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A nova mulher

e a moral sexual

Alexandra Kollontai
Alexandra Kollontai (1873-1952)
BIOGRAFIA

Alexandra Mikhaylovna Kollontai, em russo Алекса́ндра Миха́йловна


Коллонта́й ; nascida Domontovich, Домонто́вич) (São Petersburgo, greg. 31
de março/ jul. 19 de março de 1872 - Moscovo, 9 de março de 1952) foi uma
líder revolucionária russa e teórica do marxismo, membro da facção
bolchevique e militante activa durante a Revolução Russa de 1917.

Nascida e criada no seio de uma família da nobreza latifundiária, o pai, Mikhail


Domontovich, era um general de origem ucraniana e a mãe finlandesa de
origem camponesa. Passou a infância entre Petrogrado e a Finlândia. A família
limitou-lhe o acesso aos estudos e assim, aos 16 anos, após concluir seu
bacharelato, foi autodidacta. Aos 20 anos, casa-se com Vladimir Mikhaylovich
Kollontai, um jovem oficial do exército, com quem teve um filho, Misha.

Em 1898 abandona sua situação privilegiada, deixa o marido e ofilho e junta-se


ao Partido Social-Democrata dos Trabalhadores Russos, atuando
principalmente entre as mulheres trabalhadoras.

Inicialmente simpatiza com o socialismo agrário e o populismo - que na altura


praticava atentados contra membros da aristocracia dirigente russa. A partir de
1896, começa a estudar o marxismo e economia, acedendo à leitura das duas
primeiras revistas marxistas legais na Rússia: Nachalo e Nóvoe slovo. Integra-
se a um grupo de apoio aos grevistas do sector têxtil de Petrogrado, numa luta
em que participavam 36.000 operários.

Em 1898, publica o seu primeiro estudo sobre a psicologia da educação, antes


de começar os estudos universitários de economia em Zurique.

Torna-se progressivamente mais favorável ao marxismo, admirando Kautsky e


Rosa Luxemburgo, face às tendências revisionistas promovidas por Bernstein.

Em 1899, viaja a Inglaterra para estudar o movimento operário desse país,


deparando-se com todas as contradições de uma sociedade em que o
capitalismo está numa fase avançada, voltando à Rússia ainda mais afirmada
no seu marxismo.

Em pleno conflito entre a aristocracia russa e o povo finlandês, Alexandra põe-


se do lado dos revolucionários finlandeses. Publica artigos sobre a questão, em
1900, sobretudo de teor económico-estatístico, envolvendo-se em simultâneo
nas actividades clandestinas dos círculos marxistas russos.

Em 1901 parte para o estrangeiro, coincidindo com Kautsky, Luxemburgo e


Lafargue em Paris e com Plekhanov, em Genebra.

Ao voltar à Rússia, em 1903, consumada já a divisão entre bolcheviques e


mencheviques, não adere a nenhuma das tendências, apesar de simpatizar
com os primeiros, já que mantém a sua admiração por Plekhanov, líder
menchevique.
No chamado "domingo sangrento" de 1905, participa na manifestação que se
dirige ao Palácio de Inverno, assistindo à carnificina de operários desarmados,
protagonizada pelas tropas czaristas - uma imagem que ficará para sempre
gravada na memória da jovem revolucionária.

Incorpora-se ao grupo bolchevique de Petrogrado, trabalhando na imprensa


clandestina, contribuindo ainda para a unidade de acção entre os partidos
social-democrata russo e finlandês, na luta comum contra o czarismo.
Converte-se numa das primeiras revolucionárias a assentar as bases da
organização de mulheres operárias, convocando-as para comícios específicos
dirigidos a elas.

Em 1906, afasta-se da tendência bolchevique por discordar da participação


institucional na Duma, e por divergências quanto ao papel dos sindicatos.
Assim, entre 1906 e 1915 participa da fracção menchevique.

Entre 1908 e 1917, vive exilada na Alemanha, na Bélgica, França, Inglaterra,


Suíça, Itália, Dinamarca, Noruega e nos Estados Unidos. Em 1915, adere
novamente ao grupo bolchevique, liderado por Lenin. É detida em duas
ocasiões, na Alemanha e na Suécia, por fazer propaganda contra a guerra
imperialista.

Após a Revolução de Fevereiro de 1917, regressa à Rússia e converte-se na


primeira mulher eleita para o comité executivo do Soviete de Petrogrado, e
depois do mesmo organismo em nível pan-russo. Oposta à linha majoritária
entre os bolcheviques, de apoio crítico ao Governo provisório de Kerensky,
está do lado de Lenin quando este aposta, quase solitário, na insurreição de
Outubro. Eleita membro do Comité Central no VI Congresso, enquanto se acha
numa prisão de Kerensky, fica livre pouco antes do definitivo levante
revolucionário e ocupa o terceiro lugar na candidatura bolchevique para a
Assembleia Constituinte. Torna-se Comissária do Povo para Assuntos do Bem-
estar Social.

Ainda em 1917, pouco depois da Revolução, casa-se com Pavel Dybenko, um


jovem marinheiro de origem camponesa. O novo casamento deverá durar até
1922.

Após a vitória bolchevique, ocupa o posto de comissária do povo (ministra)


para a Assistência Pública no primeiro Governo revolucionário. Trabalhou para
que fossem reconhecidos os direitos e liberdades às mulheres, modificando
aspectos das leis que as subordinavam aos homens, como a negação do
direito ao voto ou reduziam os seus salários e impunham piores condições
salariaias. Liberalizaram-se as relações familiares e sexuais, aprovando-se o
divórcio e o direito ao aborto, além de numerosos benefícios sociais para a
maternidade e a habilitação de creches.

Em 1918, Kollontai organiza o Primeiro Congresso de Mulheres Trabalhadoras


de toda a Rússia, donde nasce o Genotdel, organismo dedicado a promover a
participação das mulheres na vida pública e nos projectos sociais,
nomeadamente a luta contra o analfabetismo. Alexandra integra-se no
Conselho Editorial da revista Kommunistka (Mulher Comunista). Nesse mesmo
ano, no VII Congresso do Partido Bolchevique, opõe-se à assinatura da Paz de
Brest-Litovsk, perdendo o lugar que ocupava no Comité Central.

Em 1920, fica responsabilizada pela organização de mulheres do partido.


Ocupa ainda o posto de comissária do povo para a Segurança Social,
promulgando decretos para a protecção e a segurança da maternidade e a
infância. Desde o ano anterior, tinha aderido à chamada Oposição Operária,
com Shlyapnikov, Kiselev e Medvedev. Em 1921, coindindo com o X
Congresso do Partido, escreve um opúsculo com esse mesmo título, em que
expõe as posições dessa tendência no interior do Partido Bolchevique,
alertando contra os "perigos de degeneração burocrática que ameaçam", e
propondo o controlo operário das instituições. A Oposição Operária é
derrotada.

A partir de 1922, começa a sua carreira diplomática, primeiro na Noruega


(1923 a 1925), depois no México (1925 a 1927), Noruega novamente entre
1927 e 1930 (ano em que apoia publicamente a liderança de Estaline), e
Suécia desde esse ano até o da sua reforma, em 1945. Faleceu em Moscovo a
9 de março de 1952.

Além de numerosos artigos de temática política, económica e feminista,


destacamos as seguintes obras:

• A situação da classe operária na Finlândia (1903)


• A luta de classes (1906)
• Primeiro almanaque operário (1906)
• Base social da questão feminina (1908)
• A Finlândia e o socialismo (1907)
• Sociedade e maternidade (?)
• Quem precisa da guerra? (?)
• A classe operária e a nova moral (?)
• A oposição Operária (1921)
• A nova mulher
• A moral sexual
I Parte

A mulher moderna
A mulher moderna

Quem são as mulheres modernas? Como as criou a vida?

A mulher moderna, a mulher que denominamos celibatária, é filha do sistema


econômico do grande capitalismo. A mulher celibatária, não como tipo
acidental, mas uma realidade cotidiana, uma realidade da massa, um fato que
se repete de forma determinada, nasceu com o ruído infernal das máquinas da
usina e da sirene das fábricas. A imensa transformação que sofreram as
condições de produção no transcurso dos últimos anos, inclusive depois da
influência das constantes vitórias da produção do grande capitalismo, obrigou
também a mulher a adaptar-se às novas condições criadas pela realidade que
a envolve, O tipo fundamental da mulher está em relação direta com o grau
histórico do desenvolvimento econômico por que atravessa a humanidade. Ao
mesmo tempo que se experimenta uma transformação das condições
econômicas, simultaneamente à evolução das relações da produção,
experimenta-se a mudança no aspecto psicológico da mulher. A mulher
moderna, como tipo, não poderia aparecer a não ser com o aumento
quantitativo da força de trabalho feminino assalariado. Há cinqüenta anos,
considerava-se a participação da mulher na vida econômica como desvio do
normal, como infração da ordem natural das coisas. As mentalidades mais
avançadas, os próprios socialistas buscavam os meios adequados para que a
mulher voltasse ao lar. Hoje em dia, somente os reacionários, encerrados em
preconceitos e na mais sombria ignorância, são capazes de repetir essas
opiniões abandonadas e ultrapassadas há muito tempo.

Há cinqüenta anos, as nações civilizadas não contavam nas fileiras da


população ativa com mais do que algumas dezenas, ou mesmo algumas
centenas de milhares de mulheres. Atualmente o crescimento da população
trabalhadora feminina é superior ao crescimento da população masculina. Os
povos civilizados dispõem não de centenas de milhares, mas sim de milhões
de braços femininos. Milhões de mulheres pertencem às fileiras proletárias;
milhares de mulheres têm uma profissão, consagram suas vidas à ciência ou à
arte. Na Europa e nos Estados Unidos as estatísticas acusam mais de
sessenta milhões de mulheres inscritas na classe trabalhadora. Marcha
grandiosa a desse exército independente de mulheres! 50% desse exército é
constituído por mulheres do tipo celibatário, isto é, por mulheres que na luta
pela subsistência contam apenas com suas próprias forças; de mulheres que
não podem, segundo a tradição, viver unicamente dependendo de um marido
que as mantenha.

As relações de produção, que durante tantos séculos mantiveram a mulher


trancada em casa e submetida ao marido, que a sustentava, são as mesmas
que, ao arrancar as correntes enferrujadas que a aprisionavam, impelem a
mulher frágil e inadaptada à luta do cotidiano e a submetem à dependência
econômica do capital. A mulher ameaçada de perder toda a assistência, diante
do temor de padecer privações e fome, vê-se obrigada a aprender a se manter
sozinha, sem o apoio do pai ou do marido. A mulher defronta-se com o
problema de adaptar-se rapidamente às novas condições de sua existência, e
tem que rever imediatamente as verdades morais que herdou de suas avós.
Dá-se conta, com assombro, de toda inutilidade do equipamento moral com
que a educaram para percorrer o caminho da vida. As virtudes femininas -
passividade, submissão, doçura - que lhe foram inculcadas durante séculos,
tornam-se agora completamente supérfluas, inúteis e prejudiciais. A dura
realidade exige outras qualidades nas mulheres trabalhadoras. Precisa agora
de firmeza, decisão e energia, isto é, aquelas virtudes que eram consideradas
como propriedade exclusiva do homem. Privada da proteção que até então lhe
prestara a família ao passar do aconchego do lar para a batalha da vida e da
luta de classes, a mulher não tem outro remédio senão armar-se, fortificar-se,
rapidamente, com as forças psicológicas próprias do homem, de seu
companheiro, que sempre está em melhores condições para vencer a luta pela
vida. Nesta urgência em adaptar-se às novas condições de sua existência, a
mulher se apodera e assimila as verdades, propriamente masculinas,
freqüentemente sem submetê-las a nenhuma crítica, e que, se examinadas
mais detalhadamente, são apenas verdades para a classe burguesa.(1)

A realidade capitalista contemporânea parece esforçar-se em criar um tipo de


mulher que, pela formação de seu espírito, se encontra incomparavelmente
mais próxima do homem do que da mulher do passado. Este tipo de mulher é
uma conseqüência natural e inevitável da participação da mulher na corrente
da vida econômica e social. O mundo capitalista só recebe as mulheres que
souberam desprezar, a tempo, as virtudes femininas e que assimilaram a
filosofia da luta pela vida. Para as inadaptadas, isto é, para aquelas mulheres
pertencentes ao tipo antigo, não há lugar nas fileiras das hostes trabalhadoras.
Cria-se desta forma, uma espécie de seleção natural entre as mulheres das
diversas camadas sociais. As fileiras das trabalhadoras são sempre formadas
pelas mais fortes e resistentes, pelas mulheres de espírito mais disciplinado. As
de natureza frágil e passiva continuam fortemente vinculadas ao lar. Se as
necessidades materiais as arrancam do lar para lançá-las na tormenta da vida,
estas mulheres deixam-se levar pelo caminho fácil da prostituição legal ou
ilegal, casam-se por conveniência ou lançam-se à rua. As mulheres
trabalhadoras constituem a vanguarda de todas as mulheres e integram em
suas fileiras representantes das diversas camadas sociais. Entretanto, a
imensa maioria dessa vanguarda feminina não se constitui de mulheres do tipo
de Vera Niokdinovna, orgulhosas da sua independência, mas, por milhões de
Matildes envoltas em xales cinzentos, Tatianas, de Riasan, com os pés
descalços, empurradas pela miséria a novos caminhos.(2) É um profundo erro
pensar, no entanto, que o novo tipo de mulher, a celibatária, é fruto de esforços
heróicos de algumas individualidades fortes que tomaram consciência de sua
própria personalidade. Nem a vontade própria, nem o exemplo audacioso de
Magda, nem o da decidida Renata foram capazes de criar o novo tipo de
mulher. A transformação da mentalidade da mulher, de sua estrutura interior,
espiritual e sentimental, realizou-se primeiro e, principalmente, nas camadas
mais profundas da sociedade, ou seja, onde se produz necessariamente a
adaptação ao trabalho, nas condições radicalmente transformadas de sua
existência.
Estas mulheres, as Matildes e as Tatianas, não resolvem nenhum problema.
Além disso, ainda tentam agarrar-se com todas as suas forças ao passado.
Com muito pesar se vêem obrigadas a curvar-se diante das leis da
necessidade histórica - as forças de produção - e a dar os primeiros passos
pelo novo caminho. Caminham ao acaso, dominadas pela tristeza,
amaldiçoando seus passos e acariciando em seu interior o sonho de um lar,
onde possam desfrutar de tranqüilas e modestas alegrias. Ah, se fosse
possível abandonar o caminho, voltar atrás. Mas, isto é irrealizável, pois os
grupos de companheiras são cada vez mais densos e a corrente as empurra
cada vez para mais longe do passado. É preciso adaptar-se à angustiante falta
de espaço, preparar-se para a luta, ocupar o lugar correspondente a cada uma;
têm que defender o direito de viver.
A mulher da classe operária contempla como nasce e se fortalece dentro de si
a consciência de sua independente individualidade. Tem fé em suas próprias
forças. Gradualmente, de forma inevitável e poderosa, desenvolve-se o
processo de acumulação de novos caracteres morais e espirituais da mulher
operária, caracteres que lhe são indispensáveis como representantes de uma
classe determinada. Há, porém, algo ainda mais essencial; éque esse processo
de transformação da estrutura interior da mulher não se reduz unicamente a
personalidades, mas corresponde a grandes massas, a círculos muito grandes,
cada vez maiores. A vontade individual submerge e desaparece no esforço
coletivo de milhões de mulheres da classe operária, para adaptar-se às novas
condições da vida. Também nesta transformação desenvolve o capitalismo
uma grande atividade. Ao arrancar do lar, do berço, milhares de mulheres, o
capitalismo converte essas mulheres submissas e passivas, escravas
obedientes dos maridos, num exército que luta pelos seus próprios direitos e
pelos direitos e interesses da comunidade humana. Desperta o espírito de
protesto e educa a vontade. Tudo isto contribui para que se desenvolva e
fortaleça a individualidade da mulher.

Mas, desgraçada da operária, que crê na força invencível de uma


individualidade isolada. A pesada carga do capitalismo a esmagará, friamente,
sem piedade. As fileiras. de mulheres combatentes constituem a única força
capaz de desviar de seu caminho a pesada carga do capitalismo. Deste modo,
ao mesmo tempo que se desenvolve a consciência de sua personalidade e de
seus direitos, nasce e evolui na mulher operária do novo tipo o sentimento da
coletividade, o sentimento do companheirismo, que só se encontra, e muito
levemente, na mulher do novo tipo pertencente a outras classes sociais. Este é
o sentimento fundamental, a esfera de sensações e pensamentos que separa
com uma linha divisória definitiva as trabalhadoras das mulheres burguesas,
pertencentes ao mesmo tipo celibatário. Nas mulheres do novo tipo, mas
pertencentes às distintas classes, é comum a distinção qualitativa das
mulheres do passado. Como parte integrante das hostes de mulheres
trabalhadoras, sua estrutura interior experimentou igual transformação, ou seja,
logrou desenvolver sua inteligência, reforçar sua personalidade e ampliar seu
mundo espiritual. A esfera, porém, de pensamentos e sentimentos, que
derivam do conceito de classe, são os que separam, fundamentalmente, as
mulheres do novo tipo pertencentes às diversas camadas sociais. As operárias
sentem o antagonismo de classe com uma intensidade infinitamente maior que
as mulheres do tipo antigo, que não tinham consciência da luta social. Para a
operária, que deixou sua casa, que experimentou sobre si mesma toda a força
das contradições sociais e que se viu obrigada a participar ativamente na luta
de classes, uma ideologia de classe, clara e definida, adquire a importância de
uma arma na luta pela existência. A realidade capitalista separa de maneira
absoluta a Tatiana, de Gorki, da Tatiana de Nagrodskaia. Éesta realidade
capitalista que leva a proprietária de uma oficina a encontrar-se, por sua
ideologia, muito mais separada de uma de suas operárias do que a boa dona
de casa com relação a sua vizinha, a mulher de um operário. Esta realidade
capitalista torna aguda a sensação do antagonismo social entre as mulheres
trabalhadoras. Para esta categoria de mulheres do novo tipo só pode haver um
ponto comum: sua distinção qualitativa da mulher do passado, as propriedades
específicas que caracterizam a mulher independente, do tipo que temos
denominado celibatário. As mulheres do novo tipo, pertencentes a estas duas
classes sociais, passam por um período de antagonismo: as duas classes
lutam pela afirmação de sua personalidade; as de uma classe,
conscientemente, por princípio, as da outra classe, de forma elementar,
coletiva, sob o jugo do inevitável.
Mesmo, porém, que na nova mulher pertencente à classe operária a luta pela
afirmação de seu direito e de sua personalidade coincida com os interesses de
sua classe, as mulheres do novo tipo pertencentes a outras classes sociais têm
necessariamente que se defrontar com um obstáculo: a ideologia de sua
classe, que é hostil à reeducação do tipo de mulher. No meio burguês, a
insurreição da mulher adquire um caráter muito mais agudo e os dramas
morais da mulher do novo tipo são muito mais vivos, têm mais colorido,
oferecem maiores complicações.(3) No meio operário, não há nem podem
existir conflitos agudos entre a psicologia da mulher do novo tipo, em formação,
e a ideologia de sua classe. Tanto sua psicologia em formação como sua
ideologia de classe encontram-se em um processo de formação, em fase de
desenvolvimento.
O novo tipo da mulher, que é interiormente livre e independente, corresponde,
plenamente, à moral que elabora o meio operário no interesse de sua própria
classe. A classe operária necessita, para a realização de sua missão social, de
mulheres que não sejam escravas. Não quer mulheres sem personalidade, no
matrimônio e no seio da família, nem mulheres que possuam as virtudes
femininas - passividade e submissão. Necessita de companheiras com uma
individualidade capaz de protestar contra toda servidão, que possam ser
consideradas como um membro ativo, em pleno exercício de seus direitos, e,
conseqüentemente, que sirvam à coletividade e à sua classe.

A psicologia da mulher do novo tipo, da mulher independente e celibatária,


reflete sobre a das demais mulheres que permanecem ainda na retaguarda em
relação a seu tempo. Os traços característicos, formados na luta pela vida, das
trabalhadoras convertem-se pouco a pouco, gradativamente, nas
características das outras mulheres que ficaram atrasadas. Pouco importa que
as mulheres trabalhadoras sejam apenas minoria, que para cada mulher do
novo tipo haja duas, talvez três mulheres pertencentes ao tipo antigo. As
mulheres trabalhadoras são as que dão tom à vida e determinam a figura de
mulher que caracteriza uma época determinada.

As mulheres do novo tipo, ao criar os valores morais e sexuais, destróem os


velhos princípios na alma das mulheres que ainda não se aventuraram a
empreender a marcha pelo novo caminho. São estas mulheres do novo tipo
que rompem com os dogmas que as escravizavam.
A influência das mulheres trabalhadoras estende-se muito além dos limites de
sua própria existência. As mulheres trabalhadoras contaminam com sua crítica
a inteligência de suas contemporâneas, destróem os velhos ídolos e hasteiam
o estandarte da insurreição para protestar contra as verdades que as
submeteram durante gerações. As mulheres do novo tipo, celibatário e
independente, ao se libertarem, libertam o espfrito agrilhoado, durante séculos,
de outras mulheres ainda submissas.

É certo que a mulher do novo tipo já penetrou na literatura. Mas está ainda
muito longe de haver expulsado as heroínas de estrutura moral pertencentes
aos tempos passados. Tampouco conseguiu a mulher-individualidade
descartar-se do tipo de mulher esposa, eco do homem. Entretanto, é fácil
observar que ainda nas heroínas do tipo antigo se encontram, cada vez com
maior freqüência, as propriedades e os traços psicológicos que possibilitaram a
vida das mulheres do tipo celibatário e independente. Os escritores dotam
involuntariamente suas heroínas com sentimentos e características que não
eram, de modo algum, próprios das heroínas da literatura do período
precedente.(4)

A literatura contemporânea é rica, sobretudo, em figuras de mulheres do tipo


transitório. É rica em heroínas que têm simultaneamente as características da
mulher antiga e da mulher nova. Por outro lado, ainda nas mulheres do tipo
celibatário já formado, observa-se um processo de transformação dos novos
valores, que podem ser abafados pela tradição e por uma série de
pensamentos superados. A força dos séculos é demasiado grande e pesa
muito sobre a alma da mulher do novo tipo. Os sentimentos atávicos perturbam
e debilitam as novas sensações. As velhas concepções da vida prendem ainda
o espírito da mulher que busca sua libertação. O antigo e o novo se encontram
em continua hostilidade na alma da mulher. Logo, as heroínas contemporâneas
têm que lutar contra um inimigo que apresenta duas frentes: o mundo exterior e
suas próprias tendências, herdadas de suas mães e avós.

Como disse Hedwig Dohn, “os novos pensamentos já nasceram em nós, mas
os antigos ainda não morreram. Os restos das gerações passadas não
perderam sua força, ainda que possuamos a formação intelectual, a força de
vontade da mulher do novo tipo.” A reeducação da psicologia da mulher,
necessária às novas condições de sua vida econômica e social, não pode ser
realizada sem luta. Cada passo dado nesse sentido provoca conflitos, que
eram completamente desconhecidos das heroínas antigas. São esses conflitos
que inundam a alma da mulher, os que pouco a pouco chamam a atenção dos
escritores e acabam por converter-se em manancial de inspiração artística. A
mulher transforma-se gradativamente. E de objeto da tragédia masculina
converte-se em sujeito de sua própria tragédia.
O amor e a nova moral

Nos anos de 1910 e 1911, período durante o qual diminuiu na Rússia o


interesse pelos problemas sexuais, apareceu na Alemanha um estudo psico-
sociológico de Grete Meisel-Hess sobre a crise sexual, livro que não foi um
êxito público. O romance de Karin Michaelis, A Idade Perigosa, publicado
pouco depois, livro que carece de grande valor artístico e cuja audácia não vai
além dos limites permitidos pelas conveniências de bom tom literário, relegou a
segundo plano, com o seu imerecido êxito, a obra de Meisel-Hess.(5) Foi
qualificado pela crítica como “um livro bem escrito, mas sem nenhum valor
científico.” Unicamente entre as altas rodas intelectuais, entre a nata da
sociedade alemã, este livro foi saudado com aplausos por alguns e com
mostras de desagrado e indignação por outros, sorte comum a todo sincero
investigador da verdade.

O fato de que o livro de Meisel-Hess careça de uma série de qualidades


científicas, o fato de que se possa reprovar a falta de método e análise, o fato
de que não siga um procedimento sistemático, e que seu pensamento seja em
alguns momentos inseguro e sinuoso, e que repita coisas ja expostas, não
pode diminuir de modo algum o valor desse trabalho.

Um hálito de frescor se desprende do livro. A investigação da verdade enche


as páginas vivas e apaixonadas desta exposição, na qual se reflete uma
vibrante alma de mulher, que conhece perfeitamente a vida. Os pensamentos
de Meisel-Hess não são novos, flutuam no ambiente, enchem e saturam toda a
nossa atmosfera moral.

Os problemas que Meisel examina nos são conhecidos. Todos nós temos
meditado sobre eles, vivêmo-los em toda a sua dor. Não há nenhuma pessoa
que depois de refletir sobre esse problema não haja chegado por um caminho
ou por outro, às conclusões gravadas nas páginas do livro A Crise Sexual.
Mas, fiéis à hipocrisia que nos domina, continuamos adorando publicamente o
velho ídolo: a moral burguesa. O mérito de Meisel-Hess é semelhante ao do
menino do conto de Andersen. Meisel-Hess atreveu-se a gritar à sociedade
“que o rei está nu”, ou seja, que a moral sexual contemporânea não passa de
uma vã ficção.

Com efeito, as normas morais que regulam a vida sexual do homem não
podem ter mais do que duas finalidades, dois objetivos. Primeiro, assegurar à
humanidade uma descendência sã, normalmente desenvolvida: contribuir para
a seleção natural no interesse da espécie. Segundo, contribuir para o
desenvolvimento da psicologia humana, enriquecê-la com sentimentos de
solidariedade, de companheirismo, de coletividade. A moral sexual atual, como
moral que serve unicamente aos interesses da propriedade, não preenche
nenhuma destas duas finalidades. Todo o código complicado da moral sexual
contemporânea, com o matrimônio monogâmico indissolúvel, que raras vezes
está baseado no amor, e a instituição da prostituição, tão difundida e
organizada, não só não contribui para o saneamento e o melhoramento da
espécie, como produz efeitos contraditórios, ou seja, favorece a seleção natural
em sentido inverso. A moral contemporânea não faz mais do que conduzir a
humanidade pelo caminho da degenerescência ininterrupta.
Os matrimônios tardios, a esterilidade forçada nos períodos mais favoráveis
para a concepção, o recurso da prostituição completamente inútil do ponto de
vista do interesse da espécie, a ausência de um fator tão importante como o
êxtase amoroso nos matrimônios convencionais, no matrimônio legal e
indissolúvel; o fato de que os modelos femininos mais formosos, os mais
capacitados para provocar as emoções eróticas dos homens fiquem reduzidos
à esterilidade da prostituição; a condenação à morte que pesa sobre os filhos
do amor, produtos ilegais da espécie, freqüentemente os mais valiosos por
serem os mais sãos e vigorosos, tudo isto é resultado direto da moral corrente,
resultado que conduz irremediavelmente à realidade, decadência e
degenerescência física e moral da humanidade.
O propósito de Meisel-Hess, de harmonizar a moral sexual e o objetivo da
higiene da espécie, merece uma grande atenção e deve interessar
principalmente aos partidários da concepção materialista da história. A defesa
da jovem geração trabalhadora, a proteção da maternidade, da infância, a luta
contra a prostituição e outras reivindicações dos programas socialistas contêm,
no essencial, a higiene da espécie na sua mais ampla acepção. Tirar da moral
sexual a auréola do inviolável imperativo categorico, harmonizar a moral sexual
com as necessidades vitais e práticas e com as exigências da vanguarda da
humanidade, é a tarefa que deve figurar na ordem do dia e que requer
forçosamente a atenção reflexiva e consciente de todos os programas
socialistas.

Por muito valiosos que sejam os pensamentos de Meisel-Hess sobre essa


questão, ultrapassaríamos indubitavelmente os limites do ensaio se nos
dedicássemos a analisar detalhadamente esta parte do livro. Portanto, somente
examinaremos, aqui, a segunda parte do problema sexual. Unicamente
estudaremos as respostas, não menos valiosas e interessantes de Meisel-Hess
à segunda pergunta: atingem seus fins as formas atuais da moral sexual? Ou
seja, contribuem para desenvolver no homem sentimentos de solidariedade, de
companheirismo e consequentemente para o enriquecimento da psicologia
humana?

Depois de submeter a uma análise sistemática as três formas fundamentais da


união entre os sexos, o matrimônio legal, a livre união e a prostituição, Meisel-
Hess chega a uma conclusão pessimista, porém inevitável, de que no mundo
capitalista todas essas formas, tanto umas como outras, marcam e deformam a
alma humana e contribuem para a perda de qualquer esperança de se
conseguir uma felicidade sólida e duradoura, numa comunidade de almas
profundamente humanas: no estado invariável e estagnado da psicologia
contemporânea não há solução possível para a crise sexual.

Somente uma transformação fundamental da psicologia humana poderá


transpor a porta proibida, somente o enriquecimento da psicologia humana no
potencial do amor pode transformar as relações entre os sexos e convertê-las
em relações impregnadas de verdadeiro amor, dotadas de uma afinidade real,
em uniões sexuais que nos tomem felizes. Porém, uma transformação desse
gênero exige inevitavelmente a transformação fundamental das relações
econômico-sociais: isto é, exige o estabelecimento do regime comunista.
Quais são os defeitos fundamentais, as partes sombrias do matrimônio legal?
O matrimônio legal está fundado em dois princípios igualmente falsos: a
indissolubilidade, por um lado, e o conceito de propriedade, da posse absoluta
de um dos cônjuges pelo outro.

A indissolubilidade do matrimônio legal está baseada numa concepção


contrária a toda ciência psicológica; na invariabilidade da psicologia humana no
transcurso de uma longa vida. A moral contemporânea obriga o homem a
encontrar sua felicidade a qualquer preço e, ao mesmo tempo, exige dele que
descubra esta felicidade na primeira tentativa, sem equivocar-se nunca. A
moral contemporânea não admite que o homem se equivoque na sua escolha
entre milhares de seres que o cercam. Necessariamente o homem tem que
encontrar uma alma que se harmonize com a sua, um segundo único eu que o
fará feliz no casamento. Quando um ser humano se equivoca na sua escolha,
principalmente se o ser que vacila e se perde na busca do ideal é uma mulher,
a sociedade, tão exigente e deformada pela moral contemporânea, não o
acode. Pouco importa à sociedade que a alma e o coração de uma mulher que
se equivoca, se destrocem no fragor das decepções. Não a ajudará, mas, ao
contrário, a perseguirá com fúria vingativa para, inexoravelmente, condená-la.

