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Varia Historia

ISSN: 0104-8775
variahis@gmail.com
Universidade Federal de Minas Gerais
Brasil

FERREIRA, MÁRIO CLEMENTE


O Mapa das Cortes e o Tratado de Madrid A cartografia a serviço da diplomacia
Varia Historia, vol. 23, núm. 37, enero-junio, 2007, pp. 51-69
Universidade Federal de Minas Gerais
Belo Horizonte, Brasil

Disponível em: http://www.redalyc.org/articulo.oa?id=384434820015

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O Mapa das Cortes e o Tratado de Madrid

O Mapa das Cortes


e o Tratado de Madrid
a cartografia a serviço da diplomacia

The Mapa das Cortes and the Treaty of Madrid


cartography and diplomacy in Portugal

MÁRIO CLEMENTE FERREIRA


Mestre em História dos Descobrimentos e da Expansão Portuguesa
pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas – Universidade Nova de Lisboa
mariocferreira@clix.pt

RESUMO Este artigo pretende salientar a importância do emprego de


mapas durante o processo negocial que conduziu à assinatura do Tratado
de Madrid em 1750. Procura conhecer o processo de elaboração e as
fontes utilizadas na “construção” do Mapa das Cortes, datado de 1749,
destacando as viciações que apresenta. Avalia também a importância deste
para a consecução do objectivo pretendido com aquelas negociações: o
reconhecimento pela Espanha da ocupação territorial alcançada por Portugal
no interior da América do Sul em meados do século XVIII.
Palavras-chave História da Cartografia, Diplomacia, Mapa das Cortes

ABSTRACT This article intends to discuss the importance of use of maps


during the political negotiation that result in the signature of the Treaty of
Madrid, between Portugal and Spain, in 1750. Studies the process of “pro-
duction” of the 1749’s Mapa das Cortes, analyzing the sources utilized, and
the distortions presented in it. Furthermore, discuss the importance of the

* Artigo recebido em 19/02/2007. Autor convidado.

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Mário Clemente Ferreira

map to Spain’s recognition of the Portuguese’s territorial claims in South


America, in the middle of eighteenth century.
Key words History of Cartography, Diplomacy, Mapa das Cortes

Ao longo das negociações que conduziram em 1750 à assinatura do


Tratado de Madrid, os mapas adquiriram uma enorme importância enquan-
to instrumentos visuais de trabalho. E isso é perfeitamente compreensível
quando estava em discussão a definição dos limites territoriais das coroas
ibéricas na América do Sul. As cartas geográficas serviram então para sus-
tentar pretensões territoriais e para resolver litígios de fronteira. Muitas das
reuniões dos ministros plenipotenciários de Portugal e de Espanha, respec-
tivamente o Visconde de Vila Nova de Cerveira, Tomás da Silva Teles, e José
de Carvajal e Lancaster, tiveram lugar com “mapas a vista”.1 A importância
destes derivava do fato de serem uma simplificação da informação sobre
uma determinada região. Sintetizavam o que era conhecido e compreendido,
suposto ou até ignorado acerca de um determinado espaço ou território.2
O avanço das negociações fez-se, muitas vezes, graças à disponibili-
dade da representação cartográfica dos territórios ou espaços a delimitar.
Isso mesmo foi reconhecido pelo negociador português quando, em Maio
de 1749, comunicou já ter ajustado, com o auxílio dos mapas de que dispu-
nha, os limites portugueses com as terras espanholas, à exceção dos Sete
Povos das Missões do Uruguai.3 Porém, durante o processo de negociação,
Carvajal e Lancaster manifestou, por diversas vezes, o desejo de possuir
mapas das áreas em disputa. Chegou, inclusivamente, a lamentar-se da
falta destes e de informações geográficas complementares.4 Esta neces-
sidade refletia algumas carências que os espanhóis sentiam de elementos
cartográficos, nomeadamente de territórios então ocupados por missões
jesuítas, sobretudo da região de Chiquitos.5 Fato que limitou a capacidade
de negociação de Espanha por desconhecer exatamente até onde Portugal
havia avançado em Mato Grosso. Por outro lado, verificou-se um notório

1 Carta de Tomás da Silva Teles para o Secretário de Estado Marco António de Azevedo Coutinho, Madrid, 11-1-1749,
apud CORTESÃO, Jaime. Alexandre de Gusmão e o Tratado de Madrid. Rio de Janeiro: Ministério das Relações
Exteriores – Instituto Rio Branco, 1953, parte IV, tomo I, doc. LXXVIII, p. 303.
2 Ver GODLEWSKA, Anne. Commentary: the fascination of jesuit cartography. Joseph A. Gagliano e Charles E. Ronan.
Jesuit Encounters in the New World: jesuit chroniclers, geographers, educators and missionaries in the Americas,
1549-1767. Roma: Institutum Historicum S. I., 1997, pp. 100-102.
3 Carta de Tomás da Silva Teles para M. A. de Azevedo Coutinho, Aranjuez, 8-5-1749, apud CORTESÃO, Jaime.
Alexandre de Gusmão e o Tratado de Madrid, parte IV, tomo I, doc. LXXVIII, p. 303.
4 Carta de M. A. de Azevedo Coutinho para Tomás da Silva Teles, Lisboa, 14-12-1748, apud CORTESÃO, Jaime.
Alexandre de Gusmão e o Tratado de Madrid, parte IV, tomo I, doc. LX, p. 251.
5 Ver GUEDES, Max Justo. A cartografia da delimitação das fronteiras do Brasil no século XVIII. Cartografia e diplo-
macia no Brasil do século XVIII. Lisboa: C.N.C.D.P., 1997, p. 32.

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O Mapa das Cortes e o Tratado de Madrid

descuido na observação sistemática de longitudes na América espanhola.


A primeira apenas foi realizada pelo Padre José Quiroga que publicou a sua
carta da província jesuíta do Paraguai em 1749, a qual, aliás, apresentava
erros que beneficiavam as pretensões portuguesas.6
Assim, para solucionar a carência de mapas manifestada pelo negocia-
dor espanhol e ultrapassar as renitências do mesmo em aceitar o “projecto
do tratado de limites” remetido de Lisboa a 22 de Novembro de 1747, o
Secretário de Estado Marco António de Azevedo Coutinho informou Silva
Teles que estava a ser preparada uma carta geral que ilustrava os limites
territoriais propostos à corte espanhola, “para que de hum jacto se veja
nele todo o giro dos confins de que tratamos”.7 O governante português
realçava, desta forma, a complementaridade entre o Mapa das Cortes e o
texto sobre o qual seria negociado o acordo diplomático de 1750, a qual,
aliás, foi destacada por Jaime Cortesão.8 Portanto, foram estas as princi-
pais razões da elaboração do Mapa dos Confins do Brazil com as terras
da Coroa de Espanha na America Meridional: ilustrar o estipulado no texto
do projeto do tratado e levar o negociador espanhol a aceitar a proposta
portuguesa de limites.
Por isso, o mapa, elaborado em Lisboa sob orientação de Alexandre
de Gusmão, representa por uma linha vermelha os limites dos domínios
ibéricos avançados pelo negociador português e constantes do plano do
tratado anteriormente enviado. No entanto, não se conhece o seu autor
ou, eventualmente, os seus autores. Em finais de 1748 já se trabalhava na
sua preparação.9 Mas só a 8 de Fevereiro de 1749 o mapa já concluído é
enviado para Madrid. Ou melhor, terão sido remetidos dois exemplares, pois
o negociador português refere-se, em 1751, aos “dous primeiros Mapas
que vieram para o nosso governo, hum que tem D. Joze de Carvajal com a
copia do Plano, e outro eu com outra copia do mesmo Plano”.10 O exemplar
existente na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro não é nenhum destes,
pois, embora assinado pelos negociadores, a linha de limites que apresenta
é já a que seria acordada apenas em Janeiro de 1750.11

