Você está na página 1de 74

MANUAL DE APOIO

UFCD 9631- Ética e deontologia profissional


no trabalho com crianças e jovens

Formadora

Ana Sofia Lopes

setembro, 2020

0
ÍNDICE

Introdução ........................................................................... 3
Âmbito do manual ............................................................................................................................ 3

Objetivos ........................................................................................................................................... 3

Conteúdos programáticos ................................................................................................................ 3

Carga horária .................................................................................................................................... 4

1.Ética e deontologia profissional no trabalho com crianças e


jovens .................................................................................. 5
1.1.Conceitos de ética e de moral .................................................................................................... 6

1.2.Princípios de referência ética ................................................................................................... 10

1.3.Os Direitos das Crianças ........................................................................................................... 13

1.4.Respeito pelo superior interesse da criança ........................................................................... 23

1.5.Respeito pelas diferenças religiosas, culturais e socioeconómicas da criança e sua família 25

1.6.Dever de transparência e Informação à família ...................................................................... 28

1.7.Dever de colaboração com a família na procura de soluções ................................................ 30

1.8.Dever de zelo ............................................................................................................................ 32

1.9.Particularidades da aplicação dos princípios éticos e deontológicos no trabalho com


crianças em contexto diferenciados .............................................................................................. 35

1.9.1.Domicílio ............................................................................................................................ 35

1.9.2.Entidades privadas ............................................................................................................. 38

1.9.3.Entidades públicas.............................................................................................................. 41

2.Compromissos com os intervenientes ............................ 45


2.1.Compromisso com as crianças e jovens................................................................................... 46

2.2.Compromisso com as famílias.................................................................................................. 47

1
2.3.Compromisso com a equipa ..................................................................................................... 48

2.4.Compromisso com a entidade empregadora .......................................................................... 49

2.5.Compromisso com a comunidade e com a sociedade em geral ............................................. 50

3.Comportamentos e atitudes ........................................... 52


3.1.Relações interpessoais ............................................................................................................. 53

3.2.Resolução de conflitos ............................................................................................................. 56

3.3.Bem-estar pessoal .................................................................................................................... 59

3.4.Ética do cuidado ....................................................................................................................... 61

3.5.Sigilo profissional ..................................................................................................................... 65

3.6.Negligência e maus tratos ........................................................................................................ 67

Bibliografia ........................................................................ 72

2
Introdução

Âmbito do manual

O presente manual foi concebido como instrumento de apoio à unidade de formação de


curta duração nº 9631 – Ética e deontologia profissional no trabalho com crianças e
jovens, de acordo com o Catálogo Nacional de Qualificações.

Objetivos

 Reconhecer as exigências éticas associadas à atividade profissional no trabalho com


crianças e jovens.
 Identificar os fatores deontológicos associados à atividade profissional no trabalho
com crianças e jovens.
 Reconhecer as suas próprias competências e funções no trabalho com crianças e
jovens.

Conteúdos programáticos

 Ética e deontologia profissional no trabalho com crianças e jovens


o Conceitos de ética e de moral
o Princípios de referência ética
 Competência
 - Responsabilidade
 - Integridade
 - Respeito
o Os Direitos das Crianças
o Respeito pelo superior interesse da criança

3
o Respeito pelas diferenças religiosas, culturais e socioeconómicas da criança
e sua família
o Dever de transparência e Informação à família
o Dever de colaboração com a família na procura de soluções
o Dever de zelo
o Particularidades da aplicação dos princípios éticos e deontológicos no
trabalho com crianças em contexto diferenciados
 - Domicílio
 - Entidades privadas
 - Entidades públicas
 Compromissos com os intervenientes
o Compromisso com as crianças e jovens
o Compromisso com as famílias
o Compromisso com a equipa
o Compromisso com a entidade empregadora
o Compromisso com a comunidade e com a sociedade em geral
 Comportamentos e atitudes
o Relações interpessoais
o Resolução de conflitos
o Bem-estar pessoal
o Ética do cuidado
o Sigilo profissional
o Negligência e maus tratos

Carga horária

 25 horas

4
1.Ética e deontologia profissional no trabalho com crianças e
jovens

5
1.1.Conceitos de ética e de moral

A Consciência Moral é a capacidade que o homem tem de conhecer os valores e


mandamentos morais, e de aplicá-los em diferentes situações.

Supõe uma hierarquia de valores e consiste na capacidade do ser humano formular juízos
sobre os atos passados, presentes e intenções futuras.

Condições necessárias para que se seja moralmente responsável:


 Ter consciência das intenções e consequências dos seus atos
 Não ser coagido por outrem a agir.

O conceito de consciência moral é deveras importante para adquirirmos um conhecimento


acerca do ser humano porque nele se inter-relacionam natureza e carácter, inteligência e
moralidade.

O que origina o ser humano a distinguir entre o bem e o mal em algo que é alvo de estudo
permanente na nossa sociedade.

Os fatores de desenvolvimento advêm do questionário de valores, rever métodos, e


darmos oportunidade a nós mesmos a fazermos uma viagem interior na busca do
autoconhecimento, além de refletirmos sobre diversidades.

A palavra Ética deriva do termo Grego “Ethos”, usado pela primeira vez por Aristóteles.

É uma reflexão sobre os princípios que se baseiam na moral, ou seja é o modo de ser e de
atuar do homem, estabelece normas gerais de comportamento deixando a cada indivíduo
a responsabilidade pelos seus atos concretos.

6
A ética é cada vez mais uma ética aplicada, para dar resposta a um mundo cada vez mais
complexo.

Como o nome indica, a ética aplicada procura aplicar na prática os fundamentos gerais da
ética, no plano individual, familiar e social. A ética não é puramente teórica: é um conjunto
de princípios que balizam as ações dos seres humanos na sociedade, devendo ser
incorporada pelos indivíduos, sob a forma de atitudes e comportamentos quotidianos.

Ao nível social, a ética pode subdividir-se em vários ramos, como por exemplo, ética
económica ou ética profissional.

Para compreender melhor as questões subjacentes à ética profissional, vale a pena precisar
o conceito de profissão.

A palavra profissão deriva do latim e significa pessoa que se dedica a cultivar uma arte.
Uma profissão é a prática de uma ocupação que influencia diretamente o bem-estar
humano e requer o domínio de um corpo complexo de conhecimentos e capacidades
especializadas, acarretando igualmente prestígio ligado à posição social.

Desta forma, a profissão beneficia quem a exerce mas também está dirigida a outros, que
serão igualmente beneficiados.

Neste sentido, a profissão tem como finalidade o bem comum ou o interesse público, pois
toda a profissão tem uma dimensão social, de serviço à comunidade e o valor de uma
profissão mede-se pelo grau de serviço que traga ao bem-estar geral.

Ela indica-nos que a dimensão mais ampla deste conceito não reside apenas na obtenção
da recompensa financeira nem no controlo de um determinado conjunto de
conhecimentos: uma profissão é sempre uma forma de servir a sociedade com uma
finalidade que transcende os meros interesses pessoais.

7
Por outro lado, a profissão implica uma ideia de grupo: é partilhada por vários indivíduos,
voluntariamente organizados, que partilham uma ocupação, trabalhando de forma
eticamente admissível.

Ajuda a tomar decisões profissionais que sejam acertadas do ponto de vista ético. E a boa
reputação que o grupo profissional consiga alcançar com a sua conduta ética ajudará os
seus membros a poder exercer as suas funções na sua área de expertise.

Ética profissional é o conjunto de normas morais pelas quais um indivíduo deve orientar
seu comportamento profissional. A Ética é importante em todas as profissões, e para todo
ser humano, para que todos possam viver bem em sociedade.

O Código de Ética é um instrumento criado para orientar o desempenho das organizações


em suas ações e na interação com seus públicos.

Os códigos de ética são uma ferramenta de gestão para estabelecer e articular os valores
corporativos, responsabilidades, obrigações e desafios éticos da organização e a forma
como atua; e servem de guia à conduta dos funcionários, facilitando a sua ação em
situações de dilema sobre linhas de atuação ou quando face a pressões decorrentes de
decisões que têm que tomar ou executar.

Neste sentido, a existência de um código de ética:


 Afirma a profissionalidade, enquanto prática reflexiva, numa perspetiva ética;
 Contribui para uma cultura de responsabilidade, a partir do interior do próprio
grupo profissional;
 Consciencializa os profissionais de que o seu modo de agir tem necessariamente
consequências naqueles que encontra no decurso da sua prática profissional;
 Apoia os profissionais na tomada de consciência da complexidade das situações
com que se deparam, avaliando-as e ponderando o que está em jogo, para que
possam decidir e agir de modo eticamente sustentado;

8
 Promove uma procura ativa dos valores e princípios que estão na génese dos
critérios que sustentam as tomadas de decisão;
 Constitui um instrumento que propicia a interrogação crítica das práticas, tendo em
vista o bem do outro, o bem comum;
 Permite a cada profissional em função do seu contexto, um reequacionamento
permanente dos princípios nela enunciados, de modo a que possa mobilizá-los ou
ampliá-los numa resposta ética.

9
1.2.Princípios de referência ética

Carta Ética da Associação de Profissionais de Educação de Infância (APEI)

A Associação de Profissionais de Educação de Infância (APEI) tem, entre outras, a finalidade


de promover o desenvolvimento da identidade profissional dos seus associados, no âmbito
da qual contempla a dimensão ética como uma vertente fundamental dessa identidade

A APEI valoriza:

 O desenvolvimento entre os seus associados de uma reflexão profunda e


permanente acerca do carácter ético do exercício das profissões ligadas à Educação
e especificamente das profissões ligadas à Educação de Infância;
 A disseminação dessa reflexão, considerando que vivemos numa sociedade plural,
onde se cruzam diferentes valores e que carece de tempos e espaços para a
reflexão explícita sobre a ética.

A APEI reconhece:

 A complexidade crescente das situações educativas, profissionais e sociais a exigir


uma procura de referenciais de dimensão ética;
 O desafio interpelador do relevo dado pela sociedade à vertente ética nas
profissões com incidência nos destinos humanos;
 O estímulo que advém da reflexão filosófica no domínio da ética, concretamente
nos pressupostos da ética da responsabilidade, da ética da comunicação e da ética
do encontro com o rosto do outro;
 A importância das Declarações dos Direitos Humanos, dos Direitos da Criança e
daquelas que visam o reconhecimento de minorias.

10
A APEI assume esta Carta de Princípios, perspetivando-a como expressão dos seus
associados que a constituem como sua referência ética.

