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A FILOSOFIA ENSIMESMADA

Diálogo acerca do fazer filosófico.

Caius Brandão (caiusbrandao@globo.com)

Introdução

Em nosso primeiro encontro1, nosso estimado colega Pedro Lucas


Dulce, graduando em Filosofia pela Universidade Federal de Goiás (UFG),
propôs – a nós, estudantes e professores de filosofia – que refletíssemos sobre
o uso do conhecimento filosófico que aprendemos e (re)produzimos na
academia. Dulce não nos pergunta „por que‟ fazemos filosofia, mas „para que‟2.
Ou seja, o que está em pauta não são os afetos individuais, mas as escolhas
de um cidadão brasileiro que estuda ou ensina filosofia na UFG – uma
Universidade do governo federal, de ensino público e gratuito. Dulce critica
abertamente o uso de recursos públicos para custear o diletantismo ou a
erudição vazia, mas sem qualquer retorno para a sociedade.

Neste texto, eu gostaria de recolocar a questão sobre a responsabilidade


do fazer filosófico, desta feita, sob o ponto de vista institucional. O meu objetivo
é buscar uma possível compreensão sobre o que a sociedade brasileira pode
esperar da nossa Faculdade de Filosofia, com relação à justiça social e aos
direitos humanos. É natural que esta expectativa aumente com a repercussão
3
de uma pesquisa apresentada no V Fórum Urbano Mundial da Organização
das Nações Unidas (ONU), que aponta Goiânia como a cidade mais desigual
do Brasil e a 10ª mais desigual do mundo. É evidente que a UFG pode e deve
contribuir com a sociedade goianiense, mas, neste âmbito, o que cabe ao
Departamento de Filosofia? Ele pode colaborar com a transformação da cidade
ou a proposição é ingênua ou absurda?

1
Eu Penso... I Encontro de Estudantes de Filosofia da Cidade de Goiás (2009).
2
DULCE, Pedro Lucas. Penso, mas para que? Comunicação no Eu Penso... I Encontro de Estudantes de
Filosofia da Cidade de Goiás (2009).
3
Jornal o Estadão, acessado em 05/08/2010, no sítio:
http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20100320/not_imp526930,0.php
“Penso, mas para que?”

Seria natural se eu pudesse realmente me sentir livre de


constrangimentos, quando a inusitada proposta desse encontro, de acordo com
o Prof. Gonzalo, é criar “um espaço para que os estudantes, sem serem
limitados por critérios academicistas para a produção de textos, pudessem
4
discutir livremente o que realmente lhes preocupava”. Talvez eu já venha me
acomodando demasiadamente às regras do texto exegético, afinal, na ordem
do discurso acadêmico, você deve manter-se afastado da tentação de expor
idéias próprias sobre aquilo que realmente lhe incomoda.

Mesmo assim, tentarei dar uma resposta espontânea e honesta para


Dulce (penso, mas para que?), com o propósito de fundamentar uma
alternativa de atuação frente à questão da justiça social e dos direitos
humanos. Por isso, peço licença a vocês para que eu possa fazer um breve
comentário sobre algumas experiências pessoais. Isto porque eu não estaria
respondendo Dulce completamente se não falasse de minhas motivações de
pensar o que penso, para o fim que almejo.

No início da década de 80, eu estudava Psicologia na então


Universidade Católica de Goiás, quando meu interesse pela anti-psiquiatria me
levou a fazer um estágio extracurricular no manicômio da cidade – o já extinto
(e demolido) Hospital Psiquiátrico Adauto Botelho. Nessa instituição estatal, eu
presenciei alto índice de óbitos, tráfico de medicamentos controlados e
entorpecentes, aprisionamentos ilegais, torturas físicas e toda sorte de
crueldades psicológicas. Nutrido pelo horror ao tabu da loucura e pela
cumplicidade silenciosa da sociedade, o governo, a psiquiatria e o serviço-
social desempenhavam seu teatro de atrocidades e injustiças, enquanto eu me
perguntava quem era o alvo. O Hospital possuía duas alas, a masculina e a
feminina, cada uma com 250 internos. Quinhentas pessoas, todas de famílias
pobres ou miseráveis. Meu sentimento de impotência diante do sofrimento dos
condenados era entorpecido pelo odor de excrementos e fumaça de cigarro de
fumo de rolo. Esse era o cheiro da exclusão que exalava das alas.

