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Teatro

Triste
inventário
de perdas

Rogério Viana

Curitiba – Paraná
Dezembro de 2010

(todos os direitos reservados)

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Triste inventário de perdas

Personagens

Ernesto 1 – tem 25 anos e é jornalista

Ernesto 2 – tem 60 anos e é jornalista aposentado

Ernesto 3 – é um homem bem mais velho e foi jornalista

"Há momentos em que navego mar adentro sem perguntas, sem reparar na chuva nem
no frio. E outros em que me agarro a velhas sabedorias esotéricas, encontrando
calor em suas antigas páginas como nas pessoas que me rodeiam e cuidam de mim.
Sinto vergonha ao pensar nos velhos que estão sozinhos, abandonados ruminando
seu triste inventário de perdas".

(Ernesto Sabato em A Resistência - Cia. das Letras - 2008)

© Rogério Viana
Rua Padre Anchieta, 2690 – apto. 1301
Edifício Augusto Ruschi
Bigorrilho
CURITIBA – PARANÁ
80730 000

Fones 41 8803 7626 – 3078 8647 (home office)

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Triste inventário de perdas deixo de espirrar... sim, depois de uns
quinze espirros seguidos... deixo de
Cenário: Espaço vazio. Cada quadro espirrar...
será identificado por um objeto de
cena. O objeto é destacado nas Ernesto 1 – Esta tinta é uma porcaria.
didascálias, nas falas dos personagens Eu pego o jornal e fico com os dedos
ou sugerido, nas entrelinhas... todo sujo. Mas não é a tinta, não. Acho
que é o papel jornal que me faz
1 – O espirro de cada manhã espirrar. Sim, deve ser mesmo o papel.
O papel jornal. Esse é muito ruim. Não
Ernesto 2 - Todas as manhãs, com ou é como aquele papel importado, liso e
sem sol, basta eu pegar algo para ler clarinho. Mas está tudo tão caro e
que logo começo a espirrar... Acontece temos que usar um papel de menor
sempre e de um jeito que não consigo qualidade para termos nosso diário
controlar. Leio alguma coisa e espirro. todas as manhãs nas casas dos
assinantes e nas bancas de jornal...
Ernesto 1 – (está sentado com um
jornal nas mãos) Eu não lembro de ter Ernesto 2 – Ao espirrar a cada manhã
espirrado por esse motivo, mas... Será? eu me lembro das enormes
Será alergia? O que os olhos tem a ver dificuldades que o jornal passava para
com o nariz? Meu nariz fica circular. Algumas vezes tínhamos as
escorrendo... e o espirro é... bem, bobinas de papel sendo descarregadas
coça... minutos antes do jornal ser impresso.
Uma luta. E teve vezes – sim, várias
Ernesto 2 – Eu notei isso há uns 35 vezes isso aconteceu mesmo – que
anos... ainda quando eu era jornalista emprestávamos as bobinas de papel do
e, ávido, corria para pegar o jornal nosso concorrente. Havia uma certa
para ver as patacoadas que publicava... ética entre os jornais. Um tipo de
acordo tácito, velado, porém... Nas
Ernesto 1 – Será que é um tipo de dificuldades, um socorria o outro.
alergia pelo que está escrito ou seria Infelizmente, nosso jornal sempre era
um incômodo pelo cheiro da tinta no socorrido. O outro, uma empresa
papel jornal... acho a segunda opção sólida e pouco avessa a levantar
mais plausível... Sim... o cheiro da polêmicas, tinha um enorme estoque
tinta de impressão – muitas vezes não de papel. Papel bom, importado...
de tão boa qualidade – é mesmo muito Aquelas bobinas todas num grande
forte quando vai parar no papel depósito. Papel suficiente para
jornal... Será que é alegria pelo papel publicar quase um semestre todo de
de imprensa? E vem a tinta e provoca suas edições. Mas que importância tem
isso... isso tudo hoje? Nenhuma. Nenhuma,
nada, coisa nenhuma. Não significa
Ernesto 2 – Nunca parei para nada ...
especular sobre isso... Mas, desde
então, eu espirro a cada manhã... O Ernesto 3 – (entra apoiado num
nariz coça, fica escorrendo... Mas eu andador) Até ontem eu ainda
não leio mais jornal impresso. Nem espirrava, mesmo ao ler alguma coisa
tenho mais assinatura de nenhum no monitor do computador que ganhei
jornal impresso... Mas eu espirro, do meu neto... Não era nem o cheiro
várias vezes, várias vezes eu espirro... da tinta, nem do papel, claro que não
vem uma coriza... mas, magicamente era. O estímulo visual, sim, os olhos é

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que se manifestavam. A lágrima, ao se com a passagem dos agricolões,
invés de lubrificar os olhos, escorria pelados, uns de gravatas, outros de
pelo nariz e provocava o espirro. É botas, muitos deles de óculos escuros.
minha conclusão, depois de tantos Todos, sem exceção, bêbados ou com
anos, tantos anos. Eu espirro ao garrafas de pinga nas mãos...
começar a ler. E espirro sempre, pois
ainda posso ler, mesmo com um dos Ernesto 3 – Uma cena, aos olhos de
olhos bem comprometidos por uma muita gente, dantesca... E as mocinhas,
catarata. dentro de carros, querendo esconder-
se, mas todas, sim, todas ali, esperando
Ernesto 1 – Será que teremos papel o desfile dos saudáveis e audaciosos
jornal na próxima semana? futuros engenheiros agrônomos
correndo, livres, lépidos e fagueiros,
Ernesto 3 – Os jornais de hoje não me balançando seus pintos e sacos
trazem mais nada interessante para eu enquanto corriam...
ler em suas edições impressas. Os
jornais perderam aquela agilidade, Ernesto 1 – Não, doutor, não... eu
aquela vontade de trazer informações estava passando pelo local quando
exclusivas... Então, não espirro mais surgiram os peladões, correndo.
por causa deles... Eu espirro, sim,
espirro sim, simplesmente ao abrir os Ernesto 3 – Hoje eu espirrei...
primeiros sites informativos.
Ernesto 2 – Eu não consegui fazer
Ernesto 2 – Foi só uma vez. Uma mais que dez fotos...
única vez. Tivemos que fazer três
edições extras do nosso jornal. Tudo Ernesto 3 – Tenho que rir de tudo
que imprimimos ia para as bancas e, isso...
em minutos, era logo vendido.
Imprimimos até não ter mais papel... Ernesto 2 – O senhor acha que eu
Foi um furo daqueles. Mas um fato premeditei isso?
que afrontou toda a cidade.
Ernesto 1 – Doutor eu tinha apenas
Ernesto 1 – Onde já se viu, vão dizer, dez chapas no meu filme... só dez
onde já se viu publicar um bando de chapas, doutor. Além do mais, as
homens correndo pelados perto da pilhas do flash estavam no fim e eu só
faculdade? Você acha que eu ia perder tinhas as quatro dentro do flash...
essa oportunidade? Não mesmo! fraquinhas, fraquinhas...

Ernesto 3 – Não me lembro de ter Ernesto 3 – Não, não estou rindo da


espirrado naquela manhã... sua pergunta...

