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Número 81

Março de 2009

Norma ISO 26000 CD 1:


Síntese e comentários gerais
Norma ISO 26000 CD 1:
síntese e comentários gerais

O tema da responsabilidade social das empresas adquiriu, nos últimos anos, grande
destaque no Brasil e internacionalmente, como mostra a freqüência com que o tema aparece
em campanhas publicitárias de grandes grupos empresariais. Mas, além disso, a
responsabilidade social ganhou espaço na agenda de organismos intergovernamentais,
governos nacionais, ONGs e outras organizações e atores sociais. O movimento sindical
também passou a debater o assunto, seja em congressos e encontros, com o propósito de
definir e implementar estratégias de ação. Neste contexto, proliferaram iniciativas voluntárias
de âmbito internacional, muitas delas propondo normas de conduta.
Desde 2005, a Organização Internacional para a Normalização (ISO) elabora uma
norma internacional que pretende oferecer orientações para organizações, não apenas
empresas, que desejam desenvolver ações e programas relativos à responsabilidade social. Por
ser uma norma de diretrizes, não visa à certificação de empresas, processos ou produtos.
Ainda assim, devido à ampla utilização das normas ISO, a futura ISO 26000 poderá exercer
grande influência sobre as concepções e as práticas de responsabilidade social em todo o
mundo, inclusive em relação a temas de interesse direto de trabalhadores e sindicatos.
A futura norma encontra-se no estágio de Committee Draft1. Em meados de março, os
organismos de normalização aprovaram, mediante votação, a conversão em Draft
International Standard2. Com isso, ficam faltando dois estágios, cada um com uma rodada de
votações, para que o texto se transforme efetivamente numa norma internacional, o que está
previsto para ocorrer em dezembro de 2010. Junto com os votos, (46 favoráveis, 19 contrários
e 4 abstenções) foram encaminhados cerca de 3.100 comentários ao texto, na forma de
emendas. Estas sugestões, após analisadas e discutidas, poderão ser aceitas antes que uma
nova rodada de votações aprove a passagem do texto modificado para a fase seguinte de
elaboração.
No caso brasileiro, o organismo nacional de normalização é a Associação Brasileira de
Normas Técnicas (ABNT), que emitiu seu voto de acordo com o consenso alcançado pelas
partes interessadas que participam de uma Comissão especialmente criada para acompanhar o
processo ISO. Uma reunião aberta ao público foi realizada em 02 e 03 de março para colher
as posições das partes interessadas, construir uma posição de consenso e elaborar o voto do
país.
Esta Nota Técnica faz um histórico do processo de elaboração da Norma até este
momento e apresenta as principais características da minuta CD 1.

1
Minuta do Comitê, ou CD 1, na sigla em inglês, que é um dos estágios do processo de elaboração adotado pela
ISO.
2
Minuta de Norma Internacional, ou DIS, na sigla em inglês.

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Características do processo de elaboração da norma
Para elaborar esta norma, a ISO criou um Working Group (Grupo de Trabalho, ou
WG, na sigla em inglês), composto por especialistas indicados pelos organismos nacionais de
normalização. Cada um destes organismos pode indicar até seis especialistas para representar
as seguintes categorias de partes interessadas: empresas, trabalhadores, organizações não
governamentais (ONGs), governo, consumidores e SSRO (sigla em inglês para consultoria,
pesquisa e outros). Quanto ao Brasil, todas as partes interessadas participam e, com o apoio
das centrais sindicais brasileiras, o DIEESE tem atuado como representante do segmento
trabalhadores.
No entanto, a composição sugerida não é obrigatória e vários países participam com
menor número de especialistas. O número de representantes de trabalhadores é o menor entre
as seis categorias de partes interessadas, em parte pela insuficiência dos esforços em
mobilizar este segmento para a participação. Este desequilíbrio é visto como um ponto fraco
deste processo de normalização que, ao contrário de outros já empreendidos pela ISO, trata de
assuntos sociais complexos.
Também participam do WG especialistas indicados por organizações internacionais
relevantes no tema. Entre elas figuram as agências das Nações Unidas - tais como a
Organização Internacional do Trabalho (OIT), Programa das Nações Unidas para o Meio
Ambiente (PNUMA) e a Organização Mundial da Saúde (OMS) -, organizações
internacionais de classe - como, por exemplo, a Confederação Sindical Internacional (CSI) e a
Organização Internacional dos Empregadores (IOE), entre outros. Atualmente, o WG é
composto por aproximadamente 400 especialistas.
Internamente ao WG, os especialistas atuam também por grupo de partes
interessadas3. Por exemplo, o grupo dos trabalhadores é formado pelos especialistas
vinculados ao movimento sindical e reúne aproximadamente 30 representantes de centrais
sindicais nacionais e da CSI (Confederação Sindical Internacional). O grupo mantém uma
lista de discussão eletrônica e tem discutido os pontos da pauta de debates via e-mail, em
reuniões telefônicas e presencialmente, a cada reunião Plenária do WG.
Além disso, em cada um dos quase 80 países participantes, o organismo nacional de
normalização deve criar um “comitê espelho”, com a finalidade de reproduzir as discussões
sobre a norma no âmbito nacional e, assim, subsidiar o posicionamento dos especialistas de
sua delegação.
No Brasil, a ABNT conferiu à sua Comissão Especial de Estudos em
Responsabilidade Social o papel de comitê espelho. A Comissão tem realizado reuniões
periódicas para a discussão das sucessivas versões do texto produzidas até o momento.
Embora a Comissão seja aberta à participação de qualquer interessado, as decisões são
tomadas respeitando a composição multipartite. Ao contrário do que ocorre no Brasil, em
vários países, não há participação de representantes sindicais nos comitês espelho, o que
dificulta ao segmento dos trabalhadores influenciarem na tomada de decisão.
3
Frequentemente se utiliza o termo correspondente em inglês: stakeholder.

