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LEGALIZANDO IDENTIDADES

FRENCH, Jan Hoffman. Legalizing Identities: Becoming Black or


Indian in Brazil’s Northeast. Chapel Hill: University of North Carolina
Press, 2009. 247p.

Durante anos, os estudiosos argu- como de pesquisas em arquivos pú-


mentaram que as identidades raciais blicos, eclesiásticos e privados (p. xiii).
e étnicas são construídas, mas pou- Sua interpretação dessas fontes, po-
cos exploraram esse processo tanto rém, baseia-se em um modelo teórico
quanto Jan Hoffman French em seu que ela chama de “legalização da iden-
estudo sobre duas comunidades ru- tidade” e que explica como as práticas
rais no nordeste do Brasil ao longo culturais, as disposições legais e a for-
das últimas quatro décadas. Neste mação de identidades estão interliga-
importante livro, a autora acompanha das (p. xiii). Demonstra o papel da lei
a transformação de dois grupos ru- no estabelecimento de novas catego-
rais, identificados por antropólogos rias e possibilidades, e na conforma-
como apenas camponeses mestiços: ção das identidades das pessoas afe-
por um lado, índios xocó, legalmente tadas por ela. A atenção que French
reconhecidos e, por outro lado, re- dá à lei e à maneira pela qual ela molda
manescentes de quilombos, ou sim- a vida das pessoas está entre os pon-
plesmente quilombolas, também le- tos mais fortes do estudo.
galmente reconhecidos. Os índios xocó e os quilombolas,
Em sua pesquisa e análise desses que são objeto deste estudo, vivem
dois casos, French utiliza os méto- em duas comunidades vizinhas, a
dos e as fontes da antropologia cul- noroeste da cidade sergipana de Por-
tural e as teorias dos estudos cultu- to da Folha. A ilha de São Pedro, lo-
rais e legais. Suas descobertas vêm calização da comunidade xocó, é o
da observação participante, mas tam- sítio de uma antiga missão indígena
bém de “mais de 100 entrevistas com dos capuchinhos, assentada no meio
moradores, ex-proprietários, advoga- do rio São Francisco, enquanto Mo-
dos, antropólogos, ativistas, políticos cambo é uma povoação com origens
e funcionários do governo”, bem mais obscuras, que ocupa a margem

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sul do rio, um pouco mais a oeste. A reivindicar qualquer “pureza racial”, se
pecuária, a pesca, a agricultura de é que isso realmente existe.
subsistência e comercial constituíram- A autora não faz nenhum esforço
se, historicamente, como as principais para esconder o fato de que não exis-
atividades econômicas em ambas as tem claras diferenças “genéticas” en-
comunidades antes de sua proteção tre os moradores de São Pedro e os de
legal. Seus moradores trabalhavam Mocambo. Nem obscurece as seme-
como diaristas, meeiros e agregados lhanças culturais entre os dois grupos
das grandes, médias e até pequenas antes do início da luta dos primeiros
fazendas e sítios que se espalhavam pelo reconhecimento como indígenas.
ao longo do rio São Francisco. As- De fato, os processos pelos quais es-
sim, os moradores das duas comuni- ses dois grupos de sertanejos chega-
dades ocupavam terras que reconhe- ram a se “autoidentificar como étnica
ciam pertencer a outros, ou que esta- e racialmente separados”, e o papel
vam localizadas perto de terras per- que as novas leis federais desempe-
tencentes a terceiros. Alguns desses nharam nesse processo, são o objeto
proprietários contavam entre os indi- da investigação de French (p. xi).
víduos e as famílias mais importantes A transformação de camponeses
de Sergipe, incluindo o ex-governador em índios começou no início de 1970,
João de Seixas Dória e vários mem- quando Dom José Brandão de Cas-
bros do clã Britto Guimarães, mas in- tro foi nomeado bispo de Aracaju, um
cluíam outros pequenos e médios agri- dos bispos “vermelhos” do Brasil,
cultores, que só recentemente saíram como os adeptos da Teologia da Li-
eles mesmos da pobreza abjeta. bertação eram conhecidos. Ele iniciou
Nenhum dos moradores do Mo- seu mandato no auge da repressão
cambo ou da ilha de São Pedro tem do governo militar, e no momento em
aparência “puramente” indígena ou que os militares estavam tentando
“puramente” negra. De acordo com desenvolver o vale do rio São Fran-
French, todas partilham ancestralida- cisco. Na esperança de defender os
de indígena, africana e europeia, sen- lavradores empobrecidos que viviam
do ambos os grupos produto da mis- às margens do rio, Brandão começou
tura racial e étnica. Essa mistura, no uma pesquisa em sua diocese. Esta-
entanto, não resultou de interações va ciente de que São Pedro tinha sido
anônimas, mas de décadas, senão sé- uma aldeia indígena e, quando O ho-
culos, de casamentos entre os mora- mem do vale do São Francisco, de
dores das duas comunidades. Muitas Donald Pierson, foi finalmente publi-
famílias extensas incluem índios xocó cado, em 1972, ele encontrou evidên-
e quilombolas. Nenhum grupo pode cias da aculturação sistemática dos