Esta Carta:

 Afirma a profissionalidade, enquanto prática reflexiva, numa perspetiva ética;


 Contribui para uma cultura de responsabilidade, a partir do interior do próprio
grupo profissional;
 Consciencializa os profissionais de que o seu modo de agir tem necessariamente
consequências naqueles que encontra no decurso da sua prática profissional;
 Apoia os profissionais na tomada de consciência da complexidade das situações
com que se deparam, avaliando-as e ponderando o que está em jogo, para que
possam decidir e agir de modo eticamente sustentado;
 Promove uma procura ativa dos valores e princípios que estão na génese dos
critérios que sustentam as tomadas de decisão;
 Constitui um instrumento que propicia a interrogação crítica das práticas, tendo em
vista o bem do outro, o bem comum;
 Permite a cada profissional em função do seu contexto, um reequacionamento
permanente dos princípios nela enunciados, de modo a que possa mobilizá-los ou
ampliá-los numa resposta ética.

A APEI elege os seguintes princípios como referência ética:


 A Competência – enquanto saber integrado, cientificamente suportado e em
permanente reconstrução.
 A Responsabilidade – enquanto atitude dinâmica que permite dar resposta correta,
no sentido do bem do outro, e que exige uma mobilização pessoal atenta e solícita.
 A Integridade – enquanto conjunto de atributos pessoais que se revelam numa
conduta honesta, justa e coerente.

11
 O Respeito – enquanto exigência subjetiva de reconhecer, defender e promover a
intrínseca e inalienável dignidade da pessoa.

12
1.3.Os Direitos das Crianças

Convenção dos Direitos da Criança

ARTIGO 1º
(a criança)
 Criança é todo o ser humano com menos de 18 anos de idade salvo quando, nos
casos previstos na lei, atinja a maioridade mais cedo.

ARTIGO 2º
(não discriminação)
 Os direitos das crianças devem ser respeitados e garantidos sem qualquer tipo de
discriminação.
 Cabe ao Estado adotar as medidas adequadas para proteger a criança de toda e
qualquer discriminação.

ARTIGO 3º
(interesse superior da criança)
 Todas as decisões respeitantes às crianças devem ser tomadas privilegiando o seu
interesse superior.
 O Estado deve garantir à criança a proteção e os cuidados necessários para o seu
bem-estar, tendo sempre em conta o papel dos pais ou das outras pessoas
responsáveis por ela.

ARTIGO 4º
(realização dos direitos da criança)
 O Estado deve adotar todas as medidas ao seu alcance, necessárias à realização dos
direitos da criança.

13
ARTIGO 5º
(orientação da criança)
 O Estado deve respeitar os direitos e deveres dos pais, da família, ou dos outros
responsáveis pela criança ou mesmo da comunidade, ao orientar e aconselhar a
criança no exercício dos seus direitos.

ARTIGO 6º
(direito à vida e ao desenvolvimento)
 A criança tem o direito inerente à vida cabendo ao Estado assegurar a sua
sobrevivência e o seu desenvolvimento.

ARTIGO 7º
(nome e nacionalidade)
 A criança tem, desde o nascimento, o direito a um nome, o direito a adquirir uma
nacionalidade e, se possível, o direito de conhecer os seus pais, cabendo ao Estado
promover a realização destes direitos.

ARTIGO 8º
(identidade)
 O Estado deve preservar ou restabelecer, quando ilegalmente limitada, a identidade
da criança incluindo a nacionalidade, o nome e as relações familiares.

ARTIGO 9º
(não separação dos pais)
 O Estado garante que a criança não é separada dos seus pais contra a vontade
destes, salvo quando essa separação é realizada no superior interesse da criança e
em harmonia com a lei.
 A criança mesmo separada dos seus pais tem o direito a manter relações pessoais
com eles, desde que tal não seja contrário aos seus interesses.

14
ARTIGO 10º
(reunificação da família)
 A reunificação da família e a manutenção das relações entre os pais e os seus filhos
deve ser fator determinante na decisão quanto à autorização de circulação entre
Estados.

ARTIGO 11º
(deslocação de crianças no estrangeiro)
 O Estado adota as medidas adequadas a combater a deslocação e a retenção ilícita
de crianças no estrangeiro.

ARTIGO 12º
(opinião da criança)
 A criança tem o direito de se exprimir livremente e de que a sua opinião seja
considerada nas questões que lhe respeitam.

ARTIGO 13º
(liberdade de expressão)
 A criança tem o direito à liberdade de expressão, ou seja, de receber e expandir
informações e ideias de qualquer tipo, sem prejuízo dos direitos e interesses
legítimos de outros.

ARTIGO 14º
(liberdade de pensamento, de consciência e de religião)
 A criança tem o direito à liberdade de pensamento, de consciência e de religião.
 O Estado deve respeitar os direitos e deveres dos pais ou de outros responsáveis
pela criança no exercício deste direito, de forma compatível com o
desenvolvimento das suas capacidades.

15
ARTIGO 15º
(liberdade de associação e de reunião)
 A criança tem o direito à liberdade de associação e à liberdade de reunião pacífica,
desde que não ponha em causa direitos e interesses legítimos de outros.

ARTIGO 16º
(privacidade, honra e reputação)
 A criança tem o direito a não ser sujeita a intromissões arbitrárias ou ilegais na sua
vida privada, na sua família, no seu domicílio ou correspondência, nem a ofensas
ilegais à sua honra e reputação.

ARTIGO 17º
(acesso à informação)
 A criança tem o direito ao acesso à informação e a documentos que visem
promover o seu bem-estar social, espiritual e moral, bem como a sua saúde física e
mental.
 O Estado deve reconhecer e impulsionar o papel fundamental que os órgãos de
comunicação social têm na divulgação desta informação e zelar pela proteção da
criança contra a informação e documentos prejudiciais ao seu bem-estar.

ARTIGO 18º
(responsabilidade parental)
 A responsabilidade de educar a criança e de assegurar o seu desenvolvimento cabe
primacialmente a ambos os pais, devendo o Estado apoiar os pais no desempenho
desse papel.

ARTIGO 19º
(proteção contra maus tratos e negligência)
 Cabe ao Estado tomar as medidas adequadas à proteção da criança sujeita a
qualquer forma de violência física, sexual ou mental, a abandono ou tratamento

16
negligente bem como à proteção contra toda a forma de exploração, perpetrados
pelos pais ou por outras pessoas a quem está confiada.

ARTIGO 20º
(privação do meio familiar e proteção do Estado)
 A criança privada do seu ambiente familiar tem direito à proteção e assistência
especiais do Estado.
 As soluções alternativas, tais como o acolhimento familiar e em instituição devem
ter em conta a necessidade de assegurar uma continuidade à educação da criança
bem como a sua origem cultural, étnica, religiosa e linguística.

ARTIGO 21º
(adoção)
 O Estado assegura que, no recurso à adoção, o interesse superior da criança é
condição essencial.
 O Estado reconhece que a adoção internacional pode ser considerada como uma
forma alternativa de proteção da criança, no respeito pela garantia dos seus
direitos e autorizações das entidades competentes.

ARTIGO 22º
(refugiados)
 A criança refugiada ou que requeira este estatuto, acompanhada ou não dos seus
pais ou de outra pessoa, tem o direito à adequada assistência humanitária por parte
do Estado, que lhe permita o gozo dos seus direitos.

ARTIGO 23º
(criança deficiente)
 A criança com deficiência física e ou mental tem direito a uma vida plena e decente,
em condições que garantam a sua dignidade, favoreçam a sua autonomia e
facilitem a sua participação ativa na vida da comunidade, bem como o direito a

17
cuidados especiais que lhe permitam uma integração social e um desenvolvimento
pessoal plenos.

ARTIGO 24º
(saúde)
 A criança tem o direito a gozar do melhor estado de saúde possível e a beneficiar de
serviços médicos e, em especial, dos cuidados de saúde primários.
 O Estado deve tomar as medidas adequadas a abolir as práticas tradicionais
prejudiciais à saúde da criança.

ARTIGO 25º
(acolhimento em instituições)
 A criança acolhida numa instituição, para fins de assistência, proteção, ou
tratamento físico ou mental, tem direito à revisão periódica do plano de
intervenção e das circunstâncias que fundamentaram esse acolhimento.

ARTIGO 26º
(segurança social)
 A criança tem o direito a beneficiar do sistema de proteção social.
 As prestações devem ser atribuídas de acordo com os recursos e a situação da
criança e das pessoas responsáveis pela sua manutenção.

ARTIGO 27º
(condições de vida)
 A criança tem direito a um nível de vida suficiente e adequado de forma a permitir
o seu desenvolvimento físico, mental, espiritual, moral e social.
 Cabe aos pais e às pessoas que têm a criança a seu cargo, assegurar aquelas
condições de vida, com a ajuda do Estado, se necessário, nomeadamente tomando
as medidas adequadas a assegurar a pensão alimentar devida à criança.

18
ARTIGO 28º
(educação)
 A criança tem o direito à educação devendo ser-lhe assegurado pelo Estado os
diversos graus de ensino, em função das suas capacidades e em igualdade de
oportunidades.
 Cabe igualmente ao Estado tomar as medidas adequadas para prevenir e combater
o abandono e o insucesso escolar.

ARTIGO 29º
(fins da educação)
 O Estado deve reconhecer que a educação da criança lhe proporcionará o
desenvolvimento da sua personalidade, dos seus dons e aptidões mentais e físicos,
lhe conferirá o respeito pelos direitos do homem e pelos valores culturais, por
forma a prepará-la para assumir a responsabilidade da vida adulta.

ARTIGO 30º
(minorias)
 Toda a criança que pertença a uma minoria étnica, religiosa ou linguística, tem o
direito a ter a sua própria vida cultural, bem como a professar e praticar a sua
própria religião ou utilizar a sua própria língua.

ARTIGO 31º
(repouso e tempos livres)
 A criança tem o direito ao repouso e aos tempos livres, o direito de participar em
jogos e atividades próprias da sua idade e de participar livremente na vida cultural e
artística.

ARTIGO 32º
(proteção no trabalho)

19
 A criança tem o direito a ser protegida contra a exploração económica ou a sujeição
a trabalhos perigosos ou capazes de comprometer a sua educação, prejudicar a sua
saúde e o seu desenvolvimento físico, mental, espiritual, moral ou social.
 Cabe ao Estado assegurar essa proteção através das medidas adequadas,
nomeadamente fixando uma idade mínima para admissão a um emprego.

ARTIGO 33º
(toxicodependência)
 Cabe ao Estado adotar as medidas adequadas para proteger a criança contra o
consumo ilícito de estupefacientes e substâncias psicotrópicas, bem como para
prevenir a utilização de crianças na produção e no tráfico dessas substâncias.

ARTIGO 34º
(exploração e violência sexual)
 Cabe ao Estado proteger a criança contra todas as formas de exploração e de
violência sexuais tal como a prostituição ou a produção de material pornográfico.

ARTIGO 35º
(rapto, venda ou tráfico de crianças)
 Cabe ao estado tomar as medidas adequadas para impedir o rapto, a venda ou
tráfico de crianças.

ARTIGO 36º
(outras formas de exploração)
 Cabe ao Estado proteger a criança contra qualquer forma de exploração prejudicial
ao seu bem-estar.

