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UNIVERSIDADE PEDAGOGICA DE MOCAMBIQUE

Aquisição de Língua Segunda (ALS)

Sérgio Alfredo Macore

Nampula, Setembro 2016

Autor: Sergio Alfredo Macore Sergio.macore@gmail.com / +258846458829 Pemba - Moz


UNIVERSIDADE PEDAGOGICA DE MOÇAMBIQUE

Aquisição de Língua Segunda (ALS)

Nome do Estudante: Sérgio Alfedo Macore

Docente: ______________

Nampula, Setembro 2016

Autor: Sergio Alfredo Macore Sergio.macore@gmail.com / +258846458829 Pemba - Moz


ÍNDICE

1.INTRODUÇÃO ........................................................................................................................... 3

2.Fundamentação teórica ................................................................................................................ 4

2.1.A aquisição de L2: alguns conceitos ..................................................................................... 5

2.2.O Construtivismo de Piaget................................................................................................... 6

2.3.Factores Exógenos no Aprendizado de Uma Segunda Língua por Crianças ........................ 8

2.4.Abrangência da área de conhecimento “aquisição de segunda língua” ................................ 9

2.5.Razões no estudo da aquisição de segunda língua ................................................................ 9

2.6.Breve história dos estudos sobre aquisição de segunda língua ........................................... 10

2.7.A Teoria Associativa-Cognitiva CREED............................................................................ 11

2.8.A natureza do conhecimento sobre a Língua dois (L2) ...................................................... 12

2.9.A natureza do desenvolvimento da interlíngua ................................................................... 13

2.10.O papel das variáveis afectivas na aquisição .................................................................... 13

Conclusão...................................................................................................................................... 15

Bibliografia ................................................................................................................................... 16

Autor: Sergio Alfredo Macore Sergio.macore@gmail.com / +258846458829 Pemba - Moz


1.INTRODUÇÃO

O presente trabalho de pesquisa tem como „’A Aquisição de Língua Segunda (ALS). A
investigação mais recente sobre o estudo de uma segunda língua confirma a hipótese de que os
processos de aquisição (formulação inconsciente de princípios gramaticais) e de aprendizagem (o
estudo consciente, de base cognitiva, da gramática) representam dois sistemas de interiorização
do conhecimento da língua.

Por outro lado, e de acordo com um corpo de pesquisa cada vez mais volumoso, o grau elevado
de insucesso no desenvolvimento da capacidade comunicativa na L2 deve-se fundamentalmente
ao facto de as metodologias tradicionais terem considerado o estudo da língua como actividade
intelectual, secundarizando (ou não considerando mesmo), entre outras, as variáveis afectivas.

Dai que, estamos perante uma viragem com implicações metodológicas profundas: a focalização
desloca-se da formalização para os sentidos das comunicações genuínas, para as mensagens; a
compreensão precede a produção; durante as actividades de aquisição os professores não
fornecem feedback directo para os erros, de modo a não inibir a participação dos alunos em
interacções comunicativas; nas primeiras fases de aquisição o vocabulário é mais importante para
a compreensão do que as estruturas de superfície da sintaxe; as regras de gramática têm um lugar
importante apenas na fase de edição. Para além de muitas outras.

A linguagem é o meio de comunicação utilizado pelo homem para interagir com o mundo em
que vive, com o objectivo de sobreviver nesse mundo cercado de simbolismos e, mais
especificamente, a língua, que é a sistematização de linguagem em códigos reconhecidos em
uma comunidade específica, em um tempo e modo específicos, essencial para que o ser humano
possa relacionar-se de modo organizado com as pessoas que daquela comunidade fazem parte.

O objectivo desses estudos é o desenvolvimento de novas práticas pedagógicas que sejam


capazes de tornar esse aprendizado mais interessante e produtivo. O presente trabalho tem como
objectivo demonstrar como o processo de aquisição de um novo idioma ocorre tanto em crianças
quanto em adultos, levando em consideração tanto os aspectos endógenos (internos) quanto os
exógenos (externos).