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As etapas de elaboração desta norma seguem o padrão adotado pela ISO, que envolve
cinco estágios, começando por uma minuta de trabalho até a publicação do documento final
como Norma Internacional. No primeiro estágio, os especialistas redigiram vários rascunhos
da norma, aperfeiçoando-a por meio de decisões tomadas a partir de uma regra de consenso.
Esta regra do consenso foi definitiva para fazer com que as posições de partes minoritárias no
processo fossem consideradas. O grupo de representantes dos trabalhadores, demonstrando
grande unidade de ação, conseguiu alcançar bons resultados em termos de seus pontos de
vista. A partir do segundo estágio – Committee Draft4, que é o atual - a regra de tomada de
decisão passa a depender dos votos dos organismos de normalização.
O WG se reúne periodicamente em seções plenárias para deliberar sobre a redação da
norma. A primeira plenária ocorreu em 2005, em Salvador (Bahia), e as demais foram
realizadas em Bangkok (2006), Lisboa (2006), Sydney (2007), Viena (2007) e Santiago do
Chile (2008). A próxima plenária está marcada para maio de 2009, em Quebec, no Canadá, e
será dedicada a avaliar o resultado dos votos dos organismos nacionais de normalização em
relação ao CD 1.

Principais aspectos do Committee Draft ISO 26000


Esta versão da norma é estruturada nas seguintes partes ou cláusulas:
1) Escopo;
2) Termos e definições;
3) Compreensão da responsabilidade social;
4) Princípios da responsabilidade social;
5) Reconhecimento da responsabilidade social e engajamento das partes interessadas;
6) Orientações sobre assuntos centrais da responsabilidade social;
7) Orientações sobre a integração da responsabilidade social;
Anexo A) Iniciativas voluntárias relacionadas à responsabilidade social;
Anexo B) Abreviações e Bibliografia.
O texto contém uma introdução apresentando a estrutura do documento - entre outras
informações iniciais - mas não faz parte da norma propriamente dita.

4
Os estágios são Working Draft (WD, minuta de trabalho), Committe Draft (CD, minuta do comitê),
Draft of International Standard (DIS, minuta de norma internacional), Final Draft of International
Standard (FDIS, minuta final de norma internacional), e International Standard (IS, norma
internacional).

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Escopo, definições e compreensão da responsabilidade social

