Você está na página 1de 15

História e histórias de Casegas

I Realidades e conjecturas sobre as origens


Casegas tem, como tantas terras pequenas, obscuras e ignoradas na


sua lo ngínqua periferia, uma história feita essencialmente por gente popular
que não ficou nas narrativas dos feitos de gente ilustre e, por isso, quase não
tem história, no sentido da grandiloquência e do heroísmo da nobreza
guerreira ou outra.
Talvez o maior heroísmo dos Caseguenses fosse o facto de aqui
viverem e serem Caseguenses com tudo o que isso implicava de coragem:
desbravar a terra (desde o início do povoamento desta região), trabalhar na
agricultura de subsistência, pastorear os gados pelas faldas da Estrela e do
Açor, ser carvoeiro, ser almocreve, trabalhar em diversos ofícios, ser mineiro
na Panasqueira, a partir de inícios do século XX e até emigrar para outras
paragens, para o estrangeiro (França, Canadá, Suíça, Luxemburgo,
Alemanha) ou para as colónias (Brasil, Angola…etc) ou para outros
pontos do país.
A História de Casegas tem que ser vista numa dinâmica regional e
concelhia, pelo menos na
órbita do núcleo populacional mais importante da região: a Covilhã.
Sabemos hoje, por vestígios arqueológicos notórios e reconhecidos na
nossa freguesia (as gravuras rupestres) que desde o Neolítico na bacia do
Zêzere e do Tejo, da qual a ribeira de Casegas faz parte, começou a radicar-
se gente, praticando a agricultura e a pastorícia. Essa sociedade agro-
pastoril evoluiu e atravessou as Idades dos Metais. Na região da Beira Baixa
há documentação monumental da Idade do Bronze e da Idade do Ferro. O
mais próximo de Casegas é o Castro do Cabeço da Argemela, no Barco. No
Paul foi encontrado um machado de da Idade do Bronze.
Tanto as zonas de montanha, como as do vale do Tejo, Zêzere e
afluentes têm gravuras rupestres do Neolítico e até do Paleolítico, num ou
noutro local. Muitos vestígios e sítios arqueológicos estão ainda por
investigar e classificar. Os primeiros habitantes fixaram-se, aproveitando a
fertilidade da Cova da Beira e já os Lusitanos, montanheses pastores de
cabras, deixaram vestígios, por exemplo, no Castro de Orjais, situado a 10
quilómetros na direcção nordeste da Covilhã. Antes, no Castro do Cabeço da
Argemela, na margem esquerda do Zêzere, doze quilómetros a sudoeste
desta cidade, é provável que na Idade do Bronze os seus habitantes,
fizessem da exploração do estanho o modo de vida principal, comerciando-o
para paragens longínquas do Mediterrâneo Oriental. Conjecturas com fortes
probabilidades de realidade.
Na época romana assistiríamos ao abandono forçado dos castros pela
população indígena que os romanos, ou escravizam na agricultura da fértil
Cova da Beira, ou se romaniza pacificamente e se entrega às delícias da
civilização romana. Os vestígios são inúmeros e vão aparecendo cada vez
mais. Salienta-se Centum Cellae em Belmonte. Com fortes probabilidades, a
Covilhã foi um castro romanizado que adquiriu o direito de município romano.
Os vestígios líticos e cerâmicos atestam- no1. Terá a Covilhã a sua fundação
ligada a Júlio César, no ano 41 A. C.? O que não nos oferece dúvidas é que
foram os romanos e as populações autóctones os construtores de estradas na
região do actual concelho da Covilhã, pontes romanas sobre o Zêzere evi ll ae
agrícolas, aproveitaram os metais preciosos presentes nos aluviões auríferos
desse rio e ribeiras afluentes, incluindo Casegas (o maior tesouro de Portugal
em moeda romana de ouro foi encontrado em Orjais nos anos quarenta e está
no Museu Nacional de Arqueologia). Na época de Roma e é quase certo que
em Casegas houve exploração mineira, provavelmente de ouro e as lendas
e vestígios visíveis nas “Covas”, aguardam uma campanha
arqueológica que as confirmará pela certeza da ciência. Por outro lado,
também é bastante provável que as terras agrícolas, quer as dos planaltos e
encostas, quer as aluviais mais férteis, ao longo das ribeiras, atraíssem a
população nas diversas épocas em que a agricultura era a actividade
fundamental.
