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DA INCLUSÃO DIGITAL À SOCIAL:


Um estudo a partir da experiência com idosos e adultos na FATEC
Jundiaí

Lucimara Bianchin1 dos Santos, Animari Mayer Alegre2 e Emerson Freire3

Resumo:
Inclusão digital tornou-se nos últimos anos alvo de políticas públicas que, muitas
vezes, acabavam apenas por ‘incluir’ o computador em sala de aula. Todavia,
sabe-se que a questão da inclusão envolve muito mais do que isso, pois implica
em reconhecer uma função social de inclusão que é trabalhada a partir de
tecnologias de informação. O envolvimento do tecnólogo nessa prática requer
mais do que apenas conhecimento técnico teórico, mas necessita o
desenvolvimento de habilidade e sensibilidade nas relações sociais com pessoas
que nunca tiveram oportunidade de contato com a informática e, principalmente,
neste caso, com adultos e idosos, por serem aqueles que demonstram maiores
dificuldades. Pretende-se neste artigo descrever as experiências de um projeto de
inclusão digital criado dentro da FATEC Jundiaí que além de proporcionar um
relacionamento mais estreito entre comunidade e faculdade, dando oportunidade
de contato com as novas tecnologias, visa desenvolver essa prática aliada ao
conhecimento técnico-teórico do futuro profissional de informática.
Palavras-Chave: Inclusão Digital; Exclusão Social; Idosos; Adultos.

Abstract.
In the last years, digital inclusion has become theme of public politics which, a lot
of times, are limited ‘to include ' the computer in classrooms. However, the
subject of the inclusion involves much more than that, because it implicates in
recognizing a social function of inclusion also developed by technologies of
information. The computer scientist’s involvement in this practice requests more
than just theoretical and technical knowledge, but he needs the development of
ability and sensibility in social relationships, chiefly with people who never had
contact or opportunity to deal with information technologies, mainly, in this case,
adults and seniors, who demonstrate larger difficulties. This article aims to
describe the experiences of a digital inclusion project created at the FATEC
Jundiaí which, besides providing a narrow relationship between community and
university, giving contact opportunity with the new technologies, seeks to develop
that practice allied to the technical-theoretical knowledge of the future
professional in computer science.
Keywords: Digital Inclusion; Social Exclusion; Elderly people; Adults.

1
Aluna da FATEC Jundiaí finalizando o curso de Informática com ênfase em Gestão de Negócios.
2
Aluna da FATEC Jundiaí finalizando o curso de Informática com ênfase em Gestão de Negócios.
3
Prof. MS. em Política Científica e Tecnológica, doutorando em Sociologia pela Unicamp e Pesquisador
do Núcleo de Estudos de Tecnologia e Sociedade (NETS) da FATEC Jundiaí.

Fasci-Tech – Periódico Eletrônico da FATEC-São Caetano do Sul, São Caetano do Sul, v.1, n. 1, Ago./Dez. 2009, p.
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1. Introdução: da inclusão digital à social, um passo crucial


