsius bebeu
“à ciência!” Eu bebi “à religião!” E largamente a espuma de Moet et Chandon regou a terra de Canaã.
À noite, para maior festividade, acendemos uma fogueira; e as mulheres árabes de Jericó vieram dançar diante das
nossas tendas. Recolhemos tarde, quando por sobre Moab, para os lados de Makeros, a lua aparecia, fina e recurva,
como esse alfanje de ouro que decepou a cabeça ardente de Iokanan.
O embrulho da coroa de espinhos estava à beira do meu catre. O lume apagara-se; o nosso acampamento dormia
no infinito silêncio do Vale da Escritura... Tranquilo, regalado, adormeci também.
Havia certamente duas horas que assim dormia, denso e estirado no catre, quando me pareceu que uma claridade
trêmula, como a de uma tocha fumegante, penetrava na tenda – e através dela uma voz me chamava, lamentosa e
dolente:
— Teodorico, Teodorico, ergue-te, e parte para Jerusalém!

No fragmento extraído do final do segundo capítulo e início do terceiro do romance A Relíquia, Raposão, após ter
bebido champanhe em nome da religião, adormece e ouve uma voz que o chama para irem a Jerusalém. A partir
desse momento, Teodorico volta no tempo e testemunha o julgamento, condenação e crucificação de Jesus Cristo,
numa espécie de delírio ou sonho, talvez resultado do entorpecimento causado pela bebida alcoólica.
Assinale a alternativa que apresenta um romance em que há uma situação semelhante a essa, isto é, um delírio
provocado pelos efeitos de um líquido mágico, identificando a personagem que faz uso dele.
a) Memórias Póstumas de Brás Cubas – Virgília.
b) Vidas Secas – Sinha Vitória.
c) O Cortiço – João Romão.
d) Iracema – Martim.
e) Mayombe - Sem Medo.

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GABARITO
PORTUGUÊS
AS OBRAS DA FUVEST

A RELÍQUIA
1) Miss Mary e Adélia, duas personagens femininas de A Relíquia, são dependentes do dinheiro proveniente de
envolvimentos sexuais e ambas amantes de Teodorico Raposo, narrador do romance.

2) Eça de Queirós é um dos mais intensos autores críticos da literatura portuguesa da segunda metade do século
XIX. Em A Relíquia, explora o comportamento burguês e o religioso associado ao interesse econômico ao
recriar, na ficção, a elite lisboeta apegada aos valores materiais, mesmo que para isso seja necessário apresentar
um comportamento social fraudulento. É o caso de Teodorico, que se propagandeia como um cristão casto e
seguidor das normas sagradas da Igreja Católica, bem como dos padres do romance, como se exemplifica nas
maneiras como os religiosos se envolvem com Dona Patrocínio, bajulando-a e enaltecendo-a, a fim de
conseguirem regalias estomacais, ao frequentarem a casa dela, e desejosos de que Titi os beneficiasse em
testamento, deixando para eles sua fortuna.

3) D. Patrocínio das Neves é a beata, amarga e infeliz, que busca no fanático exercício católico seu lugar no céu
e na sociedade de Lisboa, mas é enganada por quase todos que a rodeiam, uma vez que ela só interessa
enquanto fonte de renda, patrocinando as necessidades de seus amigos e a viagem de seu sobrinho à Terra
Santa, onde ele, ao invés de fartar o espírito com orações, sacia a sede de sexo que tinha.

4) No romance Iracema, a vestal de Tupã oferece a Martim o licor da Jurema, a fim de que ele sonhe com sua terra
e sua noiva, mas o estrangeiro delira, vendo-se com Iracema em momentos de intimidade.

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