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As metamorfoses d'As metamorfoses

Chapter · October 2017

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1 author:

Mauri Furlan
Federal University of Santa Catarina
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O v i`d i o

as metamorfoses

Organização
Mauri Furlan
Zilma Gesser Nunes

2017

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© 2017 Editora da UFSC

Coordenação editorial:
Paulo Roberto da Silva
Capa e editoração:
Cristiano Tarouco
Revisão:
Heloisa Hübbe de Miranda
Juliana da Rosa
Lygia B. de A. Schmitz
Mauri Furlan
Thaís Fernandes
Zilma Gesser Nunes
Arte de capa com a pintura Pygmalion et Galatée (c. 1890), de Jean-Léon Gérôme

Ficha Catalográfica
(Catalogação na fonte pela Biblioteca Universitária
da Universidade Federal de Santa Catarina)
O96m Ovídio
As metamorfoses / Ovídio ; Organização, Mauri Furlan, Zilma Gesser Nunes ;
tradução, Claudio Aquati... [et al.]. – Florianópolis : Editora da UFSC, 2017.
820 p.
Inclui bibliografia.
Tradução de: Metamorphoses
ISBN 978-85-328-0812-7
1. Poesia românica. 2. Poesia épica românica. I. Naso, Publius Ovidius,
43 a.C. – 17 d.C. II. Nunes, Zilma Gesser. III. Furlan, Mauri. IV. Título.

CDU: 871-1

Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta obra poderá ser reproduzida,
arquivada ou transmitida por qualquer meio ou forma sem prévia permissão
por escrito da Editora da UFSC.
Impresso no Brasil

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S umario
`

7
De mudanças e de formas
Elisana De Carli, Thaís Fernandes e Zilma Gesser Nunes

17
As metamorfoses d'As metamorfoses
Mauri Furlan

29
Metamorphoses | As metamorfoses
30 . Liber I | Livro I . 31
Tradução de Cláudio Aquati

74 . Liber II | Livro II . 75
Tradução de Juvino Alves Maia Júnior

124 . Liber III | Livro III . 125


Tradução de Paulo Sérgio de Vasconcellos

166 . Liber IV | Livro IV . 167


Tradução de Matheus Trevizam

212 . Liber V | Livro V . 213


Tradução de Luiz Henrique Milani Queriquelli

250 . Liber VI | Livro VI . 251


Tradução de Arlete José Mota

290 . Liber VII | Livro VII . 291


Tradução de Rodrigo Tadeu Gonçalves

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338 . Liber VIII | Livro VIII . 339
Tradução de Milton Marques Júnior

388 . Liber IX | Livro IX . 389


Tradução de José Ernesto de Vargas e Fernando Coelho

432 . Liber X | Livro X . 433


Tradução de Sandra Maria Gualberto Braga Bianchet

474 . Liber XI | Livro XI . 475


Tradução de Leila Teresinha Maraschin

520 . Liber XII | Livro XII . 521


Tradução de Mauri Furlan

556 . Liber XIII | Livro XIII . 557


Tradução de Anderson de Araújo Martins Esteves

610 . Liber XIV | Livro XIV . 611


Tradução de Antônio Martinez de Rezende

660 . Liber XV | Livro XV . 661


Tradução de Brunno Vinicius Gonçalves Vieira

711
Notas dos tradutores

733
Referências

739
Um glossário para ler As metamorfoses
Juliana da Rosa, Lygia B. de A. Schmitz e Thaís Fernandes

743
Glossário

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As metamorfoses d'As metamorfoses
_Mauri Furlan_