Somando-se o processo de globalização à idéia de uma cultura em que a técnica
se faz cada vez mais presente, uma tecnocultura ou cibercultura para alguns, percebe-se
que os efeitos são os mais variados na sociedade. Criam-se disparidades crescentes entre
aqueles que nascem, crescem ou têm mais oportunidades em relação às tecnologias da
informação, e aqueles que ficam à margem desse processo. Ao mesmo tempo poucos
são beneficiados e estão mais bem preparados para obter um bom emprego, outros se
veem distantes disso em função do desconhecimento dessas tecnologias. Por outra parte,
a exclusão se dá também nos relacionamentos sociais e nas práticas do dia-a-dia. De
maneira direta ou indireta observa-se a exclusão nos acessos bancários, serviços
públicos, e manuseios de eletrodomésticos, celulares e muitos outros.
Para Pierre Lèvy (2001: 51) “o ciberespaço será o centro das atividades
econômicas, culturais e sociais, tendo a Internet como vetor de reorganização da
sociedade que surge para além da cidade física”. Portanto, distâncias geográficas seriam
diminuídas com ganhos sociais e de participação na economia que as novas tecnologias
possibilitariam, inclusive à parcela excluída da população. No entanto, as exclusões
criadas nos planos físico e socioeconômico também se verificam no campo virtual do
ciberespaço que ora se institui e muda as bases relacionais da sociedade.
Diminuir essas diferenças pode ser uma estratégia sócio-política importante ou,
principalmente do ponto de vista dos que são excluídos de fato, uma estratégia de
sobrevivência. Daí a importância das iniciativas de inclusão digital, criando-se projetos
os mais diversos que vão desde a iniciativa voluntária isolada até projetos mais
ambiciosos com o desenvolvimento de cidades digitais, que procuram diminuir o fosso
dessas desigualdades sociais.
O tecnólogo em informática não deveria passar à margem dessa discussão, pois
exerce um papel importante nesse processo, já que é um produtor de tecnologia por
excelência. Sua responsabilidade social não poderia ser negligenciada e relegada ao
segundo plano em sua formação. Torna-se importante um exercício constante que
envolva o conhecimento técnico-teórico adquirido na faculdade aliado à prática nessas
iniciativas.

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O projeto descrito a seguir, desenvolvido por alunos da Fatec-Jundiaí e orientado


pelo Professor Emerson Freire (integrante do corpo docente da Fatec-Jundiaí e do
NETS-Núcleo de Estudos de Tecnologia e Sociedade), visa, além de oferecer essa
prática aos discentes, proporcionar uma passagem da inclusão digital à social,
principalmente àqueles que mais sentem as dificuldades desse processo, adultos e
idosos.
A metodologia de apresentação desse projeto que se segue será mais flexível,
quase em forma de um relatório, divido em suas fases de desenvolvimento. O objetivo é
não perder o sabor da espontaneidade dos relatos e depoimentos dos alunos e dos
próprios monitores do projeto, além de permitir uma percepção da evolução deste
durante o período que vai de sua instauração, setembro de 2008, até hoje.

2. Projeto de Inclusão Digital de Idosos e Idade Adulta


A idéia do Projeto surgiu de alunos que realizavam um trabalho voluntário na
ONG PARAISO em um Centro Comunitário na cidade de Jundiaí, bairro Morada das
Vinhas. Este centro comunitário só dispunha de máquinas com Interface Windows 98 e
ainda sem acesso à Internet. Dessa forma a inclusão se limitava ao aprendizado em
digitação, ambientação e conhecimento de alguns programas. Por outro lado a Fatec-
Jundiaí possuía as ferramentas necessárias para aprimoramento desse trabalho, tais
como acesso à Internet, disponibilidade de horários em laboratórios e corpo de
monitores voluntários. Desse modo, criou-se uma parceria entre a Fatec-Jundiaí e o
projeto da ONG PARAISO.
Montada a estrutura e o conteúdo programático, com horários e voluntariado de
alunos, as aulas tiveram início no dia 09 de Setembro de 2008. O conteúdo do programa
foi aprimorado baseado nas experiências adquiridas no projeto realizado na Morada da
Vinhas, e procurou enfatizar o manuseio da Internet como ferramenta de familiarização
com computador. A descrição e evolução do conteúdo programático, bem como dados
estatísticos baseados em um questionário respondido pelos alunos do projeto são feitos
a seguir.