6 CORTESÃO, Jaime. Alexandre de Gusmão e o Tratado de Madrid. Lisboa: Livros Horizonte, 1984, vol. II, p. 489.
7 Carta de M. A. de Azevedo Coutinho para Tomás da Silva Teles, Lisboa, 14-12-1748, apud CORTESÃO, Jaime.
Alexandre de Gusmão e o Tratado de Madrid, parte IV, tomo I, doc. LX, p. 252.
8 CORTESÃO, Jaime. História do Brasil nos Velhos Mapas. Rio de Janeiro: Ministério das Relações Exteriores – Ins-
tituto Rio-Branco, 1971, vol. 2, p. 251.
9 Carta de M. A. de Azevedo Coutinho para Tomás da Silva Teles, Lisboa, 14-12-1748, apud CORTESÃO, Jaime.
Alexandre de Gusmão e o Tratado de Madrid, parte IV, tomo I, doc. LX, p. 252.
10 Carta de Tomás da Silva Teles para Sebastião José de Carvalho e Melo, Aranjuez, 24-6-1751, apud CORTESÃO,
Jaime. Alexandre de Gusmão e o Tratado de Madrid. Rio de Janeiro: Ministério das Relações Exteriores – Instituto
Rio Branco, 1960, parte IV, tomo II, doc. XCIV, p. 253.
11 Sobre os principais exemplares do Mapa das Cortes, ver FERREIRA, Mário Clemente. O Tratado de Madrid e o
Brasil Meridional. Os trabalhos demarcadores das partidas do sul e a sua produção cartográfica (1749-1761). Lisboa:
C.N.C.D.P., 2001, pp. 60-67. Um dos dois originais elaborados em Lisboa e remetidos para Madrid foi localizado
em Paris, no Depôt Géographique du Ministère des Affaires Etrangères, pelo Barão do Rio-Branco.

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Mário Clemente Ferreira

Para a elaboração do Mapa das Cortes foram utilizadas diversas fon-


tes, enumeradas por Marco António de Azevedo Coutinho (na verdade por
Alexandre de Gusmão) numa carta dirigida a Tomás da Silva Teles.12 Elas
foram variadas quanto às suas características, à sua proveniência e ao seu
rigor científico. A par da cartografia jesuíta, dos mapas de La Condamine ou
do Padre Diogo Soares, encontramos informações de missionários, “me-
morias de viandantes”, “relações, e riscos de alguns mineiros”. Por outro
lado, a região localizada entre o rio Amazonas e a Província de Charcas foi
traçada no Mapa das Cortes de forma idealizada, sabendo-se apenas que
os grandes rios afluentes do Amazonas tinham origem naquela região e
que uma cordilheira acompanhava o grande rio de leste a oeste.13

Figura 1: Mapa das Cortes. (BNRJ)

12 Carta de M. A. de Azevedo Coutinho para Tomás da Silva Teles, Lisboa, 8-2-1749, apud CORTESÃO, Jaime.
Alexandre de Gusmão e o Tratado de Madrid, parte IV, tomo I, doc. LXV, pp. 262-264. Existe a minuta desta carta
com letra de Alexandre de Gusmão e apenas com a assinatura do Secretário de Estado.
13 Carta de M. A. de Azevedo Coutinho para Tomás da Silva Teles, Lisboa, 8-2-1749, apud CORTESÃO, Jaime.
Alexandre de Gusmão e o Tratado de Madrid, parte IV, tomo I, doc. LXV, p. 262.

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O Mapa das Cortes e o Tratado de Madrid

No entanto, os portugueses dispunham de mapas que não foram uti-


lizados como fontes. Azevedo Coutinho refere que “do terreno que corre
desde o Mato grosso até ao Rio das Amazonas, não tem saido a lús mais
que huma pequena Carta das Missões dos Moxos no tomo 12 da sobre-
dita obra [Lettres Edifiantes …]”.14 Contudo, a carta Mission des Moxes,
etablie par les PP. de la Compagnie de Jesus dans le Perou acabou por ser
preterida relativamente às informações prestadas por alguns mineiros de
Mato Grosso.15
Em Madrid, os negociadores possuíam ainda outros mapas. Em Abril
de 1749, Silva Teles e Carvajal e Lancaster, para verificar e conferir os limites
apontados na proposta portuguesa do tratado, utilizaram a carta Cours du
Fleuve Maragnon autrement dit des Amazones, da autoria do Padre Samuel
Fritz, publicada em 1691 e posteriormente corrigida por La Condamine.16
Também esta não foi utilizada na elaboração do mapa português de 1749.
Numa outra conferência com Carvajal e Lancaster, o diplomata português
refere ainda que utilizou “hum [mapa] da Colonia [do Sacramento] que eu
trouxe de Lisboa […]”.17
Importa, no entanto, proceder a uma análise mais pormenorizada das
fontes empregadas na construção do Mapa das Cortes enunciadas por
Alexandre de Gusmão e Azevedo Coutinho. Relativamente às “terras Espa-
nholas da parte do Sul”, o Secretário de Estado indica, em duas ocasiões,
o mapa “que anda no tomo 22 das Léttres edifiantes”.18 Estava a referir-se
à carta de Jean-Baptiste Bourguignon D’Anville, Le Paraguay où les RR. PP.
de la Compagnie de Jesus ont répandu leurs Missions, datada de 1733 e
publicada no ano seguinte.19 Num trabalho anterior analisamos o Mapa das
Cortes partindo do pressuposto, como os referidos documentos indicavam,
que aquela teria sido a fonte utilizada para a região do rio Paraguai e as
terras para ocidente dele.20 O mesmo, aliás, já havia feito Jaime Cortesão.21
Daí resultava que o traçado do alto Paraguai aparecia no Mapa das Cortes