A delicada flor da moral sexual é uma felicidade adquirida à custa da


escravidão da mulher à sociedade. Uma leal separação do casal é considerada
pela atual sociedade, interessada unicamente na idéia da propriedade e não
nos destinos da espécie, nem sequer na felicidade individual, como a ofensa
maior que se lhe pode infligir. Entretanto, nada mais certo, observa com grande
tristeza Meisel-Hess, do que a semelhança entre o matrimônio e uma casa
habitada. Suas más condições só são descobertas após habitá-la por algum
tempo. “Se nos vemos obrigados a mudar freqüentemente de casas sem
conforto e pouco apropriadas a nossas necessidades, sentimo-nos como
perseguidos pela má estrela. Mas, indiscutivelmente, a situação se toma muito
mais terrível se a necessidade nos obriga a viver todo o resto da existência em
péssimas condições”. “A transformação das uniões amorosas no curso da vida
humana” - continua Meisel-Hess - “e durante o processo de evolução de uma
individualidade é um fato que terá que ser reconhecido pela sociedade futura
como algo normal e inevitável.”

“A indissolubilidade do matrimônio legal é ainda mais absurda se leva em conta


que a maioria dos casamentos se realizam às cegas, isto é, as duas partes, o
homem e a mulher, só têm uma idéia confusa uma da outra. Não éapenas o
fato de que um dos cônjuges desconheça completamente a natureza
psicológica do outro, mas algo muito mais grave. Os esposos ignoram, ao
contrair o matrimônio legal, que será indissolúvel, se existe entre eles uma
afinidade física, harmonia sem a qual não é possível a felicidade”.

As noites de provas, praticadas com tanta freqüência na Idade Média, dizem


Meisel-Hess, não são de modo algum uma absurda indecência. Praticadas em
outras condições e tendo como finalidade o interesse da espécie e
consideradas um meio de assegurar a felicidade individual, poderiam, inclusive,
conquistar direito à cidadania.
O segundo fator que envenena o matrimônio legal é a idéia de propriedade, de
posse absoluta de um dos cônjuges pelo outro. Não pode haver, na realidade,
um contra-senso maior. Dois seres, cujas almas só têm raros pontos de
contato, têm necessariamente que adaptar-se um ao outro, em todos os
diversos aspectos de seu múltiplo eu. O absolutismo da posse encerra,
irremediavelmente, a presença contínua desses dois seres, associação que é
tão doentia para um como para outro. A idéia da posse não deixa livre o eu,
não há momento de solidão para a própria vontade e, se a isto se acrescenta a
coação exercida pela dependência econômica, já não fica nem sequer um
pequeno recanto próprio. A presença contínua, as exigências inevitáveis que
se fazem ao objeto possuído são a causa de como um ardente amor se
transforma em indiferença, essa terrível indiferença que leva dentro de si
raciocínios insuportáveis e mesquinhos. Com efeito: temos necessariamente
que estar de acordo com MeiselHess quando diz que uma vida em comum
demasiado limitada é a causa principal que faz murchar a delicada flor
primaveril do mais puro entusiasmo amoroso. Quantas precauções uma alma
deve ter com a outra, que imensas reservas de afetuoso calor são necessárias
para que se possa colher, já no outono, os frutos saborosos de uma profunda e
indissolúvel adesão entre duas pessoas!

Não é só isso. Os fatores de indissolubilidade e propriedade, fundamentos do


matrimônio legal, exercem um efeito nocivo sobre a alma humana. Estes dois
fatores exigem poucos esforços psíquicos para conservar o amor de um
companheiro de vida, porquanto se está ligado a ele, indissoluvelmente, por
correntes exteriores. A forma atual do matrimônio legal não faz, portanto, mais
que empobrecer o espírito e não contribui de modo algum para a acumulação
na humanidade de reservas desse grande amor que foi a profunda nostalgia de
toda a vida do gênio russo Tolstoi.

Deforma-se, ainda mais, a psicologia humana com outro aspecto da união


sexual: a prostituição.

Pode haver algo mais monstruoso do que o fato amoroso degradado até ao
ponto de se fazer dele uma profissao?

Deixemos de lado todas as misérias sociais que vêm unidas à prostituição, os


sofrimentos físicos, as enfermidades, as deformações e a degenerescência da
raça, e detenhamo-nos somente ante a questão da influência que a prostituição
exerce sobre a psicologia humana. Não há nada que prejudique tanto as almas
como a venda forçada e a compra de carícias de um ser por outro com que não
tem nada em comum. A prostituição extingue o amor nos corações.

A prostituição deforma as idéias normais dos homens, empobrece e envenena


o espírito. Rouba o que é mais valioso nos seres humanos, a capacidade de
sentir apaixonadamente o amor, essa paixão que enriquece a personalidade
pela entrega dos sentimentos vividos. A prostituição deforma todas as noções
que nos levam a considerar o ato sexual como um dos fatores essenciais da
vida humana, como o acorde final de múltiplas sensações físicas, levando-nos
a estimá-lo, em troca, como um ato vergonhoso, baixo e grosseiramente
bestial. A vida psicológica das sensações na compra de carícias tem
repercussões que podem produzir conseqüências muito graves na psicologia
masculina. O homem acostumado à prostituição, relação sexual na qual estão
ausentes os fatores psíquicos, capazes de enobrecer o verdadeiro êxtase
erótico, adquire o hábito de se aproximar da mulher com desejos reduzidos,
com uma psicologia simplista e desprovida de tonalidades. Acostumado com as
carícias submissas e forçadas, nem sequer tenta compreender a múltipla
atividade a que se entrega a mulher amada durante o ato sexual. Esse tipo de
homem não pode perceber os sentimentos que desperta na alma da mulher. É
incapaz de captar seus múltiplos matizes. Muitos dos dramas têm como causa
essa psicologia simplista com que o homem se aproxima da mulher, e que foi
engendrada pelas casas de lenocínio. A prostituição estende, de modo
inevitável, suas asas sombrias tanto sobre a cabeça da mulher livremente
amada como sobre a esposa ingênua e amorosa e sobre a amante
intuitivamente exigente. A prostituição envenena implacavelmente a felicidade
do amor das mulheres que buscam no ato sexual o desfecho de uma paixão
correspondida, harmoniosa e onipotente.(6)

A mulher normal busca no ato sexual a plenitude e a harmonia. O homem, pelo


contrário, formado como está na prostituição, que extermina a múltipla vibração
das sensações do amor, entrega-se apenas a um pálido e uniforme desejo
físico que deixa em ambas as partes, insatisfação e fome psíquica. A
incompreensão mútua cresce quanto mais desenvolvida está a individualidade
da mulher quanto maiores são suas exigências psíquicas, o que traz como
resultado uma grave crise sexual. Portanto, a prostituição é perigosa, pois sua
influência se estende muito além de seu próprio domínio.

Meisel-Hess diz:

“Deixando de lado a questão da degenerescência fisiológica da humanidade,


as enfermidades venéreas, o empobrecimento fisico da espécie, levaremos em
conta ainda outro fator psicológico que obscurece os impulsos morais, mancha
e deforma o sentimento erótico e impede que o homem e a mulher se
compreendam cada vez menos e não saibam gozar sem se enganar
mutuamente.”

A terceira forma das relações sexuais, a união livre, traz dentro de si, também,
muitos aspectos igualmente sombrios. As imperfeições dessa forma sexual são
de um caráter reflexo: o homem de nossa época vê a união livre com uma
psicologia já deformada por uma moral falsa e doentia, fruto do matrimônio
legal, por um lado, e do lúgubre abismo da prostituição, por outro. O amor livre
choca-se com dois obstáculos inevitáveis: a incapacidade para sentir o amor
verdadeiro, essência do nosso mundo individualista, e a falta de tempo
indispensável para entregar-se aos verdadeiros prazeres morais. O homem
atual não tem tempo para amar. Nossa sociedade, fundada sobre o princípio da
concorrência, sobre a luta, cada vez mais dura e implacável, pela subsistência,
para conquistar um pedaço de pão, um salário ou um ofício, não deixa lugar ao
culto do amor. A pobre Aspásia esperará, inutilmente, nos dias de hoje, sobre o
leito coberto de rosas, o companheiro de seus prazeres. Aspásia não pode
repartir seu leito com um homem grosseiro, de nível moral indigno dela. Mas o
homem moralmente nobre não tem tempo para passar as noites a seu lado.

Meisel-Hess observa, com toda razão, um fato que se dá com extraordinária


freqüência: o homem do nosso tempo considera o amor-paixão como a maior
das desgraças que lhe pode acontecer. O amor-paixão é um obstáculo para a
realização dos objetivos essenciais de sua vida: a conquista de uma posição,
de um capital, de uma colocação segura, da glória, etc. O homem tem medo
dos laços de um amor forte e sincero que o separaria, possivelmente, do
principal objetivo de sua vida. A livre união, no complicado ambiente que nos
rodeia, exige por sua vez uma perda de tempo e de forças morais infinitamente
maiores do que um matrimônio legal ou do que as carícias compradas.

Os encontros ocupam horas preciosas para os negócios. Ao mesmo tempo


milhares de demônios ameaçam o casal unido unicamente pelos laços do
amor. Uma casualidade é suficiente para que se origine um desacordo
momentâneo e, imediatamente, se produza a separação. O amor livre, nas
condições atuais da sociedade, termina sempre numa separação ou num
matrimônio legal.
Segundo Meisel-Hess, não nasceu ainda o homem forte e consciente que seja
capaz de considerar o amor como parte integrante da totalidade de seus
objetivos vitais. Por esta razão, o homem atual, absorvido por sérios trabalhos,
prefere abrir a bolsa e manter uma amante ou comprometer-se com uma
mulher, dando-lhe seu nome e tomando sob sua responsabilidade a carga de
uma família legal. Tudo isto é melhor do que perder um tempo tão valioso e
dilapidar suas energias nas horas entregues aos prazeres do amor.

A mulher, particularmente as mulheres que vivem de um trabalho independente


(este tipo de mulher Constitui 40 ou 50%, em todos os países civilizados), tem
que enfrentar o mesmo dilema que o homem: vêem-se obrigadas a escolher
entre o amor e a profissão. A situação da mulher que trabalha se complica
ainda mais com a maternidade. É suficiente determo-nos um momento na
biografia das mulheres que se distinguiram na vida, para convencermo-nos do
conflito inevitável entre o amor e a maternidade, por um lado, e a profissão e a
vocação, por outro. Talvez o motivo pelo qual as exigências da mulher
independente, em relação ao homem, aumentem cada vez mais, seja
precisamente o fato de que esse tipo de mulher deposita na balança da
felicidade do amor livre, além de sua alma, seu trabalho querido, uma profissão
conquistada. Devido a isto, esta mulher exige em troca, como compensação
por tudo a que renunciou, o mais rico dom: a alma do homem.
A união livre sofre as conseqüências da ausência de um fator moral, da falta de
consciência e um dever interior. No estado atual das relações sociais, não há
motivo para se acreditar que esta forma de união sexual seja bastante forte
para ajudar a humanidade a sair da encruzilhada em que se encontra a crise
sexual, solução que esperam, entretanto, os partidários do amor livre. A
solução para este complicado problema só é possível mediante uma
reeducação fundamental de nossa psicologia, reeducação esta que, por sua
vez, só é possível por uma transformação de todas as bases sociais que
condicionam o conteúdo moral da Humanidade. As medidás e reformas
pertencentes ao domínio da política social, que indica Meisel-Hess como um
remédio, não contêm no fundamental nada essencialmente novo.
Correspondem, completamente, às reivindicações do programa socialista:
independência econômica da mulher, verdadeira proteção e segurança à
maternidade e à infância, luta contra a prostituição em sua base econômica,
supressão da noção de filhos legítimos e ilegítimos, substituição do matrimônio
religioso pelo matrimônio civil, facilmente anulável, reconstrução fundamental
da sociedade segundo os prirtcípios comunistas. O mérito de Meisel-Hess não
fica, pois, nas reivindicações político-sociais, que julga necessárias e que são
análogas às dos programas socialistas, O que éverdadeiramente essencial em
sua detalhada investigação em busca da verdade sexual, é que entrou
inconscientemente, sem ser socialista militante, no único caminho de solução
possível do problema sexual. Mas, todas as reformas sociais, condições
indispensáveis para as novas relações entre os sexos, serão insuficientes para
resolver a crise sexual se, ao mesmo tempo, não se forma uma força criadora
poderosa, capaz de aumentar o potencial de amor da humanidade.
A perspicácia intelectual de Meisel-Hess é o que leva esta escritora à mesma
conclusão, de modo completamente intuitivo.

Meisel-Hess compreendeu que toda a atenção da sociedade no que se refere à


educação e à formação do espírito, no domínio das relações sexuais, deve
modificar-se.

A união dos sexos, como a entende Meisel-Hess, isto é, a união fundamentada


numa profunda identificação, na harmoniosa consonância de corpós e de
almas, será por muito tempo o ideal da humanidade fritura. Porque não se deve
esquecer que o matrimônio baseado no verdadeiro amor é algo que se dá
raramente, O amor verdadeiro só ocorre a poucos.
Milhões de seres não conheceram na vida seus encantos. Qual será, pois, o
destino destes deserdados? Estarão para sempre condenados ao matrimônio
de conveniência? Não terão outro recurso, além da prostituição? Terão que se
propor eternamente o dilema, proposto à atual sociedade, de enfrentar o raro
amor verdadeiro ou de padecer de fome sexual?

Meisel-Hess prossegue na sua investigação e descobre nova solução. Onde


não existe o amor verdadeiro este é substituído pelo amor jogo. Para que o
amor verdadeiro chegue a ser patrimônio de toda a humanidade é preciso
passar por difícil, porém enobrecedora escola de amor. O amor jogo é também
uma escola, é um meio de acumulação do potencial do amor na psicologia
humana.
Que será este amor jogo, no qual Meisel-Hess baseia tantas esperanças?
O amor jogo, em suas diversas formas, encontra-se em todas as épocas da
história da humanidade. Nas relações entre a antiga hetaira e seu amigo, no
amor galante da época da Renascença entre a cortesã e seu amante protetor,
na amizade erótica da modista, livre como um pássaro, e seu companheiro
estudante. Em todas estas relações podemos encontrar facilmente os
elementos principais deste sentimento. Não é o Eros que a tudo devora, que
exige a plenitude e a posse absoluta, mas tampouco é a brutal sexualidade
reduzida meramente ao ato fisiológico. O amor jogo que nos descreve Meisel-
Hess não pode ser tampouco o amor nascido de uma psicologia simplista.
O amor jogo é exigente. Seres que se aproximam unicamente por causa de
uma simpatia mútua, que só esperam um do outro a amabilidade e o sorriso da
vida, não podem permitir que se torture impunemente sua alma, não podem
consentir que se esqueça sua personalidade nem que se ignore seu mundo
interior. O amor jogo, que exige dos dois seres unidos maior atenção mútua,
mais delicadezas em todas as suas relações, pode acabar no homem, pouco a
pouco, com o egoísmo profundo, que marca hoje em dia, indelevelmente, todos
os seus sentimentos amorosos. Uma atitude solícita em relação à alma do
outro, além de servir de estimulo aos sentimentos de simpatia, desenvolve a
intuição, a sensibilidade e a delicadeza.

Em terceiro lugar, o amor jogo, por não ter como ponto de partida o princípio da
posse absoluta, acostuma os homens a entregar à pessoa amada a parte mais
agradável de seu eu, a parte que faz a vida mais agradável e harmoniosa.
Admite Meisel-Hess que este amor jogo iniciaria os homens numa virtude
superior. Ensiná-los-ia a não entregar-se inteiramente, a não ser quando
encontrassem um sentimento constante e profundo. A tendência atual leva-nos
a atentar contra a personalidade do outro, desde o primeiro beijo. Estamos
dispostos a entregar totalmente nosso coração, embora o outro ainda não sinta
nenhuma atração. E necessário não esquecer nunca que unicamente o
sagrado amor verdadeiro pode ter suficiente força para conceder direitos.

Há ainda outras vantagens no amor jogo ou amizade erótica. Esta relação


sexual ensina os homens a resistir àpaixão que degrada e oprime o indivíduo.
Meisel-Hess afirma: “este ato espantoso que podemos classificar de
penetração pela violência no eu do outro, não pode dar-se no amor jogo. O
amor jogo exclui o pecado maior do amor: “A perda da personalidade na
corrente da paixão”. A humanidade contemporânea vive sob o sombrio signo
da paixão, sempre ávida a devorar o eu do outro. No romance de Lasswitz,
uma habitante de Marte replica àproposição de um habitante da Terra: “Neste
ligeiro jogo dos sentimentos, teria que descer e dobrar-me à escravidão da
paixão, perder minha liberdade, descer contigo àTerra... vossa terra é maior,
talvez, mais bela que nosso planeta, mas eu certamente morreria em sua
densa atmosfera. Pesados como vosso ar são vossos corações. E eu não sou
mais que Numa...”

A época atual caracteriza-se pela ausência da arte de amar. Os homens


desconhecem em absoluto a arte de saber conservar relações amorosas,
claras, luminosas, leves. Não sabem todo o valor que encerra a amizade
amorosa. O amor para os homens de nossa época é uma tragédia que
destroça a alma, ou um vaudeville. É preciso tirar a humanidade desse atoleiro:
ensinar aos homens a viver horas cheias de beleza, claras, sem grandes
cuidados. A psicologia do homem não estará aberta para receber o verdadeiro
amor, purificado de todos os seus aspectos sombrios, até que passe pela
escola da amizade amorosa. Cada novo amor (não nos referimos,
naturalmente, ao ato brutal, meramente fisiológico) em vez de empobrecer a
alma humana, contribui para enriquecê-la. “Um coração humano são e rico” -
diz Meisel-Hess - “não é um pedaço de pão que diminui à medida que nós o
comemos”. O amor é uma força que quanto mais se consome mais cresce.
“Amar sempre, amar profundamente, em todos os momentos da nossa vida,
amar sempre e cada vez com maior abnegação, é o destino ardente de todo
grande coração.” O amor em si é uma grande força criadora. Engrandece e
enriquece a alma daquele que o sente, tanto como a alma de quem o inspira.

Se a humanidade não tivesse o amor, sentir-se-ia roubada, deserdada e


desgraçada. O amor será seguramente o culto da humanidade futura. Hoje em
dia o homem necessita, para poder lutar, viver, trabalhar e criar, sentir-se
afirmado, reconhecido, O que se sente amado sabe que há alguém que
reconhece sua personalidade, em todo seu valor, e, precisamente pela
consciência de sentir-se afirmado, nasce a suprema alegria de viver. Mas, este
reconhecimento do eu, esta vitória sobre o fantasma ameaçador da solidão
moral, não se pode alcançar, de modo algum, com a satisfação brutal do
desejo fisiológico. “Só o sentimento de uma total harmonia com o ser amado
pode extinguir esta sede”. Só o verdadeiro amor pode nos dar a plena
satisfação. Portanto, a crise sexual é muito mais aguda quando as reservas do
potencial do amor são menores, quando os laços sociais são mais limitados,
quando a psicologia humana é mais pobre em sentimentos de solidariedade.

Desenvolver este imprescindível potencial do amor, educar, preparar a


psicologia humana para que esteja em condições de receber o verdadeiro
amor, esta é precisamente a finalidade que deve cumprir o amor jogo ou
amizade erótica.

Podemos dizer que o amor jogo não é mais que um substituto do verdadeiro
amor. “Isto não é suficiente”, dirão ainda alguns. Neste caso, responde Meisel-
Hess, que se atrevam a olhar em tomo de si e se dêem conta com o que
subsfituem na sociedade moderna o verdadeiro amor! A prostituição disfarçada
de verdadeiro amor! Que grande hipocrisia, que terríveis reservas de mentiras
sexuais se acumulam nesse aspecto! Vejamos um exemplo da vida tomada ao
acaso. Dois noivos se sentem possuídos pelo mesmo desejo. A severa moral
contemporânea proíbe sua satisfação e lhes impõe um decisivo, ainda não.
Portanto, o noivo vai à casa da prostituta, que não deseja suas carícias, mas
que tem que entregar-se a ele, enquanto a noiva se consome na espera da
autorização legal. Seria muito mais natural, e desde logo muito mais moral, que
estes dois seres, motivados por um mesmo desejo, encontrassem a mútua
satisfação de sua carne em si próprios, sem buscar a cumplicidade de uma
terceira pessoa, completamente alheia à situação que eles mesmos criaram.

Além dos aspectos fundamentais de caráter econômico-social, a prostituição


implica um fator psicológico determinante que está profundamente gravado no
espírito humano: a satisfação de uma necessidade erótica sem outra
preocupação ulterior, a liberdade de sua alma e de seu futuro, sem a
necessidade de se colocar aos pés de um ser interiormente alheio a seu eu. E
necessário dar liberdade a esse instinto natural. Não se pode enforcar um
enamorado com a corda do matrimônio. O amor jogo indica o caminho a seguir.
“Se queremos ser sinceros, se não admitimos a hipocrisia da moral e a mentira
sexual, não há motivo para negar a possibilidade de uma solução semelhante
para a humanidade colocada em grau superior da evolução social” - diz Meisel-
Hess.
Diante de uma série de reformas sociais, que Meisel-Hess assinala como uma
condição indispensável de todas as suas deduções morais, que delito pode
haver no fato do êxtase erótico - lançar um ser nos braços do outro?
Finalmente, os limites da amizade erótica são muito amplos e podem estender-
se ainda mais. Ocorre com muita freqüência que dois seres que se
aproximaram atraídos por uma livre simpatia cheguem a conhecer-se
mutuamente, ou seja, que do amor jogo nasça o amor verdadeiro. Para que
isto aconteça basta criar possibilidades objetivas. Quais são, pois, as deduções
e reivindicações práticas a que chega Meisel-Hess?

Em primeiro lugar, a sociedade terá que acostumar-se a reconhecer todas as


formas de união entre os sexos, mesmo que estas se apresentem diante dela
com contornos novos e desconhecidos. Mas sempre que correspondam a duas
condições: que não ofereçam perigo para a espécie e que seu fator
determinante não seja o jugo econômico. O ideal continuará sendo a união
monogâmica baseada num amor verdadeiro, porém sem as caracterísficas de
invariabilidade e indissolubilidade. A mudança será tanto mais evitável quanto
mais diversa for a psicologia do homem. O concubiriato ou monogamia
sucessiva será a forma fundamental do matrimônio. Porém, ao lado desta
relação sexual existe toda uma série de aspectos diversos de uniões amorosas
sempre dentro dos limites da amizade erótica.

A segunda exigência é o reconhecimento real, não somente de palavras, mas


de fato, da defesa da maternidade. A sociedade tem a obrigação de
estabelecer em todo o caminho da vida da mulher, de todas as formas
possíveis, postos de socorro que sustentem a mulher, moral e materialmente,
durante o período de maior responsabilidade em sua vida.

Por último, a fim de que as relações mais livres não pareçam o desenfreio total,
torna-se necessário rever todo o instrumental moral com que se equipa a
mulher solteira quando entra no caminho da vida.

A educação contemporânea somente tende a limitar, na mulher, os


sentimentos de amor. Esta educação é a causa dos corações destroçados, das
mulheres desesperadas, que se afogam na primeira tempestade. É preciso que
se abram para a mulher as múltiplas portas da vida. É preciso endurecer seu
coração e forjar sua vontade. Já é hora de ensinar à mulher a não considerar o
amor como a única base de sua vida e sim como uma etapa, como um meio de
revelar seu verdadeiro eu. É necessário que a mulher aprenda a sair dos
conflitos do amor, não com as asas quebradas e sim como saem os homens,
com a alma fortalecida. É necessário que a mulher aceite o lema de Goethe:
“Saber desprezar o passado no momento em que se quer e receber a vida
como se acabasse de nascer”. Afortunadamente, já se distinguem os novos
tipos femininos, as mulheres celibatárias para as quais os tesouros que a vida
pode oferecer não se limitam ao amor.

No domínio dos sentimentos do amor esse novo tipo de mulher não permite
que as correntes da vida sejam as que dirijam seu barco: o leme está nas mãos
do timoneiro experimentado, sua vontade enrijeceu na luta pela subsistência. A
velha exclamação: “É uma mulher com passado!”, é agora glosada pela
celibatária da seguinte forma: “Esta mulher não tem passado. Que triste destino
o seu!” É certo que na realidade o novo tipo de mulher ainda não existe em
grande número. É igualmente certo que a nova era sexual, fruto de uma
organização mais perfeita da sociedade, não começará imediatamente. A
deprimente crise sexual não poderá resolver-se de uma só vez, não poderá
deixar o caminho livre à moral do futuro, sem luta. Mas, é igualmente certo que
o caminho já foi encontrado e que ao longe brilha, de par em par, a porta
desejada.

O livro de Meisel-Hess nos facilita o fio de Ariadne no labirinto complexo das


relações sexuais, nos dramas psicológicos. Não falta mais nada do que utilizar
o precioso conjunto de pensamentos que nos oferece e extrair as
conseqüências em harmonia com as tarefas essenciais da classe que se eleva
ao primeiro posto na sociedade. Nossa tarefa será, portanto, após deixar de
lado pequenos detalhes sem importância, depois de sanar inexatidões
insignificantes, buscar também nesse problema, no domínio das relações entre
os sexos, na psicologia do amor, os princípios da nova cultura em marcha, cujo
triunfo se aproxima, inevitavelmente, isto é, os princípios da cultura proletária.
As relações entre os sexos

Entre os múltiplos problemas que perturbam a humanidade, ocupa,


indiscutivelmente, um dos primeiros postos, o problema sexual. Não há uma só
nação, um só povo em que a questão das relações entre os sexos não adquira
cada dia um caráter mais violento e doloroso. A humanidade contemporânea
passa por uma crise sexual aguda. Uma crise que se prolonga e que, portanto,
é muito mais grave e difícil de resolver.

No curso da história da humanidade não encontraremos, seguramente, outra


época na qual os problemas sexuais tenham ocupado, na vida da sociedade,
um lugar tão importante, atraindo como por arte de magia, as atenções de
milhões de homens. Em nossa época, mais do que em nenhuma outra da
história, os dramas sexuais constituem fonte inesgotável de inspiração para os
artistas de todos os gêneros da Arte.

Como a terrível crise sexual se prolonga, seu caráter crônico adquire maior
gravidade e mais insolúvel nos parece a situação presente. Por isto, a
humanidade contemporânea lança-se ardentemente sobre todos os meios
conjecturáveis que tomem possível uma solução para o maldito problema. Mas,
a cada nova tentativa de solução, mais se complica o complexo emaranhado
das relações entre os sexos, dando-nos a impressão de que seria impossível
descobrir o único fio que nos serviria para desatar o complicado nó. A
humanidade, atemorizada, precipita-se de um extremo ao outro. Mas, o círculo
mágico da questão sexual permanece tão hermeticamente fechado como
antes.

Os elementos conservadores da sociedade concluem que é imprescindível


voltar aos felizes tempos passados, restabelecer os velhos costumes
familiares, dar novo impulso às normas tradicionais da moral sexual. “É preciso
destruir todas as proibições hipócritas prescritas pelo código da moral sexual
corrente. E chegado o momento de se abandonar esta velharia inútil e
incômoda... A consciência individual, a vontade individual de cada ser é o único
legislador em uma questão de caráter tão íntimo” - ouve-se esta afirmação nas
fileiras do individualismo burguês. “A solução para os problemas sexuais só
poderá ser encontrada com o estabelecimento de uma nova ordem social e
econômica, com uma transformação fundamental de nossa atual sociedade” -
afirmam os socialistas. Precisamente, porém, este esperar pelo amanhã não
indica que tampouco nós conseguimos apoderar-nos do fio condutor?

A própria história das sociedades humanas nos oferece o caminho que


devemos seguir em nossa investigação; e que nos é ainda indicado pela
história da ininterrupta luta de classes e dos diversos grupos sociais, opostos
por seus interesses e suas tendências.

Não é a primeira vez que a Humanidade atravessa um período de aguda crise


sexual. Não é a primeira vez que as aparentemente firmes e claras prescrições
da moral cotidiana, no domínio da união sexual, são destruídas pelo afluxo de
novos ideais sociais. A humanidade passou por uma época de crise sexual
verdadeiramente aguda durante os períodos do Renascimento e da Reforma,
no momento em que uma formidável modificação social relegava a segundo
plano a aristocracia feudal, orgulhosa de sua nobreza, acostumada ao dominar
sem limitações, e em seu lugar emergia uma nova força social, a burguesia
ascendente, que crescia e se desenvolvia cada vez mais, com maior impulso e
poder. O código da moral sexual do mundo feudal, nascido no seio da
sociedade aristocrática, com um sistema de economia comunal e baseado nos
princípios autoritários de castas, devorava a vontade individual dos membros
dessa sociedade que tentavam permanecer isolados. O velho código moral
entrava em choque com novos princípios, que impunham à classe burguesa
em formação. A moral sexual da nova burguesia baseava-se em princípios
radicalmente opostos aos princípios morais mais essenciais do código feudal.
Em substituição ao princípio de castas, aparecia uma severa individualização:
os estreitos limites da pequena família burguesa. O fator de colaboração,
essencial na sociedade feudal, característica de sua economia comunal, tanto
como da economia regional, era substituído pelo princípio da concorrência. Os
últimos vestígios de idéias comunais, próprias dos diversos graus de evolução
das castas, foram ultrapassados pelo triunfante princípio da propriedade
privada. A humanidade, perdida durante o processo de transição, ficou em
dúvida, durante vários séculos, entre os dois códigos sexuais, de espírito tão
diverso, e permaneceu ansiosa por adaptar-se à situação, até o momento em
que a vida transformou as velhas normas, alcançando, pelo menos, uma forma
harmoniosa, uma solução quanto ao aspecto externo.