Na decadência de Roma, entre 457 e 585, travava-se na Península
uma luta entre Godos e Suevos, acabando estes vencidos. Neste período de
barbárie, perde-se no tempo o nome de Sília Hermínia, aparecendo o de
Covelana, de Cava Juliana, provavelmente em virtude da doação de Witiza
ao conde Julião. Lenda e convicção popular misturam-se.
Sabemos que a povoação da Covilhã foi destruída por ocasião da
invasão dos Mouros. (712 - 714 ?). Como foi a vida nestas paragens nestes
dois ou três séculos subsequentes? Nada sabemos com segurança. Afonso
III, rei das Astúrias, reconquistou-a para a perder novamente no fim do seu
reinado. É provável que voltasse à posse cristã durante o reinado de
Fernando Magno, juntamente com as localidades da Beira que conquistou
ainda antes de Coimbra em 1064.
Que papel teria a Covilhã (e o território do actual concelho) nos
primeiros tempos do Condado Portucalense, quando a linha de fronteira entre
o norte cristão e o sul muçulmano ( 1064) passava pelo Mondego até
Coimbra e à foz deste rio, sendo mais ou menos difusa nas cumeadas da
cordilheira central (serras da Estrela, Açor e Lousã)? Quando a reconquista
avança para sul de Coimbra, na parte ocidental do país, com a conquista de
Leiria e Santarém, que se passa na transposição da cordilheira central para a
Beira Baixa?
Sabemos da penetração em direcção a leste que vem sendo operada
pelos Templários: para Tomar (1159), Ozêzere e Cardiga (1169),
posteriormente D. Afonso Henriques doa-lhes, em 1165, todo o território a
leste do rio Nabão até ao Erges e a sul da cumeada da Estrela, Açor e
Lousã, coincidindo, grande parte deste território, com os limites do futuro
concelho da Covilhã do foral de 1186.
1 VASCONCELOS, J. Leite de, Antiguidades do Concelho da Covilhã, Coimbra, 1934
A Beira Baixa seria, em 1165, uma área difícil, de pouca gente, vasto
espaço de correrias guerreiras com um ninho inexpugnável encostado à
Estrela (a Covilhã) e um ou outro núcleo povoado? (por exemplo Casegas?)
Parece provável. A importância e o crescimento desta vila da Covilhã,
enraizar-se-iam nesta época. O relativo fracasso dos Templários nesta
primeira tentativa parece óbvio, dado o recuo e opção por outras formas de
povoamento e defesa: o foral de Monsanto em 1175 e, onze anos depois, o
da Covilhã.
Impõe-se questionar a importância da Covilhã nesse tempo, a par com
a estratégia de D. Sancho I, fazendo recuar a linha de defesa para a
cordilheira central com a transferência do bispado da Idanha para a Guarda,
após a ofensiva Almóada de 1190. Porquê a Guarda, com foral em 1199,
cidade criada quase a partir do zero, quando a Covilhã era uma vila de certa
importância? A posição estratégica da Guarda, a uma altitude de 1000
metros numa posição propícia à defesa duma possível invasão vinda de Leão
e Castela pelo planalto da Beira Alta e numa linha um pouco mais recuada,
relativamente aos mouros do sul, jogou em favor da cidade que assumiu, a
partir de então, a importância inerente à sua posição estratégica e ao seu
estatuto de sede de bispado. Quanto ao concelho da Covilhã, porque terá
sido sucessivamente amputado, vindo a formar-se no seu território inicial, ao
longo do século XIII, mais concelhos e, inclusivamente, doações à ordem
militar dos Templários?
Na Idade Média, durante a Reconquista e formação de Portugal,
aparece Casegas, fazendo parte de uma doação de D. Afonso Henriques aos
Templários, uma ordem militar e religiosa, juntamente com Silvares e o
território de Castelo Branco. Quando, no tempo de D. Sancho I se forma o
concelho da Covilhã, por carta de foral de 1186, Casegas aparece nos limites
do concelho e nunca mais se separou.