14 Carta de M. A. de Azevedo Coutinho para Tomás da Silva Teles, Lisboa, 14-12-1748, apud CORTESÃO, Jaime.
Alexandre de Gusmão e o Tratado de Madrid, parte IV, tomo I, doc. LX, pp. 251-252.
15 Esta carta foi publicada em Lettres Edifiantes et Curieuses, Ecrites des Missions Etrangeres, par quelques Missio-
naires de la Compagnie de Jesus. Paris: Chez Nicolas Le Clerc, 1717, vol. XII, entre pp. XXVIII-1.
16 Carta de Tomás da Silva Teles para M. A. de Azevedo Coutinho, Madrid, 2-4-1749, apud CORTESÃO, Jaime.
Alexandre de Gusmão e o Tratado de Madrid, parte IV, tomo I, doc. LXXII, p. 279.
17 Carta de Tomás da Silva Teles para M. A. de Azevedo Coutinho, Madrid, 13-5-1749, apud CORTESÃO, Jaime.
Alexandre de Gusmão e o Tratado de Madrid, parte IV, tomo I, doc. LXXIX, p. 306.
18 Cartas de M. A. de Azevedo Coutinho para Tomás da Silva Teles, Lisboa, 14-12-1748 e 8-2-1749, apud CORTESÃO,
Jaime. Alexandre de Gusmão e o Tratado de Madrid, parte IV, tomo I, respectivamente doc. LX, p. 251 e doc. LXV,
p. 262.
19 Publicada em Lettres Edifiantes et Curieuses, Ecrites des Missions Etrangeres, par quelques Missionaires de la
Compagnie de Jesus. Paris: Chez Nicolas Le Clerc, 1734, vol. XXI, entre pp. 280-281. A indicação do tomo 22
na carta de Azevedo Coutinho é um lapso, na medida em que a carta de D’Anville aparece no tomo 21 daquela
obra.
20 Ver FERREIRA, Mário Clemente. O Tratado de Madrid e o Brasil Meridional. Os trabalhos demarcadores das partidas
do sul e a sua produção cartográfica (1749-1761), pp. 68-71.
21 Ver CORTESÃO, Jaime. Alexandre de Gusmão e o Tratado de Madrid. Lisboa: Livros Horizonte, 1984, vol. IV, pp.
861-909.

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desviado para oriente o que originava um estreitamento do território entre


este rio e o rio Paraná, parecendo aproximar a região de Cuiabá e Mato
Grosso da linha de Tordesilhas. Haveria assim uma clara manipulação
cartográfica com o nítido objetivo diplomático de conseguir a aceitação
espanhola relativamente ao plano português de limites.
No entanto, em Novembro de 2004, no Colóquio Internacional Luzes nos
Trópicos, realizado em São Paulo, o Prof. João Carlos Garcia apresentou uma
estimulante comunicação na qual questionava a utilização daquela carta do
geógrafo francês como fonte do Mapa das Cortes. Atendendo ao traçado e
orientação do rio Paraguai, adiantou a hipótese de ter sido utilizada a carta
jesuíta Paraquariae Provinciae Societatis Iesu, publicada em 1732 e atribuída
a António Machoni. Essa hipótese levou-nos a estudar novamente o Mapa
das Cortes. Concluímos, então, que a fonte utilizada não foi efetivamente o
mapa de D’Anville de 1733, nem o mapa jesuíta de 1732, indicado por João
Carlos Garcia. A fonte foi a edição alemã, de Mateus Seutter, do mapa que
os jesuítas da província do Paraguai haviam publicado em 1726 e atribuído
ao padre Juan Francisco Dávila. Este apresenta o mesmo título daquele
que viria a ser impresso em 1732, para cuja edição foi inclusivamente
utilizado como fundo. Aquela constatação obtém-se pela comparação do
Mapa das Cortes com estes dois mapas jesuítas. Assim, verifica-se que na
edição de Seutter, tal como no mapa português, o rio Paraguai apresenta
uma extensão menor em cerca de 2º de latitude relativamente ao mapa
de 1732. Por outro lado, também o desenho da península formada pelas
embocaduras dos rios Paraná e Uruguai no Mapa das Cortes é idêntico ao
do mapa publicado em Augsburgo.
Embora o alto Paraguai apareça traçado no mapa elaborado em Lis-
boa de forma menos sinuosa, aproximando-se do mapa de 1732, tal como
também no que se refere à representação do grande lago onde ele teria
origem, existem outros dois argumentos, para além da extensão do rio, que
nos levam a defender a utilização da edição de Mateus Seutter. Em primeiro
lugar, pensamos ser esta a carta a que se referia Tomás da Silva Teles quan-
do escreveu para Lisboa, sobre uma reunião mantida com o negociador
espanhol, que “principiamos a dita conferencia com o mapa à vista que
fizeram os Jesuitas do Paraguay, e emendou M.r d’Anville no ano de 1732
[sic] […]”.22 Acontece que o próprio D’Anville refere que para a elaboração
da sua carta de 1733 utilizou diversos mapas jesuítas, preferindo a carta
oferecida ao Padre Geral da Companhia de Jesus, Miguel Ângelo Tamburini,
em 1727. Esta data avançada pelo geógrafo francês não é um lapso, pois
D’Anville estava precisamente a referir-se à carta de Seutter, à qual atribuía

22 Carta de Tomás da Silva Teles para M. A. de Azevedo Coutinho, Madrid, 2-4-1749, apud CORTESÃO, Jaime.
Alexandre de Gusmão e o Tratado de Madrid, parte IV, tomo I, doc. LXXII, p. 279.

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O Mapa das Cortes e o Tratado de Madrid

erradamente a edição ao ano de 1727.23 Assim, a carta de Mateus Seutter


foi utilizada pelos negociadores das duas coroas porque também teria sido
uma das fontes do mapa português de 1749.

Figura 2: Mapa da Província do Paraguai, Mateus Seutter.

23 Lettres Edifiantes et Curieuses, Ecrites des Missions Etrangeres, par quelques Missionaires de la Compagnie de
Jesus, vol. XXI, pp. 429-431. Ver CARDIFF, G. Furlong. Cartografía Jesuítica del Rio de la Plata. Buenos Aires:
Talleres S. A., Casa Jacobo Peuser, Ltda., 1936, vol. I, pp. 45-46.

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Em segundo lugar, o mapa de Seutter parecia gozar de grande difusão


e prestígio entre aqueles que conheciam os mais recentes avanços na ex-
ploração geográfica do interior do território brasileiro. Disso são prova as
referências nas diversas notícias sobre o rio Madeira existentes na Bibliote-
ca Pública de Évora. O autor de uma dessas informações, provavelmente
Francisco Pedro de Mendonça Gorjão, Governador do Estado do Maranhão
e Grão-Pará, considera-o “mais verdadeiro” que o mapa de Guillaume de
L’Isle ou que as informações acerca do rio Madeira presentes na relação
de La Condamine.24 Destaca inclusivamente o fato de aquele mapa colocar
as cabeceiras do rio Madeira entre os 12º e os 15º de latitude sul, preci-
samente as mesmas coordenadas geográficas com que elas surgem no
Mapa das Cortes.
Comprovada a utilização do mapa jesuíta editado por Mateus Seutter
como fonte cartográfica e não do mapa de D’Anville datado de 1733, não
existe, assim, no mapa de 1749 uma adulteração no sentido de desviar o alto
Paraguai para oriente. No entanto, ela também não era necessária uma vez
que o mapa de Seutter colocava erradamente a região de Cuiabá próxima
dos 349º do meridiano da ilha do Ferro, aproximadamente a coordenada
da cidade de Belém, na época já conhecida, ou seja, junto do meridiano
de Tordesilhas, tal como se observa no Mapa das Cortes.
Contudo, mantém-se um alargamento intencional dos domínios
espanhóis para ocidente, pois de acordo com a fonte cartográfica, por
exemplo, à latitude do Espírito Santo deveria surgir no Mapa das Cortes
o Oceano Pacífico numa extensão superior a um grau de longitude o que
não se verifica. Parece-nos haver aqui uma intenção evidente de querer
minimizar junto do negociador espanhol a dimensão dos territórios portu-
gueses, limitados pelo Oceano Atlântico, em oposição à idéia de domínios
espanhóis “intermináveis”. O Mapa das Cortes transmite, desta forma,
informação manipulada, o que ilustra a sua importância para uma tomada
de decisão estratégica.
Resta apenas uma questão. Porque é que Azevedo Coutinho, ao
enumerar as fontes do Mapa das Cortes, refere-se expressamente que “a
parte deste mapa que respeita as terras Espanholas da parte do Sul he
tirada do que se acha no tomo 22 das cartas edificantes produzido pelos
Missionarios Castelhanos”,25 quando assim não sucedeu? Para esta dúvida
continuamos ainda à procura de uma resposta que vá para além de uma
possível desatenção da parte do Secretário de Estado.