Ernesto 2 – Os policiais entraram no Ernesto 2 – O senhor quer ver a


jornal e recolheram as chapas de máquina? É minha, não é do jornal...
impressão, os fotolitos todos da
edição... Levaram, até, as artes das Ernesto 3 – Eu só fiz as fotos... não
páginas. Principalmente levaram as sou o editor, nem dono do jornal... Fale
fotografias que eu fizera... Aqueles com eles. O que eu tenho com isso?
moços estudantes de agronomia
correndo pelados na avenida... Ernesto 1 – Vou ter que voltar aqui?
Centenas de outros jovens divertindo- Eu já disse: não conheço nenhum

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desses rapazes... Nenhum... Nunca vi 2 – Salomé de salto alto
nenhum deles. Eu passava ali por
acaso. Será que dei azar de estar lá? Ernesto 3 - (movimenta-se devagar
com seu andador) Procurando
Ernesto 2 – O filme foi comprado por alguém? Você não é a Christiane...?
mim. O jornal não tem dinheiro nem
para comprar filme, o senhor acredita? Aqueles olhos enormes fitaram-me
sorrindo. Os lábios carnudos
Ernesto 3 – O policial do DOPS olhou moveram-se em câmara lenta e ela
para mim com uma cara tão brava. disse: Sou sim... Você já viu alguma
Mas ele ia me enquadrar em algum peça minha?
crime? Qual?
Meu coração batia tão forte, mas tão
Ernesto 2 – Não me lembro de ter forte, que acho que ela viu como eu
espirrado aquela manhã quando vi estava sem saber o que falar. E foi logo
minhas fotos na primeira página... Um dizendo: será que você sabe onde
monte de homens pelados, com todos foram? Ia dizer alguma coisa e
aquelas indefectíveis tarjas pretas ela antecipou-se: Vai me ajudar?
cobrindo sacos e pintos balançando... Vamos, me leve para onde todos
foram...
Ernesto 1 – As fotos que eu fiz são
essas... O senhor está com os negativos Sem saber o que fazer, apenas assenti
nas mãos... Foram só essas. Eu dou a com a cabeça e ela, com um sorriso
minha palavra. Foram só essas... malicioso nos lábios pediu: Leve-me,
antes, ao hotel onde estou hospedada.
Ernesto 3 – Não... não sei quem é este
jovem de bunda branca com a garrafa Não tinha como dizer não. Aquela
de pinga na mão. Não sei. Já disse! mulher, aquela atriz que me encantou
quando eu a vi num programa de
Ernesto 1 – Não dá para ver direito a televisão falando sobre seu recém
cara dele. Estava longe. O senhor lançado livro de poesias e do sucesso
percebe que tivemos que ampliar a que fizera, em Londres, ao aparecer
foto para ... nua na montagem de “Sonhos de uma
noite de verão...”
Ernesto 2 – Acredito que, até hoje, o
policial do DOPS deve se perguntar: Ela era muito mais bonita
que importância teve os futuros pessoalmente, muito mais sensual,
engenheiros agrônomos correrem muito mais cheirosa, muito mais
pelados naquela noite? viva... muito mais maliciosa como eu a
imagina ser. E estava ali, ao meu lado
Ernesto 3 – Eu devia ter tido coragem no meu velho fusca indo em direção ao
de mandar aquele policial idiota enfiar hotel onde ela estava hospedada. Eu
as fotografias e os negativos no cu... quase não conseguia respirar. Não
Mas não tive coragem. Faltou, a mim, arriscava a dizer nada. Apenas
mais culhão... Ou melhor dizendo, eu deixava-me levar por aquela mulher,
tinha filhos... aquela linda atriz, aquela personagem
que me encantara quando a ouvi
Ernesto 1 – Babaca, filho da puta... dizendo um dos seus poemas eróticos
diante de um apresentador ainda mais
Ernesto 2 – Eu devia ter xingado! boquiaberto que eu... E ela estava ali,

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ao meu lado, no meu carro. Aquela dia montar um espetáculo com ... o
linda mulher e seu espírito... eu sempre José Wilker fazendo o papel de João
me esqueço dessa palavra quando Batista e a Sônia Braga fazendo o
quero me lembrar daquela atriz e de papel de Salomé... Mas eu acho que
seu sensual vestido preto, suas meias ele estava errado... Se eu fosse o
fumê, seu salto alto... e seus lábios diretor, se eu fosse o produtor, se
carnudos e vermelhos. Seu rosto claro, tivesse dinheiro para produzir a peça...
desafiador pelo jeito de me olhar. Tudo bem, eu queria que você fosse a
emoldurado por um cabelo cacheado Salomé...
que devia ter o perfume de sândalo...
Um perfume bem ancestral, bíblico, Ernesto 3 – Ela quase caiu da cadeira
talvez... Qual é mesmo a palavra? Sim, quando eu disse Salomé...
a palavra que sempre me foge quando Literalmente quase caiu da cadeira,
eu me lembro daquela noite em que sim... Virou-se para o ator, seu amigo,
encontrei a famosa atriz... a atriz... que estava ao seu lado naquele
não... não é contestadora... não é essa a restaurante e olhando-me bem nos
palavra... Não, não é audaciosa... Não olhos, revelou...
é, audaciosa. Como é que me foge
sempre essa palavra quando eu me Ernesto 2 – Você sabe que eu tenho
lembro daquela noite em que senti a um projeto de traduzir – já estou
perdição e o pecado se aproximando traduzindo o texto Salomé do Oscar
de mim, se insinuando, sem se Wilde...? E você vem e me diz isso,
insinuar, querendo me seduzir, aqui...
seduzindo-me apenas com seu olhar
malicioso e não sendo nada mais do Ernesto 3 – Aquela mulher com um
que ela é: desejável... perfume ancestral, com um perfume de
sândalo, um perfume bíblico, sensual
Como eu desejei ter aquela mulher nos por milênios... olhava para mim e se
meus braços! Como eu a desejei! Mas desconcertara ao ouvir, de mim, um
como é que pode me fugir aquela simples mortal, que eu descobrira
palavra que poderia dar a mim, talvez quem ela era. Salomé, sim, Salomé...
a vocês, a dimensão do que aquela
atriz é, da sensualidade que ela tem, do Ernesto 2 – Mas, para mim, você é
espírito indômito e contestador que ela mesmo Salomé...
exibe só com seus olhos enormes,
brilhantes, seu nariz tão característico Ernesto 3 – Como você pode associar
de mulher poderosa e seus lábios... há, Salomé a mim? Como?
seus lábios... carnudos, úmidos,
vermelhos, ainda mais sensuais com Ernesto 2 – Salomé, sim... Salomé...
aquele batom vermelho... E o seu mas há algo em você também de Anita
perfume de sândalo... perfume de Garibaldi...
mulher... de uma mulher... mulher...
Ernesto 3 – Anita Garibaldi?
A palavra me foge, sempre...
Ernesto 2 – Você tem o poder de
Mulher... uma mulher... invadir a alma das pessoas?

Ernesto 2 – Conversando com um Ernesto 3 – Duas mulheres que


amigo, um autor e diretor de teatro, ele mexem com o imaginário de tantos
me disse que seu grande sonho era, um homens... e mexeram, mesmo com

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tantos e importantes homens... Salomé, tão perigoso e que fica tão evidente em
minha doce Salomé... nossos esparsos encontros... Afaste-se,
oh mulher! Não se ofereça assim tão
Ernesto 2 – Você me descobriu... intensamente apenas com seu perfume,
Como? com sua voz... Não... não quero e não
posso vê-la em minha frente. Não
Ernesto 3 – Não, eu a sinto há tenho forças para afastá-la... e não
milênios... Não posso explicar. tenho forças, não tenho mesmo, para
tê-la em meus braços. Sim, meus
Ernesto 2 – Não imaginei isso ser fatigados braços de buscar no fundo
possível... dos leitos dos rios aquela pepita
dourada na qual você se transformou
Ernesto 3 – Como poderia esquecer do para me seduzir, além de tudo, com
seu perfume? Acho que eu poderia seu brilho pecaminoso...
esquecer? Logo o seu perfume? Seu
cheiro de sândalo. Intenso. Todo seu Ernesto 3 – Você me descobriu e
corpo exala sândalo... estamos aqui, nós dois, de novo.
Quanto tempo estamos separados? Há
Ernesto 2 – Eu sempre me escondi, milênios? Estivemos mesmos
sempre fugi, sempre fiz de tudo para separados? Dá para acreditar que essa
que nunca minha identidade real e separação sobreviveu há tanto tempo?
verdadeira fosse descoberta... Que forças, porém, fizeram com que
nosso reencontro pudesse acontecer
Ernesto 3 – Mas bastou você falar, assim de forma tão inesperada? É a
dizer uma palavra apenas para eu força do amor? Ou é a força do
identificar em você a Salomé que você desejo? Sim, do desejo, aquele que se
sempre foi... sobrepõe a tudo e que a tudo justifica
simplesmente por querer. Só por
Ernesto 2 – Uma deusa, uma ninfa... querer.
desejando explodir toda sua malícia
em mim... Afaste-se, oh mulher!!! Ernesto 2 – Eu não quero e não posso
olhar para você. Não me é permitido.
Ernesto 3 – Como pode ficar afastada Não posso falar com você. É
de mim durante tanto tempo? impossível isso em mim. Não posso
sentir seu perfume. Aquele ancestral
Ernesto 2 – Afaste-se, oh mulher... perfume não pode entrar em mim. Não
Não quero que se aproxime mais... dou permissão para que pronuncies
mantenha essa distância... Não se uma só palavra, pois ela não pode
ofereça a mim o que a mim não me é atingir meus ouvidos sem provocar
permitido! Afaste-se, oh mulher!!! estragos monumentais. E, finalmente,
Afaste-se!!! Flor de perfídia! não posso e nem me permito sentir seu
sabor, aquele jamais experimentado...
Ernesto 3 – Eu a identifiquei pela sua Você me fez perder a cabeça, Salomé!
voz... Agora tenho certeza quem você E o que pode um homem fazer quando
é só pelo perfume que exala perde a cabeça por uma mulher?
maravilhosamente de você... Afaste-se de mim, flor do pecado.
Ambição, luxúria, lascívia, víbora de
Ernesto 2 – Afaste-se... Não tente lábios vermelhos de veneno... Não se
seduzir-me de novo... Não podemos aproxime com seu jeito infame...
brincar de novo com algo tão forte e Afaste-se de sim, oh mulher! Padrão