Não foi ainda encontrada documentação escrita de relevo sobre
Casegas, a não ser já no século XVIII, em que a resposta do prior desta terra
ao inquérito efectuado nos fornece dados demográficos e económicos
importantes. Sabe-se também que data deste século a primeira escola nesta
terra; no tempo do Marquês de Pombal era criada a cadeira de Latim. Este é
um facto importante que marca a ascensão de uma localidade e lhe confere
vida.2
A conjectura sobre o topónimo Casegas (Casa de Egas?) e a pretensa
origem ligada a Egas Moniz, não passa disso mesmo: uma conjectura sem
base documental. Ao longo dos séculos perdeu-se muita documentação e um
estudo aprofundado sobre Casegas terá que ser forçosamente fragmentário
e basear-se em documentos históricos de diversa índole que lhe dêem
alguma unidade interpretativa e referências laterais de outros estudos sobre
a região e o concelho. Optou-se por esta via para este breve artigo.
2Ao contrário de políticas actuais de encerramento de escolas (no século XXI!)
que demonstram e provocam o
despovoamento e a morte das aldeias.
4
II- Breve cronologia da Beira Baixa e do concelho da Covilhã na
segunda
metade do século XII e primeira metade do século XIII.
1064- A linha do Mondego / Cordilheira Central divide o sul muçulmano do
norte cristão.
1165- Doação do território de Egitânia (limites da antiga diocese) à Ordem do
Templo.
1175- Monsanto recebe foral.
1186- D. Sancho I outorga foral à Covilhã. (o termo da Covilhã
abrange território
anteriormente Templário (Casegas, Silvares, S. Vicente da Beira e Sarzedas) e
chega a Ródão.
1190/91- Contra-ofensiva Almóada.
1194- Os Hospitalários recebem o território de Guidintesta (Alto Alentejo).
1194- Centum Celas recebe foral do Bispo de Coimbra. Em 1199 passaria
para Belmonte.
1195- S. Vicente da Beira recebe foral de D. Afonso, filho de D. Sancho I.
1197- A Azafa (parte da Beira Baixa e Ribatejo) é concedida à Ordem do
Templo.
1199- D. Sancho I outorga foral à Guarda - o Bispado da Egitânia
(actual Idanha-a-Velha) é
transferido para a Guarda. Ainda hoje se chamam egitanienses aos
habitantes da Guarda.
1202- Alpreade, recebe foral de Pedro Guterres, alcaide de Covilhã.
Em 1205 mudará o
nome para Castelo Novo.
1206- Doação de Idanha-a-Nova à Ordem do Templo.
1206- Uma parte da Herdade da Cardosa (Castelo Branco) é doada aos
Templários.
1212- Sarzedas recebe foral de Egídio Sanches, filho de D. Sancho I.
1214- Doação da totalidade do território da Cardosa à Ordem do
Templo. Foral de Mestre
Pedro Alvito e (re)fundação de Castelo Branco.
1217- D. Afonso II confirma o foral concedido por D. Sancho I à Covilhã.
1229- Idanha-a-Velha é doada a Mestre Vicente.
1229- Salvaterra do Extremo recebe foral.
1244- O concelho de Idanha-a-Velha passa para as mãos dos Templários.
1260- D. Afonso III dá a Carta de Feira à Covilhã.
Com esta cronologia constatamos que na Beira Baixa a instabilidade
das estruturas administrativas foi um facto ao longo destes dois séculos,
alternando entre o predomínio das ordens militares e o das estruturas
concelhias. Essa instabilidade resultou da adaptação às circunstâncias e aos
interesses do rei e dos vários grupos com melhores condições e mais força
para fazerem prevalecer o seu interesse e conseguirem sucesso na
Reconquista, em si mesma um processo instável, como todas as guerras.
Daí que, num momento mais propício, nos apareça um desmembramento do
concelho da Covilhã e o seual f oz (território concelhio) bastante reduzido,
mas por sua vez, desenhado sobre uma antiga doação aos Templários do
antigo território do bispado da Egitânia (Idanha-a-Velha).
III- Documentos, factos e interpretações
Lendo o foral da Covilhã outorgado por D. Sancho I, em 1186, verifica-
se que, apesar das guerras, invasões e razias mouras e fossados cristãos, a
população ia-se mantendo mais ou menos fixa à sua terra. O mesmo
acontecia na Covilhã (e certamente em Casegas), onde parece que não se
está a fixar população, mas a dar um estatuto a uma população já fixada à
terra, herdando, fazendo as partilhas, dividindo as propriedades com marcos.