2.1. Monitoria
A monitoria do curso, desde então, é formada por dois monitores e alguns
auxiliares, que cursam a Faculdade, e a supervisão é feita pelo professor Emerson

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Freire. O conteúdo foi desenvolvido pelos próprios monitores e é repassado para os


alunos em forma de uma apostila, cuja ênfase é a dada à interface de Word Básico. Este
material é oferecido aos alunos através de cópia para consulta e treinamento em casa,
para os que possuem computador ou algum tipo de acesso em lan-houses, por exemplo.
Os monitores utilizam linguagem acessível para melhor compreensão dos alunos
que não conhecem as linguagens técnicas. Os itens básicos abordados são os seguintes:
Introdução à informática: O computador, Ligando, Desligando, Teclado,
Mouse.
Sistema Operacional: Introdução; Área de trabalho; Menus e Atalhos;
Minimizando; Maximizando e Fechando; Iniciando uma Aplicação;
Pasta; Desligando o Computador.
Editor de texto: Introdução; Barra de ferramenta; Barra de Menu; Barra
de Rolagem; Fechar.
Internet – e-mail: Introdução: Aprender a utilizar o Navegador; Os
principais serviços da Internet; Navegando na Internet; E-mail; criando
uma conta de e-mail; enviando mensagem.
A seguir, tem-se uma descrição dos semestres de funcionamento do projeto.

2.2. Funcionamento do Projeto Fatec Inclusão Digital - 2º semestre de 2008


Houve uma divulgação pública inicial para a comunidade de Jundiaí, além do
convite aos interessados na continuidade do aprendizado que já participavam do projeto
na Morada da Vinhas. No total, participaram 16 alunos, dos quais a maioria era de
adultos (idade média de 49 anos) e idosos, além de três crianças (idade de 11anos). As
aulas tiveram início em 09 de setembro de 2008 e término em 02 de dezembro de 2008.
Foi realizada uma pesquisa entre os alunos, cujo objetivo era traçar um perfil da
classe. Os dados mais relevantes naquele momento eram a idade, se possuíam
computador ou não e, em caso afirmativo, se o usavam regularmente em sua casa. A
grande maioria respondeu que não possuía computador e nunca tivera contato com a
máquina.
Alguns tinham a disponibilidade para utilizar o computador, maiormente os
idosos, mas os integrantes da casa não davam oportunidade para que eles o
manipulassem, com a justificativa de que eles poderiam danificar a máquina sem um
acompanhamento.
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2.3. Funcionamento do Projeto Fatec Inclusão Digital - 1º semestre de 2009


Com a maior experiência adquirida a partir do semestre anterior, optou-se por
ampliar e melhorar a divulgação da oportunidade de participação para a comunidade
jundiaiense, utilizando-se de um folheto colocado em alguns pontos estratégicos da
cidade (associações de bairros, comércio e nas instalações do projeto Acessa Jundiaí). A
idéia era aumentar a relação com a comunidade, abrindo mais vagas, e aproveitar
melhor o espaço cedido pela faculdade. Essa iniciativa resultou, como se esperava, no
aumento do número de inscrições (tabela 01).
Foi elaborada uma ficha de inscrição inicial com dados pessoais e um
questionário mínimo de perguntas abertas para saber qual público estava interessado.

Tabela 01. Perfil dos alunos inscritos


Homens Mulheres Crianças Total de inscrição
10 21 1 32

Novo questionário foi aplicado e uma das questões era em relação à importância
do uso do computador e da Internet para os alunos. A maioria respondeu que era para
manter-se atualizado, para facilitar a comunicação, acompanhar filhos e netos, e buscar
novos caminhos para um emprego melhor.
A maior parcela já teve contato com o computador, mas não o possui. Alguns
dos participantes admitiram possuir computador em casa, porém nunca usaram, em
parte por medo proveniente da falta de conhecimento. Simplesmente achavam que não
eram mais o tipo de pessoa que um dia iria usar o computador. Comentou em classe um
dos participantes:
“Achei que era algo grande demais para mim, algo muito distante da minha
realidade. Não me via usando computador; achei que era para pessoas jovens e
pessoas inteligentes”.
Grande parte nunca usou a Internet para acessar serviços públicos, fazer compras
ou pagar contas por não saber acessá-la e, justamente por esta a razão, tinham procurado
o curso. Outros pediam ajuda a parentes próximos que sabem usar a Internet.
Foram aplicadas perguntas fechadas e algumas abertas, sem identificação, com o
propósito de saber qual o benefício que a Internet trouxe a eles após o curso. Todos
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responderam que conseguiram muitos benefícios, principalmente o de estarem