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2.Fundamentação teórica

Os estudos sobre aprendizado e aquisição de línguas oferecem várias linhas e abordagens


teóricas que podem ser utilizadas para orientar a investigação dos fenómenos do ensino-
aprendizagem. Entre essas linhas, podemos citar alguns autores que desempenharam papéis
importantes como o Construtivismo de Piaget, o Sócioconstrutivismo de Vygotsky, a
Psicogenética Walloniana, dentre outros.

Esses autores buscam em seus trabalhos analisar a forma como o aprendizado e a aquisição
acontecem, sistematizando esses processos em estágios, que vão desde o nascimento até a fase
adulta. De acordo com Piaget apud Castro (2006) e Xavier (201_), o processo de aprendizado
passa pelo que ele chama de degraus de embriologia mental, que vão desde a inteligência
sensório-motora à inteligência formal.

Outro autor que separa as fases de aprendizagem em estágios é Vygotsky, demonstrando que os
processos cognitivos superiores se originam na história, cultura e socialização do indivíduo,
passando pela base orgânica, no caso cerebral, ligada a processos cognitivos elementares básicos
até atingir processos cognitivos superiores quando há a maturação tanto orgânica quanto social
do indivíduo (Vygotsky, 1931, 1995).

Entre outros pesquisadores que classificaram os estágios de aprendizagem, é possível citar


também aquele que é considerado o pioneiro da psicomotricidade, Henry Wallon, cujas
observações foram fundamentais para entender o desenvolvimento neurológico do recém-
nascido bem como a evolução neuropsicomotora da criança (Falcão; Barreto, 2009; Borges;
Bulmer, 2010; Xavier, 201_). Wallon classificou o desenvolvimento da criança em cinco
estágios, que vão desde o estágio impulsivo emocional até o estágio personalístico, caracterizado
pela inteligência concreta, com a possibilidade de planeamento e controle na execução da acção.

Todos os colaboradores supracitados têm em comum o fato de terem focado suas pesquisas nos
processos de aprendizado que ocorrem por meio de estágios de desenvolvimento e passam por
uma rede complexa de processos cognitivos, motores, sóciointerativos, construtivistas e
psicomotores, passando ainda pelo processo de aquisição de linguagem e formação de
personalidade.

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2.1.A aquisição de L2: alguns conceitos

De forma a clarificar desde já o uso que ao longo deste texto se fará de alguns termos,
começaremos por identificar a Linguística como a perspectiva de estudo na óptica da qual
abordaremos a aquisição de L2.

De uma forma simples, podemos definir Linguística como o estudo da linguagem humana. Por
seu turno, enquanto faculdade cerebral que nos permite a aquisição de uma língua particular, a
linguagem pode ser encarada como “um sistema de conhecimentos geneticamente inscritos na
mente humana, que a criança traz a priori para o processo de aquisição de uma língua” 2, os
quais serão moldados em função do input linguístico a que a mesma é submetida. O termo
Língua corresponde assim à concretização desta faculdade da linguagem, traduzida na
apropriação de um sistema linguístico alcançada numa comunidade de falantes, como produto da
evolução histórica e em cuja organização podemos identificar domínios articulados entre si.

Qualquer falante adquire, ao longo da sua vida, pelo menos uma língua (a sua Língua Materna ou
L1). Entendemos por Língua Materna a primeira língua aprendida por uma pessoa na infância,
não correspondendo esta necessariamente à língua oficial do país onde vive, que podemos
designar de “língua dominante”.

