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Direito da Cooperação e

Integração em África:

Teoria Geral das Organizações


Internacionais

Amílcar Mário QUINTA (2019)


marquinta@yahoo.com
Plano da Apresentação
 Origem, conceito, características e
classificação das Organizações
Internacionais (OI);

 A personalidade jurídica das OI;

 A capacidade jurídica das OI;

 A capacidade jurídica das OI para


celebrar tratados.
Origem das Organizações Internacionais
 Originalmente a sociedade internacional
era apenas constituída por Estados;

 Emergência das OI no Sec. XIX:


 União Telegráfica Internacional,
Secretariado Internacional de Pesos e
Medidas (1875);

 União Postal Internacional (1878);

 União para a Protecção das Obras


Literárias e Artísticas (1883).
Origem das Organizações Internacionais (II)

 Segundo estatísticas do Anuário


das Organizações Internacionais
(2017-2018), existem mais de 75000
organizações intergovernamentais
(OIG) e organi-
zações não governa-
mentais (ONG);
 Quais são as OIG de
que Angola é membro?
Conceito de Organizações Não Governamentais
 Conceito: Uma associação de organizações nacionais
congenéres perseguindo fins comuns, sendo que cada
uma delas é constituída na base do direito interno do
respectivo Estado.
 Conselho Económico e Social da ONU (1950):
“Qualque organização internacional que não é criada por
acordo intergovernamental.”
 ONG:
 São compostas por entes privados de várias
nacionalidades;
 São criadas por acto de direito interno;
 São regidas por estatuto próprio de direito nacional;
 Perseguem objectivos comuns;
 Podem ter um estatuto internacional.
Conceito de ONG (II)
 Categorias de ONG:
 De finalidade humanitária: Ex. CICV, Amnistia
Internacional;
 De fins culturais: Ex. Associação dos Juristas da SADC;
 De natureza social: Ex. Federação de Jornalistas de
Língua Portuguesa;
 De natureza desportiva: Ex. COI, FIFA.
 De natureza social, cultural e recreativa: Ex. Rotary
Club Internacional
 De finalidade religiosa: Ex. Conselho Ecuménico das
Igrejas.
 De protecção de certas categorias de pessoas: Ex.
IAPA (International Arlines Passengers Association)
 De carácter político: Ex. Internacional Socialista.
Conceito de Organizações Internacionais

 Conceito: “Associação de Estados constituída


por tratado, dotada de uma constituição e de
órgãos comuns e possuidora de personalidade
jurídica distinta da dos Estados Membros.”
Comissão de Direito Internacional

 Al. i) do n.º 1 do Art. 2.º da Convenção de


Viena sobre o Direito dos Tratados
(1969/1988): “Organização internacional designa
uma organização intergovernamental.”
Conceito de Organizações Internacionais (II)

 Doutrina:
 “As OIs são associações voluntárias de
Estados constituídas por acordo
internacional, dotadas de órgãos
permanentes, próprios e
independentes, encarregados de gerir
interesses colectivos e capazes de
expressar uma vontade juridicamente
distinta de seus membros.”
José Manuel Heredia
Conceito de Organizações Internacionais (III)
 Doutrina:
 “Associação voluntária de Estados, constituída
por tratado internacional, regida nas relações
entre as partes por normas de direito
internacional e que se concretiza numa entidade
de carácter estável, dotada de personalidade
jurídica, de um ordenamento jurídico próprio e
bem assim de órgãos próprios através dos
quais prossegue fins comuns aos seus
membros mediante a realização de certas
funções e o exercício de poderes necessários
que no respectivo pacto constitutivo lhe tenham
sido conferidos.”
Paul Reuter
Conceito de Organizações Internacionais (IV)
 Doutrina:
 “Associação de sujeitos de direito
internacional constituída com carácter de
permanência por um adequado acto jurídico
internacional, com vista à realização de
objectivos comuns aos seus membros e
prosseguidos através de órgãos próprios
habilitados a exprimir, na conformidade das
regras pertinentes do pacto constitutivo, a
vontade própria – juridicamente distinta da
dos seus membros – dessa especial pessoa
jurídica.”
AA. VV.
Características das Organizações Internacionais

 São compostas por Estados;

 São criadas por tratado internacional;

 Possuem uma estrutura orgânica


própria;

 São dotadas de personalidade jurídica


internacional.
Características das Organizações
Internacionais (II)
 Composição:
 Estados soberanos geralmente são
membros das OI;

 Estados Federados raramente são


membros de OI;

 Outros sujeitos de direito internacional


podem ser membros de OI:

 Uma OI pode ser membro de outra OI.


