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FACULDADES DAMÁSIO

PÓS-GRADUAÇÃO EM DIREITO INTERNACIONAL

O DIREITO INTERNACIONAL NA OBRA “O DIREITO DOS POVOS” DE JOHN


RAWLS
A justiça liberal como elemento norteador do comportamento do Estado nas relações
internacionais

Vinícius Farah Parizi Merege

DOURADOS – MS
2020

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VINICIUS FARAH PARIZI MEREGE

O DIREITO INTERNACIONAL NA OBRA “O DIREITO DOS POVOS” DE JOHN


RAWLS
A justiça liberal como elemento norteador do comportamento do Estado nas relações
internacionais

Trabalho de conclusão de curso apresentado às , como


requisito para o recebimento do título de Especialista em
Direito Internacional.

DOURADOS – MS
2020

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AGRADECIMENTOS

Gostaria de agradecer ao que não compreendo bem, que chamam Deus, que por muitas vezes
me sustentou e trouxe até aqui.

Gostaria de agradecer meu pai, Elias, pelo amor, carinho, apoio e afeto que sempre me devotou.
À minha irmã, Laís, pelo companheirismo, apoio e amor em todos os tempos.
À minha namorada, Débora, pelo amor, afago, cumplicidade e apoio incondicional em todos os
momentos em que nossos caminhos se cruzaram.

Aos meus amigos, perto ou longe, a fraternidade e o companheirismo, e a imensa felicidade


que é compartilhar a vida com vocês.

À minha mãe, Silvia, com amor, por toda minha vida.

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RESUMO

Este trabalho monográfico tem como objetivo apresentar o debate iniciado por John Rawls, em
seu livro “O Direito dos Povos” acerca da possibilidade de aplicação da concepção de justiça
liberal na formulação das normas internacionais e como parâmetro para o comportamento dos
Estados no palco das nações. Dada a especificidade e os conceitos desenvolvidos por John
Rawls, este trabalho monográfico, para além da referida obra “O Direito dos Povos” igualmente
encontrará fundamentação em seus dois outros grandes livros, predecessores, “Uma Teoria da
Justiça” e “Liberalismo Político”.

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ABSTRACT

This monographic work aims to present the debate initiated by John Rawls, in his book "The
Law of the Peoples" about the possibility of applying the concept of liberal justice in the
formulation of international norms and as a parameter for the behavior of States on the stage of
nations . Given the specificity and the concepts developed by John Rawls, this monographic
work, in addition to the referred work "The Law of the Peoples", will also find a foundation in
his two other great books, predecessors, "A Theory of Justice" and "Political Liberalism".

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SUMÁRIO

INTRODUÇÃO ...................................................................................................................Pg.7

CAP.2 – OS PRINCÍPIOS DE JUSTIÇA .......................................................................Pg.19

2.1 – Os Dois Princípios da Justiça como Equidade...........................................................Pg.20


2.2 – As Características da Justiça como Equidade ............................................................Pg.23

CAP3 – OS MÉTODOS DA TEORIA DA JUSTIÇA DE JOHN RAWLS E SUA


APLICAÇÃO PARA A REALIDADE INTERNACIONAL .........................................Pg.26

3.1 – A Posição Original .....................................................................................................Pg.26


3.2 – Véu da Ignorância ......................................................................................................Pg.28
3.3 – A Segunda Posição Original ......................................................................................Pg.29

CAP. 4 - JOHN RAWLS E O DIREITO DOS POVOS .................................................Pg.30

CAP.5 - PRINCÍPIOS DO DIREITO DOS POVOS .....................................................Pg. 32


5.1 - PRINCÍPIO 1 e 3 - “Os Povos são livres e independentes, e a sua liberdade e independência
devem ser respeitadas por outros povos.” e “ Os povos são iguais e são partes em acordos que
os obrigam” ........................................................................................................................Pg.33

5.2 - PRINCÍPIO 2 e 6 - “Os povos devem observar tratados e compromissos.” e “Os Povos
devem honrar os direitos humanos” ...................................................................................Pg.37

5.3 -PRINCÍPIOS 4, 5 e 7 - “Os povos sujeitam-se ao dever de não-intervenção”, “Os povos


tem o direito de autodefesa, mas nenhum direito de instigar a guerra por outras razões que não
a autodefesa”, “Os povos devem observar certas restrições especificadas na conduta da guerra”
....... Pg.42
5.8 - PRINCÍPIO 8 - “Os povos tem o dever de assistir a outros povos vivendo sob condições
desfavoráveis que os impeçam de ter um regime político e social justo ou decente” ...... Pg. 48

CONCLUSÃO...................................................................................................................Pg.55

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1. INTRODUÇÃO

O que é justiça? O que torna uma ação, ou uma pessoa, justa? Existe um conceito de
justiça? Ou são apenas concepções? Existe justiça no Direito? E existe Direito de justiça? É
possível haver uma justiça internacional para os Povos? Essas são perguntas que há muito
tempo, e por múltiplos caminhos, tem suas respostas fundamentadas dentro e fora da filosofia
em geral, e política em específico, por meio de respostas alegóricas (Platão), dialéticas
(Aristóteles), econômicas (Smith), principiológicas (Kant), institucionais (Rawls), jurídicas
(Dworkin) entre outras dimensões. Norberto Bobbio, em seu Dicionário de Política, inicia o
verbete com a seguinte definição:

“Se a Justiça é um conceito normativo, surge agora o problema da possibilidade de a


definir em termos descritivos. A Justiça foi equiparada à legalidade, à imparcialidade,
ao igualitarismo, e à redistribuição do indivíduo segundo seu grau, sua habilidade ou
sua necessidade, etc. Ora, se estas definições fossem aceitáveis, poderíamos partir de
premissas baseadas em fatos para chegar a conclusões normativas. (...) Evidentemente
que estas definições não são aceitáveis. Evidentemente que não podemos ir do “ser”
para o “dever ser” e dos fatos para os valores. Todas as definições de Justiça aqui
apresentadas não são, de fato, definições e sim juízos normativos, sob a capa verbal de
definições, tendo como finalidade geral uma eficácia retórica. Por esse motivo,
afirmações como “a Justiça significa igualitarismo” devem ser interpretadas, não como
uma definição do conceito de Justiça, mas como expressão do princípio normativo de
que as normas igualitárias de distribuição são justas e as não-igualitárias injustas, de
onde se concluiria que apenas as normas do primeiro tipo deveriam ser aprovadas e
aplicadas. A melhor coisa é considerar a Justiça como noção ética fundamental e não
determinada.” (BOBBIO,pg.661, 1986)

O jusfilósofo piemontês apresenta sua definição de justiça através de uma metodologia


analítica, a qual procura analisar os elementos estruturais e substantivos do conceito e não
simplesmente adotar uma via pela qual traçará sua definição. Depreende-se que a Justiça é uma
“noção ética fundamental”, e por não ser “determinada” comporta em seu conceito uma
pluralidade de concepções múltiplas, oriundas de diferentes tradições de pensamento. É sob
esta ótica que inicia-se este trabalho. O objetivo principal da presente monografia é trazer
elementos os fundamentais de apenas uma -- das muitas -- teorias da justiça, a chamada “Justiça
como Equidade”, cujo formulador é o filósofo americano e professor de Harvard, John Rawls.
Para isso será necessária uma introdução do debate sobre a justiça, suas correntes mais
importantes afim de contextualizarmos a discussão, bem como seus respectivos pensadores e

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as reflexões ensejadas no bojo dos debates prementes de seus tempos; a seguir, e ainda na
disposição introdutória, apresentar-se-á um resumo biográfico e bibliográfico de Rawls, afim
de situarmos seu pensamento. No capítulo 2 desenvolver-se-á o conceito próprio da Justiça
como Equidade e seus elementos caracterizadores, para, no capítulo 3, ascender ao processo
abstrativo mais refinado, em que se procurará apresentar a discussão metodológica ensejada
por Rawls para sua Uma Teoria da Justiça. Por fim, a conclusão da presente monografia
sintetiza a sobriedade e atualidade do pensamento rawlsiano, sua presença no debate
contemporâneo, e as reflexões empreendidas hodiernamente na esteira do pensamento sobre a
justiça.

1.1 Algumas Teorias da Justiça

O debate filosófico sobre as reflexões acerca da Justiça contam, seguramente, com


mais de dois mil anos de fundamentações, correntes teóricas, teóricos e elocubrações acerca
dos elementos e da substância dos múltiplos conceitos de justiça. No período helênico, Platão
e Aristóteles descaram-se por uma abundante reflexão no campo da filosofia; e no campo da
Ética, as discussões sobre a justiça adquiriram proeminência em ambos os pensadores.
Entretanto, para a finalidade deste trabalho, posto que a concepção platônica de justiça imbui-
se de elementos exteriores ao foco desta discussão, atentar-nos-emos ao que considera
Aristóteles.
Para o fundador da escola peripatética, o conceito de justiça, desenvolvida na obra
Ética a Nicômaco, contém essência e fundamentalmente uma constituição de virtude:

Essa justiça, portanto, é uma virtude perfeita, mas não por si só, e sim em relação ao
outro. Por isso, muitas vezes a justiça parece ser a mais importante das virtudes, e nem
a estrela da noite, nem aquela da manhã são tão admiráveis. No provérbio, dizemos:
A justiça também compreende toda virtude. Essa é uma virtude sumamente perfeita,
pois seu uso é o de uma virtude perfeita; ou seja, é perfeita, pois quem a possui
também pode servir-se dessa virtude em relação ao outro, e não apenas em relação a
si mesmo; na verdade, muitos, nas próprias coisas, podem servir-se da virtude, mas
não podem servir-se dela nas coisas que concernem a outras pessoas. E por isso,
parece justo o dito de Bias de que “é o cargo que permite conhecer o homem”: de fato,
quem exerce um cargo já se encontra em relação com outras pessoas e participa da
sociedade. Justamente por essa razão, a justiça é a única das virtudes que parece ser
um bem alheio, uma vez que diz respeito aos outros: de fato, ela realizar aquilo que é
útil aos outros, seja aos superiores, seja à sociedade. Sendo assim, é um homem pior
aquele que se torna réu em relação a si mesmo e aos amigos, e enquanto o melhor não
é o que faz uso da virtude em relação a si mesmo, mas sim em relação aos outros: e
isso sim é obra difícil. Portanto, essa justiça não á uma virtude parcial, mas sim uma
virtude completa, e a injustiça que se lhe opõe não á um vício parcial, mas completo.
(ARISTÓTELES, pg.10)

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Aristóteles concebe a justiça como um elemento interior ao homem, um traço de
virtude psicológica, mas que consolida-se apenas na dimensão comportamental e social ou seja,
em relação ao outro. Neste sentido, a concepção aristotélica encontra semelhança com as
disposições de justiça fundamentadas no código Justiniano, do século VI d.c, em que é
concebida a justiça como “A constante e perpétua vontade de prestar a cada um o que lhe é
devido”. Tanto em Aristóteles quanto em Justiniano é possível encontrar quatro características
que permearão os concepções ulteriores de justiça, tai como apresentadas pela Stanford
Encyclopedia of Philosophy: 1) a justiça como uma reivindicação; 2) a justiça como uma
obrigação impositiva; 3) a justiça como imparcialidade e 4) a justiça como agência.
A justiça como reivindicação demonstra que os elementos de justiça são, também, uma
questão de como os indivíduos são tratados; o que para, apenas para ficarmos adstritos às duas
referências já mencionadas, Justiniano é presentada na fala “a cada um o que lhe é devido” e
em Aristóteles “um bem alheio, uma vez que diz respeito aos outros”. Conforme preceitua a
Encyclopedia, “Issues of justice arise in circunstances in which people can advance claims – to
freedom, opportunities, resources, and so forth – that are potentially conflicting, and we appeal
to justice to resolve such conflicts by determing what each person is properly entitled to have.”
A justiça como obrigação é uma consequência da dimensão reivindicativa da justiça.
Posto que se a cada um é justo o que lhe é devido, isso também significa que a justiça é um
obrigação tanto ao aplicador da justiça quanto ao receptor dela.

Second, Justinian’s definition underlines that just treatment is somenthing due to each
person, in other words that justice is a matter of claims that can be rightfully made
against the agent dispensing justice, whether a person or an institution. (…) This also
means that justice is a matter of obligation for the agent dispensing it, and that the
agent wrongs the recipient if the latter is denied what is due to her. It is a characteristic
mark of justice that the obligations it creates should be enforceable.

Na justiça como imparcialidade o elemento principal, e que permeia todas as


concepções de justiça, é a distinção existente entre justiça e arbitrariedade. A imparcialidade
encontra-se no elemento da frase de Justiniano “vontade constante e perpétua” que simboliza a
estabilidade e objetividade do referencial de justiça. A imparcialidade é exercida, por exemplo,

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pelo papel que deve desempenhar o juiz na condução e análise das litispendências, e
consubstanciado no papel do Direito e das leis na regulação da administração pública1.
Por fim, um quarto elemento que permeia as concepções de justiça, é o papel que um
Agente tem no emprego e na manutenção da justiça. A justiça é portanto, um elemento externo
e uma característica de mitigação de conflitos. Não parte ontológica dos fatos, a não ser que se
parta do pressuposto de uma vontade extranatural para as consequências e fenômenos dos
elementos naturais. Conforme a enciclopédia Stanford bem preceitua

The definition reminds us that justice requires an agente whose will alters the
circunstances of its objects. The agent might be an individual person, or it might be a
group of people, or an institution such as the state. So we cannot, except
metaphorically, describe as unjust states of affairs that no agent has contributed to
bringing about – unless we think that there is a Divine Being who has ordered the
universe in such a way that every outcome is a manifestation of His will. Admittedly
we are tempted to make judgements of what is sometimes called ‘cosmic injustice’ –
say when a talented person’s life is cut cruelly short by cancer, or our favourite
football team is eliminated from the competition by a freak goal – but this is a
temptation we should resist. To say that for injustice or injustice to occur, there must
be some agent who has acted in a certain way, or produced some outcome, is less
restrictive than might at first appear. For agents can create injustice by omission. It is
not unjust – though it is undoubtedly regrettable – that some children are born with a
cleft lip. But it may well be unjust, once remedial surgery becomes feasible, to deny
this to children whose lives would otherwise be blighted by the condition.

Deste último aspecto da justiça é interessante notar que o conceito tomado como um
elemento de caráter social, no sentido de que é apenas o que se faz de algo, para restaurá-lo ou
alterá-lo que se percebe o papel da justiça. A justiça é uma dimensão institucional no sentido
literal do termo, um instituto, e por seu caráter, destinado à sociedade e ao indivíduo e só
existente em função deles mesmos. É nesse sentido em insere-se a corrente teórica a seguir. Até
aqui presentou-se duas visões sobre a justiça, de demonstram certa similaridade em suas

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Outra designação que corresponde à vertente da imparcialidade é a concepção de justiça formal, basilar para a
estrutura de legitimidade que o processo, tanto de direto público quanto de direito privado, confere nas relações
jurídicas e na estruturação normativa de uma sociedade. Norberto Bobbio, em seu Dicionário de Política, infere
que, na justiça formal, “as ações legítimas são ações justas no sentido restrito de que elas se adequam a um certo
sistema preexistente de leis positivas. Dado um determinado sistema deste tipo, uma ação é justa quando é exigida
ou permitida pelas normas, e injusta, se proibida pelas mesmas. (...) A justiça formal exclui a arbitrariedade e exige
a previsão não apenas nas decisões judiciárias mas também no exercício de autoridade política: “governo de leis e
não de homens”. As próprias normas jurídicas podem ser justas ou injustas no sentido formal. O único critério
capaz de as distinguir é o de determinar se elas foram postas em vigor segundo as normas de competência do
sistema jurídico em si, como é o caso, por exemplo, quando se trata de normas constitucionais.” (pg.663)

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concepções. Entretanto, as correntes teóricas são múltiplas ao tratar da temática da justiça e
assim, inicia-se pela primeira corrente compreendida como Justiça Comutativa.
A justiça comutativa, é caracterizada, conforme seu desígnio próprio, pelo
estabelecimento de relações bilaterais justas, em uma correlação de troca entre os sujeitos dos
que lhes é devido2. Nesse sentido, a justiça comutativa estabelece-se sob a influência direta de
Aristóteles e Justiniano.

Essa forma de justiça, também chamada sinalagmática ou bilateral, é justiça em


sentido rigoroso que inclina o agente a atribuir ao outro o que é dele, segundo o seu
direito, observada igualdade aritmética. Tal igualdade de quantidade tem de existir
entre salário e trabalho, entre dano e indenização, entre mercadoria e preço. Verifica-
se o primado da coisa sem considerar a diversa qualidade das pessoas. A adequação
que essa justiça postula requer o cumprimento de três exigências: (a) que tenha
alteridade; (b) que a coisa dada ao outro lhe seja devida, isto é, que o outro tenha
direito à coisa ou à prestação; (c) que se dê ao outro precisamente o que lhe é devido,
tanto quanto é devido. Pelo fato de que as três exigências só ocorrerem de modo estrito
nessa forma de justiça, ela é a única a postular, quando lesada, restituição ou
indenização, até a perfeita igualdade das prestações. A justiça comutativa regula as
relações entre, no mínimo, duas pessoas, na vida privada.”(BARRETO, pg.278, 2010)

Nos elementos de justiça penal, a justiça comutativa é igualmente compreendia como


justiça corretiva, na qual a justiça da relação mútua de troca esta na restituição do bem devido
àquele sujeito que teve a condição de seu bem alterada. Existe uma correção, bilateral, entre
vítima e infrator de uma norma de justiça, positivada ou não. “Corretive justice, then, essentially
concerns a bileteral relationship between a wrongdoer and his victim, and demands that the
fault be cancelled by restoring the victim to the position she would have been in had the
wrongful behaviour not occured” (MILLER, 2007).
À justiça comutativa, em que o foco recai-se sobre a restituição de relação justa entre
indivíduos e um determinado bem, contrapõem a escola de pensamento fundamentada na
distribuição dos bens aos indivíduos, a teoria da justiça distributiva3. Por ser a esta escola, no

2
A justiça comutativa é igualmente caracterizada como justiça reparadora, “em que a relação de justiça esta ligada
especificamente a situações em que uma pessoa, ao receber uma ofensa de outra, pede a consequente reparação.
As normas de justiça reparadora é ainda subdividia em normas de justiça compensativa e normas de justiça
corretiva. As normas de justiça compensativa referem-se a negócios privados e voluntários e tem como escopo
reabilitar o equilíbrio alabado mediante compensação para a parte ofendida, e justiça corretiva, em que inflige uma
punição ao culpado.” (BOBBIO, pg. 662,1986)
3
A justiça distributiva é um ramo da categoria maior de justiça social. Vicente de Paulo Barreto, no Dicionário de
Filosofia Política, explica esta como “expressão que não se aplica à justiça em todas as relações por ela
superintendidas, mas tão-só às compreendidas no que se denominou de questão social, às que envolviam repartição
das riquezas produzidas pelo homem, às relações entre capital e trabalho, salário justo, a difusão da propriedade,
a luta contra o desemprego, a seguridade social, o desenvolvimento integral do ser humano. Há boas razões para
entender que se trata não de uma nova forma de justiça, mas de um novo nome para a velha justiça geral, para as
questões de natureza social.” (pg.279)

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campo da ética, que John Rawls esta relacionado, nos atentaremos um pouco mais
pormenorizadamente à compreensão desta escola.
A justiça distributiva, embora possa-se regressar a uma tradição aristotélica afim de
procurar suas raízes, como existe nos moldes atuais, foi concebida há 200 anos4. “Até muito
recentemente, as pessoas não reconheciam que a estrutura básica da distribuição de recursos
em suas sociedades era uma questão de justiça, e tampouco consideravam que a justiça deveria
exigir uma distribuição de recursos que satisfizesse as necessidades de todos.”
(FLEISCHAKER, 2006)
Conceitualmente a justiça distributiva caracteriza-se pelo modo pelo qual o Estado
distribui os bens e deveres , sociais, econômicos, jurídicos, políticos, culturais, de maneira
equitativa entre seus concidadãos. Lamont e Chisti acentuam que

The economic, political, and social frameworks that each society has—its laws,
institutions, policies, etc. —result in different distributions of benefits and burdens
across members of the society. These frameworks are the result of human political
processes and they constantly change both across societies and within societies over
time. The structure of these frameworks is important because the distributions of
benefits and burdens resulting from them fundamentally affect people’s lives.
Arguments about which frameworks and/or resulting distributions are morally
preferable constitute the topic of distributive justice. Principles of distributive justice
are therefore best thought of as providing moral guidance for the political processes
and structures that affect the distribution of benefits and burdens in societies, and any
principles which do offer this kind of moral guidance on distribution, regardless of
the terminology they employ, should be considered principles of distributive justice.