ARTIGO 37º
(privação de liberdade e tratamentos cruéis)

20
 Cabe ao Estado garantir que nenhuma criança será submetida à tortura, a penas ou
a tratamentos cruéis, desumanos ou degradantes, à pena de morte ou à prisão
perpétua.
 Nenhuma criança pode ser privada de liberdade de forma ilegal ou arbitrária.
 A criança privada de liberdade tem o direito a ser tratada com humanidade e
respeito e a aceder rapidamente à assistência jurídica, bem como a impugnar a
legalidade da sua privação de liberdade perante uma autoridade competente,
independente e imparcial.
´
ARTIGO 38º
(proteção em caso de conflito armado)
 Cabe ao Estado, em caso de conflito armado, assegurar proteção e assistência à
criança e, tomar as medidas possíveis para garantir que nenhuma criança com
menos de 15 anos participe diretamente nas hostilidades.

ARTIGO 39º
(recuperação da criança vitimizada)
 Cabe ao Estado tomar as medidas adequadas para promover a recuperação física e
psicológica e a reinserção social da criança vítima de negligência, maus tratos e
exploração, bem como a vítima de tortura, tratamentos cruéis e degradantes ou de
conflito armado.

ARTIGO 40º
(infração da lei penal)
 Toda a criança suspeita ou acusada de ter cometido delito tem o direito a um
tratamento capaz de favorecer a sua dignidade, de reforçar o seu respeito pelos
direitos do homem e as liberdades fundamentais de terceiros e que facilite a sua
reintegração social.

21
 Tem ainda direito a beneficiar de assistência jurídica ou de outra assistência
adequada para a preparação da sua defesa, bem como tem direito a ter a sua causa
examinada na presença dos seus pais ou representantes legais.

ARTIGO 41º a 54º


(princípios orientadores)
 As disposições dos artigos 41º a 54º consagram importantes princípios orientadores
relativos à aplicação da Convenção, com realce para a sua divulgação obrigatória,
para o controle da sua aplicação por um Comité dos Direitos da Criança e para a
promoção da cooperação internacional tendo em vista facilitar a aplicação da
Convenção pelos países com maiores dificuldades.

22
1.4.Respeito pelo superior interesse da criança

Torna-se necessário que os prestadores de cuidados responsáveis pela criança pautem a


sua intervenção por critérios de qualidade:
 Ter em consideração o superior interesse da criança, especialmente quando se
encontra a planificar o trabalho, aspeto que implica um trabalho de grande
proximidade com a família desta. Há que estabelecer uma parceria forte com a
família das crianças que estão ao seu cuidado, de forma a obter informação acerca
das capacidades e competências das crianças.
 Nos cuidados tidos ao nível da qualidade das relações que a criança vai estabelecer
quer com outras crianças quer com os adultos. É num contexto relacional que as
aprendizagens da criança ocorrem pelo que quando se está a planificar um trabalho
com estas crianças, este é um aspeto central a ter em consideração.
 Todas as crianças necessitam de se sentir incluídas, de ter um sentimento de
pertença, de se sentir valorizadas e importantes para algo. Este sentimento é
possível de ser construído através do respeito mútuo e através de relações afetivas
calorosas e recíprocas entre a criança e o adulto responsável por ela.
 Compreender as formas como estas crianças aprendem. Este é um processo
complexo, em que se tem que promover um ambiente que facilite a brincadeira, a
interação, a exploração, a criatividade e a resolução de problemas por parte das
crianças. Só desta forma é que elas poderão desenvolver o máximo das suas
competências e capacidades. Isto implica:
o Pensar a criança como um aprendiz efetivo e ativo, que gosta de aprender.
o Criar um ambiente flexível que possa ser adaptado imediatamente aos
interesses e necessidades de cada criança, promovendo o acesso a um leque
de oportunidades de escolhas e que lhe permita crescer confiante e com
iniciativa.
o Estabelecer relações que encorajem a criança a participar de forma ativa.
Crianças muito novas aprendem melhor através de aprendizagens ativas em

23
que se encontrem envolvidas e que possuam significado para elas, pelo que
a brincar será o melhor contexto em que estas crianças aprenderão.
o Procurar conhecer o grupo de crianças pelo qual se encontra responsável,
aprendendo a observar o seu comportamento e interações.
o Estabelecer uma rotina diária consistente que reforce e valorize as
continuidades. Desta forma, as crianças desenvolverão um sentimento de
pertença a um ambiente que podem prever no seu quotidiano.
o Dinamizar oportunidades para que a criança possa comunicar os seus
sentimentos e pensamentos (p.e. através da possibilidade de estar sozinha
com o adulto de referência).
o Dispor de adultos que estão interessados e envolvidos na prestação dos
cuidados à criança.

24
1.5.Respeito pelas diferenças religiosas, culturais e socioeconómicas da criança e sua
família

A comunicação com as crianças transmite respeito pelas competências e diversidade


sociocultural de cada uma:
 Existe uma política de condução do estabelecimento que permite o respeito pelas
diferenças socioculturais de cada criança.
 Existe uma política de envolvimento das famílias e sempre que possível das próprias
crianças na definição de normas e procedimentos de condução do estabelecimento,
nomeadamente na planificação das atividades e na definição de regras de
funcionamento.
 A informação sobre cada criança e seu meio sociocultural de origem é tido em
consideração para a elaboração dos planos de atividades do estabelecimento.
 O estabelecimento permite a visita de outros técnicos especializados que
acompanham a criança com necessidades educativas especiais, de forma a
estabelecer em conjunto com os seus colaboradores, o respetivo plano individual
de acompanhamento, procurando que as restantes crianças colaborem na
implementação do referido plano.
 Os colaboradores trocam impressões com as famílias acerca dos comportamentos
manifestados pelas suas crianças.
 De forma a fazer face às dificuldades colocadas por crianças oriundas de diferentes
meios socioculturais e/ou linguísticos e/ou com dificuldades de comunicação e por
crianças com necessidades educativas especiais, os colaboradores detêm recursos
didáticos necessários e meios supervisão adequados recorrendo por vezes ao apoio
de ajuda externa.
 As crianças são ajudadas a compreender e respeitar a diferença das outras pessoas
em relação a si, através de:
o Respostas, claras e simples, do colaborador sobre as pessoas diferentes de si
(p.e. de outras raças e etnias, mais velhas).

25
o Integração de crianças de diferentes raças, etnias e sexo nos grupos
naturais das crianças em contexto de sala ou em atividades do exterior,
promovendo igualdade de oportunidades no acesso às atividades e material
de brincar.
o Disponibilização de atividades de diferentes culturas e tradicionalmente
destinadas a diferentes géneros.
 Os colaboradores procuram envolver todas as crianças em momentos de
conversação agradável e satisfatória, escutando cuidadosamente, procurando
valorizá-las e responder de forma genuína.
 O material disponibilizado pelo estabelecimento é diversificado para abranger
diferentes etnias e meios socioculturais.
 Quando a família consultou outros especialistas, existe a preocupação dos
colaboradores em integrar a informação disponibilizada, no alcance dos objetivos
estabelecidos para cada criança.
 São utilizadas estratégias de ensino individualizado em crianças com necessidades
educativas especiais que procuram integrá-las no grupo do qual fazem parte.
 Cada criança com necessidades educativas especiais está incluída nas diferentes
atividades e rotinas do estabelecimento, participando ativamente nas mesmas,
existindo um plano de acompanhamento a longo prazo elaborado em articulação
com a família.
 O estabelecimento promove a aceitação de uma criança com necessidades
educativas especiais no seio do grupo.

Os colaboradores utilizam métodos de comunicação particulares utilizados por cada


criança (p.e. palavras ou frases chave utilizadas em casa, métodos de comunicação
adaptativa):
 Os colaboradores estão sensíveis e atentos a todas as crianças, especialmente para
com aquelas que possuem necessidades especiais.

26
 Os colaboradores comunicam com todas as crianças de forma paciente, atenta e
com respeito pelos seus costumes culturais e familiares (p.e os colaboradores
esforçam-se em pronunciar os nomes das crianças corretamente).
 Os colaboradores são culturalmente sensíveis nos cuidados prestados às crianças ao
nível da comida, do sono e dos cuidados de higiene.
 Os colaboradores reconhecem e respeitam as diferenças existentes entre cada
criança ao nível das suas competências, meios sociais de origem e estrutura familiar
e procuram estruturar e providenciar atividades e experiências que valorizem e
respeitem quer as similaridades quer as diferenças existentes.
 Os colaboradores durante a prestação de cuidados de rotina, de forma consistente
e sistemática, dão reforço não-verbal e verbal, utilizando a linguagem conhecida da
criança prestando uma atenção individualizada.
 Os colaboradores consultam as famílias sempre que verificam a existência de
diferenças entre a política de condução de comportamento das crianças no
estabelecimento e a existente na família.

27
1.6.Dever de transparência e Informação à família

A comunicação com as famílias é clara, de acordo com o seu nível sociocultural sendo
garantida a confidencialidade das informações:
 Os colaboradores procuram comunicar efetivamente com todas as famílias, com
respeito pelas suas competências e meios socioculturais de origem (p.e. adequação
da linguagem verbal a famílias de meios socioculturais desfavorecidos através da
sua simplificação).
 O estabelecimento está preparado para se relacionar e comunicar com famílias de
meios culturais e linguísticos diferentes, de forma a providenciar um acolhimento
adequado a cada criança, (p.e. poder acolher crianças imigrantes em que
apresentem dificuldades na língua portuguesa).
 Existe um plano específico formal para comunicar com todas as famílias acerca do
quotidiano das crianças.
 Existe uma preocupação em ter informação escrita em várias línguas, consoante o
universo de crianças estrangeiras admitidas.
 Existem publicações destinadas às famílias sobre a filosofia do estabelecimento e
os serviços e atividades disponibilizados.
 O conteúdo da informação escrita disponível para as famílias e colaboradores é
revisto e atualizado regularmente, em articulação com todas as partes interessadas
(famílias, colaboradores, comunidade/parceiros e autoridades competentes).
 As alterações no conjunto de procedimentos e serviços do estabelecimento são
dadas a conhecer às famílias antes da sua implementação, mesmo que não
impliquem uma alteração no quotidiano da criança.

28
 Existe a oportunidade para que as famílias e os colaboradores responsáveis pela
criança possam trocar informação de forma privada, sendo dadas garantias de que
esta se mantém confidencial.
 As solicitações das famílias sobre informações do quotidiano da criança no
estabelecimento são respondidas de forma adequada e favorável.
 Existe um sistema de gestão das reclamações e de sugestões das famílias e dos
colaboradores que é divulgado às diferentes partes interessadas.
 Questões colocadas pelas famílias incluídas nas reclamações e sugestões são tidas
em consideração aquando da planificação das atividades.