A cláusula de Escopo identifica o conteúdo abrangido pela norma, seus limites e


exceções. Além disso, de maneira muito sucinta, apresenta ao leitor os temas principais
abordados no texto. Esta parte do texto esclarece que a norma não propõe um sistema de
gestão (tal como faz a ISO 9000, de gestão da qualidade) nem pretende que seja utilizada para
a certificação de organizações como sendo socialmente responsáveis.
Segue-se uma cláusula na qual são descritos os termos técnicos e definições
necessárias para a compreensão do texto. Entre estes, aparece o do diálogo social, que
reproduz os termos adotados pela OIT, focando na negociação, consulta e informação entre
representantes de trabalhadores, governos e empregadores em matéria de comum interesse.
O conceito de parte interessada caracteriza-se pelo interesse que indivíduos ou grupos
mantêm em relação às atividades e decisões da organização. Interesse, neste caso, não é a
mera curiosidade, mas algo que possa servir de base para uma reivindicação, não apenas
financeira ou legal. Tal conceito distingue-se de uma noção difundida na literatura gerencial
que considera como partes interessadas todos aqueles que podem afetar ou ser afetados por
uma organização. Na medida em que o conceito de parte interessada adotado na norma
implica haver uma relação mediada por um interesse, fica mais difícil às organizações
desconsiderarem, por exemplo, os trabalhadores e seus sindicatos.
Deve-se destacar a definição de responsabilidade social adotada na atual versão da
norma:
“responsabilidade de uma organização pelos impactos de suas decisões e
atividades sobre a sociedade e o meio ambiente, através de comportamento
ético e transparente que:
- contribua para o desenvolvimento sustentável, incluindo a saúde e o
bem-estar da sociedade;
- leve em consideração as expectativas das partes interessadas;
- esteja de acordo com a legislação pertinente e com as normas
internacionais de comportamento; e
- esteja integrado à organização como um todo e praticado em seus
relacionamentos.
Nota 1 – atividades incluem produtos, serviços e processos.
Nota 2 – relacionamentos referem-se às atividades da organização em sua
esfera de influência.”
A definição identifica a responsabilidade social ao comportamento diante de impactos
causados pela organização sobre a sociedade e o meio ambiente. Portanto, tem a ver com os
resultados do conjunto de atividades, cotidianas ou não, e não apenas com ações sociais e
filantrópicas muito em voga no senso comum sobre o tema. Mais adiante, o texto esclarece

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que a filantropia, embora possa ser positiva, não substitui o tratamento de impactos adversos
causados pelas atividades de uma organização.
E o conceito considera não apenas o desenvolvimento sustentável, mas também o bem
estar social, reforçando as dimensões social e econômica da responsabilidade social. Mais
adiante, o texto explica que o conceito de desenvolvimento sustentável tem como foco o
planeta como um todo, abrangendo o meio ambiente e a sociedade humana. Já a
responsabilidade social é uma forma pela qual uma organização pode contribuir nesta direção.
As normas internacionais de comportamento seriam as expectativas de um
comportamento organizacional socialmente responsável extraídas das leis internacionais,
tratados e convenções reconhecidos universalmente. Isto significa que a definição se baseia no
entendimento público do que é um comportamento aceitável.
A terceira cláusula da norma visa ajudar na compreensão da evolução histórica e das
características da responsabilidade social. Um ponto introduzido nesta seção é o do papel das
partes interessadas diante da responsabilidade social de uma organização. Elas podem ajudar a
definir um comportamento aceitável para uma organização, mas isso não substitui as
definições da sociedade como um todo, por exemplo, através da legislação, de regulamentos e
mesmo de tratados e convenções internacionais.
Outro ponto diz respeito ao papel do Estado, afirmando que esta norma não deve
afetar o dever do Estado em agir conforme o interesse público nem interferir nas instituições
políticas, nas responsabilidades do Estado e no papel das leis. No entanto, organizações
governamentais podem utilizar a norma para suas políticas e ações em Responsabilidade
Social.
A mesma cláusula traz um quadro dedicado à situação de pequenas e médias
organizações, que também podem operar assumindo as responsabilidades proporcionais aos
impactos que geram na sociedade e no meio ambiente.

Princípios da Responsabilidade Social

A cláusula 4 da norma apresenta sete princípios gerais, aplicáveis a qualquer situação:


Accountability5; Transparência; Comportamento ético; Respeito aos interesses das partes
interessadas; Respeito ao Estado de Direito; Respeito às normas internacionais de
comportamento e Respeito aos direitos humanos. Estes dois últimos têm sido mais discutidos.
Um deles afirma que aonde a lei nacional ou sua implementação não proporciona
salvaguardas ambientais e sociais mínimas, a organização deve seguir normas internacionais.
E, aonde a lei contradiz tais normas, a organização deve rever suas operações naquela
jurisdição. A organização deve também evitar ser cúmplice de outras organizações que não
atendam a estas normas internacionais. Quanto ao respeito aos direitos humanos, o princípio

5
Este termo não tem uma tradução literal em português, significando ao mesmo tempo a prestação
de contas e a responsabilidade pelos atos praticados.

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reconhece sua importância e universalidade, ou seja, as organizações devem respeitá-los em
qualquer país em que estejam localizadas.
Além desses princípios gerais, a cláusula 6 traz os princípios específicos aos temas
centrais da responsabilidade social (por exemplo, práticas trabalhistas, meio ambiente etc.).