Tradução é metamorfose.
Essa não é uma definição clássica nos Estudos da Tradução sobre a
tarefa do tradutor – sequer é uma definição já precisada –, mas, sem dúvida,
presta-se enquanto um conceito capaz de abranger distintas correntes e
concepções da tradução, porque abarca a noção geral de que uma tradução,
por sua natureza, nunca é o texto fonte, nunca é o mesmo dizer, nunca é a
mesma coisa: a tradução se faz para ser “outro”, ela só comporta “o mesmo”
ao realizar-se como outro, ao re-criar-se, trans-formar-se, meta-morfosear-
se. Um tal conceito de tradução como metamorfose não implica defesa
prioritária do traduzir como adaptação, imitação, ou mera referência livre
a outro texto, nem advoga por tantas teorias que privilegiam o sentido, e
tampouco se opõe à concepção de tradução como forma (Walter Benjamin),
como letra (Antoine Berman), como texto (Henri Meschonnic).
Tradução é metamorfose. E nessa metamorfose se encontra a maior
possibilidade de os grandes textos literários, os clássicos, serem lidos
universalmente. A tradução é um prolongamento inevitável da literatura,
e deve prestar contas a ela. A possibilidade de a tradução tornar-se
texto, obra literária, surge quando o texto fonte se trans-porta e é trans-
portado – por detrás dessa metáfora, que significa que a tradução não
pode ser somente passiva se quiser que o texto primeiro continue vivo, há
uma concepção de tradução que extrapola aquela noção tradicional que
dá primazia ao sentido em detrimento da forma, e o faz mediante uma
concepção histórico-materialista da linguagem que põe fim ao reinado do
sentido objetivo, imanente, imutável, ahistórico,1 historicizando a escrita e
o escritor, a leitura e o leitor, a tradução e o tradutor.
Em sendo toda escritura uma prática de um sujeito (meschonnic,
1973), o tradutor é coautor da obra na língua da tradução, e, assim como
o autor primeiro, é histórico, e se lê-inscreve naquilo que lê e escreve. Essa
coautoria do tradutor se plasma em cada escolha que faz, em cada modo de

1
Cf. Furlan (2013).

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.: 18 As Metamorfoses

significar que (re)produz – o que ultrapassa o simples sentido comunicante,


e cria texto, discurso.

Há comumente na concepção de tradução uma confusão entre o que


seja da ordem da língua e o que seja da ordem do discurso. Traduzir
não é passar o que é dito numa língua a outra, mas é produzir um
discurso. Passar de uma língua a outra é cuidar apenas do sentido,
da mensagem. O discurso é a atividade de um sujeito falante, é uma
escritura, ou seja, a subjetivação que transforma a língua em texto.
(furlan, 2013, p. 289).

E, assim, cada tradutor recria seu autor primeiro; assim, podemos


encontrar tão variadas faces de um mesmo escritor e de um mesmo escrito.
Desde a Idade Média vimos traduzindo e retraduzindo os clássicos,
algo que se deve, em grande parte, à necessidade de reabrirmos repeti-
damente o acesso às obras que constituem nosso solo religioso, filosófico,
literário e poético; às obras que dominaram durante muito tempo nossa
criação literária e que, por isso, sua retradução moderna é chamada por
Berman (2012, p. 159) de memória repatriante.
Para o tradutor – observa o teórico francês –, retraduzir é deparar-
se com ao menos dois textos: o original e uma tradução. Considerando,
além disso, que as línguas ocidentais, no estado atual em que se encontram,
já atingiram um elevado grau de maturidade, é nesse espaço que se move
a possibilidade de a retradução tornar-se uma verdadeira obra literária,
porque pode ousar trazer o estrangeiro para a própria língua materna,
abrir-se ao Outro e rejuvenescer a própria língua (berman, 2012, p. 138).
Retraduzimos, pois, para podermos ler traduções como obras, como clássicos.
E ao lermos uma tradução, como avaliá-la? Já insistia Meschonnic
(1973, p. 308) que, uma vez concebida a tradução como “reenunciação
específica de um sujeito histórico”, recoloca-se a questão: “é uma tradução
correta?” nos termos “para quem?”. Quem traduz o quê e para quem é
um princípio norteador para uma análise, uma crítica e uma prática de
tradução.
Na mesma linha de Meschonnic, Berman (1995), em Pour une critique
des traductions: John Donne, propõe um método de análise de traduções, que
em nada tem a ver com ainda muitas críticas hodiernas presas ao preconceito
caduco do traduttore traditore, “fidelidade” ao original, “invisibilidade” do
tradutor, etc. A crítica abordada por Berman (1995, p. 13-14) implica análise
rigorosa de uma tradução, de seus traços fundamentais, do projeto que lhe

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As metamorfoses d'As metamorfoses 19 :.

