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Mundos Possíveis e Ciencias Prematuras

Roger Scruton
Fonte: “Possible Worlds and Premature Sciences”. London Review of Books, Vol.
2 No. 2, Fevereiro de 1980. Disponível em: https://www.lrb.co.uk/the-
paper/v02/n02/roger-scruton/possible-worlds-and-premature-sciences.
Traduzido por Josias Matschulat em Novembro de 2020.

Este artigo é uma resenha dos seguintes livros:

• Eco, Umberto. The Role of the Reader [O Papel do Leitor].


Indiana University Press, 1980.
• Preziosi, Donald. The Semiotics of the Built Environment
[Semiótica do Meio-Ambiente Construído]. Indiana
University Press, 1980.

Semiótica, semiologia, hermenêutica, crítica estruturalista –


muitos rótulos, mas quantas coisas distintas de fato? Se é possível
encontrar distinções, elas parecem em grande medida
hereditárias. O termo “semiótica” vem de C.S. Peirce, “semiologia”
de [Ferdinand de] Saussure. “Estruturalismo” significa uma coisa
para a antropologia, outra para a linguística; sua aplicação para a
teoria literária surge em parte por meio da obra de Propp e dos
formalistas russos. “Hermenêutica” se referia outrora à boa
interpretação de textos bíblicos; agora ela denota a boa
interpretação de todas as coisas. Contudo, em todos esses
conceitos, as sutilezas parecem ser as mesmas: tecnicalidade em
detrimento de teoria, análise em detrimento de conteúdo,
intensidade em detrimento de profundidade – em resumo,
“falatórios inúteis e profanos e as contradições daquilo que
falsamente chamam de ‘conhecimento’” (1Timóteo 6.20 NAA).
Não obstante, em todo lugar onde se ensina literatura, os
estudantes devem entende-la através das lentes dessa nova
escolástica, com observações confusas amparadas em
tecnicalidades emprestadas de milhares de ciências prematuras,
distraídas por “métodos” que consideram Mickey Mouse e Mona
Lisa, Super-Homem e Rei Lear, jingles de propaganda e obras de
Schoenberg como objetos igualmente legítimos de investigação.
Seria esse movimento uma reação contra o moralismo crítico,
expresso com uma hesitação tão imensa que somente a
recorrência massiva às tecnicalidades pode protegê-la da
consciência de sua impotência? Ou seria o primeiro passo em
direção a algum novo método crítico, um método suficientemente
geral que possa atribuir interpretação a tudo aquilo que possa ser
considerado como “signo”?

Essas questões são cruciais para o futuro da educação literária em


nossas universidades. Qualquer resposta a elas precisa começar
pelo reconhecimento da incerteza em um movimento que ora
avança por trás da bandeira da pesquisa científica, ora desliza para
a fumaça da retórica literária. Essa incerteza emerge da tentativa
de combinar três empreendimentos independentes: o primeiro
modesto, o segundo especulativo, e o terceiro fundamentado na
falácia.

O primeiro é a busca por “níveis” de significado em obras literárias


ou de outros tipos. Um poema pode permitir várias leituras
(literal, alegórica, metafórica, e assim por diante), que se
desenvolvem de acordo com o movimento do texto, e tomam suas
estruturas da narrativa que as une. Dante [Alighieri], no Convivio,
descreve quatro níveis de significado, e a tradição que ele
exemplifica continua até os nossos dias. Ela pode ser vista em
especial na explication de texte francesa, seja vestida de suas
antigas e frias roupas cirúrgicas, seja equipada com os mais
recentes jargões da linguística. O método de grande parte da

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crítica “estruturalista” é o mesmo de Dante, o método da análise
passo-a-passo [stepwise analysis], concebido para revelar camadas
de significado que estão ocultas dentro do invólucro de um “texto”.
A diferença reside no luxo, por parte do hermeneuta, de buscar
significados que o autor não teria reconhecido.