24 «Descubrimento do Rio Topajós athe o Cuyabá e Matto grosso, 1747», Biblioteca Pública de Évora, Códice CXV/2-
13, fols. 329, 332 e 340 vº.
25 Carta de M. A. de Azevedo Coutinho para Tomás da Silva Teles, Lisboa, 8-2-1749, apud CORTESÃO, Jaime.
Alexandre de Gusmão e o Tratado de Madrid, parte IV, tomo I, doc. LXV, p. 262.

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O Mapa das Cortes e o Tratado de Madrid

Para as “nossas terras da mesma parte Austral” foi utilizada a Nova e


1.ª Carta da Terra firme, e costas do Brazil ao Meridiano do Rio de Janei-
ro, desde o Rio da Prata athé Cabo Frio, com o novo caminho do Certão
do Rio Grande, athé á Cidade de S. Paulo, da autoria de um dos padres
matemáticos, Diogo Soares, datada de cerca de 1738.26 Relativamente ao
território a que serviu de fundo, desde a Colônia do Sacramento até Santos,
passando pelas regiões dos atuais estados do Rio Grande do Sul, Paraná
e Santa Catarina, as diferenças de traçado relativamente ao Mapa das Cor-
tes são apenas de pormenor. No entanto, a região cartografada por Diogo
Soares foi desviada para leste no mapa de 1749. Como salientou Jaime
Cortesão, Alexandre de Gusmão ao colocar o canal do Rio Grande de São
Pedro aproximadamente sobre o meridiano de Belém do Pará deslocava,
propositadamente, o sul do Brasil cerca de 3º e 30’ para oriente.27 É que o
Padre Diogo Soares já havia calculado com bastante exatidão a longitude
deste local, tal como La Condamine a de Belém do Pará, o que mostra a
intencionalidade desta viciação. Uma cópia da carta de Diogo Soares foi
facultada por Tomás da Silva Teles ao negociador espanhol, porque “no
que ele compreende o temos pelo mais exacto por ser feito pelo dito Pa-
dre sobre o mesmo terreno”.28 Ao facultar a cópia a Carvajal e Lancaster, a
corte portuguesa não colocava em risco as suas pretensões, pois nela as
longitudes estavam contadas relativamente ao meridiano do Rio de Janei-
ro e confrontando-a com a do Padre José Quiroga, de 1749, os territórios
a ceder pelos portugueses entre os rios da Prata e Ibicuí pareciam nesta
maiores que a parte a entregar pelos espanhóis.
Azevedo Coutinho também informou Silva Teles que “a parte que se
segue desde o Rio Parana até o Cuiaba he tirada do mapa que remeteo
Gomes Freire de Andrade e de outras memorias de viandantes”. Até a pou-
cos anos desconhecia-se que mapa teria enviado Gomes Freire de Andrade
para Lisboa. Jaime Cortesão chegou a avançar, erradamente, a utilização
do mapa sertanista de Simão Bueno.29 Entretanto, há alguns anos, tivemos
a oportunidade de identificar a carta referida por Azevedo Coutinho. Trata-
se da Descripçam do Continente da America Meridional que nos pertence
com os Rios, e Montes, que os Certanejos mais experimentados, dizem ter
encontrado, cuja divisaõ se faz, pertencente à colecção de Guita e José
Mindlin, de São Paulo.30 Este mapa foi um dos que o Governador do Rio
de Janeiro, Gomes Freire de Andrade, terá mandado elaborar, certamente
por solicitação de Alexandre de Gusmão. Foi desenhado e enviado para

26 Esta carta geográfica encontra-se no Serviço Geográfico do Exército, no Rio de Janeiro.


27 CORTESÃO, Jaime. Alexandre de Gusmão e o Tratado de Madrid. Lisboa: Livros Horizonte, 1984, vol. IV, p. 874.
28 Carta de Tomás da Silva Teles para José de Carvajal e Lancaster, Aranjuez, 26-5-1749, apud Anais da Biblioteca
Nacional do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, 1938, vol. LII, p. 17.
29 CORTESÃO, Jaime. História do Brasil nos Velhos Mapas, vol. 2, p. 220.
30 Ver FERREIRA, Mário Clemente. Uma ideia de Brasil num mapa inédito de 1746. Oceanos. Lisboa: C.N.C.D.P.,
2000, nº 43, pp. 184-195.

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Lisboa em finais de 1746, sendo de autor desconhecido. Contudo, pelo


modo de representação e pelas convenções quanto aos grafismos, cores
e figurações utilizadas, apesar do traçado tosco de vastas regiões, parece
tratar-se de um trabalho de um engenheiro militar, provavelmente oriundo
da Academia Militar do Rio de Janeiro. A sua elaboração e envio para a
corte insere-se, portanto, no vasto plano de Gusmão em obter informações
sobre o espaço brasileiro, sobretudo das regiões mais ocidentais, vizinhas
da América espanhola e, consequentemente, áreas de fronteira entre as
possessões ibéricas. Pelo menos desde 1733 que ele manifestava esse
interesse que, aliás, se foi intensificando com o decorrer dos anos.31 O fato
de nele estar traçada uma proposta de limites com a América espanhola,
que reflete a concepção de Gomes Freire de Andrade acerca do Brasil,
parece também ser a satisfação a pedidos de Gusmão.
Aliás, os jesuítas procuraram fazer crer, no contexto da sua expulsão
dos domínios castelhanos, que as viagens de colonos do Brasil às mis-
sões de Castela faziam parte de um amplo plano do Estado português,
coordenado em Lisboa por Alexandre de Gusmão e no Rio de Janeiro por
Gomes Freire de Andrade, para a obtenção de informações sobre aquelas
regiões. O padre Juan de Escandón, Procurador da Província do Paraguai
em Madrid, defendeu que desde a década de 1740 até a de 1750 os por-
tugueses registraram toda aquela região de fronteira com o objetivo de se
prepararem para as negociações com a Espanha e que com os dados
obtidos “hicieron de todo el Mapa que despues en el ajuste firmaron los
Reyes; y hecho ya el Mapa como despues se observò cesaron totalmente
aquellas antecedentes correrias de Portugueses andantes”.32 Apesar do
exagero destas palavras, compreensível pela conjuntura que os membros
da Companhia de Jesus enfrentavam, e da ausência de provas documen-
tais que mostrem a existência daquele plano, verificou-se efetivamente um
aproveitamento das informações obtidas com as viagens de iniciativa dos
sertanistas de Mato Grosso, sendo elas também empregues na elaboração
do Mapa das Cortes.
A grande preocupação presente no mapa de 1746 é a representação
dos territórios interiores do Brasil, vizinhos dos domínios espanhóis. Por outro
lado, ele ilustra também a então recente articulação do território ocupado
por Portugal, sobretudo do litoral com as regiões mineiras, nomeadamente
o percurso das monções de São Paulo para Cuiabá e o caminho terrestre
para o extremo-oeste por Goiás. Mas também reflete os contactos estabe-