atualizados e com a promissora possibilidade de adquirirem conhecimento. Outros
enfatizaram que com esta ferramenta tornou-se possível conversar com parentes
distantes com maior freqüência, além de permitir saber das notícias e dos
acontecimentos por outro meio que não só a televisão.
Declararam também que desejam continuar com o curso e aprender muito mais.
Outros disseram que se sentem mais confiantes já que daqui para o futuro precisaremos
cada vez mais da informática, e que com o curso perderam o medo de „mexer‟ na
máquina sem apagar tudo. A atualização de currículo para conseguir um emprego foi
mencionada como importante. Por outro lado, deixavam claro que também a
informática, e a internet principalmente, serviam para distrair-se e encontrar um mundo
novo.
A partir da observação dos participantes ao longo das aulas, algumas pessoas
tinham mais facilidade e outras mais dificuldades motoras e funcionais de assimilação,
razão pela qual foi decidido por dividir as salas em dois grupos, sendo uma delas mais
avançada. Essa divisão proporcionou melhor atenção individual e melhor progressão do
grupo como um todo. Em 04 de maio de 2009, foi aplicada outra pesquisa com
perguntas fechadas, com os resultados apresentados na tabela 02.

Tabela 02. Resultado da pesquisa de 04 de maio de 2009:


Perguntas Respostas
Sim Não
É aposentado? 6 12
Usa computador para contato pessoal? 10 8
Usa a internet para saber notícias do Brasil e do Mundo? 12 6
Você acha que traz benefícios para seu dia a dia? 17
Para você é um passatempo? 10 8
Pretende estudar ou fazer algum curso pela internet? 11 6
Você já fez algum curso de informática? 5 13
A partir que começou a fazer este curso sente mais seguro com o
computador? 17
Você acha importante o uso do computador e da internet? 18
Acha bom os equipamentos e os atendimentos dos monitores? 16
Compreende o que os professores explicam? 17 1
Consegue tirar suas dúvidas? 18 1
De 1ª a De
4ª 5ªa 8ª Médio
Quantos anos de estudo você possui? 5 6 7
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2.4. RELATOS DE EXPERIÊNCIAS VIVIDAS EM SALA DE AULA

2.4.1. Segundo Semestre de 2008

Como dito anteriormente, a grande maioria não possuía computador e os que


deles dispunham, as pessoas da família não permitiam a utilização de alguma forma.
Some-se a isso, o fato de quase todos há muito tempo encontrarem-se afastados da
escola regular. O primeiro passo foi tirar a insegurança que os alunos tinham de ligar e
desligar o computador, explicando e comparando o computador a um eletrodoméstico.
Essa necessidade de usar modos de explicação diferentes e mais próximos da
realidade dos alunos, para uma melhor compreensão, era um recurso que se tornou
muito comum, pois percebeu-se que somente assim era possível melhorar o
aprendizado.
O comando Salvar, por exemplo, teve que ser trocado por guardar. As pastas
como se fossem gavetas, etc. Tudo teve de ser adaptado às coisas do cotidiano vivido
por eles, salientando sempre que a máquina não tem vontade própria e sim que nós
dizemos o que ela tem que fazer.
Com o decorrer das aulas foi verificada a evolução gradativa, mas permanente e
segura deles. O sentimento de capacidade de dominar um aparelho tão estranho e tão
útil do ponto de vista deles foi visível no aumento da autoestima. Não era raro o fato de
ouvir suas queixas pessoais com muita paciência, o que confirma que a questão da
inclusão digital não passa somente por um aprendizado da técnica, mas desdobra-se no
processo de inclusão social.
Alguns depoimentos de alunos do sexo masculino, na sua grande maioria idosa,
relatam a surpresa com um mundo que se abria para eles. Por exemplo:

“Não pensei que conseguiria achar estas notícias de futebol tão fácil, nossa! vai
ser uma distração ler todos os dias estas notícias.”

