Você está na página 1de 11

14

entrevista
“TODAS AS
REVOLUÇÕES
COLHERAM SUA
POESIA TANTO DO
PASSADO COMO DO
FUTURO”
UMA ENTREVISTA COM MICHAEL LÖWY

A
possibilidade de editar uma entre- seu pensamento: começamos com duas
vista do renomado intelectual bra- questões sobre a recém lançada obra Afi-
sileiro radicado na França, Michael nidades Revolucionárias, em coautoria com
Löwy, é sem dúvidas um dos momentos Olivier Besancenot, que investiga a aproxi-
marcantes dessa minha curta e singela mação de marxistas e anarquistas no de-
“carreira acadêmica” – como assim deno- correr da história. Em seguida, mudamos a
minam. Löwy é um autor que me influenciou direção para explorar as ousadas análises
em diversos aspectos, desde as afinidades que Löwy desenvolve acerca do romantis-
“Luxemburguistas” baseados na concepção mo, não o reduzindo a uma mera corrente
política de Rosa Luxemburgo; a valorização artística – o que já não seria pouco - mas
do pensamento crítico da América Latina; sim, o tratando como um movimento críti-
a atenção aos textos de juventude de Karl co ao capitalismo. Depois, ainda no campo
Marx; e principalmente o interesse pela crí- artístico, exploramos os aspectos políticos
tica ao capitalismo desenvolvida pelos pen- e revolucionários presentes no surrealismo,
sadores românticos. cuja principal expressão são os escritos
A entrevista aqui apresentada, tem e ações de instigante personagem André
como objetivo uma jornada à algumas das Breton. Não poderíamos esquecer de tratar
principais obras de Michael Löwy, que ver- do pensamento político latino-americano
sam sobre as temáticas que caracterizam – temática tão cara a Löwy - e assim, de-

15

Revice - Revista de Ciências do Estado, Belo Horizonte, v.2, n.1, p. 15-24, jan./jul. 2017.
senvolvemos uma pergunta com o propó- exigirá bastante fôlego e tempo de pesqui-
sito de discutir a aproximação da esquerda sa – que claro, tenho bastante interesse em
latino-americana com pensamento cristão, desenvolver num futuro breve. Desse modo,
relação que pode ser encontrada desde as quanto à função de edição, tentei me ater
primeiras atitudes em defesa dos povos in- principalmente por oferecer direcionamen-
dígenas pós invasão das Américas (como tos àqueles leitores que, de alguma forma,
os discursos e textos de Antônio de Mon- sentirem que essa entrevista possa abrir
tesinos, Bartolomé de Las Casas, Francisco caminhos para suas pesquisas, investiga-
de Vitória, entre outros), até com a renoma- ções e reflexões. Todas as notas de rodapé
da Teologia da Libertação, movimento que foram produzidas por mim, além de acres-
resgata as bases populares do cristianismo. centar também, ao fim do texto, as referên-
No fim de nosso percurso, voltamos nossa cias bibliográficas mencionadas no decor-
atenção para a reflexão ecológica tão recor- rer da entrevista.
rente na militância ecossocialista de Löwy, Não poderíamos deixar de agrade-
que, ao criticar o assim chamado “capita- cer todo apoio que a Editora UNESP ofereceu
lismo verde” (ou “capitalismo sustentável”) ao Corpo Editorial da Revista de Ciências do
alerta: “o momento em que nos encontra- Estado, servindo como agente mediadora
mos, do ponto de vista ecológico, mas tam- que propiciou a confecção dessa entrevista.
bém do ponto de vista da vida humana nes- Agradecemos também ao trabalho voluntá-
te planeta, é de cinco minutos antes de meia rio de André Bueno Corrêa Moura, responsá-
noite”. vel por ajudar na revisão ortográfica dessa
A entrevista de Löwy é riquíssima entrevista. Para aqueles que já conhecem,
do ponto de vista das referências mencio- Löwy é um intelectual que dispensa apre-
nadas. Particularmente, possuo algumas sentações. Porém, vamos cumprir o dolo-
discordâncias quanto a algumas temáticas roso papel de mencionar um pouco de sua
exploradas por Löwy, principalmente em biografia – doloroso pois se existe a lem-
relação às interpretações que nosso autor brança, há também o esquecimento. De an-
faz da aproximação do romantismo tan- temão, pedimos desculpas pelos eventuais
to com o pensamento de Marx, quanto ao fatos importantes não mencionados nesse
pensamento marxista. Entretanto, acredito pequeno parágrafo que se segue.
não ser esse o espaço para uma contra- Michael Löwy é um prestigiado
posição, até porque será um trabalho que pensador contemporâneo influenciado