Percebe-se, pela análise do excerto, que a justiça distributiva justifica-se, dentre outras
fundamentações, pela influência que a estrutura e a substância econômica, social e política de
determinada ordem estatal tem sobre a expectativa de vida dos indivíduos. O agente essencial
da justiça distributiva é o Estado. Segundo essa concepção, não cabe julgar se fatos são justos
ou não. Isso é irrelevante, posto que acontecimento não oriundos de um agente são dados
ontológicos. O que importa, para a justiça distributiva, é o que é feito a partir do fato. Por
exemplo: a existência de crianças que nascem com lábio leporino (fenda palatina) é um fato –
não cabe discutir, a não ser que responsabilize uma força extranatural pela ocorrência do evento,

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“Em seu sentido aristotélico a “justiça distributiva” exigia que as pessoas merecedoras fossem recompensadas
de acordo com seus méritos, era vista como primariamente implicando a distribuição de status político, e não era
vista como tendo relevância alguma aos direitos de propriedade. Então, ao menos em primeira vista, os significados
contemporâneo e antigo da expressão são muito diferentes. Acima da tudo, o princípio antigo estava relacionado
à distribuição de acordo com o mérito, ao passo que o princípio moderno requer distribuição independentemente
do mérito. Na concepção moderna supõem-se que todos mereçam determinados bens independentemente do
mérito; não se supõe que considerações de mérito entrem em cena até que determinados recursos básicos
(habitação, assistência à saúde, educação) tenham sido distribuídos a todos.”(FLEISCHAKER, 2006, pg.9)

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se há justiça ou não; agora, à partir da realidade, crianças nascem com lábio leporino, políticas
de saúde, com tratamento cirúrgico, ações de inclusão em tratamentos fonoaudiológicos e
pesquisas científicas para encontrar as possíveis causas do problema, são elementos normativos
institucionais fortes. Ou seja, são causas de justiça.
Entretanto, liberais e socialistas criticam a concepção de justiça distributiva, mas de
maneiras distintas. Para esses, a justiça distributiva seria um ideal a ser realcançado, posto que
com o advento do capitalismo, perdeu-se a estrutura que sustentava a realidade equaninime da
socidade. Nada mais utópico. Por outro lado, e igualmente os liberais criticam a justiça
distributiva pela crença dogmática de que é o mercado quem deveria regular a distribuição de
bens. Essas duas críticas são verificáveis no seguinte excerto de Fleischaker

“Essa história satisfaz as inclinações dialéticas de muitos socialistas, assim como sua
antipatia pela atitude cautelosa e pelo realismos insensível da ciência social do século
XVIII. Ela também se ajusta, por um lado, aos fatos relativos aos ensinamentos
cristãos, e por outro lado à impiedosa severidade da Revolução Industrial, e se ajusta
suficientemente bem para parecer convincente. Mas esta radicalmente equivocada de
muitas maneiras, sobretudo no que se refere à sua inclinação nostálgica pelas atitudes
pré-modernas com relação aos pobres. Essa nostalgia deriva, acredito, de um anseio
por reconhecer no capitalismo moderno uma reviravolta equivocada na história
humana e de sustentar que uma natureza humana e uma concepção de natureza
humana mais benévolas e amáveis haviam existido antes do capitalismo, e que, por
isso, podem voltar a ser realidade.” (pg.6)
Caso se pudesse mostrar que um conjunto de concepções morais corruptas – por
exemplo, sobre o papel do egoísmo na vida humana – e não somente uma
compreensão astuciosa da maneira como a economia funciona, está por trás do tão
aclamado realismo dos economistas políticos clássicos, então seria possível despir as
propostas políticas desses economistas do manto científico que as recobre.” (pg.7)
“Dessa forma, os socialistas tem razões ideológicas para projetar a história da justiça
distributiva ao passado distante. Mas os ideólogos do laissez-faire, por razões
ideológicas opostas, subscrevem com frequência uma interpretação quase idêntica
dessa história. Os defensores de mercados livres gostam de ver a si próprios como
orgulhosos modernistas, que se distanciam das superstições e do pensamento confuso
do passado graças ao advento da ciência. Ajusta-se bem a essa visão de si próprios a
adoção do supostamente frio realismo científico do século XVIII, mesmo quando os
socialistas o rejeitam. Poder-se-ia dizer que Hume e Smith, ao se libertarem das tolas
noções de “preço justo” da Idade Média, tornaram possível a economia moderna. Por
isso, os ideólogos do laissez-faire aceitam de boa-mente que esses pensadores fizeram
algo de novo ao rejeitar uma noção antiga de justiça distributiva. Em vez de condená-
la, os ideólogos simplesmente deram boas-vindas a essa rejeição.” (pg. 7)
Quero ressaltar o fato de que a história que entre nessas duas concepções é confusa.
Os cientistas sociais do século XVIII não rejeitaram a “justiça distributiva” no sentido
em que hoje empregamos essa expressão, pois tal conceito ainda não existia. Uma vez
que reconheçamos esse fato, seremos capazes de perceber que, longe de terem sido
amoralistas frios que se compraziam com um realismo que excluía a ajuda estatal aos
pobres, eles na verdade contribuíram para estabelecer as bases que possibilitariam
essa ajuda.” (FLEISCHAKER, 2006)

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Sinteticamente o autor resume a justiça distributiva nos seguintes termos:
1) Cada indivíduo, e não somente sociedades ou espécie humana como um todo, tem
um bem que merece respeito, e aos indivíduos são devidos certos direitos e
proteções com vistas à busca daquele bem;
2) Alguma parcela de bens materiais faz parte do que é devido a cada indivíduo, parte
dos direitos e proteções que todos merecem;
3) O fato de que cada indivíduo mereça isso pode ser justificado racionalmente, em
termos puramente seculares;
4) A distribuição dessa parcela de bens é praticável: tentar conscientemente realizar
essa tarefa não é um projeto absurdo nem é algo que, como ocorreria caso se
tentasse tornar a amizade algo compulsório, solaparia o próprio objetivo que se
tenta alcançar e;
5) Compete ao Estado, e não somente a indivíduos ou organizações privadas, garantir
que tal distribuição seja realizada.

Por último falaremos da teoria utilitarista, que propriamente não é uma teoria da
justiça, mas parte de uma teoria política maior que influenciou uma miríde de pensadores, de
Kant a Dworkin, e que tem em David Hume, Jeremy Bentham e John Stuar Mill seus
precursores.
O utilitarismo baseia-se na premissa de que “a justificativa de uma ação moral depende
exclusivamente da sua utilidade, ou seja, do valor das consequências a ele conexas.”(BOBBIO,
pg.1275, 1986). Mas a contribuição do utilitarismo vai além mera utilidade das consequências
das ações.

Quando apresentado pelo filósofo inglês Jeremy Bentham (174801832) no final do


século XVIII, o utilitarismo constituía-se em uma doutrina filosófica impressionante
– ou mesmo radical. Ela colocava de lado toda e qualquer referência à vontade divina,
aos interesses da sociedade, aos costumes e tradições, à lei da natureza etc. No lugar
disso tudo, a doutrina apregoava o que se pensava ser o procedimento diretamente
racional e científico de simplesmente media a felicidade de cada indivíduo e depois
calcular a felicidade da população como um todo. (...) Outra característica notável e,
de fato, potencialmente revolucionária, do utilitarismo foi sua insistência em
considerar a felicidade de todas as pessoas exatamente da mesma maneira: a felicidade
dos reis e dos nobres não importa mais, ou menos, do que a felicidade dos
comerciantes ou dos camponeses, a felicidade dos ingleses não difere da felicidade
dos franceses. Assim, o discípulo mais importante e influente de Bentham, John Stuart
Mill, argumentava que, pelo fato de a felicidade dos homens não dever ter maior peso
do que a felicidade das mulheres, muitas das desigualdades sociais e legais entre os

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sexos deveriam ser eliminadas. Para muitas pessoas dos séculos XVIII e XIX, era
difícil engolir essas ideias. (LOVETT, pg.12, 2011)

No entanto alguns obstáculos podem ser deduzidos à partir das premissas apregoadas
pelas correntes utilitárias
1º A justiça tem a ver com a tangibilidade dos benefícios e os encargos que lhes são
intrinsicamente inerentes, e não com a experiência em si de felicidade entre os sujeitos;
2º O utilitarismo julga os resultados apenas em termos do nível de sua utilidade total
e não preocupa-se em como a possível utilidade de uma decisão ou ação será distribuída pela
sociedade e;
3º As regras da sociedade, então, seriam avaliadas simplesmente por sua utilidade e
não pelos seus propósitos próprios e suas propriedades intrínsecas.
Dessa reflexão é possível problematizar um pouco mais: a partir da premissa
utilitarista as considerações que devem ser levadas a cabo e julgadas como eficientes ou não
seriam aquelas que ensejassem mais a felicidade (utilidade) da população; assim, por essa
premissa, se à todos fosse elevado o nível de felicidade, estaria justificada, por exemplo, a volta
do instituto da escravidão. Pode parecer simples, a primeira vista, mas as consequências
advindas da utilização do utilitarismo do debate filosófico, político, econômico e jurídico, levou
muitos pensadores a refletirem sobre o papel que a justiça teoria das relações sociais e na
sociedade como um todo. E é aqui que Rawls construiu sua maior contribuição para a o debate
contemporâneo sobre a justiça.

1.2 John Rawls, sua obra e seus conceitos

1.2.1 Biografia

John Bordley Rawls nasceu em 1921 em Baltimore. Quarto filho de William Lee
Rawls, advogado de prestígio em Baltimore e Anna Abell Rawls, herdeira da tradicional
família Stump, Rawls foi diretamente influenciado pela atuação pública de seus pais, com
destaque para o papel que sua mãe desempenhou junto à Liga de Eleitoras de Baltimore.
Durante o período de sua infância, Rawls estudou por seus sete primeiros anos na
escolha Calvert, em Baltimore, transferindo-se para a escola Kent, de matriz episcopal. Após

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as provas preliminares, John Rawls foi aceito na prestigiada Universidade de Princeton, onde
graduou-se em 1943 em Filosofia com summa cum laude.
Durante seu período, ainda na graduação, Rawls inclinou-se pelos estudos teológicos,
inclusive com sua monografia versando nesta área, e até considerou o aprofundamentos desses
estudos e possível sacerdócio episcopal, mas durante os estudos finais da graduação,
influenciado fortemente por Norman Malcom, aluno de Wittegenstein, manteve-se adstrito à
filosofia.
Após sua graduação em Princeton, Rawls alista-se no exército e, por dois anos, serviu
em uma unidade de reconhecimento e inteligência, no Pacífico, durante a Segunda Guerra
Mundial, e obteve, pelos serviços prestados nos esforços de guerra, estrela de bronze do exército
norte-americano.
No ano de 1950, Rawls é admitido como aluno de doutorado em Princeton, e no biênio
1952-1953, estende seus estudos para a Universidade de Oxford, Inglaterra, em função de
ganho de uma bolsa de estudos da Fullbright. Em Oxford, Rawls entra em contato com filósofos
e pensadores relevantes de sua época, a mencionar, H.L.A. Hart, Isiah Berlin, R. M. Rare, entre
outros. Após retornar, é admitido, em 1962, como professor efetivo de filosofia na Universidade
de Cornell, e posteriormente, no Instituto Tecnológico de Massachussets, MIT. No mesmo ano,
é admitido na Universidade de Harvard, onde lecionaria por 40 anos assumindo a cadeira James
Bryant Conant de filosofia5.
John Rawls morreu em casa, em 24 de novembro de 2002, em Lexington, deixando
esposa, Margaret Warfield Fox e quatro filhos.

1.2.2 Obras e conceitos

A obra de Rawls é constituída de três livros principais. No primeiro, intitulado Uma


Teoria da Justiça, e objeto desta monografia, o filósofo foca na justiça distributiva, através de

5
“A carreira de Rawls estendeu-se por um período especialmente agitado, tanto na história intelectual da filosofia
política e moral, quanto na história política e social dos Estados Unidos. O contexto filosófico da obra de Rawls,
(...) vale destacar, teve seu campo de interesse – filosofia moral e política – considerado, já havia algum tempo,
como um campo em declínio, eclipsado (acreditava-se então) por outras áreas mais produtivas da pesquisa
filosófica. Foi somente nos anos de 1950 que essa tendência mudou, e o próprio Rawls, com efeito, recebe
frequente e retrospectivamente, crédito por ter, sozinho, feito reviver o tema da filosofia política como um campo
de estudos respeitável e produtivo. Embora esse raciocínio encerre certa simplificação, é realmente difícil deixar
de enfatizar a profunda influência de Rawls sobre as gerações posteriores de filósofos e teóricos políticos. Mesmo
que suas ideias não contem com um apoio unânime (algo que acontece com frequência), os termos do debate e a
linguagem empregada derivam, em geral, de suas ideias. Não é, então, exagero algum dizer que a disciplina de
filosofia política, hoje, deve muito, em sua forma e em sua particularidade, a John Rawls.” (LOVETT, 2011,pg.10)

16
sua Justiça como Equidade, em que tenta conciliar as reivindicações de liberdade e igualdade
em uma sociedade. Em sua segunda obra, intitulada Liberalismo Político, Rawls enfrenta a
questão de como os cidadãos, que são divididos por desacordos filosóficos, religiosos, culturais,
econômicos, etc, podem endossar um regime constitucional democrático. Em seu último livro,
O Direito dos Povos, Rawls amplia suas premissas desenvolvidas em suas duas obras anteriores
para a conformação de uma concepção global de justiça, a qual veremos no capítulo 5.
No livro Uma Teoria da Justiça6, John Rawls, já em seu prefácio, esclarece seu
objetivo com a escrita de sua obra

“Ao apresentar Uma Teoria da Justiça, tentei reunir em uma visão coerente as ideias
expressas nos trabalhos que redigi nos últimos doze anos. (...) Talvez eu consiga
explicar melhor meu objetivo neste livro da seguinte maneira: em grande parte da
filosofia moral moderna, a teoria sistemática predominantes tem sido de alguma forma
o utilitarismo. Um dos motivos disso é que o utilitarismo foi adotado por uma longa
linhagem de autores brilhantes que elaboraram uma doutrina impressionante em
alcance e requinte. (...) Tentei generalizar e elevar a uma ordem mais alta de abstração
a teoria tradicional do contrato social tal como formulada por Locke, Rousseau e Kant.
(...) A teoria resultante é de natureza fortemente kantiana. Na verdade, não tenho
pretensões à originalidade nas teses que apresento. As principais ideias são clássicas
e bem conhecidas. Minha intenção foi organizá-las em uma estrutura geral, recorrendo
a ferramentas simplificadoras para que se possa perceber toda sua força. A minha
inspiração ao escrever este livro se realizará completamente se ele oferecer ao leitor
uma compreensão mais clara das principais características estruturais da concepção
alternativa de justiça que esta implícita na tradição contratualista e indicar o caminho
para uma elaboração mais pormenorizada.” (RAWLS, XLV, 2008)

A intensão de Rawls, desde o início de sua obra, que conta com mais de 600 páginas,
é a proposição e análise de princípios que poderiam levar uma sociedade a ser livre e justa. Em
função disso Rawls da proeminência ao conceito de justiça ao ponto de iniciar sua magna opus
com o seguinte excerto

“A justiça é a virtude primeira das instituições sociais, assim como o é a verdade dos
sistemas de pensamento. Por mais elegante e econômica que seja, deve-se rejeitar ou
retificar a teoria que não seja verdadeira; da mesma maneira que as leis e as
instituições, por mais eficientes e bem organizadas que sejam, devem ser
reformuladas ou abolidas se forem injustas.” (RAWLS, pg. 4, 2008)

6
“Karl Popper definiu Uma Teoria da Justiça de John Rawls como “um livro importantíssimo, sob muitos
aspectos” e apreciou muito a ideia de Rawls segundo a qual um projeto de vida “que caracteriza as intenções e
finalidades que fazem de um homem ‘uma pessoa moral unificada, consicente”. Por sua vez, justamente Robert
Nozick escreveu que Uma Teoria da Justiça “é uma fonte de ideia iluminadoras, fundidas num conjunto prazeroso.
Agora os filósofos devem trabalhar dentro da teoria de Rawls, ou explicar porque não o fazem [...] Também quem
não ficar convencido pelo choque com a visão sistemática de Rawls aprenderá muito estudando-o profundamente.”
Essas coisas, ditas por seu mais temível adversário, constituem o melhor elogia a obra de Rawls.” (DARIO e
ANTISERI, pg.1167, 2018)