Características das Organizações
Internacionais (III)
 São criadas por tratado internacional:
 Este tratado é geralmente adoptado no
quadro de uma conferência
diplomática;
 Este tratado é geralmente designado
por Carta, Constituição, Acto
Constitutivo, Estatuto ou Pacto;
 Uma OI pode ser instituída por decisão
de uma OI pré-existente. Ex. PNUD.
Características das Organizações
Internacionais (IV)

 Possuem estrutura orgânica própria:


 Cada OI possui uma estrutura institucional
constituída por órgãos (individuais ou
colegiais) permanentes;
 Estes órgãos são geralmente constituídos
por representantes dos Governos dos
Estados Membros;
 Em algumas OI, existem órgãos
constituídos por personalidades
independentes dos Estados.
Características das Organizações
Internacionais (V)
 Possuem estrutura orgânica própria:
 A estrutura institucional das OI geralmente
inclui:
 Uma Assembleia plenária integrada por
todos os Estados Membros;
 Um Conselho ou instituição restrita que
assegura o governo da organização;
 Um Secretariado responsável pela
administração e integrado por
funcionários internacionais.
Características das Organizações
Internacionais (VI)
 São dotadas de personalidade jurídica:
 A personalidade jurídica das OI resulta dos
respectivos instrumentos constitutivos;
 Personalidade jurídica interna: se manifesta
em face dos seus membros;
 Personalidade jurídica interna: se manifesta
no quadro das relações externas da OI.
 Esta personalidade jurídica é distinta da dos seus
membros;
 As OIs manifestam uma vontade autónoma;
 Os actos das OIs são imputáveis à estas e não
aos seus membros.
Características das Organizações Internacionais (VII)
 Jurisprudência internacional:
“Os instrumentos constitutivos de OIs são igualmente um tipo
especial de tratados; o seu objecto é o de criar novos sujeitos
de direito internacional dotados de um certo grau de
autonomia e aos quais as partes conferem a responsabilidade
de alcançar objectivos comuns. Tais tratados podem levantar
alguns problemas de interpretação devido, inter alia, ao seu
carácter que simultaneamente convencional e institucional; a
própria natureza da organização criada, os objectivos que lhe
foram atribuídos pelos seus fundadores, os imperativos
associados à eficiente realização das suas funções, assim
como a sua própria prática; são todos elementos que devem
merecer especial atenção aquando da interpretação destes
instrumentos constitutivos.» Legalidade do Uso de Armas
Nucleares, 1996, TIJ, pp. 74 - 775.
Características das Organizações Internacionais (VIII)
 Jurisprudência internacional:
«O Tribunal concluí que a Organização [das Nações
Unidas] é uma pessoa internacional. Isto não
significa que a Organização seja um Estado, o que
de certo não é, ou que a sua personalidade jurídica,
os seus direitos ou deveres sejam os mesmos que
os de um Estado. Tambem não significa que ela seja
um “super-Estado”, qualquer que seja o sentido
desta expressão. Nem sequer isto significa que
todos os direitos e deveres da Organização devem
situar-se no plano internacional, do mesmo modo
que nem todos os direitos e deveres dos Estados
devem situar-se nesse plano. Isto significa que a
Organização é um sujeito de DI, que tem capacidade
para ser titular de direitos e deveres internacionais e
que tem capacidade para exercer estes direitos por
via de uma reclamação internacional.» Parecer TIJ (1949)
7
Características das Organizações Internacionais (IX)
 Jurisprudência internacional:
«Enquanto um Estado possui a totalidade
dos direitos e deveres reconhecidos pelo
DI, os direitos e deveres de uma entidade
como a Organização [das Nações Unidas]
dependem dos seus propósitos e funções,
conforme especificados ou implícitos nos
seus documentos constitutivos e
desenvolvidos na prática.»

Parecer do TIJ sobre a Reparação dos


Prejuízos Sofridos ao Serviço das Nações
Unidas (1949) 8
Classificação das Organizações Internacionais
 Proliferação de OIs resulta na:

 Diversidade de regimes jurídicos aplicáveis às OI;

 Diversidade de classificações das OI ao nível


doutrinal.

 Critérios para classificação das OI:

 Objecto ou finalidade;

 Poderes da OI;

 Âmbito territorial ou geográfico.


Classificação das Organizações Internacionais (II)

 Objecto ou finalidade:

 OI de finalidades gerais - Aquelas que se


ocupam de todas as questões relevantes para
a sociedade internacional. Ex. SDN, ONU,
OEA e UA.