16

Revice - Revista de Ciências do Estado, Belo Horizonte, v.2, n.1, p. 15-24, jan./jul. 2017.
por autores como Lucien Goldman, Georg Revice: No ano em que se comemoram os
Lukács, Walter Benjamin, Rosa Luxembur- 500 anos do lançamento da obra Utopia
go, José Carlos Mariátegui, León Trótski, e de Thomas Morus, a Editora UNESP lan-
claro: Karl Marx. Brasileiro, Löwy formou-se çou no Brasil sua obra Afinidades Revo-
em Ciências Sociais pela USP e logo em se- lucionárias1, escrita em coautoria com
guida mudou-se para a França com a fina- Olivier Besancenot. Você pode mencio-
lidade de desenvolver sua pesquisa de dou- nar exemplos na história em que projetos
torado sobre a teoria da revolução no jovem utópicos foram compartilhados tanto por
Marx. Em 1978, tornou-se professor de so- marxistas quanto por libertários?
ciologia do Centre National de la Recherche Michael Löwy: O projeto utópico de uma
Scientifique (Paris), e em seguida, diretor de sociedade sem classes, sem exploração,
pesquisas sociais na mesma instituição. sem Estado, é comum a Marx e a Bakunin,
Quanto à sua militância política, fez parte assim como, de maneira geral, a marxis-
da Liga Socialista Independente além de se tas e libertários. O que os separa é a pro-
associar à Quarta Internacional. Sempre es- posta marxista de utilizar formas estatais
teve próximo de movimentos sociais de es- de poder num período de transição para
querda, como o MST e a Liga Camponesa, a sociedade comunista. Para os anar-
além de ter participado também de partidos quistas, a abolição do Estado deve ser
políticos (no Brasil, participou do processo imediata. Na Comuna de Paris de 1871,
de formação do PT além de, posteriormente, nos primeiros anos da Revolução Russa
ter se ingressado às fileiras do PSOL). É au- (1917-1921) e da Revolução Espanhola
tor de dezenas de livros, manifestos, artigos (1936-37), muitos marxistas e anarquis-
científicos e jornalísticos. tas compartilhavam a esperança de que
É momento de desfrutar, portanto, se tratava de uma tentativa de realizar os
da entrevista que Michael Löwy concedeu primeiros passos no caminho para esta
de maneira exclusiva para a Revista de Ci- utopia. O mesmo vale, ainda hoje, para as
ências do Estado. Por vezes, nos sentimos comunidades zapatistas auto-organiza-
tão à vontade, que nem notamos a utiliza- das do Chiapas.
ção do mais singelo dos pronomes de trata- 1 Mais em: LÖWY, Michael; BESANCENOT,
Olivier. Afinidades Revolucionárias: nossas es-
mento: “você”. trelas vermelhas e negras. Por uma solidariedade
entre marxistas e libertários. São Paulo: 2016,
Lucas Parreira Álvares Editora Unesp, 200p. Vale mencionar que na atu-
Março, 2017 al edição da Revista de Ciências do Estado consta
uma resenha à essa obra de Löwy e Besancenot.

