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história

Philippe Pinel liberta os doentes mentais em Salpêtrière, Paris, em 1795. Tony Robert-Fleury (francês, 1837-1912).

Holocausto Brasileiro
Confesso que foi com receio que abri o livro Não sabíamos? Ou não quisemos saber? O livro é
Holocausto Brasileiro, em sua sétima edição, em no- fartamente ilustrado por fotos de Luiz Alfredo, da revista
vembro de 2013, pois ele fala de um hospital mineiro – O Cruzeiro, que publicou, em 1961, a reportagem “Su-
conhecido como “o Colônia” – cuja história atravessou a cursal do Inferno”, assinada pelo repórter José Franco.
maior parte do século XX. Com o subtítulo “Genocídio: Dezoito anos depois, o jornalista Hiram Firmino publi-
60 mil mortos no maior hospício do Brasil”, eu temia que cou, no jornal Estado de Minas, uma série de reporta-
contivesse uma denúncia à Medicina brasileira. gens sob o título “Os Porões da Loucura”. Ou seja, a
Mas o livro não denuncia – apenas responsabiliza sociedade brasileira ficou sabendo – e se calou.
pelo genocídio, nas palavras de Eliane Brum, que assi- Mas não é disso que quero falar, pois o livro já disse
na o prefácio: “O Estado brasileiro, com a conivência bastante do que há para se dizer. O que quero, sim,
de médicos, de funcionários e também da sociedade, é prestar homenagem aos médicos que trabalharam
pois é preciso perceber que nenhuma violação dos para eliminar o horror, pois nunca vou me cansar de
direitos humanos mais básicos se sustenta por tanto admirar todo aquele que se faz porta-voz do inaceitável
tempo sem nossa omissão”. e trabalha para reverter o que parece irreversível.

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Ronaldo Simões Coelho, 75 anos: aquele horror se torna banal”, numa clara alusão à ba-
Em 1972 apresentou um projeto visando a extinção nalidade do mal, conceito cunhado pela filósofa Hannah
do “Colônia” e a transformação do hospital em campus Arendt;
avançado das universidades federais de Minas Gerais e Seu artigo foi publicado pela imprensa em 1979,
de Juiz de Fora; com grande repercussão.
No final da década de 70, como chefe do Serviço
Psiquiátrico da Fundação Hospitalar do Estado de Minas Antonio Soares Simone, 62 anos:
Gerais, denunciou, no III Congresso Mineiro de Psiquia- Em 1979, levou o psiquiatra italiano Franco Basaglia,
tria, as atrocidades cometidas no “Colônia”, rompendo pioneiro na luta antimanicomial a visitar o “Colônia”. Em
a cultura do silêncio; decorrência, o médico italiano, de prestígio internacio-
Colaborou ativamente na luta pela mudança de pa- nal, convocou uma coletiva de imprensa na Associação
radigma na saúde mental. Médica Mineira e declarou publicamente: “Estive hoje
num campo de concentração nazista. Em lugar algum
Francisco Paes Barreto, 70 anos: do mundo presenciei uma tragédia como esta”.
Atual membro da Associação de Psiquiatria A entrevista de Basaglia teve enorme repercussão
Brasileira; dentro e fora do país.
Fez denúncias públicas contra o tratamento dispen-
sado aos reclusos do “Colônia”; Paulo Henrique Resende Alves, 74 anos:
Em 1979 escreveu o artigo “Crítica do Hospital Psi- Militante da Associação Mineira de Saúde Mental,
quiátrico” para apresentar no Congresso Brasileiro de fundada por Ronaldo Simões Coelho e inspirada nas
Psiquiatria. Declarou que “os hospitais de pacientes ideias de Franco Basaglia;
crônicos da rede pública são instituições finais” – numa Foi presidente da Associação Mineira de Psiquiatria
alusão clara à solução final encontrada pelos nazistas e professor de Psiquiatria da UFPG, transmitindo a seus
para aquilo que enquadraram como o problema judaico. alunos conceitos de humanização no trato com o pa-
Falou na “acomodação” dos profissionais, “na qual todo ciente de saúde mental.

O livro dedica o capítulo XI aos que investiram seu ao inferno de Dante Alighieri. A maioria dos internos
tempo e suas energias para combater a sucursal do in- não tinha diagnóstico de doença mental: eram epiléti-
ferno e eliminar os porões da loucura. Muitos médicos cos, alcoólatras, homossexuais, prostitutas, gente que
são citados ali. Gostaria de lembrar seus nomes. É a se rebelava ou que se tornara incômoda para alguém
homenagem mínima que lhes devemos. com mais poder. Há sobreviventes. Seus nomes e suas
Em 1980, as teses do III Congresso de Psiquiatria ti- histórias são resgatados. O livro, que honra o jornalismo
veram, finalmente, consequências práticas: a Fundação brasileiro, vale a leitura.
Hospitalar do Estado de Minas Gerais aprovou o Projeto P.S.: Helvécio Ratton, 73 anos, cineasta (O menino
de Reestruturação da Assistência Psiquiátrica e “os po- maluquinho, 1995; Batismo de sangue, 2006), realizou
rões da loucura, finalmente, começaram a ser abertos”. um documentário sobre o “Colônia”, em 1979: Em nome
O livro traz um relato pungente da história, não só da razão. Contribuiu, com a força das imagens, para ex-
do hospital e do paradigma da “assistência” ali pratica- por o campo de concentração em que aquele hospital
da, mas das pessoas que ali chegaram – e onde tiveram havia se convertido.
que perder toda a esperança, como os que aportavam Dra. Vera Lúcia de Oliveira e Silva (PR).

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