Porém, durante esta época de transição, tão viva e cheia de colorido, a crise
sexual, apesar de revestida de caráter crítico, não se apresentou de uma forma
tão grave e ameaçadora como em nossa época. Isto se deveu ao fato de que,
durante os gloriosos dias do Renascimento, durante aquele novo século,
iluminado pela nova cultura espiritual, que coloria o agonizante mundo da Idade
Média, pobre de conteúdo, apenas uma parte relativamente reduzida da
sociedade experimentou a crise sexual. O campesinato, camada social mais
considerável da época, do ponto de vista quantitativo, sofreu as conseqüências
da crise sexual de forma indireta, quando, por lento processo secular se
transformavam as bases econômicas em que esta classe se fundamentava,
isto é, unicamente à medida em que evoluíam as relações econômicas. As
duas tendências opostas lutavam nas camadas superiores da sociedade. Neste
terreno, enfrentavam-se os ideais e as normas das duas concepções diversas
da sociedade. E era onde, precisamente, a crise sexual, cada vez mais grave e
ameaçadora, fazia suas vítimas. Os camponeses rebeldes a qualquer
inovação, classe apegada a seus princípios, continuavam apoiando-se nos
sustentáculos das tradições e o código da moral sexual tradicional permanecia
inalterável. Só se transformava, não se abrandava. Adaptava-se às novas
condições da vida econômica, sob a pressão da grande necessidade. A crise
sexual, durante a luta entre o mundo burguês e o mundo feudal, não afetou a
classe tributária. E mais, ao arruinar-se, as tradições apegavam-se à classe
camponesa com maior força. Apesar de todas as tempestades que desabavam
sobre sua cabeça, que abalavam até o solo que pisavam, a classe camponesa,
em geral, e particularmente, os camponeses russos tentaram conservar,
durante séculos e séculos, em sua forma primitiva, os princípios essenciais de
seu código moral sexual.
O problema de nossa época apresenta um aspecto totalmente distinto. A crise
sexual não perdoa sequer a classe camponesa. Como doença infecciosa, não
reconhece nem graus, nem hierarquias, contamina os palácios, as aldeias e os
bairros operários, onde vivem amontoados milhares de seres. Penetra nos
lares burgueses, abre caminho até à miserável e solitária aldeia russa, elege
suas vitimas, tanto entre os habitantes da cidade provinciana burguesa da
Europa, quanto nos úmidos sótãos, onde se amontoa a família operária, e nas
enegrecidas choças do camponês. Para a crise sexual não há obstáculos nem
ferrolho. E um profundo erro acreditar que a crise sexual só alcança os
representantes das classes que têm uma posição econômica materialmente
segura. A indefinida inquietação da crise sexual franqueia, cada vez com maior
freqüência, a porta das habitações operárias, causando tristes dramas, que por
sua intensidade de dor, não tem nada a dever aos conflitos psicológicos do
mundo burguês. Porém, justamente porque a crise sexual não ataca somente
os interesses dos que tudo possuem, precisamente porque estes problemas
sexuais afetam também uma classe social tão numerosa como o proletariado
de nossos tempos, é incompreensível e imperdoável que esta questão vital,
essencialmente violenta e trágica, seja considerada com tanta indiferença.
Entre as múltiplas idéias fundamentais que a classe trabalhadora deve levar
em conta em sua luta para a conquista da sociedade futura, deve estar,
necessariamente, o estabelecimento de relações sexuais mais sadias e que,
portanto, tomem a humanidade mais feliz.

É imperdoável nossa atitude de indiferença diante de uma das tarefas


essenciais da classe trabalhadora. É inexplicável e injustificável que o vital
problema sexual seja relegado, hipócritamente, ao arquivo das questões
puramente privadas. Por que negamos a este problema o auxílio da energia e
da atenção da coletividade? As relações entre os sexos e a elaboração de um
código sexual que regulamente estas relações aparecem na história da
humanidade, de maneira invariável, como um dos fatores da luta social. Nada
mais certo do que a influência fundamental e decisiva das relações sexuais de
um grupo social e determinado no resultado da luta dessa classe com outra, de
interesses opostos.

O drama da humanidade atual é desesperador porque, enquanto diante de


nossos olhos são destruídas as formas banais de união sexual e são
desprezados os princípios que as regiam, das camadas mais baixas da
sociedade se elevam frescos aromas desconhecidos, que nos fazem conceber
esperanças risonhas sobre uma nova forma de vida e impregnam o espírito
humano com a nostalgia de ideais futuros, mas cuja realização não parece
possível. Nós, homens do século em que domina a propriedade capitalista, de
um século onde transbordam as agudas contradições de classe; nós, homens
imbuídos da moral individualista, vivemos e pensamos sob o funesto símbolo
de invencível alheiamento moral. A terrível solidão que o homem sente nas
imensas cidades populosas, nas cidades modernas tão irrequietas e
tentadoras; a solidão, que não é dissipada pela companhia de amigos e
companheiros, é que o impulsiona a buscar, com avidez doentia, a sua ilusória
alma gêmea, num ser do sexo oposto, visto que só o amor possui o mágico
poder de afugentar, embora momentaneamente, as angústias da solidão.
Em nenhuma outra época da história os homens sentiram com tanta
intensidade a solidão moral. Necessariamente tem que ser assim. A noite é
muito mais impenetrável quando ao longe vemos brilhar uma luz. Os homens
individualistas de nossa época, unidos por débeis laços à comunidade ou a
outras individualidades, vêem brilhar ao longe uma nova luz: a transformação
das relações sexuais mediante a substituição do cego fator fisiológico pelo
novo fator criador da solidariedade, da camaradagem.

A moral da propriedade individualista de nossos tempos começa a afogar os


homens. O homem contemporâneo não se contenta em criticar as relações
entre os sexos, em negar as formas exteriores prescritas pelo código da moral
vigente. Sua alma deseja a renovação da essência das relações sexuais,
deseja ardentemente encontrar o verdadeiro amor, essa grande força
confortadora e criadora que é a única capaz de afugentar a solidão de que
padecem os individualistas contemporâneos. Se é certo que a crise sexual está
condicionada em suas três partes pelas relações externas de caráter
econômico-social, não é menos certo que a outra quarta parte de sua
intensidade é devida, à nossa refinada psicologia individualista, que com tanto
cuidado a dominante ideologia burguesa cultivou. A humanidade
contemporânea, como disse, acertadamente, Meisel-Hess, é muito pobre em
potencial de amor. Cada um dos sexos busca o outro com a única esperança
de conseguir a maior satisfação possível de prazeres espirituais e físicos para
si. Cada um utiliza o outro como simples instrumento. O amante ou o noivo não
pensa nos sentimentos, no trabalho psicológico que se efetua na alma da
mulher amada.

Talvez não haja nenhuma outra relação humana como as relações entre os
sexos, na qual se manifeste com tanta intensidade o individualismo grosseiro
que caracteriza nossa época. Absurdamente se imagina que basta ao homem,
para escapar à solidão moral que o rodeia, o amor, exigir seus direitos sobre a
outra pessoa. Espera assim, unicamente, obter esta sorte rara: a harmonia da
afinidade moral e a compreensão entre dois seres. Nós, os indivíduos dotados
de uma alma que se fez grosseira pelo constante culto de nosso eu, cremos
que podemos conquistar sem nenhum sacrifício a maior das sortes humanas, o
verdadeiro amor, não só para nós, como também para nossos semelhantes.
Cremos poder conquistar isso sem dar em troca a nossa própria personalidade.

Pretendemos conquistar a totalidade da alma do ser amado mas, em


compensação, somos incapazes de respeitar a mais simples fórmula do amor:
acercarmo-nos do outro dispostos a dispensar-lhe todo o gênero de
considerações. Esta simples fórmula nos será unicamente inculcada pelas
novas relações entre os sexos, relações que já começaram a se manifestar e
que estão baseadas também, em dois princípios novos: liberdade absoluta, por
um lado, e igualdade e verdadeira solidariedade entre companheiros, por outro.
Entretanto, por enquanto, a humanidade tem que sofrer, ainda, a solidão moral
e não há outro remédio senão sonhar com uma época melhor na qual todas as
relações humanas se caracterizem por sentimentos de solidariedade, que
serão possíveis por causa das novas condições da existência. A crise sexual é
insolúvel sem que haja uma transformação fundamental da psicologia humana;
a crise sexual só pode ser vencida pela acumulação de potencial de amor.
Mas, essa transformação psíquica depende completamente da reorganização
fundamental das relações econômicas sobre os fundamentos comunistas. Se
recusarmos esta velha verdade, o problema sexual não terá solução.

Apesar de todas as formas de união sexual que a humanidade experimenta


hoje em dia, a crise sexual não se resolveu em nenhum lugar. Não se
conheceu em nenhuma época da história tantas formas diversas de união entre
os sexos. Matrimônio indissolúvel, com uma família solidamente constituída, e
a seu lado a união livre, passageira; o adultério conservado no maior segredo,
ao lado do matrimônio e da vida em comum de uma moça solteira com o seu
amante; o matrimônio por trás da Igreja, o matrimônio de dois, o matrimônio
triângulo e, inclusive, a forma complicada do matrimônio de quatro, sem contar
as múltiplas variantes da prostituição. Ao lado destas formas de união, entre os
camponeses e a pequena burguesia, encontramos vestígios dos velhos
costumes de casta, mesclados com os princípios em decomposição da família
burguesa e individualista; a vergonha do adultério, a vida em concubinato entre
o sogro e a nora e a liberdade absoluta para a jovem solteira. Sempre a mesma
moral dupla. As formas atuais de união entre os sexos são contraditórias e
complicadas, de tal modo, que nos interrogamos como é possível que o
homem que conservou em sua alma a fé na firmeza dos princípios morais
possa continuar admitindo essas contradições e salvar esses critérios morais
irreconciliáveis, que necessariamente se destróem um ao outro. Precisamente,
o trabalho a realizar consiste em fazer com que suija essa nova moral: é
preciso extrair do caos as normas sexuais contraditórias da época presente, as
premissas dos princípios que correspondem ao espírito da classe
revolucionária em ascensão.

Além do individualismo extremado, defeito fundamental da psicologia da época


atual, de um egocentrismo transformado em culto, a crise sexual agrava-se
muito mais com outros dois fatores da psicologia contemporânea: a idéia do
direito de propriedade de um ser sobre o outro e o preconceito secular da
desigualdade entre os sexos em todas as esferas da vida.

A idéia da propriedade inviolável do esposo foi cultivada com todo o esmero


pelo código moral da classe burguesa, com sua família individualista encerrada
em si mesma, construída totalmente sobre as bases da propriedade privada. A
burguesia conseguiu com perfeição inocular essa idéia na psicologia humana.
O conceito de propriedade dentro do matrimônio vai hoje em dia muito além do
que ia o conceito da propriedade nas relações sexuais do código aristocrático.
No curso do longo período histórico que transcorreu sobre o signo do princípio
de casta, a idéia da posse da mulher pelo marido (a mulher carecia de direitos
de propriedade sobre o marido) não se estendia além da posse física, mas sua
personalidade lhe pertencia completamente.

Os cavaleiros da Idade Média chegavam inclusive a reconhecer nas suas


esposas o direito de ter admiradores platônicos e de receber o testemunho
desta adoração pelos cavaleiros e menestréis. O ideal da posse absoluta, da
posse não só do eu físico, mas também do eu espiritual por parte do esposo, o
ideal, que admite uma reivindicação de direitos de propriedade sobre o mundo
espiritual e moral do ser amado, é que se formou na mente e foi cultivado pela
burguesia com o objetivo de reforçar os fundamentos da família, para
assegurar sua estabilidade e sua força durante o período de luta para
conquista de seu predomínio social. Esse ideal não só o recebemos como
herança, como também chegamos a pretender que seja considerado um
imperativo moral indestrutível. A idéia da propriedade se estende muito além do
matrimônio legal. É um fator inevitável que penetra até na união amorosa mais
livre. Os amantes de nossa época, apesar de seu respeito teórico pela
liberdade, só se satisfazem com a consciência da fidelidade psicológica da
pessoa amada. Com o fim de afugentar o fantasma ameaçador da solidão,
penetramos, violentamente, na alma do ser amado, com uma crueldade e uma
falta de delicadeza que será incompreensível à humanidade fritura. Da mesma
forma pretendemos fazer valer nossos direitos sobre o seu eu espiritual mais
intimo. O amante contemporâneo está disposto a perdoar mais facilmente ao
ser querido uma infidelidade física do que uma infidelidade moral e pretende
que lhe pertença cada partícula da alma da pessoa amada, que se estenda
mais além dos limites de sua união livre. Considera tudo isto como um
desperdício, como um roubo imperdoável de tesouros que lhe pertenciam,
exclusivameflte e, portanto, como um saque cometido à sua revelia.

Tem a mesma origem a absurda indelicadeza que cometem constantemente


dois amantes com relação a uma terceira pessoa. Todos tivemos ocasião de
observar um fato curioso que se repete continuamente: dois amantes, que mal
tiveram tempo de conhecer-se em suas relações múltiplas, apressam-se a
estabelecer seus direitos sobre as relações sexuais do outro e intervir no mais
sagrado e no mais intimo de sua vida. Seres que ontem eram dois estranhos,
hoje, unicamente porque os unem sensações eróticas, apressam-se a apossar-
se da alma do outro, a dispor da alma desconhecida e misteriosa sobre a qual
o passado gravou imagens inapagáveis e a instalar-se no seu interior como se
estivesse em sua própria casa. Esta idéia da posse recíproca de um casal
amoroso estende seu domínio de tal forma que pouco nos surpreende um fato
tão anormal quanto o seguinte: dois recém-casados viviam até ontem cada um
com a sua própria vida; no dia seguinte à sua união, cada um deles abre sem o
menor escrúpulo a correspondência do outro inteirando-se conseqüentemente,
do conteúdo da carta procedente de uma terceira pessoa que só tem relação
com um dos esposos e se converte em propriedade comum. Uma intimidade
desse gênero só se pode adquirir como resultado de uma verdadeira união
entre as almas no curso de uma longa vida em comum, de amizade posta à
prova. O que se busca, em geral, é legitimar essa intimidade, baseando-se na
idéia equivocada de que comunhão sexual entre dois seres é suficiente para
estender o direito de propriedade sobre o ser moral da pessoa amada.

O segundo fator que deforma a mentalidade do homem contemporâneo e que


agrava a crise sexual é a idéia de desigualdade entre os sexos, desigualdade
de direitos e desigualdade no valor de suas sensações psicofisiológicas. A
moral dupla, característica do código burguês e do código aristocrático,
envenenou durante séculos a psicologia de homens e mulheres e tomou muito
mais difícil livrar-se de sua influência venenosa do que das idéias referentes à
propriedade de um esposo sobre o outro, herdadas da ideologia burguesa. A
concepção de desigualdade entre os sexos, até no domínio psicofisiológico,
obriga à aplicação constante de medidas diversas para atos idênticos, segundo
o sexo que os haja realizado. Um homem de idéias avançadas no campo
burguês, que soube desde algum tempo superar as perspectivas do código da
moral em uso, será incapaz de subtrair-se àinfluência do meio ambiente e
emitirá um juízo completamente distinto, segundo se trate do homem ou da
mulher. Basta um exemplo vulgar: imaginemos que um intelectual burguês, um
cientista, um político, um homem de atividades sociais, ou seja, uma
personalidade, se enamore de sua cozinheira (fato que, aliás, se dá com
bastante freqüência) e chegue, inclusive, a casar-se com ela. Modificará a
sociedade burguesa por este fato sua conduta em relação à personalidade
desse homem? Porá em questão sua personalidade? Duvidará de suas
qualidades morais? Naturalmente, não. Agora vejamos outro exemplo: uma
mulher pertencente à sociedade burguesa, uma mulher respeitável,
considerada, uma professora, médica ou escritora; uma mulher, em suma, com
personalidade, se enamora de um criado e chega ao clímax do escândalo,
consolidando esta questão com um matrimônio legal. Qual será a atitude da
sociedade burguesa em relação a esta pessoa até agora respeitada? A
sociedade, naturalmente, a mortificará com seu desprezo. Mas, será muito
mais terrível se seu marido, o criado, possui uma bela fisionomia e outros
atrativos de caráter físico. Nossa hipócrita sociedade burguesa julgará sua
escolha da seguinte forma: até onde desceu essa mulher?

A sociedade burguesa não pode perdoar a mulher que se atreve a dar à


escolha do marido um caráter individual. Segundo a tradição herdada dos
costumes de casta, a sociedade pretende que a mulher continue levando em
conta, no momento de entregar-se, uma série de considerações de graus e
hierarquias sociais, a respeito do meio familiar e dos interesses da família. A
sociedade burguesa não pode considerar a mulher independente da célula da
família; é-lhe completamente impossível apreciá-la como personalidade fora do
círculo estreito das virtudes e deveres familiares.

A sociedade contemporânea vai muito mais longe que a ordem antiga na tutela
que exerce sobre a mulher. Não só lhe prescreve casar-se unicamente com
homens dignos dela, como lhe proíbe, inclusive, que chegue a amar um ser
que lhe é socialmente inferior. Estamos acostumados a ver como homens, de
nível moral e intelectual muito elevado, escolhem para companheira de vida
uma mulher insignificante e vazia, sem nenhum valor comparado ao valor do
esposo. Apreciamos este fato como completamente normal e que, portanto,
não merece sequer nossa consideração. Tudo que pode suceder é que os
amigos “lamentem que Ivan Ivanitch tenha se casado com uma mulher
insuportável”. O caso varia tratando-se de uma mulher. Então, nossa
indignação não tem limites e a expressamos com frases como a seguinte:
“Como é possível que uma mulher tão inteligente como Maria Petrovna possa
amar uma nulidade assim!... Teremos que por em dúvida sua inteligência...”

Que determina essa maneira diferente de julgar as coisas? A que princípio


obedece uma apreciação tão contraditória? Essa diversidade de critérios tem
origem na idéia da desigualdade entre os sexos, idéia que tem sido inculcada
na humanidade durante séculos e séculos e que acabou por apoderar-se de
nossa mentalidade, orgânica-mente. Estamos acostumados a valorizar a
mulher, não como personalidade, com qualidades e defeitos individuais,
independente de suas sensações psicofisiológicas. Para nós, a mulher só tem
valor como acessório do homem. O homem, marido ou amante, projeta sobre a
mulher sua luz; é a ele e não a ela que tomamos em consideração como o
verdadeiro elemento determinante da estrutura espiritual e moral da mulher.
Em troca, quando valorizamos a personalidade do homem, fazemos por
antecipação uma total abstração de seus atos no que diz respeito às relações
sexuais.

A personalidade da mulher, pelo contrário, valoriza-se em relação à sua vidá


sexual. Este modo de apreciar o valor de uma personalidade feminina deriva do
papel que representou a mulher durante séculos. A revisão de valores, neste
domínio essencial, só se faz, ou melhor dizendo, só se indica, de modo
gradual. A atenuação dessas falsas e hipócritas concepções só se realizará
com a transformação do papel econômico da mulher na sociedade, com sua
entrada nas fileiras do trabalho.

Os três fatores fundamentais que deformam a psicologia humana são os


seguintes: o egocentrismo extrema-do, a idéia do direito de propriedade dos
esposos entre si e o conceito da desigualdade entre os sexos no aspecto
psicofisiológico. Esses três fatores são os que travam o caminho que conduz à
solução do problema sexual. A humanidade não encontrará solução para este
problema até que haja acumulado em sua psicologia suficientes reservas de
sensações depuradas, até que se haja apoderado de sua alma o potencial do
amor, até que o conceito da liberdade no matrimônio e na união livre seja um
fato consolidado, em suma, até que o princípio da camaradagem haja triunfado
sobre os conceitos tradicionais de desigualdade e de subordinação nas
relações entre os sexos. Sem uma reconstrução total e fundamental da
psicologia humana é insolúvel o problema sexual.

Mas, não será essa condição prévia uma utopia desprovida de base, utopia na
qual os idealistas sonhadores baseiam suas considerações ingênuas?
Tentemos aumentar o potencial de amor da humanidade. Acaso os sábios de
todos os povos, desde Buda e Confúcio até Cristo, não se entregaram desde
tempos remotos a essa tarefa?

Entretanto, há alguém que creia que o potencial do amor aumentou na


humanidade? Reduzir a questão da crise sexual a utopias desse tipo, por muito
bem intencionadas que sejam, não significará praticamente um reconhecimento
de impotência e uma renúncia à busca de soluções possíveis?
Vejamos se isto é certo. A reeducação fundamental do ser humano no domínio
das relações sexuais não é algo impossível de se conseguir. A reeducação é
possível porque não é algo que esteja em contraposição com a vida real.
Precisamente, nos momentos atuais, observamos como se inicia um poderoso
deslocamento social e econômico, suficiente para engendrar novas bases de
vida no campo dos sentimentos e que, pelas condições que surgiram, estão de
acordo com as exigências assinaladas acima.

Na sociedade atual avança um novo grupo social que tenta ocupar o primeiro
posto e deixar de lado a burguesia, com sua ideologia de classe e seu código
de moral sexual individualista. Esta classe ascendente, de vanguarda, leva
necessariamente em seu seio os germens de novas relações entre os sexos,
relações que, forçosamente, estarão ligadas a seus objetivos sociais de classe.
A complexa evolução das relações econômico-sociais, que se verifica diante de
nossos olhos, que transtorna todas as nossas concepções sobre o papel da
mulher na vida sexual e destrói os fundamentos da moral sexual burguesa, traz
consigo dois fatos que, à primeira vista, parecem contraditórios. Por um lado,
observamos os esforços infatigáveis da humanidade para adaptar-se às novas
condições da economia social transformada, esforços que tendem ou a
conservar as formas antigas, dando-lhe um novo conteúdo (manutenção da
forma exterior do matrimônio indissolúvel e monógamo, mas ao mesmo tempo,
o reconhecimento de fato da liberdade dos esposos), ou ao contrário a
aceitação de novas formas que tragam em seu interior, ao mesmo tempo,
todos os elementos do código moral do matrimônio burguês (a união livre na
qual o direito de propriedade dos dois esposos unidos livremente ultrapassa os
limites do direito de propriedade do matrimônio legal). Por outro lado, não
podemos deixar de assinalar o aparecimento, vagaroso porém invencível, de
novas formas de união entre os sexos. Novas, não tanto pela forma, como pelo
caráter que anima os seus preceitos.

A humanidade sonda com inquietação os novos ideais. Mas, basta examiná-los


um pouco, detalhadamente, para neles reconhecer, apesar de seus limites não
estarem suficientemente demarcados, os traços característicos, pelos quais se
unem as tarefas do proletariado, classe social incumbida de se apoderar da
fortaleza do futuro. Aquele que quer encontrar, no labirinto das normas sexuais
contraditórias, os germens de relações futuras entre os sexos, mais sadias e
que prometam libertar a humanidade da crise sexual, tem, necessariamente,
que abandonar os bairros onde habitam as elites, com sua refinada psicologia
individualista, e olhar as casas amontoadas dos operários, nas quais, em meio
à obscuridade e, ao horror gerados pelo capitalismo, surgem, apesar de tudo,
fontes que vivificam o amor e abrem caminho a um novo tipo de entendimento
entre homens e mulheres.

Entre a classe operária, sob a pressão de duras condições econômicas e o


jugo implacável da exploração capitalista, observa-se o duplo processo a que
nos referimos. A influência destruidora do capitalismo, que aniquila todos os
fundamentos da família operária, obriga o proletariado a adaptar-se,
instintivamente, às condições do mundo que o cerca e provoca, portanto, uma
série de fatos referentes às relações entre os sexos, análogos aos que se
produzem, também, em outras camadas da sociedade. Devido aos salários
reduzidos, retarda-se, contínua e inevitavelmente, a idade de contrair
matrimônio do operário. Há um quarto de século, um operário podia casar-se
dos vinte e dois aos vinte e cinco anos. Hoje em dia, o proletariado não pode
estabelecer um lar antes dos trinta anos, aproximadamente (7). Além disso,
quanto mais desenvolvidas estão as necessidades culturais entre os operários,
mais valor concedem à possibilidade de seguir o ritmo na vida cultural, de ir ao
teatro, de assistir conferências, ler jornais, consagrar o tempo que o trabalho
não consome à luta sindical, à política, a uma atividade pela qual sentem
atração, à arte, à leitura, etc.

Tudo isto contribui para que o operário contraia matrimônio com maior idade.
Entretanto as necessidades fisiológicas não levam em conta o estado do bolso.
São necessidades vitais das quais não se pode prescindir e o operário solteiro,
tanto quanto o burguês solteiro, resolve seu problema na prostituição. Este fato
é um sintoma da adaptação passiva da classe operária às condições
desfavoráveis de existência. E, por causa do nível bastante baixo dos salários,
a família operária vê-se obrigada a resolver o problema do nascimento dos
filhos do mesmo modo que as famílias burguesas.

A freqüência dos infanticídios e o desenvolvimento da prostituição são fatos


que podem classificar-se dentro de uma só ordem. Ambos são meios de
adaptação passiva do operário à espantosa realidade que o cerca. Mas, o que
não se pode esquecer é que nesse processo não há nada que caracterize,
propriamente, o proletariado. Essa adaptação passiva é própria de todas as
classes sociais envolvidas pela evolução mundial do capitalismo.

A linha de diferenciação começa, precisamente, quando entram em jogo os


princípios ativos e criadores. A delimitação começa onde já não se trata de
uma adaptação, mas de uma reação à realidade que oprime. Começa onde
nascem e se expressam novos ideais, onde surgem tímidas tentativas de
relações sexuais dotadas de um espírito novo. Ainda mais: devemos assinalar
que o processo de reação se inicia, unicamente, entre a classe operária.

Isto não quer dizer, de modo algum, que as outras classes e camadas da
sociedade, principalmente a dos intelectuais burgueses que, pelas condições
de sua existência social, se encontra mais próxima da classe operária, não se
apoderem dos elementos novos que o proletariado cria e desenvolve. A
burguesia, impulsionada pelo desejo instintivo de injetar vida nova às suas
formas agonizantes, e diante da impotência de suas diversas formas de
relações sexuais, aprende rapidamente novas formas com a classe operária.
Mas, desgraçadamente, nem os ideais nem o código da moral sexual,
elaborados gradativamente pelo proletariado, correspondem à moral das
exigências burguesas de classe. Portanto, enquanto a moral sexual, nascida
das necessidades da classe operária, converte-se para ela num instrumento
novo da luta social, os modernismos de segunda mão que dessa moral extrai a
burguesia, não fazem mais do que destruir, definitivamente, as bases de sua
superioridade social.

A tentativa dos intelectuais burgueses de substituir o matrimônio indissolúvel


pelos laços mais livres, mais facilmente desligáveis do matrimônio civil, atinge
as bases da estabilidade social da burguesia, bases que não podem ser outras
senão a família monogâmica baseada no conceito da propriedade.

Na classe operária, sucede tudo ao contrário. A maior liberdade na união entre


os sexos condiz, totalmente, com as suas tarefas históricas fundamentais. E
até podemos dizer que derivam diretamente dessas tarefas. O mesmo sucede
com a negação do conceito de subordinação, no matrimônio, rompendo os
últimos laços artificiais da família burguesa. O contrário acontece, na classe
proletária. O fator de subordinação de um membro desta classe social a um
outro é o mesmo que o conceito de proletariado. Não convém, de modo algum,
aos interesses da classe revolucionária atar um de seus membros, visto que
cada um de seus representantes, independentes diante de tudo, tem a
incumbência e o dever de servir aos interesses de sua classe e não aos de
uma célula familiar isolada. O dever do membro da sociedade proletária é
antes de tudo contribuir para o triunfo dos interesses de sua classe, por
exemplo, atuar nas greves e participar em todo o momento da luta. A moral
com que a classe trabalhadora julga todos estes atos caracteriza com perfeita
clareza a base da nova moral.

Suponhamos que um reputado financista, movido unicamente por seus


interesses familiares, retire dos negócios seu capital, num momento crítico para
a empresa. Sua ação, avaliada do ponto de vista da moral burguesa não pode
ser mais evidente, porque os interesses da família devem estar em primeiro
lugar. Comparemos agora este ato com a atitude dos operários diante do fura-
greves, que retorna ao trabalho durante o conflito, para que sua família não
passe fome. Os interesses da classe figuram em primeiro lugar, neste exemplo.
Referimo-nos agora a um marido burguês que conseguiu, por amor e devoção
à família, manter afastada a mulher de seus interesses, à exceção dos deveres
de dona de casa e de mulher dedicada completamente aos cuidados dos filhos.
O julgamento da sociedade burguesa será: um marido ideal que soube criar
uma família ideal. Mas, qual seria a atitude dos operários para um membro
consciente de sua classe que tentasse manter sua mulher afastada da luta
social? A moral da classe exige, a custo inclusive da felicidade individual, a
custo da família, a participação da mulher na luta pela vida que transcorre fora
dos muros de seu lar. Manter a mulher em casa, colocar em primeiro lugar os
interesses familiares, propagar a idéia dos direitos de propriedade absoluta de
um esposo sobre sua mulher, são atos que violam o princípio fundamental da
ideologia da classe operária, que destróem a solidariedade e o
companheirismo, que rompem a união de todo o proletariado. O conceito de
posse de uma personalidade sobre a outra, a idéia de subordinação e de
desigualdade dos membros de uma só e mesma classe, são conceitos que
contrariam a essência do conceito de camaradagem, que é o princípio mais
fundamental do proletariado. Este princípio básico da ideologia da classe
ascendente é o que dá colorido e determina o novo código em formação da
moral sexual do proletário, pelo qual se transforma a psicologia da
humanidade, chegando a adquirir uma acumulação de sentimentos de
solidariedade e de liberdade, ao invés do conceito de propriedade: uma
acumulação de companheirismo ao invés dos conceitos de desigualdade e de
subordinação.
Toda classe ascendente, nascida como conseqüência de uma cultura material
distinta daquela que a antecedeu no grau anterior da evolução econômica,
enriquece toda a humanidade com uma nova ideologia que lhe é característica.
Esta afirmativa corresponde a uma velha verdade. O código da moral sexual
constitui parte integrante da nova ideologia. Portanto, basta pronunciar as
expressões ética proletária e moral proletária, para escapar da trivial
argumentação: a moral sexual proletária não é no fundo mais do que uma
superestrutura. Enquanto não se experimenta a total transformação da base
econômica, não pode haver lugar para ela. Como se uma ideologia, seja qual
for o seu gênero, não se formasse até que se produzisse a transformação das
relações econômico-sociais necessárias para assegurar o domínio da classe
que a gerou! A experiência da história ensina que a ideologia de um grupo
social e, conseqüentemente, a moral sexual se elaboram durante o próprio
processo da luta contra as forças sociais que se lhe opõem.
A classe revolucionária só pode fortalecer suas posições sociais com a ajuda
de novos valores espirituais tirados de seu próprio seio e que correspondam
totalmente às suas tarefas de força em ascensão. Só mediante novas normas e
ideais pode esta classe arrebatar o poder dos grupos sociais opostos.
A tarefa que corresponde, portanto, aos ideólogos da classe operária é buscar
o critério moral fundamental, produto dos interesses específicos da classe
operária, e harmonizar com este critério as nascentes normas sexuais.

Já é hora de compreender que, unicamente depois de haver ensaiado o


processo criador que se realiza mais embaixo, nas profundas camadas sociais,
processo que engendra necessidades novas, novos ideais e formas, será
possível visualizar o caminho, no caos contraditório das relações sexuais e
desemaranhar a embaraçada meada do problema sexual.