Se nos tempos romanos a Cova da Beira era uma área com uma densidade
populacional elevada, mas dispersa, como recentes escavações e
prospecções arqueológicas revelam, nesta época seria bem menor e talvez
se concentrasse na posição elevada e facilmente defensável que era a vila
com as suas prováveis muralhas e o seu castelo. A população era escassa e
tinha de se juntar em aglomerados para se defender, quer dos inimigos, quer
das intempéries, partilhar em comunidade os recursos, guardar os rebanhos,
aproveitar as magras pastagens da montanha. A Covilhã tem a seus pés um
vale fértil, a Cova da Beira, e a água das suas ribeiras é abundante. Vigia o
vale lá do alto. Vê chegar, quaisquer invasores, qual ninho de águias sobre
um rochedo. A vida aqui seria mais fácil do que noutros locais da Cordilheira
Central. Efectivamente a serra, como matriz, condiciona os seus habitantes
no modo de vida. É um local de destino para os rebanhos na sua deslocação
estival para os altos, permite uma defesa de possíveis invasores que não se
aventuram a subir. O espaço do concelho era diversificado: desde a serra ao
vale e à planura da Beira Baixa, até ao Tejo. É um espaço rico de
diversidades que permitia a auto-subsistência: agro-pecuária, caça, pesca
(nos rios) e, acima de tudo, os seus habitantes farão nesse espaço a tarefa
do tempo histórico que vivem: a guerra. Era, o local da Covilhã, na meia
encosta, num pequeno planalto, o espaço ideal para a população começar a
concentrar-se, fortificando-se numa construção inexpugnável. Claro que na
órbita deste centro, quase urbano, está o espaço rural do qual Casegas faz
parte, com poucos moradores certamente.
A documentação referente à Covilhã anterior ao foral é reduzidíssima.
No Livro Preto da Sé de Coimbra lê-se que, em Maio de 1186, isto é, alguns
meses antes do foral, D. Sancho I doava as igrejas existentes na Covilhã à
Sé e ao seu Bispo.
É natural a suposição de que a Covilhã seria um centro importante.
Estes factos levaram a que as gentes da Covilhã criassem o seu próprio
município, segundo Herculano, para se poderem organizar e defender.
Alexandre Herculano refere que a Covilhã se organizara municipalmente
“imitando os concelhos mais próximos, que tinham o foro de
Salamanca e conservando o seu
sistema de magistraturas, ainda alguns anos depois do foral de
Ávila”.3
3 in Herculano, Alexandre, História de Portugal, Lisboa, 1853, p. 479.
6
A Covilhã tornara-se, desde a Antiguidade, num ponto de cruzamento
de estradas e caminhos, facto visível nos vestígios da rede viária e pontes
romanas. No entanto, nas épocas de maior instabilidade político-militar todas
as vias de comunicação desta região sofreram, tal como as actividades
económicas, excepto o modo de vida guerreiro próprio de regiões
fronteiriças.
A Carta de Foral vem confirmar a sua importância como posto
fronteiriço. A indefinição pairava sobre estas terras, no que se refere ao
domínio político, não se sabendo para que lado tombaria, se para o domínio
de Leão e Castela, se para o domínio muçulmano se para o lado português.
Em 1190 a contra-ofensiva Almóada colocava ainda em perigo o frágil
domínio português. Até ao final do reinado de D. Sancho II, a vila da Covilhã
viveu o espírito de Reconquista, isto é, de luta contra os mouros. Por várias
vezes, o rei visitou a Covilhã. D. Dinis terá estado aqui várias vezes e até ao
tratado de Alcanices a instabilidade político-militar será ainda uma realidade.
Apesar dessa instabilidade, a vida económica ia-se desenvolvendo.
Está patente no foral esse
palpitar e essa pujança crescente: a pastorícia, a agricultura, os
mesteres, a actividade comercial.
A pastorícia teria uma grande importância na vida da população
serrana. Supõe-se que a transumância e o deambular sazonal dos rebanhos
seriam uma realidade, já que surge a necessidade de estabelecer no foral as
condições do pastoreio do gado da terra e de fora nas pas tagens comunais,
e do gado da Covilhã noutras paragens.
A pastorícia terá estado na origem dos conflitos com Castelo Branco no
século XIII; a disposição do foral sobre o gado da Covilhã isento do
pagamento dotributo de pasto, sem contrapartida no concelho da Covilhã era
geradora potencial de conflitos.