17

LÖWY, Michael. Todas as revoluções colheram sua poesia tanto do passado como do futuro.
Revice: No prefácio à edição brasileira de da Sé, pondo-as em fuga. O episódio ficou
Afinidades Revolucionárias, você apresen- conhecido como “a revoada dos galinhas
ta o exemplo recente do Movimento Passe verdes” (referências às camisas verdes da
Livre (MPL), que é uma organização com- militância fascista brasileira). Nesse sen-
posta, sobretudo, por “anarco-marxistas”. tido, não se trata de algo comparável com
Buscando na história – ou na “contra his- o Movimento Passe Livre, que é uma rede
tória” – nacional, você também apresenta horizontal de militantes de um movimento
a Liga Comunista Internacional (LCI) como social.
uma organização que, da mesma forma,
Revice: Você e Sayre encerram a obra Re-
reuniu marxistas e libertários na primeira
volta e Melancolia com a seguinte frase: “a
metade do século XX. É possível sugerir
utopia será romântica ou não será”. Cer-
alguma motivação semelhante que tenha
tamente, o significado atribuído ao termo
sido capaz de unir essas duas ideologias
utopia foi o seu original: “o que ainda não
em contextos históricos tão distantes?
existe em nenhum lugar”. Nesse sentido,
Michael Löwy: Uma pequena retificação:
quais poderiam ser as referências român-
a Liga Comunista Internacionalista, di-
ticas (eventos, pensamentos, autores etc.)
rigida por Mário Pedrosa2, Lívio Xavier3 e
para uma utopia por vir?
Fúlvio Abramo4, não incluía anarquistas:
Michael Löwy: Encontramos aspectos ro-
era uma organização marxista, comunis-
mântico/utópicos mesmo nos escritos
ta dissidente (trotskista). Foi a proposta,
de Marx e Engels, muito embora eles não
levantada por Mário Pedrosa em 1934,
possam ser definidos como pensadores
de formar uma Frente Única Antifascista
românticos. Por exemplo, quando Engels
(FUA), que reuniu comunistas, socialis-
cita, com muito entusiasmo, as qualida-
tas, trotskistas, anarquistas, sindicalistas
des humanas do comunismo primitivo
e antifascistas em geral. Em 1934 a FUA
- em termos de dignidade humana, igual-
enfrentou, de armas em punho, as colunas
dade, liberdade5 -, qualidades que deverão
integralistas de Plínio Salgado na Praça
ser recuperadas, num contexto moderno,
2 Mário Xavier de Andrade Pedrosa (1900- pelo comunismo do futuro.
1981) foi um militante político brasileiro e crítico de
arte e literatura. 5 Löwy se refere a uma passagem da obra
A origem da família, da propriedade privada e do
3 Lívio Barreto Xavier (1900-1988) foi um Estado (1884), na qual Engels se baseia nos manu-
jornalista e tradutor brasileiro. scritos que Marx desenvolveu a partir da obra An-
4 Fúlvio Abramo (1909-1993) foi um jor- cient Society (1877) do antropólogo evolucionista
nalista e militante trotskista brasileiro. Lewis Morgan.