O reconhecimento da responsabilidade social e o engajamento das


partes interessadas

Estas duas ações fundamentais para a responsabilidade social são tratadas em capítulo
específico da norma. A primeira ação diz respeito a como uma organização pode reconhecer
qual é a sua responsabilidade social. Isto exige a compreensão de que há três polos que se
relacionam: a organização, a sociedade e as partes interessadas.
Além disso, uma organização deve considerar os assuntos centrais da responsabilidade
social sobre os quais a própria norma identifica princípios e sugere ações. São eles:
governança organizacional, direitos humanos, práticas trabalhistas, meio ambiente, práticas
operacionais justas, direitos dos consumidores e envolvimento comunitário e
desenvolvimento. Cada um destes temas centrais é desdobrado em tópicos específicos. Assim,
por exemplo, no tema das práticas trabalhistas há um tópico que trata das condições de
trabalho, outro sobre diálogo social e assim por diante. As organizações deveriam identificar
quais tópicos são relevantes para uma avaliação dos impactos que causam e para a definição
de uma conduta responsável.
A responsabilidade de uma organização pode, em certas situações, se estender sobre
outras organizações com as quais mantenha relacionamento, ou seja, aquelas que estejam em
sua esfera de influência. Neste sentido, a norma diz que uma organização é responsável pela
influência que exerce ou pode exercer sobre outras organizações. Isto inclui partes ou toda a
sua cadeia produtiva ou cadeia de valor6, órgãos associativos, parceiros e competidores.
Obviamente, a responsabilidade também alcança as condições de trabalho existentes nos
fornecedores e parceiros comerciais.
Desenvolvendo um pouco mais o tema do engajamento das partes interessadas. A
organização, com base nos impactos que gera sobre outros, deve identificar suas partes
interessadas. A organização também deve avaliar a relação entre os interesses dessas partes e
o desenvolvimento sustentável, incluindo a saúde e o bem estar social. O engajamento com as
partes interessadas não deveria ser utilizado para se eximir de atender às expectativas
estabelecidas na sociedade em relação ao comportamento da organização.
O engajamento com as partes interessadas pode assumir diversas formas, mas é
basicamente um processo interativo, de mão-dupla. A independência, autenticidade e
representatividade das partes interessadas em relação à organização são componentes
considerados essenciais para um efetivo engajamento. Este serviria, entre outras coisas, para o

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No entendimento da norma, enquanto a cadeia produtiva restringe-se aos fornecedores, a cadeia de
valor engloba também os clientes, consumidores e usuários de uma organização.

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tratamento de conflitos de interesses entre partes interessadas e a organização, subsidiar o
processo decisório da organização e evitar impactos adversos de suas decisões. Pode-se notar
que estas são motivações presentes na negociação coletiva e no diálogo social entre
empregadores e trabalhadores.

Orientações sobre assuntos centrais da responsabilidade social

O capítulo 6 da norma trata dos sete temas centrais para a responsabilidade social de
uma organização, já mencionados anteriormente. Uma organização deveria analisar seus
impactos em todos estes temas. Embora a norma considere que tais assuntos devam ser
tratados de forma integrada, pela sua forte inter-relação, serão aqui destacadas as seções da
norma dedicadas aos Direitos Humanos (seção 6.3), às Práticas Trabalhistas (6.4) e ao
Envolvimento Comunitário e Desenvolvimento (6.8).
Direitos Humanos – embora a legislação sobre direitos humanos estabeleça
relações entre o Estado e os indivíduos, é amplamente reconhecido que organizações não-
governamentais podem afetar tais direitos, tendo, portanto, o dever de respeitá-los. A norma
afirma, inclusive, que tal respeito amplia-se até a esfera de influência da organização e
independentemente da vontade ou capacidade do Estado de implementar tais direitos. É
frequente, segundo o texto, que existam expectativas de que as organizações não apenas
respeitem os direitos humanos, mas que deem uma contribuição positiva para sua realização.
Neste sentido, a norma inclui o conceito de “due diligence”7, ou seja, a avaliação
constante de impactos negativos potenciais ou reais que possam estar sendo gerados sobre os
direitos humanos (bem como a outros aspectos da responsabilidade social), visando sua
minimização ou prevenção.
A outra idéia forte nesta norma é a de que as organizações devem evitar qualquer
cumplicidade com abusos aos direitos humanos, seja diretamente, seja auferindo algum
benefício ou pelo simples silêncio ou omissão. Um dos exemplos citados no texto é o da
obtenção de benefício econômico por abusos cometidos por fornecedores em relação aos
direitos fundamentais no trabalho.
Além de tratar do comportamento diante de grupos vulneráveis e dos direitos
econômicos, sociais e culturais, os chamados direitos fundamentais no trabalho são
mencionados como parte dos direitos humanos. Estes direitos, conforme definido pela OIT,
incluem a liberdade de associação e reconhecimento efetivo ao direito à negociação coletiva,
a eliminação do trabalho forçado, abolição do trabalho infantil e eliminação da discriminação
no trabalho e emprego. Esta parte do texto segue o entendimento da OIT em relação a tais
direitos, o que garante o reconhecimento dos consensos alcançados internacionalmente entre
trabalhadores, empregadores e governos.