(Os que quiserem apascentar seus gados nos termos de Covilhã pagarão o tributo

de montadigo que é de rebanho de ovelhas quatro carneiros, e de vacas uma vaca. Tal

montadigo pertence ao concelho (...) O gado de Covilhã não pagará o tributo de pasto em

terra alguma).Por
outro lado a grande variedade de gado citado, a protecção dada ao
gado doméstico (Todo aquele
que fizer penhorar ou apreender gado doméstico pagará sessenta soldos ao fisco
e restituirá em
dobro o gado a seu dono). Também a obrigação de comprar cavalo,
sinal distintivo da riqueza é
dada pela posse de gado: (... uma junta de bois, quarenta ovelhas, um
jumento e duas camas tem
obrigação de comprar cavalo).
A agricultura não tem referências de relevo. Provavelmente seria
menos importante que a pecuária na vida dos habitantes. José Mattoso
refere situação semelhante para o concelho de Alfaiates, referindo-a como
termo de comparação para toda a Beira Interior, onde a caça é mais referida.
As actividades mais “primitivas” sobrepondo-se às que exigiam mais
rigor, estabilidade e ligação à terra. Mas, podemos supor, contrariando essa
opinião, que a existência da propriedade (referência aos marcos divisórios,
herdades, moinhos, fornos...) implica essa posse e ligação à terra,
7
condição para a agricultura de exploração individual. No foral da
Covilhã já se referia essa situação
(Aquele que mudar marco alheio na sua fazenda pague cinco soldos e a sétima parte
ao fisco.
Aquele que usurpar o limite da propriedade de outrem pagará cinco soldos sendo
para o fisco a
sétima parte).
O trabalho da lã já seria uma realidade, quer pela presença da matéria-
prima, por diversas vezes referida (costal de lã), quer dos panos de lã. O
comércio e o movimento de mercadores mouros e judeus, entrando e saindo
da vila era outra realidade do quotidiano, igualmente confirmada no foral. E
assume-se no foral a sua importância, pela protecção prestada (todo aquele
que penhorar mercadores cristãos e viandantes ou sejam judeus ou mouros que
não forem fiadores
ou devedores pagará ao fisco sessenta soldos e restituirá em dobro o que
apreendeu a seu dono...)
Em 1260, D. Afonso III, com a Carta de Feira viria novamente confirmar
esta situação.4 Nesta ocasião o rei, querendo promover a actividade
comercial e multiplicar os seus rendimentos, numa época de progresso
económico e de estabilidade política, com a conquista do Algarve terminada
e relativa paz com Castela, concede aos da Covilhã esta carta, tal como já
tinha feito com a Guarda alguns anos antes.
Será lícito supor que a partir da estabilização político-militar, depois de
D. Afonso III, com o esvair das contra-ofensivas muçulmanas e o reforço das
posições cristãs pelo Alentejo adiante, até ao Algarve definitivamente
conquistado, a actividade comercial tenha ganho um estatuto e uma
importância fundamentais, encetando-se relações com Castela, com o sul da
Beira Interior e com a Beira Litoral (o sal e o peixe, mas também os lanifícios)
através das serras do Açor e Estrela, atravessadas até Coimbra e Tomar (por
Seia, Arganil e Penacova). Esta seria a rota do sal (e da lã) que passava por
Casegas e Sobral.
Casegas constava já no mais antigo mapa de Portugal, datado de
1561 onde, entre outras,
também estão Unhais-o-Velho, Dornelas, Cebola, Carregal, Barroca
e Silvares.
Existe em Casegas um vestígio monumental importante que urge
interpretar e contextualizar: a ponte sobre a ribeira de Casegas. Esta ponte é
românica, provavelmente de origem medieval e reconstruída na dinastia
filipina. Esta é uma conjectura, baseada na arquitectura da ponte
4Carta de Feira da Covilhã (extracto):
“ Afonso, pela graça de Deus rei de Portugal, a todos os do meu reino e de todos os outro reinos
que virem

estas palavras, saúde. Sabede que mando fazer uma feira em cada ano na minha vila da Covilhã pela festa de Santa

Maria de Agosto e mando que essa feira dure oito dias [...]. todos os que vierem a esta fei ra por conta própria, para

vender ou para comprar, fiquem seguros na ida e na volta, que não se penhoram no meu reino por qualquer dívida,

desde o oitavo dia antes de começar a feira até trinta dias depois, a não ser por dívida que for feita em dinheiro na dita

feira. Quem agredir os homens que vêm a esta feira pague-me seis mil soldos e o dobro do que tomar ao respectivo
dono e todos os que vierem a esta feira paguem a minha portagem e todos os direitos que devem
pagar (...).”