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de pecado. Símbolo de lascívia... imagina o quanto é importante eu ter
luxúria, pecado, sedução...Víbora de esse chaveiro com apenas duas chaves.
lábios vermelhos de veneno. Este chave é o grande motivo de
minha atual felicidade.
Ernesto 1 – (o texto deve ser
declamado em francês, com pausas Como foi difícil ganhar esse chaveiro
bem marcadas em cada frase, como se com apenas duas chaves!
fossem versos poéticos) Donne-moi la
tete d´Iokanaan. Você pode dizer: mas que felicidade é
essa simbolizada por um simples
(pausa longa) chaveiro com duas chaves? Que
importância tem duas chaves num
Tu n´as pas voulu de moi, Iokanann. chaveiro ridículo? Que chaveiro é esse
Tu m´as rejetee. Tu m´as dit des tão importante para significar a
choses infames. Tu m´as traitee felicidade de alguém?
comme une courtisane, comme une
prostituee, moi, Salome, fille São válidas todas as suas perguntas,
d`Herodias, Princesse de Judee! mas elas só não invalidam a questão
essencial: a importância desse
(som de uma trombeta ancestral, rufar chaveiro na minha atual felicidade.
de tambores)
A primeira chave significa que tenho
(pausa longa) um lugar para onde ir. Que neste lugar
há uma porta que se abre a mim. Ao se
Ah! J´ai baise ta bouche, Iokanaan, j´ai abrir eu posso entrar e lá há uns
baise ta bouche. Il y avait une acre espaços onde posso ficar. Fico na
saveur sur tes levres. Etait-ce la saveur pequena sala. Durmo nela diante da
du sang?... Mais, peut-etre est-ce la televisão que já não funciona direito.
saveur de l´amor. On dit que l´amour a Com mais sono vou para o pequeno
une acre saveur… Mais, qu´importe? quarto cuja janela se abre para uma
Que´importe? J´ai baise ta bouche, movimentada rua e de onde eu ouço
Iokanaan, j´ai baise ta bouche. tiros, gritos, pedidos de socorro,
gemidos intensos, sirenes de carros de
3 – A chave da casa polícia, de ambulâncias, de carros de
resgate.
Ernesto 3 - (vai com o andador até
uma cadeira e retira do bolso um A segunda chave eu ainda não
chaveiro com duas chaves) – Você descobri para o que serve, nem o que
pode não dar importância para um eu posso abrir com ela. Não é uma
simples chaveiro. Há pessoas que cópia da primeira chave, pois é menor,
ficam muitos irritadas quando ganham muito menor. Parece ser uma chave
um chaveiro de presente. Um que abre uma mala, mas não tenho
chaveiro? Chaveiro para quê? mala. Não é uma chave com tamanho
suficiente para abrir um pequeno
Você pode não dar importância... sim, cofre, já que nada tenho para deixar
pode não ser importante para você um guardado. Pode ser que essa pequena,
simples chaveiro... essa minúscula chave seja apenas uma
chave que possa abrir um daqueles
Mas esse chaveiro aqui é a chave de antigos diários onde escrevíamos
minha atual felicidade. Você não nossos sonhos, desejos, vontades,

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chamadas para a felicidade que um dia Ernesto 2 – Mas eu também estou com
poderia nos invadir. pressa e não peguei a senha
prioritária...
Mas qual a importância desse chaveiro
na minha atual felicidade? Não é o que Ernesto 3 – O caixa não vai atender
você está curioso de saber? você quando chegar sua vez...

Essa chave, a que me permite acessar Ernesto 1 – Ela saberá que minha
aquele espaço, aquela porta, aquela pressa é mais importante que uma
sala, aquele quarto que se abre para simples questão de idade, uma simples
um mundo de violência, de desamparo, regra.
de agonia e desesperança é mesmo a
chave de minha atual felicidade. É a Ernesto 2 – E você não se sente
chave que me faz sentir vivo, que me constrangido em usar esse expediente
mantém vivo a cada vez que eu a de pegar uma senha de prioridade
utilizo. apenas para chegar até o caixa e contar
uma história qualquer, na tentativa de
A outra, a pequena chave, essa chave sensibilizar o caixa?
eu ainda não descobri para que serve.
Mas, tenho quase que certeza, que por Ernesto 1 – Eu tenho pressa. Essa é
ser tão pequena, uma minúscula chave, apenas a minha justificativa para ter
não deva ser tão importante. Talvez atendimento prioritário.
seja apenas uma chave alegórica, um
simples enfeite. Talvez ela sirva Ernesto 2 – Mas você está tendo um
apenas para me lembrar que tendo comportamento indigno... Você não
apenas uma outra chave, essa outra respeita uma regra elementar, embora
chave que representa minha atual isso também seja uma questão legal. O
felicidade, a pequena chave seja um atendimento sempre deve ser para as
lembrete de que não importa o pessoas idosas em primeiro lugar.
tamanho da chave, o importante é que
ela possa abrir e me mostrar o quanto é Ernesto 1 – Eu sei perfeitamente
importante termos uma chave que nos isso... sei e respeito essa regra social e
abra um simples e simbólico lugar isso que se transformou em lei...
para nos sentirmos vivos. Sim, apenas
vivos... Ernesto 2 – Estão chamando a senha
459... Não é a sua?
4– A fila do banco
Ernesto 1 – Sim... é a minha senha... É
(em fila, dois dos três personagens a senha 459... sim, é...
mostram impaciência, pressa)
Ernesto 2 – Então... é sua vez...
Ernesto 2 – O senhor vai pegar a
senha prioritária para idosos? Ernesto 1 – Senhor, senhor... essa
senha é sua, senhor... (entrega a senha
Ernesto 1 – Já peguei. para Ernesto 3)

Ernesto 3 – Mas você é muito jovem Ernesto 3 – Mas eu já tenho a minha


para ter uma senha prioritária? senha...