17
É possível analisar, pelo excerto, a constituição essencial da teoria da justiça rawsiana;
trata-se de uma teoria voltada às instituições que governam a sociedade. Entretanto, o que
confere justiça à sociedade?
Para responder à essa pergunta Rawls, obedece a uma sequencia de raciocínios que
partem da tradição contratualista, em um momento prévio a consubstanciação social para a
conformação de uma sociedade justa posteriormente. Especificamente, as ideias e pressupostos
as quais a teoria da justiça rawlsiana é vinculada obedece aos seguintes conceitos: “sociedade
como um sistema justo de cooperação social”, a ideia de “sociedade bem ordenada e “estrutura
básica da sociedade.
Progrebinschi e Teris, brilhantemente explicam esses conceitos na obra Teoria
Política Contemporânea deste modo

“A sociedade como um sistema justo de cooperação social (...) dá estrutura e organiza


a justiça como equidade. A cooperação social guia-se por regras e procedimentos
publicamente reconhecidos e aceitos, por aqueles que cooperam, como sendo
apropriados para regular a sua conduta. Diz-se que a cooperação é justa porque seus
termos são tais que todos os participantes podem razoavelmente aceitar desde que
todos os demais os aceitem. (...) Há aqui, portanto, a presunção de reciprocidade e
mutualidade. Os termos da cooperação social são dados pelos princípios de justiça.
Estes especificam os direitos básicos e os deveres que são determinados pelas
instituições sociais e políticas, bem como regulam a divisão de benefícios que
resultam da cooperação social e impõem os ônus necessários para mantê-los.
(...)
Uma sociedade bem ordenada é aquela regulada por uma concepção de justiça, a
despeito de qual seja essa concepção (...) A sociedade é bem ordenada porque enla
todos aceitam (e sabem que os demais também aceitam) a mesma concepção de
justiça, isto é, os mesmos princípios de justiça. Em outras palavras, quando a estrutura
básica da sociedade satisfaz os princípios de justiça, pode-se dizer que a mesma é bem
ordenada. Os cidadãos que vivem em uma sociedade bem ordenada tem um senso de
justiça que lhes possibilita compreender e aplicar os princípios de justiça, além de agir
em conformidade com eles.
“(...) a estrutura básica da sociedade consiste no modo pelo qual as principais
instituições políticas e sociais (por exemplo, constituição, judiciário, mercado, direito
de propriedade etc.) se encaixam em um sistema de cooperação social. Além disso,
trata-se a estrutura básica do modo pelo qual as instituições conferem direitos e
deveres básicos aos indivíduos, além de regular as vantagens que decorrem da
cooperação social. A estrutura básica funciona, assim, como um plano de fundo no
qual as atividades dos indivíduos, além de regular as vantagens que decorrem da
cooperação social. A estrutura funciona, assim, com um plano de fundo no qual as
atividades dos indivíduos e das associações se exercem. É importante frisar que a
justiça como equidade se aplica às instituições da estrutura básica, e não aos
indivíduos. Estes são afetados apenas indiretamente. Os princípios de justiça também
não regulam internamente as instituições da sociedade que não compõem a estrutura
básica. (...) Pode-se dizer, portanto, que o sujeito da concepção de justiça rawlsiana é
a estrutura básica da sociedade, e não os indivíduos.” (PROGREBINSCHI, pg.13,
2010)

18
Percebe-se o encadeamento lógico. A sociedade como um sistema de cooperação
social já adstringe a teoria da justiça. Rawls não esta interessado em construir um modelo
teórico que valha para todas as sociedade indistintamente, mas para aquelas que são
caracterizadas pelo valor cooperação das relações. Esse valor cooperativo, por sua vez, é
conformada pelas concepções de justiça acordadas entre os cidadãos em um momento anterior,
contratual. Essa cooperação leva a constituição de uma sociedade bem ordenada, que em seu
turno detém uma estrutura básica coerente, formada por instituições que levam, primeiramente,
em consideração os princípios de justiça acordados entre os sujeitos sociais. Mas que princípios
são esses?
Rawls, no resgate da concepção contratualista, desenvolve sua teoria afim de enfrentar
o desafio e de qual justiça seria viável, e escolhida, para uma sociedade livre, em que os
cidadãos seriam racionais e cooperativos. Para esse desafio, Rawls embora dois princípios de
justiça que, como mencionado, valem para a estruturar basicamente a sociedade. Esses dois
princípios são o que Rawls chamou de Justiça como Equidade.
Para se compreender essa estrutura teórica, Rawls vale-se da ideia contratual de que
os cidadãos, na posição original. Vale ressaltar, que por toda a obra, Rawls tem ciente que a
ideia constratualista de posição original trata-se de uma situação hipotética e não histórica. No
momento da posição original, os sujeitos estariam todos sob um véu da ignorância que os faria
escolher princípios de justiça universais e equânimes, que regulariam as estruturas básicas de
sociedade em que viveriam, e por conseguinte, conformariam essa sociedade em uma estrutura
justa e ordenada.
Quais são as características desses princípios de justiça, o que é a posição original, e o
véu da ignorância, qual a segunda posição original, o que é o Direito dos Povos e seus
princípios, serão desenvolvidos a seguir.

2. OS PRINCÍPIOS DE JUSTIÇA

A justiça social, compreendida na versão Rawlsiana como Justiça como Equidade. A


Justiça como Equidade tem a finalidade de promover um fundamento moral e filosófico que
seja acordado e anuído para as instituições com base democrática, e dessa forma dirimir
conflitos existentes entre reivindicações de liberdade e de igualdade. A fundação moral adiviria

19
de ideais cognoscíveis que estariam presentes na cultura política de sociedades democráticas e
nos fundamentos hermenêuticos tradicionais de seus ordenamentos normativos (constituição,
leis, etc). Nesse sentido a concepção de Justiça como Equidade sintetiza uma concepção política
de justiça, a qual Rawls denominará de Liberalismo Político.
A questão fundamental, debatida por Rawls relaciona-se à aplicação à estrutura básica
da sociedade da Justiça como Equidade, através de seus princípios. Essa aplicação visa
organizar as instituições principais da sociedade, para que estas possam, com equidade,
distribuir direitos e deveres fundamentais e determinar a divisão das vantagens provenientes da
cooperação social. A preocupação então é a determinação de uma constituição justa à
sociedade, assim como a distribuição de bens sociais equitativamente. (SCHWARTZ,pg. 280,
2017)

2.1 Os Dois Princípios da Justiça como Equidade

John Rawls, ao estipular uma “posição original” como momento hipotético para
celebração de um contrato entre as partes, preceitua que o objeto deste contrato são os dois
princípios de justiça. O que move a escolha dos indivíduos, na posição original, é
essencialmente a proteção contra a possibilidade de, no futuro, encontrarem-se, os indivíduos,
em posição desfavorável.
A redação do primeiro princípio, segundo Rawls, é a seguinte

“Toda pessoa possui direito igual à mais extensa liberdade fundamental


compativelmente com semelhante liberdade para os outros.”

Leif Wenar (2017) faz fundamental comentário sobre o primeiro princípio, que segue

The first principle affirms that all citizens should have the familiar basic rights and
liberties: liberty of conscience and freedom of association, freedom of speech and
liberty of the person, the rights to vote, to hold public office, to be treated in
accordance with the rule of law, and so on. The first principle accords these rights
and liberties to all citizens equally. Unequal rights would not benefit those who
would get a lesser share of the rights, so justice requires equal rights for all, in all
normal circumstances.
Rawls's first principle confirms widespread convictions about the importance of
equal basic rights and liberties. Two further features make this principle distinctive.
First is its priority: the basic rights and liberties must not be traded off against other
social goods. The first principle disallows, for instance, a policy that would give
draft exemptions to college students on the grounds that educated civilians will

20
increase economic productivity. The draft is a drastic infringement on basic liberties,
and if a draft is implemented then all who are able to serve must be equally subject
to it, even if this means slower growth. Citizens' equal liberty must have priority
over economic policy.

O elemento sintético do primeiro princípio de justiça é que a cada pessoa deve destinar-
se o máximo de liberdades que sejam correspondentes ao igual montante de liberdade para os
demais. Essencialmente, este princípio já evidencia o desacordo existente entre a Justiça como
Equidade no mérito de que o utilitarismo não reconhece direitos absolutos, e de que o parâmetro
principiológico do utilitarismo é a o nível de felicidade geral que uma determinada ação geraria.
O primeiro princípio, ao tratar das liberdades individuais, reúne uma gama de
liberdades que serão protegidas, a saber, por exemplo, as liberdades de pensamento, de
consciência, de reunião, à detenção arbitrária, etc.
O instrumento garantidor do primeiro princípio, ou seja, o instituto que o legitimará,
será a Constituição e as leis subjacentes. Mas eis que há, mesmo ao princípio primeiro, limites
à sua aplicação. A liberdade é um valor irrestrito? Rawls pressupõe que não. Aos que utilizam-
se da liberdade como justificativa à intolerância, John Rawls responde afirmando que os
intolerantes não tem direito de reclamar pela intolerância à sua intolerância, entretanto, aos
tolerantes não lhes dado o direito de suprimi-los (os intolerantes). Há, apenas uma possibilidade
desta opção se realizar, que seria quando a segurança dos tolerantes estivesse ameaçada pelos
intolerantes, isso porque, segundo Rawls, no momento de escolha dos princípios de justiça, ou
seja, no momento da posição original, qualquer pessoa deliberaria pela autopreservação.

A redação do segundo princípio de justiça, segundo Rawls é o seguinte

“As desigualdades sociais e econômicas devem ser organizada de modo que sejam:
(a) Devem estar vinculadas a cargos e posições acessíveis a todos em condições
equitativas de oportunidades; e
(b) Devem beneficiar ao máximo os membros menos favorecidos da sociedade.

Da leitura do segundo princípio é possível analisar: no segundo princípio percebe-se


que a desigualdade na distribuição dos bens sociais (direitos, renda, deveres, etc) é injusta

21
quando não estão em benefício dos “membro menos favorecidos da sociedade” e quando as
funções e cargos, ou seja as condições de trabalho que garantem a subsistência material dos
cidadãos, não estão disponíveis a todos para concorrência em igualdade de oportunidades.
O segundo princípio de justiça, portanto, projeta e exige a reparação das
desvantagens dos menos favorecidos (ANTISERI, 2008, pg.240).
É um fato de que, na sociedade, existam pessoas condicionada a uma precária
capacidades de saúde, ou mesmo que tenham nascido em uma estrutura social de baixa renda.
A existência da desigualdade, do desfavorecimento, é um fato, e os fatos não podem ser
julgados nem como justos nem como injustos. No entanto, como afirma o auto de Uma Teoria
da Justiça, “aquilo que é justo e aquilo que é injusto é o modo como as instituições tratam esses
fatos”.
Afim de que as instituições apliquem a justiça aos desabrigados e aos
desafavorecidos, as instituições, na opinião de Rawls, propositam-se a fazer o que o autor
denominou de princípio da diferença, o conceito que estipula que “as expectativas dos mais
favorecidos contribua para as perspectivas daqueles que são menos”. O que isso quer dizer?
Que, se em função de uma lei, fossem restringidas as possibilidades dos mais favorecidos, e tal
restrição descambasse em um prejuízo aos menos favorecidos, essa lei seria injusta. De outra
forma, se houvesse um incremento nas expectativas dos que são mais favorecidos, e se isso
servisse para incrementar as possibilidades de melhora material e de oportunidades dos menos
favorecidos, esse incremento não seria injusto, nos limites do maximin, conceito desenvolvido
por Rawls para o qual a única desigualdade permitida seria aquela que maximiza-se o mínimo.
Em uma de suas últimas publicações, a qual leva o nome de sua teoria da justiça,
Jusitça como Equidade, Rawls comenta a distinção e a função desses dois princípios

É importante notar uma distinção entre o primeiro e o segundo princípio de justiça. O


primeiro princípio, conforme explicitado por sua interpretação, abarca elementos
constitucionais essenciais. O segundo princípio exige igualdade equitativa de
oportunidades e que as desigualdades sociais e econômicas sejam governadas pelo
princípio da diferença (...) Embora algum princípio de oportunidade sejas seja um
elemento constitucional essencial – por exemplo, um princípio que exija uma
sociedade aberta, com carreiras abertas a talentos – a igualdade equitativa de
oportunidades exige mais do que isso, e não é considerada um elemento constitucional
essencial. Do mesmo modo, embora um mínimo social que supra as necessidades
básicas de todos os cidadãos também seja um elemento constitucional essencial, o
princípio de diferença exige mais e não é visto assim.
O que fundamenta a distinção entre os dois princípios não esta em que o primeiro
expresse valores políticos e o segundo não. Ambos os princípios expressam valores
políticos. Para nós, a estrutura básica da sociedade tem duas funções coordenadas,
sendo que o primeiro princípio se aplica a uma e o segundo à outra. Em uma das

22
funções, a estrutura básica determina e garante as liberdades básicas iguais dos
cidadãos (entre as quais o valor equitativo das liberdades políticas) e estabelece um
regime constitucional justo. Sua outra função é promover instituições de fundo da
justiça social e econômica na forma mais apropriada a cidadãos considerados livres e
iguais. As questões suscitadas pela primeira função concernem à aquisição e ao
exercício do poder político. Para satisfazer o princípio liberal de legitimidade,
esperamos resolver pelo menos essas questões recorrendo aos valos políticos que
constituem a base da razão pública livre. (RAWLS, 2003, pg.67)

2.2 As Características da Justiça como Equidade

Primeiro é importante retomar o conceito de Justiça como Equidade. Rawls explicita


que a ideia norteadora é de que os princípios de justiça devem servir de guia à estrutura básica
da sociedade, constituída como o objeto do acordo original. “São eles os princípios que pessoas
livres e racionais, interessadas em promover interesses, aceitariam em uma situação inicial de
igualdade como definidores das condições fundamentais de sua associação. Esses princípios
devem reger todos os acordo subsequentes. (...) Chamarei de justiça como equidade essa
maneira de encarar os princípios de justiça.”
A justiça como equidade inicia-se em um momento contratual hipotético e é uma das
escolhas gerais dentre as quais as pessoas podem fazer, conjuntamente, logo, é a escolha dos
princípios primeiros de uma concepção que tem como objetivo normatizar todas as subjacentes
proposituras e reformas das instituições.
Após a escolha das concepções de justiça, Rawls supõe que se escolha uma
constituição e leis que derivem desses princípios de justiça, para que exista, portanto, uma
consonância entre os princípios de justiça, acordados previamente, e a materialização das
instituições que formarão a estrutura básica da sociedade – consubstanciação desses princípios.

“A justiça como equidade é um exemplo do que chamo de teoria contratualista (...)


Especificamente, o teor do acordo pertinente não é formar determinada sociedade ou
adotar determinada forma de governo, mas aceitar certos princípios morais.” (pg.19)

“O mérito da terminologia contratualista é expressar a idéia de que os princípios de


justiça podem ser concebidos como princípios que seriam escolhidos por pessoas
racionais e que, assim, é possível explicar e justificar as concepções de justiça.”
(RAWLS, 2008, pg.19)

Vencida explicação de um momento contratualista, é relevante mencionar-se que


imbuído à ideia contratualista está a concepção ode que a teoria da justiça de Rawls faz parte

23
da teoria da escolha racional. Os princípios de justiça, segundo o autor, versam acerca de
reivindicações que entram em conflito das vantagens auferidas através da cooperação social.
Além disso, por tratar-se de um momento e estitulações contratuais, esta imbuída na condição
de divisão apropriada das vantagens e benefícios associados, que estejam em conformidade
com o acordo principiológico anuído entre as partes. Um elemento importante para salientar-se
é igualmente a publicidade que o acordo requer. Essa ‘publicidade’, ‘racionalidade’, ‘partes’
fazem todos partes da fraseologia contratualista. “Assim, se esses princípios resultam de um
acordo, os cidadãos tem conhecimento dos princípios que outros aceitam. É característico das
teorias contratuliastas salientar a natureza pública e racional dos princípios políticos.”
(RAWLS, 2008, pg.20)
No início desta monografia, quando do momento da exposição de algumas teorias da
justiça e a introdução do tema monográfico, salientou-se que a contribuição de Rawls, sua
originalidade estava justamente pelo fato de que, contrariando uma tradição filosófica corrente
de seu tempo, propôs uma teoria da justiça, uma teoria moral que fizesse frente à consagrada
teoria do utilitarismo. Parai é importante ressaltar as duas principais7 características da Justiça
como Equidade que a diferem do utilitarismo.
A primeira diferença versa acerca da ideia de ilusão socialmente útil. Para a Justiça
como Equidade, cada integrante da sociedade é concebido como detentor de uma
inviolabilidade que fundamenta-se na justiça, o que também pode ser concebido como uma
retomada do “direito natural”, a qual, nem mesmo a felicidade geral de todos pode se sobrepor.
Segundo essa concepção, é negada a perda da liberdade de alguns para significar um maior bem
a outros. É, portanto, inepto o raciocínio de que ao bem maior justifica-se a violação do direito
de um; e nesse sentido é que Rawls expressa sua teoria como “de matriz profundamente
kantiana”. E é neste ponto que esta a principal diferença substantiva: a Justiça como Equidade
justifica sua prioridade da justiça com base na escolha do princípios acordados no momento da

7
Uma terceira diferença seria quanto às concepções de sociedade que cada teoria desenvolve. Rawls assim o faz
quando afirma que “O mérito da doutrina clássica, conforme formulada por Bentham, Edgeworth e Sidwick, é
reconhecer com clareza o que está em questão, isto é, a prioridade relativa dos princípios de justiça e dos direitos
derivados desses princípios. A questão é saber se a imposição de desvantagens a alguns pode ser contrabalançada
por uma soma maior de vantagens desfrutadas por outros; ou se o peso da justiça requer liberdade igual para todos
e só se permitem as desigualdades econômicas e sociais que forem de interesse de todos. Implícita nas comparações
entre o utilitarismo clássico e a justiça como equidade há uma diferença nas concepções fundamentais da
sociedade. Em um caso, pensamos a sociedade bem-ordenada como um sistema de cooperação para vantagens
recíprocas regulado por princípios que seriam escolhidos em uma situação inicial equitativa; no outro, como a
administração eficiente dos recursos sociais afim de elevar ao máximo a satisfação do sistema de desejos
construído pelo observador imparcial a partir dos inúmeros sistemas de desejos aceitos como dados. A comparação
com o utilitarismo clássico em sua derivação mais natural ressalta esse contraste.”(RAWLS, 2008,pg.41)

24
posição original. Essa escolha expressaria as predileções racionais e equânimes das partes
contraentes. A despeito de reconhece que a doutrina utilitarista entre em confronto com esses
sentimentos de justiça, os autores utilitários afirmam que os pressupostos de justiça ditados pelo
“bom senso” apenas encontram validade como uma norma secundária, como uma norma que
surge do fato de que sua validade é justificada apenas pela utilidade social de obedecer-se a ela.
Ou seja, a norma não tem sua validade na concepção de justiça imanente de sua substancia, se
não apenas como uma ilusão socialmente útil. (RAWLS, 2008)
A segunda diferença é de natureza metodológica; enquanto a Justica como Equidade
é de base dedutiva, a teoria utilitarista é de base indutiva. Rawls explica que isso se dá pelo fato
de que ao utilitarismo basta averiguar se a felicidade de uma pessoa (indivíduo qualquer) seria
atendida se agisse-se de tal ou qual maneira, e dai estender esse raciocínio para a sociedade
como um todo. Já a Justiça como Equidade não supõe que os princípios que devem reger a
sociedade sejam uma simples extensão dos princípios e as reações de escolha de uma única
pessoa. Pelo contrário, “se presumirmos que o princípio regulador correto para qualquer coisa
depende da natureza de tal coisa, e que a pluralidade de pessoas diferentes com diversos
sistemas de objetivos é uma característica essencial das sociedades humanas, não devemos
esperar que os princípios da escolha social sejam utilitaristas.” (RAWLS, 2008, pg.35)
Por fim, uma última característica da Justiça como Equidade de Rawls é a
predecedência do conceito de justo sobre o conceito de bem.