A crítica semiótica e estruturalista também tem suas raízes em


uma especulação, muito difundida, conforme a qual a investigação
científica não exaure os modos de compreensão humana, sendo
incapaz de descrever o mundo como nós o experimentamos. Nós
estamos para este mundo (o Lebenswelt) em uma relação de
“pertencimento”, e não de observação. A partir da metafísica
Kantiana e da antropologia do século XIX surgiu a ideia de que há
um modo peculiar de compreensão reservado para este “mundo
humano”, um modo de compreensão (Verstehen) que evidencia
como aquilo que a ciência mostra como “neutro” e “sem
significado” é, na realidade, carregado de significado. O significado
pertence aos atos e gestos humanos; ele também se encontra em
estado dormente no mundo. Portanto, talvez exista algum método
geral que possa revelar o significado das coisas. Tal método não se
ocuparia com explicações e predições, mas ainda assim teria
importância universal, situando nossas relações com os artefatos,
com a arte, com coisas e uns com os outros de uma forma que
restaure a centralidade dos pensamentos e ações humanos. Esse
método poderia até mesmo recriar a ilusão necessária que a
explicação científica removeu de nós, a ilusão da liberdade
humana.

O terceiro motivo intelectual por trás desse tipo de crítica


contradiz essas especulações. A razão de se combinar as duas
coisas reside no fato de que, na busca por uma forma “humana” de
compreensão, seus promotores têm relutado em renunciar à
autoridade e à objetividade da ciência. Por isso a emergência de

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um anseio por uma “ciência geral dos signos”, ou semiologia. Sem
a premissa de que tal ciência geral seja possível, os empréstimos
repetidos das tecnicalidades da linguística a fim de descrever as
muitas coisas que são elegantemente rotuladas como “signos” não
é nada mais que um tipo de alquimia, invocando a ilusão do
método em razão da ausência de seu fato.

A ideia de uma ciência geral dos signos está, penso eu, enraizada
em uma falácia. O que constitui uma ciência? Existe uma ciência
dos peixes, já que peixes apresentam uma constituição similar,
obedecem a leis similares, possuem uma essência que pode ser
descoberta, indo muito além dos fatos evidentes que nos levam a
rotulá-los assim (peixes constituem um “tipo natural”). Botões, em
contraste, não possuem tal essência, nem uma identidade comum
além do fato da função que eles exercem e que nós conhecemos
bem. Não pode haver uma ciência geral da constituição de botões:
se houvesse uma ciência sobre botões, seria uma ciência a respeito
de sua função. Agora, signos são obviamente mais parecidos com
botões do que com peixes, e uma ciência geral dos signos será,
portanto, uma ciência não de constituição, mas de função. Mas que
função seria essa? A semiologia nos remete à linguagem, aos sinais
de trânsito, expressões faciais, comidas, roupas, fotografias,
arquitetura, brasões, confecção de cestos, música. Será que todas
essas coisas são “signos” no mesmo sentido, ou em algum sentido
que seja? A palavra “signo” significa muitas coisas, e aponta para
muitas funções. Deveríamos supor que uma nuvem significa chuva
da mesma forma que Je m’ennuie significa “estou entediado”? É
óbvio que não, já que nenhuma nuvem pode ter a função de uma
sentença. (Desde um ponto de vista científico, nem sequer pode-
se supor que a nuvem seja uma única coisa, mas milhares.) O que
há em comum entre elas se resume a uma pequena característica
nas suas superfícies, em geral tão familiar a nós quanto a função
dos botões. Se há alguma essência comum nos “signos”,

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certamente é algo bastante superficial. A semiologia faz parecer
ser algo profundo.

Contudo, há mais para ser dito. Existem ciências cujo objeto de


estudo é contestado e especulativo, baseado em analogias e
hipóteses em lugar de qualquer conhecimento intuitivo da
existência de um tipo natural ou funcional. Talvez a linguística seja
ela mesma uma ciência desse tipo: seu objeto e seus métodos
ainda permanecem sendo campos disputados. A semiologia apoia-
se na linguística, na esperança de subsistir sobre uma analogia
entre a linguagem e outros tipos de “signos”. A base dessa analogia
é dupla. Primeiro, todo comportamento humano pode ser visto
como expressivo. Ele revela pensamentos, sentimentos e
intenções, dos quais nem todos poderiam ser admitidos
espontaneamente pelo agente. Segundo, e mais importante: pode-
se considerar às vezes que os modos de expressão humana
possuem uma certa estrutura compartilhada com a linguagem. É
isso que parece situar a semiologia dentro do alcance da
linguística Saussuriana.