É disponibilizada informação às famílias sobre o desenvolvimento das crianças e áreas de


interesse ao nível do desenvolvimento infantil:
 Existe um conjunto de procedimentos, formais e informais, que possibilitam a
partilha de informação de forma regular e sistemática entre os colaboradores
responsáveis pela criança e a sua família sobre os progressos e os acontecimentos
mais relevantes da sua vida.
 Os colaboradores partilham frequentemente com as famílias algumas das
interações específicas que mantiveram com a criança durante o dia.
 É disponibilizada informação às famílias sobre como educar as crianças (p.e.
colaboradores conversam com as famílias sobre o desenvolvimento infantil,
disponibilizando livros e outro material quando solicitados).
 É disponibilizado às famílias o acesso a informação adicional e não diretamente
relacionada com o quotidiano das crianças no estabelecimento (p.e. especialistas
numa área falam com as famílias em ocasiões marcadas para o efeito; acesso às
famílias a vídeos e livros educativos).

29
1.7.Dever de colaboração com a família na procura de soluções

Em qualquer instituição, um dos aspetos mais importantes é o relacionamento e o respeito


que os colaboradores mantêm e demonstram para com a família e sua criança, dado que as
crianças ao sentir uma continuidade nos cuidados que lhe são prestados entre o ambiente
de casa e o ambiente institucional desenvolvem maiores sentimentos de segurança e de
capacidade de confiar no outro.

Esta parceria entre a família, a criança e os colaboradores deve ser caracterizada por uma
partilha ativa de informação e por um respeito mútuo, promovendo momentos de trabalho
conjunto entre ambos para melhor benefício da criança.

Os membros das famílias são bem-vindos no estabelecimento e contribuem com o seu


conhecimento e capacidades para enriquecer o programa de atividades a implementar na
instituição, sendo eles os principais responsáveis pelo bem-estar das crianças aí acolhidas e
as pessoas que melhor as conhecem.

Os colaboradores procuram manter um contacto consistente com cada criança,


procurando ficar a conhecê-la e à sua família. Tal promove o estabelecer de laços de
segurança e confiança, aspetos promotores de uma melhor adaptação e de um
desenvolvimento psicossocial global mais adequado e adaptado das crianças.

A família é considerada como parceiro:


 O estabelecimento possui um programa para cada período do ano que permite o
contacto informal entre os colaboradores e as famílias, procurando maximizar a
participação destas na planificação das atividades e no quotidiano do
estabelecimento.
 As famílias participam na elaboração do projeto educativo do estabelecimento, no
levantamento de necessidades de cada criança e diferentes instrumentos que

30
regulam a atividade do estabelecimento, no plano de atividades de cada sala e no
plano de atividades diário, pelo que estes refletem tanto as similaridades como a
diversidade cultural das crianças e famílias acolhidas no estabelecimento.
 As estratégias de condução de atuação para cada criança e família são discutidas
entre os colaboradores e as famílias de forma individual e construtiva, procurando-
se garantir uma continuidade entre os cuidados prestados no estabelecimento e os
praticados no seio familiar.
 Os colaboradores demonstram um interesse genuíno e assertivo quando falam com
as famílias, respeitando as suas diferenças culturais.
 As famílias são convidadas verbalmente e/ou por escrito a colaborar em atividades
específicas do estabelecimento, nomeadamente na implementação de atividades
nas salas com as crianças, planeadas e apoiadas pelos colaboradores do
estabelecimento.
 O estabelecimento promove oportunidades para contactos informais entre as
famílias e os colaboradores.

31
1.8.Dever de zelo

O dever de zelo consiste em conhecer e aplicar as normas legais e regulamentares e as


ordens e instruções dos superiores hierárquicos, bem como exercer as funções de acordo
com os objetivos que tenham sido fixados e utilizando as competências que tenham sido
consideradas adequadas.

O Estado Português, tendo ratificado, através de todos os seus órgãos de soberania, a


Convenção da ONU sobre os Direitos da Criança, assumiu um compromisso direto e
primário, relativamente às crianças e adolescentes desprovidos de meio familiar adequado.

Estas obrigações são extensíveis a todas as ações, pessoas e organizações que atuam neste
domínio, exigindo políticas integradas para a infância e para a família, de modo a que:
 Se incremente a sua proteção, o que resultará imediatamente numa diminuição do
número de casos de pobreza, orfandade, abandono, maus-tratos e violência
doméstica, fatores major na génese das situações que exigem retirada da criança à
família ou saída desta do seu meio familiar;
 Se previnam as situações de institucionalização, fomentando alternativas dentro da
família alargada, da vizinhança e da comunidade em geral;
 Se diminua o tempo de institucionalização, agilizando os processos burocráticos,
sociais e judiciais, e transformando o internamento num último recurso de duração
temporária;
 Se defina o que deve ser “um meio familiar alternativo”, designadamente com base
nas necessidades da criança, quer relativamente aos cuidados de que necessita, quer
ao afeto e condições para um desenvolvimento físico, psicológico, intelectual,
cultural e social harmonioso e adequado;
 Se exija o cumprimento de regras e normas que consagrem as boas práticas, como
um dos elementos de garantia de qualidade para as instituições, de modo a que os

32
que lá se encontram, e suas famílias, bem como os que lá trabalham, se sintam
realizados e satisfeitos;
 Se ouçam as crianças e adolescentes, numa cidadania participativa e efetiva, de
modo a que as instituições possam também responder aos anseios e expectativas
dos próprios.

As crianças e adolescentes desprovidos de meio familiar merecem o mesmo do que


quaisquer outras crianças. Vítimas de erros, atos e omissões dos adultos por eles
responsáveis, dos pais aos restantes elementos da família e da sociedade, têm percursos
de vida difíceis, traumáticos e negativos.

Só por isso, quanto mais não fosse, são merecedores de todos os cuidados e carinhos que
possam contribuir para que o presente não se torne obrigatoriamente futuro, e para que
consigam inverter a tendência destrutiva do seu percurso de vida, transformando-a em
projetos de sucesso, de integração e de tranquilidade.

Só assim, também, poderemos levar à prática o que a Convenção sobre os Direitos da


Criança consagra e o que a Constituição da República garante.

O objetivo do sistema de proteção é o de promover os direitos e a proteção das crianças e


jovens em perigo, quando esse perigo resulta de atos ou omissões dos pais ou dos
representantes legais ou curadores, devendo garantir o superior interesse da criança e do
jovem, a sua privacidade, os princípios da intervenção mínima e precoce, a
proporcionalidade da atuação, a responsabilidade parental e a prevalência da família
quando possível, a obrigatoriedade de um correto circuito de informação e a audição
obrigatória e a participação dos interessados.

Também se deve referir o princípio da subsidiariedade, que prevê níveis integrados de


intervenção, em “escada”, tentando resolver a nível local e comunitário (mais próximo da
vida “real” da criança), o que puder encontrar aí uma resposta eficaz, eficiente e segura.

33
A intervenção do Ministério Público e dos Tribunais justificar-se-á, sempre que não for
possível a intervenção adequada das entidades com competência em matéria de Infância e
Juventude ou das Comissões de Proteção de Crianças e Jovens.

34
1.9.Particularidades da aplicação dos princípios éticos e deontológicos no trabalho com
crianças em contexto diferenciados

1.9.1.Domicílio

Ama

Ama é a pessoa, que mediante pagamento cuida na sua residência de crianças até aos três
anos de idade ou até atingir a idade de ingresso nos estabelecimentos de educação pré-
escolar, por um período de tempo correspondente ao trabalho ou impedimento da família.

Tem ainda como objetivo facilitar a conciliação da vida familiar e profissional do agregado
familiar da criança.

No exercício da sua atividade a ama tem o dever de:

 Garantir a qualidade dos serviços prestados, tendo em conta o desenvolvimento


físico e emocional da criança
 Celebrar contrato de seguro que cubra os acidentes pessoais das crianças, de
acordo com a Portaria n.º 226/2015, de 31 de julho, salvo se a ama exercer a
atividade no âmbito de uma instituição de enquadramento (creche familiar)
 Frequentar as ações de formação inicial e contínua
 Colaborar com a família das crianças acolhidas, garantindo permanente informação
de forma a assegurar o bem-estar das mesmas
 Assegurar uma alimentação saudável e equilibrada das crianças, garantindo as
condições de higiene e segurança alimentar na preparação dos alimentos
 Permitir o acesso da família da criança à sua habitação, sempre que necessário ou
quando solicitado por esta, por motivos relacionados com o exercício da atividade

35
 Avisar, de imediato, em caso de doença ou de acidente, a família da criança e tomar
as providências adequadas quando as situações revistam carácter de urgência
 Informar imediatamente a família sempre que a ama, quem coabite com a mesma
ou outra criança desenvolva doença transmissível, respeitando os períodos de
afastamento previstos na legislação em vigor relativos às doenças de evicção
escolar
 Facultar aos serviços competentes de fiscalização e inspeção o acesso à habitação e
às informações indispensáveis à avaliação da respetiva atividade
 Renovar, anualmente, o documento comprovativo do seu estado de saúde, bem
como o de quem com ela coabita
 Apresentar, anualmente, o certificado do registo criminal da ama e de quem com
ela coabita
 Facultar à família o acesso ao processo individual da criança e ao processo da
atividade
 Comunicar às entidades competentes factos que indiciem eventuais situações de
risco ou de perigo que ponham em causa o desenvolvimento integral das crianças
 Manter a habitação, os artigos de puericultura e os brinquedos em condições de
higiene e segurança
 Informar a família das crianças acolhidas, da intenção de interromper ou cessar a
atividade, com antecedência de 60 dias
 Entregar, no prazo de 10 dias, nos serviços competentes do Instituto da Segurança
Social, I.P o comprovativo do estado de saúde e o certificado de registo criminal das
pessoas que coabitam com a ama, sempre que haja alteração das mesmas
 Dispor de livro de reclamações nos termos da legislação em vigor.

Família de acolhimento de crianças e jovens

O acolhimento familiar consiste numa medida de caráter temporário, concretizada através


da atribuição da confiança da criança ou do jovem a uma pessoa singular ou a uma família,
habilitadas para o efeito, visando a integração em meio familiar, bem como a prestação de

36
cuidados adequados às necessidades, bem-estar e educação necessária ao
desenvolvimento integral das crianças e dos jovens.

O objetivo da resposta prosseguida através das famílias de acolhimento é assegurar à


criança ou ao jovem um meio sociofamiliar adequado ao desenvolvimento da sua
personalidade, em substituição da família natural, enquanto esta não disponha de
condições.