deu origem, do horizonte no qual ela surgiu, da posição do tradutor, da


“apreensão da verdade de uma tradução”.
Sucintamente, podemos apresentar o método bermaniano de análise
de traduções como o que começa com leituras e releituras da tradução, e
depois, separadas dessas, aquelas do original. As leituras da tradução levam
à busca do autor do texto traduzido, não apenas quem é o tradutor, mas
sobretudo sua posição tradutiva, seu projeto de tradução e seu horizonte
tradutivo. Somente então, procede-se à análise comparativa da tradução e
do original.
Ler e reler a tradução, deixando completamente de lado o original
e suspendendo qualquer julgamento precipitado, é a primeira etapa deste
método analítico. Somente a leitura da tradução permite pressentir o texto
traduzido como mantenedor de qualidade de escrito na língua receptora,
e verdadeiro texto (sistematicidade e correlatividade, organicidade de
todos seus constituintes). A releitura da tradução revela as zonas textuais
problemáticas, na qual se encontra sua defectividade, como quando o
texto traduzido parece se enfraquecer, se contradizer, perder o ritmo; ou
demasiado fácil, demasiado corrente; ou mostra brutalmente palavras,
expressões, frases que chocam; ou remetem à língua do original e
configuram uma espécie de contaminação linguística. Por outro lado, ela
revela também zonas textuais felizes, que apresentam não apenas passagens
acabadas, mas de uma escritura-de-tradução que nenhum autor nativo
teria podido escrever, uma escritura estrangeira harmoniosa passada à
língua receptora, escritura-estrangeira produzida pelo tradutor em sua
língua nativa que cria uma língua nova (berman, 1995, p. 65-66).
As leituras do original, por sua vez, também deixam de lado a tra-
dução, mas não esquecem aquelas zonas textuais problemáticas e aquelas
felizes, que atuarão na confrontação futura. As leituras do original rastreiam
os traços estilísticos que configuram a escritura e a língua do original e
a tornam uma fonte de correlações sistemáticas. As leituras do original
também devem recorrer a múltiplas leituras colaterais, de outras obras do
autor, de obras diversas sobre este autor, sua época, etc. Traduzir exige lei-
turas vastas e diversificadas. “Traduz-se com livros” (berman, 1995, p. 68).
A futura confrontação rigorosa do original com a tradução vai se apoiar
em exemplos, e a seleção destes requer muito cuidado. A partir de uma
interpretação da obra, são recortadas algumas passagens que são os lugares
onde a obra se condensa, se representa, se significa ou se simboliza: são as
zonas significantes (berman, 1995, p. 70).

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.: 20 As Metamorfoses

Depois de penetrar o texto traduzido, reconhecer suas zonas fracas e


fortes, analisar e interpretar o original, e antes de se dirigir à confrontação
final, é necessário compreender a lógica do texto traduzido. Porque cada
tradutor tem sua sistematicidade, sua coerência própria, sua maneira de
separar e espaçar, investiga-se o trabalho tradutivo e o tradutor.
Diferentemente da questão sobre o autor, que busca os elementos
biográficos, psicológicos, existenciais, etc, para iluminar sua obra, a questão
de “quem é o tradutor” tem outra finalidade. Importa saber se ele é nativo
ou estrangeiro, se é “apenas” tradutor ou se exerce uma outra profissão
significativa – como a de professor –, se também é autor e produziu obras, de
qual(is) língua(s) traduz, qual sua relação com ela(s), se é bilíngue, que tipos
de obras traduz comumente e que outras obras traduziu, se é politradutor
ou monotradutor, quais são seus domínios linguísticos e literários, se
escreveu artigos, estudos, teses, trabalhos sobre as obras que traduziu, e,
enfim, se escreveu sobre sua prática de tradutor, sobre os princípios que
a guiam, sobre suas traduções e a tradução em geral. Isso é bastante, mas
pode não passar de pura “informação”. É preciso ir ainda além, e conhecer
sua posição tradutiva, seu projeto de tradução e seu horizonte tradutivo
(berman, 1995, p. 74).
A posição tradutiva do tradutor é a resultante de sua concepção do
traduzir, do sentido desta tarefa, de suas finalidades, de suas formas e modos,
e da maneira pela qual ele internalizou o discurso histórico, social, literário,
ideológico sobre a tradução e a escritura literária. A posição tradutiva não é
fácil de enunciar, mas ela é frequentemente manifestada em representações
codificadas como os prefácios, em que o tradutor tende a se expressar
mediante as opiniões gerais e os lugares-comuns sobre a tradução, e tais
representações nem sempre expressam a verdade da posição tradutiva. É,
contudo, ao elaborar uma posição tradutiva que a subjetividade do tradutor
se constitui, mesmo se ameaçada por três grandes perigos: a informidade
camaleônica, a liberdade caprichosa e a tentação ao apagamento. Uma po-
sição tradutiva pode ser reconstituída a partir da análise da tradução, que
sempre revela a concepção do tradutor, e a partir de diversas enunciações
feitas pelo tradutor sobre suas traduções, ou sobre o traduzir (berman,
1995, p. 75).
O projeto de tradução é o responsável pela realização de toda tradução
consequente, o qual é determinado ao mesmo tempo pela posição tradutiva
e pelas exigências cada vez específicas colocadas pela obra a ser traduzida.

