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Modelo de Lula e Dilma está

errado, diz empresário que apoiava


PT

Joana Cunha 05/10/2015

Folha - O caminho que está sendo adotado para solucionar a


crise é o correto?

Lawrence Pih - Atualmente, não há um caminho. O que está havendo


é uma tentativa de equacionar um problema enorme com medidas
paliativas. Não se vislumbra solução definitiva —nem a possibilidade
de uma.

O sr. concorda com o ajuste como está colocado? Mudaria?

O que o Joaquim Levy [ministro da Fazenda] está fazendo não é


suficiente. Reconheço que politicamente já é difícil, mas eu faria algo
mais drástico. O ônus que o setor público impõe à Previdência é muito
alto. Há tantos lugares em que é possível cortar gastos. Como é possível
a nossa carga tributária bruta ser quase igual à de países desenvolvidos
da Europa?

O que mais o governo Dilma deveria fazer?

Cortar gasto. Apertar o cinto, tornar a máquina eficiente. Já que


gastamos mais do que poderíamos, agora é a hora de consertar nosso
balanço como país.

O investimento no Brasil é baixo. Se você não investir e tiver um


universo de consumidores aumentando, vai preencher a distância entre
produção e demanda pela importação, ou seja, gerando empregos fora
do país.

O governo pode impor qualquer custo sobre as empresas. Aí, o


empresário vai fazer o cálculo de custo, margem, risco do país e preço
de venda. Ele pensa: tem demanda? Não. Segurança jurídica,
previsibilidade, estabilidade cambial? Não. Tem juros estratosféricos?
Tem. Custo trabalhista? Enorme. Conclusão: não vou investir.

Como se chegou a tal crise?

Dois fatores possibilitaram o crescimento do Brasil desde que o PT


assumiu o governo. Houve a explosão dos preços de commodities e o
país conseguiu equacionar a dívida externa. Depois disso, o mundo
estava crescendo em média 5% ou 6% ao ano. Tudo isso possibilitou
investimento externo no Brasil.

Também teve muito mérito do governo FHC, que estabilizou a moeda.


O Brasil entrou no vácuo do crescimento mundial e possibilitou o
aumento do crédito. Com desemprego caindo e economia crescendo, a
população se sentiu confortável em assumir mais dívida.

O Estado começou a gastar mais do que podia e sua participação no


PIB cresceu muito, com gastos maiores do que o crescimento do PIB.

E o que é essa participação? Imposto. A carga tributária, que nos


últimos anos do governo FHC estava em torno de 28% ou 29% do PIB,
hoje está em 36% ou 37%. No cenário atual, é insustentável. Não estou
analisando qualidade de gastos e importância da questão social. É
importante ajudar os mais carentes. Entretanto, tem que lembrar se o
auxílio é sustentável.
É tudo culpa da gestão Dilma ou tem raízes no passado?

Não é questão de culpa. A população escolheu Lula em 2002 porque o


governo de FHC não era popular naquele momento. Houve uma
mudança de modelo, do Fernando Henrique, um pouco mais ortodoxo,
para o modelo mais heterodoxo do PT. Esse modelo novo seguiu um
pouco a linha do antigo para depois começar a implantar aquilo que lhe
é caro ideologicamente e ter um tipo de socialismo keynesiano.

Os petistas têm admiração pela China. De fato, a China tirou centenas


de milhões de pessoas da pobreza, é a segunda maior economia do
mundo. Só que o modelo de lá é totalmente diferente.

Na China não tem greve, não é democracia. É um partido só. O povo


chinês está disposto a trabalhar 14 horas por dia. Aqui, achamos que
oito horas é muito. O Brasil quer adotar algumas coisas do modelo
chinês e outras do americano. Não funciona.

O que mudou de 2002 para cá?

Surfamos uma onda de crescimento mundial, tiramos milhões da


pobreza, gastamos mais do que podíamos para perpetuar o modelo
socialista keynesiano.

Dilma chegou à Presidência simplesmente pela escolha de Lula.


Imagino que Palocci e Dirceu eram candidatos antes do mensalão. Lula
achou que o gestor eficiente, como era a imagem que se projetava da
Dilma, seria adequado.

Mas a história dela é um pouco diferente da do Lula. Ele é um


sindicalista, negocia com o setor patronal e entende um pouco do outro
lado do balcão. Lula tem um talento político raro.

E se ele voltasse depois dela?

Voltar ou não voltar não é o caso. Eu acho que o modelo está errado. O
Lula é esse modelo. É um pouco mais pragmático, mas é esse modelo.