Deveres das famílias de acolhimento:

 Atender prioritariamente aos interesses e direitos da criança e do jovem


 Orientar e educar a criança ou jovem com zelo e afetividade, contribuindo para o
seu desenvolvimento integral
 Assegurar as condições para o fortalecimento das relações da criança ou do jovem
com a família natural
 Manter informada a instituição de enquadramento e a família natural sobre a
situação e os aspetos relevantes do desenvolvimento da criança ou do jovem
 Dar conhecimento à instituição de enquadramento de qualquer alteração na
constituição do agregado familiar ou quaisquer outros factos que alterem as
condições da prestação de serviço
 Respeitar o direito da família natural à intimidade e à reserva da vida privada
 Comunicar à instituição de enquadramento e à família natural a alteração de
residência e o período e local de férias, salvo se, quanto à família natural, for
considerado inconveniente pelo tribunal ou pela comissão de proteção
 Participar nos programas e ações de formação e nas reuniões para que seja
convocada, promovidas pela instituição de enquadramento
 Não acolher com permanência outras crianças ou jovens que não sejam membros
da família
 Renovar anualmente o documento comprovativo do estado de saúde de todos os
seus elementos

37
 Providenciar os cuidados de saúde adequados à idade da criança ou jovem e manter
atualizado o seu boletim de saúde
 Assegurar à criança ou jovem a frequência de estabelecimento de ensino adequado
à sua idade e condições de desenvolvimento
 Efetuar a inscrição da pessoa responsável pelo acolhimento familiar na repartição
de finanças como trabalhador independente
 Elaborar relatórios e informações, com a periodicidade que for combinada com a
equipa técnica da instituição de acolhimento, para avaliação da criança ou do
jovem, no caso de família de acolhimento em lar profissional.

Deveres da instituição de enquadramento

 Garantir a formação inicial e contínua da equipa técnica, bem como a sua


supervisão e avaliação
 Efetuar o pagamento dos valores devidos pela prestação do serviço de acolhimento
familiar e pelo subsídio de manutenção da criança ou do jovem
 Disponibilizar às famílias de acolhimento, sempre que necessário:
o O equipamento indispensável ao acolhimento da criança ou do jovem
o O apoio técnico necessário ao desenvolvimento do plano de intervenção e
ao cumprimento das obrigações decorrentes do acolhimento familiar
o Apoiar a família natural tendo em vista a reintegração familiar da criança ou
do jovem.

1.9.2.Entidades privadas

As entidades privadas que atuam neste domínio são um conjunto de respostas de cuidados
e apoio social para crianças e jovens, em regra, a partir dos três meses, com vista a apoiar
as famílias e promover o desenvolvimento pessoal e social da criança num ambiente
seguro e estimulante.

38
Estas respostas sociais são desenvolvidas por diversas instituições e dependem dos
equipamentos e serviços estarem situados na zona da residência das famílias ou da
capacidade da instituição para receber a criança ou o jovem.

Estas instituições devem ser especialmente rigorosas nas questões de ética. Deve haver
uma cultura de respeito por princípios claros e sólidos, que leve todos os colaboradores a
agir de forma ética.

Essa postura deverá ser vista como natural dentro da organização, isto é, os seus
colaboradores devem agir eticamente, não para evitar consequências negativas, mas
porque adotam como intrinsecamente seus, os valores da ética e do respeito pelo próximo.

Para apoiar e reforçar essa cultura, é útil adotar um código de ética. Este é um documento
que estabelece as bases do comportamento dos colaboradores da organização, dentro do
contexto laboral, implantando padrões normativos. Deve respeitar a lei, mas ir além dela.

O bom código de ética é aquele que não depende de fatores religiosos, temporais ou
circunstanciais: é intemporal e universal.

A criação de uma cultura ética evita atitudes antiéticas e as suas consequências morais,
sociais e legais. É um fortíssimo fator de promoção de uma imagem pública positiva.

Neste âmbito, os comportamentos dos profissionais devem pautar-se pelo bom senso,
experiência, sabedoria e técnica, mas também por políticas e procedimentos escritos que
se designam por boas práticas.

Estas pretendem apoiá-lo na prossecução do objetivo de desenvolver nas crianças e jovens


comportamentos refletidos, ajustados e assertivos, no quadro de uma cidadania
responsável e madura:

39
 As boas práticas baseiam-se no elogio, encorajamento e estruturação de um
ambiente promotor do sucesso;
 São razoáveis e relacionadas com a natureza do comportamento;
 Ensinam ou mostram, de forma modelar, os comportamentos mais corretos e
apropriados;
 Têm como motivação a assistência e apoio às crianças e jovens, no sentido do seu
desenvolvimento pessoal e social, responsabilidade e autocontrolo.

E incluem diversas áreas, embora não apenas estas:


 Garantir o provimento dos direitos básicos (por exemplo: alimentação, roupas,
abrigo, alojamento);
 Afastar com recurso à força física em situações que exijam contenção proporcional
e adequada à proteção da criança ou Jovem ou para salvaguarda da vida ou
integridade física dos profissionais;
 Não aplicar castigo de reclusão, salvo quando se torna necessário para imediata
segurança física da criança ou do jovem, ou dos demais – profissionais e utentes;
 Não obrigar a trabalho excessivo, de acordo com as capacidades e necessidades da
criança e do jovem, seja ele físico ou intelectual. As tarefas a distribuir devem
comportar algum grau de liberdade em termos da oportunidade da sua realização,
designadamente o acerto com as outras atividades;
 Não exercer coação psicológica, através de ameaças (como, por exemplo, dizer que
será expulso da estrutura residencial);
 Evitar comportamentos autoritários ou arbitrários, por exemplo em relação a
telefonemas, visitas, saídas, contactos, correio, uso da internet, sem haver uma
razão fundamentada, e sem dar á criança ou ao jovem o direito de argumentar e
apresentar os seus pontos de vista;
 Não utilizar outras crianças ou jovens para ações de disciplina, corretivos,
descomposturas, ou seja o que for que possa quebrar a solidariedade e a honra da
relação interpares;

40
 Não obrigar ninguém a seguir ou forçosamente concordar com ideias religiosas,
políticas, desportivas, ou quaisquer outras que tenham a ver com estética e opções
por grupos de pertença culturais, políticos, religiosos ou lúdicos.

1.9.3.Entidades públicas

A educação pública de qualidade, pedra angular de uma sociedade democrática, tem o


dever de proporcionar a todas as crianças e jovens as mesmas oportunidades educativas e
é fundamental para o bem-estar da sociedade ao contribuir para o seu desenvolvimento
económico, social e cultural.

Os profissionais da educação e o pessoal de apoio têm a responsabilidade de fomentar a


confiança da comunidade na qualidade dos serviços que se espera que ofereçam todos os
que trabalham nesta importante tarefa.

O exercício de critérios responsáveis está no centro da atividade profissional e as ações dos


profissionais da educação e do pessoal de apoio, dedicados, competentes e
comprometidos na ajuda a cada aluno para que alcance todo o seu potencial, são
essenciais para proporcionar uma educação de qualidade.

À experiência e ao empenho dos profissionais da educação e pessoal de apoio devem


associar-se boas condições de trabalho, o apoio da comunidade e políticas capazes de
proporcionar uma educação de qualidade.

Só quando todos os componentes necessários estão nos seus devidos lugares é que é
possível aos profissionais da educação e ao pessoal de apoio cumprir totalmente suas
responsabilidades para com os estudantes e a comunidade onde trabalham.

Uma crescente consciencialização das normas e da ética da profissão pode contribuir para
aumentar a satisfação profissional dos profissionais da educação e do pessoal de apoio, e

41
de potenciar o seu prestígio e autoestima, aumentando o respeito que a sociedade sente
por estes profissionais.

Os professores, educadores o pessoal de apoio e seus sindicatos, por serem membros da


Internacional da Educação (IE), estão comprometidos com a promoção de uma educação
que ajude as pessoas a desenvolver as suas capacidades, para que possam viver uma vida
plena, contribuindo para o bem-estar da sociedade.

Tendo isto em conta, a IE recomenda a adoção da seguinte Declaração, a fim de orientar os


professores e outros trabalhadores da educação e seus sindicatos para o respeito pelos
padrões éticos requeridos pela profissão.

1. Compromissos com a profissão

Os profissionais da educação devem:


a) Justificar a confiança pública e aumentar o respeito pela profissão, oferecendo a
todos uma educação de qualidade;
b) Garantir que o conhecimento profissional seja constantemente atualizado e
aperfeiçoado;
c) Determinar a natureza e o formato de programas de formação contínua como
expressão essencial do seu profissionalismo;
d) Divulgar toda informação relevante relacionada com as suas competências e
qualificações;
e) Lutar, participando ativamente no seu sindicato, para obter condições de
trabalho que incentivem o ingresso de pessoas altamente qualificadas na profissão;
f) Apoiar todos os esforços para promover a democracia e os direitos humanos
através da educação;

2. Compromissos com os estudantes

Os profissionais da educação devem:

42
a) Respeitar os direitos de todas as crianças, em particular dos estudantes, para que
possam beneficiar do disposto na Convenção das Nações Unidas sobre os Direitos
das Crianças, particularmente no que diz respeito à educação;
b) Salvaguardar e promover os interesses e o bem-estar de todos os estudantes,
protegendo-os de intimidações e de abusos físicos e psicológicos;
c) Tomar todas as medidas para proteger os estudantes de abusos sexuais;
d) Atender aos problemas que afetam o bem-estar dos estudantes, tratando-os
cuidado, dedicação e discrição;
e) Ajudar os estudantes a desenvolver um conjunto de valores de acordo com os
padrões internacionais de direitos humanos;
f) Manter relações profissionais com os estudantes;
g) Reconhecer a individualidade e as necessidades específicas de cada aluno, e
estimulando-os para que possa desenvolver plenamente as suas potencialidades;
h) Proporcionar aos estudantes o sentimento de pertença a uma comunidade,
baseada em compromissos mútuos de comprometimento com a existência de um
lugar para todos;
i) Exercer a autoridade com justiça e solidariedade;
j) Garantir que a relação privilegiada entre professor e aluno não é utilizada para
fins de proselitismo ou controle ideológico.

3. Compromissos com os colegas

Os profissionais da educação devem:


a) Promover um relacionamento amigável com todos os colegas, respeitando a
situação profissional e as suas opiniões, aconselhando e apoiando sobretudo os que
se encontram em início de carreira ou em formação;
b) Manter a confidencialidade sobre informações relacionadas com os colegas,
obtidas no decurso da prática profissional, a menos que sua divulgação seja
requerida por lei ou por dever profissional;
c) Auxiliar os colegas na sua avaliação, após negociação e acordo entre os sindicatos
e os empregadores;

43
d) Defender e promover os interesses e o bem-estar dos colegas e protegê-los de
qualquer forma de abuso físico, psicológico ou sexual;

4. Compromissos com a direção

Os profissionais da educação devem:


a) Estar informados das suas responsabilidades legais e administrativas, respeitar as
cláusulas dos contratos coletivos e os direitos dos educandos;
b) Cumprir as instruções razoáveis dadas pela direção, tendo o direito de as
questionar através de procedimento claramente estabelecido.

5. Compromissos com os pais

Os profissionais da educação devem:


a) Reconhecer o direito dos pais acompanharem, através de canais previamente
estabelecidos, o bem-estar e o progresso dos seus filhos;
b) Respeitar a autoridade legal dos pais, mas dar conselhos do ponto de vista
profissional, tendo em conta o interesse superior das crianças;
c) Realizar todos os esforços possíveis no sentido de envolver ativamente os pais na
educação dos filhos, auxiliando o processo de aprendizagem e garantindo que as
crianças não sejam vítimas de trabalho infantil.