A maioria das pessoas adquire ainda uma outra língua, sendo que a sua aquisição pode dar-se em
simultâneo com a L1 (no caso do bilinguismo4) ou numa fase posterior. As crianças bilingues
aprendem o segundo idioma como Segunda Língua (L2) e não como Língua Estrangeira. A
diferença essencial entre os dois conceitos reside no grau de exposição às duas línguas (uma
criança bilingue é exposta, desde os primeiros meses de vida e ao longo de todo ou grande parte
do seu período de aquisição e desenvolvimento linguístico, a duas línguas, que adquire como
línguas maternas), ao passo que uma Língua Estrangeira é aprendida sob condições formais,
geralmente em contexto escolar.

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2.2.O Construtivismo de Piaget

O suíço Jean Piaget graduou-se primeiramente em biologia, tornando-se, posteriormente, filósofo


e psicólogo. O autor é considerado até hoje um dos autores que mais estudou a inteligência
humana e foi um dos pioneiros nos estudos do conceito de percepção e motricidade. Para ele, a
inteligência humana depende do meio, adaptando-se constantemente a ele (FERRACOLI, 1999).

Piaget sistematiza os processos de desenvolvimento em organização, adaptação, assimilação,


acomodação e equilibração. Entenda-se organização como parte da interacção com o meio
através de movimentos coordenados nos quais há interacção com as respostas. A adaptação
ocorre por meio da assimilação e acomodação de estímulos: sempre há mudanças nas estruturas
para que essas se adaptem ao meio. A assimilação cumpre a função de associar conhecimentos
novos aos já existentes; já a acomodação ajusta o comportamento aos objectos. A equilibração é
a maneira pela qual se busca conformidade entre assimilação e acomodação. (CASTRO, 2006).

Esses estágios de desenvolvimento são dinâmicos e complementares e, para que ocorram, a


criança necessita interagir com o mundo exterior para que assim possa assimilá-lo e, por
intermédio de suas percepções e experiências, transformar-se provocando a acomodação entre
percepção e ambiente. Portanto, na assimilação, a criança é o sujeito activo em relação ao
objecto, enquanto na acomodação o objecto age sobre a criança. Para que tais processos
aconteçam de maneira adequada, é necessário que haja a equilibração entre a assimilação e a
acomodação. (Fonseca; Mendes, 1987).

Considerando o fato de que nem sempre a assimilação acontece, há, consequentemente, um


desequilíbrio que pode voltar a restabelecer-se por meio da adaptação. Quando há adaptação, há
também a organização, que acontece de forma diferente ou mais elaborada. (Giusta, 2013).

Por meio da organização, a criança consegue interagir com o ambiente, variando suas acções
entre assimilação (percepção) e movimentos (acomodação) realizando as adaptações necessárias
para transformar inteligência prática (sensório-motora) em inteligência reflexiva (conhecimento).
Quando a acção acontece de modo organizado e é interiorizada, há o desenvolvimento da
inteligência. Para que essa acção seja interiorizada, é necessária a formação de uma imagem, que
só pode ser interiorizada por meio da acção. (Fonseca; Mendes, 1987).

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Factores Endógenos no Aprendizado de uma Segunda Língua por Crianças A análise de factores
endógenos tem por objectivo demonstrar os processos psicológicos e neurológicos que estão
envolvidos durante o aprendizado de um segundo idioma por crianças. Do ponto de vista
psicológico, Vygotsky afirmava que, embora os processos cognitivos superiores sejam produto
da história, cultura e socialização na qual o indivíduo está inserido, há relação directa com as
bases orgânica e cerebral, conhecidas como processos cognitivos elementares ou básicos
(Vygotsky, 1931,1995).

Chomsky, baseando-se em sua teoria inatista, acredita que o ser humano já nasça biologicamente
apto a comunicar-se e que o ambiente tem apenas a função de trazer essa capacidade à tona. Por
esse motivo, ele explica que o que difere as condições de comunicação não é a competência
(inata) e sim a performance, essa influenciada pelo ambiente.