4
Material de divulgação do Eu Penso... II Encontro de Estudantes de Filosofia da Cidade de Goiás,
acessado em 05/08/2010, no sítio: http://www.overmundo.com.br/agenda/eu-penso-ii-encontro-de-
estudantes-de-filosofia
Imerso naquela realidade exógena, tão diferente do alienante „mundo da
vida‟ criado por minha família, percebi que os seres humanos eram criaturas
primitivas que ainda não haviam aprendido a viver em sociedade, apesar de
estarem fadados a isso. Não tenho como ter certeza absoluta de que, um dia,
os homens serão realmente capazes de viver unidos numa comunidade plural,
cosmopolita e republicana, onde os princípios de igualdade e liberdade sejam
permanentemente resguardados por uma vontade geral. No entanto, não seria
razoável, tão pouco, ético fecharmos os olhos para as possibilidades do
homem, através do seu trabalho, eliminar o sofrimento de famílias, povos e
nações alijados das condições mínimas de sobrevivência, dignidade e
desenvolvimento sustentável. Da mesma forma como me parece absurdo não
priorizarmos todas as formas de saber e não usarmos todos os nossos meios
para atingir esse bem maior.

Depois de abandonar sem concluir o curso de Psicologia, passei a


dedicar a minha vida profissional à promoção da justiça social e dos direitos
humanos, particularmente, os direitos das crianças. Trabalhei
entusiasticamente por mais de uma década, mas aos poucos fui me dando
conta de que precisava de ajuda para refletir criticamente sobre o discurso do
Terceiro Setor e sobre sua fundamentação científica e filosófica. Por isto, hoje
estou aqui. Espero não estar cometendo nenhuma gafe ao vasculhar a filosofia
como se fosse uma “caixa de ferramentas” 5. Com cautela e dedicação, procuro
fazer dela um instrumento muito valioso ao meu propósito de contribuir com a
transformação da sociedade. Pouco importa que a minha contribuição
individual seja ínfima e inexpressível, diante daquilo que almejo. Ademais,
tenho consciência de que é perfeitamente racional a minha escolha de
trabalhar com os direitos humanos, mesmo que a minha motivação provenha
de um renovado sentimento de indignação.

5
Entre o Engajamento Intelectual e o Ostracismo da Academia

No início deste ano, uma discussão entre alguns colegas na Lista CAFIL
sobre a universalidade dos valores éticos suscitou um debate acerca da
responsabilidade do intelectual. Na ocasião, Helena Esser dos Reis,
professora de Filosofia Política pela UFG, contribuiu com a seguinte
observação:

“(...) a academia teima em dizer que a teoria vale por si mesma


enquanto teoria. Eu discordo disto, mas também não posso
concordar que a validade da teoria seja auferida pela sua
prática - mesmo os preceitos éticos. Temo profundamente o
intelectual engajado - acho que o excessivo compromisso com
a ação ofusca a clareza acerca dos fundamentos e princípios
norteadores da ação”. 6

Tenho que concordar com a Profª. Helena acerca da temeridade do


intelectual engajado. O intelectual excessivamente engajado pode se tornar
irremediavelmente absorto pelas contingências da experiência cotidiana,
deixando de refletir criticamente sobre os fundamentos e princípios que
poderiam orientar suas ações. De fato, no cotidiano das lutas sociais, se faz
necessária uma atenção permanente às demandas práticas que se apresentam
ininterruptamente. Desta forma, o engajamento exacerbado poderia induzir ao
erro, ou mesmo, à deturpação de uma luta social. Por exemplo, em 2005, visitei
uma escola do Movimento dos Trabalhadores Sem-Terra (MST) no sul do país,
onde são formados futuros líderes do movimento. Cercado por jovens que
almoçavam no refeitório da escola, testemunhei uma conversa informal entre
um professor e um aluno que escutava música em seu rádio portátil. Quando
retirou os fones de ouvido para almoçar, o professor perguntou a ele: “o que
você estava ouvindo?”. Então, o adolescente lhe respondeu prontamente:
“rock.” Inconformado com resposta, o docente iniciou um monólogo sobre as
ameaças da cultura estrangeira em contraste com as vantagens da cultura
regional para a formação de lideranças camponesas revolucionárias. Com este
caso concreto, procuro simplesmente exemplificar como um princípio tão caro,
como o da liberdade, pode facilmente ser posto por terra e substituído pelo
patrulhamento ideológico. Vale ressaltar, todavia, que este foi um caso isolado.
De forma alguma, eu tenho a intenção denegrir publicamente a imagem do
6
Email enviado à Lista CAFIL, em 13 de fevereiro de 2010.
MST, que é seguramente um dos mais importantes movimentos sociais da
América Latina.