6. Compromissos com os profissionais da educação

A comunidade deve:
a) Possibilitar que os profissionais da educação se sintam confiantes e que sejam
tratados justamente enquanto no exercício de suas tarefas;
b) Reconhecer que os profissionais da educação têm direito a preservar sua
privacidade, a cuidar de si mesmos e a ter uma vida normal.

44
2.Compromissos com os intervenientes

45
2.1.Compromisso com as crianças e jovens

Neste âmbito, constituem os seguintes compromissos:


 Respeitar cada criança, independentemente da sua religião, género, etnia, cultura,
estrato social e situação específica do seu desenvolvimento, numa perspetiva de
inclusão e de igualdade de oportunidades, promovendo e divulgando os direitos
consignados na Convenção Internacional dos Direitos da Criança.
 Encarar as suas funções educativas de modo amplo e integrado, na atenção à
criança na sua globalidade e inserida no seu contexto.
 Responder com qualidade às necessidades educativas das crianças, promovendo
para isso todas as condições que estiverem ao seu alcance.
 Ter expectativas positivas em relação a cada criança, reconhecendo o seu potencial
de desenvolvimento e capacidade de aprendizagem.
 Cuidar da gestão da aproximação e da distância na relação educativa, no respeito
pela individualidade, sentimentos e potencialidades de cada criança e na promoção
da autonomia pessoal de cada uma.
 Promover a aprendizagem e a socialização numa vida de grupo cooperada,
estimulante, lúdica, situada na comunidade e aberta ao mundo.
 Garantir o sigilo profissional, respeitando a privacidade de cada criança.
 Proteger as crianças, contra abuso físico ou psicológico, mobilizando outros agentes
quando necessário.
 Garantir que os interesses das crianças estão acima de interesses pessoais e
institucionais.

46
2.2.Compromisso com as famílias

Neste âmbito, constituem os seguintes compromissos:


 Respeitar as famílias e a sua estrutura, valorizando a sua competência educativa.
 Promover a participação e acolher os contributos das famílias, aceitando-as como
parceiras na Acão educativa.
 Garantir a troca de informações entre a instituição e a família.
 Manter o sigilo relativamente às informações sobre a família, salvo exceções que
ponham em risco a integridade da criança.
 Disponibilizar-se para dar apoio e reunir com a família, no sentido de, em conjunto,
encontrar atitudes e práticas no que respeita à educação de cada criança.
 Assegurar uma isenção que impeça a utilização das famílias em favor de interesses
e/ou cumplicidades pessoais.

47
2.3.Compromisso com a equipa

Neste âmbito, constituem os seguintes compromissos:


 Respeitar os colegas de profissão e colaborar com todos os intervenientes na
equipa educativa, sem discriminações.
 Contribuir para o debate, a inovação e a procura de práticas de qualidade.
 Ser solidário nas decisões tomadas em conjunto e em situações problemáticas.
 Partilhar informações relevantes, dentro dos limites da confidencialidade.
 Apoiar os colegas no seu desenvolvimento profissional.

48
2.4.Compromisso com a entidade empregadora

Neste âmbito, constituem os seguintes compromissos:


 Participar na construção da própria organização social em que está inserido(a)
 Colaborar com a entidade empregadora na prossecução da qualidade do serviço, do
bem-estar da criança e do respeito pelas leis.
 Cumprir com responsabilidade as funções que lhe estão atribuídas.
 Respeitar as normas e regulamentos.
 Contribuir para o bom- nome e credibilidade da instituição.
 Tornar claro quando fala em nome do empregador ou no seu próprio nome.

49
2.5.Compromisso com a comunidade e com a sociedade em geral

Neste âmbito, constituem os seguintes compromissos:


 Conhecer e respeitar as tradições e costumes da comunidade onde a instituição
está inserida.
 Estabelecer relações de cooperação com as diferentes entidades socioeducativas da
comunidade.
 Assumir a sua condição de cidadã(o), agindo de modo informado, responsável e
coerente com o seu estatuto de profissional.
 Situar-se nas políticas públicas educativas, contribuindo para uma educação de
qualidade e para a promoção de práticas de equidade social.
 Implicar-se na valorização da função social e cultural dos profissionais de Educação
de Infância e na construção das condições estruturais que mais a dignifiquem.
 Reequacionar a sua ação de acordo com os desafios emergentes, perspetivando-os
na ecologia da infância.

O compromisso nos domínios da atividade profissional acima enunciados é alicerçado num


modo de pensar e agir pessoal que leva a:
 Procurar uma atitude que tenha em conta valores claramente assumidos e uma
conduta que reúna atenção, respeito e confiança nos outros.
 Cuidar do seu bem-estar físico e psicológico de modo a responder adequadamente
às exigências da profissão.
 Assumir a profissão na procura de uma articulação dialógica entre o eu pessoal e o
eu profissional.
 Cuidar da sua formação contínua e estar disponível para adequar as suas práticas às
exigências de uma profissão que se quer socialmente útil e cientificamente
qualificada.

50
 Trabalhar em equipa, promovendo uma relação de confiança, de cooperação e uma
prática examinada

51
3.Comportamentos e atitudes

52
3.1.Relações interpessoais

A comunicação é um aspeto central da vida de qualquer estrutura residencial. Os seus


membros têm de saber comunicar entre si e com o exterior.

É essencial que o façam de forma eficaz, já que não se podem prestar bem os cuidados
necessários sem conhecer os sentimentos, desejos, necessidades e preocupações das
crianças ou jovens.

Antes da prestação de qualquer cuidado ou da realização de qualquer atividade deve ser


dada informação suficientemente clara sobre o que se vai fazer e qual a participação que
se espera das crianças ou jovens.

No caso de estas recusarem a intervenção, deve-se tentar conhecer a razão da sua atitude
e, se conveniente para ele(a), tentar motivá-lo, sempre com respeito pela sua opção.

A forma mais natural de saber o que pensa, quer ou sente uma criança ou jovem é junto do
próprio. Devemos privilegiá-los enquanto fonte direta de informação.

Ao fazê-lo, respeitando sempre a sua privacidade, não só mostramos interesse por ele,
como lhe damos sinais de que acreditamos na sua capacidade de avaliar e exprimir os seus
problemas e desejos.

Isto reforça a relação de confiança que tem de estar na base do nosso trabalho.

Embora a comunicação possa ocorrer com vários intervenientes ao mesmo tempo, é


importante escutar cada criança ou jovem individualmente. A comunicação deve ser
cultivada.

53
Só vale a pena encorajar as crianças ou jovens a expressarem-se se soubermos escutá-los.
O nosso comportamento ao comunicar influencia o do interlocutor, e vice-versa.

A postura física, o tipo de discurso, a atenção que prestamos, a empatia que transmitimos,
são fatores que vão determinar a informação que conseguimos obter e fazer passar,
podendo estimular o residente a exprimir-se ou, pelo contrário, intimidá-lo e desmotivá-lo.

A linguagem corporal é um elemento essencial do ato de comunicar, porque, quando


correta, transmite atenção, interesse e confiança.

Durante uma conversa, podemos e devemos adotar posturas que facilitem a comunicação:
 Olhar o interlocutor de frente enquanto fala;
 Falar ao nível do olhar: se a criança ou jovem se encontra sentado, sentamo-nos ou
colocamo-nos de cócoras para falar com ele; nunca falar de cima para baixo;
 Adotar uma postura relaxada, levemente inclinada, que ajuda à concentração;
 Mudar de tom de voz de acordo com os sentimentos expressos;
 Usar expressões faciais – sorrir, franzir o sobrolho, fazer cara de espanto – para
reforçar o que se está a dizer, ou a reação ao que se ouve;
 Acenar com a cabeça e dar sinais encorajadores com “sim” ou “hmm”; evitar rufar
dedos, bocejar ou mostrar tédio.

Outro elemento de comunicação é o contacto físico. Um abraço ou uma festinha na mão,


de forma natural, podem exprimir solidariedade e reforçar a relação.

Todavia, é bom não esquecer que nem todas as pessoas aceitam da mesma maneira o
contacto físico. Como se sentiria se alguém que não conhece o tocasse? Ou imagine que a
sua religião só permitia o contacto físico entre parentes próximos? Ou que tinha sofrido
abusos sexuais?

54
Nestes casos, o contacto físico pode inibir a comunicação em vez de ajudá-la. Para usar o
contacto físico na nossa relação com as crianças ou jovens, temos de ter a certeza de que
gozamos da sua permissão para o fazer e sentimos o à-vontade necessário. Devemos usar
palavras e gestos que transmitam respeito, confiança e segurança.

As crianças ou jovens podem ter dificuldade em referir-se a certos assuntos – porque são
dolorosos ou traumáticos, porque causam medo ou vergonha ou por recearem não ser
levados a sério.

Nesse caso, podem esconder o que sentem ou abordar tais assuntos de forma indireta,
através de eufemismos ou alusões.

Para apanhar estas pistas, há que saber ler nas entrelinhas. No entanto, temos de ter muito
cuidado ao fazer esta leitura. As interpretações que fazemos têm de ser prontamente
verificadas com toda a exigência.

É bom não esquecer que o nosso estado de alma também influencia a forma como
percebemos as coisas.

Existem outras fontes para obter informação sobre a criança/ jovem, sobre os seus
problemas, angústias, gostos e preferências. São elas a família, os amigos, outros
profissionais que convivem com ele, porém sempre com respeito pela sua intimidade.

55
3.2.Resolução de conflitos

Conflitos

Numa instituição, como em qualquer comunidade, desencadeiam-se conflitos. São


situações em que comportamentos ou interesses de duas ou mais pessoas colidem,
gerando-se confronto entre as partes.

Os conflitos são um aspeto normal da convivência social, mas há que dar-lhes resolução.
Em cada situação de conflito ou crise há que considerar os antecedentes e as
consequências.

Muitas vezes, os conflitos do dia-a-dia têm origem em mal-entendidos, por falta de


comunicação ou comunicação imperfeita.

Numa instituição é provável que haja pessoas com dificuldades de comunicação como, por
exemplo, imperfeito domínio da língua portuguesa.

A atenção que damos a estas pessoas e o facto de valorizarmos o que dizem e de


correspondermos aos seus esforços de comunicação serve de exemplo às outras crianças
ou jovens. Todos têm o direito de ser ouvidos, mas também o dever de ajudar os outros a
expressarem-se.

Uma boa comunicação dá segurança e diminui os riscos de conflito.

Para além do valor do exemplo que resulta do nosso comportamento – facto que devemos
ter presente – temos muitas vezes de assumir o papel de mediadores de conflitos.

56
A experiência e o tempo vão tornando mais fácil exercer este papel, mas, sempre que não
tivermos formação adequada ou não nos sentirmos à vontade para a usar, devemos
recorrer ao apoio da equipa técnica ou mesmo da direção.