A neurociência também vem contribuindo de maneira significativa ao que diz respeito aos
processos de aprendizagem. O cérebro humano é comandado pelo Sistema Nervoso Central e é
ele quem determina as funções de cada parte do cérebro como, por exemplo, a linguagem, a
visão, a audição etc. A importância dos estudos sobre o SNC ocorre porque, quanto mais
conhecimento das funções neurológicas, cada vez mais medidas eficientes serão tomadas, posto
que o objectivo é entender como acontecem os processos de aprendizado. (Canal, 201).

Pesquisas e estudos neurocientíficos recentes demonstraram que o período da primeira infância,


que vai até os cinco anos de vida, mostrou-se propício ao aprendizado, uma vez que é durante
esse período que o desenvolvimento cerebral ocorre de maneira surpreendentemente acelerada,
em função da vasta gama de conexões neurais que a criança possui e que com o passar do tempo
será reduzida, devido às adaptações e necessidades de utilização de conexões mais imediatas,
que são exigidas pelo ambiente. (Nascimento; Santos, 2013).

Ainda segundo a neurociência, as crianças possuem uma rede neural complexa, com bilhões de
conexões sinápticas que propiciam a elas grande facilidade em relação ao aprendizado. É
importante ressaltar que, embora a criança esteja no ápice de sua produção neural e cognitiva,
faz-se necessária a adopção de programas pedagógicos que estejam de acordo com a capacidade

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de apreensão do novo conhecimento por parte dessa criança, segundo o conceito de Zona de
Desenvolvimento Proximal de Vygotsky (1996).

Hoje ainda há muita resistência da sociedade em aceitar que crianças iniciem seus estudos em
uma segunda língua, visto que acreditam que o aprendizado não acontecerá de modo efectivo.
Esse pensamento está baseado no facto de que a criança ainda está em fase de desenvolvimento e
não haveria maturação suficiente para que ela possa aprender esse idioma. Com base na citação
anterior, do ponto de vista da neurociência, é possível interpretar que o aprendizado não apenas é
possível como pode acontecer ainda de modo mais eficiente do que muitos acreditam.

2.3.Factores Exógenos no Aprendizado de Uma Segunda Língua por Crianças

Serão analisados factores exógenos (externos) que influenciam o aprendizado de uma segunda
língua por crianças. O objectivo é o de compreender como esses factores determinam, por
exemplo, quais práticas pedagógicas devem ser adoptadas para que haja o aprendizado mais
efectivo do segundo idioma.

Piaget e seu construtivismo já ressaltava a importância da interacção para o aprendizado mais


efectivo. Segundo ele, o desenvolvimento ocorria em estágios, que seriam complementares entre
si, pois cada fase significava um processo constante de adaptação, assimilação e equilibração.

Outro autor que defendia a importância da interacção para a construção do aprendizado mais
efetivo era Vygotsky (1998). Esse autor defendia o sociointeracionismo, uma vez que para ele o
homem era um sujeito histórico-social e seu aprendizado dependia de uma série de relações
ligadas à história do homem e sua construção cultural por meio da interacção e da linguagem.

Os autores supracitados acreditavam que, para o aprendizado efectivo, era essencial que
houvesse interacção e, no que diz respeito ao aprendizado de um segundo idioma, a criança
possui a capacidade de adquirir esse idioma por meio da interacção que ocorre no ambiente em
que está inserida. Ademais, segundo Krashen (1982), quanto mais propício for o ambiente para o
aprendizado, haverá mais input compreensível e mais aquisição da segunda língua acontecerá.
Outro factor de importância na teoria de Krashen relaciona-se com o nível de filtro afectivo e sua
influência no processo de aquisição de outro idioma.