8
e na história económica da nossa região, pois a passagem das mercadorias
referidas e o acesso aos terrenos da margem esquerda teriam uma
importância que justificaria a sua construção e manutenção na dinastia
filipina, quando o interior do país mais se desenvolveu do ponto de vista
comercial e agrícola, já que estava em curso a “revolução do
milho”, a transumância trazia até
Casegas e à serra da Estrela, rebanhos até mesmo de Castela, não
havia fronteira entre Port ugal e
Espanha e os lanifícios desenvolviam-se bastante.
E as pessoas?
Podemos supor que a sociedade caseguense seria uma realidade,
embora diminuta, pois Casegas já tinha este nome e era povoada desde o
tempo do domínio dos Templários, portanto, antes do foral da Covilhã. A
sociedade dos séculos XII e XIII está plasmada nesse foral. Podemos
igualmente ver aí a presença do rei. Faltam-nos os quantitativos, quer da
totalidade, quer das parcelas, referentes aos diversos grupos sociais. O
tempo é de guerra e os actores adaptam-se a esse tempo. São inúmeras as
referências à guerra, em diversas palavras e expressões:fossado, batalha,
algara, azarias, armas, escudos, espadas, lança, ferir, ferido, ser morto, apresar,
mouro que se
vender no mercado... A organização da vida não é pautada pelo
calendário litúrgico, nem pelos
ciclos vegetativos, da vida, morte e renascimento que José Mattoso
encontrou noutras paragens, quiçá mais pacificadas. Os homens e as
mulheres são os actores, objecto de mais regulamentações destinadas a
pacificar e moderar a violência e a colisão entre o interesse individual e a
necessidade colectiva, trabalham, lutam, pagam impostos, entrechocam-se
na luta pela sobrevivência. Referem- se os homens, (...) o homem, (...) o
indivíduo, (...) o que matar, (...) o que roubar, (...) quem for, (...)
para designar o sexo masculino. As mulheres são
o que tiver (...)
referidas cinco vezes, contudo,
face à situação de casamento por três vezes: a mulher, filha... algumas
vezes aparece como objecto
vítima de violências: o que forçar mulher e esta gritando disser que foi
violentada (...) o que faltar
à promessa de casamento (...) o que abandonar sua mulher (...) o que bater na
mulher (...) a mulher
casada à face da igreja que abandonar seu marido...
A população organizava-se no tipo de família predominante na época, a
família extensa, apoiada numa ampla rede de solidariedades de parentesco.
Alguma gente seria originária do norte do país: o rei D. Sancho dizia no
início:queremos restaurar e povoar a Covilhã (e certamente todo o concelho). Por
isso há um conjunto de incentivos à fixação de população: concedemos que todo
o
cristão ainda que servo que habitar na Covilhã durante um ano fique livre e
ingénuo ele e a sua
descendência. Outras normas jurídicas concediam aos habitantes
da Covilhã mais liberdade e mais
regalias: o foral de uma cidade: Évora, cujo tipo era muito mais
atractivo que outros, próprios da
ruralidade, o facto de estar estabelecido que os cavaleiros de Covilhã
serão em juízo considerados
como poderosos e infanções de Portugal (...) os clérigos terão as imunidades dos
cavaleiros. (...)
Os peões serão em juízo considerados como cavaleiros vilãos de outra terra...
era atractivo. Tal
9
como outras normas referentes ao pagamento de multas que deveria ser
apenas pelo foral da Covilhã, em qualquer ponto do país, a isenção de
portagem, a capacidade de os habitantes serem titulares dos seus
instrumentos de produção e outras, já anteriormente referidas, respeitantes à
pastorícia e à actividade comercial.
O casamento teria tendência para a antecipação, o que favorecia o
crescimento populacional, tendência investigada por José Mattoso5 . Era
favorecido e protegido por normas tendentes à sua manutenção,
discriminando todavia a mulher que podia, mais facilmente ser abandonada
pelo marido (um dinheiro contra trezentos soldos).