Devemos recordar que o código da moral sexual, em harmonia com as tarefas


fundamentais da classe, pode converter-se em poderoso instrumento, que
reforce a posição de combate da classe revolucionária. Por que não utilizar
este instrumento no interesse da classe operária, em sua luta para o
estabelecimento do regime comunista e, por sua vez, também, estabelecer
relações novas entre os sexos, que sejam mais perfeitas e felizes?
A nova mulher na literatura

O problema da existência de um novo tipo de mulher, isto é, da mulher


moderna, é de palpitante atualidade. Mas, será que existe, na realidade, este
novo tipo de mulher? Não será por acaso, um produto da imaginação criadora
dos literatos, sempre em busca de novidades sensacionais? E, no caso de
existir, como será e quem será esta mulher moderna?
Para constatar sua existência basta olhar a nossa volta. Uma breve análise,
uma não muito prolongada reflexão, é o suficiente para mostrar que a mulher
do novo tipo vive e que a encontramos na realidade.
A mulher moderna atua ao nosso lado. Fácil é conhecê-la. Nós nos
acostumamos a vê-la e a encontramos com grande freqüência na vida, em
todas as classes sociais, tanto entre as operárias como entre as mulheres
dedicadas ao estudo das ciências, como na modesta empregada e na artista
genial. O que surpreende é que esta nova mulher, que se dedica cada dia com
maior freqüência a todas as manifestações da vida, não aparece na literatura
com seus traços próprios, como heroína, nem nas novelas dos últimos tempos.
A vida, nas últimas décadas, forjou, na luta pesada da necessidade vital, outra
mulher de tipo psicológico completamente desconhecido até agora. Uma
mulher com novas necessidades e emoções. Enquanto a literatura continuava
apresentando mulheres do velho tipo; enquanto os literatos se esforçavam em
desenhar tipos de mulheres do passado, que a vida fazia desaparecer, a
realidade russa do período compreendido entre 1870 e 1880 produzia figuras
do novo tipo de mulher que nascia para a vida, plenas de luminosidade e
encanto. Mas os escritores passavam ao seu lado sem senti-las nem ouvi-las;
eram incapazes de assimilá-las e distingui-las... Turguenev é o único escritor
que se atreveu a esboçar estas figuras, mas as imagens que nos apresenta
são muito mais inexpressivas, muito mais pobres do que a realidade. No
poema em prosa dedicado à moça russa, Turguenev inclina-se ante a
comovedora figura da mulher que se atreveu a transpor o umbral sagrado.
As mulheres heróicas, cujos nomes ficaram gravados nas páginas da história,
foram seguidas por uma grande quantidade de desconhecidas que pereceram
como abelhas em um favo de mel destroçado. Seus cadáveres semearam no
caminho pedregoso que leva ao perfeito, ao desejado futuro. O número de
mulheres do novo tipo aumentava, multiplicava-se no transcurso dos anos, mas
os escritores e os poetas passavam a seu lado sem vê-las, como se uma
espessa venda lhes cobrisse os olhos. A visão do escritor, apaixonada pelos
tipos tradicionais de mulher, não podia penetrar nem compreender a nova
realidade que passava diante de seus olhos. A literatura evoluía, aperfeiçoava-
se e seguia novos caminhos; enriquecia seus meios de expressão com novos
matizes e palavras. Mas, em compensação, continuava obstinada em nos
apresentar débeis criaturas enganadas, mulheres abandonadas, entregues à
dor, esposas ávidas de vingança, fêmeas sedutoras, almas “sem vontade, não
compreendidas”, e encantadoras jovens “puras e sem personalidade”.
Na mesma época em que Flaubert escrevia Madame Bovary, vivia a seu lado
em carne e osso Jorge Sand, a mais luminosa precursora do novo tipo de
mulher que despertava para a vida.

Tolstoi estudava a psicologia estreita e limitada da mulher, produto da


escravidão de que foi vítima no correr dos anos, em Ana Karenina. Sentia
prazer em acariciar a imagem encantadora da inofensiva Ketty; divertia-se com
a ardente natureza de mulher de Natacha Rostova, enquanto a seu lado a
implacável realidade acorrentava duramente as mulheres do novo tipo em
formação, cujo número crescia sem cessar. Os grandes talentos do século XIX
não sentiram a necessidade de substituir a graça sedutora de suas heroínas
pelas qualidades características da nova mulher em formação. Os escritores
mais modernos dos últimos dez ou quinze anos, particularmente as mulheres
escritoras, no entanto não podiam deixar passar em silêncio o novo tipo
feminino que se afirmava ao seu redor: a nova mulher acaba sendo retratada
nas páginas de suas últimas obras.

Atualmente a nova mulher não é mais uma novidade sensacional. Encontrâmo-


la na novela de tese de vanguarda, em que se estuda um complicado problema
e também na narração moderna, na narração sem nenhuma pretensão literária.
O tipo de mulher nova varia, como é natural, de um a outro país. A classe
social a que pertencem essas novas mulheres lhes imprime igualmente um
caráter particular. Também podem variar, consideraveLmente, os traços
psicológicos, os desejos e a finalidade vital da heroína. Mas, por muito
diferente que se apresentem diante de nós estas novas mulheres, é certo que
encontramos em todas elas um traço comum, algo que podemos considerar
“racial” e que nos permite diferenciálas imediatamente das mulheres do
passado. As mulheres do passado viam o mundo de maneira distinta e reagiam
diante dele de outra forma; encaravam a vida de modo igualmente distinto. Não
é necessário possuir conhecimentos especiais, históricos ou literários, para
reconhecer a fisionomia da nova mulher, no meio da densa multiplicidade do
passado que a circundava. Nem sempre nos damos conta de quais são esses
novos traços, nem em que consiste a diferença; mas é um fato evidente que
em alguma parte, na região do subconsciente possivelmente, temos nosso
juízo plenamente formado, e com ele podemos classificar e determinar os
novos caracteres femininos.

Determinemos, pois, quem são essas mulheres que constituem o novo tipo
feminino. Desde logo, não são as encantadoras e “puras” jovens cujas novelas
terminam com o matrimônio feliz, nem as esposas que sofrem resignadamente
as infidelidades do marido, nem as casadas culpadas de adultério. Não são,
tampouco, as solteironas que dedicaram toda a sua vida a chorar um amor
desgraçado de juventude, nem as “sacerdotisas do amor”, vítimas das tristes
condições da vida ou de sua própria natureza viciada. Não. Estas mulheres são
algo novo, isto é, um quinto tipo de heroína desconhecida anteriormente,
heroínas que se apresentam àvida com exigências próprias, heroínas que
afirmam sua personalidade; heroínas que protestam contra a submissão da
mulher dentro do Estado, no seio da família, na sociedade; heroínas que
sabem lutar por seus direitos. Representam um novo tipo de mulher. São
mulheres celibatárias, a denominação mais apropriada que podemos dar a este
novo tipo.

O tipo essencial da mulher do passado recente era a esposa, a mulher


somente eco, instrumento, apêndice do marido. A nova mulher, celibatária, está
bem longe de ser um eco do marido. Cessou de ser um simples reflexo do
homem. Esta mulher possui seu próprio mundo interior, vive entregue a
interesses humanos generosos. É independente, exterior e interiormente. Há
vinte e cinco anos, uma definição desta classe carecia de sentido, era vazia de
significado. Os quadros eram simples e definidos: a jovem, a mãe, a literata, a
amante ou a mundana do gênero de Elena Kurakin, na novela Guerra e Paz,
de Tolstoi. Esses tipos eram modelos correntes, claros e compreensíveis. Para
a mulher não havia lugar, na literatura nem na vida.

Quando a história produzia mulheres com tipos semelhantes às heroínas


contemporâneas, consideravam-se desvios puramente acidentais da norma,
verdadeiros fenômenos psicológicos.

A vida, porém, não pode permanecer imóvel e a roda da história, ao girar cada
vez com ritmo mais acelerado, obriga aos homens de uma mesma geração a
aceitar noções diferentes, enriquece-lhes o vocabulário com material novo. A
nova mulher, a mulher celibatária desconhecida de nossa época e até mesmo
de nossas mães, é em nossa época um fato real, um ser vivo, com existência
própria.

Elas são milhões de figuras, envoltas em trajes cinzentos, que se movem


desde as primeiras horas da aurora em intermináveis filas desde os bairros
operários até os armazéns, as fábricas e estações, que enchem os trens, a
caminho do trabalho. São essas milhares de moças ou de mulheres já maduras
que, nas grandes cidades, fazem aumentar as estatísticas de lares
independentes. São as moças e mulheres que sustentam uma surda e
contínua luta pela vida, que passam toda sua existência sentadas diante da
mesa dos escritórios, junto aos aparelhos telegráficos e atrás dos balcões. São
essas jovens de alma alegre que, com a cabeça cheia de sonhos e projetos
audazes, se atrevem a assomar à porta dos templos da ciência e da arte, são
as que, com passo firme, quase masculino, percorrem as ruas da cidade em
busca de uma aula mal remunerada ou de algum trabalho ocasional. Elas estão
sentadas diante da mesa de trabalho, no laboratório, entregues a uma
experiência científica, nos arquivos, folheando livros, executando o trabalho de
sua clínica ou dedicadas a preparar um discurso político.

Essas figuras não se parecem em nada às heroínas do passado próximo,


àquelas sedutoras e comovedoras mulheres de Turguenev, de Tchekov, às
heroínas de Zola e Maupassant, aos tipos femininos de virtude impessoal da
literatura inglesa e alemã de 1880 até a última década do século passado. A
vida criou estas novas mulheres, que a literatura depois transcreveu.
Como numa longa fita de matizes coloridos, surge diante de nós a vanguarda
dessas heroínas diferentes à frente, sem deter-se diante da espessa barreira
que formam as plantas espinhosas da realidade contemporânea, adianta-se
com passo tranqüilo, valente e resoluta, a operária Matilde. (8)

As plantas espinhosas do caminho da vida fazem sangrar as mãos e os pés de


Matilde, e dilaceram seu peito. Mas sua fisionomia endurecida, temperada nas
desgraças e sofrimentos, não expressa a menor vacilação.

Somente rugas amargas se formam mais profundamente no canto da boca:


unicamente sua expressão invencivelmente desafiadora brilha com uma
expressão mais fria. Uma nova dor, um novo esplendor de alegria, dessa rara
visitante do mundo operário, passam por Matilde, sem comovê-la. Envolta em
seu xale cinzento, mantém-se firme sobre a montanha, valente e invencível,
como estátua da tristeza. Somente seus olhos fixos no desconhecido vêem um
distante futuro, no qual acredita com a alma temperada pelos choques com a
vida; Matilde vai à cidade alegre, jovem, transbordante de saúde.
Chega à porta da fábrica e entra na oficina, O monstro de tijolo tragou mais
uma vítima. Matilde, porém, não tem medo. Com passo seguro e firme, desfaz-
se dos ardis que o destino traiçoeiro estende à jovem que caminha só, sem
rumo. A lama e as baixezas da vida não mancham seu lindo vestido. Matilde
conduz sua inquebrantável fé, com ignorância ingênua, seu eu humano, claro e
puro. Não é mais que “uma jovem operária, só e pobre”. Mas, sente-se
orgulhosa de ser o que é, satisfeita de sua força interior e de sua
independência.

Surge, mais tarde, o primeiro amor, terno e claro, como a própria juventude.
Vem a primeira alegria da maternidade. A primeira sensação de dependência
amorosa, a tímida rebelião pela liberdade perdida. Depois, a inquietude de uma
nova paixão. Os sofrimentos e os tormentos do amor: desejo, dor e decepção.
Outra vez a maternidade e, outra vez, o abandono. Agora, não temos diante de
nós uma jovem abandonada, perdida, um pobre ser oprimido, mas sim toda
uma individualidade, mãe digna, só e encerrada em si mesma. A personalidade
de Matilde cresce, faz-se mais forte. A nova dor não é mais do que uma nova
página em sua vida, que revela com maior clareza seu eu poderoso e
inquebrantável.

Ao lado de Matilde, Tatiana caminha com passo suave. A jovem de Riasan,


com os pés descalços, curtidos e feridos pelo calor e pelo mau tempo. Tatiana
anda com os vagabundos, sem abrigo, sem lar, como ela. “Pedaço de cobre
entre um montão de sucata carcomida pela ferrugem”. Algumas vezes
trabalhando em Maikope, durante o período da ceifa; outras, vagando sem
rumo pelas margens do Don, com um grupo de companheiros de sorte,
homens à espreita de um modesto salário.

Tatiana caminha com eles, livre como o vento, solitária como a erva da estepe.
Ninguém a quer, ninguém a defende. Mantém uma luta, contínua e
interminável, frente a frente, corpo a corpo, com o destino, que a atormenta,
implacavelmente. Para as mulheres do tipo celibatário, como Tatiana e Matilde,
não há ternura no mundo. Para elas a vida só reserva asperezas.
Tatiana tampouco se dobra aos castigos da vida. Sua alma traz profundamente
escondido o sonho de um futuro, de transparente inocência; Tatiana caminha
pelo mundo em busca de sorte. Mas esta, como se quisesse dela zombar,
toma-se cada vez mais distante. E a doce e sonhadora Tatiana de Riasan,
ávida de vida, ardentemente esperada, somente recolhe as sobras das poucas
alegrias que a terra lhe proporciona.

Um caminhante comove sua alma, fá-la chorar, anima-a e ela se entrega,


singelamente, com toda a sinceridade, por necessidade, como somente se dão
as mulheres solitárias e celibatárias, operárias nômades, a fim de arrancar da
vida pequenos prazeres. Entretanto Tatiana nega-se a unir sua vida ao
estranho. “Isto não é para mim; não o quero. Talvez, se fosses um camponês;
mas, assim, não tem senfido. Não se mede a vida por uma hora, mas, sim, por
anos.”

E Tatiana, com um sorriso de adeus, parte em busca de seus sonhos, parte


com seus pensamentos, como se estivesse só no mundo e como se lhe
estivesse destinada, unicamente, a tarefa de recriá-lo completamente.
Assim, vivem Matilde e Tatiana, traçando com o peito e as mãos um novo
caminho para o futuro. Seguindo-as, de perto, vêm as mulheres do novo tipo,
pertencentes a outras classes sociais, desejosas de encontrar a trilha aberta.
Os espinhos as prendem e as ferem; seus pés, não acostumados a caminhar
sobre pontas afiadas, cobrem-se de chagas e suas pegadas ficam marcadas
por filetes rubros de sangue. Mas, não é mais possível deter-se. Uma multidão
compacta, cada vez mais densa, avança. Débeis desgraçadas! Imediatamente
são lançadas à margem da estrada pelas fileiras comprimidas que apressam
sua marcha. As companheiras, que se aventuraram a lançar um olhar ao
castelo cinzento da escravidão do passado, continuam sua marcha com a
cabeça baixa, na ignorância do novo caminho.

Na densa multidão das novas mulheres podemos encontrar heroínas de todas


as nacionalidades e classes sociais. Destaca-se, na primeira fila, a fina silhueta
da atriz Magda (9) , jovem orgulhosa de sua arte, de suas lutas e de seu audaz
lema: “eu sou eu e tudo que sou devo-o a meu esforço”. Magda soube vencer
as tradições limitadas de um lar, de uma pequena província. Atreveu-se a
lançar um desafio à moral burguesa. Mantém seu ar de orgulho, ela que pecou
na casa patema, na sua terra. Magda tem plena consciência do que vale sua
individualidade e defende inflexivelmente seu direito de ser o que é. “Elevar-se
acima do pecado vale muito mais do que a pureza que aqui se pratica”.
Entra no novo caminho a audaz, inteligente e resoluta Olga, arrancada do seio
de uma família judia de costumes tradicionais. Após vencer uma série de
obstáculos, lança-se no turbilhão de uma grande cidade européia. Olga
participa de um círculo intelectual seleto, a nata da sociedade. A vida afigura-
se-lhe cheia dos atrativos de um centro cultural capitalista. Na sua luta pela
subsistência, na luta contra a ausência de trabalho para os intelectuais, na luta
pela afirmação de si mesma como individualidade humana e como mulher,
Olga vive como vivem milhares de moças numa grande cidade civilizada, uma
vida de solidão e de trabalho. Não teme a vida e audaciosamente pede ao
destino sua quota de sorte pessoal. Olga sente que o homem que ama está ao
mesmo tempo muito perto e muito longe dela. Seus destinos se cruzam apenas
em um momento. Uma vida em comum, porém, não corresponde a seus
interesses particulares. O amor é somente uma parte de sua intensa e
complexa vida. A paixão esmorece. Extingue-se. O amor também se esvai.
Separam-se. Não temos diante de nós, uma vez mais, uma frágil jovem
abandonada, mas sim toda uma individualidade que conheceu o prazer, na
qual o vinho estava misturado com veneno. Olga é mais forte que o homem por
ela escolhido. Nos seus momentos de tristeza, inclusive naquelas de seus
sofrimentos amorosos, ele vai em busca de Olga, que soube distinguir corno
sua única amiga fiel. Na complicada vida de Olga, rica em acontecimentos e
lutas, o amor não constitui mais que um episódio.
Entre a multidão de novas mulheres, ergue sua formosa cabeça, adiantando-
se, com segurança, Lansovelo (10), a médica, heroína típica da mulher
celibatária. Toda sua vida está dedicada à ciência e à prática da medicina. As
clínicas representam, ao mesmo tempo, seu templo e seu lar. Conquistou, por
parte de seus colegas de trabalho, a estima e o reconhecimento de seu valor.
Soube recusar, com doçura, porém com obstinação, suas propostas
matrimoniais. Lansovelo necessita de liberdade e solidão para dedicar-se
completamente ao trabalho, sem o que não conseguiria viver nem respirar.
Diante dessa figura de mulher emancipada, vestida sobriamente, cuja vida está
dividida em horas de trabalho, que luta pelo exercício de sua profissão e obtém
triunfos de amor próprio ao emitir um diagnóstico exato, o leitor se sente
surpreendido por uma corrente de frieza. Repentinamente, porém, como cena
observada casualmente, a doutora nos revela um aspecto completamente
distinto. Quando chegam as férias, Lansovelo descansa no campo com seu
amigo, médico como ela. Nesse lugar, revela-se-nos a mulher: reina agora seu
eu feminino. Seus vestidos são vaporosos e claros, seu riso alegre. Não
esconde seus amores. Em Paris não vive com seu amante, porque lhes é mais
conveniente, a ambos, e a seu trabalho profissional.

Deixando para trás a doutora, surge Teresa (11), toda desejo e paixão. Teresa
é uma socialista austríaca, uma valente propagandista. Esteve presa, trabalha
com toda sua alma pelo partido. Mas, quando dela se apodera a paixão,
Teresa não renuncia a este esplendor que alegra a vida, não se envolve
hipocritamente no manto desbotado da virtude feminina. Muito pelo contrário.
Teresa estende a mão ao eleito e parte com ele por várias semanas para
sorver até a última gota do prazer e convencer-se de sua profundidade.
Quando Teresa, porém, percebe sua vulgaridade, despreza-o sem remorsos e
sem amargura. Pobre Teresa! Para ela, assim como para a maioria de seus
companheiros, o amor não pode ser mais que uma etapa, um ato momentâneo
no caminho da vida. O partido, seus ideais, a propaganda e o trabalho são o
fim de sua existência, todo o seu conteúdo.

Agnes Petrovna, outra mulher, uma das primeiras heroínas russas do tipo
celibatário, elege, após amadurecida reflexão, o novo caminho para sua vida.
Agnes é escritora e secretária de redação; é antes de tudo, uma mulher que
ama o trabalho. Diante de sua mesa de trabalho, quando em sua mente se
forma um pensamento, uma idéia, nada nem ninguém existe para ela. “Não
poderia repartir esses momentos com ninguém - diz. - Por isso necessito de
minha liberdade. Porém, quando Agnes retorna a sua casa, deixando a
redação, trocando seu simples vestido de trabalho por um cômodo roupão,
encanta-se ao se sentir somente mulher e experimentar a influência de seus
atrativos sobre o homem. Não busca no amor o conteúdo e o fim da vida, e
sim, somente, o que écomum nos homens: o repouso, a poesia, a luz. Agnes
não reconhece, nem ao homem amado o menor direito sobre ela, sobre o seu
eu”.

“Pertencer a um homem como uma coisa, entregarlhe a vontade e o coração,


consagrar toda a inteligência e todos os esforços para fazer sua felicidade,
conscientemente, isto talvez possa fazer uma mulher feliz. Mas, por que
dedicar todos esses esforços a um homem somente? Se é preciso esquecer-se
de si mesma, não o faria por um homem, não lhe proporcionaria, a ele
unicamente, uma boa comida e uma vida tranqüila. Fá-lo-ia, também, por
muitos outros desgraçados... “E, quando Miatlev tenta acabar com a liberdade
de Agnes, quando exige que escolha entre seu amor e o trabalho, Agnes
considera finda sua união. Separam-se os caminhos.
Segue Agnes, sem pressa, com certa vacilação e dúvida, sem tanto
amadurecimento, outra figura de mulher; Vera Nikodinovna (12) pertence à
antiga geração com ligeiros traços de modernismo. Vera é a mulher com um
passado que deixou fortes vestígios sombrios em sua alma. Não é
precisamente a necessidade fisiológica que lançou a fria e calculada Vera nos
braços de um homem. “Ninguém consegue imaginar quão longe estava meu
ato da sexualidade, quão longe estava de deixar-me levar”, declara Vera à sua
jovem amiga. Algo distinto a impulsionou. Sede de maternidade? Talvez,
somente o desejo de encontrar uma alma semelhante à sua, um ser capaz de
compreendê-la; perigoso anzol em que se deixam prender até as mulheres do
tipo celibatário, nas quais predomina o racional. Depois daquilo Vera vê-se
assediada de homens que a desejam, mas evita aproximar-se deles, ainda que
mantenha suas esperanças de um hábito adquirido das gerações passadas. A
sedução é a especialidade de Vera. Entretanto, liberta-se do passado ao
manter antes de tudo sua liberdade. Afastada da vaidade dos salões, Vera é a
mulher-individualidade de pensamento e trabalho.

Com seu sorriso triste, segue também a figura da tuberculosa Mary (13).
Continuando, a pequena Talia (14), intrépida lutadora, que corre em busca de
trabalho, arrastando seus desgastados sapatos. Logo após, ouve-se o riso
mesquinho da inconstante Annette (15), pobre de espírito, espécie de paródia
do tipo de mulher celibatária. A heroína de Sangar, Anna (16) avança com
ingenuidade brutal pela nova senda. De mãos dadas, caminham Mira, Lydia e
Nolly (17). Cada uma delas é interessante por seu algo “sagrado” que não é
somente qualidade propriamente feminina. Até a pequena Lydia, insignificante
na aparência, possui vaidade e ambições. Quando se apresenta o amor,
quando sua natureza de mulher faz suas exigências, todas essas moças
superam o tabu proibido às jovens solteiras, sem o medo sentimental de si
mesmas que sentiam as mulheres do passado. Arrastadas pelos múltiplos
interesses da vida, o amor para essas mulheres não é mais do que uma
melodia iniciadora.

Embevecendo nosso olhar com a finura de sua alma, tingida de tons suaves, a
atriz de variedades, Renée (18), anda com cuidado para não pisar pedras
pontiagudas. Com as ilusões perdidas e o coração ferido, deixa seu marido e
lança um desafio ao mundo que até então lhe pertencia. Toda a sua vida está
agora na arte, na dança, nas pantomimas que sabe criar. Uma vida errante,
fatigante, consagrada ao trabalho. Não vai em busca de aventuras. Evita-as,
porque seu coração já sofreu demasiado. A liberdade, a independência e a
solidão constituem o conteúdo de todos os seus desejos individuais.
Entretanto, quando Renée se senta junto à chaminé de seu lar solitário, depois
de uma jornada de duro trabalho, experimenta a sensação de que a melancolia
e a solidão, com seus olhos frios, penetraram na sua casa e se instalaram atrás
da banqueta em que estava sentada.
“Estou acostumada a viver só - anota em seu diário. - Hoje, porém, me sinto
tão solitária! Não sou livre, independente?... Sim. Mas terrivelmente só.” Nesta
queixa há algo da mulher do passado, acostumada a escutar ao seu redor
vozes conhecidas e amadas, a se sentir rodeada pela ternura que lhe é
necessária. Assim, quando Renée encontra em seu caminho um amor
obstinado, deixa-se prender, mergulhada no vazio cada vez mais profundo em
que vive. Mas a paixão não a cega, não obscurece seu cérebro, acostumado à
reflexão.

“Os únicos atacados são meus sentidos”, declara com um arrependimento


repleto de melancolia. “Não sinto nenhum prazer, a não ser físico.” Renée volta
a ser o que era. O novo amor não lhe deu o que sua alma buscava. Nos braços
do amado se sente tão só quanto antes. A vagabunda foge, foge de seu amor,
foge porque sua paixão está muito longe, não tem a menor relação com as
exigências delicadas do amor.

A carta de despedida de Renée ao homem que abandona é um documento


revelador da mulher contemporânea, das novas exigências que este tipo de
mulher faz àvida.

Atrás de Renée, segue a heroína de Bennet (19), uma escritora. Uma ânsia de
êxtase, de adoração leva-a aos braços de um grande músico. Esta paixão,
entretanto, só serve para que se encontre a si mesma, para afirmar sua
personalidade, para revelar seu talento de escritora e enfrentar a vida com
mais calma, com maior reflexão, de modo mais consciente. Algum tempo
depois, quando um novo amor a cerca, não foge assustada, como faziam as
heroínas das velhas novelas inglesas, por se considerarem indignas, perdidas:
Não, ao contrário, vai sorridente ao seu encontro.

Cheia de dor, adianta-se a inquieta, apaixonada Maia (20), a de espírito irônico.


Todos os acontecimentos de sua vida não são mais do que etapas na busca de
si mesma, no desenvolvimento de sua personalidade. A luta com sua família
para conquistar a independência; a ruptura com seu primeiro marido; um curto
idílio com um herói oriental; um segundo matrimônio, cheio de complicações
psicológicas; a luta ardente na alma de Maia entre a mulher do passado e a
nova mulher que vive dentro de seu ser; outra vez a ruptura e de novo a busca,
até encontrar o homem que sabe respeitar sua voz interior, símbolo da
personalidade, homem que reconhece seu valor e que pode criar a união
amorosa, interiormente livre com a qual Maia sonhou durante toda a sua vida.
A vida de Maia está cheia de complicações psicológicas e de diversos
acontecimentos. O que prontamente arrasava a mulher do passado, a traição
do homem amado, a separação de seus dois maridos, serve a Maia como uma
“lição”, através da qual pode melhor compreender e examinar a si mesma. De
modo inconsciente, Maia segue o conselho de Goethe: “Começar, todos os
dias a vida, como se de novo realmente, a começasse...” “Minha forte e
inquebrantável vontade, que nada conseguiu romper foi o que me salvou.
Minha vontade de conservação inconsciente, como se fosse um anjo-da-
guarda, conduziu-me pela vida”, diz Maia. A nova mulher, independente,
interior-mente livre, tem que lutar continuamente com uma tendência atávica,
que a põe em perigo de converter-se em sombra do marido, em seu eco. São
bem conhecidos os esforços ingênuos e conscientes da mulher para adaptar-
se, inclusive interiormente, ao gosto do homem amado; para corrigir-se,
segundo o ideal do seu eleito. Como se a mulher, por si mesma, não tivesse
nenhum valor, como se sua personalidade só se medisse pela atitude dos
homens que a ela se dirigiam. É este traço feminino, atávico que fez uma
personalidade tão magnífica, luminosa e sedutora, como a de Jorge Sand,
tentar, algumas vezes, abandonar a terra, em companhia de Musset, e, outras,
a renunciar ao mundo da criação artística. Mas, a sua forte individualidade de
Jorge Sand era o que limitava estas experiências. Chegava o momento em que
Jorge Sand sentia esvair-se a sua personalidade e que, em conseqüência de
sua adaptação, Aurora Dudevant, seu eu feminino, acabaria por devorar, por
apagar o audaz, o rebelde, o ardente sonhador, o poeta Jorge Sand. Refazia-
se completa, repentinamente, e rompia implacável a antiga união. Quando sua
alma havia amadurecido esta decisão, não havia força humana, nem sequer
sua própria paixão, capaz de modificá-la. Quando Aurora Dudevant, num
sombrio outono, deixou sua morada para travar o último e breve encontro com
seu amante, decidida a romper com ele, não sentimos medo por Jorge Sand,
pois sabemos que o encontro não poderá fazê-la recuar, porque a ela se
evidencia, como último tributo, a agonizante paixão que Jorge Sand lança à
soluçante Aurora. A etapa foi concluída. Um ponto termina o episódio.
A Maia de Meisel-Hess é, naturalmente, muito menor e mais frágil do que Jorge
Sand. Mas nela também descobre-se o desejo de adaptar-se aos gostos do
homem amado, e a tendência atávica de renunciar a si mesma, de
desaparecer, de dissolver-se no amor, que choca com a personalidade humana
que se desenvolveu e que nela se apresenta de modo específico. No momento
preciso, Maia também sabe como refazer-se e partir para salvar sua voz.
Mesmo para a mulher de nossos dias é muito difícil libertar-se da tendência,
formada no transcurso de séculos, de assimilação ao homem que o destino lhe
deu por amo e senhor. Quão difícil é convencer-se de que para a mulher é
também um crime renunciar a si mesma, ainda que em favor do homem
amado, em nome do amor!

Ao lado de Maia, segue a ambiciosa Outa, a calculista. Outa é atriz, mas


consagra toda a sua vida a valorizar e enfeitar seu eu, que para ela é o melhor
do mundo. Parece que somente ama a arte, porque é um meio de desenvolver
e revelar, com maior grandeza e variedade, sua forte personalidade. Há em
Quta, como reação natural ante a secular humilhação da mulher, um protesto
contra sua renúncia ao direito de ser uma personalidade com valor próprio.
Uma forte e apaixonada ambição, uma razão calculista, um imenso egoísmo e
um excepcional talento de atriz fazem-na relegar a mulher, Outa, a um lugar
obscuro. Passa indiferentemente ao lado da felicidade, ao lado da infinita
devoção de Klodt. Aprecia este amor, porque lhe satisfaz contemplar o reflexo,
como se se olhasse no espelho. Quando Klodt, impulsionado pelo desespero,
atormentado por sua indiferença, a trai, Outa chora. Porém, não é a mulher que
sente a ofensa, mas sim a artista, exposta aos olhares de todos, a que sofre,
porque seu admirador se atreveu a deixá-la por uma rival. E por orgulho ferido
e não por amor humilhado que Outa soluça. Esta mulher continua até ao fim,
fiel a si mesma. Pela vida, acompanham-na a alma fria e a admiração pelo seu
eu. Precisamente porque carece do fogo sagrado que alimenta os grandes
artistas, é derrotada por uma mulherzinha insignificante e apaixonada; a fina e
inteligente Outa, “grande artista na compreensão da arte, mas à qual falta a
paixão criadora”.