“Na justiça como equidade, por outro lado, as pessoas aceitam de antemão um
princípio de liberdade igual, e sem conhecer seus próprios objetivos específicos.
Implicitamente concordam, portanto, em adaptar as concepções de seu próprio bem
àquilo que os princípios de justiça exigem, ou pelo menos em não reivindicar nada
que os transgrida. O indivíduo que descobre gostar de ver outros em situação de
liberdade menor compreende que não tem direito algum a essa satisfação. O prazer
que sente com as privações alheias é errado em si mesmo: é uma satisfação que requer
a transgressão de um princípio com o qual ele concordaria na posição original. Os
princípios de direito e, portanto, da justiça impõem limites a quais satisfações tem
valor; impõem restrições ao que são concepções razoáveis do bem individual. Ao
elaborar planos e ao decidir acerca de aspirações, os indivíduos devem levar em conta
essas restrições. Por conseguinte, na justiça como equidade, não se tomam as
propensões e as inclinações das pessoas como dadas, sejam quais forem, para depois
se procurar a melhor maneira de realiza-las. Pelo contrário, os desejos e aspirações
individuais são restringidos desde o início pelos princípios de justiça que especificam
os limites que os sistemas humanos de objetivos devem respeitar. Podemos expressar
essa ideia dizendo que na justiça como equidade eo conceito de justo precede o do
bem. Um sistema social justo define o âmbito dentro do qual os indivíduos devem
criar seus objetivos, e serve de estrutura de direitos e oportunidades e meios de
satisfação, dentro do qual e pela qual se pode procurar alcançar esses fins. A
prioridade da justiça se explicita, em parte, afirmando-se que os interesses que exigem
violação da justiça não têm nenhum valor. Não tendo mérito absolutamente nenhum,
não podem anular as exigências da justiça.” (RAWLS, 2008, pg.38)

25
3. MÉTODOS DA TEORIA DA JUSTIÇA DE JOHN RAWLS E
SUA APLICAÇÃO PARA A REALIDADE INTERNACIONAL

Para construção de sua teoria da justiça, a Justiça como Equidade, John Rawls valeu-
se de alguns instrumentos teóricos que metodologicamente concatenaram as ideias formuladas
em Uma Teoria da Justiça. As principais são a Posição Original, o Véu da Ignorância e o
Equilíbrio Reflexivo.

3.1 Posição Original

A concepção de Rawls para o momento em que os cidadãos escolheriam os princípios


de justiça como equidade é o traço de sua concepção contratualista e a qual o autor chama de
Posiçõa Original.
A Posição original é o artifício conceitual que representa o momento contratual em sí
mesmo. Como já mencionado anteriormente, a Posição original se trata de um momento
hipotético e não histórico. Uma simulação mental. Rawls utiliza o método dedutivo para para
demonstrar que o reconhecimento dos dois princípios de justiça conformam a Justiça como
Equidade como sendo a única escolha no momento de deliberação geral.
Para isso, a partes não são confrontadas tom todas as possíveis concepções de justiça
existentes como também não são capazes de gerar essas próprias concepções por contra própria.

“Entre as características essenciais dessa situação está o fato de que ninguém conhece
seu lugar na sociedade, sua classe ou se status social; e ninguém conhece sua sorte na
distribuição dos recursos e das habilidades naturais, sua inteligência, força e coisas do
gênero. Presumirei até mesmo que as partes não conhecem suas concepções do bem
nem usas propensões psicológicas especiais. Os princípios de justiça são escolhidos
por trás de um véu de ignorância. Isso garante que ninguém seja favorecidos ou
desfavorecidos na escolha dos princípios pelos resultado de acaso natural ou pela
contingência de circunstâncias sociais. Já que todos estão em situação semelhantes e
ninguém pode propor princípios que favoreçam sua própria situação, os princípios de
justiça são resultantes de um acordo ou pacto justo. Dadas as circunstâncias da posição
original, a simetria das relações de todos para com todos os demais, essa situação
inicial é equitativa entre os indivíduos tidos como pessoas morais, isto é, como seres
racionais com objetivos próprios e capacitados, presumirei, para ter um senso de
justiça. A posição original é, pode-se dizer, o status quo apropriado, e assim, os
consensos fundamentais alcançados nela são equitativos. Isso explica a adequação da
expressão “justiça como equidade”: ela expressa a ideia de que os princípios de justiça
são definidos por acordo em uma situação inicial equitativa. A expressão não significa

26
que os conceitos de justiça e equidade sejam idênticos, da mesma forma que a
expressão “poesia como metáfora” não significa que os conceitos de poesia e metáfora
sejam idênticos.” (RAWLS, 2008, pg.15)

Mas nessa situação como os indivíduos escolheriam?


Rawls pressupõe que não seria razoável, a uma pessoa submetida às restrições
cognitivas da Posição Original, esperar mais do que uma parte igual na divisão dos bens sociais
primários, como também não seria racional que ela concordasse com menos. Assim essa pessoa
deveria escolher, previamente, um princípio que antevisse uma distribuição equitativa, a saber,
um princípio que assegurasse as liberdades básicas iguais para todos os indivíduos, e uma
igualdade equitativa de oportunidades. (PROGREBINSCHI, 2010)
No entanto, as partes devem preocupar-se com as desigualdades sociais. Por serem as
partes mutuamente desinteressadas elas devem lidar com o fato da desigualdade antevendo um
princípio que possa considerar a desigualdade no cálculo de justiça, contanto que isso melhore
a situação de todas as partes, incluindo os mais desfavorecidos.8
Nesse sentido o autor crê que, através desse raciocínio, é possível que as partes
escolham pelos dois princípios de justiça.

Demonstrar esse processo de raciocínio pode parecer simples; mais difícil é pro-
var realmente que as partes chegariam a essa escolha, principalmente considerando
todas as restrições a que estão impostas. Rawls sabe disso e, para reforçar seu ar-
gumento em favor dos dois princípios, afasta justificações de cunho probabilístico
e submete o raciocínio das partes à regra maximin. Rawls parte então para uma
descrição paradigmática da posição original, reforçando a situação de incerteza em
que se encontram as partes, para mostrar que os dois princípios de justiça seriam
efetivamente escolhidos, pois representam um mínimo que as partes não colocariam
em risco em nome de maiores vantagens econômicas e sociais. Isto é, por não saberem
qual sua posição real na sociedade, as pessoas escolheriam o princípio que melhor as
protegeria caso estivessem na pior posição. Conforme acredita o autor: “há uma
relação entre os dois princípios e a regra maximin para a escolha em situa- ções de
incerteza. Isso fica evidente à luz do fato de que os dois princípios de justiça são

8
“O que sustentarei é que as pessoas presentes na situação inicial escolheriam dois princípios bem diferentes: o
primeiro requer igualdade na atribuição dos direitos e dos deveres fundamentais, ao passo que o segundo afirma
que as desigualdades sócias e econômicas, por exemplo, as desigualdades de riqueza e autoridades, só serão justas
se resultarem em vantagens recompensadoras para todos e, em especial, para os membros menos favorecidos da
sociedade. (...) A ideia intuitiva é que, se o bem-estar de todos depende de um sistema de cooperação, sem o qual
ninguém teria uma vida satisfatória, a divisão das vantagens deve suscitar a cooperação voluntária de todos que
dela participam, incluindo-se os que estão em situação menos favorável. Os dois princípios mencionados
aparentam ser uma base equitativa sobre a qual os mais favorecidos por talento natural, ou mais afortunados em
posição social, duas coisas das quais não podemos considerar merecedores, possam esperar a cooperação
voluntária dos outros quando algum sistema viável sejam uma condição necessária para o bem-estar de todos.
Quando decidimos procurar uma concepção de justiça que neutralize os acidentes da dotação natural e das
contingências de circunstâncias sociais como fichas na disputa por vantagens políticas e econômicas, somos
levados a esses princípios. Eles expressam a consequência do fato de deixarmos de lado os aspectos do mundo
social que parecem arbitrários de um ponto de vista moral.” (RAWLS, 2008, pg.18)

27
aqueles que uma pessoa escolheria para a concepção de uma sociedade em que o seu
lugar lhe fosse atribuído por seu inimigo” (TJ, 165). Os princípios da justiça como
equidade são, portanto, de acordo com a regra maximin, a melhor entre as piores
alternativas, dentre as várias concepções de justiça confrontadas pelas partes na
posição original. (PROGREBINSCHI, 2010, pg.16)

3.2 Véu da Ignorância

Se a Posição Original é a expressão da teoria do contrato social de John Rawls, o Véu


da Ignorância é seu instrumento. Na Posição Original um Véu da Ignorância impediria as partes
de tomar ciência das “contingência específicas que colocam os homens em posição de disputa,
tentando-os a explorar as circunstâncias naturais e sociais em seu próprio benefício.” (RAWLS,
2008)
Segundo Progrebinschi, as restrições impostas pelo Véu podem ser analisadas por
dois ângulos. As partes desconhecem as circunstâncias próprias dos indivíduos, bem como as
da sociedade. Com relação a si mesmas, as partes, na Posição Original, não conhecem seu lugar
na sociedade quanto mais sua posição ou quaisquer outras características que possam lhes
atribuir vantagens ou desvantagens. Com relação à sociedade, as partes são ignorantes quanto
a sua circunstância econômica e política, se todas as demais caracterizadoras.
O Véu da Ignorância impede o conhecimento de todo e qualquer fato particular,
exceto aquele que “a sua sociedade está sujeita às circunstâncias da justiça e qualquer
consequência que possa decorrer disso.” (RAWLS, 2008).

As principais funções que o conceito de véu da ignorância desempenha no mo- delo


teórico de John Rawls podem ser sintetizadas nas seguintes proposições:
assegurar que a posição original represente um caso de justiça procedimental pura:
“Queremos definir a posição original de modo a chegarmos à solução desejada. Se for
permitido um conhecimento das particularidades, o resultado será influenciado por
contingências arbitrárias” (TJ, 152);
assegurar que a posição original represente uma condição universal: “Deve ser
indiferente a ocasião em que alguém adota esse ponto de vista, ou quem o faz: as
restrições devem ser tais que os mesmos princípios são sempre escolhidos” (TJ, 149);
assegurar que a posição original represente uma condição não histórica: “[O véu da
ignorância] assegura que a informação disponível é a mesma em todas as épocas” (TJ,
149);
garantir a unanimidade na escolha da concepção de justiça como equidade: “O
véu da ignorância possibilita a escolha unânime de uma concepção particular de
justiça” (TJ, 151);
garantir a igualdade das partes contratantes na posição original: “Para que a posição
original gere acordos justos, as partes devem estar situadas de forma equitativa (...) a
arbitrariedade do mundo deve ser corrigida por um ajuste das circunstâncias da
posição original” (TJ, 152); excluir qualquer possibilidade de fraude, coerção ou
violência: “Ninguém conhe- ce a sua situação na sociedade nem os seus dotes naturais,
e portanto nin- guém tem possibilidade de formular princípios sob medida para

28
favorecer a si próprio. Podemos imaginar que um dos contratantes ameace não dar o
seu assentimento a não ser que os outros concordem com princípios que lhe são
favoráveis. Mas como ele sabe quais são os princípios que lhe interessam
especialmente?” (TJ, 150); 

afastar o problema da pluralidade das partes na posição original: “(...) as dife- renças
entre as partes lhe são desconhecidas, e todos são igualmente racionais e estão
situados de forma semelhante, cada um convencido pelos mesmos argumentos.
Portanto, podemos considerar o acordo na posição original a partir do ponto de vista
de uma pessoa selecionada ao acaso. Se qualquer pes- soa, depois da devida reflexão,
prefere uma concepção de justiça a uma outra, então todos preferem” (TJ, 150).”
(PROGREBINSCHI, pg.21, 2010)

Portanto, o Véu da Ignorância visa assegurar, ainda segundo Progrebinschi, que se


na escuridão e incerteza do véu podemos identificar os princípios de justiça que nos são mais
desejáveis, ou seja, preferir determinados arranjos em detrimento de outros, então nossa escolha
tem um bom motivo para ser tida como a escolha justa.

3.3 A Segunda Posição Original

John Rawls, em O Direito dos Povos, desenvolve como método de escolha da justiça
como equidade poderia de transposto para o cenário internacional. Há a compreensão de que
essa transposição gera inúmeras controvérsas, tanto metodológicas quanto substantivas, mas
não atentar-nos-emos a esse debate nesta monografia.9
A característica fundamental da segunda posição original é a extensão da ideia de
contrato social para o Direito dos Povos, como um modelo de representação. A segunda
característica é a extensão da ideial liberal ao Direito dos Povos, que resulta como
consequência, os Princípios desenvolvidos mais à frente nesta monografia.
Na parte §3 Rawls faz a menção da primeira posição original e pedagogicamente
desenvolve a segunda posição original, a qual afirma:

“ observemos que a posição original com um véu de ignorância é um modelo de


representação para as sociedades liberais.(...) Como a posição original inclui o véu da
ignorância, ela também modela o que consideramos como restrições adequadas às
razões para adotar uma concepção política de justiça para essa estrutura.
(...)
Aqui, cinco características são essenciais: (1) a posição original modela as partes
como representando os cidadão imparcialmente; (2) ela os modela como racionais e
(3) ela os modela selecionando, dentre princípios de justiça disponíveis, aqueles que
se aplicam ao sujeito adequado, que é, nesse caso, a estrutura básica. Além disso, (4)

9
Para mais informações sobre o debate ver:
• “Rawls’s Law of People: rules for a vanished westphalina world”. Allen Buchanan, Ethics, v.110, 2000
• “Rawls’s Law of People” Charles Beitz. Ethics, v.110, 2000

29
as partes são modeladas como fazendo essas seleções pelas razões adequadas e (5)
como selecionando por razões relaciondas com os interesses fundamentais e racionais.
(...)
No nível seguinte a posição original é usada outra vez, mas agora, para estender uma
concepção liberal ao Direito dos Povos. Como no primeiro exemplo, trata-se de um
modelo de representação, pois modela o que consideraríamos como condições
justas(...) que devem especificar o Direito dos Povos” (RAWLS, 2003, pg. 42)

Essencialmente o que Rawls desenvolve no segundo modelo é o seguinte: tal qual na


dimensão nacional, internacionalmente os povos liberais congregariam-se numa espécie de
projeção do momento do contrato social nacional para um contrato social internaiconal; nesse
“momento” teórico, os povos liberais, através do método da posição original e atrás do véu da
ignorância escolheriam princípios para ordenar a realidade internacional de maneira racional e
que trouxesse a paz. Esses princípios seriam ao Princípios do Direito dos Povos que, para além
dos povos liberais, também englobariam os povos bem-ordenados, afinal, seria uma contradição
uma concepção liberal que apenas aceitasse povos liberais.