A diferenciação social também ficou plasmada no foral. Aqui
distinguimos:os moradores ouvi z i nhos que estabelecem entre si distinções
baseadas na repartição de riqueza, na diversificação de ocupações, na área
geográfica que habitam e na crença religiosa. Distinguimos o cavaleiro -vilão
dos peões, o cristão do judeu ou do mouro, o proprietário dos criados. Existe
mobilidade social, a capacidade de ascender à cavalaria-vilã, baseada na
posse de alguns bens ligados à agro-pecuária. Esta cavalaria-vilã era o topo
da hierarquia do concelho e assumia-se como a aristocracia, imitando o
estatuto da nobreza senhorial.
Sem dúvida que a propriedade da terra era o factor principal que dava
estatuto. Em Cas egas esta situação prolongar-se-ia até meados do século
XX, sendo dominante a agricultura de subsistência, com tendência para
se tornar uma agricultura mais “comercial”. Já não seriam chamados
cavaleiros-vilãos, mas proprietários, chegando à comercialização de
excedentes agrícolas. E a vila, depois cidade, (a partir de 1871) da Covilhã,
seria o principal mercado para os produtos dessa agricultura caseguense. E
não só da agricultura, já que a cidade e as suas indústrias e o caminho-de-
ferro irão absorver a produção de carvão de madeira e torga que as
freguesias serranas produziriam sem cessar desde finais do século XIX até
aos anos 60 do século XX.
Os peões seriam certamente a maioria, a massa do concelho, sobre
os quais recaíam as
contribuições resultantes da produção agrícola e pecuária.
Aparecem identificados como:vas s al os
de solar, (...) solarengo, (...) hortelão, moleiro, genericamente são os
dependentes de outrém, a base
e mão-de-obra da actividade agro-pastoril do concelho.
Também os que trabalham na actividade mercantil, os dome r c ado,
tinham imunidades especiais que os protegiam: osmercadores (...) os
viandantes (...) os homens de fora que pagam portagem pela introdução de
produtos no mercado, podendo ser cristãos (maioria), mouros ou judeus
(minorias). Existiu, talvez desde esses tempos, uma judiaria na Covilhã. Os
judeus são referidos comovi andant es . O foral diz-nos que os escravos eram
de origem moura, talvez capturados na guerra: de mouro que se vender no
mercado um soldo (...) de mouro que se libertar a
décima.
5 MATTOSO, José, Identificação de Um País, vol. 2, p. 72.
10
Apercebemo-nos de uma sociedade diversificada, onde está ausente o
elemento da nobreza senhorial e o clérigo, onde há uma liberdade
condicionada por uma natureza ainda, em grande parte, por desbravar, e por
uma guerra. Uma região de fronteira, espaço propício à aventura e à
construção do futuro.
O rei é, apesar de ausente, a presença mais constante e forte do foral.
Ele é o fisco, omnipresente na economia do concelho, e está imanente como
autoridade última e primeira que decidiu povoar e restaurar uma terra,
outorgando-lhe uma Carta de Foral. Tem aí os seus representantes e o
alcaide. O seu poder é de natureza pessoal e institucional, fala na primeira
pessoa do plural (ordenamos, (...) mandamos, (...) determinamos, (...) damos e
concedemos). É a justiça última, calendariza a guerra e na nossa Idade Média
mostra alguma centralização do poder, por via da especial situação de
conflito permanente que se vive no espaço peninsular.
É assim que, em última instância ele faz e desfaz fronteiras
concelhias na Beira, talha e
retalha pedaços de território, outorgando cartas de foral e fazendo
doações às ordens religiosas. Sem
dúvida que os reis tiveram em conta, não só os seus interesses
pessoais e do seu “país”, mas
igualmente a correlação de forças e as possibilidades que cada grupo social,
localidade ou instituição tinham de levar a cabo o objectivo estratégico:
consolidar e alargar o domínio português e enfraquecer ou derrotar
definitivamente o poderio muçulmano. Esta autoridade real é fulcral para
compreendermos a evolução da Beira Baixa e, em particular, a evolução do
concelho da Covilhã, desde o seu aparecimento, como entidade jurídica, até
aos dias de hoje, com os seus actuais limites geográficos.