Ele andou falando em baixar a taxa de juros.

Você não baixa juro por decreto. A Dilma fez isso. E deu no que deu.
Economia tem lógica própria. Não se sujeita à vontade de um político
ou outro. O mercado é soberano. Ele determina o sucesso ou o fracasso
de uma economia.
Foram essas intervenções na economia que nos levaram à
situação em que estamos?

Exatamente. Você não pode rasgar, decretar a inexistência das leis da


economia. Você até pode baixar os juros. O Tombini baixou para 7,25%
a pedido da Dilma. Agora está em 14,25% e vai subir mais.

A saída de Dilma é o caminho?

Impeachment é traumático. Pensam que se remove presidente do dia


para a noite, mas não é tão simples. Não sou especialista, mas dizem
que pode haver afastamento devido a pedaladas ou financiamento
irregular de campanha. Essas coisas ocorreram no passado, mas nunca
foi apurado. Os dois pontos são suficientemente graves? Essa primeira
pergunta é técnica.

A segunda é política: ela tem condições de continuar governando sem


levar o país ao caos? Quando o câmbio quase dobra em um ano, está
instalado um grau de confusão grande.

Com ela na Presidência até 2018, como ficará o país? Se as coisas


começam a se deteriorar no ritmo em que isso acontece desde janeiro,
estamos em maus lençóis. Não é só uma questão técnica. É também
política, sob o aspecto da governabilidade.

O sr. foi um dos primeiros empresários a apoiar o PT nos


anos 1980. O que pensa hoje?

Naquele momento, eu era visceralmente contra a ditadura. Via na elite


brasileira um atraso, sentia que ela precisava de uma chacoalhada. E
acreditei que o PT seria um caminho. Eu acreditava que eles tinham
uma ideologia, consistência. Eram o único partido que tinha
plataforma.

Eu achei que um novo modelo tinha de ser instituído. Não percebi que
esse novo modelo tinha um viés tão fortemente socialista. Acreditei
quando o Lula disse que tem 300 picaretas no Congresso. Não imaginei
que o "modus operandi" fosse universal.

Com Aécio Neves estaríamos em melhor situação?


É provável, porque o mercado o aceitaria melhor. E o Aécio perdeu por
muito pouco. Se o PT não tivesse feito o marketing que a gente chama
de "propaganda enganosa", o Aécio teria vencido.

Quem deve ser o próximo candidato do PT?

Fora o Lula, não há neste momento outro candidato, a meu ver. O


andamento das questões que poderiam ou não envolver o ex-
presidente Lula vai determinar se eles têm ainda fôlego para
ressuscitar.

Mas fico lembrando do Fernando Collor, que foi afastado e voltou


como senador. E o Paulo Maluf? Está aí. O eleitor tem memória curta.

O sr. acaba de se desfazer de um investimento histórico no


país. Quer investir de novo?

Meu destino é no Brasil. Já enfrentei muitas crises aqui.

O país é muito maior que essa crise e que o governo. Governo é


transitório. Quando as coisas vão de mal a pior, mudam o governo e a
orientação política. Neste momento, precisamos fazer reformas
estruturais: trabalhista, tributária, previdenciária, encolher o Estado,
tornar o setor público mais eficiente.

Ou fazemos conscientemente ou o mercado determinará que o


façamos. A Grécia é um bom exemplo. Não adianta essa ideologia
socialista populista porque o modelo socialista populista, mais tempo
menos tempo, começa a degringolar para um autoritarismo.

O modelo perfeito disso é a Venezuela, que, como o Brasil, tem


recursos naturais enormes.

Pretende mesmo investir aqui? É teimosia ou resiliência?

Sempre há oportunidade. Tenho três setores em foco: educação, saúde


e infraestrutura. A população está envelhecendo e não vai parar de
crescer. Vai demandar saúde, educação, moradia. Precisa de
infraestrutura. O Brasil não vai desaparecer.

O sr. pensa em atrair investidores estrangeiros?


É possível. Teremos caixa robusto. Eu te garanto: os investidores
estrangeiros vão olhar risco e retorno. Os ativos no Brasil estão
depreciados e vão se depreciar mais ainda.

É atrativo para o investidor entrar no Brasil com o dólar a R$ 4,22. O


risco já é bem menor agora. Não que o risco de a situação piorar não
exista. Existe. Mas boa parte já está precificada no câmbio.

http://www1.folha.uol.com.br/mercado/2015/10/1690185-modelo-de-lula-e-dilma-esta-
errado-diz-empresario-que-apoiava-pt.shtml