7
Este termo poderia ser traduzido como “diligência devida” para o português.

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Nesta seção, há também uma série de recomendações voltadas para a existência de
mecanismos de resolução de conflitos e de veiculação de denúncias, que as organizações
deveriam manter.
Práticas Trabalhistas – esta seção da norma aborda políticas e práticas
relacionadas ao trabalho executado para ou em nome de uma organização. Adota o princípio
da Declaração da Filadélfia, também da OIT, segundo a qual o trabalho não é uma mercadoria
e admite que o trabalhador é vulnerável e que seus direitos precisam ser protegidos. Ou seja, a
relação de emprego é desigual e a lei trabalhista visa proteger a parte mais fraca.
A norma também diz que o governo, enquanto empregador, tem as mesmas
responsabilidades das organizações não-governamentais. Isso não compromete o
reconhecimento das responsabilidades do Estado que decorrem do seu papel de legislador e
administrador da coisa pública.
O emprego deve ser de longo prazo, a menos que seja efetivamente necessário
empregar mão-de-obra ocasional ou temporária. Medidas de prevenção de impactos negativos
no emprego diante de mudanças de operações devem ser discutidas com os representantes dos
trabalhadores. Além disso, não se deve utilizar prática de demissão arbitrária ou
discriminatória.
A norma diz que a organização deve assumir sua responsabilidade sobre trabalho
subcontratado. A relação empregatícia deve se enquadrar no devido marco legal, e as
organizações não deveriam tentar evitar suas obrigações disfarçando tal relação como se fosse
uma relação comercial. Isto se refere, principalmente, à contratação de trabalhadores
autônomos, firmas individuais etc. Neste caso, a responsabilidade estende-se sobre os
fornecedores e subcontratados, sugerindo que sejam feitas auditorias, bem como a inclusão
em contratos de fornecimento, de cláusulas obrigando a adoção de práticas trabalhistas
responsáveis. Quando houver a exigência do seguimento de códigos de conduta, estes devem
se basear nos princípios das Convenções da OIT.
A norma trata de questões como a jornada de trabalho, a remuneração dos
empregados, além de vários outros aspectos relacionados às condições de trabalho. A
abordagem, contudo, é genérica, fazendo menção a que se aplique a legislação nacional, os
convênios negociados entre patrões e empregados e, sobretudo, aquilo que é estabelecido às
Convenções da OIT. Por exemplo, ao dizer que a organização deve pagar salários adequados
às necessidades dos trabalhadores e suas famílias, há referência também aos níveis salariais
do país, ao custo de vida, à seguridade social, bem como a fatores econômicos como os níveis
de produtividade etc. Da mesma forma, ao tratar de aspectos como jornada de trabalho,
descanso semanal e férias, não são estipulados números precisos. Isso tem uma razão, pois a
intenção foi valorizar os fóruns legítimos para a definição destas questões, a começar pela
OIT.
Esta seção dedica uma de suas partes ao diálogo social, ressaltando a importância
desta prática para a busca de soluções, o tratamento de conflitos e de queixas, reduzindo
custos e amenizando impactos sociais das mudanças nas organizações. Além disso, o texto
reconhece a necessidade de independência e representatividade das partes envolvidas para um