Entre a multidão de novas mulheres, passa a artista Tânia, para quem a vida
reserva todas as suas carícias. Tânia, embora casada, pertence à categoria
das mulheres celibatárias e, assim como Maia, casou-se três vezes. Este
aspecto de sua vida corresponde completamente à sua fisiologia. Ainda que
Tânia viva sob o mesmo teto que seu marido, continua sendo, como antes de
casar-se, uma individualidade livre e independente. Tânia franze as
sobrancelhas quando ele a apresenta a seus amigos como sua mulher, sem
designá-la por seu nome de solteira.

Marido e mulher vivem seu próprio mundo. Ela, consagrada à arte, e ele,
dedicado à investigação científica. Constituem um casal de bons
companheiros, unidos por laços espirituais sólidos, que não impedem sua
mútua liberdade.

A clara atmosfera em que vivem se rompe pela cega paixão física que Tânia
sente pelo formoso e másculo Stark. Tânia não ama em Stark o eterno
masculino que a arrastou para ele desde seu primeiro encontro. Tânia não tem
nenhum interesse pela vida espiritual do homem amado, assim como para os
homens, mesmo os mais modernos, não tem importância a alma da mulher
apaixonadamente amada. Quando Ana, Maia, ou Lisa lançam ao homem
amado a reprovação habitual: “Eu quero tua alma, que nunca me entregas...,
ele se sente desconcertado. A atitude de Tânia, com respeito a Stark, tem,
portanto, algo de masculino. Sentimos que a personalidade de Tânia é mais
forte, está mais desenvolvida que a de seu amado. Tânia é demasiado
humana, pouco fêmea, para que uma simples paixão possa satisfazê-la.
Reconhece que a paixão que sente por Stark empobrece e seca sua alma, ao
invés de enriquecê-la. Mulheres como Tânia não sofrem tanto com o
pensamento de uma infidelidade feita ao marido, como diante da possibilidade
de conciliar a paixão com o trabalho paciente e metódico que constitui a sua
vida. A paixão devora suas energias e rouba o tempo que deve consagrar ao
trabalho. A paixão entrava seu livre trabalho criador. Tânia sente que começa a
perder a si mesma e a perder o que mais aprecia em sua vida. Parte. Volta
para o lado do marido, não impulsionada pelo sentimento do dever, mas, para
salvar a sua personalidade (21).

Ao lado de Stark acabará por perder a si mesma. Abandona-o, levando em seu


ventre um filho, quando a paixão ainda não estava totalmente extinta. Que
heroína de romance dos bons tempos passados tivera coragem para agir como
Tânia?

Tânia tem que enfrentar o mesmo dilema que a Ellida de Ibsen, uma das
primeiras mulheres do novo tipo psicológico. Quando o homem do mar exige
de Ellida que se vá com ele, ela fica ao lado de seu marido que lhe havia dado
toda liberdade para decidir-se. Ellida permanece consciente de que assim
poderá conservar sua liberdade interior, que perderia ao lado do homem do
mar. Dá-se conta de que está ameaçada pela mais terrível escravidão: a
escravidão da paixão. Compreende a superioridade de quem tem preso entre
as mãos seu coração de mulher.

Josefa (22), a de alma firme, forte de espírito, abre o caminho da vida


modestamente. Avança por entre as dificuldades que obstruem todas as
margens do caminho. Rasga a estrada que leva à independência econômica
das mulheres da classe burguesa. E prepara-se para as profissões liberais.
Indecisa, vai tateando o novo caminho, a fina e prudente Christa Rouland (23),
deliciosa figura espiritual de mulher que desperta, que interroga o mundo com
grandes olhos extraordinariamente abertos, que busca a nova verdade; figura
de mulher que pela primeira vez se dá conta e toma consciência de si mesma.
“Eu sou eu e tu és tu, e somente no amor podemos fundir-nos,” é seu lema.
A heroína de Yuchkevitch, a estranha e oprimida Elena (24), passa
timidamente à beira do caminho com os olhos fechados para a nova verdade,
enquanto procura ocultar a tragédia de sua alma, sua grande tristeza humana,
incompreensível para ela mesma. Flena não é celibatária. Não é uma nova
mulher. Os traços do velho e do novo tipo nela se fundem em complicado nó.
Um pujante eterno feminino, equilibrado pelo espírito, por um eu humano,
debate-se em sérios problemas. Sua doce alma de mulher carinhosa, amante,
está cheia de contradições, e até de mentiras de escrava, ainda que seu
espírito rebelde, investigador, em um contínuo interrogar-se, faça de Elena uma
figura de novo tipo. Yuchkevitch soube pintar sua heroína com tons suaves.
Expressou sua imagem com tanto cuidado e carinho como se temesse quebrar
com uma palavra esta delicada alma de mulher, que se perde na tragédia de
seu espírito.

Entre a multidão de mulheres novas, destaca-se Renata Fuchs (25), alma


rebelde que soube conservar a pureza de sua alma em meio à vergonha e à
degradação. Na fisionomia de Renata denota-se uma calma majestosa. Em
seus braços de moça solteira descansa uma criança que era um novo homem.
Ao lado de Renata caminha a heroína de Grent Aliena (26), que cheia de
orgulho leva nas mãos sua filha ilegítima, fruto de uma união que
explicitamente recusou a forma legal. Com expressão atarefada, apressa seus
passos em direção ao laboratório, Maia (27), do claro sorriso, que encontrou
harmonia na vida. Com a cabeça erguida, a prostituta Myiada (28) sustenta sua
missão sagrada em meio à lama da vida que a rodeia. A socialista
revolucionária Anna Siemenovna (29) sabe sobrepujar sua própria paixão,
escondida sob a máscara de coquete. A estudante inglesa Fanny (30), que
zomba dos preconceios do mundo, desfila também com passos ligeiros. A
imagem da estudante do longínquo norte Anna Mahr (31) também nos acena
ao passar. As heroínas de Bjornson, de Jonas Lie, as filhas do comandante
Jakobson, de Loffler, também querem entrar no novo caminho. Repleta de
inquietação, avança indecisa Jenny, como se ainda escutas;e em sua alma a
voz da mulher do passado. Como Tânia de Nadgrodskaia, Jenny (32)
abandona o pai do filho que espera, temendo que a maternidade estreite mais
fortemente os laços que já começam a aprisioná-la. Audaciosamente continua,
mas a voz mulher do velho tipo lhe Faz recordar o passado, despertando nela
sentimentos e concepções já esquecidos. Jeriny detém sua marcha, olha para
trás e desfalece...
A seu lado, porém, passam figuras sempre novas de mulheres que despertam,
que se rebelam, que buscam o novo caminho. A doce e encantadora figura de
Françoise Houdonn (33), a que sabe sentir um amor-amizade por Christophe e
uma paixão por outro; a de temperamento ardente, ambição insaciável de
artista, vontade de ferro e alma sensível e delicada. A seu lado o tipo cheio de
vida e tão real da trabalhadora Cecília (34), a de forças equilibradas que ignora
que em sua tranqüila conquista, está contida toda a nova verdade. A sufragista
Júlia France (35) a emigrante russa Marie Antine (36), a moça judia que goza
dos direitos da cidadania norte-americana e luta para conquistar uma posição
segura; igualmente todas as heroínas de Rikarda Huch (37), Gabriela Reuther,
Sarah Grande e até as heroínas do mundano Marcel Prevost. (38)
São tantas as heroínas do novo tipo que é completamente impossível citá-las
neste breve estudo. Precisamente pelo fato de que sejam tantas as mulheres
que pertencem a este novo tipo, que cresce todos os dias com outras forças,
ainda que algumas dessas figuras apareçam sob forma banal e em literatura
dos boletins, é sinal de que a vida cria e forma sem descanso o novo tipo de
mulher.

A nova mulher traz consigo algo que nos é completamente estranho, que às
vezes chega inclusive a repugnar-nos por sua originalidade. Contemplamos e
buscamos nesse novo tipo de mulher os traços queridos e conhecidos de
nossas mães e avós. Diante de nós, ergue-se, cobrindo totalmente o passado,
um mundo de emoções, de sentimentos, de necessidades completamente
distintas. Onde encontrar a encantadora submissão feminina, a doçura de
nossas mulheres do passado? Onde estará aquele seu talento especial para
adaptar-se ao matrimônio, para se submeter até a um homem insignificante,
para ceder-lhe sempre o primeiro posto na vida?
Temos diante de nós a mulher-individualidade, uma personalidade que tem
valor próprio, com um mundo interior todo seu, personalidade que se afirma,
em suma, a mulher que arranca as enferrujadas algemas que aprisionam o
sexo.

Quais são, pois, os traços característicos, os sentimentos, as qualidades


psicológicas da mulher que nos permitem classificá-la, de acordo com sua
aparência interna, como fazendo parte da classe de mulheres celibatárias?
A direitos conquistados, a mulher tem que realizar um trabalho de auto-
educação, muito mais profundo que o do homem. No rocaracterística típica da
mulher do passado, considerada seu maior ornamento e defeito, era o
predomínio do sentimento. A realidade contemporânea, que arrastou a mulher
à ativa luta pela existência, exige, antes de tudo, a ciência de saber vencer
seus sentimentos e os numerosos obstáculos de ordem social que se
interpõem no seu caminho, assim como a capacidade de fortalecer seu espírito
pouco resistente, seu espírito que cede com demasiada facilidade, por meio da
vontade. Para conservar seus novos mance de Ilse Frapan, Trabalho, recaem
sobre Josefa sombrios pensamentos, graves cuidados. Josefa gostaria de
poder soluçar, chorar por si mesma, entregar-se a sua dor como o faziam as
mulheres do passado. Mas, o trabalho na clínica, seu trabalho, organizado,
dividido em horas, não admite espera. O trabalho da clínica não é um trabalho
que se possa deixar para outro dia, como os afazeres de casa ou o remendar a
roupa das crianças. Josefa tem que ter força de vontade sobre si mesma, coisa
a que o homem está acostumado, esforço completamente desconhecido das
mulheres dos tempos passados; tem que fazer um esforço para esconder sua
vida privada atrás de um muro e apresentar-se no trabalho sempre à hora
certa.

Matilde assiste à morte de seu filho, que constitui toda alegria, era tudo o que
havia restado de seu ardente amor. Porém, seu ofício amarra-a com todas as
suas forças à oficina e seus dedos práticos trabalham, como sempre, sem
romper o fio.

A realidade contemporânea exige de uma maneira implacável que toda mulher


que se vê obrigada a trabalhar num ofício ou profissão em qualquer trabalho
que a leve a do lar, possua autodisciplina e força de vontade para saber vencer
seus sentimentos, qualidade que somente poderíamos encontrar,
excepcionalmente, nas mulheres do tipo antigo.

O ciúmes, a desconfiança, a absurda “vingança feminina” eram as


características próprias da mulher do tipo antigo. Os ciúmes constituem o
sentimento que origina todas as tragédias da alma feminina. É certo que os
ciúmes constituem, também, uma estratégia para o homem porém, não
devemos esquecer que Shakespeare não escolheu para seu Otelo um inglês
disciplinado, educado, nem um veneziano de inteligência refinada, mas sim um
mouro dominado pelas paixões.

Precisamente é a dependência da mulher com relação a seus sentimentos o


que a levou a expressar seu ódio por uma rival de maneira verdadeiramente
monstruosa, fazendo-a trazer à superfície suas qualidades mais mesquinhass
de “escrava”. Se a heroína não desfigurava sua rival com ácido, não deixava,
entretanto, de lançar sobre o veneno da calúnia.

As mulheres do novo tipo não reivindicam a propriedade de seu amor. Ao exigir


o respeito à sua própria liberdade de sofrimento, têm que aprender a admitir
esta mesma liberdade nos demais. E realmente interessante observar a atitude
das heroínas de uma série de romances contemporâneos no que se refere a
uma rival. As mulheres do novo tipo não empregam ácido nem a calúnia. Ao
invés disso , educado demonstram delicadeza e compreensão para com a
outra mulher, para com a rival. No romance Voz, por exemplo, a heroína Maia e
a primeira mulher do homem que ama não só não se odeiam como chegam a
encontrar uma linguagem comum e descobrem que em muitos pontos se
encontram mais intimamente unidas do que com o homem que as duas amam.
Maia chora quando percebe como ele feriu o coração de sua rival. Maia se
sente pessoalmente humilhada quando conhece os sofrimentos de sua rival,
que lhe conta que o homem amado a considerava uma coisa que lhe pertencia
legalmente, e que não tinha para com ela a menor ternura confortadora. Maia
sente-se ofendida pelo menosprezo à mulher, porque sabe sentir além dos
limites propriamente individuais. Em Maia se manifesta um sentimento
completamente desconhecido da mulher do passado: o sentimento de
coletividade, de companheirismo.
Igualmente característica é a atitude que Maia adota diante da absurda e inútil
traição de seu segundo marido. Maia não desfalece, nem arma um escândalo.
Refugia-se ao lado das camas dos filhos da primeira mulher de seu marido. As
cabecinhas adormecidas têm o poder de dissipar sua tristeza. Regressa depois
ao seu lar solitário.

Maia sente frio. Acende a lareira, se enrola em um xale e se impõe a leitura de


um livro interessante. Assim, conseguirá libertar-se, o mais rapidamente
possível, de si mesma, de seus próprios pensamentos; assim recuperará o
equilíbrio necessário.

Irina, a heroína do romance de Kredo, Na Névoa da Vida, não somente aceita a


antiga união de Victor, como exige dele para com sua rival, uma atitude
delicada. O contrário sucede quando Victor, ao tomar conhecimento do
passado de Irina, lhe disse com ares de macho ofendido: “que número sou eu?
Quero saber... Foram muitos?” Victor é um homem de vanguarda, um escritor,
porém dentro dele, como dentro dos outros, a besta é mais forte que na
insignificante Irina, que só é interessante por estender seus braços para a nova
verdade da vida.

No novo tipo de nova mulher, a ciumenta é vencida cada vez com maior
freqüência pela mulher-individualidade. Outro traço característico da mulher
contemporânea consiste nas exigências, cada vez maiores, que faz ao homem.
A mulher do passado estava acostumada por seu amo e senhor, durante
séculos e séculos, a esquecer-se de si mesma, a descuidar completamente
seu pequeno mundo espiritual. A mulher do passado não dava nenhum valor a
sua própria personalidade, acostumada aos sorrisos indulgentes que os
homens tinham para com suas debilidades e sofrimentos de mulher. Por isto
resignava-se, sem protestar, a que seu companheiro não prestasse a menor
atenção ao que pensava e sentia. Ainda, em nossos tempos, admiramo-nos de
que somente alguns homens extraordinários saibam compreender a mulher,
ainda que nos momentos de maior intimidade. A causa de quase todas as
tragédias familiares, de todas as épocas, tem sido a atitude superficial, de
abandono, do homem diante do eu feminino.

Com sua experiência, os Don Juan sabiam possuir o corpo da mulher; mas
apoderavam-se também de sua alma, para o que representavam
hipocritamente a comédia da compreensão; deixavam transparecer um
interesse cheio de amor pelo eu insignificante da mulher, ao qual seu marido,
embora mais sincero, não prestava a menor atenção. Como os Don Juan,
porém, surgiam e desapareciam e o senhor legítimo permanecia, a mulher
acabava reduzindo suas necessidades e exigências, obrigada durante séculos
e séculos a adaptar-se à vida, até chegar a converter sua concepção de
felicidade à satisfação das coisas exteriores e concretas. Ele presenteava-a
com anéis e brincos; levava-lhe flores e bombons. Não havia necessidade de
outra prova de seu amor. Se se portava com relação a ela de modo grosseiro e
despótico, se lhe impunha uma série de proibições e exigências, era seu
direito, direito de dono do seu coração.
A mulher contemporânea torna-se exigente. Deseja e exige respeito à sua
personalidade, à sua alma; pretende que se leve em consideração seu eu. Não
admite o despotismo. Quando o amante de Maia a proíbe de cantar em
concertos e ela não o obedece, ele decide, para castigála, não lhe escrever
durante duas semanas. Este ato exterminou em Maia todo sentimento para
com seu amante. “Como pode castigá-la, logo a ela, que lhe entregou
livremente seu coração?”

Na luta da mulher moderna para proteger sua liberdade interior, há algo que
lembra as mulheres das antigas lendas, as mulheres dos tempos heróicos.
“Cumpriu-se tua vontade, porém, já não sou tua mulher”, afirma Rosamunda a
seu real esposo quando este a obriga a beber no crânio de seu pai, que
assassinara. Na boca de Rosamunda estas palavras não são uma simples
ameaça. Rosamunda mata seu marido, a quem havia amado apaixonadamente
até aquele momento.

A mulher contemporanea perdoa muitas coisas que para a mulher do passado


eram mais amargas de perdoar. Perdoa a incapacidade do homem para
proporcionar-lhe um bem-estar material; perdoa uma falta de atenção de ordem
exterior para com ela; inclusive pode perdoar uma infidelidade; em troca,
porém, não esquecerá nunca, nem aceitará uma falta de atenção para com seu
eu espiritual, para com sua alma. Se seu amigo não é capaz de compreendê-
la, suas relações perdem, para a mulher moderna, a metade do valor.
Quando Christa Rouland pergunta a seu amante o que pensa sobre as
mulheres, e este lhe responde primeiro com gracejos ligeiros e logo depois de
forma corriqueira, Christa experimenta um alheamento involuntário. Não pode
compreender como o homem que soube conquistar seu coração, devido ao
interesse que demonstrou por sua personalidade, por seu eu espiritual, pode
mostrar-se tão insensível e não compreender a enorme importância que para
ela teria ouvi-lo expressar-se de outra forma. O que Christa não pode perdoar a
Frank, e o mesmo sucede a todas as mulheres do novo tipo, é a transformação
que sofre o homem depois da posse. O homem temeroso de perder a mulher
amada precisa nela extinguir, ainda que seja precisamente na mulher querida
pelo espírito audaz, pela independência de seu pensamento, o fogo sagrado da
investigação. Esforça-se, cumulando-a de carinhos, por convertê-la apenas em
objeto de seu prazer, de seu gozo.

Christa Rouland observa, cheia de assombro, como o mesmo Frank, que


queria levá-la à esfera de seus próprios interesses espirituais, que sonhava
sempre com uma atividade realizada em comum, começa a se separar, a viver
em um mundo intelectual exclusivamente seu. Já não se trata de um trabalho
realizado em colaboração. Nos momentos em que Christa toma parte, com
grande interesse, no trabalho de seu pensamento, Frank vê nela somente a
mulher, tanto mais sedutora por ser fina e espiritual. Christa sente que seu
espírito e sua capacidade para elevar-se com ele às altas regiões do
pensamento não fazem mais do que aumentar seu desejo sexual para com ela.
A nova mulher perdoará a ofensa feita à fêmea, mas ser-lhe-áimpossível
esquecer uma simples falta de atenção para com sua personalidade. O mesmo
sucede com a exigência da mulher moderna de que o homem eleito tenha uma
formação espiritual, questão de que nos fala também Vera Nikodinovna. “Na
mulher - pensa Vera - a inteligência, ainda que seja da melhor qualidade, não
desempenha mais do que um papel secundário. O essencial na mulher é a
base moral. Precisamente o estudo e as leituras desenvolvem esta base moral,
a tornam mais refinada e aguda. Nos homens esta base moral, ao contrário, se
cristaliza, e quando se desenvolve é de forma débil. Esta é a causa de sermos
desgraçadas... os homens não compreendem quase nunca o que nos separa
deles.”

A necessidade que tem a mulher de sentir-se amada, não tanto pelo eterno
feminino, e sim pelo conteúdo espiritual de seu eu, torna-se muito mais intensa,
como é natural, quanto mais consciência tem de si mesma, como
individualidade. “Maldigo meu corpo de mulher por sua culpa. Não podeis ver
que há dentro de mim algo muito mais valioso...” Isto se manifesta em todas as
páginas do livro Notas de Ana, de Nadejda Sanjar. Este protesto, expresso de
uma ou de outra forma, repetem-no as heroínas de todas as nacionalidades.
Até a alma simples da Tatiana de Gorki protesta por quererem fazer dela
simplesmente um instrumento de prazer.

“Possuíram-me... Porém eu não quero, eu não quero que seja assim, sem
carinho, como os cães... Que seres tão baixos são todos os homens!”
Quanto mais viva é a personalidade da mulher, quando se sente com maior
intensidade como ser humano, mais fortemente sente, também, a ofensa do
homem que, com a mentalidade formada através dos séculos, não sabe
perceber por trás da mulher desejada uma individualidade que desperta.
As exigências que, com respeito ao homem, têm as mulheres contemporâneas,
são a causa de que as heroínas dos romances de nossa época se entregem de
uma paixão a outra, deixem um amor por outro, numa dolorosa luta para
alcançar um ideal inacessível: a harmonia da paixão e a afinidade espiritual, a
conciliação entre o amor e a liberdade, a união nascida do companheirismo e
da independência recíproca.

Maia, a infatigável exploradora da sorte, exclama: “Meu mais ardente desejo é


encontrar um homem do qual jamais queira separar-me.” E aquela mulher
errante termina as relações com seu amigo, unicamente porque aspira a
alcançar o inextinguível ideal de uma união amorosa mais completa. A
realidade presente engana todas essas mulheres, ansiosas por encontrar um
amor perfeito e cheio de harmonia. Implacavelmente, têm que romper os laços
do amor e partir novamente em busca da realização de seu sonho. É que estas
infatigáveis sonhadoras esquecem que o que buscam, atualmente, com tanto
afã, só poderá realizar-se em um futuro longínquo, quando os homens
modelarem de novo suas almas, quando os homens chegarem a assimilar
organicamente a idéia de que, em toda união amorosa, o primeiro lugar
corresponde ao companheirismo e à liberdade.

A mulher do passado não sabia apreciar a independência pessoal. Mas, ter-


lhe-ia servido para alguma coisa apreciá-la? Não há nada mais doloroso, nada
que dê maior sensação de impotência do que uma esposa, ou uma amante do
tipo da mulher do passado, abandonada. Quando o homem a abandonava, ou
morria, a mulher não somente perdia a sua subsistência material, mas também,
seu único apoio moral. A mulher do passado, incapaz de enfrentar a vida
sozinha, tinha medo da solidão, e por isso estava sempre disposta a renunciar,
quando se lhe apresentava a menor ocasião, à sua inútil e desagradável
independência.

A mulher do novo tipo não somente não tem medo da independência, como
cada dia aprecia mais seu valor, à medida que seus interesses se sobrepõem
aos limites impostos pela família, pelo lar e pelo amor. Assim, não há nada
mais espantoso para Vera Nikodinovna que a dependência material com
respeito ao homem: “Oh, se eu viesse a depender de um homem, se eu viesse
a precisar escolher um, para que fosse meu marido e para que me mantivesse,
seria minha maior desgraça...” disse a uma amiga. Para Vera, ter um marido
“proprietário e dono de sua alma” é um pensamento tão terrível como o cárcere
para o prisioneiro que chegou a conquistar a liberdade com a fuga. “Jamais” -
continua Vera - “adaptar-me-ei a essa escravidão. Já havia passado por uma
experiência semelhante...”
“Esteve casada?” “Não, não me casei nunca; mas vivi meu romance, tive uma
paixão.”

A nova mulher se sente presa no matrimônio, ainda que este não seja mais do
que laços exteriores. A mentalidade do homem do passado, que ainda
permanece viva, cria laços morais que não são menos sólidos que as cadeias
exteriores.

Portanto, as novas heroínas de nossa literatura fogem obstinadamente de tudo


aquilo que possa prendê-las, ainda que seja só exteriormente, ao homem
amado. A dependência material da mulher em relação ao homem, sua
completa impotência para enfrentar o mundo sem se apoiar no braço de um
homem, obrigava a mulher do passado a preocupar-se antes de tudo em
concretizar suas relações com o homem, em consolidar de alguma forma as
relações amorosas. Só então sentia-se segura. A nova mulher, obrigada a
suprir por si só as necessidades materiais da vida, toma atitude negativa ou
indiferente diante de todas essas formalidades que para ela não têm objetivo.
Este novo tipo não tem nenhuma pressa em dar uma forma determinada às
suas relações amorosas. Quando a amiga de Renée, em A Vagabunda, a
interroga sobre que tipo de relações mantém com o homem amado, se uma
união legal ou simplesmente uma união passageira, ela só pode responder
com um movimento de ombros.

-Nós? Simplesmente nos amamos.

-“Muito bem, mas, e no futuro?”

“Oh, Margot” - exclama Renée - “eu não penso no futuro!”

Até agora o conteúdo fundamental da vida da maioria das heroínas se reduzia


aos sentimentos do amor. Este bastava para dar colorido até a uma vida cheia
de privações de ordem material. Ao contrário, a ausência do amor tornava
pobre e vazia a vida de uma mulher. Nem as riquezas exteriores, nem as
honras, nem sequer as alegrias da maternidade podiam substituir para a
mulher a perda de um amor venturoso. (39)

Se uma mulher não amava, a vida parecia-lhe tão vazia como seu coração.
Esta é uma das características que estabelecem uma diferença nítida entre a
mulher do passado e o homem. No homem, ao lado dos acontecimentos
amorosos, existia sempre uma atividade particular. Enquanto a mulher
enlouquecia languescia esperando por ele, o homem lutava contra o destino,
em um mundo desconhecido e incompreensível para a mulher. A maioria das
tragédias psicológicas das relações entre o homem e a mulher eram causadas
pelo fato de que o homem, ansiosamente esperado ao regressar à casa depois
de uma ausência, devido aos negócios ou ao trabalho, retirava os papéis da
pasta, comia depressa e apressava-se para alguma reunião ou se entregava
avidamente à leitura de um livro, ao invés de dedicar toda sua atenção à
mulher que com tanto afã o havia esperado. A mulher não podia compreender
esta atitude do homem, e seu coração explodia em reprovações. Ela havia
deixado por acabar, uma blusa, para esperá-lo; havia abandonado a comida
por fazer; havia adormecido as crianças com o único fim de ficar sozinha a seu
lado, para fazê-lo esquecer os assuntos, os trabalhos e a política. As mulheres
de todas as classes sofriam igualmente com esta incompreensão do homem e
de seus interesses; porque tanto o homem como suas atividades estavam
situados, para elas, em um mundo totalmente desconhecido, muito distante dos
limites do aconchego familiar. A falta de compreensão da psicologia do homem
era igual na mulher do professor e na mulher do funcionário, na mulher do
operário e na mulher do empregado.

A exclamação da esposa ofendida: “Vais outra vez a tua aborrecida reunião”


acompanhava e ainda acompanha da mesma forma o marido banqueiro e o
proletário.

Entretanto, à medida que a mulher intervém no movimento da vida social, à


medida que se converte em mola ativa do mecanismo da vida econômica, seu
horizonte se alarga. Os muros de sua casa, que antes encerravam para ela
todo o seu mundo, derrubam-se, e a mulher se apodera, inconscientemente no
início, acabando por assimilálos, dos interesses que pouco antes lhe eram
completamente desconhecidos e incompreensíveis.

O amor deixa de ser para a mulher o conteúdo único de sua vida, começa a
ficar relegado a um lugar secundário, como sucede com a maioria dos homens.
E certo que as mulheres do novo tipo passam alguns períodos de sua vida, nos
quais o amor ou a paixão tomam completamente sua alma, sua inteligência,
seu coração e até sua vontade; épocas em que todos os outros interesses da
vida empalidecem ou ficam relegados a um segundo plano. Nestes momentos
as mulheres do novo tipo podem viver também como as mulheres do passado.
Mas, na mulher moderna, a paixão e o amor constituem apenas uma parte de
sua vida, cujo verdadeiro conteúdo é algo mais sagrado e a cuja realização se
entrega, isto é, um ideal social, o estudo da ciência, uma vocação ou o trabalho
criador. A finalidade de sua vida é, geralmente, para a mulher moderna, algo
muito mais importante, muito mais apreciado, muito mais sagrado que todas as
alegrias do amor e todos os prazeres da paixão.
Disto nasce a atitude, completamente nova, da mulher com respeito ao
trabalho, atitude que era impossível encontrar na~ heroínas dos bons tempos
passados.

A heroína de Bennet teve seu primeiro encontro amoroso com o homem.


Quando este lhe pergunta se pode ir vê-la na manhã seguinte, ela o interrompe
quase com espanto, apesar de seu amor e de sua felicidade:

- “Só venha depois do almoço”.

- “Depois do almoço, por quê?”

“Ele não sabia o que pensar.”

“É que durante os últimos cinco anos de minha vida eu me acostumei a ser a


dona de meus próprios atos. Todos os meus gostos, meus costumes, meu
regime de vida já estão estabelecidos. Nunca recebo ninguém antes do
almoço. Amanhã, precisamente amanhã, tenho muito que fazer.” “Será que
este homem, como um conquistador, virá roubar minhas manhãs de trabalho?
Sem que me desse conta despertou em mim uma surda inquietação pela
minha liberdade e independência.”

Esta confissão nos revela uma nova característica da psicologia da mulher


moderna. Uma mulher é capaz de retardar por sua própria vontade um
encontro desejado e que a faria feliz. E faz isto unicamente porque está
acostumada a escrever pela manhã, porque lhe doem as horas perdidas,
roubadas ao trabalho. Para a mulher do passado, como seria possível que as
horas entregues ao amor fossem horas perdidas? Tânia, a heroína do romance
de Nagrodsafla, durante a lua de mel com Stark, sente-se continuamente
atormentada pela consciência de sua ociosidade.

“Decididamente, reservar-me-ei o dia de hoje. Pedirei a Stark que me deixe só.”


Porém Stark indigna-se e protesta diante de sua proposta. Este era o papel
reservado, no passado, às heroínas dos romances.

“Todo um dia sem você”, diz-lhe em tom de criança caprichosa. “Não a


molestarei. Ficarei quieto.” E prossegue logo depois: “Começo a odiar sua arte.
E uma rival com a qual é difícil lutar.” Tânia cede uma vez mais, porém a
consciência do trabalho abandonado a martiriza. Não é possível para ela
entregar-se inteiramente ao prazer, encontrar calma em seus gozos amorosos,
tendo seu trabalho que sofrer as conseqüências.