 OI de finalidades específicas – Aquelas cujo


objecto se circunscreve à algum ou alguns
sectores particulares.
Classificação das Organizações Internacionais (III)

 Objecto ou finalidade:

 OI de finalidades específicas podem ser de


natureza:
 Económica: Ex. OPEP e COMESA;
 Financeira: Ex. FMI e BAD;
 Social: Ex. OIT e OMS;
 Humanitária: Ex. HCR e UNICEF;
 Cultural: Ex. UNESCO e OMPI;
 Técnica: Ex. AIEA, OACI, OMM e UPU;
 Militar: Ex. OTAN e Pacto de Varsóvia.
 Política: Ex. UA e Liga dos Estados
Árabes.
Classificação das Organizações Internacionais (IV)
 Poderes:
 OI de cooperação - Aquelas que
apresentam as seguintes características:
 Atribuição à OI, pelos Estados Membros,
de competências limitadas;
 Estrutura institucional geralmente singela;
 Decisões por consenso ou unanimidade
no seio de órgãos intergovernamentais;
 Deliberações tomadas são dirigidas
exclusivamente aos Estados, não se
repercutindo directamente aos
particulares;
 São consideradas OI do tipo clássico.
Classificação das Organizações Internacionais (V)
 Poderes:
 OIs de integração ou supranacionais – Aquelas
que apresentam as seguintes características:
 Estrutura institucional complexa;
 Exercício pela organização de um poder normativo
vinculativo e que se repercute directamente na
ordem jurídica interna;
 Deliberações segundo a segundo a regra da maioria
(simples ou qualificada), sem prejuízo de,
excepcionalmente, poder ser exigida a unanimidade;
 Exercício, pelos órgãos competentes da OI, do poder
executivo e da gestão interna;
 Exercício de um poder jurisdicional obrigatório,
confiado à tribunais independentes.
Classificação das Organizações Internacionais (VI)
 Âmbito territorial de acção:

 OI universais - Aquelas que estão abertas à


todos os Estados. Ex. ONU e suas agências
especializadas.

 OI regionais – Aquelas que apenas estão


abertas aos Estados de uma dada região;
 Tem âmbito geográfico limitado;
 Os seus Estados Membros têm afinidades
políticas, ideológicas, económicas,
culturais, históricas ou outras;
 Agem em consonância com os propósitos
da ONU.
Personalidade e Capacidade Jurídica das OI
 Personalidade jurídica internacional: É a
susceptibilidade de se ser sujeito de direitos e
de obrigações jurídico-internacionais;
 Capacidade jurídica internacional: É a
susceptibilidade de se ser titular de
determinado círculo de relações jurídico-
internacionais;
 A capacidade jurídica internacional depende
da natureza dos sujeitos:
 Estados gozam de capacidade jurídica plena;
 OI`s gozam de capacidade jurídica funcional;
 Indivíduos gozam de capacidade jurídica
4
limitada.
Personalidade e Capacidade Jurídica das OI (II)
OI`s: Direito convencional:
 Artigo 16(1) da Constituição da FAO:

“A organização terá capacidade de uma pessoa


jurídica para praticar qualquer acto jurídico
apropriado ao seu propósito que não exceda os
poderes concedidos por esta Constituição.”

 Artigo 47.º da Convenção sobre a OIAC:

“A organização gozará no território de cada Estado


contratante a personalidade jurídica necessária para
o exercício das suas funções.” 9
Capacidade Jurídica das OI
 As pessoas colectivas só podem ser titulares
de direitos e destinatários de obrigações
necessários `a prossecução dos seus fins
(princípio da especialidade);
 OI não têm uma capacidade jurídica genérica,
mas sim circunscrita à realização dos seus fins
e funções;
 Os poderes das OI decorrem dos seus tratados
constitutivos
 Poderes explícitos: OI são titulares dos poderes
expressamente consagrados nos respectivos
tratados constitutivos;
 Poderes implícitos: São aqueles que estão
subjacentes aos propósitos e funções das OI,
4
segundo os seus tratados constitutivos.
Capacidade Jurídica das OI (II)
 A teoria dos poderes implícitos não pode ser
usada abusivamente e resultar no alargamento
das atribuições da OI;
«A doutrina dos poderes implícitos tem por
função pôr em execução, dentro de limites
razoáveis, os poderes explícitos e não
suplantá-los ou modificá-los.» Opinião
dissidente do Juiz Hackworth (Parecer
Consultivo, TIJ, 1954).

 Poderes implícitos não podem resultar na


limitação da soberania dos Estados Membros
4
de uma OI.
Capacidade Jurídica das OI (III)
 Poderes das OIs:

 Solução de diferendos interestaduais;

 Competência normativa;

 Competência financeira;

 Competência de gestão;

 Direito de legação (jus legationis):

 Competência para celebração de tratados


(jus tractuum). 4
Capacidade Jurídica das OI (IV)
 Solução de diferendos interestaduais:
 OI têm mecanismos de solução de diferendos
entre os seus Estados Membros;

 Tais mecanismos podem incluir órgãos


políticos de mediação e tribunais próprios.