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diálogo social genuíno. As figuras do sindicato e de outras formas de representação de
trabalhadores, sempre em acordo com a lei e as convenções coletivas, foram valorizadas.
Inclusive há menção à representação por local de trabalho, bem como de nível internacional
(federações sindicais internacionais, por exemplo). Entre as ações sugeridas figuram o
reconhecimento dos representantes dos trabalhadores, o acesso destes aos dirigentes das
organizações, aos locais de trabalho e condições materiais para o exercício de suas funções de
representação. Outro ponto reforça a necessidade de haver a busca de alternativas, em
conjunto com autoridades e com trabalhadores, em caso de mudança nas operações que
tenham efeitos significativos no emprego.
A mesma seção trata da saúde e segurança no trabalho e do desenvolvimento humano
e formação no ambiente de trabalho. Quanto ao primeiro assunto, enfatiza a participação dos
trabalhadores e o reconhecimento dos seus direitos, como base e princípio a ser seguido pelos
sistemas de saúde, meio ambiente e segurança no trabalho. Um quadro foi inserido no texto,
para fornecer esclarecimentos sobre comitês conjuntos de saúde e segurança no trabalho, a
exemplo das nossas Comissões Internas de Prevenção de Acidentes (Cipas). Quanto ao tema
da formação no trabalho, além de recomendar que as organizações proporcionem aos
trabalhadores condições de se desenvolverem profissionalmente, há uma ênfase à não
discriminação e ao respeito às obrigações familiares dos trabalhadores, por meio, por
exemplo, de jornadas de trabalho compatíveis.
Envolvimento comunitário e desenvolvimento – estes dois assuntos são
tratados numa única seção da norma. Cabe aqui frisar que o direito ao desenvolvimento e o
engajamento no combate à pobreza aparecem muito claramente no texto. Além disso, outros
aspectos especialmente relevantes para os trabalhadores são: a relação entre investimentos e
geração de empregos; a relação entre inovação tecnológica e emprego e o tema das atividades
informais. Quanto a este último item, o texto alerta para o não envolvimento com atividades
informais quando o propósito ou resultado é contornar as obrigações legais. Reconhecendo
que a informalidade pode decorrer da pobreza ou condições do desenvolvimento
socioeconômico, o envolvimento com atividades informais deve ser acompanhado pelo
esforço em trazer tais atividades para a formalidade.

A integração da responsabilidade social no conjunto da


organização

Este título, embora desajeitado na tradução para o português, indica adequadamente a


visão de que a responsabilidade social deve ser um atributo do conjunto das atividades da
organização, englobando suas operações cotidianas bem como aquelas de caráter mais
esporádico. Esta integração deve levar em conta, entre outros aspectos, as características da
organização e as expectativas das partes interessadas. Para identificar a sua responsabilidade
social, a organização deve considerar quais questões de Responsabilidade Social são
relevantes para ela e, entre estas, o grau de sua significância, ou seja, a magnitude dos
impactos, o efeito potencial de suas ações, as preocupações das partes interessadas etc.

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Neste ponto, a norma aprofunda as orientações relativas à responsabilidade da
organização sobre sua esfera de influência, que deveria ser identificada em termos de sua
abrangência e do grau exercido. Vale frisar que há casos nos quais o nível de influência é tão
elevado que a responsabilidade torna-se similar à existente em situações de controle direto
sobre terceiros. É frequente que tal situação seja verificada numa relação entre compradores e
fornecedores.
A atuação diante de questões relevantes e significativas de responsabilidade social
pode necessitar do estabelecimento de prioridades imediatas de ação, voltadas para a ameaça
potencial aos direitos humanos, risco de vida, riscos graves ao meio ambiente, entre outros
casos. A prioridade aos direitos humanos significa que também os chamados direitos
fundamentais do trabalho devem ter este tratamento prioritário.
A integração da responsabilidade social em uma organização passa pela sua estrutura
de governança, de gestão, mediante a definição de objetivos, metas, métodos e alocação de
recursos. Não se propõe, contudo, que se criem novas estruturas, contratem consultores e todo
este tipo de coisa que normalmente representa custos elevados e acessíveis apenas a grandes
empresas. A intenção é evitar recomendações onerosas e excludentes. Ainda assim, no elenco
de sugestões feitas, há aquelas que remetem a uma tomada de posição quanto à
responsabilidade social em políticas, planos e nos instrumentos de gestão das organizações.
Por fim, esta integração envolve compromisso e compreensão entre os integrantes da
organização, de todos os níveis hierárquicos, o que, muitas vezes, requer sensibilização e
treinamento.
A comunicação sobre responsabilidade social é muito visível nos dias de hoje, através
de relatórios e outros comunicados veiculados na mídia. A norma oferece orientações sobre
esta comunicação, que é vista como uma via de mão dupla. Por exemplo, a comunicação deve
ser acessível ao público ao qual se dirige, em termos de meios e de conteúdo, bem como
conter informações relevantes para a ação, tanto da organização quanto das partes
interessadas. O texto trata, ainda, da elaboração de relatórios, que devem informar sobre o
desempenho em relação aos assuntos centrais de responsabilidade social, tais como as práticas
trabalhistas e os direitos dos trabalhadores, entre outros assuntos.
A credibilidade da organização em relação a sua responsabilidade social é outro
aspecto crítico, notadamente na relação com as partes interessadas. E o envolvimento destas
em processos de verificação do desempenho sócio-ambiental é visto como uma base para
assegurar tal credibilidade. Além disso, a credibilidade depende do estabelecimento de
mecanismos para tratar de conflitos e discordâncias entre organização e suas partes
interessadas, entre as quais figura a própria negociação coletiva. Outra forma muito comum
de se assegurar a credibilidade das postulações é a adoção de mecanismos de certificação,
selos sociais etc. Por fim, a norma trata da credibilidade da comunicação sobre
responsabilidade social, tal como visto acima.
A integração da responsabilidade social nas operações de uma organização pode
também ser acompanhada e revisada periodicamente. O monitoramento pode ser feito
ouvindo as partes interessadas, comparando seu desempenho com “benchmarks” e