“Hoje trabalhei - escreve Târtia, feliz; trabalhei avidamente, com alegria, quase
ininterruptamente, desde as primeiras horas da manhã.” E a descrição deste
dia de trabalho está escrita de maneira clara e alegre. Sente-se ao ler estas
linhas que o ser de Tânia se libertou temporariamente da embriaguez da
paixão e encontrou de novo a si mesmo. Com a paleta na mão, Tânia, entregue
ao trabalho, despertou de seu sonho e se deu conta, de repente, de que
iridependentemente dela e de Stark, além de sua atmosfera de paixão que os
leva até o êxtase, existe um mundo, cheio de cores e prazeres, com suas
próprias alegrias e sofrimentos. De repente se recorda de seu amigo Weber e
lamenta seu abandono. Não se encontra uma mulher do tipo antigo, capaz de
lançar um suspiro de alívio, à maneira dos homens, ao ver-se livre da
embriaguez da paixão, ao retomar o trabalho abandonado, ao apreciar de novo
o valor de sua existência independente, sua própria individualidade.
A maior tragédia para a mulher do passado era a perda ou a traição do homem
amado. Para a nova mulher, a maior desgraça é a perda de si mesma, a
renúncia ao seu próprio eu, sacrificado ao homem amado, à felicidade do amor.
As mulheres do novo tipo se sublevam, não somente contra as correntes
exteriores, mas, também contra a “escravidão do amor por si só”. Têm medo
das correntes do amor com que a psicologia deformada de nossa época
aprisiona os amantes. Acostumada a perder-se totalmente nos tormentos da
paixão, a mulher, mesmo a mulher do novo tipo, vai ao encontro do amor
quase sempre com um sentimento de ansiedade, temerosa de que a força do
sentimento desperte nela as tendências atávicas, da mulher eco do homem,
temerosa de que a paixão a obrigue a renunciar a si mesma, a abandonar seu
trabalho, sua vocação e a finalidade de sua vida. Já não se trata da luta pelo
direito ao amor, mas sim, do protesto contra a escravidão moral de um
sentimento que exteriormente pode ser livre. Tudo isto significa a rebelião das
mulheres de nosso período de transição, as quais, todavia, não aprenderam a
conciliar a independência e a liberdade interior, com a força renovadora do
amor.

A mulher do passado, quando se desligava do amor, submergia no mundo


incolor de sua vida cinzenta e pobre de conteúdo. A mulher do novo tipo,
quando escapa do cativeiro do amor, recobra sua liberdade com alegria e
surpresa. “Terminou a submissão do pensamento”, escreve triunfalmente a
heroína de Kredo, depois de haver-se convencido de que havia passado a
embriaguez da paixão, de que já terminaram todos os sofrimentos, agitação e
temores. Outra vez sente-se livre e seu coração não está destroçado, apesar
de o homem amado ter desaparecido repenfinamente de sua alma. Irina
regozija-se quando “sente que recupera as forças e a energia que diminuíam
sempre que tentava penetrar nas profundezas de uma alma estranha àsua,
esforço que lhe dava uma sensação de humilhação. Por isso o despertar de
Irina é alegre.”

Libertar-se do cativeiro de um pensamento alheio, escapar à dor e ao


sofrimento, voltar a si mesma, encontrar de novo a personalidade perdida,
constitui a maior felicidade para a mulher-individualidade; sentimentos estes
incompreensíveis e desconhecidos para as mulheres do passado.
Foi necessário, para não fracassarem todos os sentimentos da mulher, nos
momentos em que o homem se afastava de sua vida, que se produzisse uma
enorme transformação em sua alma; foi preciso que enriquecesse
poderosamente sua vida intelectual e que chegasse a acumular um grande
capital de valores próprios. Precisamente porque a vida da nova mulher não se
reduz a amar, porque tem em sua alma uma reserva de necessidades e
interesses que a tomam uma individualidade, mudamos nosso critério de
apreciação sobre a personalidade da mulher. Durante muitos séculos a mulher
foi valorizada, não pelas propriedades de sua alma, mas sim, pelas virtudes
femininas que exigia a moral burguesa da propriedade: a pureza, a virtude
sexual. Não haveria perdão para a mulher que pecasse segundo o código da
moralidade sexual. Por isso, os romancistas evitavam, com todas as
precauções, a queda de suas heroínas preferidas, enquanto deixavam que as
outras pecassem como os homens, ainda que estes não perdessem por isto
seu valor moral.

As heroinas dos romances contemporâneos, as mulheres celibatárias,


freqüentemente infringem as proibições do código corrente da virtude sexual,
sem que o autor nem o leitor considerem essas heroinas como tipos viciados.
Admiramos a audaciosa Magda, de Sudermann, mesmo tendo esta moça
pecado várias vezes. Matilde, a heroína de Hauptmann, comove-nos apesar de
seus amores ilegítimos e de possuir filhos de vários amantes. (40)

Apesar destes fatos ocorrerem com a maioria dos homens, nós os respeitamos
assim mesmo.

Sem nos darmos conta disto, experimentamos uma modificação em nossa


psicologia no que se refere à nova moral em formação. O que há cinqüenta
anos classificávamos como uma mancha indelével em uma moça solteira ou
em uma mulher, hoje consideramos como um fato que não necessita nem de
justificativa nem de perdão. Jorge Sand teve que defender o direito da mulher
de abandonar seu marido por um amante que elegeu livremente. Na
paradisíaca Inglaterra, Grent Allan, não faz muito tempo, teve que tomar sob
sua proteção a mãe solteira. À medida porém, que a mulher se torna
independente, que deixa de depender de um pai ou de um marido, à medida
que participa ao lado do homem da luta social, o velho critério torna-se
completamente inútil.

A acumulação gradativa na mulher de características e sentimentos morais


humanos nos ensina a nela apreciar não somente a representante do sexo,
mas também uma individualidade. Ao mesmo tempo desaparece o antigo
critério, que considerava a mulher como a fêmea, capaz de assegurar ao
marido um rebento legítimo.

Primeiramente a vida nos ensinou a aplicar estes critérios somente às almas


superiores; por isto perdoamos as infrações do código corrente da moral sexual
às artistas, às mulheres de talento.

“Mas, por que hão de ser as almas superiores as únicas que gozam desses
direitos?”, pergunta com razão Bebel.

“Se Goethe e Jorge Sand - tomemos estas duas personalidades como


exemplo, ainda que sejam muitas as que agiram da mesma forma - atreveram-
se a viver conforme os desejos de seu coração; se as aventuras amorosas de
Goethe ocupam volumes inteiros, devorados com entusiasmo respeitoso por
admiradores de ambos os sexos, por que, então, condenar em outros o que
precisamente nos encanta em Goethe e Jorge Sand?” (41)

Seguramente riríamos dos hipócritas que fossem capazes de negar um aperto


de mão a Sarah Bernhardt ou de abandonar um espetáculo por imoral. Mas,
quando se trata de simples mortais, vacilamos freqüentemente antes de
reconhecer uma personalidade, duvidamos da atitude que devemos adotar
ante a mulher livre do tipo celibatário. Se verdadeiramente estivéssemos
decididos a aplicar a estas mulheres a medida moral dos tempos passados,
seríamos obrigados a abandonar todas as figuras das mulheres mais belas e
humanas da literatura contemporânea. Enquanto as mulheres do passado,
educadas no respeito à pureza imaculada da virgem, se esforçavam em
conservar sua virtude, tinham necessariamente que esconder e dissimular os
sentimentos reveladores das necessidades naturais de seu corpo, o traço
característico da mulher do novo tipo é a afirmação de si mesma, não somente
como individualidade, mas também como representante de seu sexo. A
rebelião das mulheres contra a falsidade da moral sexual é um dos traços mais
vivos da nova mulher.

Tem que ser assim, porque na mulher, na mãe, a vida fisiológica ocupa,
contrariamente às concepções que lhe foram inculcadas de maneira hipócrita,
um papel muito mais importante que no homem. A liberdade de sentimento, a
liberdade de eleger o homem amado, que pode chegar a ser o pai de seus
filhos, a luta contra o fetiche da moral hipócrita, tais são os pontos do programa
que realizam, silenciosamente, as mulheres do novo tipo. O traço típico da
mulher do passado era a renúncia à atração da carne, a máscara da pureza,
inclusive no matrimônio. A nova mulher não abdica da sua natureza de mulher,
não foge da vida, nem de suas alegrias terrenas, que a realidade, tão avara em
sorrisos, lhe concede. As heroínas modernas são mães sem estar casadas;
abandonam o marido ou o amante; sua vida pode ser rica em aventuras
amorosas, e, entretanto, nem elas mesmo, nem o autor ou leitor
contemporâneo as consideram criaturas perdidas. As aventuras do amor livre e
sincero de Matilde, de Olga, de Maia, têm uma ética própria, talvez mais
perfeita que a passiva virtude da Tatiana, de Puchkin (42), ou a moral
negligente de Lisa, de Turguenev. (43)

Esta é a mulher moderna: a autodisciplina, ao invés de um sentimentalismo


exagerado; a apreciação da liberdade e da independência, ao invés de
submissão e de falta de personalidade; a afirmação de sua individualidade e
não os estúpidos esforços por identificar-se com o homem amado; a afirmação
do direito a gozar dos prazeres terrenos e não a máscara hipócrita da “pureza”,
e finalmente, o relegar das aventuras do amor a um lugar secundário na vida.
Diante de nós temos, não uma fêmea, nem uma sombra do homem, mas sim
uma mulher-individualidade.
Notas

1 Tomemos como exemplo a moral simplista do homem em suas relações sexuais, moral que
considera como um fato natural e inevitável... a prostituição. Dora, a heroína de vanguarda da
novela de Winitchenco, A Autolealdade, é uma mulher que se sente enteriormente livre e que
assilimila sem submeter à crítica essa verdade masculina do mundo burguês. Com uma
finalidade superior, para demonstrar a profundidade de seu sentimento pelo homem que ama,
para afirmar sua personalidade e evidenciar 57uão separados estão seus sentimentos de uma
simples agitação sangüínea, Dora compra um homem... A falsa veracidade masculina de
classe é aceita neste caso por uma mulher que aspira a libertar-se, buscando uma verdade
superior.

2 Ver capítulo A nova mulher na literatura.

3 Isto explica porque os romancistas contemporâneos elegem suas heroínas entre as mulheres
representantes do meio burguês. Apenas encontramos uma heroína pertencente à classe
operária. Entretanto, os escritores encontrariam um rico material se decidissem descer até
estas camadas da sociedade, onde a dura realidade contemporânea cria, não isoladamente,
mas em massa, o tipo de mulheres dotadas de uma nova estrutura moral, com novas
necesidades e emoções.

4 Os traços psicológicos isolados, característicos da nova mulher, se encontram nas heroínas


de Gorki muito mais frequentemente do que nos outros escritores russos. Sua alma sensível de
artista, aberta à realidade futura, sabe apoderar-se com muito mais facilidade do que a dos
outros escritores, dos traços que escapam aos olhos dos demais e que se encontram mais
estreitamente ligados à realidade capitalista.

5 Grete Meisel – Hess – A Crise sexual.

6 Convém assinalar que as considerações expostas por Meissel – Hess sobre a deformação da
psicologia masculina, dão a chave de outro problema que até agora havia permanecido
obscuro. O pouco costume que os homens têm de levar em consideração a psicologia faminina
– a incapacidade para compreender seus sentimentos – não somente os conduz a não prestar
a menor atenção à alma da mulher, como vai ainda muito mais além: conduz os homens a
ignorar totalmente, com a mais surpreendente ignorânica, as sensações fisiológicas da mulher
durante o ato mais íntimo de suas relações. Os médicos sbem, a insatisfação das mulheres no
ato sexual provoca, freqüentemente, doenças nervosas. É surpreendente que a literatura
impregnada pela psicologia masculina haja deixado passar em silêncio este fato que explica
toda uma série de dramas familiares e de amor. Quando Maupassant se atreve a abordar a
questão na novela “Uma Vida”, sua “revelação” provoca uma ingênua surpresa na maioria dos
homens.

7 Este ensaio foi escrito em 1918.


8 Matilde, novela de Karl Hauptmann.

9 Suderman: A Pátria.

10 Colette Iver: Princesas da Ciência.

11 Schnitzler: Caminho da liberdade.

12 Potapenko: Na Névoa.

13 Wimitchenko: Na Balança da Vida.

14 Idem.

15 Id.

16 Sangar: Notas de Anna.


17 Grigoriev: O Ocaso.

18 Colette e Willy: A Vagabunda.

19 Bennet: O Amor Sagrado.

20 Grete Meisel: A Voz.

21 Ilsa Frapan: Trabalho.

22 Hedwing Dohm: Christa Rouland.

24 Yuchkevitch: Saída do Círculo.

25 Wassermann: Renata Fuchs.

26 Grent Allena: A mulher que se atreveu.

27 Winnichenko: Na Balança da Vida.

28 Else Jerusalén: O escaravelho sagrado.

29 O. Rounow: Luta.

30 Bernard Shaw: O primeiro trabalho de Fanny.

31 Hauptman: Solitárias.

32 S. Undset: Jenny.

33 Romain Rolland: Jean Christophe.

34 Idem.

35 G. Aterton: Julia France e sua época.

36 Marie Antine: A Terra Prometida.

37 Por exemplo, Rosa de Vita Omnium Breve.

38 A maioria dos autores citados nestas páginas são mulheres. Muitas de suas obras carecem
de verdadeiro valor artístico; mas, para o fim a que nos propomos nestas páginas, elas nos
oferecem um ponto de vista incomparavelmente mais exato do que as obras dos escritores de
sexo masculino, que são superiores, em geral, por seu valor literário. Quase todos os romances
escritores por mulheres contêm trechos puramente biográficos que são precisamente os que
maior interesse apresentam para o nosso trabalho. As obras que refletem sem artifícios a
verdade da vida, as que nos mostram mais exatamente a psicologia da mulher contemporânea,
suas dores, seus problemas, seus desejos, contradições, complicações e tendências, serão as
que melhor nos servem para enriquecer nosso material no estudo do novo tipo de mulher em
formação. Desde que as mulheres escritoras deixaram de imitar cegamente os modelos criados
pelos homens e se atreveram a descobrir os mistérios da alma feminina que até então haviam
permanecido ocultos, inclusive para os artistas mais geniais, desde qua as escritoras
começarama expressar na sua própria língua sobre os problemas da mulher, suas obras, ainda
que careçam algumas vezes da beleza exterior da criação artística, têm um valor e uma
significação especial. Em suma todos esses trabalhos nos ajudam a conhecer a mulher
celibatária, a mulher do novo tipo, em formação.

39 É característico observar como a maternidade tem sido sempre considerada como último
refúgio da felicidade da mulher. Se o matrimônio não a tornara feliz, se a mulher se via
obrigada a renunciar a uma união amorosa ou se tinha enviuvado, restavam então, como último
refúgio, os cuidados e as alegrias da maternidade. A maternidade raramente era considerada
como um fim em si mesma. Somente perto da velhice, despertavam na mulher sentimentos
atávicos da espécie, só então aparecia a família com algum sentido na vida, e se convertia em
um ídolo, que adorava, e para o qual exigia, despoficamente, a adoração dos outros membros
da família.

40 As aventuras amorosas de Matilde não nos impedem de respeitar sua personalidade íntegra
e pura. Assim como Matilde, sentimos piedade e desprezo por sua irmã Marta, operária como
ela, mas que regressa com dinheiro de cada aventura. Há todo um abismo entre a liberdade de
Matilde e a venalidade de Marta.

41 A. Bebel: A Mulher

42 Puchkin: Eugenia Onieguin

43 Turguenev: Ninho de fidalgos


II Parte

O amor na sociedade comunista


(carta á juventude operária)
O amor como fator social

Um jovem camarada pergunta-me que lugar ocupa o amor na ideologia do


proletariado. Surpreende-o o fato de que, atualmente, a juventude trabalhadora
se preocupe muito mais com o amor e com todas as questões a ele
relacionadas do que com os grandes problemas que a República dos Sovietes
tem a resolver. Se isto é verdade (dificilmente pode-se apreciá-lo de longe),
busquemos juntos a explicação deste fato e acharemos a resposta para a
primeira pergunta: que lugar corresponde ao amor na ideologia da classe
trabalhadora?

É certo que a Rússia Soviética entrou numa nova fase da guerra civil. A frente
revolucionária sofreu um deslocamento. Atualmente a luta tem que travar-se
entre duas ideologias, entre duas civilizações: a ideologia burguesa e a
ideologia proletária. Sua incapacidade cada vez se manifesta com maior
clareza. As contradições entre estas duas civilizações diferentes são dia a dia
mais agudas.

A vitória dos princípios e ideais comunistas no domínio da política e da


economia tinha, necessariamente, que ser a causa de uma revolução nas
idéias sobre a concepção do mundo, nos sentimentos, na formação espiritual
da humanidade trabalhadora. Nos momentos atuais já se pode observar uma
transformação dessas concepções da vida, da sociedade, do trabalho, da arte
e das regras de nossa conduta, isto é, da moral. As relações sexuais
constituem parte importante dessas regras de conduta. A revolução na frente
ideológica levará ao fim a transformação realizada no pensamento humano,
durante os cincos anos de existência da República dos Sovietes.
Entretanto, à medida que a luta entre as duas ideologias, a burguesa e a
proletária, se torna mais aguda, àmedida que esta luta se estende e abarca
novos domínios, surgem diante da humanidade novos problemas da vida, que
só a ideologia da classe operária poderá resolver de maneira satisfatória.
Entre estes múltiplos problemas, encontra-se, jovem camarada, o que você
assinala: o problema do amor, que a humanidade, nas diversas fases de seu
desenvolvimento histórico, pretendeu resolver por meio de procedimentos
diversos. Entretanto, o problema subsistia; unicamente variavam as tentativas
de solução, que defenderiam, naturalmente, segundo o período, a classe e o
espírito da época, ou seja, a cultura.

Na Rússia, até recentemente, durante os anos da guerra civil e da luta contra a


desorganização econômica, só a poucos interessava esse problema. Eram
outros sentimentos, outras paixões mais reais, que moviam a humanidade
trabalhadora. Quem foi capaz de preocupar-se seriamente com as penas e
sofrimentos do amor durante aqueles anos em que o espectro da morte
espreitava a todos? Durante aqueles anos a questão palpitante se resumia na
pergunta: quem vencerá? A revolução (o progresso) ou a contra-revolução (a
reação)?

Diante do sombrio aspecto da enorme luta, a revolução, o delicado Eros, Deus


do amor, tinha que desaparecer apressadamente. Não havia tempo nem forças
psíquicas para abandonar-se às alegrias e às torturas do amor. A humanidade
responde sempre a uma lei de conservação da energia social e psíquica. E
esta energia éaplicada sempre ao fim essencial e imediato do momento
histórico. Portanto, durante estes anos se apossou da situação a simples e
natural voz da natureza, o mesmo instinto biológico da reprodução, a atração
entre dois seres de sexo oposto. O homem e a mulher uniam-se ou
separavam-se facilmente, muito mais facilmente do que no passado. O homem
e a mulher entregavam-se mutuamente, sem estremecimentos em suas almas
e separavam-se sem lágrimas, nem dor.

É certo que desaparecia a prostituição, porém, em compensação aumentavam


as uniões livres entre os sexos, uniões sem compromissos mútuos e nas quais
o fator principal era o do instinto da reprodução, desprovido da beleza dos
sentimentos do amor. Muitos foram os que, diante deste fato, sentiram espanto,
mas, é certo que durante aqueles anos as relações entre os sexos não podiam
ser de outro modo. Apenas duas formas de união sexual podiam suceder,
podiam ocorrer nesse período: o matrimônio consolidado durante vários anos
por um sentimento duradouro de camaradagem, de amizade conservada
através dos anos e que, precisamente pela seriedade do momento, se
convertia num laço de união mais firme, ou, pelo contrário, as relações
matrimoniais para satisfazer uma necessidade puramente biológica,
constituindo simplesmente um capricho passageiro, que satisfazia a ambas as
partes e que, rapidamente, se desvanecia, para que não obstaculizasse o fim
essencial da vida: a luta pelo triunfo da revolução.

O instinto brutal da reprodução, a simples atração entre os sexos, que nasce e


desaparece com a mesma rapidez sem criar laços sentimentais nem
espirituais, é esse amor. Não absorve as forças psíquicas, que o outro tipo
consome, o amor tecido com emoções diversas, forjadas no coração e no
espírito. Esse não engendra noites de insônia, não faz vacilar a vontade nem
confunde o espírito. A classe formada pelos revolucionários não podia deixar-
se levar por outros sentimentos nas horas de transtorno da revolução, que
chamava sem cessar ao combate a humanidade trabalhadora. Durante aquelas
jornadas era inoportuno desperdiçar as forças psíquicas dos membros da
coletividade, em sentimento de ordem secundária, que não contribuía
diretamente para o triunfo da revolução. O amor individual, que constitui a base
do matrimônio que se concentra no homem ou na mulher, exige uma perda
enorme de energia psíquica. Durante aqueles anos de luta, a classe operária,
artífice da nova vida, não estava interessada somente na maior economia
possível de suas riquezas materiais, mas, sim, em economizar a energia
psíquica de cada um de seus indivíduos para aplicá-las nas tarefas gerais da
coletividade. Não éoutra a razão pela qual, durante o período agudo da luta
revolucionária, o amor, que tudo consome por onde anda, fosse substituído
pelo instinto pouco exigente da reprodução.

Agora, porém, o quadro se nos apresenta bastante distinto. A República dos


Sovietes, e com ela toda a humanidade trabalhadora, entrou num período
relativamente calmo. Agora o trabalho que se inicia é muito complicado, pois se
trata de compreender e fixar, definitivamente, tudo o que foi conquistado,
adquirido e criado. O proletário, arquiteto das novas reformas da vida, vê-se
obrigado a extrair outros ensinamentos.
Deve, portanto, compreender também este fenômeno, tem que assimilá-lo,
apropriá-lo e transformá-lo em mais uma arma para a defesa de sua classe. Só
depois de ter assimilado as leis que presidem a criação, das riquezas materiais
e as que dirigem os sentimentos da alma, poderá o proletariado entrar armado
até os dentes na arena contra o velho mundo burguês. Só então poderá a
humanidade trabalhadora vencer na frente ideológica, como triunfou na frente
militar e na frente do trabalho.

Depois do triunfo e da consolidação da revolução na Rússia, quando começa a


tornar-se mais clara a atmosfera do combate revolucionário e o homem já não
se entrega inteiramente à luta, reaparece de novo e reclama seus direitos
aquele amor desprezado durante os anos de agitação. Atreve-se a sair de novo
da sombra do instinto de reprodução. Nesse período de relativa calma,
acumulou-se um excedente de energia que os homens do presente, mesmo os
representantes da classe trabalhadora, não sabem, ainda, aplicar à vida
intelectual da coletividade. Este excedente de energia psíquica tenta
exteriorizar-se através dos sentimentos amorosos. E sucede que o amor-
sentimento submete mais uma vez o amor-reprodução. O homem e a mulher
não se unem mais como durante os anos da revolução, não buscam uma união
passageira para satisfazer seus instintos sexuais, mas começam a viver
romances de amor, com todos os sofrimentos e o êxtase que os acompanham.
Presenciamos, sem dúvida, na União Soviética, um crescimento das
necessidades intelectuais. Sente-se, cada dia, maior avidez de conhecimento.
As questões científicas, o estudo da arte e o teatro despertam todo o nosso
interesse. O afã de pesquisa que se experimenta na República dos Sovietes
para encontrar novas formas que encerrem as riquezas intelectuais da
humanidade, compreende também, como é lógico, a esfera dos sentimentos
amorosos. Observa-se, portanto, um despertar para tudo que se refere à
psicologia sexual, isto é, para o problema do amor. É este um aspecto da vida,
do qual com maior ou menor intensidade participam todos os indivíduos.
Observa-se, com assombro, como militantes que até pouco tempo só liam os
artigos dos editoriais do Pravda, lêem agora com prazer livros onde se decanta
o romance do amor.

Devemos interpretar isto como sintoma de reação? Como sinal de decadência


na ação revolucionária? De modo algum. É chegado o momento de repelir para
sempre toda a hipocrisia do pensamento burguês. É chegado o momento de
reconhecer abertamente que o amor não ésomente poderoso fator da natureza,
não é apenas uma força biológica, mas também, um fator social. Em sua
própria essência é o amor um sentimento de caráter profundamente social. O
certo é que o amor, em suas diferentes formas e aspectos, constitui, em todos
os níveis do desenvolvimento humano, uma parte indispensável e inseparável
da cultura de cada época. Até a burguesia, que reconhece algumas vezes que
o amor é um assunto de ordem particular, sabe, na realidade, como encadear o
amor a suas normas morais, a fim de servir ao sucesso e à afirmação de seus
interesses de classe.

Mas, ainda há outro aspecto dos sentimentos amorosos ao qual a ideologia da


classe operária deve dedicar maior importância. Referimo-nos ao amor
considerado como um fator do qual se podem tirar benefícios em favor da
coletividade, da mesma forma que qualquer outro fenômeno de caráter social e
psíquico. Que o amor não é de modo algum um assunto privado, que interesse
unicamente a dois corações isolados, mas, pelo contrário, que o amor supõe
um princípio de união de um valor incalculável para a coletividade, isto se
evidencia no fato de que, em todos os graus de seu desenvolvimento histórico,
a humanidade estabeleceu regras que determinavam quando e em que
condições o amor era considerado legítimo (ou seja, quando correspondia aos
interesses da coletividade), e quando teria de ser considerado como culpado
(ou seja, quando o amor se encontrava em contradição com a sociedade).
Um pouco de história

Desde tempos imemoriais começou a humanidade a estabelecer regras que


regulassem não somente as relações sexuais, como também, os sentimentos
amorosos.

Na época do patriarcado, a suprema virtude moral dos homens era o amor


determinado pelos vínculos de sangue. Naqueles tempos, a mulher que se
sacrificasse pelo marido mereceria a reprovação e o desprezo da família ou
tribo a que pertencesse. Ao contrário, conferia-se grande valor aos sentimentos
amorosos em relação ao irmão ou à irmã. A Antígona dos gregos enterrava os
cadáveres de seus irmãos mortos com risco de sua própria vida. Este único
fato faz da figura da Antígona uma heroína aos olhos de seus contemporâneos.
A sociedade burguesa de nosso tempo classificaria esta ação, realizada pela
irmã e não pela mulher, como algo estranho e um pouco impróprio.
Durante os anos de domínio da sociedade patriarcal e de criação das formas
do Estado, o sentimento de amor normal foi, sem dúvida alguma, a amizade
entre dois indivíduos de uma mesma tribo. Era de transcendental importância
para a coletividade, que apenas havia ultrapassado a fase da organização
puramente familiar e se sentia débil do ponto de vista social, o fato de que
todos os seus indivíduos estivessem unidos por sentimentos de amor e
vínculos espirituais.

As emoções que correspondiam melhor a esta finalidade eram as do amor-


amizade e não as das relações sexuais. Nesse período, os interesses da
coletividade exigiam para a humanidade o crescimento e a acumulação de
laços psíquicos, não entre casais unidos pelo matrimônio, mas, sim, entre os
organismos da mesma tribo, entre os organizadores e defensores da tribo e do
Estado. (Não foi mencionada aqui a amizade entre as mulheres, visto que,
naqueles tempos, não podia ser considerada um fator social).
No patriarcado, exaltavam-se as virtudes do amor-amizade, considerado como
um sentimento muito superior ao amor entre os esposos. Castor e Polux não
passaram à posteridade por suas ações e serviços prestados à pátria. Foram
os sentimentos de mútua fidelidade, sua amizade inseparável e indestrutível
que fizeram seus nomes chegarem até nós. A amizade (ou a aparência de um
sentimento de amizade) era o que obrigava um marido enamorado de sua
mulher a ceder ao amigo preferido seu lugar no leito conjugal. Outras vezes
não era nem sequer ao amigo, mas ao hóspede a quem teria de demonstrar
um verdadeiro sentimento de amizade, deixando-o ocupar o leito ao lado de
sua mulher.

A amizade, sentimento que supunha a fidelidade ao amigo até a morte, foi


considerada no mundo antigo como virtude cívica. O contrário sucedia com o
amor, no sentido contemporâneo da palavra, que não ocupava nenhum papel
na sociedade nem sequer chamava a atenção dos poetas ou dos dramaturgos
da época. A ideologia daqueles tempos considerava o amor incluído no quadro
dos sentimentos exclusivamente pessoais, dos quais a sociedade não teria
porque ocupar-se. O amor ocupava o lugar de uma distração qualquer: era um
luxo a que se podia permitir a um cidadão depois de haver cumprido seus
deveres para com o Estado.
A qualidade de saber amar, tão apreciada pela ideologia burguesa quando o
amor não vai mais além dos limites impostos por sua moral de classe, carecia
de significação no mundo antigo quando se tratava de determinar as virtudes e
qualidades características do homem. Na antigüidade, o único sentimento de
amor era a amizade. O homem que realizava façanhas e expunha a vida. pelos
amigos, conquistava fama com os heróis legendários: sua ação exprimia uma
virtude moral. Em troca, o homem que expunha sua vida pela mulher amada
incorria na reprovação de todos, reprovação que podia chegar inclusive ao
desprezo. Todos os escritos da antigüidade condenavam os amores de Páris e
da formosa Elena, que foram a causa da guerra de Tróia, guerra que só
desgraça podia acarretar aos homens. O mundo antigo valorizava a amizade
como sentimento capaz de consolidar, entre os indivíduos de uma tribo, os
laços espirituais necessários à manutenção do organismo social, ainda frágil
naquela época. Por isso, posteriormente, a amizade deixou de ser apreciada
como virtude moral.

Na sociedade burguesa, edificada sobre os princípios do individualismo,


concorrência desenfreada e emulação, não há lugar para amizade como fator
social. A sociedade capitalista encarava a amizade como expressão de
sentimentalismo, uma debilidade completamente inútil e até prejudicial para a
realização das tarefas da classe burguesa. A amizade, na sociedade burguesa,
converteu-se em motivo de zombaria. Se Castor e Polux vivessem nos tempos
atuais, sua amizade sem limites provocaria sorrisos indulgentes na sociedade
burguesa de Nova York ou Londres. A sociedade feudal tampouco reconheceu
o sentimento de amizade como qualidade digna de louvor e que fosse
necessário desenvolver entre os homens.

A sociedade feudal estava fundada no estrito cumprimento dos interesses das


famílias nobres. A virtude não estava determinada pelas relações mútuas dos
membros da sociedade e sim pelo cumprimento dos deveres de um membro de
uma família em relação a ela e às suas tradições. No matrimônio dominavam
os interesses familiares e, portanto, o rapaz (a moça não tinha liberdade de
escolha) que preferia uma mulher, contra os interesses familiares, teria de
enfrentar censuras e reprovações severíssimas. Durante a época feudal não
era conveniente para o homem antepor seus sentimentos pessoais aos
interesses da família. Aquele que pretendesse romper as normas estabelecidas
era olhado pela sociedade de seu tempo como um pária. Para a ideologia da
sociedade feudal, o amor e o matrimônio não podiam estar unidos.
Não obstante, foi durante os séculos do feudalismo que o sentimento do amor
entre os seres de sexos diferentes adquiriu certo direito, pela primeira vez, na
história da humanidade. Parece estranho à primeira vista o fato de que o amor
fosse reconhecido como tal naqueles anos de ascetismo, de costumes brutais
e cruéis, naquela época de violências e do reinado do direito de usurpação.
Mas, se observarmos mais detalhadamente as causas que motivaram o
reconhecimento do amor como um fenômeno social, não só legítimo, mas
também desejável, veremos claramente os motivos que determinaram o
reconhecimento do amor.