De acordo com o modelo Saussuriano, uma sentença é um


“sistema” composto de “sintagmas”. Um sintagma pode ser
definido como um conjunto de termos que podem substituir uns
aos outros sem destruir o sistema – sem tornar a sentença
“inaceitável” aos falantes do idioma. Por exemplo, na sentença
“João ama Maria”, “ama” pode ser substituído por “odeia” ou
“come”, mas não por “entretanto”, “pensa que” ou “nadar”. Agora
considere outro exemplo, minuciosamente discutido por [Roland]
Barthes em seu Eléments de Sémiologie, o exemplo do menu [de
um restaurante]. Um homem poderia fazer o seguinte pedido:
ovos beneditinos, seguidos por bife e batatas fritas, e então baba
ao rum. Esse seria um sistema “aceitável”: em nossa sociedade, o
mesmo menu em ordem inversa não seria mais “aceitável”. Além

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disso, cada prato pertence a uma “unidade sintagmática”: ele pode
ser substituído por certos pratos, mas não por outros. Bife e
batatas fritas poderia ser substituído por uma salada de presunto,
mas não por uma garrafa de vinho – tal coisa seria inaceitável
(poder-se-ia observar também que trens ferroviários e
arquitetura clássica também exibem esse tipo de “estrutura”). O
que se segue?

Considere a própria interpretação de Barthes. Supõe-se que bifes


e batatas fritas “significam” “Francês” (conforme um de seus
ensaios em Mythologies). Suponha que o “significado” dos ovos
beneditinos seja “Catolicismo”, e o da baba ao rum seja
“sensualidade”. Será que isso significa que o Catolicismo Francês é
compatível com a sensualidade? Ou que ser Francês é mais
importante que ser Católico? Ou que a sensualidade é uma parte
fundamental de ambos? Não há como saber, visto que, apesar de
possuir estrutura, o sistema não possui uma gramática. Isso
significa dizer que o significado das partes não determina o
significado do todo. Assim, não podemos falar de uma “sintaxe”: a
ideia de sintaxe é a ideia de um significado potencial, de forma que
as regras sintáticas devem depender de uma interpretação
semântica (Frege mostrou que esse fato é fundamental tanto para
a lógica como para a linguagem). Segue-se que a busca por uma
estrutura “sintagmática” e “paradigmática” não tem relevância em
uma ciência de “signos” não-linguísticos, seja qual for. Os dois
aspectos da analogia com a linguagem (expressão e estrutura) não
podem ser unidos da forma que a analogia requer. Nenhuma dose
de tecnicalidade, por maior que seja, será suficiente para uni-las.
Assim, é impossível assumir que as funções dos “signos”
linguísticos e não-linguísticos sejam similares, e as bases para
assumir que possa existir uma ciência geral aplicável a ambos
entra em colapso.

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Devemos, portanto, abandonar as pretensões científicas da
semiologia. E, de fato, observamos que a crítica semiológica tem se
amparado na linguística não em razão de suas reivindicações
científicas, mas simplesmente em razão de suas tecnicalidades.
Não obstante, essas tecnicalidades criam uma ilusão de
objetividade. Elas colocam o “crítico semiólogo” em uma posição
de superioridade peculiar. Elas conferem a ele uma justificativa
para evitar a questão de como o significado é objetivamente
determinado na linguagem (visto que sua aplicação não tem
contato com nenhuma investigação semântica); ao mesmo tempo,
a semiologia reclama uma objetividade especial própria. Essa
“objetividade” consiste no fato que o semiologista irá buscar
aqueles aspectos do texto que “revelam” coisas (por exemplo, a
vinculação a alguma “ideologia”), enquanto permanece
indiferente à intenção professada pelo escritor. Esse é o
significado da reivindicação de que a semiologia explora “níveis”
do texto que podem não ter sido evidentes para o autor. Visto que
Dante estava analisando seus próprios poemas, não faria sentido
ele levantar a questão sobre se os “níveis” que ele discerniu em
seus textos pertenciam à intenção do escritor, à percepção do
leitor, ou a ambos. Mas o problema posto diante do semiologista
não é diferente do problema posto diante de Dante: o que torna
uma interpretação legítima? Nenhum “método” de
“decodificação”, como diria o semiologista, será suficiente para
responder a essa questão. O semiologista com frequência se
debruça sobre a tarefa de “demitologizar” o texto à sua frente, com
a intenção de remitologiza-lo de acordo com a sua ideologia rival.
Mas isso não pode fornecer nenhum critério de interpretação
legítima. Isso pode ser facilmente observado em uma leitura da
análise feita por Barthes de Sarrasine de Balzac, mas eu irei usar
um exemplo mais fácil.