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As metamorfoses d'As metamorfoses 21 :.

O projeto define a maneira pela qual o tradutor realizará a tradução


literária em geral, e escolherá um “modo” de tradução, uma “maneira de
tradução” específica (berman, 1995, p. 76). A análise do projeto em si é
feita a partir da leitura da tradução, que faz aparecer radiograficamente
o projeto, e sobre o que o tradutor tenha dito em textos sobre a tradução.
O trabalho comparativo comporta uma análise da tradução, do original e
dos modos de realização do projeto. A verdade e a validade do projeto é
medida nele mesmo e no seu produto (berman, 1995, p. 83).
O “horizonte do tradutor” abarca a posição tradutiva e o projeto de
tradução. Ele diz respeito ao conjunto dos parâmetros linguísticos, literá-
rios, culturais e históricos que “determinam” o sentir, o agir e o pensar
do tradutor. A noção de horizonte possui uma dupla natureza, seja a que
apresenta abertura e perspectivas, seja a que assinala limitação. O hori-
zonte da tradução se especifica numa pluralidade de horizontes mais ou
menos articulados entre si, nos quais há muitos fatores a se considerar
como, por exemplo, o “estado” do gênero literário contemporâneo em
questão na língua receptora, a realidade atual da tradução ou retradução
de tal gênero e autor, a relação desse gênero literário contemporâneo
com sua própria tradição, a totalidade de traduções do autor que está
sendo traduzido, a escolha de o retradutor ler ou não a(s) tradução(ões)
anterior(es), o estado de discussão no país da língua receptora sobre a
tradução de tal gênero e autor, e da tradução em geral, etc. Esses e outros
parâmetros compõem um horizonte de tradução (berman, 1995, p. 79-80).
O horizonte de uma retradução difere, de certo modo, daquele de uma
primeira tradução quando se considerar um aspecto tríplice: as traduções
anteriores, as traduções contemporâneas e as traduções estrangeiras. Mas é
também comum o tradutor de uma primeira tradução consultar traduções
estrangeiras (berman, 1995, p. 84). Vale dizer que essas três etapas não se
sucedem linearmente, nem são facilmente separadas (berman, 1995, p. 83).
O método bermaniano de análise de traduções vai além dos
elementos que apresentamos acima, os quais oferecem fundamento para a
etapa concreta e decisiva da crítica de traduções: a confrontação do original
e de sua tradução. Mas, por ora, eles nos bastam porque, ademais de se
nos mostrarem constituidores da base de uma análise de tradução, também
contribuem para a produção de um projeto de tradução, lato sensu, e de
uma tradução consequente.