O sentimento do amor pode impulsionar o homem enamorado (em


determinados casos e com a ajuda de determinadas circunstâncias) a realizar
atos que não poderia levar ao fim, se tivesse outra disposição de espírito. A
cavalaria andante exigia, no domínio militar, de todos os seus membros a
prática de elevadas virtudes, mas de caráter estritamente pessoal. Tais virtudes
eram a intrepidez, a bravura, a resistência, etc... Naqueles tempos não era a
organização do exército o que determinava a vitória no campo de batalha. As
qualidades individuais dos combatentes constituíam o fator primordial. O
cavaleiro enamorado de sua inconquistável dama, a eleita de seu coração,
poderia realizar verdadeiros milagres de bravura, triunfar mais facilmente nos
torneios, e saberia sacrificar a vida sem temores, em nome da mulher amada.
O cavaleiro enamorado agia estimulado pelo desejo de distinguir-se para
conquistar os favores da sua eleita.

A ideologia do cavaleiro teve, por conseguinte, que levar em conta este fato.
Como reconhecia no amor um poder capaz de provocar no homem um estado
emocional útil para as finalidades da classe feudal, procurou colocálo,
naturalmente, num lugar bem destacado. Naquela época o amor entre os
esposos não podia inspirar os cantos dos poetas, visto que não constituía a
base em que se fundava a família, nos castelos. O amor, como fator social, só
era valorizado quando se tratava dos sentimentos de um cavaleiro pela mulher
de outro. Sentimentos que serviam de impulso para a realização de valentes
façanhas. Quanto mais inacessível se achava a mulher escolhida, maior era o
esforço realizado pelo cavaleiro para conquistar seus favores com as virtudes e
qualidades apreciadas em seu mundo (intrepidez, resistência, tenacidade e
bravura).

O mais comum era que a dama escolhida pelo cavaleiro ocupasse uma
posição inacessível. A dama de seus pensamentos, eleita pelo cavaleiro, era,
geralmente, a mulher do senhor feudal. Em certas ocasiões, o cavaleiro levava
sua ousadia até o cúmulo de pousar seus olhos sobre a rainha. Este ideal
inacessível se baseava na concepção de que unicamente era digno, como
exemplo virtuoso, o amor espiritual, o amor sem carne, que impelia o homem a
tomar parte em façanhas heróicas e o obrigava à realização de milagres de
bravura. As moças solteiras não eram nunca objeto de adoração dos valentes
cavaleiros. Por muito alta que fosse a posição, a adoração do cavaleiro podia
terminar em matrimônio. Então, desaparecia inevitavelmente o fator psicológico
que impulsionava o homem àluta. Diante desse perigo, a moral feudal não
podia admitir o amor do cavaleiro pela jovem solteira. O ideal do ascetismo
(abstinência sexual) tem pontos de contato com a elevação do sentimento
amoroso convertido em virtude moral. O desejo de purificar o amor de tudo o
que fosse carnal, culpado, a aspiração de converter o amor num sentimento
abstrato, levava os cavaleiros da Idade Média a cair em monstruosas
aberrações. Elegiam como dama de seus pensamentos mulheres que nunca
haviam visto em sua vida. Chegavam inclusive a enamorar-se da Virgem
Maria... Não creio que seja possível deformar ainda mais um sentimento. A
ideologia feudal apreciava o amor como estimulante para as qualidades
necessárias de todo cavaleiro: o amor espiritual, a adoração do cavaleiro pela
dama de seus pensamentos serviam diretamente aos interesses da casta.
Essa consideração foi a que determinou, desde o começo da sociedade feudal,
aquele conceito de amor. Diante da traição carnal da mulher, diante do
adultério da esposa, o cavaleiro da Idade Média não podia vacilar e a
enclausurava ou matava. Por outro lado se sentia orguIhoso se outro cavaleiro
elegia sua esposa como a dama de seus pensamentos e chegava a permitir
inclusive uma corte de amor feita por amigos espirituais.
A moral feudal cavalheiresca, que cantava e exaltava o amor espiritual, não
exigia, pelo contrário, que as relações matrimoniais ou outras formas de união
sexual tivessem como base o amor. O amor era uma coisa e o matrimônio,
outra. A ideologia feudal estabelecia entre as duas noções uma clara diferença
(44).

As noções de amor e matrimônio não se unificaram até os séculos X1V e XV,


durante os quais começou a formação da moral burguesa. Isto explica porque
durante a Idade Média os sentimentos amorosos elevados e delicados se
chocavam com a brutalidade de costumes no domínio das relações sexuais.
Como as relações sexuais, tanto no matrimônio legítimo, como fora dele,
careciam de amor, ficavam reduzidas a simples atos fisiológicos.
A Igreja reprovava, aparentemente, a libertinagem, porém, como fomentava por
palavras o amor espiritual, não fazia mais do que, na realidade, patrocinar as
relações bestiais entre os sexos. O cavaleiro que trazia sempre sobre o
coração o emblema da dama de seus pensamentos, que compunha em sua
honra versos cheios de delicadeza, que expunha sua vida para merecer um
sorriso de seus lábios, violava tranqüilamente a moça da aldeia ou mandava
seu escudeiro levar ao castelo, para distrair-se, as camponesas mais belas dos
arredores. As mulheres dos cavaleiros não deixavam tampouco, imitando seus
maridos, de gozar os prazeres carnais com os trovadores e pajens. Estas
mulheres chegavam inclusive a admitir as carícias de seus criados apesar do
desprezo que sentiam pela servidão.

Quando a sociedade feudal perdeu sua força e surgiram novas condições de


vida, que impunham os interesses da classe burguesa em formação, criou-se
pouco a pouco um novo ideal moral nas relações sexuais. A nascente
burguesia desprezou o ideal do amor espiritual e tomou a defesa dos direitos
do amor carnal, tão menosprezado durante o feudalismo. A burguesia traz de
novo ao amor a fusão do corpo e do espírito.

A moral burguesa não podia estabelecer nenhuma diferença entre o amor e o


matrimônio. Pelo contrário, o matrimônio teria que estar determinado pela
inclinação mútua entre os esposos. Ainda que a burguesia violasse com grande
freqüência este princípio moral, na prática, por motivos de conveniência, é
evidente que reconhecia o amor como fundamento do matrimônio. Para isto,
tinha sólidas razões de classe.

No regime feudal, a família estava estabelecida nas tradições da nobreza. O


matrimônio era de fato indissolúvel; sobre o casal unido no matrimônio
pesavam os mandamentos da Igreja, autoridade ilimitada dos chefes de família,
a ascendência das tradições e a vontade do senhor feudal.

A família burguesa se formava em outras condições; a família burguesa não se


baseava na posse de riquezas patrimoniais e sim na acumulação do capital. A
família convertia-se em guardiã viva das riquezas acumuladas. Mas para que
esta acumulação se realizasse o mais rapidamente possível era muito
importante para a classe burguesa que os bens adquiridos pelo marido ou pelo
pai fossem gastos com economia, de um modo inteligente, a fim de não
desperdiçá-los. Era, pois, necessário que a mulher fosse, também, uma boa
dona de casa, amiga e auxiliar do marido.

Ao estabelecer as relações capitalistas, só a família, na qual existia uma


estreita colaboração entre todos os membros, interessados na acumulação de
riqueza, ficava fundamentada em sólidas bases. Esta consolidação era muito
mais perfeita e dava melhores resultados se os esposos e os filhos, em relação
a seus pais, estivessem unidos por verdadeiros laços espirituais e de carinho.
A estrutura econômica dessa época, a partir do fim do século XIV e princípios
do XV, contribuiu para o nascimento da nova ideologia. Pouco a pouco
mudavam de aspecto as noções de amor e matrimônio. Lutero, o reformador
religioso, e com ele todos os pensadores e homens de ação do Renascimento
e da Reforma (séculos XV e XVI) compreenderam claramente a força social
que encerrava o sentimento do amor. Os ideólogos revolucionários da
burguesia nascente deram-se conta de que para que a família se
estabelécesse solidamente (unidade econômica na base do regime burguês)
era imprescindível uma intima união entre todos os seus membros. E
proclamaram um novo ideal moral do amor: a fusão do amor carnal e do amor
espiritual.

Estes reformadores zombavam sem piedade do amor espiritual, dos cavaleiros


enamorados, obrigados a consumir-se em suas ânsias amorosas sem
esperanças de satisfazê-lo. Os ideólogos burgueses, os homens da reforma,
reconheciam a legitimidade das sadias exigências da carne. O mundo feudal
dividia o amor e o obrigava a tomar duas formas completamente independentes
uma da outra; o simples ato sexual, por um lado (relações sexuais do
matrimônio ou do concubinato) e um sentimento de elevado amor platônico por
outro ser (o amor que sentia o cavaleiro pela dama de seus pensamentos).
O ideal da moral da classe burguesa compreendia, na noção do amor, a sadia
atração carnal entre os sexos e a afinidade psíquica. O ideal do feudalismo
estabelecia uma diferenciação clara entre o amor e o matrimônio. A burguesia
fundia estas duas noções. Para a burguesia o conceito do amor e do
matrimônio eram equivalentes.

Na prática, naturalmente, a burguesia violava seu próprio ideal. Enquanto que,


na época feudal, não se sublevava diante do problema da inclinação mútua, a
moral burguesa exigia, no caso do matrimônio por conveniência, que os
esposos aparentassem exteriormente que se amavam.

Os preconceitos do amor e do matrimônio da época feudal eram tão fortes que


se conservaram até os dias atuais, por sua adaptação ao meio ambiente,
durante os séculos de moralidade burguesa. Em nossos tempos, ainda, os
membros das famílias coroadas e da alta aristocracia, que as rodeiam,
obedecem àquelas tradições. Nësses ambientes da sociedade, o matrimônio
por amor é classificado como ridículo e produz sempre escândalo. Os jovens
principes e princesas têm que se submeter à tirania das tradições de raça e à
conveniência política de seu país, unir sua vida a um ser que não conhece nem
ama. A história conserva grande número de dramas como o desgraçado filho
de Luis XV que foi obrigado a realizar outro matrimônio apesar do profundo
sentimento que experimentava com a recordação da morte de sua mulher, a
quem havia amado apaixonadamente.

A subordinação do matrimônio a considerações de interesses existe igualmente


entre os camponeses. A família camponesa distingue-se precisamente por isto
da família burguesa da cidade. A família camponesa é antes de tudo uma
unidade econômica de trabalho. Os interesses econômicos dominam de tal
forma a família camponesa que todos os demais laços de ordem emocional
ocupam sempre um lugar secundário.

Na família artesã da Idade Média, não se levava em consideração o amor,


quando se contraia um matrimônio. Na época das corporações de artesãos, a
família era também uma unidade de produção, regida pelo princípio econômico
de trabalho. O ideal do amor no matrimônio não começa a aparecer até o
momento em que a família deixa de ser uma unidade de produção para
converter-se numa unidade de consumo e em guardiã do capital acumulado.
Mas, ainda que a moral burguesa proclamasse o direito de dois corações
amantes unirem-se contra as tradições familiares, apesar de zombar do amor
platônico e do asceticismo, e de afirmar que o amor era a base do matrimônio,
tinha todo o cuidado de estabelecer estreitas limitações a todas as suas
concessões. O amor não podia ser considerado como um sentimento legítimo
fora do matrimônio. Sem o matrimônio, o amor era considerado imoral. Esse
ideal correspondia a considerações de ordem econômica: impedir que o capital
acumulado se dispersasse com os filhos nascidos fora de uma união
matrimonial.

Toda moral burguesa tinha por função contribuir para a acumulação do capital.
O ideal do amor ficava, portanto, restrito ao casal unido em matrimônio, cujo
fim era o aumento de seu bem-estar material e das riquezas, dentro do núcleo
familiar, isolado totalmente do resto da sociedade. Quando os interesses da
famflia e da sociedade se chocavam, a moral burguesa se inclinava sempre a
favor dos interesses familiares. (Por exemplo, a condescendência para com os
desertores, não admitida pelo direito, mas aceita pela moral burguesa; a
justificação moral de um administrador dos interesses de vários acionistas, que
lhe haviam confiado suas reservas, aos quais arruinava para aumentar os bens
de sua familia, etc. (45).

A burguesia, com o espírito unitário que a caracterizava, pretendia tirar proveito


do amor e converter, portanto, este sentimento num meio de consolidar os
laços familiares.

Mas, os limites impostos ao amor pela ideologia burguesa o aprisionava com


fortes correntes. Assim, nasceram e se multiplicaram infinitamente os conflitos
amorosos. O romance, novo gênero literário que a classe burguesa criou,
serviu para expressar os conflitos amorosos originados pelo aprisionamento do
amor. O amor saía constantemente dos limites matrimoniais que lhe haviam
imposto e tomava forma de união livre ou de adultério, que a moral burguesa,
embora condenasse, na realidade, cultivava.
O ideal burguês do amor não corresponde às necessidades da camada social
mais numerosa, não atende às necessidades da classe operária. Tampouco
atende às aspirações de vida dos intelectuais. A isto se deve, precisamente, o
enorme interesse que despertam, nos países capitalistas muito desenvolvidos,
todos os problemas do sexo e do amor. Disto nascem as investigações
apaixonadas destinados a encontrar uma solução para este problema
angustiante que inquieta a humanidade há vários séculos. Como será possível
estabelecer relações entre os sexos que contribuam para tornar os homens
mais felizes, mas que ao mesmo tempo não destruam os interesses da
coletividade?

Este mesmo problema se apresenta, atualmente, à juventude trabalhadora da


Rússia. Um ligeiro exame da evolução das relações matrimoniais e dos
sentimentos de amor nos ajudará, jovem camarada, a compreender uma
verdade indiscutível: o amor não é uma questão particular, como nos parece à
primeira vista. O amor é um precioso fator social e psíquico que a humanidade
manipula instintivamente, segundo os interesses da coletividade. A classe
trabalhadora, armada com o método científico do marxismo e com a
experiência do passado, compreenderá o lugar que a nova humanidade deve
reservar ao amor nas relações sociais. Qual é, pois, o ideal de amor que
corresponde aos interesses da classe que luta para estender seu domínio por
todo o mundo?
O amor-camaradagem

A nova sociedade comunista está edificada sobre o princípio da camaradagem


e da solidariedade. Mas, que é a solidariedade? Não somente devemos
entender por solidariedade a consciência da comunidade de interesses;
constituem a solidariedade, também, os laços sentimentais e espirituais
estabelecidos entre os membros da mesma coletividade trabalhadora. O
regime social edificado sobre o princípio da solidariedade e da colaboração
exige que a sociedade em questão possua, desenvolvida em alto grau, a
capacidade do potencial de amor, isto é, a capacidade para a sensação de
simpatia.

Se estas sensações faltam, o sentimento de camaradagem não pode


consolidar-se. Por isso, a ideologia proletária procura educar e reforçar em
cada um dos membros da classe operária sentimentos de simpatia diante dos
sofrimentos, das necessidades de seus camaradas de classe. A ideologia
proletária tende, também, a compreender as aspirações dos demais e
desenvolver a consciência de sua união com os outros membros da
coletividade. Mas, todas essas sensações de simpatia, delicadeza e
sensibilidade derivam de uma fonte comum: da capacidade para amar, não de
amar no sentido propriamente sexual, mas do amor no sentido mais amplo da
palavra.

O amor é um sentimento que une os indivíduos; podemos inclusive dizer que é


um sentimento de natureza orgânica. A burguesia compreendeu, também, toda
a importância da força do amor na união entre os homens e, portanto, procurou
sujeitá-lo a seus interesses. Por isso, a ideologia burguesa, ao procurar
consolidar a família, recorre à virtude moral do amor entre os esposos; ser um
pai de família era aos olhos da burguesia uma das maiores e mais apreciadas
qualidades do homem.

O proletariado, por seu lado, deve diminuir o papel social e psicológico do


sentimento do amor, tanto no verdadeiro sentido da palavra quanto no que se
refere às relações entre os sexos, mas pode e deve considerar estes papéis,
para reforçar os laços sociais. Estes não se situam no domínio das relações
matrimoniais e da família, mas são os laços que contribuem para o
desenvolvimento da solidariedade coletiva.

Qual será, pois, o ideal de amor da classe operária? Em que sentimentos a


ideologia proletária deve basear as relações sexuais?

Já vimos, meu jovem camarada, como cada época da história possui seu
próprio ideal de amor. Analisamos como cada classe, em seu próprio interesse,
atribui à noção moral de amor um conteúdo determinado. Cada grau de
civilização traz à humanidade sensações morais e intelectuais mais ricas em
matizes, que cobrem o amor com um colorido diverso. A evolução no
desenvolvimento da economia e nos costumes sociais foi acompanhada de
novas modificações no conceito do amor. Alguns matizes desses sentimentos
se reforçavam, mas os outros caracteres diminuíam ou desapareciam
totalmente.
O amor, no transcurso dos séculos de existência da sociedade humana,
evoluiu de um simples instinto biológico (instinto da reprodução, comum a
todos os seres vivos, superiores ou inferiores, divididos em dois sexos) e se
enriqueceu sem cessar com novas sensações, até converter-se num
sentimento muito complexo. (46)

O amor deixou de ser um fenômeno biológico para converter-se num fator


social e psicológico.

O instinto biológico da reprodução, que determinou as relações entre os sexos


nos primeiros estágios de desenvolvimento da humanidade, adquiriu,
pressionado pelas forças econômicas e sociais, dois sentidos diametralmente
opostos. Por um lado, sob a pressão de monstruosas relações econômicas e
sociais e, mais ainda, sob o jugo capitalista, o sadio instinto sexual (atração
física de dois seres de sexos distintos baseada no instinto da reprodução)
degenerou e se converteu em luxúria doentia. O ato sexual transformou-se
num fim em si mesmo, num meio para alcançar maior voluptuosidade, numa
depravação exacerbada pelos excessos, as perversões e as aguilhoadas
doentias da carne. O homem procurou a mulher não impulsionado por um
desejo sexual que o impelia com todo seu ímpeto para ela; o homem procurava
a mulher sem sentir nenhuma necessidade sexual, mas sim com o único
objetivo de provocar esta necessidade mediante o contato íntimo com a
mulher. Deste modo, o homem procurava a voluptuosidade no ato sexual em
si. Se a intimidade do contato com a mulher não provocava a excitação
esperada, os homens, deformados pelos excessos sexuais, recorriam a
qualquer tipo de aberração.

Por outro lado, a atração física entre os sexos se complica no transcurso dos
séculos da vida social na humanidade e das diversas civilizações, adquirindo
toda uma gama de matizes e sentimentos diversos. Em sua forma atual o amor
é um estado psicológico muito mais complexo e que há muito tempo se
desprendeu por completo de sua fonte originária, o instinto biológico de
reprodução chegando, em muitos casos, a estar em contradição com ele. O
amor é um aglomerado de sentimentos diversos: paixão, ternura espiritual,
lástima, inclinação, costume etc. É difícil, pois, diante de tão grande
complexidade estabelecer um laço de união direto entre o amor-reprodução
(atração física entre os sexos) e o amor-sentimento (atração psíquica). O
amoramizade, no qual não é possível encontrar nem um átomo de atração
física; o amor espiritual, sentido pela causa, pela idéia; o amor impessoal por
uma coletividade são sentimentos que demonstram claramente até que ponto
se realizou e se separou de sua base biológica o sentimento de amor.
Porém, o problema se complica ainda muito mais. Com grande freqüência
surge uma flagrante contradição entre as diversas manifestações do amor e
começa a luta. O amor sentido pela causa amada (não o amor simplesmente
pela causa, mas sim pela causa amada) não concorda com o amor sentido
pelo eleito ou eleita do coração (47), o amor sentido pela coletividade se
apresenta em conflito com o amor sentido pela mulher, o marido ou os filhos. O
amor-amizade está em contradição com o amor-paixão. No primeiro caso, o
amor está dominado pela harmonia psíquica; no outro está baseado na
harmonia do como.

O amor revestiu-se de múltiplos aspectos. Do ponto de vista das emoções do


amor, o homem de nossa época, no qual os séculos de evolução ocasionaram
o desenvolvimento e a educação de diferentes matizes deste sentimento, se
sente desgostoso com o significado demasiado vago e geral do sentido da
palavra amor. (48)

A multiplicidade do sentimento de amor cria, sob o jugo da ideologia e dos


costumes capitalistas, uma série de dolorosos e insolúveis dramas morais.
Desde o final do século XIX, os psicólogos começaram a tratar como tema
favorito a multiplicidade do sentimento de amor. Os representantes da cultura
burguesa começaram a sentir inquietação e desconcerto diante desse enigma
do amor por dois e até por três seres.

H. A. Herzen, grande pensador e jurista do século passado, tentou encontrar


uma solução para esta complexidade da alma humana para este
desdobramento de sentimentos, em seu romance intitulado: De quem é a
culpa? Também Chernychevsky tentou encontrar solução para este problema
no romance social: Que fazer?

O desdobramento dos sentimentos de amor e sua multiplicidade preocuparam


os maiores escritores da Escandinávia, tais como, Hanisen, Ibsen, Bernsen
(49), e Heierstan. Os literatos franceses do século passado ocuparam-se
também com esse tema. Romain Rolland, escritor simpatizante do comunismo
e Maeterlink (5), que se manteve alheio a nossos ideais, trataram igualmente
de encontrar a solução para este problema. Os gênios poéticos como Goethe,
Byron e Jorge Sand, este último um dos pioneiros mais ardentes no campo das
relações entre os sexos, tentaram resolver na prática esse complicado
problema, o enigma do amor. Herzen, autor do livro De quem é a culpa?, tanto
quantos outros pensadores, poetas e homens de Estado, se deram conta do
terrível problema à luz de sua própria experiência. Porém, sob o peso do
enigma da dualidade de sentimentos de amor, se dobram também os homens
que nao são grandes de modo algum, mas que buscam em vão a chave da
solução do problema dentro dos limites impostos pelo pensamento burguês. A
solução do problema está precisamente nas mãos do proletariado. A solução
deste problema pertence à ideologia e ao novo modo de vida da humanidade
trabalhadora.

Quando falamos da dualidade do sentimento de amor e da sua complexidade,


não devemos confundir esta dualidade com as relações sexuais de um homem
com várias mulheres ou da mulher com vários homens. A poligamia, na qual
não há o sentimento de amor, pode ser causa de conseqüências nefastas
(esgotamento precoce do organismo, maior facilidade para contrair
enfermidades venéreas etc.); mas, estas uniões não criam dramas morais. Os
dramas e os conflitos surgem quando nos encontramos em presença do amor
com todos os seus matizes e manifestações diversas. Uma mulher pode amar
um homem por seu espírito, somente se os pensamentos, aspirações e
desejos dele estão em harmonia com os seus; ao mesmo tempo, pode sentir-
se atraída fisicamente por outro homem. Assim como a mulher, o homem pode
experimentar um sentimento de ternura cheio de considerações, de compaixão
cheia de solicitude por urna mulher, mesmo que em outra encontre apoio e
compreensão. A qual dessas duas mulheres deverá entregar a plenitude do
amor? Terá necessariamente que mutilar sua alma e arrancar um desses
sentimentos quando só pode adquirir a plenitude de seu ser com a manutenção
desses dois laços de amor?

Sob o regime burguês o desdobramento da alma e do sentimento traz consigo


inevitáveis sofrimentos. A ideologia baseada no instinto da propriedade
inculcou no homem, durante séculos e séculos, que todo sentimento de amor
deve estar fundamentado num princípio de propriedade. A ideologia burguesa
gravou na cabeça dos homens a idéia de que o amor dá direito a possuir
inteiramente, sem compartilhá-lo com ninguém, o coração do ser amado. Este
ideal, esta exclusividade no sentimento de amor, era conseqüência natural da
forma estabelecida do matrimônio indissolúvel e do ideal burguês de amor
absorvente entre os esposos. Porém, o ideal burguês pode corresponder aos
interesses da classe operária? Muito mais importante e desejável é que, do
ponto de vista da ideologia proletária, as sensações dos homens se
enriqueçam cada vez com maior conteúdo e se tornem múltiplas. A
multiplicidade da alma constitui precisamente um fato que facilita o
desenvolvimento e a educação dos laços do coração e do espírito, mediante os
quais se consolidará a coletividade trabalhadora. Quanto mais numerosos são
os fios que se estendem entre as almas, entre os corações e as inteligências,
mais solidez adquire o espírito de solidariedade e com maior facilidade pode
realizar-se o ideal da classe operária: camaradagem e união.
O exclusivismo e a absorção no sentimento de amor não podem constituir, do
ponto de vista da ideologia proletária, o ideal do amor determinante nas
relações entre os sexos. Pelo contrário, o proletariado, ao tomar conhecimento
da multiplicidade do amor, não se assusta absolutamente com esta descoberta,
nem tampouco experimenta indignação moral como aparenta a hipocrisia
burguesa. O proletariado trata, ao contrário, de dar a este fenômeno (que é o
resultado de complicadas causas oficiais) uma direção que sirva a seus fins de
classe, no momento da luta e da edificação da sociedade comunista.
Estará, por acaso, a multiplicidade do amor em contradição com os interesses
do proletariado? Ao contrário, esta multiplicidade no sentimento do amor facilita
o triunfo do ideal de amor nas relações entre os sexos, que já se formam e
cristalizam no seio da classe operária: o amor-camaradagem.
A humanidade do patriarcado concebia o amor como o carinho entre os
membros de uma família (amor entre irmãos e irmãs, entre os filhos e os pais).
O mundo antigo antepunha a qualquer outro sentimento o amor-amizade. O
mundo feudal tinha como ideal de amor, o amor espiritual do cavaleiro, amor
independente do matrimônio e que não trazia consigo a satisfação da carne. O
ideal de amor da sociedade burguesa era o amor de um casal unido por um
sentimento legítimo.

O ideal de amor da classe operária está baseado na colaboração no trabalho,


na solidariedade do espírito e da vontade de todos os membros, homens e
mulheres, e se distingue, portanto, de modo absoluto da noção que tinham do
amor as outras épocas da civilização. Que épois, o amor-camaradagem?
Quererá tudo isto dizer que a severa ideologia da classe operária, forjada numa
atmosfera de luta para o triunfo da ditadura do proletariado, se dispõe a jogar
fora sem piedade o amor romântico? De modo algum. A ideologia da classe
operária não pode desprezar o amor romântico. Pelo contrário, prepara o
reconhecimento do sentimento de amor como força social e psíquica.
A hipocrisia moral da cultura burguesa, que obrigava o amor a visitar somente
o casal unido legalmente, arrancava-a sem piedade toda a sua beleza. Fora do
matrimônio, só podia existir para a ideologia burguesa a atração passageira
entre os sexos sob a forma de carícias compradas (prostituição) ou de carinhos
roubados (adultério).

A moral da classe operária, pelo contrário, despreza francamente a forma


exterior que estabelece as relações de amor entre os sexos.
Para o sucesso das tarefas do proletariado é indiferente que o amor tome a
forma de uma união estável ou que não tenha mais importância que uma união
passageira. A ideologia da classe operária não pode fixar limites formais ao
amor. Ao contrário, esta ideologia começa a sentir inquietação pelo conteúdo
do amor, pelos laços de sentimentos e emoções que unem os dois sexos; por
isso, neste sentido a ideologia proletária tem que perseguir a luxúria, a
satisfação única dos desejos carnais pela prostituição, a transformação do ato
sexual num fim em si mesmo, que faz dele um prazer fácil etc., mais
implacavelmente que o fazia a moral burguesa. A luxúria está em contradição
com os interesses da classe operária. Em primeiro lugar, este amor supõe
inevitavelmente os excessos e o esgotamento físico, que contribuem para
diminuir a reserva de energia da humanidade. Em segundo lugar, empobrece a
alma porque impede o desenvolvimento entre os seres humanos de laços
psíquicos e de sensações de simpatia. Em terceiro lugar, este amor tem por
base a desigualdade de direitos entre os sexos nas relações sexuais; ou seja,
está baseado na dependência da mulher em relação ao homem, na vaidade ou
insensibilidade do homem, o que afoga necessariamente toda a possibilidade
de experimentar um sentimento de camaradagem. Em troca, a ação exercida
sobre os seres humanos pelo amor espiritual é completamente distinta.
Não resta a menor dúvida que na base do amor espiritual se encontra também,
como na luxúria, a atração física entre os sexos. A diferença consiste
precisamente em que, no ser movido por sentimentos de amor que o
impulsionam para outro ser, despertam e se manifestam justamente as
qualidades da alma necessárias aos construtores da nova cultura:
sensibilidade, delicadeza e desejo de ser útil a outros. A ideologia burguesa,
em troca, exige que o homem ou a mulher só se vangloriem destas qualidades
na presença do eleito ou da eleita, ou seja, em suas relações com um só
homem ou uma só mulher. O mais importante para a ideologia proletária é que
estas qualidades despertem, desenvolvam e eduquem todos os homens e
portanto, não se manifestem apenas nas relações com o objeto amado, mas
também nas relações com todos os demais membros da coletividade.
Na realidade, para o proletariado, não importam os matizes e sentimentos
predominantes no amor. O.proletariado sente-se indiferente diante dos
delicados tons do complexo amoroso, diante das incendiárias cores da paixão
ou diante da harmonia do espírito, O que lhe interessa é que, em todas as
manifestações e sentimentos de amor, existam os elementos psíquicos que
desenvolvem o sentimento de camaradagem.
O ideal de amor-camaradagem, forjado pela ideologia proletária para substituir
o absorvente e exclusivo amor conjugal da moral burguesa, está fundado no
reconhecimento dos direitos recíprocos na arte de saber respeitar, inclusive no
amor, a personalidade do outro, num firme apoio mútuo e na comunidade de
aspirações coletivas.

O amor-camaradagem é o ideal necessário ao proletariado nos períodos


difíceis de grandes responsabilidades, nas quais luta para o estabelecimento
de sua ditadura ou para fortalecer sua continuidade. Entretanto, quando o
proletariado triunfar totalmente e for de fato uma sociedade constituída, o amor
apresentar-se-á de forma completamente distinta, adquirirá um aspecto
totalmente desconhecido até agora pelos homens. Os laços de simpatia entre
os membros da nova sociedade se desenvolverão e se fortalecerão, a
capacidade para amar será muito maior e o amor-camaradagem se converterá
no estimulante papel que na sociedade burguesa estava reservado ao princípio
de concorrência e ao egoísmo. O coletivismo do espírito e da vontade
triunfarão sobre o individualismo que se bastava a si mesmo. Desaparecerá o
frio da solidão moral, do qual no regime burguês os homens tentavam escapar,
refugiando-se no amor ou no matrimônio; os homens ficarão unidos por
inumeráveis laços sentimentais e psíquicos. Seus sentimentos se modificarão
no sentido do interesse cada vez maior pela coisa pública. Desaparecerão sem
deixar o menor rastro a desigualdade entre os sexos e todas as formas de
dependência da mulher em relação ao homem.