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2.4.Abrangência da área de conhecimento “aquisição de segunda língua”

Em uma recente publicação, os experientes pesquisadores Catherine Doughty e Michael Long


(2003, p. 3-4) afirmam que o escopo do campo de conhecimento denominado “aquisição de
segunda língua” é amplo e abarca:

 Conhecimento básico e aplicado sobre a aquisição e perda de segunda, terceira, quarta,


etc., línguas e dialectos tanto por adultos quanto por crianças que se encontram em
ambientes naturais ou institucionais (ou seja, na escola), como indivíduos ou como
grupos em contextos de língua estrangeira, segunda língua, e língua franca;
 Uma variedade de métodos de colecta e análise de dados que incluem a observação nos
contextos de aquisição (naturais ou instrucionais), o uso de designs experimentais com
um alto nível de controlo de variáveis de pesquisa, o desempenho de tarefas em
laboratório, a simulação computacional, o tratamento qualitativo e/ou quantitativo dos
dados;
 Um grupo grande de pesquisadores afiliados a uma variedade de campos de
conhecimento, tais como a linguística, a linguística aplicada, a psicologia cognitiva, a
comunicação, a psicologia educacional, a educação e a antropologia.

2.5.Razões no estudo da aquisição de segunda língua

Como vimos anteriormente, o bilinguismo e multilinguismo parecem ser a regra, mais que a
excepção, no mundo contemporâneo. O número crescente de bilingues e multilingues está, em
grande parte, relacionado às mudanças políticas, económicas e sociais que tomaram lugar na
segunda metade do século XX tais como o surgimento de novos Estados, o fim da Guerra Fria, o
desenvolvimento de tecnologias da informação e comunicação, a ampliação da mobilidade de
populações internacionais e a globalização económica e cultural (Inglis, 1996). Juntos, estes
factores facilitaram o contacto étnico e, com ele, o contacto e diversidade lingüístico-culturais.

No mundo actual é cada vez mais comum que crianças sejam expostas a uma língua em casa e a
outra na escola. Em algumas situações, o uso de uma língua franca é institucionalizado por
governos por não ser possível, na visão desses governos, garantir escolarização nas várias
línguas faladas pela comunidade (por exemplo, em Papua Nova Guiné), de modo que os
membros de diferentes comunidades linguísticas devem aprender a língua oficial. Em outras

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situações, uma língua é suprimida ou estigmatizada como resultado de conflitos políticos ou
étnicos e outra, supostamente superior, é forçada e deve ser utilizada (e, portanto, adquirida)
pelos membros da comunidade invadida. Ainda, todos os dias vemos refugiados sendo recebidos
em outros países em função de catástrofes naturais ou, pior, em função da guerra, da fome e da
falta de empregos. Esses indivíduos são repentinamente desafiados a adquirir uma língua que
lhes permita reconstruir a vida e restabelecer relações sociais.

2.6.Breve história dos estudos sobre aquisição de segunda língua

Embora, como vimos, a aquisição de segunda língua seja parte da nossa história de uso de
línguas, o estudo sistemático do fenómeno é considerado, por muitos pesquisadores da área,
como relativamente recente. Vários autores (por exemplo, Gass & Selinker, 2008; Ellis, 2008)
concordam que o desenvolvimento e expansão do campo “aquisição de segunda língua” como
disciplina intelectual têm como marco inicial a segunda metade da década de 1960.

Entretanto, outros autores (por exemplo, Thomas 1988; Block, 2003) consideram que é difícil
marcar com exactidão o início dos estudos e afirmam que a década de 1960 é eleita como marco
simplesmente porque foi aí que se notou, com mais consistência, o impacto da pesquisa em
aquisição de língua materna sobre a aquisição de segunda língua, tanto no que diz respeito às
questões investigadas quanto aos métodos utilizados. Para esses autores, é mais justo, nesse caso,
localizar o surgimento do campo de estudos “aquisição de segunda língua” nas décadas de 1940
e 1950 em razão da coincidência de três importantes acontecimentos.

O primeiro desses acontecimentos foi um interesse grande e contínuo pelo ensino e


aprendizagem de línguas, sobretudo nos Estados Unidos, durante e após a Segunda Guerra
Mundial (1941-1945, aproximadamente). Esse interesse foi provocado pela necessidade de se
conhecer modos efectivos, por parte dos serviços secretos de inteligência, de desenvolvimento de
habilidades em segunda língua para a comunicação com aliados e para o controle de inimigos.
Desse modo, o governo norte-americano incentivou e financiou a pesquisa de linguistas famosos
da época, entre os quais estavam Leonard Bloomfield e Charles Fries.