31 Ver CORTESÃO, Jaime. Alexandre de Gusmão e o Tratado de Madrid. Lisboa: Livros Horizonte, 1984, vol. III, p.
654; carta de Alexandre de Gusmão para Tomás Robi de Barros Barreto, Lisboa, 6-6-1743, apud CORTESÃO,
Jaime. Alexandre de Gusmão e o Tratado de Madrid. Rio de Janeiro: Ministério das Relações Exteriores – Instituto
Rio Branco, 1950, parte II, tomo I, doc. LXXXIII, p. 375.
32 «Papel del Señor Regente de Buenos Aires sobre asunto de Línea divisoria de los Reynos de España y Portugal»,
Real Academia de la Historia, Madrid, Colecção Mata Linares, tomo VIII, f. 49.

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O Mapa das Cortes e o Tratado de Madrid

lecidos pelos portugueses, nas décadas de 1730 e 1740, com as missões


espanholas de Moxos e Chiquitos. E ainda iniciativas de exploração territorial,
como a de Amaro Leite Moreira no interior de Goiás. O cartógrafo sabia
das últimas iniciativas tomadas para a exploração dos sertões. Portanto,
Alexandre de Gusmão também ficou a conhecê-las.

Figura 3. Descripçam do Continente da America Meridional...


(Biblioteca de de Guita e José Mindlin)

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Sobre este mapa, Azevedo Coutinho considerou que “do caminho de


Sam Paulo até o Cuiabá pelos Rios, o melhor mapa que temos he o que
mandou fazer Gomes Freire de Andrade”.33 Para o Mapa das Cortes, segundo
o Secretário de Estado, ele foi empregue para a representação do território
“desde o Rio Parana até o Cuiabá”.34 Efetivamente é o que se observa da
confrontação dos dois mapas, pois a forma como a rede hidrográfica foi
identificada e, sobretudo, a representação iconográfica da Chapada de São
Francisco Xavier de Mato Grosso não deixam qualquer dúvida. No entanto,
o enorme erro na latitude atribuída a esta chapada na carta de 1746 foi cor-
rigido no mapa de 1749. Aliás, Azevedo Coutinho tinha escrito a Silva Teles
que “No mesmo mapa se acha marcado o Sitio de Matto grosso […] e o
Cuiabá; porem a situação de Matto grosso deve ser mais ao sul conforme
outras confrontações”.35
Deste mapa, foi enviada uma cópia ao negociador português em Madrid,
Tomás da Silva Teles. No entanto, Azevedo Coutinho alertou-o “que quanto
ao Mapa mandado por Gomes Freire de Andrade não convem comunicalo
da sorte que está, porque nele apontou aquele Governador a Raia que lhe
parecia conveniente estabelecerse, sendo a sua idea, por falta de inteira
noticia das nossas rezões, muito inferior ao que justamente devemos pre-
tender. Pelo que se for necessario a V. E. valerse daquele Mapa pelo que
respeita ao caminho de S. Paulo para o Cuiabá, e até o Mato grosso (que
he somente o que elle contem de mais particular) poderá V. E. ou fazer co-
piar só aquela parte ou todo o Mapa, suprimindo o que aponta a respeito
da futura raia”.36 Azevedo Coutinho estava a referir-se à proposta de limites
traçada no mapa de 1746 e que, segundo os responsáveis de Lisboa, ficaria
aquém das pretensões portuguesas. Tratava-se, sobretudo, da região dos
Sete Povos das Missões do Uruguai que segundo a proposta enviada do Rio
de Janeiro se manteria sob domínio castelhano, enquanto Lisboa pretendia
obtê-la pela troca com a Colônia do Sacramento. Quanto à utilização deste
mapa pelo Visconde-Embaixador em Madrid, parece ter sido efetivamente
executada pelo menos uma cópia, pois na Casa da Ínsua existe um mapa
incompleto e que é claramente uma reprodução do de 1746. Nele foi retirada
a proposta de limites mas manteve-se a representação do caminho de São
Paulo para Cuiabá, tal como havia sugerido o Secretário de Estado.37

33 Carta de M. A. de Azevedo Coutinho para Tomás da Silva Teles, Lisboa, 14-12-1748, apud CORTESÃO, Jaime.
Alexandre de Gusmão e o Tratado de Madrid, parte IV, tomo I, doc. LX, p. 251.
34 Carta de M. A. de Azevedo Coutinho para Tomás da Silva Teles, Lisboa, 8-2-1749, apud CORTESÃO, Jaime.
Alexandre de Gusmão e o Tratado de Madrid, parte IV, tomo I, doc. LXV, p. 262.
35 Carta de M. A. de Azevedo Coutinho para Tomás da Silva Teles, Lisboa, 14-12-1748, apud CORTESÃO, Jaime.
Alexandre de Gusmão e o Tratado de Madrid, parte IV, tomo I, doc. LX, p. 251.
36 Carta de M. A. de Azevedo Coutinho para Tomás da Silva Teles, Lisboa, 28-12-1748, apud CORTESÃO, Jaime.
Alexandre de Gusmão e o Tratado de Madrid, parte IV, tomo I, doc. LXI, p. 253.
37 Casa da Ínsua, Penalva do Castelo, nº A 13. Este mapa encontra-se reproduzido em GARCIA, João Carlos (coord.).
A Mais Dilatada Vista do Mundo. Inventário da Colecção Cartográfica da Casa da Ínsua. Lisboa: C.N.C.D.P., 2002,
p. 326, com o nº 102.