18

Revice - Revista de Ciências do Estado, Belo Horizonte, v.2, n.1, p. 15-24, jan./jul. 2017.
William Morris, socialista revolu- civil burguesa baseada em valores do pas-
cionário, marxista libertário, artista e es- sado. Por mais que em sua obra Revolta e
critor romântico inglês, é autor de um ro- Melancolia várias tipologias de romantis-
mance utópico, Notícias de Lugar Nenhum mos sejam apresentadas (desde o reacio-
(Ed. Perseu Abramo, em língua portugue- nário até o revolucionário), será que não
sa6) que imagina uma sociedade comunis- pode soar perigosa a atribuição do roman-
ta do futuro que recupera muitos aspectos tismo como um fundamento do pensa-
do passado pré-capitalista. mento marxista, considerando que Marx,
Aqui na América Latina, o marxis- em seu 18 Brumário, menciona que “não
ta peruano (falecido em 1930) José Carlos é do passado, mas unicamente do futuro,
Mariátegui referia-se ao comunismo inca, que a revolução pode colher sua poesia”?
anterior à conquista ibérica, como funda- Michael Löwy: Essa frase deve ser enten-
mento dos hábitos coletivistas das comu- dida em seu contexto, como uma crítica
nidades indígenas dos Andes. Ele propu- aos republicanos pequeno-burgueses de
nha um socialismo indo-americano, com 1848, que sonhavam em imitar os jaco-
raízes profundas nas tradições indígenas binos de 1793. Mas, na verdade, todas as
comunitárias7. O movimento indigenista revoluções colheram sua poesia tanto do
atual na América Latina retoma, sob uma passado como do futuro. A Comuna de
nova forma, esta problemática. Paris em 1871 inspirava-se na Comuna
de 1794, embora tivesse muitas inovações
Revice: Você sugere que o Romantismo
sem precedente; e a Revolução de Outubro
seja uma “quarta fonte do pensamento
de 1917 tinha como modelo a Comuna de
marxista” (junto com a economia política
Paris, mesmo que os sovietes russos fos-
inglesa, o socialismo utópico francês e o
sem muito diferentes das seções popula-
idealismo alemão), não como uma esco-
res de 1871.
la literária, mas sim como uma visão de
Nós não dizemos que o roman-
mundo, ou seja, uma crítica à sociedade
tismo é o “fundamento” do marxismo.
6 Mais em: MORRIS, William. Notícias de Lu- É simplesmente uma de suas fontes de
gar Nenhum: ou uma época de tranquilidade. São inspiração. A relação de Marx com Sis-
Paulo: 2002, Perseu Abramo, 318p.
7 Aqui Löwy se refere à passagens que po-
dem ser verificadas na obra: MARIÁTEGUI, José
Carlos. Sete ensaios de interpretação da realidade
peruana. São Paulo: 2008, Expressão Popular,
330p.

19

LÖWY, Michael. Todas as revoluções colheram sua poesia tanto do passado como do futuro.
mondi89 é um exemplo disso: o Manifesto do surrealismo, definiu da seguinte forma
Comunista o critica como “socialista pe- a utopia revolucionária desse movimento:
queno-burguês”, mas toda sua crítica ao “Marx disse que devemos transformar o
capitalismo é retomada pelos fundadores mundo, Rimbaud11 escreveu que devemos
do socialismo científico. Um outro exem- mudar a vida. Para nós, surrealistas, es-
plo interessante são os últimos escritos sas duas exigências são uma só”. O sur-
de Marx sobre a comuna rural russa (car- realismo é um violento protesto contra a
ta a Vera Zasulitch), forma “arcaica” que civilização burguesa ocidental, mas tam-
talvez pudesse ser o ponto de partida de bém uma tentativa de reencantamento do
uma transformação revolucionária socia- mundo, que se considerava herdeira do
lista na Rússia10. Em nosso livro citamos romantismo12. O movimento surrealista
muitos outros exemplos. nunca deixou de ter um compromisso polí-
tico revolucionário, num primeiro momen-
Revice: Tal como o Romantismo, você não
to (1927-35) junto ao Partido Comunista
reduz o Surrealismo a uma corrente lite-
Francês e, depois da ruptura com este (em
rária, atribuindo a este uma alcunha de
1935), com a Oposição de Esquerda, por
“movimento de revolta do espírito e uma
exemplo com a visita de Breton a Trotsky
tentativa eminentemente subversiva de
no México em 1938 e a redação conjunta
re-encantamento do mundo”. Podemos
do Manifesto por uma Arte Revolucionária
considerar, portanto, o Surrealismo como
Independente13. Depois da Segunda Guer-
um movimento utópico? Se sim, quais as
11 Arthur Rimbaud (1854-1891) foi um re-
principais características que constituem nomado poeta francês atribuído à tradição do Sim-
bolismo.
sua intepretação acerca do movimento
12 Nosso autor desenvolve melhor sua inter-
Surrealista? pretação do surrealismo na seguinte obra: LÖWY,
Michael. A Estrela da Manhã: Surrealismo e Marx-
Michael Löwy: André Breton, o fundador ismo. Rio de Janeiro: 2002, Civilização Brasileira,
157p.
8 Essa edição da Revista de Ciências do Es- 13 O assim conhecido como Manifesto por
tado apresenta uma tradução que fiz ao Prefácio uma Arte Revolucionária Independente é um texto
(1894) de William Morris à obra Utopia, de Thomas cuja intenção era aglutinar os artistas que se por-
Morus, que coloca em questão sua percepção so- tavam criticamente ao capitalismo. Vide um trecho
bre os autores socialistas utópicos. do Manifesto: “Consideramos que a tarefa supre-
ma da arte em nossa época é participar consciente
9 Jean Charles Léonard Sismonde de Sis- e ativamente da preparação da revolução. No en-
mondi (1773-1842) foi um renomado historiador e tanto, o artista só pode servir à luta emancipadora
economista político da Suíça, quando está compenetrado subjetivamente de seu
10 A referência de Löwy pode ser verificada conteúdo social e individual, quando faz passar
na obra: MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. Lutas de por seus nervos o sentido e o drama dessa luta e
Classes na Rússia. São Paulo: 2013, Boitempo Edi- quando procura livremente dar uma encarnação
torial, 168p. artística a seu mundo interior”. O manifesto com-