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A aritmética pode ser derivada da lógica de várias maneiras.
[Gottlob] Frege, [Bertrand] Russel e [Ernst] Zermelo tentaram,
cada um à sua maneira, levar a cabo essa derivação, e suas provas
possuem uma estrutura intelectual semelhante. Mas onde Frege
fala em “conceitos”, Russel se refere a “classes” e Zermelo se refere
a “conjuntos”. Aplicando a semiologia, poderíamos dizer que em
cada caso a escolha de vocabulário “revela” (ou melhor, “codifica”)
certos “significados”. Para Frege, a aritmética é a objetificação da
vida interior; para Russel ela é a expressão da consciência de
classe; para Zermelo ela é a descrição de uma coletividade. O
individualista burguês, o aristocrata e o igualitário revelam a si
mesmos por meio da linguagem que escolhem usar. Para justificar
tal tipo de explicação, pode-se recorrer a todos os apoios retóricos
e “estruturalistas” que Barthes confere à sua análise de Sarrasine.
Mas nós sabemos que tudo isso é irrelevante para a compreensão
dos textos. Como sabemos disso?

Uma pergunta como essa desorienta o semiologista, já que suas


tecnicalidades são incapazes de gerar uma resposta a ela. Na
última análise, sua resposta precisa ser a mesma que a de Dante:
uma interpretação é uma “leitura” legítima se ela se desenvolve
através do texto, adquirindo sua força e elaboração a partir do
movimento da superfície do texto. Mas talvez haja mais para se
dizer. E é característico da “semiótica” – a nova disciplina que ora
rejeita, ora endossa, as pretensões científicas da semiologia. Será
que a semiótica representaria então um novo ponto de partida, e
será que ela escaparia das restrições que nós impomos sobre a
“ciência” geral dos signos? O principal exponente da semiótica é
Umberto Eco, que detém a única cadeira que existe nesse assunto
possivelmente não-existente, e cujos escritos – que tomam sua
inspiração inicial da classificação geral dos signos feita por C.S.
Peirce – tiveram influência na Itália, na França e na América. O
próprio Eco tem mostrado uma energia incansável em coletar e

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aplicar os resultados da semântica moderna, postulando (em La
Struttura Assente) uma “semiótica de formas arquitetônicas que
tem sido estudada, não tanto pelo seu conteúdo, mas pelo
empreendimento que ela representa. Ele buscou apoio para suas
teorias do “signo” não-linguístico não apenas em Peirce e seus
seguidores, mas também na gramática transformacional de
Chomsky, na teoria dos atos de fala, e agora na semântica dos
“mundos possíveis” da lógica modal. E, embora isso possa parecer
apenas mais um caso de diletantismo Tel Quel, o empreendimento
de Eco distingue-se por tentativas espasmódicas de clareza e por
uma relativa liberdade do Marxismo de cafeteria que
recentemente transferiu seu ponto de vista favorito dos Les Deux
Magots para La Coupole, adquirindo no processo um respeito
profundo pelas commodities da cultura de consumo e um anseio
perspicaz de participar em sua fetichização. Por essas razões – e
porque ele também escreve em inglês – Eco continua a atrair
atenção, e sua consciência de que existem importantes questões
intelectuais que a semiologia não consegue responder levou a uma
transferência de fé para a nova “semiótica”. Ela parece expressar
um panorama de maior plasticidade, e ser capaz de considerar
Julia Kristeva e Saul Kripke como igualmente relevantes à sua
empreitada, a semiótica atrai a atenção de todos os cantos do
mundo acadêmico.

Contudo, vamos ignorar as alturas da especulação semiótica para


colocar nossa atenção naquela aplicação mundana pela qual a
disciplina se provou influente no início: a aplicação na arquitetura.
Encontramos as mesmas falácias semiológicas resistindo
ininterruptamente. Isso pode ser constatado de imediato ao
lermos The Semiotics of the Built Environment [A Semiótica do
Meio-Ambiente Construído] de Donald Preziosi, que defende uma
teoria do significado das formas arquitetônicas. Essa teoria,
quando inteligível, é palpavelmente errônea, consistindo em uma