62
O Mapa das Cortes e o Tratado de Madrid

Como os erros no mapa enviado por Gomes Freire de Andrade eram


grandes, nomeadamente no que respeita ao rio Guaporé (ali também de-
nominado por Mamoré) que surgia como afluente direto do rio Amazonas,
no Mapa das Cortes “o rio Guaporé, e Missões dos Moxos são deliniados
conforme as relações, e riscos de alguns mineiros do Mato grosso, que
forão a elas por duas vezes, e conforme algumas noticias que la recolhe-
rão”.38 Azevedo Coutinho estava a referir-se às informações decorrentes
das expedições capitaneadas por Manuel Félix de Lima, da qual apenas
regressaram a Mato Grosso alguns dos seus membros, e Francisco Leme
do Prado, realizadas em 1742 e 1743. À chegada de ambas, os sertanistas
prestaram declarações ao Ouvidor de Cuiabá, João Gonçalves Pereira, que
as enviou para Lisboa em Setembro de 1743.39 Eram estas as “relações”
referidas por Azevedo Coutinho. Mas entre elas também se encontrariam
as informações prestadas por Félix de Lima e um seu companheiro em
Lisboa, para onde foram enviados pelo Governador do Pará após a sua
chegada a Belém em inícios de 1743. Os relatos enviados de Mato Grosso
foram também utilizados, no Rio de Janeiro, para a elaboração do mapa
de 1746.
As informações de Leme do Prado que chefiou a segunda expedição,
mas que também participou na primeira, deram origem a um dos “riscos”
referidos pelo Secretário de Estado e que se encontra no Arquivo Histórico
Ultramarino de Lisboa, representando parte do curso dos rios Guaporé e
Mamoré.40 Assinado por João Gonçalves Pereira, trata-se, na verdade, de um
mapa sem qualquer rigor científico, mas que sintetiza as informações obtidas
sobretudo após a segunda viagem de Leme do Prado. Nele encontra-se
a seguinte informação sobre a localização da missão castelhana de Santa
Rosa, na margem direita do Guaporé: “Fundarão os Padres esta Missão em
Janeiro de 1743, porque paçando Leme do Prado em fins de Novembro por
esta passagem não havia signal della, e paçando segunda vez em Março
de 1743 a achou fundada com cazas e mais Fabricas”. O abandono desta
missão pelos espanhóis foi uma das exigências portuguesas durante as
negociações do Tratado de 1750 aceites por Madrid. Comparando a topo-
nímia deste mapa assinado por Gonçalves Pereira e a sua correspondente

38 Carta de M. A. de Azevedo Coutinho para Tomás da Silva Teles, Lisboa, 8-2-1749, apud CORTESÃO, Jaime.
Alexandre de Gusmão e o Tratado de Madrid, parte IV, tomo I, doc. LXV, p. 262.
39 As informações recolhidas pelo Ouvidor encontram-se no Arquivo Histórico Ultramarino, em Lisboa, e foram
publicadas por CORTESÃO, Jaime. Alexandre de Gusmão e o Tratado de Madrid. Rio de Janeiro: Ministério das
Relações Exteriores – Instituto Rio Branco, 1951, parte III, tomo II, docs. VII a IX, pp. 52-80. Sobre estas viagens,
ver MAGALHÃES, Basílio de. Expansão Geográfica do Brasil Colonial. São Paulo: Companhia Editora Nacional,
1978 (4ª ed.), pp. 188-193; DAVIDSON, David Michael. How the Brazilian West was won: Freelance and State on the
Mato Grosso Frontier, 1732-1752. ALDEN, Dauril. Colonial Roots of Modern Brazil. Berkeley/Los Angeles/Londres:
University of California Press, 1973, pp. 91-93 e SOUTHEY, Robert. História do Brasil. Rio de Janeiro: Livraria de
B. L. Garnier, 1862, tomo V, pp. 398-426 e 439-444.
40 [Parte do curso dos rios Guaporé e Mamoré], Arquivo Histórico Ultramarino, Cartografia Manuscrita, Mato Grosso,
nº 850.

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no Mapa das Cortes, verifica-se que elas são idênticas, faltando no último
o topónimo da missão de Exaltação da Santa Cruz, apesar de contar com
a indicação de uma missão no local que lhe corresponde.
Azevedo Coutinho comunicou a Tomás da Silva Teles que “a situação
das nossas Missões do Rio da Madeira e do Rio dos Tapajós, e suas ad-
jacencias he tirada de mapas, e relações vindas do Pará”. Esses mapas
e relações foram solicitados por Alexandre de Gusmão ao Governador do
Estado do Grão-Pará e Maranhão. Francisco Pedro de Mendonça Gorjão
escreveu ao Cardeal da Mota que

como o mesmo Conselheiro [Gusmão] me pediu com instância notícias exac-


tas do rio da Madeira e das Minas do Mato Grosso, situadas em meio dumas
vertentes que desaguam no mesmo rio, da parte do nosso Brasil, fiz as diligên-
cias possiveis por conseguir sobre esta matéria as noticias mais próximas da
verdade, e ordenei ao secretário deste Governo, José Gonçalves [da Fonseca],
as reduzisse a um mapa, que o executou na forma que faço presente a Vossa
Eminência, semelhante ao que remeto ao mesmo Alexandre de Gusmão.41

O Governador referia-se ao mapa do rio Madeira desenhado por José


Gonçalves da Fonseca em 1747, certamente com base na narração e mapa
do sargento-mor Francisco de Melo Palheta que, em 1722 e 1723, explorou
os rios Madeira e Mamoré, nas informações prestadas em Belém do Pará
por Manuel Félix de Lima que, em 1742 e 1743, desceu os rios Guaporé e
Madeira e num mapa elaborado por João de Sousa Azevedo que em 1746
e 1747, pelos rios Arinos e Tapajós, desceu de Mato Grosso até ao Pará.42
Para além deste mapa desenhado por Gonçalves da Fonseca, as relações
das viagens por si utilizadas foram também certamente enviadas para Lis-
boa e, por isso, também estariam disponíveis a quem traçou o Mapa das
Cortes de 1749.
Quanto ao rio Amazonas, o seu curso foi copiado do mapa de Charles
Marie de La Condamine, elaborado a partir dos levantamentos que efec-
tuou durante a descida do grande rio, em 1743 e 1744, intitulado Carte du
Cours du Maragnon ou de la Grande Riviere des Amazones e publicado pela
primeira vez em 1745.43 Confrontando-o com o mapa de 1749, tendo como
referência a linha do Equador e as coordenadas geográficas de Belém do
Pará, destaca-se a grande semelhança entre ambas. A única exceção refere-

41 Ofício de Francisco Pedro de Mendonça Gorjão ao Cardeal da Mota, Belém, 3-11-1747, Arquivo Histórico do
Itamaraty, Arquivo Barão Duarte da Ponte Ribeiro, lata 288, maço 8.
42 A utilização por Gonçalves da Fonseca dos resultados das viagens de Melo Palheta e Félix de Lima depreende-se
da explicação do próprio mapa. Ver [Mapa do rio Madeira desde as nascentes dos rios Beni e Mamoré até a foz,
no rio Amazonas], Mapoteca do Itamaraty, Rio de Janeiro, nº 771.3ª – 1722/1747. Sobre o emprego de um mapa
«feito rusticamente por João de Souza de Azevedo» ver carta de Francisco Xavier de Mendonça Furtado para
António Rolim de Moura, Pará, 28-5-1754, apud CORTESÃO, Jaime. Alexandre de Gusmão e o Tratado de Madrid.
Rio de Janeiro: Ministério das Relações Exteriores – Instituto Rio Branco, 1963, parte V, doc. XCI, p. 214.
43 Foi publicado na obra de CONDAMINE, Charles Marie de La. Relation abrégée d’un voyage fait dans l’intérieur de
l’Amerique Méridionale. Paris: Chez la Veuve Pissot, 1745.