20

Revice - Revista de Ciências do Estado, Belo Horizonte, v.2, n.1, p. 15-24, jan./jul. 2017.
ra Mundial, os surrealistas vão se aproxi- forte com o pensamento cristão?
mar por um tempo dos anarquistas, e vão Michael Löwy: Eu não diria que Mariátegui,
levar uma atividade radical contra o colo- depois de sua adesão ao marxismo, era um
nialismo francês, por exemplo, tomando “cristão assíduo”, embora ele tivesse muita
a iniciativa do Manifesto dos 121 (1960) simpatia por personagens cristãos como
pelo Direito à Insubmissão contra a guerra Miguel de Unamuno15. A aproximação
da Argélia14. entre marxismo e cristianismo na Améri-
ca Latina vai se dar sobretudo depois de
Revice: É nítido seu interesse pelo pensa-
1959, em função de dois acontecimentos
mento político da América Latina, com a
distintos, mas que coincidem nesta data:
produção de escritos sobre Che Guevara,
a vitória da Revolução Cubana e a nova
Mariátegui, entre outros personagens. São
orientação da Igreja Católica impulsiona-
também bastante relevantes suas contri-
da pelo Papa João XXIII e, mais tarde, pelo
buições para os estudos que envolvem
concílio Vaticano II. Os primeiros “cristãos
marxismo e religião. Sabe-se que Mariáte-
socialistas” vão ser os militantes da JUC
gui era um cristão assíduo; a Frente San-
brasileira em 1960, mas o processo vai se
dinista foi influenciada por ideais cristãos;
estender por todo o continente, tendo um
a JUC (Juventude Universitária Católica)
ponto alto na Conferência dos Bispos La-
articulou a fé cristã com a política marxis-
tino-americanos de Medellín (1968), que
ta, e não de maneira espontânea, foi exa-
reconheceu ao povo o direito à insurreição
tamente na América Latina que se formou
contra qualquer forma de tirania. O apa-
a conhecida Teologia da Libertação. Qual
recimento da Teologia da Libertação terá
a peculiaridade da esquerda na América
um papel muito importante nessa conver-
Latina que propiciou uma aproximação tão
gência entre cristianismo e marxismo, que
pleto, bem como textos complementares podem
ser encontrados na organização: BRETON, André; vai se traduzir, no terreno prático, na Revo-
TROTSKY, Leon. Por uma Arte Revolucionária Inde-
pendente. Rio de Janeiro: 1985, Editora Paz e Terra, lução Sandinista16, na guerrilha da “Frente
224p.
14 Já o assim chamado Manifesto dos 121
(Título oficial: “Declaração sobre o direito de insur-
reição na guerra da Argélia” ou “Declaração sobre 15 Miguel de Unamuno y Jugo (1864-1946)
o direito de insubmissão na guerra da Argélia”) foi foi um romancista, poeta e filósofo espanhol con-
um documento publicado em Paris escrito por Di- hecido por ser o principal representante do assim
onys Mascolo, Maurice Blanchot e Jean Schuster, chamado “existencialismo cristão” na Espanha.
assinado por 121 intelectuais renomados à época. 16 Referência à revolução popular ocorrida
O texto integral pode ser encontrado nesse link: na Nicarágua entre 1979 e 1990, assim chama-
https://www.marxists.org/history/france/algeri- da em memória ao líder Augusto César Sandino
an-war/1960/manifesto-121.htm. (1895-1934).