Nesta nova sociedade, coletivista por seu espírito e suas emoções,


caracterizada pela união feliz por relações fraternais entre os membros da
coletividade trabalhadora e criadora, o amor ocupará um lugar de honra, como
sentimento capaz de enriquecer a felicidade humana. Como se transfigurará?
Nem a fantasia mais criadora écapaz de imaginá-lo. Só é indiscutível que
quanto mais unida estiver a humanidade pelos laços duradouros da
solidariedade, tanto mais intimamente unida estará em todos os aspectos da
vida, da criação ou das relações mútuas. Por conseguinte, não haverá mais
lugar para o amor no sentido contemporâneo da palavra. Em nosso tempo, o
amor peca sempre por um excesso de absorção de todos os pensamentos, de
todos os sentimentos entre dois corações que se amam e que, portanto, isolam
e separam o casal amante do resto da coletividade. Esta separação, este
isolamento moral do casal amoroso, não somente será completamente inútil,
como psicologicamente impossível numa sociedade em que estão intima-
mente unidos os interesses, as tarefas e as aspirações de todos os membros
da coletividade. Neste mundo novo a forma reconhecida, normal e desejada
das relações entre os sexos estará fundamentada puramente na atração sadia,
livre e natural (sem perversões, nem excessos) dos sexos; as relações sexuais
dos homens na nova sociedade estarão determinadas pelo novo amor.
Atualmente, encontramo-nos na encruzilhada onde se chocam duas
civilizações: a civilização burguesa e a civilização proletária. Nesse período de
transição, em que estes dois mundos lutam encarniçadamente em todas as
frentes, inclusive, naturalmente na frente ideológica, o proletariado está muito
interessado em atingir por todos os meios a seu alcance a acumulação mais
rápida possível, de sensações e sentimentos de simpatia. Neste período de
transição, a idéia moral que determina as relações entre os sexos não pode ser
o brutal instinto sexual, mas sim as múltiplas sensações do amor-
camaradagem experimentadas por homens e mulheres. Para que estas
sensações correspondam à nova moral proletária em formação, é necessário
que estejam baseadas nos três seguintes postulados:

a) Igualdade nas relações mútuas (isto é, desaparecimento da auto-suficiência


masculina e da servil submissão da individualidade da mulher ao amor).

b) Reconhecimento mútuo e recíproco de seus direitos, sem que nenhum dos


seres unidos por relações de amor pretenda a posse absoluta do coração e da
alma do ser amado. (Desaparecimento do sentimento de propriedade
fomentado pela civilização burguesa).

c) Sensibilidade fraternal; a arte de assimilar e compreender o trabalho


psíquico que se realiza na alma do ser amado. (A civilização burguesa só
exigia que a mulher possuísse no amor esta sensibilidade).
Porém, ainda que a ideologia da classe operária proclame os direitos do amor,
subordina, ao mesmo tempo, o sentimento que os membros da coletividade
trabalhadora sentem entre si a um outro muito mais poderoso, o do dever para
com a coletividade. Por maior que seja o amor que une dois indivíduos de
sexos diferentes, por muitos que sejam os vínculos que unem seus corações e
suas almas, os laços que os unem à coletividade têm que ser muito mais
fortes, mais numerosos e orgânicos. Tudo para o homem amado, proclamava a
moral burguesa. Tudo para a coletividade, estabelece a moral proletária.
Agora ouço-o argumentar, meu jovem camarada:

“Concordo quando você afirma que as relações de amor, baseadas no espírito


de fraternidade, se convertem no ideal da classe operária. Porém, não pesará
demasiado esta medida moral sobre os sentimentos amorosos? Este ideal não
poderia destroçar e mutilar o amor. Libertamos o amor das correntes da moral
burguesa, mas será que não lhe criaremos outras?”

Tem razão, meu jovem camarada. A ideologia proletária, ao não aceitar a moral
burguesa no domínio das relações matrimoniais, cria, inevitavelmente, sua
própria moral de classe, as formas regulamentadoras das relações entre os
sexos que melhor correspondam às tarefas da classe operária, que sirvam para
educar os sentimentos de seus membros e que, portanto, constituem até certo
ponto correntes que aprisionam o sentimento do amor. Sem dúvida, se falamos
do amor patrocinado pela ideologia burguesa, o proletariado evidentemente
haverá de modificá-lo. Entretanto, o que não se pode fazer, porque significa
não pensar no futuro, é lamentar que a classe operária imprima sua marca nas
relações sexuais com o objetivo de conseguir que o sentimento de amor
corresponda a suas tarefas de classe. A classe ascendente da humanidade
criará motivos de beleza, força e brilho até agora desconhecidos. Não se
esqueça, jovem camarada, que o amor muda de aspecto e se transforma,
inevitavelmente, uma vez que se transformam as fases econômicas e culturais
da sociedade.

Se conseguimos que das relações de amor desapareça o cego, o exigente e


absorvente sentimento passional; se desaparece, também, o sentimento de
propriedade, tanto quanto o desejo egoísta de unir-se para sempre ao ser
amado; se conseguimos que desapareça a vaidade do homem e que a mulher
não renuncie criminosamente ao seu eu, não há dúvida que, com o
desaparecimento de todos esses sentimentos, desenvolvam-se outros
elementos preciosos para o amor. Assim, por exemplo, aumentará o respeito
para com a personalidade do outro e também se aperfeiçoará a arte de levar
em conta os direitos dos demais; educarse-á a sensibilidade recíproca e se
desenvolverá enormemente a tendência a manifestar o amor não somente com
beijos e abraços, mas também, com uma unidade de ação e de vontade na
criação comum.

A tarefa da ideologia proletária não é, pois, separar das suas relações sociais o
amor mas dar-lhe novo colorido. Ou seja, visa desenvolver o sentimento do
amor entre os sexos, baseado na mais nova e poderosa força: a solidariedade
fraterna.

Espero, jovem camarada, que agora veja claramente que o fato de o problema
do amor despertar o interesse tão extraordinário entre a juventude
trabalhadora, não éde modo algum sintoma de decadência. Creio que agora
poderá encontrar sozinho o lugar que deve corresponder ao amor, não apenas
na ideologia do proletariado, mas também na vida diária da juventude
trabalhadora.
Irmãs

Veio ver-me, como tantas outras, para pedir-me conselho e apoio espiritual.
Conhecera-a, fugazmente, em alguma assembléia de delegados. Tem um rosto
formoso e expressivo, com olhos vivos e tristes.

Agora estava mais pálida do que de costume. .Seus olhos estavam ainda
maiores e mais tristes.

- Venho vê-la porque não sei onde refugiar-me... Há três semanas que estou
sem moradia... Não disponho de dinheiro para viver... Dê-me trabalho! Pois, do
contrário, não me resta mais que um recurso: a prostituição.
- Se me recordo bem, você teve uma colocação, trabalhou. Despediram-na?
- Sim. Trabalhei na expedição. Perdi o emprego há
dois meses... Por causa do menino, que caíra enfermo. Não tive outro remédio
senão faltar ao trabalho. Três vezes foi adiada a dispensa a meu pedido;
porém, em agosto despediram-me definitivamente. Duas semanas depois
morreu o nenen. Mas, não quiseram me readmitir.

Abaixa a cabeça. As longas pestanas ocultam seus olhos. Talvez escondam


alguma lágrima.

- Mas, por que despediram você? Seu trabalho não satisfazia?


- Ao contrário, sou boa operária. Mas a opinião era de que eu não necessitava
trabalhar, já que meu marido, está agora no combinado. (51) Uma
personalidade importante... Funcionário da economia.

- E como me disse que está sem casa e sem dinheiro? Você se divorciou dele?
- Não, não nos divorciamos... Saí simplesmente de casa. E não volto. Nem
voltarei.., suceda o que suceder. Tudo menos voltar.

As pestanas, tristemente fechadas, já não podem ocultar uma grande lágrima...


- Perdoe-me. Chorei todo esse tempo. Não consegui... Mas, agora... É mais
difícil conter-me quando encontro simpatia; se lhe relato tudo, me
compreenderá.

O marido e ela se conheceram no ano de 1917, quando a revolução agitava


furiosamente o país. Fie era então tipógrafo; ela estava empregada na
distribuição de uma grande editora. Ambos eram partidários dos boicheviques.
Em ambos ardia a mesma fé, o mesmo apaixonado desejo de sacudir o jugo da
exploração para edificar um mundo de justiça... Ambos sentiam grande
entusiasmo pelos livros e eram aplicados autodidatas. A ambos tonteara o
turbilhão da revolução produzindo-lhes vertigem... Ambos haviam estado em
seus postos durante as jornadas de outubro... No fogo da luta, entre o ranger
das metralhadoras seus corações se encontraram. Não tiveram tempo de
consagrar legalmente sua união. Cada um continuou vivendo sua antiga vida e
se reuniam de vez em quando no trabalho. Porém, estes encontros eram
luminosos e alegres... Eram realmente verdadeiros camaradas... Ao fim de um
ano ela esperava um filho. Sua união foi legalizada e viveram juntos... A
criança arrancou-os por pouco tempo da vida corrente. Por iniciativa deles,
fundou-se uma cozinha infantil no distrito. O trabalho émais importante que a
família. O homem resmungava algumas vezes. Talvez tivesse razão. Ela
descuidava um pouco do trabalho do lar. Porém, ele parava muito pouco em
casa. Quando foi eleita delegada ao Congresso o marido ficou muito orgulhoso.

- Agora não fará cara feia se a comida estiver fria.

- Bah! Contanto que você não esfrie! Vai conviver com tantas pessoas! Tenha
cuidado!

Ambos gracejavam. Parecia que nada seria capaz de perturbar seu amor.
Eram não só marido e mulher, mas camaradas. Andavam pela vida de mãos
dadas. Os dois tinham a mesma finalidade. Não se preocupavam consigo
mesmos, mas unicamente com a finalidade, o grande objetivo. Também a
menina lhes dava alegria. Era sã e roliça.

Como e quando mudou tudo isto? Talvez desde que seu marido entrou para o
Combinado. No princípio os dois ficaram muito contentes com isso; haviam
atravessado situações difíceis e passado fome. A roupa que tinham estava
gasta. Isto era agravado pelo temor de que se encerrasse a cozinha infantil.
Aonde iriam com a menina? O marido se sentia orgulhoso de poder atender
agora sua família com o necessário. Propôs que ela deixasse o trabalho. Mas
ela não queria. Estava acostumada com o trato dos camaradas e familiarizada
com o seu trabalho. E, além de tudo, isto lhe dava uma sensação de
independência, pois, desde sua juventude se havia mantido com seu trabalho.
No começo a coisa andou e até parecia que iria melhorar. Mudaram-se para
outra casa: dois quartos e cozinha. Tomaram uma moça que cuidava da
menina... E ela se dedicou com maior intensidade ainda ao trabalho no
distrito... Também seu marido estava muito ocupado. Só vinha à noite para
casa.

Logo o destinaram a viajar para assuntos do Combinado. Esteve ausente três


meses em companhia de nepmen (negociantes particulares que surgiram ao
implantar-se a NEP: nova política econômica). Quando regressou ela sentiu
como uma punhalada. Seu marido não era o mesmo. Mal a escutava quando
falava, apenas olhava para seu rosto. Vestia-se elegantemente, até se
perfumava e não parava em casa cinco minutos seguidos.

Em seguida começaram a manifestar-se os efeitos da transformação... Antes,


só bebia de vez em quando, em dias de festa. Durante a revolução, o trabalho
intenso não deixava tempo para pensar no álcool... Mas, agora começou a
beber realmente. A primeira vez que voltou para casa embriagado, ela
assustou-se mas não se afligiu; pensou: contanto que não lhe faça mal,
contanto que seu prestígio não sofra por causa disto. Na manhã seguinte lhe
fez recomendações; mas ele permaneceu inalterável, tomou de pé seu chá -
estava com pressa - e não disse uma palavra; foi-se sem responder. Pensou,
porém, que, sem dúvida, como a coisa o aborrecera, ficara calado. Apenas
haviam se passado três dias quando voltou de novo embriagado para casa.
Isto lhe causou grande tristeza e inquietude... De noite teve problemas com
ele... Era desagradável. Mesmo quando se trata do homem amado não deixa
de ser repugnante... No dia seguinte, quis falar com ele, mas mal havia
começado, ele a olhou de uma maneira tão irada e hostil que não se atreveu a
pronunciar uma palavra.

Voltava para casa embriagado, agora, com maior freqüência. Ela não podia
resistir mais. Uma vez faltou intencionalmente ao trabalho, esperou que ele
estivesse calmo e começou então a falar. Disse-lhe tudo, absolutamente tudo...
Que era impossível continuar vivendo assim, já não eram companheiros e que
a única coisa que os unia ainda, era a “cama em comum”... Falou-lhe de sua
embriaguez, advertiu-o, envergonhou-o e começou achorar... Ele a escutou.
Primeiro tratou de defender-se. Ela não compreendia que era necessário sair
com os nepmen, pois do contrário não poderia fazer negócios. Logo, refletiu e
reconheceu que isto tampouco lhe agradava... Rogou que não se entristecesse
e lhe deu razão... Ao despedir-se, chegou junto dela, tomou sua cabeça entre
as mãos, olhou-a nos olhos como antes e a beijou... Seu coraçao se sentiu
aliviado. Nesse dia foi trabalhar alegremente. Mas, ainda não havia passado
uma semana, e seu marido voltou outra vez embriagado. Como ela tentasse
convencê-lo, ele deu um soco na mesa e exclamou: “Isto não lhe importa”...
Assim vivem todos... Se não lhe agrada, ninguém a retém.”
Ele saiu de repente e ela vagou todo o dia como se carregasse um grande
peso. Era verdade que ele não mais a amava? Devia ir-se? Mas, ao anoitecer
ele regressou, inesperadamente cedo. Vinha sereno, sensível, consciente de
sua culpabilidade. Conversaram durante longo tempo, e, de novo,
experimentou um alívio cordial.

Ela o compreendia. Eram as companhias, das quais ficava difícil fugir. O


dinheiro é ganho facilmente e é impossível voltar atrás, isto seria penoso.
Contou-lhe muitas coisas dos nepmen e de suas mulheres, as moças
excitantes... E de como se fazem negócios e quão difícil é para um proletário
descobrir estes tubarões.

Tudo isto a tornou triste, tão triste como nunca havia estado durante toda a
revolução...

Num desses dias se inteirou que o corte orçamentário a afetava também.


Assustou-se.

Disse-o a seu marido, mas este permaneceu impassível. Achou que assim era
melhor. Poderia ficar em casa com mais freqüência e melhorar os serviços
domésticos.

- Mas que traste de casa é esse?... Não se pode receber convidados


decentes.”

Ela estranhou o seu tom e tratou de replicar.

Ele respondeu: Isto é assunto de sua competência. Eu não o impedirei. Se quer


trabalhar, vá . E retirou-se.”

Feria-a que seu marido não a compreendesse; sentiase ofendida. Entretanto,


resolveu não deixar a coisa de lado. Foi ver os camaradas e tratou de provar
seu direito ao trabalho, discutiu com eles, que ao fim lhe deram razão: a
demissão foi adiada. A desgraça nunca vem so. Apenas se havia tranqüilizado
com relação ao trabalho, quando sua filha caiu doente.
“Estou sentada de noite junto à cama de minha menina enferma. Tenho uma
sensação de solidão, a inquietude me atormenta. Soa a campainha. Vou
atender a meu marido contente de que volte logo. Penso que poderei lhe contar
tudo. Oxalá esteja calmo!... Abro a porta, e quase não pude conceber: quem
vem com ele? Uma mulher jovem, maquiada e bêbada...”
“- Deixa-nos passar, mulher! - disse ele. -Trago comigo uma amiga vinha...
Deixa, deixa-nos!... Eu não sou pior que os demais! Queremos nos divertir!...
Não nos moleste!...”

“Vejo que está embriagado, que mal pode sustentar-se em pé. Meus joelhos
tremiam. Deixei-os na copa onde meu marido iria dormir e corri para o lado de
minha menina. Tranquei a porta. E ali fiquei sem saber onde tinha a cabeça.
Não sentia indignação contra ele. Que pode se esperar de um homem
embriagado? Entretanto, era muito doloroso! Ouvia-se tudo o que ocorria no
cômodo vizinho... Poderia ter tapado os ouvidos; porém tinha que atender à
menina... Por sorte logo se tranqüilizaram. Ambos estavam tão embriagados...
De manhãzinha meu marido abriu a porta e voltou a dormir. Porém eu
permanecia sentada... e não fiz mais do que pensar e pensar...
“Ao anoitecer ele voltou, outra vez, sereno para casa. Não nos havíamos visto
durante todo o dia... Eu o recebi friamente, sem olhá-lo. Ele se pôs a revolver
papéis. Ambos calados. Notei que me observava. Pensei: deixa-o!
provavelmente vai reconhecer agora sua culpa, pedir-me perdão e recomeçar a
antiga vida... Porém não o tolerarei! Sairei de casa! O coração doía-me ao
pensar nisto!... Eu o quis e o quero, ainda... Por que não dizê-lo? Ainda o
quero, mas tudo acabou como se o amor estivesse morto. Porém, então?...
Então, meu sentimento estava vivo ... Meu marido viu que eu pegava o abrigo
para assistir à assembléia do distrito, e de repente se enfureceu... Agarrou-me
pelo braço até fazer-me uma equimose, tirou-me o abrigo das mãos e jogou-o
ao chão.

- Que é isto de vir com saídas histéricas? Aonde vai?... Que quer de mim?...
Pode ir buscar um homem como eu! Dou-lhe de comer, visto-a, atendo a todos
os seus desejos.., você não tem o direito de condenar-me!... Para fazer
negócios terá que viver assim!”

“Falou e falou interminavelmente. As palavras saiam aos borbotões. Não me


deixou replicar. Ora gritava como se quisesse descarregar sobre mim e sobre
si mesmo toda sua cólera, ora tratava de justificar-se como se discutisse com
alguém... E de novo me inspirou tanta lástima que esqueci tudo. Tentei
tranqüilizá-lo e demonstrar-lhe que a coisa não era tão grave; que a culpa não
era sua, e sim dos nepmen...

“À noite, reconciliamo-nos outra vez. A única coisa que me amargurou foi que
me dissera que não devia desgostar-me por causa dele. Que se podia esperar
de um bêbado? Então pedi-lhe seriamente que se abstivesse de beber. Não
me molesta que tenha trazido uma prostituta para casa, o que me incomoda é
que venha num estado tão bestial. Prometeu-me controlar-se e evitar aquelas
companhias.

“Mas, apesar de nossa reconciliação, permaneceu um senão. Certo, que se


pode pedir a um bêbado? Provavelmente não podia lembrar-se de nada. Isto,
porém, torturavam e por dentro...

Sempre me obcecava este pensamento: se, verdadeiramente me quisesse


como antes, como nos anos da revolução, não teria ido visitar outras
mulheres!... Pensava no tempo em que minha amiga, que era mais bonita do
que eu, se esforçava por atraí-lo sem que ele se dignasse sequer a olhá-la...
Se não me quer, por que não me diz? Uma vez falei com ele: aborreceu-se e
disse que eu o atormentava com bobagens femininas, sabendo que estava
enrascado até as orelhas nos negócios, de tal modo que não lhe importavam
todas as mulheres, inclusive eu... Depois de dizer isto foi-se. A situação
agravou-se para mim. De novo, apresentou-se a questão da minha dispensa.
Pedi, outra vez, tratei de persuadir e me concederam nova prorrogação. Eu
mesma não sabia o que me esperava, porém continuei do mesmo modo.
Temia mais do que nunca a dependência de meu marido. Nossa vida em
comum se tomou mais e mais difícil; tomamo-nos mutuamente estranhos.
Vivíamos em uma mesma casa sem saber nada um do outro. Apenas viu uma
vez a sua filha. Ela era a causa do meu descuido em relação ao trabalho no
distrito, precisava cuidá-la. Meu marido bebeu menos neste período; voltava
para casa sereno, porém agia como se não me visse. Além disso não
dormíamos juntos, eu ao lado de minha filha e ele no divã da copa. Algumas
vezes vinha visitar-me à noite... Mas isto não me causava a menor alegria!...
Cada vez tomava-se mais difícil a vida em comum... Como se à antiga dor se
acrescentasse uma nova. Apesar de me beijar, não perguntava o que se
passava comigo... Assim vivíamos cada qual para si. Calando. Ele tinha suas
preocupações, seus aborrecimentos... E eu os meus... Até que sofri uma
grande dor com a perda de minha filha. E pouco antes havia sido despedida.
“Pensei: agora temos uma dor em comum, talvez se lembre de mim... Não!
Tampouco houve modificação com essa dor. Nem sequer assistiu ao enterro
da filha. Reteve-o uma reunião urgente. Assim, permaneci só em casa... Sem
trabalho, sem ganhar nada.”

O trabalho poderia ser encontrado facilmente, pois abundava no distrito. Mas o


difícil era ganhar algo. Era penoso solicitá-lo havendo tantos desempregados.
Além disso, todos sabiam que meu marido era empregado no ramo da
economia. Como iria eu pedir? Agora é dificílimo achar ocupação! Esforcei-me
para encontrar algo, busquei aqui e ali... Era-me penoso viver à custa de meu
marido, já que nos havíamos tornado reciprocamente estranhos, porém não
havia outro recurso. Tive paciência. Sempre esperava, aguardava algo... Nós,
as mulheres, temos um coração insensato. Via, claramente, que os
sentimentos de meu marido para comigo não eram os mesmos de antes, e eu
mesma sentia por ele mais desprezo e amargura do que amor. E, entretanto,
ainda acreditava que isso tudo podia passar! Quando seu amor ressurgir, tudo
ficará normalizado como antes... E esperava. Cada manhã despertava com
esta esperança. Voltava depressa do distrito para casa pensando que talvez
ele já estivesse ali, sozinho. E ainda que ele estivesse efetivamente ali, era
como se não estivesse, pois sempre estava ocupado consigo mesmo ou com
seus camaradas ou, ainda, com os nepmen. Esperava sempre... Até que
ocorreu que eu me fosse de uma vez... Para sempre, para não voltar jamais.
“Regressei de uma assembléia para casa à meia-noite. Quis tomar uma xícara
de chá e coloquei o samovar. Meu marido ainda não estava. Não o esperava
tampouco. De repente ouço abrir a porta da ante-sala. Meu marido volta para
casa. Possui chaves próprias, a fim de não me incomodar. Quando estou
preparando o samovar dou-me conta de que hoje havia chegado uma
encomenda urgente para ele. Estava em meu quarto. Deixo o samovar e lhe
levo o pacote. Não posso conceber o que vejo. Igual àoutra vez: ao lado de
meu marido se encontra uma mulher alta e esbelta. Ambos se voltam para
mim.. . Nossos olhares se encontram, vejo que está sereno... Isto me causou
dor, tanta dor que poderia gritar. Também a mulher ficou muda.
“E eu... Eu mesma não sei como pude pôr com tanta tranqüilidade o pacote
sobre a mesa, e dizer:

- Há uma encomenda urgente para você.

Logo me retirei. Quando permaneci só, delirava como se estivesse com febre.
Temia que pudessem me ouvir no quarto ao lado. Por isso me recostei,
tapando a cabeça com a manta. Não queria ouvir nada, saber de nada, sentir
nada... Mas os pensamentos se sucediam sem cessar... Torturavam...
“Ouço-os cochichar... Não dormem... A voz da mulher soa mais alto, como se o
reprovasse. Será talvez sua amiga, e a enganou dizendo-lhe que não era
casado? Está, talvez, negando agora? Imaginei tudo, remoendo e sofrendo...
Quando na vez anterior, em sua embriaguez, trouxe consigo uma prostituta,
não me atormentei tanto, embora confesse que também foi amargo... Agora
tinha a certeza que já não me amava! Nem sequer como companheira, como
irmã... A uma irmã teria respeitado, não teria trazido mulheres para casa... E
que mulheres... Apanhadas na rua! Certamente esta é também do mesmo
caráter! E logo senti uma raiva tão grande que teria sido capaz de correr para o
quarto e expulsála de casa empurrando-a com minhas próprias mãos. Assim,
torturei-me até o amanhecer. Não tinha conseguido dormir nem um instante...
De repente ouvi passos no corredor, passos sigilosos como de alguém que
quer deslizar. Notei que era ela. Ouço que abre a porta da cozinha. Que
procura ali? Espero. Escuto. Silêncio. Então me levanto e vou à cozinha.
Encontro-a sentada no banquinho, junto à janela. Tem a cabeça entre às mãos
e chora amargamente... Seus cabelos são de um formoso louro claro e a
envolvem quase por completo... Levanta os olhos e neles há tanto sofrimento
que eu mesma sinta a dor. Tratei de aproximar-me e ela se levantou e veio ao
meu encontro.

“Perdoe-me - disse - por haver entrado em sua casa... Não sabia que ele não
vivia só... Sinto muito, muito...”

A princípio não compreendi bem; pensei unicamente que não se tratava de


uma prostituta, mas de sua amiga e não sei como me veio aos lábios:
- Você o ama?

Ela me olhou surpreendida:


“- Encontramo-nos esta noite pela primeira vez. Prometeu-me pagar bem, e
para mim é a mesma coisa, seja quem for, contanto que pague”.
“Não recordo como foi, mas ela me contou tudo: que também ela havia sido
atingida, há três meses, pelo corte do orçamento; que havia sofrido muito por
não poder enviar nada a sua velha mãe, que morria de fome. Há duas
semanas lançou-se à rua e teve sorte, travou boas amizades e agora veste-se
bem, come o necessário e pode mandar algo para a mãe... Enquanto me relata
isso, contrai as mãos.

“- Cursei o bacharelado. Aprendi bem... Ainda sou muito jovem. Tenho apenas
dezenove anos. Devo deixar-me morrer?”

“Você não acreditará, mas, ao ouvi-la, tudo em mim estremecia de pena. E,


prontamente, vi claro. Se eu não tivesse o meu marido, estaria na mesma
situação. Sem moradia, sem trabalho... Quando estava na cama, atormentada
por meus pensamentos, havia sentido raiva dela, mas essa cólera mudava
agora e se voltava contra meu marido. Como se atrevia a explorar assim a
desoladora situação de uma mulher? Ele, um operário consciencioso, com
senso de responsabilidade e ocupando um cargo de confiança!... Em vez de
ajudar uma camarada sem trabalho, compra-a! Compra seu corpo para obter
prazer!... Isto me era tão repugnante que imediatamente pensei”:
“Com um homem como esse não posso continuar por mais tempo!”
“Contou-me muitas outras coisas. Juntas acendemos o fogão e preparamos
café... Meu marido continuava dormindo. De repente corri até ela e perguntei-
lhe:
“- Já lhe pagou?”

Ela se ruborizou e me assegurou que depois de tudo que havia dito, não
aceitaria um centavo... Era impossível.

“Vi que queria partir antes que meu marido despertasse. Não fiz nada para
retê-la. Você achará estranho, mas era-me difícil separar-me dela. Como se a
ela me unisse algo indissolúvel... É que era tão desgraçada, tão jovem, e se
achava tão só. Vesti-me e a acompanhei. Andamos longo tempo, sentamo-nos
no parque e conversamos. Contei-lhe minhas penas... Tinha ainda na bolsa o
dinheiro do pagamento recebido quando fui despedida... Persuadi-a de que
devia aceitá-lo. A princípio, negou-se, mas, afinal, recebeu-o sob a condição de
que eu me dirigiria a ela em caso de necessidade... Separamo-nos, assim,
como irmãs...

“Tudo estava morto em mim em relação a meu marido. De repente. Não me


sentia ofendida nem enraivecida. Era como se o houvesse enterrado... Quando
voltei para casa, tratou de justificar-se. Mas eu não respondi absolutamente
nada; não chorei, não fiz nenhuma queixa. No dia seguinte, mudei-me para a
casa de uma amiga. Em seguida, comecei a procurar trabalho. Estou
procurando há três semanas, mas não vejo nenhuma probabilidade de achá-lo.
Quando, há alguns dias, me dei conta de que não podia permanecer por mais
tempo na casa de minha amiga, procurei a moça que meu marido havia trazido
para casa na última vez. Mas esta havia ingressado, no dia anterior, no
hospital... Vago, assim, agora: sem trabalho, sem dinheiro, sem moradia...
Espera-me, também, o mesmo destino?”

Os olhos tristes e desesperados de minha amiga dirigem esta pergunta à vida.


Todo o sofrimento, todo o horror, toda a dor causada pelo inimigo ainda não
vencido -a falta de trabalho - se fundiam nesse olhar: o olhar da mulher que
luta contra a velha e decadente ordem da vida...

Foi-se, mas seu olhar me perseguia. Este olhar exige uma resposta, estimula à
ação, ao trabalho construtivo, mas também à luta.
Notas
44 No século XII, por iniciativa das esposas dos cavaleiros e também por estes cuja conduta se
encontrava muitas vezes em contradição com a moral reinante, organizaram-se os tribunais do
amor nos quais as mulheres atuavam como juizes.
Num desses curiosos processos de amor, no qual se tratava de determinar se o verdadeiro
amor pode existir no matrimônio, a sentença do tribunal do amor foi a seguinte: “Nós, os
presentes, cremos e afirmamos que o amor não pode estender seus direitos a dois seres
unidos no matrimônio. Dois amantes entregam, livremente, tudo quanto possuem, sem levar
em conta qualquer consideração, sem se sentirem obrigados a compromissos. Os esposos,
pelo contrário, como se sentem unidos pelo lar, estão obrigados a subordinar a vontade de um
à vontade do outro; em virtude deste fato não podem negar-se nada. Esta decisão, adotada
após amadurecida reflexão e que expressa a opinião de numerosas mulheres, deverá ser
reconhecida como verdade estabelecida e indiscutível.” A sentença do tribunal foi anunciada no
dia 3 de maio de 1174.

45 Estes exemplo foram tomados da Rússia.

46 Outra origem biológica natural do amor é o instinto da maternidade; os cuidados que a mãe
tem que dedicar a seu filho. Mesclam-se e cruzam-se entre si e os dois instintos são os que
criaram uma base natural para o desenvolvimento das sensações complexas do amor que
contribuíram para as relações sociais.

47 Esse conflito ocorrerá principalmente, com grande freqüência, nas mulheres da época
contemporânea, de transição.

48 A nova humanidade será obrigada a encontrar novas palavras para expressar os múltiplos
aspectos das sensações psíquicas que atualmente se traduzem de forma grosseira por
palavras tais como, amor, paixão, desejo, complexo amoroso e amizade, O estado de alma tão
complicado que resulta da união de todos esses sentimentos diversos, não pode ser
expressado de modo algum por estas noções e definições tão vagas.

49 Hilda, a desencaminhada

50 Aglaneme e Celisette

51 Kombinat. Empresa que pertence em parte ao Estado e em parte a proletários particulares.