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O segundo acontecimento importante foi o desenvolvimento e consolidação da influente escola
linguística estruturalista americana, que utilizava o método descritivo para demonstrar o
funcionamento de uma língua: o linguista primeiro colectava dados linguísticos em contextos
naturais e, através da análise desses dados, descrevia as categorias e estruturas sintácticas da
língua.

Finalmente, o terceiro importante acontecimento da época foi o behaviorismo que, como você já
viu em disciplinas anteriores, se baseava na premissa de que o comportamento humano resulta
do condicionamento. Tendo esse como um dos seus principais conceitos, os behavioristas
rejeitavam noções como “pensamento”, “sentimento”, “intenções”, ou qualquer outra que
indicasse um processo mental. Para eles, o comportamento humano só poderia ser explicado a
partir do que era observável. Behavioristas influentes da época, como John B. Watson,
argumentavam que a psicologia deveria ter aplicações práticas em actividades do nosso dia-a-dia
e podemos ver tal aplicação na obra de Bloomfield, Language, publicada em 1933.

2.7.A Teoria Associativa-Cognitiva CREED

A Teoria Associativa-Cognitiva CREED, proposta por Nick Ellis, é uma teoria bastante recente e
a exposição mais completa sobre seus pressupostos pode ser encontrada na publicação de
VanPatten & Williams (2007), a qual faz uma excelente introdução às teorias de aquisição de L2.
Antes de 2007, Ellis foi apresentando a teoria em diversos artigos e publicações, sempre de
maneira relativamente parcial.

A premissa central desta teoria é a de que a aquisição de L2 é um processo que, embaçado no


conceito de Construção, é Racional, dirigido por Exemplos, é Emergente e Dialéctico. Cada um
desses termos será explicado a seguir.

Para Nick Ellis, os mecanismos de aquisição de L2 são os mesmos que se aplicam à aquisição de
qualquer outra habilidade: para ele, a aquisição é governada por leis gerais de aquisição do
conhecimento. Estas leis gerais são de natureza associativa e cognitiva.

Nesta teoria, as unidades básicas de representação mental da L2 são o que Ellis chama de
construção. Construções são relações de forma e significado em que as propriedades
morfológicas, sintácticas e lexicais das formas estão associadas às funções semânticas,
pragmáticas e discursivas específicas. O conceito de construção utilizado por Ellis é adaptado de

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teorias funcionais de aquisição de línguas e da linguística cognitiva, as quais postulam que
aprendemos línguas (e, portanto, essas construções) através da comunicação.

Ellis afirma, em sua teoria, que nossa competência linguística na L2 resulta da combinação de
dois factores: (1) a memória dos enunciados ao qual somos expostos durante uma interacção
comunicativa e (2) a indução das regularidades presentes nesses enunciados, as quais são
percebidas por nós em função de sua frequência.

2.8.A natureza do conhecimento sobre a Língua dois (L2)

A Teoria da Gramática Universal (GU) é afiliada ao campo da linguística gerativa chomskyana


e, portanto, explica a aquisição da linguagem a partir de uma teoria linguística. A GU lança mão
do argumento lógico de que se os aprendizes possuem conhecimento abstracto do que é ambíguo
e do que não é gramaticalmente possível na L2, esse conhecimento não é oriundo do insumo a
que estão expostos ou de sua L1, mas de um conhecimento que já possuem em alguma forma
inicial. Não é um conhecimento resultante de suas experiências (na L1 ou L2). Em outras
palavras, a natureza do conhecimento na L2 é inata.