21

LÖWY, Michael. Todas as revoluções colheram sua poesia tanto do passado como do futuro.
Farabundo Martí17” em El Salvador, e no pidez preocupante, e que constitui uma
desenvolvimento de muitos movimentos ameaça à vida neste planeta, é o melhor
sociais, como o MST (Movimento dos Tra- exemplo disso: apesar de todos os discur-
balhadores Rurais Sem Terra) no Brasil. sos sobre “sustentabilidade”, as emissões
Não se trata, portanto, de uma pe- de gases com efeito de estufa - produto
culiaridade da esquerda, mas de uma radi- da queima de carvão e petróleo - tem au-
calização de muitos cristãos, sejam inte- mentado assustadoramente.
lectuais, membros do clero, da juventude e A esquerda em geral não tem
de camadas populares. dado importância suficiente para a ques-
tão ecológica. Muitos ainda acreditam no
Revice: Como é comum nos depararmos
“desenvolvimento” capitalista, na “expan-
com sua militância a favor do Ecossocia-
são” do PIB, e no “crescimento das forças
lismo - uma proposta que concilia a refle-
produtivas” a qualquer preço, não se preo-
xão ecológica com a reflexão socialista
cupando com o envenenamento dos rios e
-, não poderíamos deixar de tratar desse
das terras, com a destruição das florestas
tema. Considerando o advento do capita-
ou com o processo de aquecimento glo-
lismo verde – ou capitalismo sustentável
bal. Mas a consciência ecossocialista tem
–, quais suas percepções sobre o modo
se desenvolvido bastante, e setores im-
pelo qual a esquerda tem pautado a ques-
portantes da esquerda mais aberta e dos
tão? Ela tem conseguido apresentar uma
movimentos sociais se interessam pela
contraposição consistente ao avanço des-
proposta de uma alternativa radical ao ca-
se novo espírito do capitalismo?
pitalismo destruidor da nossa Mãe Terra18.
Michael Löwy: O capitalismo “verde” ou
Revice: É comum que as entrevistas ter-
“sustentável” é uma mistificação. O sis-
minem com análises contemporâneas ou
tema capitalista não pode existir sem ex-
mesmo com profecias feitas pelos entre-
pansão permanente, produtivismo e con-
vistados. Porém, você sempre chama a
sumismo ilimitados - e, portanto, sem
atenção para um outro lado da moeda do
destruição crescente da natureza e dos
significado de “profecia”: o profeta não é
equilíbrios ecológicos. O processo de mu-
dança climática, que se agrava com ra- 18 Löwy explora melhor essa questão at-
ravés do seu Manifesto Ecossocialista Internacio-
17 Referência ao partido político socialista nal (2001) produzido em coautoria com Joel Kovel
de El Salvador cuja nomenclatura é uma homena- e publicado no Brasil como anexo à obra: SATIE,
gem ao líder comunista Agustín Farabundo Martí Luis. Ecossocialismo ou Barbárie. Joinville: 2009,
(1893-1932). Clube de Autores, 72p.