4. JOHN RAWLS E O DIREITO DOS POVOS

Até agora procuramos definir quais as bases nas quais John Rawls estabeleceu a
fundação de sua teoria da justiça e as premissas sob as quais o filósofo norte-americano
soergueu sua concepção liberal para a esfera internacional, desenvolvida em seu Direito dos
Povos.
O elemento central o Direito dos Povos de Rawls é a retomada da teoria da Paz
Perpétua de Immanuel Kant, em uma tentativa de readequar seus pressupostos e seus
referenciais teoréticos a uma atualização e possível aplicação na contemporaneidade.
“Como Direito dos Povos”, Rawls afirma, “quero referir-me a uma concepção de
política particular de direito e justiça, que se aplica aos princípios e normas do Direito e da
prática internacionais.” (RAWLS, 2003)
Todo o desenvolvimento e a sofisticação teórica ralwsiana, prima por sua clareza e sua
objetividade. Rawls é objetivo e transparente ao enquadrar, dentro do espectro político, em que
“lugar” encontra-se sua teoria. Já na primeira parte da introdução, afirma
“O Direito dos Povos é desenvolvido dentro do liberalismo político, sendo a extensão,
a uma Sociedade dos Povos, da concepção liberal de justiça, similar, mas mais geral,
à ideia que chamo de justiça como equidade em Uma Teoria da Justiça. Essa ideia de
justiça baseia-se na ideia familiar de contrato social, e o processo seguido antes que

30
os princípios de direito e justiça sejam selecionados e acordados é, de certa maneira,
o mesmo no caso nacional e internacional.” (RAWLS, 2003, pg.4)

Rawls estabelece a premissa, antes de tudo, de que seu intento é ser ou não possível
uma utopia realista e, em sendo possível, em quais condições. Explica o autor que “a filosofia
política é realisticamente utópica quando expande aquilo em que geralmente se pensa como os
limites da possibilidade política prática”; em outra palavras, Rawls tenta concretizar, de uma
forma prática, a utopia de uma paz entre as nações, que se não for perpétua, seja ao menos
duradoura.
A característica mais destacada desta abordagem impressa em O Direito dos Povos é
evitar que a humanidade possa incorrer novamente no que Rawls chama de grande males, que
são o genocídio e as guerras. Para isso seria importante a criação de uma Sociedade de Povos,
que se não fosse composto por povos liberais – o que seria uma contradição em termos – deveria
ser composto por povos bem ordenados em suas instituições políticas. (RAWLS, 2003)
John Rawls desenvolver sua teoria em duas grande partes:
• A teoria ideal
• A teoria não ideal.
A teoria ideal é dividia em duas partes. Na primeira, há o desenvolvimento da utopia
realista, propriamente dita, no qual o filósofo aprofunda-se na análise de “sociedades
democráticas constitucionalmente justas. Para isso essas sociedades devem reconhecer
condições, a saber: valer-se de leis efetivas da natureza e alcançar o tipo de estabilidade que
essas leis permitam; os primeiros princípios e preceitos devem ser funcionais e aplicáveis a
arranjos políticos e sociais em andamento; a categoria do político deverá conter em si todos os
elementos essenciais para uma concepção política de justiça; em função do pluralismo
abrangente, a democracia constitucional deve ter instituições políticas à medida que crescem e
participam da sociedade; a estabilidade social deverá basear-se sobre a concepção política
razoável de Direito e Justiça; a concepção política deve ter uma ideia razoável de tolerância.
(OLIVEIRA, 2006)
Há um parênteses importante que versa acerca do construtivismo no Direito dos Povos.
O construtivismo de Rawls pode ser dividido em três fases: em primeiro lugar, diz respeito à
definição do sujeito da justiça, depois às emendas que devem ser feitas ao conceito original e,
eventualmente, ao problema para descobrir quais princípios serão adotados. escolhidos pelos
representantes dos povos cujas deliberações se baseiam nessas regras de procedimento.
Na primeira edição da Lei dos Povos, Rawls definiu os povos como

31
corporações de pessoas organizadas por instituições que também fixam o poder do
governo. No entanto, sua nova definição tornou-se muito mais abrangente (de modo a incluir
povos de sociedades não liberais aceitas). As pessoas devem ser reconhecidas de acordo com
um ponto de vista institucional, cultural e moral. Do ponto de vista institucional, as pessoas
devem ser lideradas por um governo razoavelmente correto, que proteja seus interesses, como
a proteção do território nacional, a preservação de suas instituições políticas, a cultura e a
independência como Estado organizado, a segurança pública e o bem-estar de seus cidadãos. .
Do ponto de vista cultural, as pessoas são unidos pelo que Mills chamou de “simpatias comuns”,
que fazem não existe para estrangeiros.
A comunidade da linguagem e das memórias compartilhadas do passado transforma
uma nação em pessoas, embora nem sempre ocorra. De qualquer forma, esse conceito de nação
é diferente do conceito de governo ou estado. Do ponto de vista moral, todas as pessoas têm
uma natureza moral, ou seja, compartilham uma concepção moral de lei e justiça - que pelo
menos não deve ser irracional -, de modo que, enquanto perseguem racionalmente seus
objetivos e interesses, também respeitar a cooperação com outras pessoas em igualdade de
condições.
Dentro da teoria ideal haveira um momento em que os povos libereais passariam por
um processo análogo ao descrito anteriormente nesta monografia, de processo de tomada de
decisão na posição original. É o que Rawls chama de “segunda posição original”; nela, os
povos, através igualmente do ‘véu da ignorância’ fariam a escolha de 8 princípios para um
Direito dos Povos: princípios esses que orientariam a atuação dos povos internacionalmente
bem como estabeleceriam os critérios para participação dos povos em uma Sociedade.
A segunda parte da teoria ideal versa sobre a relação entre povos não-liberais, e como
esses povos, embora não liberais, poderiam aquiescer aos princípios de justiça, dada sua
característica “hierarquicamente decente.”
Feitas as considerações ideiais, Rawls parte para a última parte, em que desenvolve a
teoria-não ideial. Nela, estão estabelecidas as “condições de não-aquiescência” em que os
“Estados fora da lei” recusam-se a aceitar o Direito dos Povos. Junto a esse tipo de Estado,
estão igualmente os Estados desfavoráveis, que segundo Rawls, estão nessa condição por
mazelas como a pobreza e desastres naturais que tornam sua condição de desenvolvimento
insustentável.
O Direito dos Povos de John Rawls enseja múltiplos debates, mas para o fim desta
monografia nos atentaremos apenas aos princípios desenvolvidos por Rawls para uma

32
Sociedade dos Povos e se há correspondência desses princípios, com a materialidade da prática
e das instituições de direito internacional.

5. OS PRINCÍPIOS DO DIREITO DOS POVOS

Ralws ao estabelecer o Direito dos Povos como os princípios que guiarão os povos
dentro de uma estrutura normativa internacional, igualmente especificou os parâmetros
fundamentais nos quais ele basearia sua teoria. O pensador norteamericano procedeu, assim, de
maneira análoga ao desenvolvido em sua Uma Teoria da Justiça, estabelecendo os seguintes
princípios para o Direito dos Povos:

1) Os povos são livres e independentes, e sua liberdade e independência devem ser


respeitadas por outros povos.
2) Os povos devem observar tratados e compromissos.
3) Os povos são iguais e são partes em acordos que os obrigam.
4) Os povos sujeitam-se ao dever de não-intervenção.
5) Os povos tem o direito de autodefesa, mas nenhum direito de instigar a guerra por
outras razões que não a autodefesa.
6) Os povos devem honrar os direitos humanos.
7) Os povos devem observar certas restrições especificadas na conduta da guerra.
8) Os povos tem o dever de assistir a outros povos vivendo sob condições
desfavoráveis que os impeçam de ter um regime político e social justo ou decente.

Rawls, assim justifica a escolha deliberada desses 8 princípios e defende sua posição
de porque esses princípios específicos são, na visão dele, superiores.

Afirmo que os oito princípios do Direito dos Povos são superiores a quaisquer outros.
De maneira muito semelhante a como examinamos os princípios distributivos na
justiça como equidade, começamos com a diretriz básica da igualdade – no caso da
justiça como equidade, a igualdade de bens primários sociais e econômicos; neste
caso, a igualdade de todos os povos e os seus iguais direitos. No primeiro caso,
perguntamos se haveria concordância com algum desvio da diretriz da igualdade,
contanto que fosse para o benefício de todos os membros da sociedade, e em particular
dos menos favorecidos. Com o Direito dos Povos, porém as pessoas não estão sob
um, mas vários governos, e os representantes dos povos desejarão preservar a
igualdade e a independência da sua própria sociedade. (...) Extraio esses princípios
grandemente tradicionais da história e dos usos do Direito e das práticas
internacionais. As partes não recebem um menu de possibilidades de princípios e

33
ideais a escolher, como acontece em Liberalismo Político ou em Uma Teoria da
Justiça. Em vez disso, os representantes de povos bem-ordenados simplesmente
refletem sobre as vantagens desses princípios de igualdade entre os povos, e não veem
nenhuma razão para abandoná-los ou para propor outras possibilidades. Esses
princípios devem, naturalmente, satisfazer o critério da reciprocidade, já que esse
critério é válido em ambos os níveis – tanto entre cidadãos como cidadãos como entre
povos como povos. (RAWLS, 2004, pg.57)

Iniciaremos esse último capítulo pelos princípios 1 e 3, em função de estarem


diretamente relacionados à igualdade dos povos e sua independência; depois, debruçar-se-á nos
princípios 2 e 6 dada sua especificidade e elementos de obrigatoriedade no comportamento dos
atores internacionais; em seguida se analisarão conjuntamente os princípios 4,5 e 7, por sua
característica de dever de não intervenção e possibilidade de uso da força no cenário
internacional e finalizar-se-á pelo princípio 8, em seu fundamental dever de assistência.
Como já esboçado no objetivo desta monografia, em todos os princípios, se procurará
encontrar correspondência entre os princípios do Direito dos Povos e os ensinamentos de
Direito Internacional bem como de seus instrumentos normativos consagrados.

5.1 – Os Princípios 1 e 3, respectivamente, “Os povos são livre e iguais e sua liberdade e
independência devem ser respeitadas pelos outros povos” e “Os povos são iguais e são
partes pelos acordos que os obrigam”

John Rawls, ao estipular esses dois princípios tinha em mente a igualdade, liberdade e
independência dos povos e não, necessariamente dos Estados. Essa distinção entre povos e
Estados já foi feita anteriormente, e assim, não se atinará neste debate. Ocorre, no entanto, que
para o Direito Internacional como um todo, são os Estados os atores que, historicamente,
desempenharam o papel mais relevante na transformação e no desenvolvimento deste campo
de estudo e desta atuação normativa.
Ao falarmos sobre a formação do Estado e sua consolidação no cenário político e
normativo internacional, a referência inevitável são os tratados de Münster de 24 de Outubro
de 1648 e o tratado de Osnabrück de 14 de Outubro de 1648, que juntos conformam o momento
designado como Paz de Vestefália. De maneira sintética, esses dois tratados levaram à termo a

34
Guerra dos Trinta Anos10. A consolidação do Estado-Nacional europeu congressa-se ao
momento jurídico político de consolidação da soberania estatal como ente fundamental das
relações entre os Estados e seu elemento legitimador – e não mais a religião. Ou seja, à partir
do momento da consolidação do Estado e da soberania, como elementos de legitimidade, e seu
reconhecimento de que acima dos Estados não haveria outra força normativa à reger seu
comportamento, há a instituição da igualdade jurídica entre os Estados. (PELLET, 2003)
Os principais modelos de justiça internacional, atualmente em discussão, são os
seguintes: (1) o paradigma de Westphalia; (2) cosmopolitismo moral; (3) cosmopolitismo
institucional; (4) Estado Mundial.
O paradigma de Westphalia é o modelo centrado no estado de direito internacional.
Os assuntos de direito internacional são estados. Eles são soberanos em seu território e o
objetivo de sua política externa é garantir o interesse e a segurança nacionais. Os Estados são
considerados unidades independentes quanto à economia e à justiça distributiva e são
considerados politicamente homogêneos, ou seja, sem diferenciações relevantes na política
interna. A abordagem realista das relações internacionais é baseada no paradigma descrito
acima.
O cosmopolitismo moral não é um conceito legal nem político, mas pode promover
ações específicas (como, por exemplo, a criação de uma jurisdição criminal internacional para
situações particulares e crimes contra a humanidade, ou ainda o apoio a intervenções legítimas
para fins humanitários ) Segundo o cosmopolitismo moral, as fronteiras entre diferentes estados
não são relevantes, eticamente falando. Os privilégios morais não podem ser derivados do mero
pertencimento a uma determinada comunidade política.

10
“A causa imediata da Guerra dos Trinta Anos foi uma tentativa do imperador do Sacro Império Romano, Matias,
para consolidar seu poder na Boêmia. Embora os Habsburgos dominassem a Boêmia havia um século, os
habitantes tchecos do país tinham conservado seu próprio rei. Quando o trono da Boêmia vagou em 1618, Matia
conspirou para fazer com que a coroa coubesse a um parente seu, o duque Fernando de Estíria. Mediante pressões,
induziu a Dieta boêmia a eleger Fernando II como rei. Os líderes tchecos ressentiram-se contra isso, uma vez que
tanto as tradições nacionalistas quanto as protestantes eram fortes no país. O resultado foi a invasão do palácio do
imperador, em Praga, por nobres tchecos, e a proclamação da República da Boêmia como um estado independente,
tendo como rei Frederico, o eleitor calvinista do Palatinado. A guerra rebentou então com plena força. O êxito dos
Habsburgos em abafar a revolta boêmia e em punir Frederico, tomando-lhe as terras do vale do Reno, arrastou à
ação os governantes protestantes da Europa setentrional. Não somente os príncipes alemães, mas também o rei
Cristiano IV da Dinamarca e Gustavo Adolfo da Suécia se juntaram à guerra contra a agressão austríaca – com a
segunda intenção, é claro, de expandir seus próprios domínios. Em 1630 os franceses intervieram com doações de
armas e dinheiro aos aliados protestantes, e depois de 1632, quando Gustavo Adolfo morreu em batalham, foi a
França que suportou o embate da luta. Não se tratava mais de um conflito religioso, mas essencialmente de uma
disputa entre as casas de Bourbon e de Habsburgo pelo domínio do continente europeu. Os objetivos imediatos do
cardeal Richelieu, que dirigia a política de Luís XIII, eram tomar partes da Alemanha ao Sacro Império Romano
e enfraquecer a posição do Habsburgos espanhóis nos Países Baixos. Durante algum tempo as forças francesas
sofreram reveses, mas o gênio organizador de Richelieu e do cardeal Mazarino, que lhe sucedeu em 1643, alcançou
finalmente a vitória para a França e seus aliados. A paz foi restabelecida na dilacerada Europa pelo Tratado de
Vestfália, em 1648.” (BURNS, 2005, pg.446)

35
Segundo o cosmopolitismo, não há descontinuidade entre a sociedade doméstica e a
sociedade internacional. De qualquer forma, escusado será dizer que a moralidade cosmopolita
não é compatível com o paradigma de Westphalia, que considera o estado como sujeito da
moralidade internacional. Entre esses extremos, porém, são possíveis muitas outras abordagens,
que tentam combinar critérios gerais de ética com a aceitação de diferentes sociedades políticas.
Qualquer pessoa solteira está igualmente sujeita a consideração moral. Sob essa ótica,
a cidadania parece implicar parcialidade, enquanto a imparcialidade da lei exige que sejam
evitadas quaisquer discriminações causadas pela proximidade ou por qualquer outra força
vinculativa específica. A origem do cosmopolitismo moral deve ser. remonta ao estoicismo,
embora originalmente não tivesse consequências no nível jurídico.
A igualdade jurídica é um instituto que fundamenta a congregação dos Estados em
uma modalidade associativa de “sociedade”, por meio da “Sociedade Internacional”. O
professor Paulo Henrique Portela, acerca da caracterização da Socidedade Internacional,
leciona:
A sociedade internacional apoia-se na vontade de seus integrantes, que decidiram se
associar para atingir certos objetivos que compartilham. É marcada, portanto, pelo
papel decisivo da vontade como elemento que promove a aproximação entre seus
membros, e pela existência de fins, que o grupo pretende alcançar (...) A existência da
sociedade internacional confunde-se com a história da humanidade. Decerto que nem
sempre a sociedade internacional se revestiu de suas características atuais, o que leva
parte da doutrina a defender que seu surgimento é fato mais recente. (...) A sociedade
internacional é universal. Nesse sentido, abrange o mundo inteiro, ainda que o nível
de integração de alguns de seus membros à suas dinâmicas não seja tão profundo. (...)
A sociedade internacional é heterogênea. Integram-na atores que podem apresentar
significativas diferenças entre si, de cunho econômico, cultural etc. A maior ou menor
heterogeneidade influenciará decisivamente o processo de negociação e de aplicação
das normas internacionais, que poderá ser mais ou menos complexo. (...) a sociedade
internacional seria partiária, em vista da igualdade jurídica entre seus integrantes.
Entretanto, a sociedade internacional é também marcada pela desigualdade de fato,
corolário de sua própria heterogeneidade e do grande diferencial de poder entre os
Estados (...). (PORTELA, 2017, pg. 35)

O direito internacional, nesse contexto, é uma das amarras que legitimam e consolidam
a fundação do Estado e da soberania como sustentáculos da ordem internacional anárquica,
dada igualdade soberana entre os Estados.
No século XX, a igualdade soberana dos Estados consolidou-se de um costume
internacional, uma prática reiterada historicamente no conserto das nações, para um
aprofundamento da consolidação normativa dos instrumentos internacionais. Nesse sentido
muitas normas e princípios de direito internacional, tanto em seus dispositivos preambulares
quanto em seus instrumentos operacionais, expressamente vinculam à igualdade jurídica a
soberania jurídica equitativa entre os Estados.

36
Nesse sentido, é possível encontrar a menção expressa da igualdade jurídica dos
Estados e de sua igualdade soberana em diversos instrumentos, dentre eles: A Carta das Nações
Unidas; a Convenção de Viena sobre Relações Diplomáticas; e a Declaração das Relações
Amistosas entre as Nações. Convém que se teçam comentários acerca da Declaração.
A Declaração Relativa aos Princípios do Direito Internacional Regendo as Relações
Amistosas e Cooperação entre os Estados Conforme e a Carta das Nações Unidas, são, nas
palavras de Antonio Augusto Cançado Trindade, a constituição de exemplos dos mais pujantes
da formação e consagração de princípios do direito internacional. O esforço normativo
empreendido neste contexto foi de empregar consolidação interpretativa aos dispositivos da
Carta da ONU.
Uma preocupação soerguida dos escombros da II Guerra Mundial foi a necessidade de
estabelecimento de mecanismos de que visassem mitigar as desconfianças, por meio da
consolidação do conceito de “coexistência pacífica”. O movimento de constituição da
Declaração foi engendrado por um conjunto de força dos estado-membros para substanciação
de uma elemento fundamental que é a igualdade jurídica dos Estados.
O Comitê Especial sobre os Princípios do Direito Internacional Regendo as Relações
Amistosas e Cooperação entre os Estados foi formado por expertas de todos os países. A
conformação respeitou a diversidade geográfica a distribuição de desenvolvimento entre os
membros. Alguns parâmetros comparativos estipularam-se para atribuir a importância da
Declaração em termos relacionais.
Arangio Ruiz, conforme ensina Cançado, comparou a Declaração de 1970 à:
• Declaração dos Direitos e Deveres do Estado;
• Declaração sobre a Outorga da Independência aos Países e Povos Coloniais;
• Declaração sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Racial;
• Declaração sobre a Inadmissibilidade de Intervenção nos Assuntos Internos dos
Estados e a Proteção de sua Soberania.
Por sua vez, Sohn compara a Declaração sobre os Princípios de Direito Internacional
Regendo as Relações Amistosas e Cooperação aos seguintes instrumentos:
• Declaração dos Princípios Jurídicos Regendo as Atividades dos Estados na
Exploração e Uso do Espaço;
• Declaração de Princípios Regendo o Leito do Mar e seu Subsolo além dos Limites
da Jurisdição Nacional.

37
Outros importante jurista, Hambro, comparou a importância da Declaração às
consequências advindas de outros instrumentos que as Nações Unidas especificamente, ou
mesmo a Sociedade das Nações em um sentido geral já estabeleceram. Ocorre que o jurista
elencou diversos tratados. Dentre eles, menciona-se:
• Declaração sobre a Soberania Permanente (dos Estados) sobre sua Riqueza e seus
Recursos Naturais;
• Declaração sobre a Proibição do Uso de Armas Nucleares e Termonucleares;
• Declaração Universal dos Direitos Humanos;
• Declaração dos Direitos da Criança;
• Princípios de Direito Internacional Incorporados na Carta do Tribunal de
Nuremberg.