No outro extremo, entretanto, temos o ostracismo da academia. Aqui,


me refiro a certa tradição acadêmica de fazer circular, num grupo bastante
fechado, os discursos e teorias que os próprios teóricos produzem e
conservam. Suas teorias, conforme salienta Dulce, são postas a serviço do
entretenimento pessoal ou da erudição vazia, sem qualquer preocupação com
a relevância dos seus trabalhos para a sociedade. O ostracismo, apesar de ser
também uma escolha pessoal, é produzido e nutrido por uma tradição
acadêmico-institucional. Talvez fosse interessante analisar, na fala da
instituição, o juramento que o estudante de Filosofia faz à sociedade em seu
ritual de graduação. O nosso fazer filosófico transformará este juramento em
contribuições concretas, ou em lapso de memória e falso testemunho?

Diz-se que, minimamente, iremos nos transformar em professores de


Filosofia. Aqui, tenho que engrossar coro com Dulce, e perguntar, mas, para
que? Aprender filosofia para ensinar Filosofia? Qual seria o valor de uma
cátedra que se presta unicamente a se perpetuar? Não posso mais aceitar a
resposta do tipo: oferecemos à sociedade futuros professores de Filosofia, sem
antes reconhecer por que eles são necessários. Desta forma, insisto em
perguntar que contribuição uma faculdade de filosofia pode dar à sociedade?

Além das atividades de magistério, temos a pesquisa para impulsionar a


produção e circulação do conhecimento filosófico. Mas que uso é dado ao
aparato institucional para produção deste conhecimento? Temos que
questionar a razoabilidade dos atuais critérios de aprovação de pesquisas
pelas agências de fomento custeadas por impostos da sociedade. Não sou
contra a discussão sobre o sexo dos anjos, mas, certamente, uma sociedade
marcada por injustiças sociais como a brasileira deve eleger temas mais
urgentes e relevantes do que aqueles que interessam somente aos eruditos da
sexualidade celestial.

De acordo com Deleuze, em debate com Michel Foucault acerca do


papel do intelectual:
“Uma teoria é como uma caixa de ferramentas. Nada tem a ver
com o significante... É preciso que sirva, é preciso que
funcione. E não para si mesma. Se não há pessoas para
utilizá-la, a começar pelo próprio teórico que deixa então de ser
teórico, é que ela não vale nada ou que o momento ainda não
chegou.” 7

Por volta do século VII a.C., os gregos deram início ao que Husserl
chama de “transformação da humanidade.” 8
O filósofo alemão se refere ao
surgimento da filosofia como ciência universal. As ciências particulares surgem,
a partir daí, como ramos da filosofia. Em sua origem, o saber filosófico era
utilizado como alicerce de sustentação do conhecimento das ciências
particulares. De acordo com Husserl, a partir da renascença, dá-se o
agravamento de uma situação já iniciada no período pós-socrático, quando as
ciências começaram a se desenvolver seguindo um caminho orientado mais
pela práxis do que pela filosofia.