Ernesto 1 – É que eu tenho pressa... Ernesto 1 – Sim, mas o senhor pegou

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a senha errada. O senhor pegou a jornal. Uma nota pequena. O fato, para
senha que eu ia pegar. A senha do mim, devia aparecer na primeira
senhor é essa... a senha 459. É sua página, com uma grande chamada.
vez...
Ernesto 3 – Naquela manhã, depois do
5 – A casa da múmia corintiana décimo segundo espirro, eu abri,
aleatoriamente, aquela página onde
Ernesto 2 – Eu me importo com meus estava a pequena notícia.
semelhantes, sim. Claro que me
importo. Porém tem certas vezes que Ernesto 1 – Num bairro em São Paulo,
não é possível fazer alguma coisa para às vésperas do Natal, um desocupado,
ajudar alguém. um morador de rua, passando por uma
rua viu que havia uma casa abandona
Ernesto 1 – Sempre é possível. Basta coberta de mato, de sujeira, de
querer. entulhos. Simplesmente abriu o portão
e foi entrando... Ma varanda,
Ernesto 2 – Nós temos é que ficar misturado com sujeira das ruas, muitas
sempre de olhos abertos para pequenos contas de água e de luz, algumas
detalhes. Mais que de olhos abertos. correspondências... tudo desbotado,
Temos que ficar é com nossos sujo, empoeirado...
corações abertos para o que algumas
vezes chega como uma singela Ernesto 2 – A porta da frente estava
inquietação. fechada. Uma janela no corredor
lateral estava apenas com o vidro
Ernesto 1 – Mas isso vem com o baixado. Olhou e viu a casa e os
tempo? Ou nascemos com isso em móveis todos muito empoeirados. Em
nós? completo abandono. Mas tudo estava
no lugar. Retratos na parede, um vaso
Ernesto 2 – Todos nós nascemos com de flor, um jornal sobre a mesinha. As
isso, mas é preciso cultivar alguns louças no armário. Uma cadeira de
sentimentos. Aí, sim, abrimos mais balanço com uma almofada azul. Um
nossa percepção. Tem pessoas que de tapete pequeno. Um copo sobre uma
cara com certos fatos não conseguem pequena mesinha lateral onde tinha um
enxergar nada. Não que seja culpa lindo abajur amarelado pelo tempo...
delas, mas é alguma coisa que tem a
ver com o tempo, com um sentimento Ernesto 3 – Ele ficou curioso. A casa
generalizado que se espalha por toda a fora abandonada com todos os móveis,
sociedade. Uns dizem: isso não é como se alguém tivesse simplesmente
comigo. E a frase se espalha, como esquecido de limpa-la nos últimos
uma praga. Quando ninguém se anos... Quantos anos? E foi entrando...
importa com algo que incomoda invadindo o longo corredor. E chegou
alguém, todos, todos sim, acabam não até a porta dos fundos.
sensibilizando ninguém.
Ernesto 1 – Estava semi aberta e uma
Ernesto 3 – Eu li num jornal no dia do grossa camada de folhas secas quase
Natal de 1989... não apaguei de minha impedia de ver os dois degraus que
memória esse fato... levavam até a porta. O desocupado
empurrou a porta e entrou. Sobre a pia,
Ernesto 2 – A notícia, pequena, estava as louças, empoeiradas, estavam
na coluna Cotidiano de um grande cuidadosamente colocadas sobre o

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escorredor. Sobre o fogão, duas homem contou a ele o que tinha
panelas. Empoeiradas... acontecido e o rapaz pegou seu celular
e ligou para a polícia. O desocupado
Ernesto 2 – Ele passou pela cozinha. saiu gritando... dizendo coisas
Na copa tinha uma mesa com quatro desconexas, sem sentido, sem nexo:
cadeiras, um prato, um copo, talheres, Meu Deus! Meu Deus! O que é isso,
suportes para travessas, panelas... isso o que é, como pode, não é
Tudo arrumadinho. Um dos lugares possível, não dá para acreditar, lá
não tinha o prato, nem os talheres... E sozinho, absurdo, o jornal, a comida,
o desocupado continuou invadindo o tudo abandonado, não é possível, tudo
local. Todando a sujeito, poeira, abandonado, absurdo, o prato, o prato,
abandono de um local todo arrumado. absurdo, a poeira, as teias de aranha,
que coisa maluca, a casa arrumada,
Ernesto 1 – À sua direita, um corredor, não dá para acreditar, abandonada... o
com muitas fotos pela parede. A porta homem lá, na cama, absurdo, uma
do banheiro estava entreaberta e havia múmia de pijama... não é possível...
uma toalha toda empoeirada no cabide. Uma múmia de pijama azul...
Sobre a pia, escova de dentes, pentes,
creme dental e um sabonete ressequido Ernesto 3 – O relato do policial deu a
e marrom de poeira. exata dimensão do que acontecera. Ao
lado da cama onde o corpo de um
Ernesto 2 – Continuou andando, homem estava deitado havia um
devagar e levando uma poeira fina a jornal. A edição era de 1972... estava
cada passo. na página de esportes... Palmeiras é
campeão! Na parede do quarto uma
Ernesto 3 – Eram três quartos. Dois antiga foto do time do Corinthians,
estavam com as portas fechadas e, no campeão paulista de 1954, o grande
fundo, o quarto estava com a porta campeão do Quarto Centenário de São
aberta. Dava para ver a luz que entrava Paulo...
pela vidraça toda suja, empoeirada.
6 – A poesia
Ernesto 1 – Um guarda roupa, um
armário baixo com retratos sobre ele, Ernesto 1 – Poesia, como faz falta a
um livro, uns vidros de remédios. poesia...
Tudo empoeirado, com teias de aranha
que iam do canto do guarda roupas até Ernesto 2 – Você fala da falta de
o armário. Ao olhar para a cama... poesia, do texto escrito, ou da poesia,
da beleza, o que há de elevado e
Ernesto 2 – Um corpo mumificado comovente nas pessoas e nas coisas?
vestido de um empoeirado pijama azul
desbotado... Ernesto 1 – Eu falo da falta de poesia,
nesse sentido... Esse entusiasmo
Ernesto 3 – O desocupado viu aquela criador... Sim, isso que exalta e
cena e se desesperou... começou a desperta o sentimento do belo... Como
gritar e saiu em disparada, deixando está faltando poesia hoje...
atrás de si uma fina nuvem de poeira...
Ernesto 3 – Uma vez eu conversei
Ernesto 1 – O desespero do com um jovem e falei que, muitas
desocupado chamou a atenção de um vezes, um jogo de futebol tem mais
motoqueiro que passava pela rua. O poesia que a conversa de um casal

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apaixonado. O rapaz ficou furioso de voleio pega a bola com o pé direito,
comigo: Veio gagá... Nunca há beleza mandando a bola no ângulo do gol de
e nem poesia no futebol... O senhor só Zecão... Que golaço, que golaço! Pelé,
fala besteira! Onde já se viu! Veio Pelé, Pelé... Gol do Santos, é gol do
gagá! Santos... Aos 45 minutos... torcida
brasileira... Armando Marques corre
Ernesto 1 – Foi assim que ele reagiu? para o centro do campo e encerra a
partida!
Ernesto 3 – Mas, sim, há mais poesia
num jogo de futebol que na conversa Ernesto 1 – Onde já se viu haver
de um casal de namorados... Um poesia na conversa entre um jovem e
jovem diz para a namorada: O sua namorada que se tratam com tanta
biscatinha, traz uma cerveja pra mim... falta de respeito e carinho? Há poesia,
E ela responde, vem pegar você, seu sim, no inesquecível lance do genial
gay... eu por um acaso sou sua Pelé... Lance genial, puro balé, pura
escrava? E o rapaz, de pronto, beleza, pura poesia...
responde: Mas você não é minha
escrava? Ah... não é, não é? Mas vai Ernesto 1 – (fala a poesia)
ser, ah, vai ser mesmo!
O riso, depois a tosse
Ernesto 1 – E ele acredita que haja
mais poesia na sua relação com a fica mais um pouco
namorada? Onde mora a poesia?
neste canto da sala
Ernesto 2 – Vi um lance inesquecível ouça a voz que lá fora fala
do Pelé, nos anos 70... Em pleno inspiro-me na luz
Pacaembu, lotado, o Santos perdia o
jogo para a Portuguesa e, faltando que faz falta
menos de três minutos para o fim da
partida, o Pelé fez dois gols. Um deles, olhando daqui, a sombra é forte deste lado
inesquecível. O segundo. Uma obra de
arte. Beleza, lance genial. O gol do e bem grande fica esparramada pelo chão
Pelé, que deu a vitória ao time praiano
foi de uma beleza poética... Narrado
o homem tossiu muito, antes porém, ele riu
assim pelo inesquecível Fiori Gigliotti:
e antes do fim do dia, devo ir, mas já volto
Ernesto 3 – Lá vai o Santos... Dorval
dá um toque de gênio para Coutinho,
Coutinho avança, ajeita de lado para fico mais só um pouco
Edu... Que lindo, lance, torcida neste canto da sala
brasileira. Minutos finais do grande ouvindo o homem falar
espetáculo... Olha... lá vai Edu pela
esquerda... passa por um, passa por outro apenas a tossir
dois... dá um leve toque para Pelé, hoje depois de tanto rir
ele está numa de suas melhores
tardes... Edu entra pelo meio, recebe a
bola na meia lua e dá um toque sutil ri de tudo isso, como se importante fosse
para Pelé, na entrada da grande área. A antes ri disso tudo e me deu foi acesso de
bola veio alto, Pelé ajeitou com o
tosse
peito, joga a bola para dentro da área e