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.: 22 As Metamorfoses

A tradução d’As metamorfoses, de Ovídio, que ora temos em mãos,


é fruto de um projeto, que reapresentamos aqui em linhas gerais, as quais,
mesmo se não explicitam abertamente as etapas propostas por Berman,
indicam sua existência e, junto à tradução, podem levar o interessado e o
estudioso dos Estudos da Tradução a reconstruí-las em detalhes.
A ideia de traduzir esta obra de Ovídio surgiu de uma realidade
concreta: a necessidade de disponibilizá-la em tradução aos estudantes de
literatura clássica latina e sua falta no mercado brasileiro – carência, na
verdade, de grande número de obras da literatura romana (pesquisas iniciais
sobre a tradução de obras latinas no Brasil mostraram que em nosso país
foram traduzidos apenas cerca de 20% dos autores latinos “legíveis” (em
torno de 144) que chegaram até nós (furlan, 2004)). À parte fragmentos
traduzidos, circulou no Brasil uma tradução d’As metamorfoses realizada
por David Jardim Júnior, e publicada pela Ediouro, em 1983; mas há tempos
é edição esgotada.
O que inicialmente seria uma tarefa partilhada entre os professores de
Latim da Universidade Federal de Santa Catarina ampliou-se e configurou-
se num projeto ousado pela inovação do tratamento dado à tradução de
tal obra: distribuir os XV livros que a compõem entre 16 tradutores; pro-
vocar metamorfoses na obra que as suscita. Ante a perturbação causada
pelo fato de tomarmos de um autor uma obra para ser traduzida simul-
taneamente por 15 tradutores, pode-se, decerto, afirmar que, no mínimo,
é uma possibilidade de o leitor ler seu autor de tantas variadas formas;
de apreciar, pois, as metamorfoses que constroem uma tradução, e as
metamorfoses pelas quais passa o texto fonte; uma possibilidade de um
estudioso da tradução deleitar-se com inúmeras e distintas análises sobre
um mesmo clássico traduzido.
Assim, a profa. dra. Zilma Gesser Nunes e eu, Mauri Furlan, assumi-
mos esse projeto. Por uma divisão de tarefas, a dra. Zilma Nunes encar-
regou-se de gerenciar a produção dos paratextos, convidando colegas
professores e alunos para participarem da elaboração dos verbetes do glos-
sário, depois de um semestre de estudos da obra com um grupo restrito
de colaboradores; e eu encarreguei-me de contactar os tradutores e tratar
da parte específica da tradução. Em nome do Centrum Inuestigationis
Latinitatis, núcleo de pesquisas da área de Latim da UFSC, convidamos os
tradutores apresentando-lhes um projeto de tradução breve e aberto, no
qual constavam os seguintes itens:

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As metamorfoses d'As metamorfoses 23 :.

Sobre a publicação: Com publicação em edição bilíngue, a obra


também contará com capítulo introdutório, notas, glossário, índice
onomástico, remissivo e outros aparatos.
Sobre o formato: Optamos pelo formato de prosa poética. Os versos
hexâmetros latinos, por sua extensão, aproximam-se de certa forma
da fluência da prosa, desta diferindo, sobretudo, por causa do ritmo
próprio que produzem. Aceitamos que a prosa poética é uma forma
que, por transitar entre a prosa e a poesia, possibilita muitos recursos
para se trabalhar a forma no texto de chegada, próximo do original.
Sobre a edição a ser utilizada: Decidimos utilizar a edição de Hugo
Magnus (1892) por estar disponível na internet e podermos publicá-
la sem custos. É a utilizada no site da Perseus.2 Mas isso não impede
que os tradutores se sirvam de outras edições, apontando em notas
em que elas divergem.
Sobre as notas: Os tradutores podem ficar à vontade com elas. Nosso
projeto prevê um extenso glossário no final do volume. O que significa
que, na editoração final, talvez algumas notas dos tradutores possam
ser eliminadas, uma vez consideradas as repetições e outros critérios
a serem definidos.
Sobre os nomes: Não pretendemos padronizar. Ficarão por conta
do tradutor. Todas as variações de nomes também aparecerão no
glossário. Os diferentes usos que os tradutores fazem será mais um
exemplo de possíveis metamorfoses.
Vale ressaltar, também, que o projeto de tradução conjunta visa não
a uma homogeneização, mas à preservação da individualidade de
cada tradutor. Isso pode ainda constituir o lado lúdico e instigador
do projeto: a cada livro a própria escrita de Ovídio se metamorfoseia
na recriação de cada tradutor.