“Como vocês conseguiram me ensinar a escrever este texto? É sensacional!”

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Todos se cadastraram no site da Nota Fiscal Paulista adquirindo um direito de


consulta de seus benefícios e até participando de sorteios que este site promove,
aproveitaram o máximo o que os sites públicos oferecem e acharam que a facilidade é
enorme sem enfrentar filas.
Outro caso de um aluno (idoso), que gosta de cozinhar e faz alguns eventos por
ser bom cozinheiro, com muito entusiasmo consultava receitas e novidades da culinária.
Quando questionados sobre se as lições eram revistas em casa, para os que
possuíam computador ou acesso em algum local, em geral as mulheres se mostraram
mais persistentes e dedicadas neste aspecto, pois responderam que repetiam as lições
dadas em aula em suas casas ou até em serviços disponíveis da prefeitura.
Foi possível perceber muitas mudanças na vida destas mulheres, algumas
enviaram currículo para encontrar um emprego melhor, outras melhoraram o
relacionamento com as famílias e outras descobriram um mundo novo de consultas de
páginas como religião, música, compras e grupos de conversas on- line. Alguns
depoimentos:

“Agora já sei salvar fotos dos meus netos do celular para o computador”.

“Sabe que consegui falar com minha neta em Santa Catarina”

“Estou reformando minha casa e agora faço pesquisa na Internet de compra de


material”.

“Entrei até na minha rádio preferida e vi o homem falando ao vivo e pensei, ele
nem sabe que eu estou vendo ele”.

Por outro lado, para as crianças participantes, a assimilação já era muito mais
rápida e o encantamento com a Internet era nítido na conversa com eles. Um deles até
participou de um campeonato de jogos on-line.
O aprendizado com a turma foi rico e os monitores resolveram continuar com a
experiência com mais ferramentas e recursos para atendê-los e integrá-los com
conhecimentos novos. Alguns alunos ainda mantêm contato e relataram que a vida deles

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mudou muito com a facilidade de acesso a serviços públicos (INSS e outros) e


relatavam como os familiares estavam surpresos de como eles poderiam usar a
ferramenta sem auxílio para os mais diversos fins.

2.4.2. Primeiro Semestre de 2009


Este semestre iniciou-se com uma procura bem maior do que o esperado, sendo
necessário montar duas salas logo nas primeiras aulas, pois dobrou o número de alunos.
Seguiu-se a mesma forma de aula, usando o projetor com o conteúdo das
apostilas criadas pelos monitores e disponibilizadas para aos alunos. Muitos não têm
condições monetárias para pagar cursos particulares e a oportunidade do projeto trouxe-
lhes a inclusão digital como porta para melhora de futuro.
As dificuldades apresentadas neste semestre foram basicamente as mesmas.
Aprender a ligar e desligar o computador, navegar na Internet, são verdadeiros desafios
a serem vencidos pelos alunos no princípio. Muitos não tiveram a oportunidade devido
à baixa escolaridade ou vários anos sem contato com cursos regulares. A grande maioria
nesta faixa etária de alunos que procuram o curso não teve contato com estes avanços
tecnológicos recentes. Agora com facilidades provenientes dos computadores, celulares
e eletrodomésticos, ou uma simples conta em banco, eles sentem a necessidade de saber
dominá-los.
Mesmo com tantas dificuldades e quebrando várias barreiras como preconceito,
locomoção, dificuldade motora e de saúde, o que impressiona é a vontade e a dedicação
pelo aprendizado.
Foi observado em relação às habilidades motoras que as mulheres têm mais
facilidade, pelo fato de os homens, em geral, serem trabalhadores braçais, com mãos
“mais pesadas”. Por sua vez, as mulheres são mais determinadas na freqüência do curso,
com menos faltas e desistências, além de pedidos pela continuidade no aprendizado.

