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BRASIL: PAÍS SUBDESENVOLVIDO INDUSTRIALIZADO

SANTOS, Milton. Brasil: país subdesenvolvido industrializado. In: SANTOS, M. ​Espaço e


Sociedade ​(ensaios). Petrópolis: Vozes, 1982 [1979], pp. 104-127.

Evolução histórica e industrialização

● contexto desfavorável para a industrialização dos países subdesenvolvidos


(pós-guerra).
○ período dominado pela tecnologia (concentração econômica e importância das
economias de escala > ​monopólios)​
● Monopólios​ - primeiro estágio da realização industrial nesse período
○ mercado já não constitui um fator essencial (preços arbitrários)
○ localização industrial seletiva
● Países Subdesenvolvidos Industrializados
○ condições de industrialização entre os fins do século XIX e começo do século
XX (Brasil, Argentina, México…)
○ Características da Industrialização
i. uso de tecnologia superada (maquinário importado com reservas
cambiais obtidas com a exportação de bens primários).
ii. substituição de importações: voltado para o mercado interno
(determinado pelo tamanho da população e grau de urbanização).
iii. política industrial adotada pelo Estado: protecionismo, política de
imigração, investimento estrangeiro para a introdução de novas
indústrias, investimentos em ​infraestrutura.​
iv. reduzida necessidade de ​capital - significativa necessidade de ​força de
trabalho​.
v. política de preços que favorecia a expansão do mercado (aumento da
produção não dependia do aumento de produtividade) *mais valia
absoluta.
vi. divisão do trabalho acentuada entre campo e cidade.
vii. ausência de um mercado centralizado impede a concorrência entre os
mercados regionais.

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“Quando ocorre uma modificação nos períodos históricos, alterando a situação internacional,
ou quando a organização espacial nacional é transformada, as cidades privilegiadas gozam de
vantagem inicial e tornam-se verdadeiras metrópoles econômicas nacionais” p. 106.

Países subdesenvolvidos industrializados

● critério para definição de um país subdesenvolvido industrializado:


○ “O ​nível de importância e complexidade alcançado pelas suas ​metrópoles
determina e espelha o nível de ​industrialização de um país subdesenvolvido​”
p. 106.
○ considerar não apenas o número e o tipo de indústrias de um país, mas o nível
de ​integração funcional a fim de não cair nas armadilhas dos enclaves
industriais. *Seria equivalente à ideia dos circuitos espaciais de produção​?
○ integração funcional/conexões geográficas: a industrialização nacional de um
país é determinada pelo ​nível de aglomeração polarizadora mais importante
do país.
■ “Quando esse complexo é capaz de suprir a mesma faixa de produtos
industrializados que o mundo desenvolvido, e de oferecer ao país bens
de consumo ao mesmo tempo que bens de capital, pode-se dizer que se
trata de um país subdesenvolvido industrializado” p. 107.
○ características em comum:
■ industrialização e modernização:
● punctiformes
● dependentes
● e voltados para ​fora.​
■ condições de subdesenvolvimento [muitas vezes agravados pelo
crescimento econômico].
● disparidades regionais
● desigualdade de renda
● empobrecimento das classes sub-privilegiadas a despeito do
crescimento do PNB.

Brasil, um país industrializado

● Em 1965 a importação na demanda total de bens intermediários foi de 8,2%, mesmo


valor para os bens de capital, o que sugere uma forte substituição de importações.

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● Em menos de 50 anos (1919-1961) praticamente inverteu as percentagens
correspondentes às indústrias dinâmicas e não dinâmicas.
○ 15% em 1919, + de 50% em 1961 - aumento da produção de bens duráveis e
bens de capital.

Indústria dinâmica e dependência externa


● Industrialização >>>>>nova divisão internacional do trabalho>>>>> aumento da
(alto nível tecnológico + indivisibilidade do capital) dependência
estrangeira

● aumento do investimento com capital estrangeiro (entre 20% e 25% da


indústria em 1970).
● penetração dos ​monopólios​:
a. condições internacionais: economias de escala e maior investimento
em capital fixo.
b. política econômica: limitação do crédito a partir de 1964 para o
“combate” à inflação facilitou a entrada do capital estrangeiro.
● Capital estrangeiro:
a. 78% da produção de bens de consumo durável
b. 53% da produção de bens de consumo não-duráveis
c. 73% da produção de bens de capital
● *esse papel do capital estrangeiro é interpretado pela corrente da “dependência
associada”. ver Bresser-Pereira.
● Ao ​capital estrangeiro​ reservam-se os setores mais ​dinâmicos
● Ao ​capital privado nacional​ deixam os ramos considerados indesejados
● Ao ​Estado​ cabem três tarefas:
a. implantação da infraestrutura (facilitando o investimento estrangeiro)
b. criar e sustentar bancos especializados que garantam empréstimos
externos levantados no setor capitalista, principalmente estrangeiro.
c. produzir bens intermediários que os capitais (nacional e estrangeiro)
estejam receosos de produzir.
● O problema do subdesenvolvimento não se refere, portanto, à acumulação do
capital:

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a. “O problema está no fato de que a utilização do capital criado nos
países subdesenvolvidos e pelos países subdesenvolvidos é controlada
por interesses extranacionais aos quais serve”. p. 110.

b. *destaque para a citação de intelectuais brasileiros e latino-americanos


do debate no subdesenvolvimento e da dependência como Celso
Furtado, Osvaldo Sunkel, Octávio Ianni.
● Multinacionais: metade das exportações dos Estados Unidos na América
Latina em 1970 foram feitas por meio de subsidiárias (*exportação de K).
a. multinacionais/identidade nacional: papel de agências de publicidade
estrangeiras.
● Pagamento do serviço da ​dívida​:
a. apesar da “expansão econômica” em 1968, o Brasil tinha um déficit na
balança de pagamentos de serviços de 300 milhões de dólares, o
mesmo de dez anos antes.
b. a dívida externa brasileira passou de 10 bilhões de dólares em 1972
para 40 bilhões de dólares em 1978.

Concentração econômica e disparidades regionais

● concentração ​econômica​ >>>>>>> concentração ​geográfica


○ 1971 - 60% da indústria está em São Paulo
○ centralidade do sistema financeiro: São Paulo e Rio de Janeiro
● crítica à ideia de ​maturidade industrial de uma ​região dinâmica contra o
subdesenvolvimento (Alberto Hirschmann).

Estrutura de Produção e empobrecimento das massas

● Crescimento do PNB e do PNB per capita (1960-70): aumento da desigualdade


○ renda per capita: cresceu 2,5% a.a
○ 5% mais ricos: de 29% para 38%
○ 40% mais pobres: de 10% para 8%
● concentração de capital/rigidez tecnológica >>>>>> economia voltada para fora
○ exportações subsidiadas pelo Estado (transferência de K para o estrangeiro)

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○ desemprego e pobreza (frágil mercado interno) - sua solução por meio da
indústria de trabalho intensivo não é possível quando a cidade tende para a
concentração capitalista.

○ “O Brasil decidiu-se pela direção oposta à tese da CEPAL expressa, algum


tempo atrás, por R. Prebisch (Samir Amin, 1971, pp. 251-252). Ao invés de
criar uma ​economia complexa interna​, o Brasil orientou-se para uma
especialização internacional, cujo único resultado é um crescimento à moda de
Rostow”. p. 114.

● problema orçamentário do Estado:


○ subsídios e isenções fiscais para o setor exportador (setor monopolista)
○ crescente carga de impostos indiretos (*tributação do consumo?)
○ perda de capacidade redistributiva do Estado (agravamento da pobreza)

Estrutura da produção e ​imperialismo dependente​.

● investimento dirigido aos setores exportadores


○ constante modernização do equipamento industrial para poder concorrer no
mercado internacional.
○ agrava a condição de dependência.
● política de exportação agressiva: base do comportamento internacional denominado
subimperialismo​ (Ruy Mauro Marini, 1972).
○ um tipo de imperialismo condicionado ou dependente, porque os instrumentos
são, na verdade, as multinacionais. p. 115.
● política de grande potência do Estado

Crescimento e empobrecimento: haverá saída?


“Para resumir a sua problemática de país subdesenvolvido industrializado, o Brasil pode ser
considerado como um país no qual a industrialização é punctiforme, dependente e
extrovertida; um país onde as desigualdades regionais e sociais são flagrantes; e onde,
paradoxalmente, o empobrecimento é acompanhado pelo crescimento do produto nacional; é
um país forçado a adotar uma política de <<grande potência>> em detrimento de sua imagem
internacional, ao invés de se preocupar com a melhoria do nível de vida do seu povo” p. 115.

● crescimento ≠ desenvolvimento
● necessidade de se mudar ​estrutura produtiva​ do país

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○ investir na indústria de transformação para o mercado interno
○ sem a pressão urgente de modernização tecnológica a atividade industrial
poderia melhor de difundir espacialmente
■ multiplicação dos centros de produção >>>> maior produtividade
espacial
■ polos de crescimento >>>> feedbacks laterais e positivos para mais
atividade econômica e emprego para melhor distribuição de riqueza.
○ integração entre o setor moderno e não moderno, gerando mais empregos
● Estado mais fortalecido
○ não teria que dividir com os monopólios a poupança nacional disponível
○ maior capacidade orçamentária para políticas sociais contra a desigualdade
● *Milton já trata da crise internacional e a necessidade de se antecipar as soluções
● *Curioso não fazer menção às peculiaridades relativas ao fato do Brasil viver sob uma
ditadura conectada aos interesses dos EUA.

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