Pois bem, após quase 28 séculos desde sua origem na Grécia, hoje
ainda nos perguntamos sobre o papel da filosofia em relação às ciências. Será
que os filósofos de hoje possuem algo de construtivo a dizer e ouvir dos
pedagogos, cientistas sociais, historiadores, pensadores e operadores do
direito? Como promover este diálogo? É possível uma faculdade de filosofia
participar ativamente da construção coletiva de saberes? Tomo como
parâmetro a própria missão da UFG, “(...) gerar, sistematizar e socializar o
conhecimento e o saber, formando profissionais e indivíduos capazes de
9
promover a transformação e o desenvolvimento da sociedade”. Posto isto,
questiono como a nossa Faculdade de Filosofia pode colaborar com a nobre
missão da Universidade?

7
FOUCAULT, M. Microfísica do Poder. São Paulo: Ed. Graal, 1979.
8
HUSSERL, E. A crise da humanidade européia e a filosofia. Ed. EDIPUCRS, Rio Grande do Sul: 1996.
9
Apresentação Institucional da Universidade Federal de Goiás (UFG). Acessado em 05/08/2010, no
sítio: http://www.ufg.br/page.php?menu_id=109&pos=esq
Centro de Pesquisa, Ensino e Extensão em Justiça Social e Direitos
Humanos

Não tenho a pretensão de querer esgotar as inúmeras possibilidades de


fortalecer da atuação da Faculdade de Filosofia no cumprimento da missão
institucional da UFG de promover “a transformação e o desenvolvimento da
10
sociedade” . Deve ser realmente ingênuo ou absurdo imaginar que filósofos
são anjos que vieram salvar os homens de si mesmos. Por outro lado, se o
Departamento de Filosofia fosse chamado a participar deste processo de
transformação social, ele poderia oferecer a sua contribuição com a
implantação de um centro de ensino, pesquisa e extensão em justiça social e
direitos humanos.

1. Objetivos Gerais

 Contribuir com o efetivo exercício dos direitos humanos e inclusão


social, através da produção e circulação de conhecimentos práticos e
teóricos e de ações de advocacy;

 Apoiar movimentos sociais e suas lideranças na proposição e


implantação de tratados, leis e políticas públicas.

1.2 Específicos

 Impulsionar o estabelecimento de convênios entre a UFG e outras


instituições de pesquisa e ensino, no Brasil e no exterior;

 Promover interlocução com órgãos públicos, organizações não-


governamentais, organizações multilaterais e agências de
desenvolvimento político, social e econômico, ampliando e fortalecendo
suas capacidades de defesa e promoção dos direitos humanos;

 Contribuir com o desenho, monitoramento e avaliação de políticas;

 Influenciar e fortalecer as políticas e serviços públicos;

1. Atividades

10
Idem.
 Cursos de especialização, mestrado e doutorado para pesquisadores
em direitos humanos e justiça social;

 Desenvolvimento e avaliação de metodologias de ensino da Filosofia;

 Grupos de pesquisa de professores e alunos de Filosofia e de outras


áreas do conhecimento;

 Bolsas para estudantes de graduação, em intercâmbios com outras


instituições de ensino nacionais e internacionais;

 Projetos de extensão em parceria com organizações da sociedade civil,


movimentos sociais e ambientalistas, bem como com o poder público, no
Brasil e no exterior, com bolsas de estudo para estudantes irem
conhecer e contribuir in loco com seus trabalhos;

 Campanhas de advocacy locais, nacionais e internacionais;

 Colóquios, conferências, encontros e eventos culturais;

 Publicação (em português, espanhol e inglês) e distribuição anual de


relatórios de pesquisa; revista semestral; etc.

Conclusão
A minha esperança é que a comunidade acadêmica reaja com espanto
e indignação aos testemunhos de injustiça e desrespeito aos direitos
fundamentais do homem. É necessário reagir com rigor contra o abuso de
poder, corrupção de valores e violência que ameaçam a sociedade brasileira,
particularmente, a goianiense. Ao dar primazia ao princípio republicano do
Estado e suas instituições como guardiões da liberdade e da igualdade entre
os cidadãos, a Faculdade de Filosofia da UFG poderia se responsabilizar pela
promoção da justiça social e dos direitos fundamentais dos goianienses e de
todos os homens.

Espero que esta imagem visionária que procurei dar ao Departamento


de Filosofia possa atrair principalmente os jovens, pois eles possuem toda uma
vida de trabalho pela frente, criatividade para superar os obstáculos e ousadia
para transformar o mundo.