Você está na página 1de 3

Crivella e o comunismo

Numa entrevista numa radio aqui do Rio de Janeiro,à propósito de

sua reeleição,Marcelo Crivella se referiu a um fato que pouca

gente sabe ,mas que é a pura verdade:a origem da ideia comunista

moderna não é de Marx,mas do cristianismo primitivo.

Eu já me referira a isto em outros artigos:o comunismo também

faz parte da tradição judaico-cristã,que passou para o iluminismo

alemão(aufklarung) e daí para Marx,que tentou dar-lhe um sentido

científico,sem conseguir.

Ele se referiu à Ananias,um personagem do novo testamento e

revelou como se deu este “ comunismo”:todos ,na

comunidade,abriram mão de seus bens para dá-los a igreja que os

administrou distribuindo-os entre os fiéis.Mas o mais importante é

o critério que se tornou universal,e que não é cientifico,mas lógico

e humano.Talvez esta seja a única adequação pura entre um

discurso lógico e o real(passando pela emoção):” de cada um

segundo a sua capacidade,a cada um segundo sua necessidade”.

O comunismo é uma ideia antiquissima na história da humanidade


e um conceito polissêmico,ou seja,plural,como plural é a sua

realidade.

Há muitas formas de comunismo.Colocar bens e instrumentos de

trabalho em comum,é uma forma,como aconteceu em Canudos.O

Contestado não tinha esta comunização de bens,mas não deixava

de ser um outro tipo.Os novos baianos passaram anos numa

comunidade,dividindo o pouco dinheiro que obtinham.

De qualquer maneira o comunismo,seja nas versões

tradicionais,em que seus participes se despojam de posses ou

interesses,é diferente do que foi projetado por Marx e pelo

Iluminismo,pois estes últimos queriam um comunismo da

superabundância econômica,a divisão de muitas riquezas

produzidas pela indústria,por todos.

Neste tipo de comunismo a desigualdade natural do homem não

sofre pressão de um regime politico:o socialismo ,por definição,é

uma fase preparatória apenas do comunismo,em que,num periodo

esperadamente pequeno,admite-se igualar desiguais,para fazer um

aumento da produção e garantir o objetivo acima explicado.Este


sacrificio socialista é só inicial,para a partir da base capitalista

,apressar o desenvolvimento e a produção de riquezas.Quando ele

se prolonga ,como na URSS,no socialismo real,ou ele entra em

processo de necrose,empobrecendo a população ou torna-se um

totalitarismo,uma revolução nacional,uma revolução confinada

num lugar,estiolada e repressiva,em que o trabalho fica exaustivo

e sem finalidade e onde a individualidade desparece,como no

romance “ Nós” de Zamiatin.

No comunismo,em que as pessoas possuem riquezas e podem se

liberar da faina exaustiva,tendo tempo livre,a desigualdade natural

é respeitada,bem como as diferenças.Assiste razão à Hannah

Arendt ,que em “ A Condição Humana” estebeleceu uma ligação

entre os liberais clássicos como Locke e Marx.Coisa que muito

radical aí não entendeu até hoje.