Por outro lado, a natureza particular do meio serrano e as
circunstâncias da génese histórica condicionaram certamente as
características futuras dos habitantes da Covilhã e do seu concelho: uma
particular natureza aguerrida, um sentido de inovação e aventura, misturada
com caracteres democráticos e intransigência na defesa dos seus direitos,
relativamente aos poderosos da nobreza e do clero. Transformaram um
espaço de montanhas e vales numa terra de homens, viveram e lutaram
nestes dois séculos de afirmação de um país. Aventuraram-se a sair da vila
para o seu alfoz. Em tempo de guerra e em tempo de paz. Povoaram vales
férteis como o de Casegas e encostas inóspitas, banquetearam-se nas festas
e passaram fome em épocas más. Organizaram uma vida social que se
desenrolou marcada pela Igreja (uma vez pacificada a região) e pelas suas
festividades, num ciclo anual, que fervilhou nos mercados, na condução dos
rebanhos serra acima, na tosquia das ovelhas, na venda da lã, nas reuniões
da assembleia, nos combates judiciais.
Viveram.
11
BIBLIOGRAFIA
ALMEIDA, D. Fernando de, Egitânia - História e Arqueologia, edição da
Faculdade de
Letras da Universidade de Lisboa, Lisboa, 1956.
BATISTA, José David Lucas,O Povoamento da serra da Estrela - de 1055 a
1223, co– edição do Instituto de Língua e Cultura Portuguesa e do Parque
Natural da Serra da Estrela, Lisboa - Manteigas, 1988.
COELHO, António Borges, Comunas ou Concelhos, 2ª edição, Editorial
Caminho, Lisboa,
1986.
DIAS, Luís Fernando de Carvalho, História dos Lanifícios, 1750-1834,
Documentos.
GOMES, Rita Costa, A Guarda Medieval 1200-1500, cadernos da Revista de
História
Económica e Social, n.o s 9 e 10, Livraria Sá da Costa Editora, Lisboa,
1987.
HERCULANO, Alexandre, História de Portugal, Tomo IV, edição Bertrand e
Filhos,
Lisboa, 1853.
ISIDORO, Alcina e outros, Do Foral à Covilhã do século XIII, edição da
Associação de
Estudo e Defesa do Património Histórico-Cultural da Covilhã,
Covilhã, 1988.
MARQUES, A. H. de Oliveira, A Sociedade Medieval Portuguesa, edição
Livraria Sá da
Costa, Lisboa, 1974.
MARQUES, A. H. de Oliveira, História de Portugal, vol. I, Palas Editores,
Lisboa, 1974.
MATTOSO, José, História de Portugal, A Monarquia Feudal, II volume, edição
do Círculo
de Leitores, Lisboa, 1993.
MATTOSO, José, Identificação de um País, Volumes I e II, editorial
estampa, Lisboa, 1985,
1991.
NUNES, António Lopes Pires, Os Templários e a Beira Baixa, Comunicação
apresentada ao
I Congresso Os Templários e a Beira Baixa, edição policopiada,
Castelo Branco, 1995.
NUNES, António Lopes Pires, O Tratado de Alcanices e a Importância Histórica
das
Comunicação apresentada ao Congresso
Terras de Riba Côa,
Histórico Luso-Espanhol, separata da
Revista Científica da Universidade Católica Portuguesa,
Universidade Católica Editora, 1997.
PIMENTA, Alfredo, Subsídios para a História regional da Beira Baixa, vol. II,
edição da
Junta de Província da Beira Baixa, Castelo Branco, 1950.
QUINTELA, Artur de Moura, Subsídios para a Monographia da Covilhan, in O
Rebate,
Edições Jornal, 1899.
RIBEIRO, Orlando, A Formação de Portugal, ed. do M. E. ,1987.
RIBEIRO, Orlando, Portugal, o Mediterrâneo e o Atlântico, 6ª edição, Sá da
Costa Editora,
Lisboa, 1991.
SANTOS, Casimiro Lopes dos, A Covilhã dos Séculos XII e XIII, artigo
apresentado em
acção do PRODEP, CFAE - Castelo Branco e Vila Vel ha de Ródão,
2005.
SÉRGIO, António, Introdução Geográfico - Sociológica à História de Portugal, 2ª
edição,
Livraria Sá da Costa Editora, Lisboa, 1974.
SILVA, José Aires da, História da Covilhã, edição do autor, Covilhã, 1996.
Monumentos Militares do Distrito de Castelo Branco, in Jornal Reconquista, nº
1939, ano
37, Castelo Branco, 21 de Janeiro de 1983; nº 1940, ano 37, Castelo
Branco, 28 de Janeiro de 1983,
nº 1942, ano 37, Castelo Branco, 11 de Fevereiro de 1983.
Sites da Internet:w w w .cm- covi l ha.pt,w w w .ubi .pt.
Casi miro Lopes dos Santos