64
O Mapa das Cortes e o Tratado de Madrid

se ao traçado do rio Negro que no mapa das negociações foi alterado para
oriente, desvio que chega a atingir cerca de 2º e 30’. Porém, esta alteração
deveu-se a uma informação recolhida por Alexandre de Gusmão junto do
carmelita Frei André da Piedade, visitador das missões portuguesas dos
rios Negro e Amazonas, que durante a sua presença em Lisboa, em 1746
e 1747, se encontrara por diversas vezes com aquele conselheiro.44 Prova-
velmente, Frei André da Piedade também terá prestado informações para a
representação do território situado entre os rios Amazonas e Orinoco, pois
Azevedo Coutinho informou Silva Teles que “o paiz que medeia entre hum, e
outro destes rios he deliniado conforme algumas noções imperfeitas dadas
por missionarios Carmelitas do Rio Negro”.
Finalmente, uma das situações em que a fonte utilizada foi mais respei-
tada pelo autor do Mapa das Cortes refere-se à utilização da carta de 1741
do Padre José Gumilla, Mapa de la Provincia y Missiones de la Compañia
de IHS del Nuevo Reyno de Granada.45 Na representação do baixo Orinoco
e do seu delta, não se verificaram alterações significativas dessa matriz no
mapa português de 1749.
Podemos então concluir que o Mapa das Cortes é verdadeiramente
uma construção cartográfica com claras finalidades diplomáticas. Ele en-
gendra o espaço, não se limitando a representá-lo apenas virtualmente.46
Esta construção fez-se com a viciação ou ocultação de conhecimentos já
então disponíveis. Se muitos erros presentes no mapa são justificados pela
cartografia mais corrente da época, como a distensão da costa nordeste,
o desvio para leste do alto Paraguai e o encurtamento do Amazonas, a
verdade é que Alexandre de Gusmão conhecia com bastante aproximação
o traçado do meridiano de Tordesilhas e a latitude e longitude de Vila Boa
de Goiás, calculadas apenas com um erro aproximado de 1º pela missão
dos padres matemáticos, o que lhe permitiria concluir que o Paraguai nos
mapas jesuítas estava demasiadamente desviado para leste. Conhecia ain-
da, desde a sua elaboração, a Carte de l’Amérique méridionale, de D’Anville
que, embora apresente a data de 1748, apenas foi publicada em 1750, já
após a assinatura do Tratado de Madrid, e que traçava e localizava os rios
Tocantins-Araguaia, Xingu e Madeira de forma muito mais perfeita. O desvio
para leste do sul do Brasil em mais de 3º de longitude ilustra claramente a
intencionalidade de Alexandre de Gusmão em colocar esta região tão de-
sejada pelos portugueses próxima ao meridiano de Tordesilhas. Igualmente

44 Carta de Alexandre de Gusmão para Tomás da Silva Teles, Lisboa, 24-2-1749, apud Anais da Biblioteca Nacional
do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, 1938, vol. LII, p. 41.
45 Este mapa foi publicado pela primeira vez em 1741, como ilustração do livro de GUMILLA, Padre José. El Orinoco
Ilustrado, historia natural, civil, y geographica, de este gran río, e de sus caudalosas vertientes. Madrid: Imprenta y
Libreria de Manuel Fernández, 1741.
46 Ver CONDURU, Robert. Geometria Bélica: cartografia e fortificação no Rio de Janeiro setecentista. CARITA, Hélder, e
ARAÚJO, Renata (coord.). Universo Urbanístico Português, 1415-1822. Colectânea de Estudos. Lisboa: C.N.C.D.P.,
1998, p. 137.

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significativo é o fato do Mapa das Cortes estar graduado em latitudes e


longitudes, mas só as primeiras se encontrarem numeradas.
Valendo-se de algumas viciações efetuadas, de uma boa articulação
dos erros da cartografia que então circulava e da ocultação dos progressos
portugueses no conhecimento geográfico do Brasil, ignorados por Carvajal
e Lancaster, Gusmão conseguiu fazer crer em Madrid que os avanços de
Portugal na América do Sul eram menores do que se poderia supor. Só
assim se compreende a reação do negociador espanhol à apresentação
do Mapa das Cortes por Silva Teles. Este escreveu que Carvajal sentiu “a
grande admiraçam, que experimenta hum cego quando ve a luz clara de
que se achava privado desde o seu nascimento”.47 Terá, inclusivamente,
solicitado ao negociador português ficar na posse do mapa para analisar
com maior profundidade os limites propostos, sobretudo na região de Mato
Grosso e dos rios Guaporé e Madeira, traçados ali de forma bastante errônea
mas que viria a ser aceite por Espanha, o que somente foi possível pelo
seu desconhecimento da geografia da região, nomeadamente da carta de
D’Anville datada de 1748. Aliás, no ano da edição desta, em Maio de 1750,
o Visconde-Embaixador comunicava ao Secretário de Estado Marco Antônio
de Azevedo Coutinho que esta carta ainda não existia na corte de Madrid
e acrescentava, com algum exagero, que quando isso se verificasse “nam
ha no Ministerio, nem fora dele, quem tenha a curiozidade de observalo,
nem que tenha a paciencia de confrontalo, e muito menos quem saiba o
de que nos estamos de pose na America, e o que os Espanhoes possuem,
nem o que lhes toca verdadeiramente […]”.48 Esta informação servia para
tranqüilizar o Secretário de Estado acerca dos problemas que a carta de
D’Anville pudesse provocar. Essas inquietações haviam sido manifestadas
por Azevedo Coutinho pouco tempo antes, numa carta para o negociador
português em que afirmava que “pode suceder que se ahi marcarem no
mesmo mapa a fronteira que rezulta do nosso Tratado, faça entre esses
Ministros alguma impressão prejudicial a confrontação do que fica a huma,
e outra Monarquia”.49 Instruía ainda o Embaixador que, perante as eventuais
dúvidas dos espanhóis, argumentasse que, embora a costa e os rios da
Prata e Amazonas estivessem corretamente traçados e localizados, aquela
carta apresentava profundas incorreções no interior do território, adiantando
como exemplos a localização errada de Mato Grosso e dos rios da região
das missões castelhanas de Moxos.

47 Carta de Tomás da Silva Teles para M. A. de Azevedo Coutinho, Madrid, 2-4-1749, apud CORTESÃO, Jaime.
Alexandre de Gusmão e o Tratado de Madrid, parte IV, tomo I, doc. LXXII, p. 281.
48 Carta de Tomás da Silva Teles para M. A. de Azevedo Coutinho, 9-5-1750, apud CORTESÃO, Jaime. Alexandre de
Gusmão e o Tratado de Madrid, parte IV, tomo II, doc. XCI, p. 249.
49 Ver carta de M. A. de Azevedo Coutinho para Tomás da Silva Teles, Lisboa, 18-4-1750, apud CORTESÃO, Jaime.
Alexandre de Gusmão e o Tratado de Madrid, parte IV, tomo II, doc. XC, pp. 247-248.