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acompanhando alguns indicadores. Estes últimos não devem ser apenas quantitativos, pois
vários aspectos são mais bem mensurados por informações qualitativas. A norma sugere,
adicionalmente, a revisão periódica das práticas, planos, objetivos, metas etc. Pretende-se que
tais ações resultem na melhoria do desempenho da organização.
Por fim, esta seção da norma trata das iniciativas e ferramentas existentes para apoiar e
promover a responsabilidade social (por exemplo, códigos de conduta, códigos de ética,
certificações, declarações, pactos etc.). Muitas organizações atualmente se juntam ou aderem
a iniciativas deste tipo, o que não assegura que elas sejam mais socialmente responsáveis por
isso. A norma é equilibrada ao dizer que a organização deve fazer um julgamento crítico das
iniciativas, sugerindo alguns critérios para a decisão sobre o engajamento a elas.

Anexo A – Iniciativas voluntárias e ferramentas para a


responsabilidade social

Na linha do que foi dito acima, a norma contém um anexo informativo que lista uma
série de iniciativas internacionais em responsabilidade social e que podem fornecer mais
detalhes sobre os diferentes temas centrais (por exemplo, direitos humanos) ou sobre práticas
de integração (que podem ser sobre relatórios, certificação etc.). A lista permite ao leitor
identificar as iniciativas que abordam um determinado assunto ou aquelas que estão voltadas
para um setor de atividades específico. A ISO faz questão de frisar que, ao incluir uma
iniciativa nesta lista, não estará envolvendo julgamento de valor nem muito menos dando seu
endosso a tal iniciativa.

Anexo B – Bibliografia

Esta parte da norma é de extrema importância porque contém as fontes que serviram
de base para a elaboração do texto. E tais fontes referem-se unicamente a documentos
produzidos pela própria ISO e por organismos intergovernamentais internacionais,
notadamente as agências da ONU. Isto decorre do fato de que o WG decidiu que, além do
material da própria ISO, apenas documentos produzidos por processos políticos legítimos, no
qual a sociedade mundial pode expressar suas expectativas para o comportamento das
organizações, deveriam ser utilizados nesta tarefa de indicar o que é responsabilidade social.
É por isso que iniciativas voluntárias, de natureza privada e que não necessariamente
implicam em processos democráticos, não foram utilizadas como fonte. Além disso, ao incluir
na bibliografia apenas estes tratados, convenções e declarações internacionais, a norma
oferece aos seus usuários uma indicação clara de qual deve ser o guia último das ações caso
seja necessário buscar outros esclarecimentos.

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Voto e comentários ao CD1

Em um processo de votação por correspondência, os organismos de normalização


aprovaram a passagem do texto para o próximo estágio de elaboração, com 49 votos
favoráveis, 19 contrários e 4 abstenções. Entre as organizações internacionais que também se
manifestaram, o resultado apurou 18 votos favoráveis contra 6 contrários. Além disso, os
países e organizações encaminharam 3.411 comentários ao texto, que serão analisados e
dependerão da aprovação na próxima plenária do WG para serem incorporados à próxima
versão da norma.
O voto brasileiro foi favorável ao prosseguimento do processo, com a formulação de
aproximadamente 100 comentários intensamente negociados entre as seis partes envolvidas
nas discussões. A posição dos sindicatos, que envolveu representantes do DIEESE, do
Observatório Social, do DIESAT e de entidades sindicais partiu de avaliação positiva do
documento na forma em que está. Os principais comentários feitos pelo grupo de
trabalhadores foram, resumidamente, os seguintes:
- dar maior visibilidade para os leitores aos documentos intergovernamentais de
caráter vinculante que aparecem na bibliografia;
- abordar os impactos da atual crise global, na parte do texto que fala de contexto da
RS;
- mencionar no corpo do texto (não apenas na bibliografia) as Diretrizes da OCDE, a
Declaração de Princípios e Direitos Fundamentais do Trabalho e a Declaração
Tripartite sobre Multinacionais da OIT;
- esclarecer o significado das palavras “workers” (trabalhadores) e “employees”
(empregados) para reforçar a idéia da responsabilidade sobre terceirizados
(trabalhadores);
- ampliar as menções à negociação coletiva como mecanismo e forma de engajamento
com os trabalhadores e suas organizações sindicais;
- tornar transparente a participação de stakeholders na produção de relatórios de
Responsabilidade Social; e
- no capítulo sobre envolvimento comunitário, manter uma definição de comunidade
vinculada fortemente a um espaço geográfico.