Uma vez aceitos os convites, a seleção dos tradutores foi feita ten-
tando distribuir aleatoriamente e misturando as diversas procedências
– regionais e institucionais – dos tradutores. Ao final, a distribuição dos XV
livros d’As metamorfoses ficou a cargo dos seguintes tradutores: Cláudio
Aquati, (Livro I), Juvino Alves Maia Júnior (Livro II), Paulo Sérgio de Vas-
concellos (Livro III), Matheus Trevizam (Livro IV), Luis Henrique Milani
Queriquelli (Livro V), Arlete José Mota (Livro VI), Rodrigo Tadeu Gonçal-
ves (Livro VII), Milton Marques Júnior (Livro VIII), José Ernesto de Vargas

2
Disponível em: <http://www.perseus.tufts.edu/hopper/text?doc=Perseus%3atext%3a19
99.02.0029>. Pode ser baixada em pdf, fac-simile da edição impressa, disponível em:
<https://ia902303.us.archive.org/22/items/bub_gb_BetEAQAAIAAJ/bub_gb_BetEAQA
AIAAJ.pdf>.

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.: 24 As Metamorfoses

e Fernando Coelho (Livro IX), Sandra Maria Gualberto Braga Bianchet


(Livro X), Leila Teresinha Maraschin (Livro XI), Mauri Furlan (Livro XII),
Anderson de Araújo Martins Esteves (Livro XIII), Antônio Martinez de
Rezende (Livro XIV); Brunno Vinicius Gonçalves Vieira (Livro XV).
Retomando a reflexão bermaniana acima exposta, pode-se perguntar
sobre como tratar a questão de “quem é o tradutor” numa obra com tantos
tradutores. Obviamente, as singularidades de cada um só podem ser
tomadas individualmente, e suas especificidades tradutivas, avaliadas no
livro que cada um traduziu. No entanto, o corpo de tradutores também traz
marcas em comum. Todos os tradutores são brasileiros, contemporâneos,
trabalhadores ativos e pertencentes ao meio acadêmico. Em sua maioria,
são professores universitários de língua latina, e não tradutores profissionais
exclusivos. Como latinistas, leem em outras línguas estrangeiras, além da
latina, e quase todos já traduziram anteriormente do latim. No grupo de
tradutores, há três doutorandos, os demais são doutores. Todos possuem
várias publicações em diversos gêneros, sobretudo acadêmicos. Quase
todos já publicaram textos abordando e refletindo sobre questões de
tradução, embora a maioria não enquadre sua linha de pesquisas no campo
dos Estudos da Tradução. Todos os tradutores possuem seu curriculum
uitae na plataforma Lattes do CNPq, disponível on-line, e os principais
dados em comum podem ser resumidos como seguem:
• Anderson de Araújo Martins Esteves – Possui doutorado (2010) e mes-
trado (2004) em Letras Clássicas e graduação em Ciências Jurídicas e
Sociais (1998) pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Atualmente
é professor adjunto da referida Instituição. Tem experiência na área de
Letras Clássicas, com ênfase em língua e literatura latinas, historiografia
antiga e estudos de gênero. [martinsesteves@superig.com.br.]
• Antônio Martinez de Rezende – Possui doutorado (2009) e mestrado
(1986) em Estudos Linguísticos e graduação em Letras (1977) pela Uni-
versidade Federal de Minas Gerais. Atualmente é professsor associado
da referida Instituição. Tem experiência na área de Letras, com ênfase
em língua latina, atuando principalmente nos seguintes temas: latim,
gramática, ensino, tradução e literatura latina. [antoniomartinez.rezende@
gmail.com]
• Arlete José Mota – Possui doutorado em Letras Clássicas (1998) pela Uni-
versidade Federal do Rio de Janeiro. Atualmente é professora associada
da referida Instituição. Tem experiência na área de Letras, atuando

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As metamorfoses d'As metamorfoses 25 :.