Além disso, para a GU, o aprendiz de L2 é guiado por esse conhecimento prévio, inicial, que
possuem. Os teóricos da GU também postulam que a linguagem se distingue de outras formas de
cognição é uma faculdade distinta, separada, um “órgão” da mente. Por fim, nessa perspectiva
teórica, o conhecimento da L2 também é visto como simbólico e, nesse sentido, formal, abstracto
e implícito. Desse modo, o desenvolvimento da L2 se dá de maneira incidental, por dedução a
partir do conhecimento inato e abstracto que já possuímos.

O Modelo Declarativo/Procedimental (MDP) é específico sobre a visão que tem da natureza de


nosso conhecimento linguístico e sobre a arquitectura de nossa cognição e, nesse sentido, está
relativamente próximo da GU. O Modelo está formulado a partir de uma visão chomskyana da
linguagem já que propõe que uma das capacidades da linguagem (a gramática mental) é
implementada por regras gerativas computacionais. O conhecimento dessas regras também é
procedimental e implícito. Entretanto, a outra capacidade da linguagem – o léxico mental – é
constituído por conhecimento de natureza declarativa, explicita, o que distancia o MDP da GU.

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2.9.A natureza do desenvolvimento da interlíngua

Para a Gramática Universal a interlíngua do aprendiz é sistemática, como todas as línguas


naturais, e a variação que há na interlíngua não constitui um desafio intelectual para a teoria, já
que é explicada a partir do fato de que a gramática da L2 sofre de um indeterminação típica – o
fato de que às vezes o aprendiz vai julgar uma certa estrutura como gramatical e outras vezes
como não gramatical está relacionado a questões de desempenho e não de representação mental
da L2. A mesma interpretação é verdadeira para o Modelo Monitor.

Para a Teoria Associativa-Cognitiva CREED a interlíngua é sistemática e variável, como todos


os sistemas complexos. Nessa Teoria, a interlíngua é também dinâmica e espelha a interacção do
cérebro com o ambiente.

Para a Teoria do Insumo, Interacção e Produção, a interlíngua é tomada como variável, mas é
sensível à factores como o contexto e o tipo de tarefa que está sendo desempenhada. Assim,
teóricos dessa linha postulam que é possível influenciar o processo de desenvolvimento da
interlíngua através da manipulação desses factores durante a interacção do aprendiz com seus
interlocutores. Além disso, o desenvolvimento da interlíngua também pode ser afectado por
variáveis de diferenças individuais tais como a atenção (ou seja, a capacidade atencional do
indivíduo).

No escopo da Teoria Sociocultural a variação encontrada na interlíngua de aprendizes de L2 é


um importante sinal do engajamento do aprendiz com o contexto e traz informações sobre a
ZPD, os objectivos individuais do aprendiz e o tipo de mediação e ferramentas que estão
disponíveis para ele. Por fim, o Modelo Declarativo/Procedimental vê a variação da interlíngua
como resultante de diferenças individuais, tais como a idade e o sexo.

2.10.O papel das variáveis afectivas na aquisição

A reflexão feita nos capítulos precedentes privilegiou o processo de aquisição em termos de


cognição. Foi uma opção consciente. Pontualmente, porém, foram feitas alusões a factores de
uma outra dimensão - a dimensão afectiva - considerados hoje como críticos no estudo de uma
L2.

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Também aqui, a teoria que as diversas hipóteses de trabalho apresentadas (e a que vamos analisar
em seguida) nos permitem esboçar representa uma viragem na perspectivação do estudo de uma
segunda língua ou de uma língua estrangeira. Contrariamente aos padrões metodológicos, esta
teoria defende que os factores afectivos estão relacionados com o processo de aquisição. Em
termos gerais (e esta questão tem a ver com todo o processo educativo, e não apenas com o
estudo de uma L2), poderá afirmar-se que se assiste a uma verdadeira revolução copernicana na
educação - o aluno passa a ser considerado como uma fonte e como uma influência curricular.
Por outras palavras, a dimensão psicológica é um ponto de partida na elaboração programática, e
as motivações, a auto-confiança e a ansiedade de cada indivíduo participante no processo de
aquisição devem ser consideradas.