 Competência normativa:
 Os actos normativos das OI decorrem dos
seus tratados constitutivos (direito originário);
 OI adoptam regras próprias relativas à sua
organização e funcionamento (direito interno
da OI);
 Os seus actos podem ser de natureza
vinculativa ou recomendativa. 4
Capacidade Jurídica das OI (V)
 Competência financeira:
 Actos de gestão decorrentes da autonomia
financeira das OI;
 As receitas das OI resultam de contribuições
obrigatórias e voluntárias dos Estados Ver al. f)
do n.º 1 do art. 9.º do Acto Constitutivo da
UA;
 Cada OI determina os mecanismos de repartição
das despesas;
 Não cumprimento de obrigações financeiras
pode resultar na suspensão ou expulsão do
Estado devedor Ver n.º 1 do art. 23.º do Acto 4
Constitutivo da UA.
Capacidade Jurídica das OI (VI)
 Competência de gestão:
 Actos de pura gestão decorrentes da autonomia
administrativa das OI;

 Adquirem particular realce em OI de cooperação


técnica, económica, social e humanitária.

 Direito de legação (jus legationis):


O funcionamento permanente das OI deve ser
assegurado por agentes internacionais;
Os agentes exercem as suas funções de forma
independente;

Direito de legação passivo – Direito de recepção de


agentes diplomáticos;
Direito de legação activo – Direito de envio de agentes
4
diplomáticos.
Capacidade Jurídica das OI (VII)
 Competência para celebração de tratados
(Jus tractuum):
 OI gozam de jus tractuum: Ver art. 6.º da
Convenção de Viena sobre o Direito dos Tratados
entre os Estados e OIs e entre OIs (1986);
 Tal constatação decorre, expressa ou
implicitamente, dos tratados constitutivos das
OI;
 O alcance do jus tractuum pode variar de uma
OI a outra Ver art. 6.º da Convenção de
Viena (1986);
 Os tratados podem ser celebrados:
 entre Estados e OI;
 entre OI. 4
Capacidade Jurídica das OI (VIII)
 Competência para celebração de
tratados (Jus tractuum):
 Os tratados constitutivos determinam o jus
tractuum das OI;
 Nas OI de Cooperação, o jus tractuum
reside num órgão deliberativo (Assembleia
Geral)
podendo ser atribuído ao órgão
executivo, quanto às questões técnicas;
 Nas OI de Integração, o jus tractuum
reside num órgão que representa os
Estados
 a condução de negociações é atribuída
à um órgão executivo. 4
Bibliografia
 AA. VV. Organizações Internacionais. Coimbra Editora, Coimbra, 4ª Edição
Revista e Ampliada, 2010.
 Ana Jamily Veneroso Yoda. As Organizações Internacionais e o Poder de
Celebrar Tratados, Revista Jur., Brasília, a. 42, n. 167, Jul./Set. 2005.
 Jorge Fontoura, Alice Rocha da Silva, Júlia Motte-Baumvol. A Responsabilidade
Internacional do Estado e das Organizações Internacionais: o “Caso
Bernadotte” Revisitado. In Sydney Guerra (Coord.). Tratado de Direito
Internacional, Freitas Bastos Editora, Rio de Janeiro, pp. 257 - 275, 2008.
 José Cretella Netto. Teoria Geral das Organizações Internacionais. Editora
Saraiva, São Paulo, 3ª Edição, 2012.
 Luís Rodolfo Cruz e Creuz. Organizações Internacionais de Integração e
Cooperação Económica: Revisões de Uma Teoria Geral. Revista da SJRJ, Rio
de Janeiro, n. 24, p. 211 - 244, 2009.
 Mónica Hertz, Andrea Ribeiro Hoffman, Jana Tabak. Organizações
internacionais: História e Prática. Campus Editora Elsevier, Rio de Janeiro, 2ª
Edição Revista e Ampliada, 2015.
 Paula Wojicikiewicz. Direito das Organizações Internacionais. FGV Editora, Rio
de Janeiro, 2014.
 Ricardo Seitenfus. Manual das Organizações Internacionais. Livraria do
Advogado Editora, Porto Alegre, 6ª Edição Revista, Actualizada e Ampliada, 2016.
Próxima Aula
 A Sociedade das Nações e a
Organização das Nações Unidas
Direito da Cooperação e
Integração em África:

Teoria Geral das Organizações


Internacionais

Amílcar Mário QUINTA (2019)


marquinta@yahoo.com