A Declaração de 1970, assim como os demais instrumentos anteriormente citados,


não são tecnicamente obrigatórios em sua condição da resoluções declaratórias da
Assembleia Geral; não são, evidentemente, convenções ordinárias sujeitas a
ratificação. Por outro lado, exercem uma função jurídica importante, particularmente
as adotadas por unanimidade ou ampla maioria, na formação ou reconhecimento de
novas regras do direito internacional costumeiro e na interpretação dos princípios
consagrados na Carta das Nações Unidas. Enfim, tais declarações podem levar ao
estabelecimento de mecanismos internacionais de implementação de seus princípios
e “assim acelerar ainda mais a criação de regras costumeiras”; cabe lembrar a esse
respeito, por exemplo, que à Declaração sobre Eliminação de Todas as Formas de
Discriminação Racial de 1963, seguiu-se em 1965-1966 de uma Convenção sobre o
tema, da maior importância, e que logo entraria em vigor; à Declaração sobre a
Outorga de Indepdência aos Povos e Países Coloniais, de 1960 seguiu-se o
estabelecimento pela resolução 1654(XVI) da Assembleia Geral no ano seguinte de
um Comitê para implementar a Declaração, que se tornou extremamente atuante na
área. À Decleração Universal dos Direitos Humanos de 1948 seguiram-se em 1966 o
Pacto dos Direitos Econômicos, Sociais e Culturais, que entraram em vigor em 1976.”
(TRINDADE, 2017, pg.128)

A Declaração Regendo as Relações Amistosas entre os Estados, dispunha


essencialmente, e de maneira operativa, acerca das entre os Estados mais do que as abordagens
de Direito Internacional. Foram estipulados as seguintes referenciais normativas sobre a análise
de pretérito que constituem a relação e o roll operativo do Tratado, a saber:
1) Proibição do Uso ou Ameaça da Força;
2) Solução Pacífica de Controvérsias;
3) Não intervenção dos Assuntos Internos dos Estados;
4) Igualdade de Direitos e Autodeterminação dos Povos;
5) Igualdade Soberana dos Estados;
6) Boa-fé no Cumprimento das Obrigações Internacionais.

38
O montante de esforço empreendido pelos parâmetros de reconstrução do direito
internacional após a II Guerra Mundial geraram essa arquitetura que contribuiu para o
adensamento das fontes do direito internacional, e sua sistematização. Em seu dispositivo
dispositivo preambular bem como nos princípios que são estabelecidos pelo ordenamento
instrumental, há fortemente o esforço de criação de um ambiente de confiança de relação-mútua
de respeito e de amigabilidiade entre os Estados.
Ocorre que outro instrumento normativo elencado, a saber, a Carta de São Francisco,
anteriormente, desempenhou papel fundamental na consolidação normativa advinda das
circunstâncias pós-guerra europeia. Nesse sentido é um marco. Importantes diplomatas
reuniram-se no esforço de trazer uma espécie de carta fundadora, ou Carte Foundeux, que
pudesse estipular de maneira constitutiva e balizar o comportamento dos Estados na seara
internacional a relação entre os membros da comunidade internacional para o novo cenário que
iniciava-se.
É neste contexto que desenvolve-se e legitimasse o texto e a ânsia de constituir a Carta
de São Francisco, também conhecida, como Carta das Nações Unidas, que estruturará o
funcionamento e os propósitos da ONU como organização dotada de cunho puro universalista.

A Carta das Nações Unidas, instrumentos normativo dotados de legitimidade


internacional amplamente reconhecida, preceitua:
Propósitos e Princípios
Art 1º Os propósitos das Nações Unidas são:
(...)
2. Desenvolver relações amistosas entre as nações, baseadas no respeito ao princípio
de igualdade de direitos e de autodeterminação dos povos, e tomar outras medidas apropriadas
para o estabelecimento da paz universal;
(...)
Art. 2º A Organização e seus Membros, para realização dos propósitos mencionados
no art.1º, agirão de acordo com os seguintes Princípios:
1. A Organização é baseada no princípio da igualdade de todos os seus Membros

Por sua vez, a Convenção de Viena sobre Relações Diplomáticas, instrumento


normativo confeccionado no âmbito de esforços das Nações Unidas afim de aprofundar os
esforços de codificação do Direito Internacional, preceitua já em suas disposições preambulares
que:

39
Os Estados Partes na Presente Convenção (...)
CONSCIENTES dos propósitos e princípios da Carta das Nações Unidas relativos à
igualdade soberana dos Estados, à manutenção da paz e da segurança internacional e ao
desenvolvimento das relações de amizade entre as nações;
Por fim, há a pouco conhecida Declaração sobre os Princípios de Direito Internacional
sobre Relações Amistosas e Cooperação entre os Estados. A Declaração é também conhecida
por outra nomenclatura, esta mais técnica, como Resolução 2625 da Assembleia Geral das
Nações Unidas; seu texto foi adotado em 24 de outubro de 1970, no contexto de sessão
comemorativa pelos 25 anos das Nações Unidas. A Declaração possui forte valor normativo
referentes à igualdade soberana dos Estados e igualmente à autodeterminação de seus povos.
Por fim, há que se tratar sobre o princípio da autodeterminação dentro do Direito
internacional, como correlação ao preceituado em Rawls. A independência do Estado dentro do
conserto das nações é elemento indispensável para a constituição de uma igualdade de facto.
Sobre esse assunto Alain Pellet leciona que

O princípio da soberania nacional colide com a origem do poder no Estado, não com
o poder do Estado. (...) Ao identificar-se com a nação, o Estado abraça naturalmente
a sua condição jurídica. Ora, ao mudar de titular, a soberania não muda de sentido.
Continua a significar que o soberano, seja a nação ou o rei, não esta submetido a
nenhum poder superior, quer dentro, quer fora. O novo Estado nacional herda, pois,
todos os atributos do Estado senhorial. No plano internacional, continua a ser um
Estado soberano como o seu predecessor. Por isso mesmo o sistema interestatal é
poupado, pois foi estabelecido por e para Estados soberanos. O princípio da
nacionalidade (...) traz (...) ao Estado nacional uma justificação racional de alcance
universal. Segundo este princípio, que provém do direito dos povos à
autodeterminação, cada nação tem o direito, para que a sua soberania seja efetiva, de
se constituir como Estado independente. Deve haver tantos Estados como nações. As
fronteiras de um Estado devem coincidir com as de uma nação. Se existe um Estado
que englobe várias nações, ele expõe-se ao desmembramento na medida necessária à
realização de tal coincidência. (PELLET, 2003, pg64)

Se o princípio da autodeterminação dos povos é um aspecto da realidade social que


possibilitou a mudança de características do Estado, de até meados do século XVIII de um
Estado senhoral, havendo reminiscências mesmo até o século XXI, para um Estado nacional,
em que a soberania recaía na legitimidade conferida pela nação, sua implementação geral não
foi sem o recurso à guerra ou mesmo a longos embates de negociação.
A autodeterminação foi lograda à segundo plano, no início do século XX em função
das circunstâncias geopolíticas que marcaram a primeira metade do século. Com as duas
Grandes Guerras Mundiais, uma política implantada, como artifício de espólio de guerra, era a
questão do domínio, pelas potências vencedoras, de colônias e protetorados, frutos de antigas

40
ingerências pelas potências perdedoras. Essa realidade foi verificada em diversos lugares do
mundo, mas sobremaneira nos regiões africana e asiática.
Um movimento normativo internacional importante, afim de elevar o debate sobre a
autodeterminação dos povos é sua expressa menção já no artigo primeiro da Carta das Nações
Unidas, em que estabelece que o propósito da Organização é “Desenvolver relações amistosas
entre as nações, baseadas no respeito ao princípio de igualdade de direitos e da
autodeterminação dos povos, e tomar outras medidas apropriadas ao fortalecimento da paz
universal.” Há igual menção no art. 55 da mesma Carta.
Em 1960 esforços mais substanciais foram impressos na tônica política à
autodeterminação. Em 14 de dezembro deste ano a Assembleia Geral das Nações Unidas adotou
a resolução 1514, conhecida como “Carta da descolonização”, que, segundo Pellet, apresentou
o direito à descolonização como um princípio absoluto, oponível a todos os Estados e
respeitante tanto aos territórios não autônomos como aos territórios sob tutela.
Leciona o doutrinador

A posteridade da resolução 1514 confirmou o vigor da vontade política anticolonial.


Desde 1961, pela resolução 1654 foi criado o Comitê de Descolonização, ou o
“Comitê dos 24” que “desvaloriza” o Conselho de Tutela e empreende,
energicamente, a aplicação concreta da Declaração. Em 1966, a Assembleia Geral
reafirma com ivtor, pela resolução 2189 que a persistência do regime colonial põe em
perigo a paz e a segurança internacionais – ligação apenas esboçada no artigo 55º da
Carta das Nações Unidas e no parágrafo 1º da resolução 1514 – e sobretudo, adopta
os dois Pactos internacionais dos Direitos do Homem, que dão uma base convencional
suplementar ao direto dos povos à autodeterminação (PELLET, 2003, pg532)

5.2 - Os princípios 2 “Os povos devem observar tratados e compromissos” e 6 “Os


povos devem honrar os Direitos Humanos”, respectivamente

Um elemento fulcral em Rawls, como no ordenamento jurídico internacional é a


necessidade de estabelecimento de parâmetros de orientação da conduta dos Estados no
ambiente internacional. Os tratados internacionais e as normas internacionais de direitos
humanos, nesse sentido, elaboram a estrutura na qual o comportamento será adequado, ou
deveria ser adequado.
Ao elencar as normas de direitos humanos como parâmetro fundamental para a ordem
internacional, John Rawls estabelece, por isso, um limite mínimo de compromissos e
responsabilidade dos povos, os quais encontram correspondência para com os Estados,
mantendo suas diferenças e aspectos próprios, para com a terminação do direito internacional.

41
Dentro da responsabilidade para com os direitos humanos, está uma responsabilidade mais
ampla, que seria com relação à estabilidade dos compromissos firmados pelos Estados e sua
força normativa ao comportamento de suas políticas externas. O autor, ao elencar que devem
observar tratados e compromissos, estabelece expressamente a atenção ao princípio jurídoco
do pacta sunt servanda para a realidade normativa internacional e sua condição, entendemos,
para pelo compromisso e efetivação aplicativa dos princípios e normas de direitos humanos
tanto na ceara internacional quanto nacional.
A consagração da obrigação jurídica de cumprimento de tratados foi positivada, dentre
outros instrumentos com redação similar, na consagrada Convenção de Viena sobre Direito dos
Tratados. No texto da Convenção lê-se, sobre este aspecto, a seguinte redação:
Convenção de Viena sobre Direito dos Tratados
(...)
Art. 18º - Obrigação de não frustrar o objeto e finalidade de um tratado antes de sua
entrada em vigor

Um Estado é obrigado a abster-se da prática de atos que frustrariam o objeto e a


finalidade de um tratado, quando:
a) Tiver assinado ou trocado instrumentos constitutivos do tratado, sob reserva de
ratificação, aceitação ou aprovação, enquanto não tiver manifestado sua intenção
de não se tornar parte no tratado;
b) Tiver expressado seu consentimento em obrigar-se pelo tratado no período que
precede a entrada em vigor do tratado e com a condição de esta não ser
indevidamente retardada.
(...)
Art. 26 – Pacta sunt servanda
todo tratado em vigor obriga as partes e deve ser cumprido por elas de boa-fé

O texto dispositivo da Convenção de Viena sobre Direito dos Tratados consagra,


expressamente, a obrigação estatal de cumprimento mandatório dos tratados e obrigações
jurídoco-internacionais que os Estados, mediante sua livre e soberana vontade, vierem a
firmar11. “O princípio segundo o qual os acordos tem de ser cumpridos (pacta sunt servandai)

11
“Os tratados são conhecidos pleos mais diversos nomes: Convenções, Acordos Internacionais, Pactos, Atos
Gerais, Cartas, Estatutos, Declarações e Alianças. Todos esses termos referem-se a um mesmo tipo de transação:
criação de acordos escritos pelos quais os Estados participantes obrigam-se legalmente a agir de determinada

42
é basilar para a ordenação de qualquer sistema de convivência organizada. Tanto mais relevante
e necessário em contexto descentralizado, como a sociedade internacional.” (ACCIOLY,
2014,pg.134)
O professor Pellet, sobre o princípio da Pacta Sunt Servanda, como proposto pela
Convenção de Viena sobre Direito dos Tratados, asseverou:

Ao propor esta redação, a C.D.I fez questão em sublinhar que enunciava o princípio
fundamental do direito dos tratados. A execução de boa-fé e o respeito da regra pacta
sunt servanda estão assim intimamente ligados constituindo dois aspectos
complementares de um mesmo princípio.(...) O princípio da boa fé eleva-se de uma
instituição reguladora do conjunto das relações internacionais. Ganha particular
relevo no direito dos tratados. De acordo com uma fórmula geral da Convenção de
Viena (art.18º), executar de boa fé significa: “abster-se de actos que privem um tratado
de seu objeto ou de seu fim”. Esta concepção é talvez demasiado larga, por
conseguinte demasiado vaga, porque não caracteriza suficientemente a face oposta,
que é a má fé. A execução da boa fé deveria ser definida como a que exclui toda a
tentativa de “fraude a lei”, toda a astúcia, e exige positivamente fidelidade e lealdade
aos compromissos assumidos. Seja como for é uma definição forçosamente abstrata;
ela deve ser clarificada pela prática. (...)
A obrigação de executar um tratado é tanto mais difícil de delimitar quanto mais as
normas convencionais forem ambíguas. Mediante redações apropriadas, as parets
podem com efeito reduzir o alcance dos seus compromissos, seja enunciando as suas
obrigações em termos suficientemente vagos para poderem aproveitar essa
ambiguidade no seu melhor interesse, seja reservando-se a possibilidade de se
desligarem dos seus compromissos em certas circunstâncias. (PELLET, 2003, pg.223)

Uma decorrência do princípio da Pact Sunt Servanda foi a progressiva normatização


da realidade política e jurídica ao qual a sociedade internacional aspirava. Até meados do século
XX, a humanidade enfrentou desafios e dilemas que evidenciaram a necessidade da socidade
internacional atentar-se para os horrores e as consequências que as duas Guerras Mundiais
geraram para o continente europeu e para o mundo.
É nesse contexto que dá-se a internacionalização dos direitos humanos, fenômeno que
corresponde à busca por definição, em parâmetros normativos, de regras e instrumentos de
direitos humanos que pudessem, aprofundamente, vincular a ação dos Estado e dissuadí-los,
eventualmente, de ações contrárias aos direitos humanos e demonstrar-lhes as consequências
jurídicas e políticas de suas violações.

maneira ou a estabelecer entre si determinadas relações. É declarada uma série de condições e arranjos que as
partes se obrigam a pôr em prática. Podem-se classificar os tratados em “tratados-leis” ou tratados normativos,
que se pretende tenham aplicabilidade universal ou geral, e “tratados-contratos”, que se aplicam somente a dois
Estados ou a um pequeno número destes. Tal distinção visa determinar o âmbito de aplicação de um tratado e o
espectro de obrigações por ele impostas. Não pode, porém, ser tida como rígida e definitiva, e há muitas áreas em
que as duas categorias se sobrepõem e se confundem. Os tratados são acordos expressos e constituem uma forma
de legislação substitutiva empreendida pelos Estados.”(SHAW, 2014, pg.74)

43
Esse movimento, nas palavras da professora Flávia Piovesan, é o resultado de um
movimento que surge à partir dos acontecimentos ocorridos, e acima mencionados, das
consequências das duas Guerras Mundiais. Mas há um momento político em que os direitos
humanos são levados ao limite da ação dos Estados, e sua violação inaceitáveis, que dá-se em
função da própria consequência e dos resultados que a violação em massa dos direitos humanos
imprimiu à consciência internacional, por meio da prática do genocídio e extermínio de seres
humanos; práticas essas ensejadas por regimes totarlitários de toda a monta, mas não somente,
com impactos importantes para ação e uso de armas em populações desprotegidas e vulneráveis,
espectadores inocentes de uma massacre geral pelo uso de armas nucleares.
Hannah Arendt, em As Origens do Totalitarismo, destaca como esse momento
histórico, cenário de fundo para que reivindicações normativas de direitos humanos viessem à
lume, causou questionamentos sobre as capacidades humanas para o bem e para o mal. Nas
palavras da filósofa, “é como se a humanidade se houvesse dividido entre aqueles que acreditam
na onipotência humana (e que julgam ser possível a partir da adequada organização das massas
num determinado sentido) e os que conhecem a falta de qualquer poder como a principal
experiência da vida.”.
Nesse contexto e professora Flávia Piovesam leciona:

No momento em que os seres humanos se tornam supérfluos e descartáveis, no


momento em que vige a lógica da destruição, tornar-se necessária a reconstrução dos
direitos humanos, como paradigma ético capaz de restaurar a lógica do razoável. A
barbárie do totalitarismo significou a ruptura do paradigma dos direitos humanos, por
meio da negação do valor da pessoa humana como fonte de direito. Diante dessa
ruptura, emerge a necessidade de reconstruir os direitos humanos como referencial e
paradigma ético que aproxime o direito da moral. (...) Nesse contexto, desenha-se o
esforço de reconstrução dos direitos humanos, como paradigma ético a orientar a
ordem internacional. Se a Segunda Guerra Mundial significou a ruptura com os
direitos humanos, o pós-guerra deveria significar sua reconstrução. Nasce ainda a
certeza de que a proteção dos direitos humanos não deve se reduzir ao âmbito
reservado de um Estado, porque revela tema de legítimo interesse internacional. Sob
essa prisma, a violação dos direitos humanos não pode ser concebida como questão
doméstica do Estado, e sim como problema de relevância internacional, como
legítima preocupação da comunidade internacional.
A necessidade de uma ação internacional mais eficaz para a proteção dos direitos
humanos impulsionou o processo de internacionalização desses direitos, culminando
na criação da sistemática normativa de proteção internacional, que faz possível a
responsabilização do Estado no domínio internacional quando as instituições
nacionais se mostram falhas ou omissas na tarefa de proteger os direitos humanos.
(PIOVESAN, 2007, pg.119)

À partir dessa circunstância uma pluralidade de instituições de cunho normativo-


universalista foram forjadas pelos Estados, a saber, a mais famosa delas a Organização das

