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Cesário Verde - Ficha de Revisões 1

Lê as cinco estrofes iniciais do poema «O Sentimento dum Ocidental», de Cesário Verde.

1 Nas nossas ruas, ao anoitecer,


Há tal soturnidade, há tal melancolia,
Que as sombras, o bulício, o Tejo, a maresia
Despertam-me um desejo absurdo de sofrer.

5 O céu parece baixo e de neblina,


O gás extravasado enjoa-me, perturba;
E os edifícios, com as chaminés, e a turba
Toldam-se duma cor monótona e londrina.

Batem os carros de aluguer, ao fundo,


10 Levando à via-férrea os que se vão. Felizes!
Ocorrem-me em revista exposições, países: Madrid, Paris, Berlim, S.
Petersburgo, o mundo!

Semelham-se a gaiolas, com viveiros,


As edificações somente emadeiradas:
15 Como morcegos, ao cair das badaladas,
Saltam de viga em viga os mestres carpinteiros.

Voltam os calafates, aos magotes,


De jaquetão ao ombro, enfarruscados, secos;
Embrenho-me, a cismar, por boqueirões, por becos,
20 Ou erro pelos cais a que se atracam botes.

Cesário Verde, Obra Completa de Cesário Verde, edição de Joel Serrão, Lisboa, Livros
Horizonte, 1988, p. 151

1. Identifica o espaço descrito no poema e os tipos sociais que o habitam, justificando com elementos do texto.

2. Caracteriza o estado de espírito do sujeito poético e relacione-o com os efeitos que a cidade nele provoca. / Refere os
sentimentos despertados no sujeito poético pelo ambiente que o rodeia.

3. Identifica, a partir de expressões do texto, as sensações através das quais o sujeito poético perceciona a realidade, descrevendo
os efeitos dos estímulos exteriores sobre ele mesmo.

4. Como observador acidental, o sujeito poético deambula e imagina, simultaneamente.

4.1. Comprova a veracidade desta afirmação, fundamentando a tua resposta com elementos textuais.

5. Identifica e esclarece o valor dos recursos expressivos presentes nos versos 12 e 13 – 14.

6. Identifica duas características temáticas da poesia de Cesário Verde, fundamentando a tua resposta com elementos textuais
pertinentes.
A tristeza e a melancolia que caracterizam a cidade, ao anoitecer, contribuem para o desconforto do sujeito
poético, provocando nele:
– o comprazimento na própria dor – «um desejo absurdo de sofrer» (v. 4);
– a sensação de tontura – «O gás extravasado enjoa-me, perturba» (v. 6);
–  o desejo de evasão – «Batem os carros de aluguer, ao fundo, / Levando à via-férrea os que se vão. Felizes!»
(vv. 9-10);
–  a tendência para a deambulação solitária e para a reflexão – «Embrenho-me, a cismar, por boqueirões, por
becos, / Ou erro pelos cais a que se atracam botes.» (vv. 19-20).