66
O Mapa das Cortes e o Tratado de Madrid

Contudo, após o exame do Mapa das Cortes a postura de Carvajal


e Lancaster perante a proposta portuguesa alterou-se repentinamente.
Depois de um aparente impasse no avanço da negociação, questionado
pela rainha espanhola Maria Bárbara de Bragança, filha de D. João V, sobre
o que esperar das conferências com o ministro português assegurou-lhe
“que as dispozições eram as melhores para esperar bom sucesso da nosa
negociaçam”.50

Figura 4. [América del Sur], 1759, Archivo General de Simancas, M. P. y D., IV – 36.

50 Carta de Tomás da Silva Teles para M. A. de Azevedo Coutinho, Madrid, 2-4-1749, apud CORTESÃO, Jaime.
Alexandre de Gusmão e o Tratado de Madrid, parte IV, tomo I, doc. LXXII, p. 285. A este propósito, é importante
também recordar o relevante papel desta rainha em todo o processo negocial que conduziu à assinatura do
tratado. Acompanhou pessoalmente as negociações e foi através dela que a coroa espanhola havia manifes-
tado disponibilidade para negociar a questão da Colónia do Sacramento (Sobre o papel de Maria Bárbara de
Bragança, ver CORTESÃO, Jaime. Alexandre de Gusmão e o Tratado de Madrid. Rio de Janeiro: Ministério das
Relações Exteriores – Instituto Rio Branco, 1956, parte I, tomo II, p. 266; MOLINA CORTÓN, Juan. Reformismo y
Neutralidad. José de Carvajal y la diplomacia de la España Ilustrada. Badajoz: Editora Regional de Extremadura,
2003, pp. 124-126).

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Por outro lado, a comparação que Carvajal efetuou entre o Mapa das
Cortes e o do Padre José Quiroga, entretanto publicado já no ano de 1749,
levou o negociador espanhol a ceder na sua última resistência e aceitar a
entrega do território dos Sete Povos das Missões por troca com a Colônia
do Sacramento. É que com os erros presentes no mapa jesuíta, aquele
território surgia nele muito menor que no mapa português.
Confirma-se, desta forma, uma superioridade portuguesa na preparação
das negociações e no conhecimento cartográfico das regiões em disputa.
Carvajal e Lancaster, como ele próprio se havia lamentado, não possuía
suficientes mapas e informações geográficas dessas regiões. Segundo
Silva Teles, o negociador espanhol nem dispunha de uma obra jesuíta com
grande circulação na Europa desde o início do século XVIII como as Lettres
Edifiantes et Curieuses, Ecrites des Missions Etrangeres, par quelques Mis-
sionaires de la Compagnie de Jesus, onde se encontravam reproduzidas
algumas cartas dos territórios em causa. Mas o negociador português
duvidava, inclusivamente, que Carvajal e Lancaster possuíssem a relação
de La Condamine publicada em 1745, em que este geógrafo, para além de
descrever a viagem que efetuara pelo Amazonas, publicou a sua célebre
carta do curso deste rio.51
Uma outra evidente manifestação do avanço português no conhe-
cimento cartográfico foi a ausência de mapas elaborados em Espanha,
anteriores à assinatura do tratado, onde se discutissem os limites territo-
riais propostos pelos portugueses, contrariando as pretensões de Lisboa.
Apenas conhecemos dois mapas elaborados com essa finalidade, contudo
traçados após Janeiro de 1750 e, provavelmente, não em Espanha, mas na
América do Sul. Um deles, com o título Mapa de los dominios de España, y
Portugal en la America Meridional, de data desconhecida, representa muito
toscamente o território sul-americano. Aparecem desenhadas as ilhas de
Cabo Verde e está traçado, a partir delas, o meridiano de Tordesilhas. Apre-
senta também a linha de limites acordada em Madrid. Parecendo tratar-se
de origem jesuíta, ordem religiosa ferida pelo fato de ter cedido o território
dos Sete Povos das Missões a Portugal, este é claramente um mapa com
finalidades políticas, ou seja, alertar para os prejuízos territoriais permitidos
pela corte espanhola na América do Sul.52 De 1759 existe um outro mapa,
sem título, em que também a América do Sul aparece traçada de forma
incorreta em muitas das suas regiões. Assinala a linha do Tratado de Tor-
desilhas, surgindo as terras que segundo este acordo pertenceriam aos
portugueses pintadas a vermelho. Traça ainda a linha divisória do Tratado

51 Carta de Tomás da Silva Teles para M. A. de Azevedo Coutinho, Madrid, 2-4-1749, apud CORTESÃO, Jaime.
Alexandre de Gusmão e o Tratado de Madrid, parte IV, tomo I, doc. LXXII, p. 285.
52 Mapa de los dominios de España, y Portugal en la America Meridional, post. a 1750, Servicio Geográfico del Ejercito,
Madrid.

68
O Mapa das Cortes e o Tratado de Madrid

de Madrid, mostrando a amarelo as terras que os portugueses obteriam


com esse convênio e que se estendiam muito para além do meridiano de
1494.53 Este mapa acompanhou uma carta de Pedro de Ceballos para o
ministro Ricardo Wall, escrita na missão de S. Borja a 20 de Fevereiro de
1759.54 Nela, Cevallos alerta para a “má fé” com que os portugueses, no-
meadamente Gomes Freire de Andrade, atuavam na questão da entrega
da Colônia do Sacramento prevista no acordo de 1750 e destaca também
a perda de territórios a favor de Portugal. Tal como o mapa anterior, também
este tinha como objetivo destacar a vantagem territorial conseguida pelos
portugueses na América do Sul com o tratado de Madrid. Importa apenas
salientar que, ao contrário do Mapa das Cortes, estes dois têm traçada a
linha de Tordesilhas. A justificação parece evidente.
Por tudo isto, o Mapa das Cortes, habilmente construído em Lisboa sob
a supervisão de Alexandre de Gusmão, funcionou como um instrumento
essencial para a aceitação pela Espanha, na sua quase totalidade, da
proposta enviada de Lisboa e para a conseqüente conclusão das negocia-
ções do Tratado de Madrid assinado a 14 de Janeiro de 1750. Isso mesmo
resumiu Silva Teles ao escrever que “o mapa novamente formado, obra
felizmente bem lograda para o intento ajudou infinitamente para a ultima
concluzam […]”.55

53 [América del Sur], 1759, Archivo General de Simancas, M. P. y D., IV – 36.


54 Carta de Pedro de Cevallos para o ministro Ricardo Wall, São Borja, 20-2-1759, apud Campaña del Brasil. Ante-
cedentes Coloniales. Buenos Aires: Archivo General de la Nacion, 1939, tomo II, pp. 257-260.
55 Carta de Tomás da Silva Teles para M. A. de Azevedo Coutinho, Escorial, 3-11-1749, apud CORTESÃO, Jaime.
Alexandre de Gusmão e o Tratado de Madrid, parte IV, tomo I, doc. CXVII, p. 413.

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