44
Nações Unidas. Dentro da ONU, diversos ramos dos direitos humanos foram desenvolvidos,
desde a proteção de povos indígenas até o direito internacional humanitário.
A Declaração Universal dos Direitos Humanos, de 1948, veio a consagrar a
importância que os direitos humanos teriam tanto para a ONU e seu sistema quanto para a
difusão e legitimação dos direitos humanos internacionalmente. Posteriormente todo um
sistema de proteção à esses direitos foi criado, a saber as Cortes Regionais de Direitos
Humanos, como a Corte Interamericana de Direitos Humanos e Corte Européia de Direitos
Humanos, apenas para exemplificar. A regionalização normativa, aliada ao processo integrativo
que caracterizou o terço de década após a II Guerra Mundial, aprofundou a sistematização e a
materialização dos direitos humanos dentro dos processos de integração e cooperação entre os
Estados, regionalmente. No entanto, os parâmetros de direitos humanos internacionais não tem
o condão de substituir os instrumentos nacionais de cada Estado, e sua respectiva obrigação
política e jurídica, de garantir aos seus cidadãos pleno respeito e implementação de seus
direitos.
À titulo de exemplificação, e para demonstrar a relevância que os instrumentos de
direitos humanos alçaram dentro da estrutura institucional internacional e dentro da
circunstância política e jurídica internacionais, alguns instrumentos e tratados de direitos
humanos que estabeleceram sua importância no contexto:

• Carta das Nações Unidas


• Declaração Universal dos Direitos Humanos;
• Declaração Americana dos Direitos e Deveres do Home
• Convenção para Prevenção e Repressão do Crime de Genocídio
• Pacto Internacional sobre Direitos Civis e Políticos
• Pacto Internacional sobre Direitos Econômicos, Sociais e Culturais
• Convenção Internacional sobre a Eliminação de Todas as formas de Discriminação
Racial
• Pacto de São José da Costa Rica
• Protocolo de São Salvador
• Protocolo Adicional à Convenção Americana sobre Direitos Humanos referentes
à Abolição da pena de Morte
• Estatuto da Corte Interamericana de Direitos Humanos
• Regulamento da Corte Interamericana de Direitos Humanos

45
• Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra a
Mulher
• Protocolo Facultativo à Convenção sobre Eliminação de todas as Formas de
Discriminação contra a Mulher
• Convenção contra a Tortura e outros Tratamentos ou Penas Cruéis, Desumanos ou
Degradantes
• Convenção Interamericana para Prevenir e Punir a Tortura
• Declaração sobre Direito ao Desenvolvimento
• Convenção sobre o Direito da Criança
• Protocolo Facultativo à Convenção sobre os Direitos da Criança Relativo ao
Envolvimento de Crianças em Conflitos Armados
• Protocolo Facultativo à Convenção sobre os Direitos da Criança Referente à Venda
de Crianças, à Prostituição Infantil e à Pornografia Infantil
• Declaração e Programa de Ação de Viena
• Convenção Interamericana sobre Tráfico Internacional de Menores
• Convenção Interamericana para Prevenir, Punir e Erradicar a Violência contra a
Mulher
• Declaração de Pequim Adotada pela Quarta Conferência Mundial sobre as
Mulheres: Ação para Igualdade, Desenvolvimento e Paz
• Estatuto de Roma do Tribunal Penal Internacional
• Convenção das Nações Unidas sobre Corrupção
• Convenção Internacional sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência e seu
Protocolo Facultativo.

5.3 – Os princípios 4, 5 e 7, respectivamente “Os povos sujeitam-se ao dever de não


intervenção”, “Os povos tem o direito de autodefesa, mas nenhum direito de instigar a
guerra por outras razões que não a autodefesa”, "Os povos devem observar certas
restrições especificadas na conduta da guerra.”

A não-intervenção, juntamente com a soberania do Estado, são princípios


fundamentais, dentro das relações políticas internacionais, os quais conferem autonomia aos

46
Estados de plena ação, sem que exista justificativa para ingerência externa, pelo menos, do
ponto de vista formal.
Em igual razão, o uso da força para o direito internacional é apenas autorizado dentro
de circunstâncias delimitadas pela Carta das Nações Unidas, através de seu Conselho de
Segurança, ou em caso de autodefesa.
No desenvolvimento de situações beligerantes, de guerra, ainda assim o direito
internacional recobre a ação e a atuação dos Estados, monitorando seus movimentos e suas
ações, parametrizando o que, nas circunstâncias da guerra, é autorizado e o que não é
autorizado. Nesse sentido, os princípios de Rawls refletem institutos que existem no direito
internacional, a saber, respectivamente, a não-intervenção, o usos legítimo da força e o direito
internacional humanitário. Sobre cada um desses elementos, discorre-se à seguir.
A não-intervenção é, segundo o professor Alain Pellet, um dos elementos essenciais
da manutenção da estabilidade pacífica no cenário internacional. A coexistência dos Estados
depende da consagração, em instrumentos normativos, mas fundamentalmente na prática e no
costume dos Estados, da manutenção do princípio da não-intervenção internacionalmente.
De acordo com o Professor, existem três características que limitam a atuação do
Estado na ceara interancional, a saber:
1) O respeito ao direito internacional: é um aspecto fundamental da soberania e que
exerce a função própria de estabelecer os limites da atuação dos Estados em suas
relações;
2) A proibição da ingerência, ou não-intervenção: segundo Pellet, é a garantia e a
contrapartida da exclusividade das competências do Estado em seu território, dado
que a soberania é uma das consequências do respeito do princípio da não-
intervenção nos assuntos internos de um Estadol, e;
3) A obrigação, consagrados os dois princípios anteriores, de buscar a resolução
pacífica dos conflitos, por meio da obrigação de cooperação diplomática, negocial,
ou mesmo jurídica.
Ocorre que, em função da preponderância do Estado como agente no direito
internacional, houve a consagração de uma concepção já há muito adotada no costume
internacional, de “domínio reservado” de Estado.
Essencialmente o domínio reservado de Estado, é, segundo o Instituto de Direito
Internacional, o das atividades estatais em que a competência do Estado não esta vinculada pelo
direito internacional.
Prescreve o Professor Pellet

47
[o caráter evolutivo da extensão do domínio reservado] resulta do fundamento do
domínio reservado. Visto que é o direito internacional que determina a exntesão das
competências discricionárias dos Estados, a extensão do domínio reservado depende
do alcance dos compromissos internacionais de cada Estado e das intervenções
“autoritárias” das organizações internacionais. Esta implicação é sublinhada desde a
origem da jurisprudência atual. “A questão de saber se uma certa matéria entra ou não
entra no domínio exclusivo de um Estado é uma questão essencialmente relativa:
depende do desenvolvimento das relações internacionais....” “É muito possível que
numa matéria como a da nacionalidade, que não é, em princípio, regulada pelo direito
internacional, a liberdade do Estado de dispor à sua vontade seja, todavida, restringida
por compromissos que este teria tomado para com outros Estados. Neste caso, a
competência do Estado, exclusiva em princípio, encontra-se limitada pelo Direito
Internacional. (PELLET, 2003,pg.451)

Existem elementos concreto, no entanto, que trazem a discussão doutrinária para


materialidade concreta das decisões das cortes internacionais e para a positivação dos
instrumentos jurídicos internacionais. A condenação da intervenção, no caso do “Estreito de
Corfu”, pela Corte Internacional de Justiça, é um exemplo inequívoco.
Segundo o acórdão, “o pretenso direito de intervenção não pode ser encarado por ele
[o Tribunal] senão como uma manifestação de uma política de força, política que, no passado
deu lugar a abusos mais graves e que não poderia, quaisquer que fossem as deficiências
presentes da organização internacional, encontrar um lugar no direito internacional.”
A Assembleia Geral da ONU, sobre essa matéria tratou que
“Ver a “Declaração sobre a inadmissibilidade da intervenção nos assuntos internos
dos Estados e a proteção da sua independência e da sua soberania” (resolução
2131(XX) de 21 de Dezembro de 1965), assim como a “Declaração relativa aos
princípios do direito internacional respeitantes às relações amigáveis e de cooperação
entre os Estados de conformidade com a Carta”(resolução 2625 (XXV) de 24 de
Outubro de 1970).
A resolução 31.91 de 14 de Dezembro de 1976 precisa e completa os textos anteriores,
colocando assento na intervenção indireta (subversão, recrutamento e envio de
mercenários, recusa ou ameaça de recuso de assistência ao desenvolvimento
econômico). Seria prematuro considerar que esta interpretação ampla é
definitivamente recebida em direito positivo, memso se é retomado na Declaração
sobre a inadmissibilidade da intervenção e da ingerência nos assuntos internos dos
Estados. O texto adotado em 1981 chocou-se com a hostilidade da maior parte dos
Estados Ocidentais que o acusaram de responder sobretudo aos objetivos de não
alinhamento (condenação das alianças militares, justificação da rejeição de toda forma
de protesto contra as violações dos direitos humanos e a liberdade de informação).
(...)
O princípio da não intervenção constitui a consequência necessária e direta dos dois
pilares do direito das relações internacionais, o princípio da soberania e o da igualdade
dos Estados que é consequência indissociável. (PELLET, 2003, pg 452)

A segunda correspondência a qual o princípio 5 de John Rawls faz com a arquitetura


do direito internacional é em relação ao uso legítimo da força em caso de autodefesa.
A redação do art. 2º (4) da Carta das Nações Unidas prescreve que:

48
Art 2º: 4. Todos os membros deverão evitar, em suas relações internacionais, a
ameaça ou o uso da força contra a integridade territorial ou a independência política de
qualquer Estado, ou que sejam, de qualquer outra forma, incompatíveis com os propósitos das
Nações Unidas.

Segundo o professor Shaw, essa cláusula é considerada atualmente um princípio do


direito internacional consuetudinário e, como tal, vincula para todos os Estados que integram a
comunidade mundial. Ainda nesse sentido, a referência “à força” em vez da guerra é proveitosa,
por cobrir situações que envolvem o emprego da violência mas ficam aquém das exigências
técnicas que configuram o estado de guerra.12
É necessário a observância de que o artigo 2º se refere, não exclusivamente, ao uso da
força como igualmente as ameaças advindas de sua recorrência. Há precendente importantes
junto à Corte Internacional de Justiça. O Tribunal, para este caso, analisou, por meio do
instrumento de Parecer Consultivo a questão sobre a “Legalidade da ameaça ou uso de armas
nucleares”. Nesse sentido, conforme o texto do parecer, o Tribunal afirmou que “sinalizar a
intenção de usar a força caso ocorram certos eventos” poderia, segundo o artigo, constituir uma
ameaça quanto o pretendido uso da fosse fosse ele próprio ilegal.
Os exemplos oferecidos, segundo Shaw, incluíam ameaças de anexar territórios de
outro Estado ou de força-lo a “adotar ou deixar de adotar certas opções políticas ou econômicas.
A Corte pareceu, nas palavras do autor, aceitar que a simples posse de armas nucleares não
constituía, em si mesma, uma ameaça; no entanto, observa-se que a política de dissuasão
nuclear dependia da credibilidade da perspectiva d, em determinas circunstâncias, recorrer-se a
essas armas, afirmou-se que isto seria considerado ameaça dependendo da possibildaide de uso
especificamente pretendido da força dirigir-se contra a integridade territorial ou a
independência política de um Estado.

12
“o artigo 2 (4) foi proposto como um princípio do direito internacional na Declaração sobre os Princípios do
Direito Internacional, de 1970, e analisado sistematicamente. Em primeiro lugar, as guerras de agressão constituem
crime contra a paz, que acarreta responsabilidade perante o direito internacional. Em segundo lugar, os Estados
não podem ameaçar ou usar a força para violar as fronteiras internacionais existentes (incluindo as linhas de
demarcação ou armistício) ou para solucionar disputas internacionais. Em terceiro lugar, os Estados tem o dever
de se abster de ato de represália envolvendo o uso da força. Em quarto lugar, os Estados não podem utilizar a força
para privar os povos de seu direito à autodeterminação e à independência em atos de guerra civil ou atos terroristas
em outro Estado, e estão proibido de encorajar a formação de grupos armados para incursão no território de outro
Estado. Muitos desses itens, conquanto cruciais, são ambíguos. Embora a Declaração não seja em si mesma um
documento vinculativo, é importante como interpretação dos artigos pertinentes da Carta. Há exceções importantes
ao artigo 2(4), envolvendo as medidas tomadas em colegiado pela ONU e o direito à legítima defesa. Há alguma
controvérsia sobre a existência de tal exceção quanto a intervenção com fins humanitários.” (SHAW, 2010,
pg.839)

49
O ponto fundamental seria, nesse sentido, definir a proporcionalidade e se esta remete
ao dano que poderia ser causado ou à extensão da ameaça contra a qual se propõe a legítima
defesa. A ser verdadeira a segunda alternativa, como sugere a lógica, diz Shaw, tornar-se menos
problemática a ameaça de usar armas nucleares como reação contra o uso anterior das mesmas
armas ou possivelmente, de armas químicas ou de uso de bactérias.
Por fim, resta consagrado o uso da força, em legítima defesa, conforme expresso pelo
artigo 51 da Carta das Nações Unidas, em que se lê: “nenhum dispositivo da presente Carta
prejudicará o direito inerente à legítima defesa individual ou coletiva caso ocorra um ataque
armado contra um membro das Nações Unidas, até que o Conselho de Segurança tenha tomado
as medidas necessárias à manutenção da paz e da segurança internacionais. As medidas tomadas
pelos membros no exercício desse direito de legítima defesa deverão ser imediatamente
comunicadas ao Conselho de Segurança e não afetarão de nenhuma forma a autoridade e a
responsabilidade que a presente Carta atribuir ao Conselho, para levar a efeito, a qualquer
tempo, a ação que considerar necessária para manter ou restabelecer a paz e a segurança.
Sobre esse excerto, leciona Martin Shaw, que

Existe vasta controvérsia sobre a exata extensão do direito à legítima defesa nos
termos do artigo 51. Sustenta-se, por um lado, que o artigo 51 agora especifica, em
associação com o artigo 2(4), a abrangência e as limitações da doutrina. Isto é, pode-
se recorrer à legítima defesa apenas “caso ocorra um ataque armado”, e em nenhuma
outra circunstância. Por outro lado, alguns autores sustentam que a frase introdutória
do artigo 51, que estipula que “nenhum dispositivo da presente Carta pre judicará o
direito inerente à legítima defesa”, significa que existe de fato no direito internacional
consuetudinário um dirieto à legítima defesa que supera e ultrapassa as disposições
específicas do artigo 51, que se referem apenas à situação em que ocorre um ataque
armado. Um exame dos travaux préparatoires da Carta, que parecem sublinar a
validade do uso da força em situações de legítima defesa, reforça de certo modo essa
interpretação. Diversos teóricos e também alguns Estados encararam o artigo 51 como
mero detalhamento de um dos tipos de legítima defesa no conteto da responsabilidade
primária do Conselho de Segurança, pela par internacional e das técnicas de
compulsão disponíveis sob os termos da Carta. (SHAW, 2010, pg. 846)

Por fim, é importante ressaltar, que nos casos em que todos os mecanismos de
prevenção, dissuasão ou mesmo proibição da guerra não forem suficientes para conter a ação
beligerante entre Estados, há a regulamentação do uso da força pelo direito internacional. É o
chamado Direito Internacional Humanitário.
Conforme compreendido, o direito internacional humanitário deriva de fontes
convencionais, sobretudo das Convenções de Genebra de 1949, mas , a codificação do Direito
Humanitário pode ser encontrar ainda no século XIX, mais precisamente, em 1864, data na qual
fora aprovada a Convenção de Genebra para o melhoramento da Condição de Feridos em
Campo. Em 1949, após a II Guerra Mundial, diversos países tornaram-se parte nas Quatro

50
Convenções de Genebra de 1949, documentos que, de modo geral, compilaram e
sistematizaram diversas normas que estavam dispersas em tratados de menor alcance desde
1864. Nesse contexto, foram consagradas as quatro convenções, a saber:
• A convenção sobre Enfermos;
• A convenção sobre Náufragos;
• A Convenção sobre Prisioneiros de Guerra e;
• A convenção sobre Proteção de Civis.
Tomadas em conjunto, as Quatro Convenções dispõem um rol de normas que visam
proteger civis e militares fora de combate. De acordo com Rezek o Direito de Genebra também
obedece a três princípios gerais que garantem sua eficácia: o princípio da neutralidade, o
princípio da responsabilidade e o princípio da não discriminação. Ademais, a Convenção de
Genebra possui eficácia objetiva, ou seja, o descumprimento das normas por uma das partes do
conflito não desvincula outra parte de sua obrigação objetiva de cumprir com as Convenções.

As Convenções da Haia de 1907, em número de treze, exprimem o chamado “direito


da Haia” ou direito da guerra propriamente dito – por oposição ao “direito de
Genebra” ou direito humanitário. Ali se disciplinam práticas – como o ritual da prévia
declaração de guerra e do armistício – já existintas pelo menos desde 1945, visto só
cabíveis no cenário da guerra lícita. Do direito da Haia, contudo, sobrevivem normas
limitadas da liberdade de ação dos beligerantes, ainda hoje úteis no quadro dos
conflitos armados que desafiam o ideal pacifista das Nações Unidas. Essas normas se
poderiam agrupar em torno de três princípios básicos: (a) o dos limites ratione
personae (os não combatentes serão poupados de qualquer ataque ou dano
intencional); (b) o dos limites do ratione loci (os lugares atacáveis são somente
aqueles que configuram objetivos militares, cuja destruição total ou parcial representa
para o autor do ataque clara vantagem militar_; e (c) e dos limites ratione conditionis
(proíbem-se as armas e os métodos de guerra capazes de ocasionar sofrimento
excessivo aos combatentes inimigos).
(REZEK, 2014, pg. 424)

Uma dimensão fundamental acerca do Direito Humanitário é relacionado à outra


designação conferida, “Direito de Haia”, que consubstancia-se no acúmulo de normas que
versadas desde o século XIX e que se sistematizaram por meio das Convenções de Haia de
1899 e 1907. Estes instrumentos normativos, por meio dos tratados, disciplinam o tipo de
armamento e o método de emprego de tais armas, autorizadas pelo Direito Internacional
Humanitário, em situações de beligerância; trata, nesse sentido, de uma série de elementos tais
como a proibição de determinados armamentos e outros temas relacionados à limitação do uso
da força, tais como os procedimentos formais de declaração de guerra e os direitos e deveres
dos países neutros – estes disciplinados, atualmente, pela Carta da ONU, que, via de regra,
proíbe a guerra. Importante salientar que, em 1907, o Direito de Haia não proibia a guerra, uma

51
vez que a considerava um direito legítimo das potências, segundo o espirito da época. Desde
então, o Direito de Haia tem sido complementado por uma série de protocolos que ampliam a
proteção em casos de conflito armado, tais como o Protocolo para a Proteção de bens culturais
em caso de conflito armado (1954) e a Convenção sobre a proibição de certas armas (1980).
Atualmente, o Direito Internacional Humanitário tem evoluído naquilo que, segundo
a doutrina, pode ser definido como o Direito de Nova Iorque. Recebe essa nomenclatura pois
representa o desenvolvimento do Direito Internacional Humanitário sobretudo pela atuação das
Nações Unidas, organização que possui um papel cada vez mais relevante em conflitos
armados. Exemplo dessa atuação, a Resolução 2444 de 1968, intitulada “Respeito dos Direitos
Humanos em período de conflito armado”, demonstra a competência crescente dessa OI sobre
a temática. Trata-se de um Direito em evolução, principalmente por meio de resoluções e
decisões dos órgãos das Nações Unidas.
Por fim, outra vertente importante para o Direito Internacional Humanitário aparece
no chamado Direito de Roma, cujo principal diploma convencional é o Estatuto de Roma de
1998. Esse tratado é o núcleo do Direito Internacional Penal, mas também traz elementos que
contribuem para o adensamento do Direito Internacional Humanitário, na medida em que traz
a tipificação dos crimes de guerra. Em seu artigo 8º, define esse tratado que os crimes de guerra
correspondem, entre outros, às “violações graves às Convenções de Genebra, de 12 de Agosto
de 1949, a saber, qualquer um dos seguintes atos, dirigidos contra pessoas ou bens protegidos
nos termos da Convenção de Genebra”, o que inclui um longo rol de possíveis crimes tais como
o uso da tortura ou de tratamentos desumanos; a destruição injustificada de larga escala; ataques
intencionais à população civil oi a bens civis; entre diversos outros crimes.