12
7 – Os livros que ficaram por lá... feito. Se um não quiser mais, ninguém
consegue impedir uma separação.
Ernesto 2 – Não há coisa mais triste
do que a gente perder um livro para Mas e os meus livros, aqueles livros
uma mulher que não gosta de ler... Ela que ela conseguiu esconder, separar,
fez isso com requintes de maldade. tirar de mim?
Pegou os livros que eu mais gostava e
não os devolveu. Deixou lá, num canto Não há coisa mais triste do que a gente
qualquer. Não que para ela os livros perder um livro para uma mulher que
fossem uma presença incômoda na sua não gosta de ler...
estante de muitos livros, todos eles,
com certeza nunca lidos. O que ela Ele nunca abriu um livro na minha
queria é me punir. Tirar de mim o frente. E eu não percebia o real
prazer da gostosa companhia dos meus significado disso. Não que ela
livros prediletos. Não há coisa mais enfatizasse esse gesto. Mas somente
triste do que a gente perder um livro agora é que eu percebo a dimensão
para uma mulher que não gosta de desse significado. Que coisa mais
ler... triste... Ela não abria nenhum livro,
O compositor já tratou disso: Devolva nem o pegava porque ela não gostava
o Neruda que você me tomou e nunca de livros, não gostava de ler, não
leu... gostava de ocupar-se com seus
conteúdos, com suas mensagens...
Na canção fica poético, mas não é real.
Real é a gente lamentar não um livro E eu não percebi, em nenhum
não devolvido, mas dezenas deles... momento que ela não gostava de ler...
Não um livro de poesia, como o do que ela não gostava daquela emoção
Neruda, mas outros, tão importantes e de abrir um livro e devora-lo do
essenciais para nós, aqueles livros que começo ao fim, de uma só sentada...
foram adquiridos em épocas marcantes com a emoção das descobertas do que
de nossas vidas e que, juntados não em cada linha, cada página, o livro nos
por acaso, mas por afinidades tiveram, apresenta.
num momento de separação, que ficar
com quem nunca se preocupou em Não há coisa mais triste do que a gente
abrir e ler... perder um livro para uma mulher que
não gosta de ler...
As mulheres, ah! As mulheres... como
elas sabem ser cruéis em detalhes tão E ela escondeu, ela negou-me o prazer
pequenos e aparentemente sem de ter todos os meus livros de volta, na
importância. Como sabem pisar, minha estante, ao meu lado,
magoar, machucar nos detalhes... Não, estimulando-me e servindo de
não que eu não pudesse ter merecido conselheiros nos meus momentos de
algum tipo de punição, claro que não angústia ou de tristeza. Mas, também,
defendo minha posição. Afinal, numa amparando-me, sendo companheiros
separação nenhuma das partes é isenta inseparáveis, amigos, naqueles
de culpa. Para ficar junto, homem e momentos em que eu tinha uma
mulher devem desejar isso. Devem alegria a compartilhar...
desejar muito, os dois devem desejar
muito ficar junto. Não é o que Ela negou-me isso tudo... o prazer de
acontece na separação. Para a ser se ter meus livros de volta...
separar, basta um não querer. E está

13
O que faz da vida uma mulher que não 8 – A taça de vinho
gosta de ler? O que faz uma mulher
que não gosta de ler ficar com todos os Ernesto 3 – Nunca fui daqueles
meus livros? homens que fingem entender de vinhos
só para fazer tipo, chamar a atenção ou
Devolva o Neruda que você me tomou exibir-se diante de uma mulher. Bebo
e nunca leu... vinho quando a companhia é muito
boa e a conversa ainda melhor. Não
Devolva o Neruda, o Nélson faço, também, aquele ritual de rodar o
Rodrigues, o Hélio Pólvora, a Raquel vinho dentro da taça, cheira-lo várias
de Queiroz, o Jorge Amado, o Mário vezes antes de bebê-lo... obsrvá-lo
Vargas Llosa, o Gabo, o Caetano contra a luz, ver se suas lágrimas
Veloso, o Miguel Angel Astúrias, o escorrem devagar ou demoram um
Dario Fo, o Mario Puig, o Auster, a pouco mais nem gosto de ficar com o
Dickinson, a Clarice Lispector, o vinho na boca, como se estivesse
Drummond, o Vinícius, o Lobato, o mastigando-o. Não faço isso. Nunca
Umberto Eco, o Thomas Mann, o fiz.
Aluísio Azevedo, o Cornélio Pires, o
Aleílton Fonseca, o Cristóvão Tezza, a Estava olhando a prateleira de vinhos
Agatha Christie, o Fitzgerald, o de um supermercado. Vinhos de várias
Hemingway, o Samuel Beckett, o procedências. Caros, baratos, muito
Canetti, a Pearl S. Buck, a Nélida caros, absurdamente muito caros,
Piñon, o Skármeta, o Mário inviáveis. Ela se aproximou e me
Quintana... ah, o Quintana! O vendo com uma garrafa nas mãos,
Fernando Pessoa, o Scliar, o perguntou: O senhor acha que esse
Veríssimo, o pai, o filho... O Octavio Pinot Noir é bom?
Paz... o Harold Pinter, o Millôr
Fernandes, o Sinisterra, o Oswald de Esse eu nunca experimentei, mas,
Andrade, o Mário, o Bilac... O dizem que o Pinot Noir é uma uva que
Mahfuz, o Pasternak, o Graciliano dá bons vinhos. Mas, afinal, o que é
Ramos, a Lígia Fagundes Telles, o um bom vinho? Não saberia dizer.
Ziraldo, o Jô Soares (autografado), o
Eça de Queiroz, o Emile Zola, a Doris Eu assisti a um filme e o personagem
Lessing, o Ruben Braga, o Zuenir dizia gostar muito de um Pinot Noir...
Ventura, o Albert Camus, o George eu nunca experimentei um Pinot Noir
Orwell, o... ah, tantos...tantos... e fiquei curiosa.
tantos... tantos outros... que hoje me
fazem falta... Você gosta de vinho? Ah, gosto, gosto
sim, mas só bebo quando a companhia
Não há coisa mais triste do que a gente é muito boa e a conversa ainda
perder um livro para uma mulher que melhor...
não gosta de ler...
A frase me surpreendeu e eu emendei:
Devolva o Neruda que você me tomou então vai apreciar o vinho com seu
e nunca leu... namorado, noivo ou marido, não é?
Ele aprecia vinhos como você?
Não é a letra da canção, é mesmo o
meu pedido final... Devolva todos os Olhei e percebi que ela ficara retraída,
meus livros... Os livros que você não mas sorriu timidamente: não... não
gosta e que nunca os leu. tenho ninguém... estou sozinha

14
mesmo! Não tenho ninguém... quando envelhecidos. Mas há
condições muito específicas para que
Mas como, então, vai beber um vinho os bons vinhos fiquem melhores com o
dessa qualidade sozinha? passar do tempo. A grande dificuldade
é saber quando um vinho está pronto
A resposta, surpreendeu-me ainda para ser degustado. Sempre corre-se o
mais: estou querendo encontrar risco de abrir uma garrafa fora de hora.
alguém que entenda de vinhos e que Assim, a afirmativa de que um vinho
possa degustar um vinho de classe bom fica melhor mais velho nunca tem
comigo! muita precisão. É preciso contar com a
sorte. Quanto aos homens mais velhos,
Eu fiquei retraído e sorri timidamente: quem sou eu para falar sobre isso?
olha... acho que não vai lhe faltar
pretendentes para degustar um vinho Seria tremenda burrice eu afirmar que
com você... ainda mais um vinho dessa você tem toda a razão, que realmente
classe e tendo uma companhia como os homens mais velhos são mais
você. interessantes por terem mais vivência,
mais experiência, mais conhecimento
Ela baixou os olhos, como se recusasse acerca de algumas coisas. Mas os
a fitar-me diretamente, mas balbuciou homens mais velhos, assim como os
algo, como se mastigasse as palavras vinhos envelhecidos só podem ter
ou não tivesse forças suficientes para comprovadas suas experiências se
dizer o que, outra vez, iria forem mesmo testados, degustados,
surpreender-me ainda mais: hoje eu provados.
quis testar minha timidez e achei que a
melhor forma de fazer isso era Ela não se fez de rogada: O senhor
conversar sobre vinhos com alguém. aceitaria tomar uma taça de vinho
Observei quando o senhor pegou essa comigo? Esse Pinot Noir que está em
garrafa de Pinot Noir e achei-o com suas mãos poderá nos ajudar a
um aspecto confiável. comprovar algumas teses...