22

Revice - Revista de Ciências do Estado, Belo Horizonte, v.2, n.1, p. 15-24, jan./jul. 2017.
aquele que prevê, por meio de um exercício tólogos como James Hansen21, tem tirado,
de futurologia, o que está por vir; mas sim há anos, o sinal de alarme. A única “profe-
aquele que, com sua capacidade de aná- cia” que podemos fazer é condicional: se
lise do presente, consegue ter uma ideia permitirmos por mais algumas dezenas
do que poderá acontecer. Essa entrevista de anos que o capitalismo continue des-
pretende terminar de maneira distinta das truindo o meio ambiente e os equilíbrios
convencionais: em vez de solicitarmos ecológicos (o clima), as consequências
para que você faça uma “profecia” consi- para a humanidade serão trágicas. Como
derando o atual contexto, gostaríamos de dizia Walter Benjamin, “precisamos puxar
saber: quais foram as “profecias” exitosas o freio de urgência para parar este trem
do passado que conseguiram indicar o suicida22”.
momento em que nos encontramos hoje?
Michael Löwy: O momento em que nos ***
encontramos, do ponto de vista ecológi-
co, mas também do ponto de vista da vida Edição Geral: Lucas Parreira Álvares
humana neste planeta, é de cinco minutos Entrevista: Lorena Martoni de Freitas e
antes de meia noite. E urgente agir con- Lucas Parreira Álvares
tra o sistema, se queremos evitar uma Revisão ortográfica: André Bueno Corrêa
catástrofe sem precedentes na história. Moura e Lucas Parreira Álvares
Isso foi previsto, desde os anos 1960, pe- Apoio: Editora UNESP
los primeiros ecologistas de esquerda, por
exemplo nos Estados Unidos, como Ra-
chel Carson19, ou o ecologista anarquista
Murray Bookchin20, ao qual dedicamos um
capitulo de nosso livro Afinidades Revolu-
cionárias. Mas também cientistas, clima-

19 Rachel Louise Carson (1907-1964) foi


uma escritora e ecologista norte-americana re-
sponsável por contribuir com a “consciência am- 21 James Edward Hansen (1941- ) é um con-
biental” moderna. ceituado climatologista norte-americano.
20 Murray Bookchin (1921-2006) foi um es- 22 Passagem que pode ser encontrada, den-
critor anarquista norte-americano fundador da tre outras, através da obra: LÖWY; Michael. Walter
“Escola de Ecologia Social”, que sustenta que os Benjamin: Aviso de Incêndio: uma leitura das teses
problemas ecológicos estão arraigados nos prob- “Sobre o conceito de história”. São Paulo: 2005,
lemas sociais. Boitempo Editorial, 160p.

23

LÖWY, Michael. Todas as revoluções colheram sua poesia tanto do passado como do futuro.
REFERÊNCIAS
BRETON, André; TROTSKY, Leon. Por uma Arte Revolucionária Independente. Rio
de Janeiro: 1985, Editora Paz e Terra, 224p.

ENGELS, Friedrich. A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado. São


Paulo: Expressão Popular, 3.ed., 2012, 302p.

LÖWY, Michael. A Estrela da Manhã: Surrealismo e Marxismo. Rio de Janeiro:


2002, Civilização Brasileira, 157p.

LÖWY; Michael. Walter Benjamin: Aviso de Incêndio: uma leitura das teses “Sobre
o conceito de história”. São Paulo: 2005, Boitempo Editorial, 160p.

LÖWY, Michael; BESANCENOT, Olivier. Afinidades Revolucionárias: nossas estrelas


vermelhas e negras. Por uma solidariedade entre marxistas e libertários. São
Paulo: 2016, Editora Unesp, 200p.

LÖWY, M; SAYRE, R. Revolta e Melancolia: o romantismo na contracorrente da


Modernidade. São Paulo: Boitempo, 1.ed. 2015, 287p.

MARIÁTEGUI, José Carlos. Sete ensaios de interpretação da realidade peruana.


São Paulo: 2008, Expressão Popular, 330p.

MARX, Karl. O 18 de Brumário de Luís Bonaparte. São Paulo: Boitempo, 2011,


174p.

MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. Lutas de Classes na Rússia. São Paulo: 2013,
Boitempo Editorial, 168p.

MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. Manifesto Comunista. São Paulo: Boitempo, 2010,
271p.

MORGAN, Lewis Henry. A Sociedade Primitiva I. Lisboa: Editorial Presença/


Martins Fontes, 3.ed., 1980, 331p.

MORRIS, William. Notícias de Lugar Nenhum: ou uma época de tranquilidade. São


Paulo: 2002, Perseu Abramo, 318p.

SATIE, Luis. Ecossocialismo ou Barbárie. Joinville: 2009, Clube de Autores, 72p.

24

Revice - Revista de Ciências do Estado, Belo Horizonte, v.2, n.1, p. 15-24, jan./jul. 2017.