principalmente nos seguintes temas: literatura latina, cultura romana,


língua latina, comportamento e história romana. [arletemota@yahoo.
com.br]
• Brunno Vinicius Gonçalves Vieira – Possui doutorado em Estudos Lite-
rários (2007), mestrado em Linguística e Língua Portuguesa (2002), e
graduação em Letras (1997) pela Universidade Estadual Paulista, insti-
tuição na qual atualmente leciona temas relacionados à língua e literatura
latinas. Desenvolve projetos na área de Letras Clássicas, com ênfase na
recepção e tradução de textos greco-romanos em contexto lusófono.
[brunnovgvieira@gmail.com]
• Cláudio Aquati – Possui doutorado (1997), mestrado (1991) e graduação
(1985) em Letras Clássicas e graduação em Língua Portuguesa (1985)
pela Universidade de São Paulo. Atualmente é professor assistente da
Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho, campus de São
José do Rio Preto. Tem experiência na área de Letras, com ênfase em
língua e literatura latinas. Atua principalmente nos seguintes temas:
romance antigo, romance latino (Satíricon, de Petrônio e O asno de ouro,
de Apuleio) e sátira. [aquati@ibilce.unesp.br]
• Fernando Coelho – Doutorando em Linguística na Universidade Fede-
ral de Santa Catarina, possui mestrado em Estudos da Tradução (2009),
graduação em Letras-Francês (2008) e graduação em Filosofia (2005) pela
referida Instituição. [zeffiretto@gmail.com]
• José Ernesto de Vargas – Possui doutorado em Literatura (2008) pela
Universidade Federal de Santa Catarina, e graduação em Letras-Português
e Latim (1992) pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Atual-
mente é professor de Língua e Literatura Latinas na Universidade Federal
de Santa Catarina. Atua nas seguintes áreas: Linguística e Educação, Lite-
ratura Latina, Língua Latina, Poesia e performance literária. [jedevargas@
gmail.com]
• Juvino Alves Maia Júnior – Possui doutorado em Letras Clássicas (2002),
mestrado em Letras-Literaturas de Língua Portuguesa (1993), gradua-
ção em Língua Latina (1996) e graduação em Língua Portuguesa (1988)
pela Universidade de São Paulo. Atualmente é professor associado da Uni-
versidade Federal da Paraíba. Tem experiência na área de Letras, com
ênfase em Grego e Latim, atuando principalmente nos seguintes temas:
grego, latim, ensino, tradução, drama, estilo, discurso. [juvinojr@uol.
com.br]

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.: 26 As Metamorfoses

• Leila Teresinha Maraschin – Doutoranda em Estudos da Tradução na


Universidade Federal de Santa Catarina, possui mestrado (1998) e gradua-
ção (1993) em Letras pela Universidade Federal de Santa Maria. É profes-
sora assistente nesta Instituição. [leilamaraschin@gmail.com]
• Luiz Henrique Milani Queriquelli – Doutorando em Linguística na
Universidade Federal de Santa Catarina, possui mestrado em Estudos
da Tradução (2009) pela UFSC, graduação em Letras-Português (2011)
pelo Centro Universitário Leonardo da Vinci e graduação em Ciências
Sociais (2007) pela UFSC. Tem pesquisas relativas ao ensino do latim na
formação de professores de língua portuguesa e à crítica de tradução de
literatura latina. [luizqueriquelli@gmail.com]
• Matheus Trevizam – Possui doutorado (2006) e mestrado (2003) em
Linguística e graduação em Letras-Língua Portuguesa e Literatura (2000)
pela Universidade Estadual de Campinas. Atualmente é professor adjun-
to na Universidade Federal de Minas Gerais. Interessa-se por questões
de gêneros literários e incorporação temática de tópicos culturais de
relevância na Antiguidade. Traduziu a Ars amatoria de Ovídio, De re
rustica de Varrão e De agri cultura de Catão. É coordenador do Núcleo
de Estudos Antigos e Medievais – NEAM (da FALE/FAFICH/UFMG).
[matheustrevizam2000@yahoo.com.br]
• Mauri Furlan – Possui doutorado em Filologia Clássica (2002) pela
Universidad de Barcelona, mestrado em Literatura (1998) e graduação
em Letras-Alemão (1993) pela Universidade Federal de Santa Catarina
e graduação em Jornalismo (1989) pela Faculdade de Comunicação e
Turismo Hélio Alonso/RJ. Atualmente é professor associado da Univer-
sidade Federal de Santa Catarina e atua na área de Letras, com ênfase em
Teoria da Tradução da Antiguidade ao Renascimento e Língua Latina.
É fundador das revistas acadêmicas da área dos Estudos da Tradução:
Cadernos de Tradução e Scientia Traductionis. Coordena o Centrum Inuesti-
gationis Latinitatis, na UFSC. [maurizius@gmail.com]
• Milton Marques Júnior – Possui doutorado (1995), mestrado (1990) e
graduação (1981) em Letras pela Universidade Federal da Paraíba. Atual-
mente é professor associado da referida Instituição, com experiência na
área de Letras-Literatura Brasileira e Portuguesa. Coordena o Grupo de
Estudos Clássicos e Literários – GREC, com produção na área das Lite-
raturas Grega e Latina e da Literatura Comparada. [marquesjr45@hotmail.
com]

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As metamorfoses d'As metamorfoses 27 :.