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xocó pelos padres capuchinhos da recessem estar plenamente integra-
missão. Em 1973, o governo militar dos à sociedade brasileira. Advoga-
decretou o “Estatuto do Índio, cria- dos, igualmente engajados politica-
do para proteger os índios da Ama- mente, exploraram as brechas legais
zônia”, mas o bispo Brandão o usou do caso, o que resultou na certifica-
para organizar a defesa do povo da ção dos camponeses de São Pedro
ilha de São Pedro (p. 41). como índios xocó pela FUNAI – Fun-
O Estatuto do Índio garantia di- dação Nacional do Índio. Como re-
reito à terra, entre outros benefícios, sultado, eles foram agraciados com a
a grupos que pudessem ser legalmen- terra onde a missão tinha sido origi-
te certificados como índios. Funda- nalmente estabelecida – ou seja, a ilha
mentais para a obtenção desses di- de São Pedro. A chave para a história
reitos eram uma investigação e uma de French, no entanto, é que, até que
análise antropológica das comunida- assimilassem o Estatuto do Índio e
des em questão. Mas os índios de que pessoas estranhas ajudassem a
Sergipe havia muito tinham deixado interpretar suas tradições, os xocó
de falar uma língua indígena ou de não se viam como índios. Os xocó não
viver como seus ancestrais viveram. fizeram a lei, mas a lei lhes proporcio-
Na esperança de determinar que os nou a oportunidade de resgatar um
camponeses sergipanos fossem índi- entendimento do passado ou, pelo
os, Brandão já enviara Frei Enoque menos, de uma parte dele.
Salvador de Melo à ilha de São Pe- Curiosamente, os moradores de
dro, em 1972, para organizar os mora- Mucambo “como o nome da cidade
dores, ouvir as histórias orais e falar era pronunciado na década de 1970 “
sobre a missão anterior. Quando o não tentaram juntar-se ao grupo que
Estatuto do Índio foi instituído, ele estava sendo reconhecido como in-
ajudou a organizar o pedido de reco- dígena. Vinte anos depois, porém, sob
nhecimento dos moradores da ilha de um diferente sistema político, demo-
São Pedro como índios xocó. Nessa crático, e de diferente lei “ a cláusula
conjuntura histórica e política, em que de quilombo na Constituição Brasi-
não existiam as condições para a re- leira de 1988” eles buscaram o seu
forma agrária baseada na pobreza ou reconhecimento como quilombolas,
na justiça social, essas figuras religi- num processo semelhante aos dos
osas convenceram antropólogos po- xocó. Com a ajuda de padres, freiras,
liticamente comprometidos, treinados antropólogos e advogados simpáti-
por Manuela Carneiro da Cunha, de cos à causa, os moradores de Mu-
que os moradores da ilha de São Pe- cambo foram assim reconhecidos,
dro eram índios xocó, mesmo que pa- embora os registros documentais não