Comportamentos agressivos

Comportamentos agressivos da parte de um dos interlocutores, ou de ambos, também


podem ser uma barreira à comunicação. Eles podem ser físicos – agressão, violência,
autoflagelação – ou verbais – insultos, gritos, palavrões.

São sempre faltas de respeito e, como tal, inadmissíveis, tornando-se indispensável a


procura dos meios para os evitar.

Uma criança ou um jovem podem tornar-se agressivos por diversos motivos:


 Está em fase de revolta com a sua nova situação (adaptação a vida na estrutura
residencial);
 Está em stress porque recebeu más notícias;
 Está tenso devido ao barulho, ou ao seu estado físico ou psíquico;
 Tem a autoestima diminuída por ter perdido a sua independência;
 Está sob medicação ou de tal forma confuso que perdeu o discernimento e controlo
sobre o seu próprio comportamento.

Qualquer pessoa que já tenha perdido o domínio de si sabe como é difícil é parar para
ouvir e pensar de forma racional. Temos pois de saber evitar qualquer escalada que leve à
perda de autocontrolo.

Face a uma situação de descontrolo, há que tentar manter a calma e serenar as pessoas.
Isto pode conseguir-se através de palavras sensatas, linguagem corporal e um tom de voz
que transmita serenidade e segurança.

57
No entanto, se a situação se tornar violenta e insegura, a prioridade deve ser a salvaguarda
das pessoas envolvidas, incluindo o próprio colaborador, sem prejuízo do cuidado
primordial com pessoas em situação de vulnerabilidade, e pedir ajuda.

Não tente resolver sozinho situações destas sem ter a devida experiência. Se ocorrerem,
promova a sua análise na reunião de equipa.

Conflitos que envolvem colaboradores

Mas os conflitos podem surgir também entre as crianças e jovens e os colaboradores, ou


mesmo entre colaboradores.

A falta de pessoal, o excesso de responsabilidade e tarefas distribuídas a cada colaborador,


e a falta de períodos de reflexão e convívio entre as pessoas que compõem a instituição
contribuem em grande medida para um aumento da tensão relacional.

A criação de momentos de reflexão conjunta e lazer pode diminuir o sentimento de mal-


estar e cansaço pelo excesso de trabalho, manifestado por muitos colaboradores da área
social.

Ninguém pode cuidar bem de outro se não cuidar bem de si. Este princípio deve ser
entendido como preventivo de situações de maior dificuldade e com custos mais elevados
para a instituição.

Deve ser preocupação desta a previsão de um sistema de prevenção dessas situações e de


acompanhamento e ajuda aos colaboradores quando ocorrem.

58
3.3.Bem-estar pessoal

É muito importante que tenhamos uma abordagem positiva com as crianças ou jovens.
Devemos encorajá-los a exercer os seus direitos, a tomar as suas próprias decisões, a ser
tão independentes e responsáveis por si mesmos quanto possível, a projetarem-se no
futuro.

Para tal, é essencial respeitá-los enquanto indivíduos, tratá-los de modo justo e afetivo, e
excluir todo e qualquer comportamento discriminatório.

Por vezes é difícil aplicar a abordagem positiva. As melhores decisões são as que contam
com a vontade do próprio. Em casos difíceis, é bom partilhar as dúvidas com a equipa de
trabalho.

Devemos sempre considerar que temos atitudes, ideias, crenças e valores que influenciam
a forma como perspetivamos os problemas dos outros.

Quando prestamos atenção ao que as crianças ou jovens nos contam sobre a sua vida,
ouvimo-las recordar experiências e episódios, relatar os seus êxitos e deceções, exprimir
medos, ansiedades, sofrimentos e alegrias. Podem também revelar-nos os seus desejos e
projetos para o futuro.

Não só por palavras, mas também pelo tom de voz, a linguagem corporal ou a expressão
facial. É nossa função escutá-los e estimulá-los, delicadamente, a acreditar e a lutar pelo
que ambicionam e a confiarem em toda a colaboração possível que nos solicitarem.

A nossa realização profissional enquanto colaboradores de uma estrutura residencial deve


passar também por vermos atingirem os seus objetivos, aqueles a quem prestamos
cuidados.

59
É bom ver que gerem positivamente as suas limitações, se tornam mais autónomos,
capazes e independentes, e que se sentem realizados com as suas novas conquistas.

Quem presta cuidados deve ajudar as crianças ou jovens a acreditar que vale a pena
estabelecer novas metas, e que serão capazes de atingi-las.

60
3.4.Ética do cuidado

Os princípios e valores em que assenta o cuidar do outro ao nível institucional têm a sua
génese nos direitos fundamentais que devem ser promovidos e garantidos a todos os
residentes (crianças ou jovens), famílias, colaboradores, dirigentes, especialistas e todos os
restantes com quem a organização se relacione.

De entre os princípios e valores do cuidar relevam especialmente:

Dignidade

 A dignidade da pessoa humana pelo simples facto de ser pessoa é fundamento de


todos os valores e princípios que constituem substrato dos direitos que lhe são
reconhecidos.
 São de evitar pelos colaboradores da instituição expressões que diminuam uma
pessoa.
 Nunca se deve, por exemplo, falar de alguém na sua presença como se ele ou ela
não estivesse ali.

Respeito

 Quando demonstramos respeito por uma pessoa, estamos a transmitir-lhe apreço


por aquilo que é.
 Significa também que a temos em consideração naquilo que fazemos com ela e
para ela. O respeito tem que estar presente em toda a vida quotidiana de uma
instituição.
 Uma forma importante de respeitar o outro é ter em conta a sua vida passada.

61
Individualidade

 Cada pessoa tem características biológicas e experiências de vida que definem a sua
identidade e a distinguem dos demais. Embora possamos ter muitas características
comuns, encontramos diferentes gostos, crenças, opiniões e atitudes mesmo
dentro da mesma família.
 Quando trabalhamos numa instituição, reconhecer e respeitar a diferença é uma
forma de demonstrar que valorizamos as pessoas com quem nos relacionamos,
embora possamos planear a nossa intervenção de uma forma global, temos de
considerar especificamente para cada criança/ jovem, a sua idade, e fase de
desenvolvimento.
 Reconhecer a individualidade de uma criança ou jovem passa por coisas
aparentemente tão comuns como perguntar-lhe como é quer ser tratado. Pelo
nome? Nome e apelido? E principalmente considerarmos as suas capacidades e
preferências. Ao agir segundo este princípio contribuímos para que as crianças e
jovens se sintam bem na sua pele.

Autonomia

 O respeito pela individualidade implica, necessariamente, o respeito e a promoção


da autonomia da criança ou jovem.
 A instituição não é um local onde se limita a passar os dias, mas sim a sua casa,
onde vive uma fase importante da sua existência.
 A direção e os colaboradores da instituição devem encorajar a criança ou jovem a
ser responsável por si próprio, tanto quanto possível, trabalhando as suas
autonomias e executando ele mesmo todas as tarefas que deseje e que seja capaz.

Capacidade de escolher

62
 É muito importante para o bem-estar emocional e físico das crianças ou jovens
terem oportunidade de fazer escolhas e de tomar decisões. Se assim não for, limita-
se a autonomia violando-se, o princípio do respeito pela pessoa e a sua
autodeterminação.
 A definição de rotinas diárias pode contribuir para o equilíbrio das crianças ou
jovens, no entanto existem sempre decisões que o próprio deve ser encorajado a
tomar, como o que vestir, o que fazer no seu tempo livre entre outras.

Privacidade e intimidade

 A consideração pela criança ou jovem implica o respeito pela sua privacidade e


intimidade.
 Correspondem a necessidades profundas de todas as pessoas, dai que deve haver a
maior preocupação e delicadeza em tudo o que se prende com a privacidade e
intimidade.
 Merece especial atenção a sua garantia em todas as intervenções que respeitem à
sua higiene íntima, às suas relações com os outros, à sua correspondência, às
chamadas telefónicas e a todos os problemas e questões pessoais e familiares.

Confidencialidade

 A criança/ jovem tem direito ao respeito pela confidencialidade de todos os


elementos da sua vida relativo à sua privacidade e intimidade.
 Todos os elementos da instituição – diretores, colaboradores, residentes, familiares
ou amigos – devem respeitar essa confidencialidade, não divulgando nunca
informações sobre a vida íntima e privada da criança/ jovem.
 O cumprimento do dever de confidencialidade é também elemento fundamental
nas relações entre todas as pessoas implicadas na intervenção da instituição.

Igualdade e equidade

63
 Ninguém pode ser privilegiado ou prejudicado em função da idade, do seu sexo,
religião, orientação sexual, cor da pele, opinião política, situação económica,
situação social ou condição de saúde.
 Todas as pessoas têm as preferências, afinidades, simpatias e antipatias, ou ideias
pré-concebidas, mas elas não podem interferir na prestação de cuidados.
 Temos de ter em conta que os preconceitos, ideias ou valores que trazemos
connosco podem manifestar-se na atitude que temos em relação aos demais e
afetar, inevitavelmente, o nosso desempenho humano e profissional. Há que
vencer esses preconceitos e respeitar os princípios da não discriminação.

Participação

 As crianças ou jovens devem poder participar na vida da instituição.


 Deve existir um livro de sugestões e a Direção deve tomar a iniciativa de chamá-los
a dar o seu parecer sobre o regulamento interno.
 Decisões que afetem a comunidade não devem ser tomadas nem implementadas
sem serem antes tornadas públicas e explicadas as crianças e jovens, que devem
poder exprimir-se sobre elas e apresentar sugestões.
 O plano de atividades também deve ser debatido comas crianças/ jovens, que têm
uma palavra a dizer sobre a escolha dos passeios, os destinos de férias e outras
atividades.

64
3.5.Sigilo profissional

O fluxo de informação dentro da instituição é um assunto muito sensível: quem deve ter
acesso a quê? Quem transmite o quê a quem? Que uso se dá à informação obtida? Divulga-
se? Onde, como, a quem?

A privacidade é um valor importante das instituições e um direito de todas as crianças e


jovens. Todos os colaboradores estão obrigados a manter sigilo sobre a informação a que
têm acesso.

Os colaboradores da instituição não devem falar das crianças e jovens e dos seus casos fora
dos espaços devidos. No interior do edifício, nunca devem fazê-lo em locais em que
possam ser ouvidos, bem como no exterior.

Ter, por exemplo, uma conversa à mesa do café sobre assuntos da intimidade desta ou
daquela criança constitui uma quebra ética e deontológica com repercussões graves.

Não se podem revelar pormenores – comprometedores ou não – sobre a vida de uma


pessoa sem a sua autorização explícita. Além da revolta e do stress que isto pode causar,
quebra-se a confiança entre a criança/ jovem e a instituição ou, pelo menos, com o
colaborador que violou o dever de confidencialidade.