Mas é preciso usar de um expediente Confesso que fiquei muito confuso


tão sofisticado assim para testar uma com aquela abordagem atípica.
pretensa timidez? Você sabe que a Normalmente são os homens que usam
timidez é uma das formas mais sutis de certos expedientes para darem uma
que as mulheres têm para seduzirem? cantada mais eficiente. Mas, tenho que
concordar, a abordagem dela era
Ela não mais desviou seu olhar e fitou- mesmo imbatível. Com que classe ela
me com segurança. Como se havia me abordado num final de tarde
desafiasse a mim e a minha maliciosa no corredor de um supermercado
afirmação sobre a timidez. repleto de vinhos baratos e
inexpressivos.
Não sei nada sobre vinhos. Tampouco
sei sobre homens. Mas a única coisa Olhei para os lados, na tentativa de ver
que tenho certeza é que tanto um se havia alguém conhecido por ali, já
quanto o outro ficam melhor quando que estava num supermercado bem
estão mais velhos... próximo de onde eu morava. Não tinha
ninguém. Ninguém conhecido mesmo.
Num aspecto você está correta. Os Não tinha ninguém. Ninguém mesmo.
bons vinhos são sempre melhores Nem a mocinha atrevida que apareceu-

15
me depois que eu experimentei um O senhor pode olhar minhas coisas
pequeno gole de um vinho que estava enquanto vou dar um mergulho?
sendo lançado naquele final de tarde
no supermercado. Fui...

O Pinot Noir é uma das principais Ernesto 3 – Acho que o moço vai logo
castas de uvas tintas da região da voltar...
Bourgogne e que são utilizadas na
produção de seus famosos e caros Ernesto 2 – Pode me preparar uma
vinhos tintos. Também é a base para a caipiroska com mais vodka?
produção de Champagne. Seu aroma
sempre pode ter notas de cereja preta, Ernesto 3 – Tá na mão...
de especiarias, de amora, de flores e de
ervas. Ernesto 2 – Será que o moço deixa eu
colocar minhas coisas aqui perto da
A menina sorriu depois que eu disse cadeira dele?
que não gostava de vinho tinto, mas
que eu ia experimentar um pouco para Ernesto 3 – Eu falo pra ele que deixei.
ver se ela me convencia a gostar de Já que estou tomando conta mesmo...
vinho tinto. O vinho me pareceu
confiável. Já a loirinha que me serviu, Ernesto 2 – Quem é ele? O senhor
não sei não... Sua carinha meiga conhece?
escondia um pouco de malícia e ela
sorria com um jeito todo maroto, Ernesto 3 – Não... mas ele é aquele
sensual, provocativo. Ou será que o rapaz que está de calção azul, ali,
pouco vinho que eu provara já tinha pulando aquelas ondas e brincando de
trazido Baco para a festa que eu jacaré como um menino...
imagina poder participar logo depois
que o supermercado fechasse? Ernesto 2 – O rapaz moreno de calção
azul?
9 – Vai dar praia?
Ernesto 3 – Ele mesmo... aquele que
Ernesto 1 – Pela primeira vez eu correu para pegar a bola do outro
estava numa praia nem ninguém da menino...
minha família. Nem pai, nem mãe,
irmãs, mulher, filhos... Também não Ernesto 2 – Moço, moço... eu deixei
sei como foi que eu tinha ido para o minhas coisas ao lado de seu guarda-
litoral sem nenhuma referência com sol e da sua cadeira... Você se
familiares. Só sei que estava na praia. incomoda?
Era verão e eu atravessava a avenida
segurando um guarda-sol e uma Ernesto 1 – Não, pode deixar lá. O
cadeira de praia. vendedor vai cuidar para nós...

Era bem cedo e havia muitos lugares Ernesto 2 – Daqui a pouco vou ter que
para deixar a cadeira e instalar o passar um protetor solar... daqui a
guarda-sol. Preferi ficar bem próximo pouco o sol vai exigir um protetor
de um carrinho que vendia bebidas, mais forte... Pode me ajudar a passar o
batidas, água. O vendedor era um protetor nas costas?
homem com uma cara confiável.
Ernesto 1 – O quê? Protetor? Não, eu

16
não tenho protetor... não trouxe, Ernesto 1 – O meu vôo é o mesmo
esqueci de comprar... seu... Que coincidência?

Ernesto 2 – Mas estou pedido para Ernesto 2 – Puxa... como esse mundo
você passar o protetor nas minhas é pequeno... Somos da mesma cidade,
costas. O protetor eu trouxe... Pode estamos na mesma praia distante,
fazer isso por mim? vamos embarcar no mesmo vôo... e
nos encontramos nesta praia...
Ernesto 1 – Ah, sim, claro... Pensei
que você estivesse pedindo o protetor Ernesto 1 – Então... mas onde você
para mim. Posso sim, claro! Quer mora em Curitiba?
agora?
Ernesto 2 – Curitiba? Ah, sim... Moro
Ernesto 2 – Vamos lá... no Jardim Botânico... e você?

Ernesto 1 – Você é daqui? Ernesto 1 – Moro no Jardim das


Américas...
Ernesto 2 – Não... estou na casa de
uma tia. Ernesto 2 – Nossa... você então passa
perto de onde eu moro... ficamos na
Ernesto 1 – Também não sou daqui e mesma região... só que em bairros
ainda não sei onde vou ficar... Deixei diferentes, porém próximos...
minha mala onde aluguei o guarda sol
e a cadeira. Ernesto 1 – Quer que eu passe o
protetor agora?
Ernesto 2 – Vai ficar até quando?
Ernesto 2 – Sim, mas acho que o
Ernesto 1 – Volto amanhã no final da protetor não será suficiente, pois o sol
tarde... E você? está muito forte e devo precisar de um
protetor mais forte, que proteja mais...
Ernesto 2 – Também... voltarei Você não quer...
amanhã, mas ainda não comprei minha
passagem. Vai para onde? Ernesto 1 – Quer que eu vá comprar
um protetor mais forte para você?
Ernesto 1 – Para São Paulo. Fico lá a
noite e, pela manhã, embarco para Ernesto 2 – Sim, podemos ir juntos...
Curitiba, onde moro. mas não será preciso... tenho vários
tipos de protetores lá no apartamento
Ernesto 2 – Que coincidência! de minha tia. E não tem ninguém lá...
Também vou ficar em São Paulo
amanhã, também em um hotel e Ernesto 1 – É mesmo? Então...
embarcarei também para Curitiba na
manhã seguinte... Qual seu vôo? Ernesto 3 – Não vão tomar mais nada?

Ernesto 1 – É mesmo... bem... Ernesto 1 – Quanto é que ficou nossa


podemos ir no mesmo horário, no conta?
ônibus, se quiser... Será que seu vôo é
o mesmo que o meu? Ernesto 3 – 20 reais paga tudo...

Ernesto 2 – Embarcarei às 9h15... Ernesto 1 – Onde é a casa de sua tia?

17
10 – Na agência de emprego referências? Tenho mais de 10... está
tudo aí no currículo que lhe
Ernesto 3 – Bom dia. Eu vim trazer entreguei...
meu currículo para a vaga de redator.
Ernesto 1 – O senhor domina alguma
Ernesto 1 – É para o senhor mesmo? língua?

Ernesto 3 – Sim, trouxe meu Ernesto 3 – Sim, inglês, espanhol e


currículo. um pouco de italiano e francês...

Ernesto 1 – Mas o senhor já não está Ernesto 1 – Já teve alguma


aposentado? experiência com esse tipo de
atividade?
Ernesto 3 – Estou disponível para o
trabalho. O anúncio não informava Ernesto 3 – Como redator já fiz de
nada sobre o candidato estar ou não tudo. Fui repórter, editor e chefe de
aposentado. Além do mais, uma coisa redação de vários jornais e revistas ao
não impede a outra pois vocês pedem longo de 45 anos de carreira.
uma pessoa com experiência. Tenho
uma larga experiência. Está tudo no Ernesto 1 – Mas não seria, agora, seu
currículo... momento de descansar?