Considerações Finais

Esta nota apresentou de forma bastante resumida um documento de quase 100 páginas
que trata de assuntos complexos e com alto nível de detalhamento. Não foi possível fazer uma
avaliação específica sobre cada um dos pontos que mereceriam comentários. A intenção foi
dar uma visão panorâmica, focalizando, em certa medida, aspectos mais diretamente
relacionados aos trabalhadores e suas organizações.

Norma ISO 26000 CD 1: síntese e comentários gerais 13


Pode-se verificar que a norma tem vários pontos positivos a serem destacados. É
positivo relacionar o conceito de responsabilidade social aos impactos provocados pela
organização na sociedade e no meio ambiente. A participação das partes interessadas é uma
constante, promovendo a negociação coletiva e o diálogo social. Os direitos humanos ocupam
um lugar de destaque, incluindo os direitos fundamentais no trabalho. As condições de
trabalho e a relação de emprego estão fundamentadas nas convenções da OIT e, mais uma
vez, na negociação coletiva e nas leis trabalhistas. Outros temas fundamentais da agenda de
discussões sobre responsabilidade social são abordados. A ênfase na integração da
responsabilidade social evita que esta seja entendida como um conjunto de ações à parte,
deslocadas do tratamento dos impactos sobre a sociedade.
O processo de elaboração desta norma, ainda que avançado, não foi concluído. O
desafio para trabalhadores e seus representantes continua sendo o de manter no texto
orientações que apontem para o respeito aos direitos trabalhistas, o reconhecimento das
organizações sindicais e o efetivo exercício da negociação coletiva. Neste sentido, a atuação
do DIEESE, junto com os demais participantes do grupo sindical, busca, fundamentalmente:
1) a articulação de uma posição unitária do Grupo Labour internacionalmente; 2) a
participação ativa nas reuniões do comitê espelho brasileiro; e 3) a mobilização do
movimento sindical para participar efetivamente destes debates.

Norma ISO 26000 CD 1: síntese e comentários gerais 14


Direção técnica
Clemente Ganz Lúcio – diretor técnico
Ademir Figueiredo – coordenador de estudos e
Rua Ministro Godói, 310 desenvolvimento
CEP 05001-900 São Paulo, SP José Silvestre Prado de Oliveira – coordenador de relações
Telefone (11) 3874-5366 / fax (11) 3874-5394 sindicais
E-mail: en@dieese.org.br Nelson Karam – coordenador de educação
www.dieese.org.br Francisco J.C. de Oliveira – coordenador de pesquisas
Claudia Fragozo dos Santos – coordenadora administrativa
e financeira
Direção Executiva
Tadeu Morais de Sousa - Presidente Equipe técnica responsável
STI Metalúrgicas, Mecânicas e de Materiais Andréa Muchão da Silva
Elétricos de São Paulo e Mogi das Cruzes Clóvis Scherer
Alberto Soares da Silva – Vice-presidente Luciano Schmitz
STI de Energia Elétrica de Campinas Iara Heger
Geni Marques
João Vicente Silva Cayres – Secretário
Sindicato dos. Metalúrgicos do ABC
Antonio Sabóia B. Junior – Diretor
SEE Bancários de São Paulo, Osasco e Região
Antonio de Sousa – Diretor
STI Metalúrgicas, Mecânicas e de Material
Elétrico de Osasco e Região
Paulo de Tarso G. B. Costa – Diretor
Sindicato dos Eletricitários da Bahia
José Carlos de Souza – Diretor
STI de Energia Elétrica de São Paulo
Carlos Donizeti França de Oliveira – Diretor
Femaco – FE em Serviços de Asseio e
Conservação Ambiental Urbana
e Áreas Verdes do Estado de São Paulo
Mara Luzia Feltes – Diretora
SEE Assessoramentos, Perícias, Informações,
Pesquisas e Fundações Estaduais do Rio Grande
do Sul
Zenaide Honório – Diretora
Sindicato dos Professores do Ensino Oficial de
São Paulo (Apeoesp)
Pedro Celso Rosa – Diretor
STI Metalúrgicas, de Máquinas, Mecânicas, de
Material Elétrico de Veículos
e Peças Automotivas de Curitiba
Josinaldo José de Barros – Diretor
STI Metalúrgicas, Mecânicas e de Materiais
Elétricos de Guarulhos, Arujá, Mairiporã e Santa
Isabel
Antonio Eustáquio Ribeiro – Diretor
SEE Bancários de Brasília - CNTT/CUT

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