A instituição tem de honrar a confiança que a criança/ jovem nela deposita. Algumas regras
básicas ajudam a cumprir esse dever no quotidiano – para todos, crianças, jovens e
profissionais:
 Nunca se deve falar sobre uma criança ou jovem à frente de outras crianças ou
jovens, familiares ou visitantes;
 Devem existir espaços próprios para colaboradores e técnicos debaterem os
problemas dos residentes;

65
 Os processos das crianças ou jovens devem estar guardados num local próprio e de
acesso restrito;
 A informação em suporte informático deve estar protegida com passwords;
 Os colaboradores e técnicos devem ter acesso apenas à informação estritamente
necessária para fazerem o seu trabalho;
 Quando um colaborador terminar a consulta de qualquer documento, deve repô-lo
imediatamente no seu lugar reservado;
 A informação sobre a vida da criança ou jovem antes de chegar à instituição deve
ser reservada, dando-se a conhecer aos colaboradores apenas os dados que possam
exigir uma intervenção a qualquer momento (exemplo: epilepsia, diabetes).

Os limites da confidencialidade

Por vezes é necessário quebrar a confidencialidade, ou seja, pode ser preciso transmitir
informação sobre uma criança ou jovem sem ter a sua autorização expressa.

Constitui uma exceção que só pode acontecer se existirem exigências da salvaguarda da


vida, ou da integridade física da criança ou jovem.

Nestas situações é importante informarmos a criança ou jovem de que a informação que


nos foi veiculada será transmitida a terceiros para sua (ou de outros) proteção.

De salientar que mesmo nos casos em que aos responsáveis da estrutura residencial
compete o exercício dos poderes/deveres parentais necessários à tarefa de
proteção/educação de que estão incumbidos, é necessário o consentimento do jovem com
idade igual ou superior a 14 anos para a sua sujeição a tratamentos.

Relativamente aos poderes/ deveres parentais que não possam considerar-se incluídos nos
acima referidos, deve ser solicitada a intervenção dos pais.

66
3.6.Negligência e maus tratos

Os maus-tratos são ações ou omissões que desrespeitam direitos fundamentais da pessoa.

Para além de possíveis efeitos físicos, é muito elevada a probabilidade de graves


consequências emocionais e psicológicas muito gravosas a curto, médio e longo prazo.

Os maus-tratos são por isso inadmissíveis, quer os mais graves, que constituem crimes,
quer aqueles que, embora não o sendo, afetam seriamente a qualidade de vida da pessoa.

Os maus-tratos fragilizam quem os sofre, podendo comprometer gravemente a


possibilidade de conduzir a vida de forma autónoma e feliz.

Muitas vezes são praticados por pessoas que estão numa posição de autoridade ou
confiança, este facto acentua o sentimento de traição, perda da confiança e,
consequentemente, a gravidade dos efeitos.

Podem ocorrer isoladamente ou de forma repetida, e serem cometidos com


intencionalidade ou por negligência.

Quando os maus-tratos são intencionais, são especialmente censuráveis, nomeadamente


os que implicam ofensas, físicas, psicológicas, sexuais, ou prejuízos patrimoniais.

Quanto aos maus tratos cometidos sem intenção de fazer mal, por ignorância,
incompreensão ou insensibilidade, como, por exemplo, não facilitar o convívio da criança
ou jovem com a família ou pessoas para ele significativas, não dar a atenção devida aos
seus gostos, anseios, sofrimentos, medos, frustrações, descuidar aspetos da intimidade e
da sensibilidade do residente, da sua higiene e conforto, são também inaceitáveis, pela

67
desconsideração, que implicam, de direitos e necessidades fundamentais da pessoa e pelas
consequências nefastas que podem determinar.

Meios de prevenção de maus-tratos e negligência

Deve ser claro para todos que a missão da estrutura residencial é promover a qualidade de
vida das crianças ou jovens, o seu desenvolvimento, a sua saúde, autonomia e
independência, através da oferta de uma estrutura familiar residencial, de metodologias,
informação, conhecimentos e práticas que permitam gerar e desenvolver comportamentos
adequados, assertivos e empáticos, com vista à autonomia e papel da criança e do jovem,
presente e futuro, na sociedade.

O que se pretende é que as crianças e jovens acolhidos possam ter mais escolhas no seu
percurso de vida e mais oportunidades de serem felizes e provocarem felicidade.

Tem de haver uma política de tolerância zero em relação aos maus-tratos com
procedimentos claros de deteção, avaliação e encaminhamento de casos.

Os procedimentos disciplinares e legais em caso de maus-tratos ou negligência devem


estar bem definidos e as crianças e jovens, familiares e colaboradores devem conhecê-los
na íntegra.

É importante que todos sintam que podem denunciar situações de maus-tratos sem risco
de retaliação.

O que fazer em caso de maus-tratos?

As crianças e jovens podem ser maltratados ou negligenciados pelo prestador de cuidados,


pela sua família, por si próprios ou por qualquer pessoa que com eles tenha contacto.

68
Detetar uma dessas situações nem sempre é fácil. Só através de uma avaliação complexa e
interdisciplinar se pode chegar a conclusões seguras. Assim, é importante ter em conta
uma série de indicadores que apontam para a existência de maus-tratos.

Indicadores relativos à criança ou jovem

 Físicos – ferimentos, fraturas, queimaduras, equimoses, golpes ou marcas de dedos,


sinais de ter estado amarrado, medicação excessiva ou insuficiente, má nutrição ou
desidratação sem causa clínica aparente, falta de higiene.
 Comportamentais ou psicológicos – alterações dos hábitos alimentares,
perturbações do sono, medo, confusão, resignação excessiva, apatia, depressão,
desespero, angústia, agressividade, fuga aos contactos físicos, olhar ou
comunicação, tendência para o isolamento.
 Sexuais – alterações do comportamento sexual, alterações bruscas do humor,
agressividade, depressão, automutilação, dores abdominais, hemorragias vaginais
ou rectais, infeções genitais frequentes, equimoses nas regiões mamária ou genital,
roupa interior rasgada ou com manchas, nomeadamente de sangue.
 Financeiros – aumento ou perda repentina de dinheiro ou bens.

Indicadores com base em comportamentos do prestador de cuidados:

 Sinais de cansaço, stress ou desinteresse;


 Recriminação injustificada de comportamentos da criança ou jovem;
 Agressividade, infantilização ou desumanização no trato;
 Tentativa de evitar contactos da criança ou jovem com terceiros;
 Comportamento defensivo, agressivo ou evasivo quando confrontado com a
suspeita de maus-tratos.

69
Se tiver razões para pensar que um colega seu não responde às necessidades de uma ou
mais crianças ou jovens – é rude no trato, grita, desrespeita a privacidade – deve conversar
com ele e posteriormente com o superior hierárquico.

No entanto, não é aconselhável fazer acusações sem ter presenciado uma situação de
maus-tratos ou negligência ou, pelo menos, ter indícios claros da sua existência.

O que fazer se vir um colega a maltratar ou negligenciar uma criança ou jovem

 Tente acalmar o ambiente;


 Peça de forma firme e assertiva que o abusador altere o seu comportamento; não o
trate de forma humilhante nem agressiva, pois isso pode dificultar a situação;
 Se o comportamento do agressor se tornar violento e constituir uma ameaça, a sua
prioridade deve ser proteger-se a si e aos outros do perigo e pedir ajuda.

Em situações de maus-tratos deve-se:

 Comunicar o caso ao superior hierárquico o mais rapidamente possível (se este não
for este o pretenso abusador); o propósito de comunicar um maltrato é proteger as
pessoas de comportamentos abusivos.
 Escrever toda a informação numa folha ou ficha de ocorrência para não se esquecer
de nenhum detalhe e para que este registo possa ser utilizado por outros técnicos
que venham a intervir no caso.

Como avaliar uma situação de maus-tratos?

 Se possível, observar o facto que constitui mau trato.


 Separar as pessoas supostamente envolvidas no caso – vítima, agressor,
testemunhas – além de outros colaboradores e técnicos que possam contribuir para
o apuramento da verdade;

70
 Perguntar diretamente sobre violências, abusos, meios de contenção inadmissíveis
ou eventual negligência;
 Averiguar do relacionamento entre a criança e o jovem e o eventual agressor;
 Fazer uma avaliação detalhada do caso, tendo em conta os elementos clínicos,
funcionais, os indícios de reflexos emocionais, intelectuais e sociais, os sinais de
disfuncionalidade.

Quando os maus-tratos ocorrem fora da estrutura residencial

Os procedimentos a implementar nestas situações são no essencial semelhantes aos


anteriormente referidos. Levantam-se porém, questões específicas delicadas, uma vez que
a estrutura residencial tem mais dificuldades em controlar o que se passa no exterior.

A prevenção assume por isso um papel fulcral. Torna-se indispensável explicar às crianças
ou jovens, sobretudo aos que têm maiores dificuldades de compreensão, quais os
comportamentos inaceitáveis por parte dos outros, como devem proteger-se de situações
de risco, (por exemplo, evitando zonas isoladas ou situações onde está a sós com terceiros)
e o que fazer se tais situações ocorrerem.

Deve também ter-se em especial atenção os riscos de maus-tratos em contexto familiar


(férias, fins-de-semana). Impõe-se que se avaliem, nomeadamente: as características da
família; o grau de consciência, a qualidade do afeto, o sentido de responsabilidade dos
familiares em relação à criança ou jovem; e a sua capacidade de defesa.

Com base nessa avaliação é possível atuar de forma a reduzir o risco e intervir
precocemente na deteção de situações de perigo e agir em conformidade.

71
Bibliografia

AA VV., Carta de Princípios para uma Ética Profissional, Ed. APEI, s/d

AA VV., Creche: manual de processos-chave, Programa de cooperação para o


desenvolvimento da qualidade e segurança das respostas sociais, Ed. Instituto da
Segurança Social, 2005

AA VV., Estratégia do Conselho da Europa sobre os Direitos da Criança (2016-2021), Ed.


Ministério da Educação e Ciência, 2016

AA VV., Lar de Infância e Juventude: manual de processos-chave, Programa de cooperação


para o desenvolvimento da qualidade e segurança das respostas sociais, Ed. Instituto da
Segurança Social, 2005

AA VV. Manual de boas práticas: acolhimento residencial de crianças e jovens, Ed. Instituto
da Segurança social, IP, 2003

AA VV., Pensar formação – Formação de pessoal não-docente (animadores e auxiliares/


assistentes de ação educativa), Ed. Ministério de Educação, 2003

Banks, S., Ética prática para as profissões do trabalho social, Ed. Porto Editora, 2008

Rocha, A., Ética, deontologia e responsabilidade social, Ed. Vida Económica, 2010

Silva, I. (coord.) et al., Orientações Curriculares para a Educação Pré-Escolar, Ed. Ministério
da Educação/ DGE, 2016

72
Sites consultados

APEI – Associação de Profissionais de Educação de infância


http://www.apei.pt/

CPCJ – Comissão Nacional de Promoção dos Direitos e Proteção de crianças e jovens


https://www.cnpdpcj.gov.pt/

IAC – Instituto de Apoio à Criança


http://www.iacrianca.pt/

Segurança Social
http://www.seg-social.pt/

73