Ernesto 1 – A empresa pediu alguém Ernesto 3 – Tenho disposição e saúde,


dinâmico... além de muita vontade de continuar
trabalhando.
Ernesto 3 – Mas eu sou...
Ernesto 1 – Mas o senhor tem mesmo
Ernesto 1 – Quem tenha disposição quantos anos?
para viagens...
Ernesto 3 – Está no meu currículo, a
Ernesto 3 – Posso viajar a qualquer data de meu nascimento, minha
hora... idade... está tudo aí.

Ernesto 1 – Que tenha carro... Ernesto 1 – O senhor pode me dizer


qual é sua idade?
Ernesto 3 – Meu carro está
estacionado aí em frente... Ernesto 3 – Tenho quase 75 anos...

Ernesto 1 – Que se apresente em traje Ernesto 1 – Quase 75 anos? É mesmo?


social e que...
Ernesto 3 – Sim, quase 75 anos.
Ernesto 3 – Mas estou de terno. E Completarei daqui dois meses.
você quer que eu dê um outro nó na
minha gravata? Ernesto 1 – O senhor tem passaporte?

Ernesto 1 – Além do mais, pedem que Ernesto 3 – Tenho e está em dia, até
o candidato apresente referências de com visto para os Estados Unidos que
empregos anteriores. vão durar mais 4 anos.

Ernesto 3 – O senhor quer quantas Ernesto 1 – Já viajou para a Europa?

18
Ernesto 3 – Sim, várias vezes. Ernesto 1 – E sobre malha, o senhor já
Conheço a Europa toda. Além do fez alguma matéria?
Japão, China, Austrália, Bali, Nova
Zelândia, Terra do Fogo, Alaska... Ernesto 3 – Sim, além dos olímpicos,
os esportes regionais, também...
Ernesto 1 – E o Brasil, o senhor não malha, bocha, truco... conheço todos
conhece qual estado? os esportes populares, como dama,
tamboréu, porrinha... snooker, ou
Ernesto 3 – Conheço todos os estados, sinuca, como desejar...
todas as capitais e as principais
cidades de cada estado. Ernesto 1 – Bem, agora terei que pedir
que o senhor me apresente alguns
Ernesto 1 – Já esteve em atestados de saúde.
Maranguape?
Ernesto 3 – Estão todos aqui. Fiz,
Ernesto 3 – Sim, conheço lá parentes recentemente, um check-up... estou
do Chico Anysio. Em Sobral, tive com todos os meus exames em dia e os
contato com parentes do Ciro e do atestados de capacidade física estão no
Didi, o Renato Aragão... envolope em anexo ao currículo.

Ernesto 1 – O senhor já visitou Serra Ernesto 1 – O senhor tem corrido


Pelada? regularmente e faz algum tipo de
atividade em academia?
Ernesto 3 – Sim, no auge da corrida
do ouro.Conheci lá o famoso coronel Ernesto 3 – Claro, três vezes por
Curió... semana vou na academia onde faço
trabalho específico com pesos e
Ernesto 1 – Esteve em Uberaba? caminho uma hora, todas as manhãs,
às 6 horas...
Ernesto 3 – Sim, quando o Chico
Xavier ainda era vivo. Ernesto 1 – Bem, o senhor me
surpreendeu com tudo isso. Está
Ernesto 1 – Em Cruz Alta, já esteve? disposto a fazer um teste de redação?

Ernesto 3 – A pequena cidade gaúcha Ernesto 3 – Um teste ou uma prova?


onde nasceu Érico Veríssimo? Se for
esta, sim, conheço lá. Também visitei Ernesto 1 – É um teste com uma
Vacaria, Pelotas, Santana do prova. São apenas 85 questões para o
Livramento, Santo Ângelo... lá onde senhor responder por escrito em 30
estão os despojos das antigas minutos.
Missões...
Ernesto 3 – Sim, posso fazer o teste
Ernesto 1 – Bem, o senhor tem mesmo sim. Quando?
muita vivência em... Mas, o senhor já
escreveu sobre pólo aquático? Ernesto 1 – O senhor poderá agendar
sua prova para daqui 6 meses, pode
Ernesto 3 – Sim, na área de esportes já ser?
escrevi sobre todos os esportes
olímpicos... Ernesto 3 – Seis meses? Seis meses?

19
Ernesto 1 – Sim... pode agendar aí? boa. A notícia ruim é que o senhor tem
apenas mais duas semanas de vida, no
Ernesto 3 – Posso... mas, moço, por máximo...
favor, eu vim aqui respondendo a um
chamado, a um anúncio publicado na Ernesto 2 – O senhor está fazendo
edição de hoje no jornal... alguma piada comigo?

Ernesto 1 – Sim, eu sei... Ernesto 3 – Não, é sério mesmo. Não


é piada, embora pareça com uma
Ernesto 3 – Mas vocês não estão piada. Mas é mesmo verdade.
precisando de alguém com urgência?
Como podem esperar seis meses, se Ernesto 2 – As duas semanas, a
estão com falta de pessoal? doença muito grave... é mesmo
verdade?
Ernesto 1 – Sim, nosso principal
redator faleceu no último sábado e será Ernesto 3 – Sim, a doença que o
enterrado hoje... senhor tem nos leva a um prognóstico
de uns 14 dias no máximo para evoluir
Ernesto 3 – Então... posso... para falência total dos órgãos,
portanto, para sua morte.
Ernesto 1 – Não creio que possa...
Ernesto 2 – Doutor, mas eu estou bem.
Ernesto 3 – Como não?
Ernesto 3 – Não é o que diz os seus
Ernesto 1 – O senhor vai querer ser o exames.
redator de seu próprio necrológio?
Ernesto 2 – Mas doutor, deve haver
11 – O diagnóstico algum engano...

Ernesto 2 – O médico olhou para mim Ernesto 3 – Nenhum engano.


e sua cara, embora ele sorrisse, não
tinha um aspecto de que a notícia que Ernesto 2 – Doutor, eu vim aqui não
ele ia me dar era boa. para ser examinado...

Ernesto 3 – Tenho uma boa notícia Ernesto 3 – Sim, eu sei. O senhor veio
para o senhor. aqui para saber do resultado dos seus
exames.
Ernesto 2 – Que ótimo.
Ernesto 2 – Não, doutor... Eu não vim
Ernesto 3 – Mas também uma notícia aqui nem para ser examinado, nem
ruim. para conhecer resultado de nenhum
exame... meu...
Ernesto 2 – Pode me dar a notícia
ruim primeiro. Ernesto 3 – Mas estou com sua ficha
médica em minhas mãos...
Ernesto 3 – Sua doença é muito grave.
Ernesto 2 – Sim... o senhor está com a
Ernesto 2 – Então me dê a notícia boa. ficha de algum paciente. Mas eu não
sou seu paciente.
Ernesto 3 – Eu dei primeiro a notícia

20
Ernesto 3 – Mas como o senhor entrou ela está bem controlada. Colesterol?
aqui? Como é mesmo o seu nome? Minhas taxas estão em níveis
aceitáveis. O médico não me impôs
Ernesto 2 – Meu nome ... eu já me nenhuma sacrifício em termos de
identifiquei para sua secretária que me alimentos. Mas quer que eu caminhe
fez entrar em sua sala... três vezes por semana e vá outras três
à academia para fazer apenas um
Ernesto 3 – Como assim? trabalho muscular, com pesos. Todos
adaptados para minha idade e minhas
Ernesto 2 – Doutor, eu vim aqui condições físicas.
entregar-lhe os resultados dos seus
exames... Dos seus exames. Sou seu Driblando uma dorzinha, aqui, uma
colega aqui do hospital... dorzinha ali, um pensamento
inoportuno, aqueles que sempre nos
Ernesto 3 – Dos meus exames? O mostram que algo devia ter sido feito e
senhor é médico também? que perdemos tanto tempo com
bobagens, que deixamos de fazer isso
Ernesto 2 – Sim, doutor... Sou médico ou aquilo, bem... creio que ainda não é
também e vim lhe entregar os hora de fazer um inventário sobre
resultados dos seus exames... minha longa caminhada na vida.