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deixem claro que tenham sido descen- capítulos e uma conclusão. No pri-
dentes de escravos ou de escravos meiro, chamado “Situando identida-
fugidos, que tivessem tradição oral de des no cenário religioso do Sertão”,
escravidão ou de fuga da escravidão, define as duas comunidades no con-
e que alguns deles se parecessem com texto da bibliografia recente sobre o
índios. No entanto, a Fundação Pal- Nordeste. No segundo, “Nós somos
mares certificou que, oficialmente, os índios mesmo que nossas faces não
moradores de Mocambo eram quilom- sejam pintadas”, traça o processo
bolas, e o governo brasileiro conce- através do qual os trabalhadores ru-
deu terras para a comunidade. rais, que falavam de si mesmos como
De acordo com Jan French, as meeiros, passaram a referir a si pró-
identificações desses camponeses, prios e a ser legalmente identificados
primeiro como índios e depois como como índios xocó. No capítulo 3,
quilombolas, não foram inventadas. “Construção de fronteiras e criação
Ao contrário, antropólogos, membros de fatos jurídicos: um fazendeiro mor-
do clero radical e advogados ajuda- re e um quilombo nasce”, traça o pro-
ram os sertanejos a interpretar histó- cesso de criação do artigo sobre qui-
rias de cujos significados eles há lombo na Constituição Brasileira de
muito tinham perdido a pista. Essa 1988 e como os meeiros de Mocambo
perda cultural não foi um processo começaram a se ver como quilombo-
natural, mas cresceu a partir da re- las. Esse capítulo também traça o pro-
pressão à primeira identidade indíge- cesso de reconhecimento de quilom-
na e, em seguida, a africana, sob os bos. Bastante curioso é que nem to-
auspícios da Igreja Católica, dos lati- dos os residentes de Mocambo che-
fundiários e de outras forças podero- gariam a se ver como descendentes
sas do sertão sergipano desde os de escravos africanos. O pedido de
tempos coloniais. Em outras palavras, reconhecimento como quilombolas
de acordo com a autora, os antropó- trouxe graves conflitos entre nume-
logos examinaram práticas culturais rosas famílias locais. Essa disputa é
e tradições orais dos moradores das o tema do capítulo 4, “Conflitos fami-
vilas e determinaram que eles eram, liares e política étnica e racial: o que a
por um lado, índios xocó, e, por ou- terra tem a ver com isso”. Certo nú-
tro, quilombolas. Essas identidades mero de famílias, conhecidas como
foram então legalizadas através, de “os contras”, resistiu à identificação
um lado, do Estatuto do Índio de 1973 como quilombolas, e os conflitos sur-
e, de outro, pelo artigo 68 da Consti- giram entre os grupos pró e os con-
tuição Brasileira de 1988 sobre comu- tra. Alguns desses conflitos foram
nidades remanescentes de quilombos. pessoais, noutros casos envolveram
A autora expõe sua tese em seis disputas em torno de táticas e escolha

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de liderança. Em última análise, tais esses acontecimentos são significa-
disputas fizeram com que alguns mo- tivos e a crônica que Jan French de-
radores de Mocambo se recusassem les faz é fascinante. Pergunta-se, en-
a ser reconhecidos como quilombo- tretanto, sobre uma de suas premis-
las, apesar de agora a associação que sas básicas: que os membros das
representa o quilombo ter a posse da duas comunidades no passado se
terra onde o povoado está assentado. pensavam como simplesmente cam-
French acredita que certa oposição poneses racialmente misturados.
pode ter advindo de uma relutância Muitos dos rótulos (pardos, mesti-
entre alguns quilombolas de se ços, caboclos ou outros) com os quais
autoidentificarem como “negros”. descrevemos essas pessoas foram
O capítulo 5, “Autenticidade e le- desenvolvidos pelas elites para clas-
galização da diferença”, discute a com- sificar seus vizinhos pobres, depen-
plexidade da lei que define quem é e dentes e escravos. Sabemos relativa-
quem não é índio e/ou descendente mente pouco sobre as maneiras pe-
de quilombolas históricos. Jan French las quais esses moradores de áreas
explora as possíveis implicações do rurais descreviam uns aos outros no
fato de que os Xocó e os quilombolas passado, mesmo no passado relati-
gozem de seus direitos à terra e de um vamente recente. Além disso, novas
status especial sob leis muito diferen- pesquisas indicam que, entre o final
tes, resultando em regulamentos tam- do século XIX e início do XX, os ex-
bém muito diferentes. Finalmente, no escravos, bem como os descenden-
capítulo 6, a autora explora a história tes de índios, foram incentivados a
da fundação do quilombo que se con- suprimir ou desvalorizar suas tradi-
funde com a do assassinato de Antô- ções, a abandonar seu passado de
nio Alto. Contada na década de 1970,
africanos escravizados ou de índios
sem qualquer referência à escravidão
aldeados. Será, entretanto, que nem
ou à cor da pele da gente local, na dé-
todas as pessoas esqueceram com-
cada de 1990 os moradores de Mo-
pletamente de onde vieram, e o sinal
cambo começaram a descrever Antô-
de que essas tradições podem ser se-
nio Alto e seu pai como escravos ou
guramente recuperadas estaria levan-
ex-escravos. Sua morte nas mãos do
do ao ressurgimento de tradições es-
proprietário, por ter Antônio se apai-
pecíficas dessas comunidades? É
xonado pela sobrinha deste, tornou-
uma importante questão, que aguar-
se uma peça dramática através da qual
da futura investigação.
eles narram a própria história.
Mary Ann Mahony
Em um país como o Brasil, que até
Central Connecticut State University
pouco tempo se orgulhava de ser Tradução de Mariângela Nogueira
mestiço e sem preconceito de cor,

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