“Quero continuar, pois preciso aprender mais, o mercado exige Excel também”.

Houve a necessidade de continuar com as modificações dos vários termos


usados para uma linguagem mais compreendida por eles. Como “minimizar”, ou “vai
para o tracinho no canto direito da tela”. No “fechar um documento” foi usado o termo
“fecha a janela e vai ao canto direto com o mouse na cruzinha”.

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Praticamente os monitores tinham que dar atenção particular a cada aluno, pois a
dificuldade era grande no início, chegando, inclusive, a ser necessário pegar na mão do
aluno para ajudar no manuseio do mouse.
Ao desligar a máquina alguns alunos achavam que tinham que apertar um botão
para desligar e não seguir os comandos da tela.
Com a evolução das aulas é clara a mudança que eles apresentavam. Tornavam-
se criativos e passavam a entender a linguagem do computador.
A Internet é uma ferramenta muito útil na descoberta das suas habilidades
porque é de fácil visualização e entendimento, por isso privilegiou-se essa ferramenta. O
encantamento começa com descoberta feita por pesquisas da rede mundial com uma
única palavra somente. Posteriormente melhora-se a pesquisa, com acréscimo de
palavras. Uma aluna que tem um negócio próprio de beleza já estava pesquisando como
fazer pinturas em unhas de uma maneira diferente e atrair clientes.
Com esta descoberta, abrem-se novos caminhos para eles, como pode ser
observado pelo exemplo de um aluno com deficiência física que disse:

“Muitas leis que tenho direito não sabia”.


A questão de cidadania está envolvida em muitos desses casos, claro.
Outra aluna que morava no Ceará e que não ia há muitos anos à sua cidade,
ajudamos a consultar o GoogleMaps. Ela ficou encantada de ver sua cidade novamente
e reconheceu a praça principal.
Dentro do projeto deparamos com algo inesperado em termos de inclusão
digital, uma aluna com curso superior e atuante no mercado de trabalho que não sabia
nada sobre computador. No trabalho que estava não foi exigido, mas quando foi
dispensada ela estava desatualizada em relação às tecnologias da informação.
Procurando uma nova colocação decidiu entrar no projeto, já que o mercado exigia este
novo conhecimento. Após algumas aulas conseguiu uma recolocação no mercado de
trabalho e nos enviou o seguinte e-mail:

“Foi super legal saber usar a internet, pois agora no emprego novo fico a maior
quantidade de horas no micro trabalhando. Vou agora, no próximo mês, até fazer um
curso à distância (on-line), as aulas dadas por vocês (equipe da Fatec) ajudaram
muito...obrigada. Um abraço.”

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3. Considerações finais
Nota-se pelo projeto que a grande maioria hoje é de “inclusos digitais”, embora
haja um longo caminho a se percorrer ainda, daí a necessidade da continuidade de
iniciativas desse tipo, dando oportunidades ao maior número de pessoas excluídas
digitalmente. Além disso, o projeto ofereceu aos alunos da FATEC Jundiaí a
oportunidade de vivenciar grandes experiências no decorrer do trabalho. Todavia, sabe-
se que há uma lacuna muito grande que ainda deve ser preenchida em relação à inclusão
digital.
Toda uma geração resta a ser incluída digitalmente, como se sabe. No entanto,
como percebido nesses semestres, somente o fornecimento do acesso à tecnologia e o
conhecimento técnico dos monitores seriam insuficientes para superar essa lacuna. A
própria formação do tecnólogo requer a contemplação de experiências desse tipo, pois
as habilidades e sensibilidades necessárias para projetos dessa natureza extrapolam o
que foi aprendido em matérias estritamente técnicas. A conjugação deste aprendizado
técnico com o desenvolvimento das relações sociais, mais o apoio institucional lato
senso, parece ser um caminho promissor para que a inclusão digital deixe de ser um
rótulo retórico para tornar-se um fato real, que altera a vidas das pessoas de forma
positiva.

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