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repetição renovada da falácia de que uma organização sequencial
é um tipo de “sintaxe”. Assim como a maioria dos praticantes da
semiótica (e na teoria da arquitetura existem cada vez mais deles),
Preziosi começa pela premissa que ele deveria provar, a saber: que
a arquitetura é suficientemente parecida com a linguagem de
forma que os métodos e análises de uma das áreas podem ser
transferidos de forma útil para a outra. E ele dissimula essa
premissa utilizando a palavra “código” para se referir a ambas.
Qual é o consenso de loucura que levou a palavra “código” a ser
brandida em tantos lugares e em nome de tantas disciplinas, como
se fosse suficientemente chamar alguma coisa de “código” para
que se possa reivindicar a possibilidade de decifrá-la? “Assim
como a linguagem verbal”, escreve Preziosi, “o meio-ambiente
construído – que chamaremos aqui de código arquitetônico – é um
fenômeno pan-humano”. De acordo com Preziosi, os termos em
itálico possuem significado técnico; eles estão colocados em um
glossário, junto com outros termos, onde o verbete “código” é
explicado da seguinte maneira: “o sistema (qv) de relações
ordenadas em meio a formações significantes”. Para compreender
melhor, alguém poderia buscar o verbete “sistema”, onde se lê:
“sistema: veja código”. Do que se pode deduzir o significado que
esses termos possuem para o autor. Como já se pode observar,
“código” é utilizado sempre que houver um padrão sequencial: a
ideia de interpretação semântica foi trazida como que por um
passe de mágica.

Continuando, apesar desse começo pouco promissor, aprende-se


que “um meio-ambiente construído é uma matriz de signos que se
desdobra continuamente e dinamicamente, existindo” (feliz em
dar-se conta disso) “espacialmente e temporalmente”. Em outras
palavras, o código arquitetônico consiste em signos. O que é um
signo? A resposta é: “um signo arquitetônico é uma combinação de
uma formação com um significado”. No fim das contas, Preziosi

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está comprometido com a semântica. E talvez isso não seja uma
má coisa: nós não falamos em termos de significado das formas
arquitetônicas? Não achamos que as construções de alguma
maneira falam conosco, como se estivessem nos observando, ou
como se tivessem algo na ponta da sua (nossa) língua? Talvez uma
“semiótica do meio-ambiente construído” possa desvendar o
mistério gerado por tais especulações. Mas como devemos
proceder? Preziosi começa isolando um vocabulário de
arquitetura que ele identifica com as “propriedades geométricas”
das formações. Essa sugestão já é altamente implausível. Imagine
duas construções com propriedades geométricas idênticas, em um
arranjo idêntico (ou uma “sintaxe”), uma construída com pedra de
calcário, a outra armada com ferro. Não seria absurdo dizer que
ambas têm o mesmo “significado” para nós?

Vamos supor, entretanto, que tenhamos isolado o “vocabulário” do


arquiteto. Nenhum progresso pode ser alcançado sem a suposição
de que o significado é determinado por convenção. Se não for,
então a referência a um vocabulário, e depois a uma sintaxe, é
espúria. Contudo, é bastante claro para qualquer pessoa que tenha
parado para pensar sobre o assunto que, embora aquilo que às
vezes chamamos de “significado” na arquitetura (mas que bem
poderia ser chamado caráter estético) seja influenciado por
convenção, ele não é meramente o resultado de convenção. Um
arquiteto não pode garantir que o “significado” de sua obra pela
simples obediência à certas regras. Não é de surpreender,
portanto, que as tentativas de Preziosi de interpretar sua “sintaxe”
arquitetônica sejam hesitantes e vagas. Após extrair as regras
“sintáticas” que geram as formas das antigas casas Minóicas, ele
escreve o seguinte: “Se tomarmos um ‘código arquitetônico’ como
significado, entre outras coisas, conjuntos de unidades
elementares, relações entre tais unidades, e regras que governam
as relações ...” O que ele está claramente dizendo é que a

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arquitetura “significa” sua própria “sintaxe”. Em outras palavras,
ele falhou em avançar da sintaxe para a semântica. Temos sintaxe
sem semântica e, portanto, nenhuma delas. E nenhuma das
discussões de Preziosi avança além desse ponto, o que não é de se
surpreender, já que não há avanço a ser feito; e apesar da
insistência dele de atrair nossa atenção à “constante bricolagem
semiótica da vida diária”, suas observações concernentes à sua
principal manifestação se mantêm em um nível de vagueza que
nenhuma alquimia linguística pode ocultar.