Ernesto 3 – Dos meus? Então... Quando estou sozinho – e a maior


parte do tempo estou só mesmo, sem
Ernesto 2 – Doutor, a notícia não é ninguém ao meu lado – não penso em
mesmo muito boa para o senhor, não nada que possa ser considerado
para mim... Não é mesmo? negativo. Ah... as pessoas, quantas
vezes não desejam ficar sozinhas sem
12 – Triste inventário de perdas ninguém para cobrar, exigir atenção,
pedir favores, querer isso, aquilo,
Ernesto 3 – Tenho tentado enganar a dinheiro, algo emprestado... Então...
morte com pequenos artifícios. Se quantas pessoas dizem estar de saco
tusso, logo em seguida dou uma cheio por terem muita gente a quem
sonora gargalhada. Assim tento devem dar atenção... Mulher, filhos,
demonstrar que não tenho doença netos, sogra, cunhados... ah... os
nenhuma. Se sinto uma tontura, não cunhados... Como muitos deles nunca
penso em desmaios. Foco o deveriam ser os que deveriam dar
pensamento em uma idéia nova que sobrenomes a nossos sobrinhos, não é
chegou. Sempre vou mudando de mesmo? Mas, fazer o quê? Então, a
ideias a cada novo mal estar. Uma gente não fica sempre pensando em ter
dorzinha aqui do lado. Não é nada! um tempo só para nós? Um lugar onde
Uma dormência na mão direita. Ah, ninguém sabe que você está lá?
estava apoiado nela. Logo passa. Se Então... agora eu tenho um lugar.
minha visão está embaçada. Nossa! Estou sozinho. Ninguém sabe onde
Preciso urgente trocar de óculos. Mas estou. E isso não me conforta. Muito
no mês passado eu já troquei... Se pelo contrário. Estou super chateado.
estou com a boca amarga. Isso não é Ninguém sabe onde estou. Ou fingem
nada. Quem mandou comer além da não saber onde eu estou, onde eu vim
conta ontem a noite. Azia? Não, faz parar... Estou aqui, neste canto, onde
tempo que não tenho. Pressão alta? talvez eu sempre tenha desejado estar,
Tomo 10 comprimidos todos os dias e mas não nestas condições. Eu queria

21
estar aqui por minha livre e espontânea tenho que enfatizar. O que sempre me
vontade. Por ter decidido estar aqui. E incomodou foi um dia imaginar que eu
não estar aqui como única e derradeira pudesse ser incômodo para alguém.
opção de um lugar onde eu possa ter Estar em algum lugar e as pessoas em
um mínimo de conforto. Privacidade volta não sentirem-se à vontade diante
aqui? Não, não tenho mesmo. Sou a de minha incômoda presença. Mas
toda hora invadido por olhares também sobre isso não posso dizer
curiosos, por olhares que me cobram o mais nada. Faz cinco anos que as
que agora não posso mais retribuir pessoas que puderam dizer que minha
nada. presença os incomodavam não mais
dizem isso porque não mais estão
O que vocês querem? Querem o meu diante de minha presença. Não... não
conforto ou a minha ausência? Querem que eu não possa estar mais diante
minha participação ou querem que eu delas. Poder até eu poderia... Mas são
nem mais pronuncie uma só sílaba? elas que me trouxeram para cá e me
Querem minha alegria ou preferem deixaram aqui sem nunca mais
que ela não se manifeste fora de hora voltarem. Quem? Não me lembro
como sempre dizem? quem foram aquelas pessoas –
desconhecidas para mim – que me
Acham que eu estou bem? Acham trouxeram para cá. Se estou precisando
mesmo? Mas quem são vocês? Quem? de alguma coisa? De roupas? Não vou
Desculpem... mas eu não os conheço e mais a lugar algum, do que eu
nem sei como foi que vim parar aqui. precisaria mais? Talvez um pijama de
Como? O que você disse, mocinha? flanela novo. Ou daqueles mais
Pode repetir? É que eu não ouvi grossos, de malha. Bem quentinhos.
direito... O quê? Quem? Quando? Eu Tenho sentido muito frio e mesmo
não sei de quem você está falando. durante o verão... eu sinto frio. Mas
Não sei mesmo. Era quem mesmo? estou com frio e é verão mesmo? É
Conhecido meu? Parente? Será? Mas, mesmo? Será que você pode me ajudar
pelo que sei, não tenho nenhum a registrar algumas das minhas
parente, pois faz mais de cinco anos lembranças? Pode? Como vai fazer
que ninguém vem aqui me ver... para registrar minhas lembranças? O
Ninguém vem me dar parabéns ou me que? Está sugerindo que eu faça uma
trazer um saquinho de pipoca... Sim, lista delas? Mas será que há papel
um simples saquinho de pipoca... suficiente para tantas coisas que eu
Presentes? Como? Não, eu faz quase vivi? Como? Registrar tudo num
seis meses que não consigo mais cortar gravador? Mas, que gravador? O único
as unhas dos meus pés. As das mãos eu que sempre tive foi minha própria
ainda posso lixar de vez em quando, cabeça onde dentro dele tem um
mas não tenho forças para usar o gravador que, vez ou outro, falha, mas
cortador. Minha barba? O que tem a que sempre foi muito utilizado por
minha barba? Está muito comprida? mim. Sim, é o meu cérebro. É ele sim.
Não combinam comigo? Mas o que, Mas, menina, veja bem... o cérebro
agora, combina comigo? O quê? Sim, não é um confiável gravador. Ele
sim... pode dizer... Eu não vou mais falha, sempre falha. Tenho outros dois
me incomodar com respostas gravadores e onde a maior parte das
incômodas. Não vale a pena mais me minhas vivências ficaram neles
incomodar com questões incômodas. gravados. Não sabe qual é? Ah... você
Não me incomodo mais com elas. O tem muita coisa ainda para aprender,
que sempre me incomodou e isso menina. Ah, como tem... como tem...

22
O primeiro dos principais gravadores, não me faça remoer antigas dores,
desses em quem eu confio mais é o coisas que perdi ao longo da
que para você tem outra função. Sim, caminhada, o que me deixou muito
para você, na sua idade, tem outra triste e o que me abateu tantas e tantas
função. Ele se chama coração. E para vezes... Não me faça esse pedido, por
você é apenas para bater mais forte favor, menina... Não me faça esse
quando se apaixona por alguém ou por pedido! Eu não estou pronto, ainda,
alguma coisa. Não é? O meu coração, para escrever o meu triste inventário
nele estão guardadas, registradas de perdas!
mesmo, como um poderoso gravador
das coisas boas que um dia eu pude
viver. Sim, sei que vivi muitas coisas © Rogério Viana
boas. Que fui ajudado por muita gente
de coração bom, eu sei. Infelizmente, 29 de dezembro de 2010.
tem dias que meu coração não bate
mais com tanta força e eu acabo não Curitiba – Paraná
podendo tirar dele as boas lembranças
e nem revelar quais foram essas Hoje amanheceu com sol, calor e
pessoas boas que me ajudaram ao poucas nuvens prenunciando chuva.
longo dos meus mais de 90 anos... Ah, Mas a previsão do tempo é que poderá
quanto? 92 já? É mesmo? Nossa... chover forte no final da tarde.
parece que foi ontem que eu fiz 20
anos. Mas como eu me lembro de
quando eu fiz 20 anos... como eu me
lembro...!

Mas você disse o quê mesmo? Onde é


que eu guardo outras coisas
importantes além do coração? Ah, será
que é bom eu dizer isso para você?
Será? Não espere de mim nenhuma
revelação bombástica... não espere. É
que todas as vezes que eu lembro que
muitas coisas em mim estão
registradas aqui... me vem um gosto
tão amargo na boca... um gosto tão
amargo que me dá um certo enjôo e
que sinto uma enorme vontade de
vomitar. Sabe, de por tudo para fora,
não como vômito mesmo, aquela
gosma... Mas tenho vontade de
vomitar é muita mágoa, sabe, você
conhece o que seja mágoa...?
Conhece? Pois bem... não me faça
acessar a memória de tantas mágoas
que estão aqui no meu fígado... Não
me faça expelir tanta mágoa que nele
está registrado. Não, por favor, não me
faça por para fora o que sempre me
magoou ao longo da minha vida. Não,

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