O conceito de Filtro Afectivo, proposto por Dulay e Burt em 1977, é, segundo Krashen (1982),
consistente com o trabalho teórico realizado na área das variáveis afectivas e da aquisição de
uma L2, bem como com as hipóteses já enunciadas neste trabalho. Por outro lado, os factores da
motivação, auto-confiança e ansiedade, já enunciadas acima, relacionam-se directamente com a
aquisição e não com a aprendizagem.

O conceito de "filtro afectivo" foi recuperado por Krashen para a elaboração de uma outra base
de trabalho - a hipótese do Filtro Afectivo.

Esta hipótese mantém, contudo, que o "input" é a primeira variável causativa na aquisição de
uma segunda língua e que as variáveis afectivas actuam no sentido de impedir ou de facilitar essa
aquisição. Como Selinker escrevia, já em 1972, uma grande quantidade de "input" compreensível
pode não ser suficiente para que a aquisição se processe.

A hipótese do Filtro Afectivo implica que os nossos objectivos pedagógicos deveriam incluir não
apenas o fornecimento de "input" compreensível mas criar também situações encorajadoras de
um filtro baixo. Estes dois parâmetros definem o professor da L2 de um ângulo diferente do
tradicional. São, contudo, parâmetros muito amplos, com uma formulação abstracta. O professor
de uma L2 tem necessidade de os operacionalizar.

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Conclusão

Chegado o fim deste trabalho, ficou evidente de que o trabalho teve como objectivo analisar de
modo sistemático o processo de aquisição de um segundo idioma tanto por crianças quanto por
adultos, levando em consideração aspectos endógenos (neurologógicos, biológicos, psicológicos
etc.) assim como aspectos exógenos (ambientes, contexto, motivações etc).

No que tange a esses aspectos, alguns pontos podem ser levados em consideração, como o facto
de crianças estarem biologicamente mais aptas a adquirirem não apenas um, mas outros idiomas,
e isso acontece porque elas estão em franco processo de maturação neurológica, o que explica,
por exemplo, a facilidade com que elas conseguem internalizar os sons de outro idioma e
reproduzilos da mesma maneira que um nativo. Em relação à influência de factores externos na
aquisição de outro idioma por crianças, pode-se concluir que essas podem perfeitamente atingir
níveis satisfatórios de proficiência desde que o ambiente no qual ela esteja inserida seja propício
para que de fato ela alcance esses objectivos.

Desse modo, pode-se também concluir que o modo como os infantes aprendem outro idioma é
diferente dos adultos e, por esse motivo, o foco está voltado para actividades de cooperação entre
os alunos assim como actividades que enfatizem a oralidade em detrimento da escrita, por meio
de introdução de vocabulário e actividades simbólicas que contribuam sobremaneira para a
aquisição da nova língua.

No que diz respeito aos factores endógenos que exercem papéis relevantes no processo de
aquisição de outro idioma por adultos, concluiu-se que esses, devido principalmente à
diminuição da plasticidade cerebral, apresentam mais dificuldades em relação à aquisição do
idioma, principalmente referentes a aspectos fonológicos.

Ademais, pode-se também apontar que, apesar dos aspectos desfavoráveis à aquisição de um
novo idioma por adultos, a Teoria dos Universais Linguísticos, do linguista americano Noam
Chomsky, abriu portas para hipótese de que todo ser humano nasce dotado de aspectos
biológicos favoráveis à aquisição de outros idiomas, o que pode explicar o facto de muitos
adultos conseguirem alcançar níveis de proficiência quase iguais aos de um nativo.

Autor: Sergio Alfredo Macore Sergio.macore@gmail.com / +258846458829 Pemba - Moz


Bibliografia

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Autor: Sergio Alfredo Macore Sergio.macore@gmail.com / +258846458829 Pemba - Moz