O livro de ensaios de Umberto Eco promete algo mais substancial.


A coleção relata e explora exemplos de “semioses ilimitadas” (a
tendência sorrateira de acumulação de significado). Esses
exemplos são “textos” do semiótico, e a palavra “texto” se aplica a
qualquer coisa que possa ser lida como um signo, podendo assim
ser infectada com essa doença. Imitando o Barthes das Mythologies
(mas com menor sagacidade), Eco explora os recursos narrativos
de Ian Fleming e o significado emocional dos quadrinhos de
Superman. Ele também dá atenção à música moderna, aos
melodramas outrora populares de Eugène Sue, e em um ensaio
que enuncia seus mais recentes avanços teóricos, a uma piada
literária de [Alphonse] Allais, extraída da Anthologie de l’Humour
Noir de [André] Breton.

Da mesma forma que Preziosi, Eco introduz e faz uso da noção


inexplicada de “código”; e, visto que ele assume que uma obra
literária possui um escritor e um leitor, ele considera os códigos
textuais como uma propriedade de ambos. O título de sua coleção
deriva dessa suposição – que o leitor pode ser, em parte, o criador
daquilo que lê, de acordo com o quanto o texto é, nas suas palavras,
“aberto” ou “fechado”. É bastante difícil compreender a distinção
entre um texto aberto e um texto fechado. A distinção é claramente
concebida para prover um substituto à (ideologicamente

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inaceitável?) distinção entre alta cultura e cultura popular. Mas a
explicação de Eco é estranha e por vezes contraditória. O texto
fechado (como os quadrinhos de Superman) se dirije àquilo que
um crítico da antiga chamaria de “respostas padronizadas” [stock
responses]. Paradoxalmente, isso também o torna “aberto” – no
sentido em que é aberto para qualquer “de-codificação aberrante”
possível. Tais textos não geram supostamente qualquer padrão do
que seja “certo” ou “errado” na sua leitura, já que eles não
provocam nenhuma participação criativa do leitor. O texto
verdadeiramente aberto, em contraste, visto que faz demandas
sobre o leitor, também almeja discipliná-lo na adoção desses
“códigos” (ou hábitos de interpretação) que possam ser-lhe
apropriados. O texto aberto está endereçado a um leitor ideal
(sofra ou não de uma insônia ideal), e é, portanto, “fechado” a
interpretações aberrantes. Ian Fleming é um escritor de textos
fechados; James Joyce um escritor de textos abertos. Temos aqui
uma distinção crítica importante, que corresponde à distinção
mais familiar entre o artifício mecânico e a arte criativa.
Infelizmente, assim que a semiose entra em jogo, essa distinção se
desfaz. O texto é “arrebentado”, e então “narcotizado”, um
fornecedor de “tópicas”, “isotópicas”, marcadores semânticos”.
Termos como “extensional”, “intencional” e “macroproposição”
entram sem nenhuma explicação. Assim como fonemas e
sememas, acabamos adquirindo também o inescrutável
“estilema”. Nenhuma dessas tecnicalidades é explicada, tampouco
seriamente explorada. Quando nos é dito, na conclusão da
introdução, que “o espaço semântico, governado por um
mecanismo constitutivo de semiose ilimitada, pode ser reduzido
somente através da atividade cooperativa levada a cabo pelo leitor
na atualização de um dado texto”, isso quer dizer o que já sabemos:
já que uma obra de arte possui muitos significados, o leitor deve
escolher um dentre eles.

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Mas as dificuldades para o leitor ideal de Eco são exacerbadas por
um autor longe do ideal, que confunde “abertura” com
indeterminação, como exemplificado pela música improvisada, e
então com “sugestividade”, de forma que há uma troca de
paradigma, primeiro para a confusão auditiva de [Karlheinz]
Stockhausen e então para o impressionismo fastidioso de
[Stéphane] Mallarmé e [Claude] Debussy. Aquilo que começou
parecendo uma teoria genuína termina como uma concatenação
de distinções independentes, nenhuma delas adequadamente
caracterizada.