5.4 – O Princípio 8 “Os povos tem o dever de assistir a outros povos vivendo sob condições
desfavoráveis que os impeçam de ter um regime político e social justo ou decente.”

O dever de assistência talvez conforme-se como o elemento congregador entre a teoria


da justiça rawlsiana e em alguma medida os instrumentos e a político inseridos no direito
internacional.
Sobre uma possível justiça distributiva entre os povos, Rawls prescreve:

Igualdade entre os povos. Sobre isso há duas concepções. Uma sustenta que a
igualdade é justa, ou um bem si. O Direito dos Povos, por outro lado, sustenta que as
desigualdades não são sempre injustas e que, quando são, é por causa dos seus efeitos
injustos na estrutura básica da Sociedade dos Povos e das relações entre os povos e
entre seus membros. Vimos a grande importância dessa estrutura básica ao
discutirmos a necessidade de tolerância de povos não-liberais decentes.

52
Vejo três razões para me preocupar com a desigualdade na sociedade nacional e
considerar como cada uma delas se aplica à Sociedade dos Povos. Uma razão para
reduzir as desigualdades em uma sociedade nacional é aliviar o sofrimento e as
dificuldades dos pobres. Contudo, isso não requer que todas as pessoas sejam iguais
na riqueza. Em si, não importa quão grande a distância entre ricos e pobres possa ser.
O que importa são as consequências. Em uma sociedade nacional liberal essa distância
não pode ser maior do que o permitido pelo critério da reciprocidade, de modo que os
menos favorecidos (como requer o terceiro princípio liberal) tenham meios suficientes
para fazer uso inteligente e eficaz da sua liberdade e levar vidas razoáveis e dignas.
(...)
A segunda razão para diminuir a distância entre ricos e pobres numa sociedade
nacional é que essa distância muitas vezes leva alguns cidadãos a serem
estigmatizados e tratados como inferiores, e isso é injusto. Assim, numa sociedade
liberal ou decente, devem ser evitadas as convenções que estabelecem hierarquias
reconhecidas socialmente mediante expressões de deferência. Elas podem ferir
injustamente o respeito por si mesmos dos que não são assim reconhecidos. O mesmo
deve ocorrer quanto às estruturas básicas da Sociedade dos Povos se os cidadãos de
um país se sentem inferiores aos cidadãos de outro por causa da riqueza maior destes
contanto que esses sentimentos sejam justificados. Não obstante, quando o dever de
assistência é cumprido, esses sentimentos são injustificados. Pois então, cada povo
ajusta a si mesmo o significado e a importância da riqueza da sua sociedade. Se
insatisfeito, pode continuar a aumentar a poupança ou, se isso não for viável,
emprestar de outros membros da Sociedade dos Povos.
A terceira razão para considerar as desigualdades entre os povos diz respeito ao
importante papel da equidade no processo político da estrutura básica da Sociedade
dos Povos. No caso nacional, esse interesse é evidentemente no assegurar a
honestidade das eleições e das oportunidades políticas de concorrer a cargo público.
(...) A equidade também desempenha um papel importante no processo político da
estrutura básica da Sociedade dos Povos (...) A equiedade básica entre os povos é dada
pelo fato de estarem representados igualmente na segunda posição original com o seu
véu da ignorância. (RAWLS, 2001, pg. 151)

Ao estabelecer os princípios de justiça para assistência a outro povo, não – nas palavras
de Rawls – necessariamente um Estado, a correspondência para o direito internacional, que o
autor da presente monografia encontra, é a capacidade de transferência de fundos e divisas,
afim de financiar tanto o processo de capacitação profissional interna de um Estado, quanto
políticas de ampliação de infraestrutura e regulação de desequilíbrios de mercados, como ocorre
com os financiamentos fomentados por órgãos internacionais.
Sobre a assistência, um quadro muito grande pode ser desenhado afim de retratar as
possibilidades que esta palavra enseja nas capacidades de cooperação internacional. Desde
transferência de tecnologia até cláusulas de nação mais favorável, passando pelo direito de
quebra de patentes e fundos emergenciais para desastres naturais. No entanto, para não fugir do
propósito da referida monografia, atentar-se-á somente ao órgão das Nações Unidas que, de
forma geral e essencial, engloba o espírito de assistência ao desenvolvimento dos países menos
favorecidos, que é o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, o PNUD.
O Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, PNUD, é o braço da ONU
ligado à cooperação de tecnologia e gerenciamento de coordenação e financiamento de políticas

53
institucionais voltadas para o desenvolvimento, como um todo, dos Estados, como também para
a erradicação da pobreza. O Programa foi criado em 1965, numa esteira de negociações
anteriores, de demandas dos Estados-Membros da ONU para a criação de um órgão que
favorecesse esse aspecto de cooperação técnica e de desenvolvimento.
Segundo as lições de Alain Pellet, o PNUD segue a seguinte regra de funcionamento:
“- os seus recursos provêm de contribuições voluntárias (após um período de
crescimento regular até 1980, as contribuições do PNUD, tendem a estagnar, o que
debilitar a usa posição privilegiada);
- a maior parte das instituições especializadas e um certo número de órgãos da ONU
competentes na matéria, são ‘participantes’ no PNUD; o que significa que eles
participam do Bureau consultivo inter-organizações, encarregue de todos os assuntos
importantes, e que recebe créditos do PNUD. Este alimenta assim uma parte
importante deos seus programas de assistência técnica;
- o PNUD determina os projetos prioritários com base numa programação por país,
fundada em necessidades expressas pelos Estados assistidos e tendo em conta uma
“cifra indicativa de planificação estabelecida pelo próprio PNUD”;
- o PNUD não assegura nunca o financiamento integral das operações nas quais
participa: o Estado beneficiário deve suportar uma parte das despesas, o que evita
alguns abusos;
- o PNUD assegura diretamente todas as operações de assistência que não sejam
confiadas a uma instituições especializada ou a um outro órgão da ONU;
A importância do seu papel operacional, a necessidade de coordenar os pedidos
governamentais e os trabalhos no terreno das “organizações participantes” justificam
a descentralização das estruturas do PNUD (presença de ‘representantes residentes’
em numerosos países do Terceiro Mundo)” (PELLET, 2003, pg. 1157)

Para outros tipos de assistências existem ainda outras instituições ligadas à ONU e
com finalidades parecidas, mas não exclusivas ao PNUD como: a UNCTAD13 (Conferência
das Nações Unidas para Comércio e Desenvolvimento; o BIRD14 (Banco Internacional para a
Reconstrução e Desenvolvimento – conhecido como Banco Mundial); o FISE, (Fundo
Internacional de Segurança da Infância) da UNICEF; o PAM (Programa de Alimentar
Mundial), vinculado à FAO (Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação,
entre outros15.
Regionalmente, o direito internacional e a política internacional estabeleceu o Banco
Interamericano de Desenvolvimento (BID), em 1959, com o intuito de fomentar o
desenvolvimento econômico no continente americano, aos moldes das ações já efetivadas pelo
BIRD. O Banco Interamericano de Desenvolvimento disponibiliza aos setores privados e
público dos Estados de todo o continente, recursos financeiros, através de empréstimos, doações

13
A UNCTAD foi criada em 1964 com a finalidade de promover os aspesctos de desenvolvimento e integração
econômicas internacionais aos países com um índice de desenvolvimento menor.
14
O BIRD foi criado como resultado da Conferência de Bretton Woods, em 1944, com a finalidade de promover
o desenvolvimento internacional através de políticas de financiamento e cooperação.
15
Poderia-se citar ainda o Fundo Monetário Internacional (FMI) e a Organização para Cooperação e
Desenvolvimento Econômico (OCDE).

54
ou mesmo de garantias, como também estabelece o serviço de assessoramento e assistência
técnica na formulação de políticas públicas e projetos de cooperação. (PORTELA, 2017)
O BID, conforme ensina o professor Paulo Henrique Portela, é presidido por uma
Assembleia de Governadores, aos quais compete a definição das linhas gerais da instituição. O
processo de supervisão e auditoria o Banco, fica à cargo de sua Diretoria Executiva, que
igualmente congrega poderes para estabelecimento de políticas operacionais como aprovação
de projetos, fixação de taxas de juros de empréstimos, autorização de captação de recursos e
aprovação do orçamento administrativo. Os recursos do Banco Interamericano de
Desenvolvimento é formado pelas participações por corta-parte dos Estados-membros, cujos
quais seus poderes de votação fica adstringido ao montante contributivo de capital ao Banco.
A sede do BID fica em Washington e o Banco foi fundado pelo Convênio Constitutivo do
Branco Interamericano de Desenvolvimento.

CONCLUSÃO

Uma conclusão inevitável: o pensamento de John Rawls é sofisticado e complexo. Os


meandros que conformam sua teoria são múltiplos e conferem ao leitor um desafio maior:
compreender esse pensamento até o ponto em que seja possível analisa-lo e interpretá-lo à luz
do objeto, que neste caso, é o Direito Internacional.
Esta monografia procurou abarcar o pensamento de John Rawls em sua essência. Nos
capítulos iniciais, foram desenvolvidas as ideias principais que fundamentam o pensamento de
John Rawls a saber, as desenvolvidas em Uma Teoria da Justiça. Vimos como se desenvolve
a concepção de Justiça como Equidade e sua fundamentação.
Um aspecto fundamental no processo de formulação teórico de Rawls, conclui-se, é
notar o modo como as ideias, aparentemente desconexas --- como por exemplo, a dimensão de
filosofia política pura (criação do Estado e formação do Contrato Social) podem reverberar para
o comportamento das nações na esfera internacional, por meio da replicação “segundo contrato
social” como as duas “posições originais”.
A seguir foi desenvolvido o fundamento metodológico de Rawls, por meio do processo
de “posições originais” – as duas—e o véu da ignorância.

55
Apresentou-se a obra O Direito dos Povos e procurou-se, nos Princípios do Direito dos
Povos, encontrar correspondência do pensamento rawlsiano com a prática e com as instituições
normativas de direito internacional. Uma conclusão que é possível chegar é que os Princípios
do Direito dos Povos tem as seguintes características:
1) Institucionalidade: por todos os princípios, em consonância e coerência com as
ideias desenvolvidas no início da monografia, é possível perceber que a teoria de
Rawls para a justiça no sentido interno do Estado, sua Justiça como Equidade,
quanto para o sentido externo do Estado, seu Direito dos Povos, refere-se não a
um modelo ou ideia (ideologia) mas ao comportamento e concepções das
instituições:
2) Organicidade : Rawls fundamenta sua teoria política e seu pensamento moral
através de suas obras, no tempo. Há uma organicidade, uma interdependência de
leituras, que inclusive para Este autor, foi difícil enfrentar;
3) Analiticidade: John Rawls ao desenvolver seus conceitos e proposições teóricas,
vale-se de explicações claras e transparentes. É possível, com clareza, perceber seu
pensamento e enquadrá-lo. Existe uma espécie de ‘honestidade intelectual’, não
havendo incursões de cunho obscuro ou mesmo jargões truncados. Mesmo assim,
seu pensamento é complexo e o encadeamento da ideais sofisticadamente
emaranhados.
À despeito das críticas que alguns filósofos fizeram à obra de Rawls, trafegar pelas
páginas de “O Direito dos Povos” possibilitou a perspectiva das fases do pensamento do autor
norte-americano. Com relação, especificamente, do Direito Internacional e à perspectiva liberal
desenvolvida por John Rawls, é possível depreender uma que o indivíduo não é o agente
preponderante de ação, nem o destino final para o qual institui-se o Direito, mas as instituições.
O objetivo geral de Rawls é encontrar uma definição intermediária entre o conceito
liberal e não liberal de "povo". Segundo o primeiro, a principal característica das pessoas é a
constituição, enquanto o segundo vê a cultura como sua característica mais importante. O
conceito liberal enfatiza o caráter voluntário e organizacional das pessoas, enquanto o conceito
não liberalreconhece seu caráter não voluntário e espontâneo. Para atingir seu objetivo, Rawls
vê a necessidade de enfraquecer os dois elementos.
Evidentemente, Rawls tenta não identificar necessariamente pessoas com nação e
distinguir ambos de estado. Fica a verificar se tal a distinção é apropriada ou se seu resultado
resultar em uma concepção de estado, por mais fina que seja. Rawls certamente mantém
distância de uma concepção realista de relações estatais e internacionais: a soberania externa

56
não inclui o direito de fazer guerra, mas apenas o direito de autodefesa, e a soberania interna
não é absoluta, mas limitada por limites constitucionais e por questões de relevância
internacional. No entanto, rejeitar uma concepção realista de Estado não leva necessariamente
a conceder subjetividade internacional às pessoas.
Rawls deriva dos fundamentos éticos do direito internacional pelo uso de sua técnica
de "contrato social", que forma a base de todo o seu trabalho. A teoria do contrato social envolve
brevemente uma situação hipotética de homens se reunindo no que Rawls chama de "posição
original" para decidir sobre regras constitucionais básicas para sua sociedade. Os homens na
posição original operam sob um "véu de ignorância:" eles não sabem como suas decisões
afetarão seu próprio caso particular, porque não conhecem suas próprias circunstâncias
particulares. Assim, eles escolherão princípios que minimizem suas perdas potenciais sob a
constituição (usando o conceito máximo da teoria dos jogos).
Em particular, eles não escolherão o princípio utilitário, uma vez que a maximização
da soma de vantagens em uma sociedade pode custar uma minoria da população (por exemplo,
se uma população minoritária de escravos aumentaria consideravelmente a felicidade da
maioria). , então a teoria utilitarista clássica pareceria apoiar a escravidão). Como ninguém, na
posição original, sabe qual será sua personalidade ou status social subsequente, ele não votará
em um princípio que permita a chance de ele estar entre a classe muito desfavorecida.
A rejeição de Rawls ao conceito realista de estado, ou seja, do paradigma de
Westphalia, leva à suposição básica do paradigma, a suposição de que a soberania do estado
deve ser fixada antes de qualquer regra da justiça internacional; portanto a definição das leis
internacionais implica soberania pré-estabelecida. Segundo Rawls, o conceito de soberania do
Estado não é preexistente e deriva necessariamente da Lei dos Povos. Essa é a razão pela qual
não encontramos uma formulação clara de soberania nos trabalhos anteriores de Rawls.
Somente quando sociedades liberais e não liberais aceitáveis
formular os princípios das relações internacionais, eles podem dar uma definição de
soberania do Estado. O realismo internacional tenta adequar as regras de comportamento aos
estados soberanos quando eles aparecem no cenário internacional.
Podemos objetar que o enfraquecimento do conceito de estado e o caráter
principalmente cultural e cooperativo do povo tornam as teorias acima mencionadas bastante
satisfatórias. Essa sobreposição ocorre em um nível mais baixo do que aquele em que a
soberania do estado corresponde à autodeterminação das pessoas. Definir a concepção de Rawls
como centrada no estado é errado, pois ele não leva a soberania interna a seus extremos e
defende a qualidade cooperativa da soberania externa.

57
Se o que se entende por Estado é a organização política da sociedade, então o Estado
pode ser definido como um complexo de instituições políticas, sem cobrar ao autor de ser
centrado no Estado. No entanto, a acusação de centrismo estatal adquire um significado peculiar
para os defensores do cosmopolitismo, segundo os quais o sujeito-agente é o indivíduo, e não
as pessoas. Eles rejeitam a organização política em uma base territorial, o significado político
das fronteiras, a primazia moral dos laços nacionais na fixação de restrições políticas, a defesa
dos povos. As tarefas de um governo devem ter uma base funcional, em vez de territorial, cada
uma de suas agências políticas preocupada com diferentes esferas da atividade humana. Como
nem todas as atividades são realizadas em um contexto territorial, nem todas as agências
também devem ser territoriais.
Tal argumentação leva à dissolução do conceito de estado, bem como do conceito de
pessoas em nível político, provando assim que ambos os conceitos estão necessariamente e
intimamente ligados. Afirmar a existência de um único povo na Terra não teria sentido, uma
vez que a humanidade não é um povo.
Rawls deixa transparente esta visão desde o início de sua obra. Como citado
preliminarmente na introdução deste trabalho, a destinação institucional das formulações de
Rawls vem ao encontro de sua ideia de isonomia e equidade, valor que, acredita o pensador,
são melhormente concretizado por meio das instituições e não exatamente pela ação das
pessoas; falhas, necessariamente, portanto. É um arranjo ousado que pode ser revisto por uma
miríade de intelectuais e politólogos da academia norte-americana.
Esta monografia buscou, com os recursos limitados que dispôs, enfrentar o autor mais
importante da filosofia política do século XX. Apesar de ciente de que não foi possível fazê-lo
com maestria, o autor desta monografia encarou o desafio sob a influência de suas leitura sobre
o autor da obra O Direito dos Povos, para quem a dificuldade da realidade não é mais que uma
construção e que é possível enfrenta-la, a seu tempo e modo.

58
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