• Paulo Sérgio de Vasconcellos – Possui doutorado (1996) e mestrado


(1990) em Letras Clássicas e graduação em Letras-Português, Francês e
Latim (1983) pela Universidade de São Paulo. Atualmente é professor
assistente da Universidade Estadual de Campinas. Tem se dedicado
ao estudo da poesia latina (Catulo e Virgílio), à intertextualidade nos
estudos clássicos e à questão do biografismo na interpretação da poesia
subjetiva romana. Nos últimos anos, consagrou-se ao projeto de anotação
e comentário das traduções de Virgílio feitas pelo maranhense Odorico
Mendes (1799-1864), coordenando o Grupo de Trabalho Odorico Men-
des. [odoricano@ig.com.br]
• Rodrigo Tadeu Gonçalves – Possui doutorado (2008) e mestrado (2004) em
Letras, graduação em Letras-Latim (2004) e graduação em Letras-Portu-
guês e Inglês (2003) pela Universidade Federal do Paraná. Atualmente é
professor adjunto de Língua e Literatura Latinas na referida Instituição.
Áreas de interesse recentes incluem língua e literatura latinas (especial-
mente comédia latina), filosofia da linguagem, estudos da tradução,
sofística e filosofia da linguística. [goncalvesrt@gmail.com]
• Sandra Maria Gualberto Braga Bianchet – Possui doutorado em Letras
Clássicas (2002) pela Universidade de São Paulo, mestrado em Estudos
Linguísticos (1996) e graduação em Letras (1990) pela Universidade
Federal de Minas Gerais. Atualmente é professora associada da UFMG.
Tem experiência na área de Letras, com ênfase em Línguas Clássicas,
atuando principalmente nos seguintes temas: latim vulgar e romance
latino. [sandra.bianchet@gmail.com]
Outra questão relevante a ser referida concerne à “forma” textual,
a que chamamos “prosa poética” e aceitamos como adequada à tradução
dos hexâmetros latinos de Ovídio. A discussão nos Estudos da Tradução
sobre traduzir poesia é importante e tão antiga quanto a própria história da
tradução ocidental. Há desde defensores de que traduzir poesia é mais fácil
do que prosa exatamente pela possibilidade de repoetizar um texto, até os
que a consideram impossível de ser traduzida, passando por escolas que
propugnam a correspondência de versos x de uma língua com versos y de
outra, etc., a pensamentos como os de Goethe e Hegel, de que a poesia pode
ser traduzida em prosa.

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.: 28 As Metamorfoses

Parafraseando Berman (2012, p. 136), podemos afirmar que traduzir


Ovídio em prosa não é obrigatoriamente “traí-lo”, mas submetê-lo a uma
metamorfose, e isso, em si, é uma tradução. Toda tradução em prosa
deve ser considerada como uma possibilidade da tradução de poesia para
algumas obras.
Sem entrarmos agora na reapresentação do pensamento de Berman
sobre o que ele nomeia como tradução da letra (que não é em absoluto
a tradução da palavra!) enquanto tradução que pode renovar a tarefa do
tradutor e sua língua nativa e produzir verdadeiras obras literárias ao
mesmo tempo que preserva o valor do texto original, podemos encontrar
nessa concepção do traduzir um grande argumento em defesa do uso da
prosa poética na tradução da poesia: o de que a prosa poética permite
ao texto traduzido continuar o contato íntimo com o texto primeiro e a
possibilidade de fazer reviver na língua receptora o estrangeiro, o Outro.
Berman concebe a tradução como acolhida da letra estrangeira na língua
materna, tradução como albergue, como lugar de abrigo ao forasteiro, que
o faz sentir-se em casa sendo estrangeiro, lugar ao mesmo tempo próximo
e distante. A tradução da letra considera importante o buscar-e-encontrar
também o não normatizado da língua de chegada para introduzir aí a lín-
gua estrangeira e seu dizer, porque aí, paradoxalmente, é onde ela aceita o
Outro, pois, na sua maternalidade, se permite ser o “albergue do longínquo”
(berman, 2012, p. 175).
Às metamorfoses!

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