Em seu ensaio final, Eco traz à tona um corpo verdadeiramente


formidável de tecnicalidades, na tentativa de chegar a uma
“leitura” satisfatória de uma estória curta de Allais. Essa estória é
uma piada, dirigida contra o leitor, que é encorajado a preencher
suas lacunas. Nesse processo, o leitor se envolve em uma
espantosa autocontradição (essa é a implicação, embora não seja
por falha do autor). Uma estória como essa é, obviamente, um
presente para o semiótico. O Professor Eco a utiliza para
introduzir os últimos e mais modernos desenvolvimentos da
lógica modal – em especial, a teoria dos mundos possíveis. O
resultado dificilmente faz sentido, e me parece que o autor pode
estar bem ciente disso.

A semântica da lógica modal surgiu da seguinte maneira. Certas


palavras, como “possivelmente” e “necessariamente”, que
parecem indispensáveis tanto para o discurso ordinário como
para o científico, geram problemas para a teoria do significado. Em
especial, elas geram contextos “intencionais”, contextos como “É
possível que ...” que, se completadas por qualquer sentença “p”,
produzem sentenças que podem ser verdadeiras ou falsas
independentemente da verdade ou falsidade de p. A lógica
ordinária é “extensional”: a verdade ou a falsidade de qualquer

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sentença complexa depende da verdade ou falsidade de suas
partes. E a lógica moderna se desenvolveu quase que inteiramente
na premissa da extensionalidade: sem tal premissa, a lógica não
pode realizar seu trabalho. Como então poderia a lógica ordinária
representar ou elucidar sentenças a respeito do necessário e do
possível? É evidente que essas sentenças possuem uma lógica.
Seguindo a sugestão de Leibniz, o lógico moderno traduz “É
necessariamente p” como “p é verdadeiro em todos os mundos
possíveis”. “Necessariamente” se torna então um “quantificador”,
e as propriedades lógicas dos quantificadores podem ser descritos
em termos extensionais. Essa teoria pode ser desenvolvida
sistematicamente.

Pode parecer natural a sugestão de que uma obra de ficção é nada


mais que a descrição (parcial) de um mundo possível. Talvez,
então, a teoria dos mundos possíveis possa ser usada para elucidar
nossa compreensão de ficção e, assim, mostrar-nos de que forma
os humoristas, como Allais, podem amarrar-nos em nós
impossíveis. Essa é, suponho, a intuição que subjaz a tentativa de
Eco de introduzir as tecnicalidades desse ramo da “teoria dos
modelos” (como é chamada) para dentro da discussão da estória
de Allais. Infelizmente, há dois sérios inconvenientes. O primeiro é
que Eco parece não compreender muito bem a teoria da qual ele
persistentemente toma emprestado. Mesmo sua compreensão da
lógica extensional é tênue, como mostrado pelo fato que quando
ele escolhe se expressar com notação lógica ao invés do inglês, o
resultado é geralmente malformado (exemplos nas páginas 213 e
236). Quando ele decide escrever sobre a teoria dos modelos em
si, o resultado é estritamente ininteligível.

Segundo, é duvidoso que a teoria dos modelos possa nos ajudar a


elucidar nossa compreensão sobre ficção. A dificuldade em
questão foi apontada há mais de dois milênios. Na Poética,

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Aristóteles chamou a atenção para o fato que as impossibilidades
são frequentes na ficção. Mas, argumentou ele, não há razão
nenhuma para queixar-se a respeito de uma “impossibilidade
provável”, que é sempre preferível a uma “improvável
possibilidade”. (Considere as muitas dificuldades que rodeiam a
ideia da encarnação, tão brilhantemente dramatizada por Wagner
no Anel [dos Nibelungos]. Era impossível que Wotan fosse idêntico
a Walse, mas, fossem eles idênticos, é provável que ele tivesse
concebido Siegmund a Sieglinde). Em outras palavras, um mundo
ficcional pode não ser um mundo possível. O que acontece então
com a semântica da ficção? Um teórico dos modelos poderia
pensar em maneiras de contornar o problema. Mas nem o
problema nem a solução são insinuadas por Eco. Além disso, está
claro que não gostaria de se meter em tais questões. Tudo o que
ele busca nas regiões obscuras da teoria dos modelos é a retórica
da tecnicalidade, os meios de fazer fumaça por tempo suficiente
até que o leitor comece a culpar sua própria falta de percepção, em
vez da falta de iluminação do autor, já que ele deixou de enxergar.
É ali que reside a doença da semiose. Talvez precisemos de outro
Ben Jonson para revelar as razões complexas por trás disso tudo.
Mas podemos estar certos de que, embora haja um começo
humano nessa loucura, seu “método” deixa a humanidade para
trás.

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