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Novo Módulo de MD 2020 Unidade 2

Matemática Discreta
Tópicos da Teoria dos Conjuntos
Parte 1
Conjuntos

Sumário
1 Introdução 1

2 Conjuntos, elementos e pertinência 2


2.1 Observações . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 6
2.2 Exercı́cios resolvidos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 8

3 Igualdade 9
3.1 Observações . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 11
3.2 Exercı́cios resolvidos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 12

4 Especificação de conjuntos por listagem 13


4.1 Observação . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 14
4.2 Exercı́cios resolvidos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 15

5 Duas notações alternativas 16


5.1 Observações . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 19
5.2 Exercı́cios resolvidos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 20

1 Introdução
Em todas as áreas da Matemática, e até mesmo nas outras ciências, é usual
empregarmos a palavra
conjunto
para nos referirmos a uma totalidade de objetos que, por uma razão ou outra, que-
remos considerar como distinguidos dos demais.
Por exemplo, em um estudo socioeconômico, podemos classificar a totalidade
dos indivı́duos envolvidos em 3 classes, de acordo com os seus poderes aquisitivos:
o conjunto dos indivı́duos mais abastados, que formam a classe A; o conjunto dos
indivı́duos com um bom poder aquisitivo, que formam a classe B; e o conjunto dos
indivı́duos com baixo poder aquisitivo, que formam a classe C.
Ou, ainda, em aritmética, é usual considerarmos a totalidade dos números natu-
rais dividida em outras totalidades: o conjunto dos números pares, o conjunto dos
números ı́mpares, o conjunto dos números primos, etc.

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A noção de conjunto — totalidade de objetos considerados como distinguidos


dos demais — é, aparentemente, tão primitiva quanto as noções de número e figura.
Por esta razão, o seu uso parece ser imprescindı́vel para o desenvolvimento da Ma-
temática e de várias outras ciências. Após o surgimento e o desenvolvimento desta
noção, os conceitos, notações e resultados básicos sobre conjuntos se tornaram um
pré-requisito para o estudo de qualquer disciplina matemática. Portanto, o domı́nio
deste conteúdo é essencial tanto para a leitura dos textos, quanto para a resolução (e
a redação das resoluções) de questões e problemas. Por esta razão, todo estudante
de Matemática deve conhecer os rudimentos da Teoria dos Conjuntos.
Especificamente, neste texto, abordamos alguns conceitos e resultados básicos
da Teoria dos Conjuntos. Em particular, abordamos os conceitos de: conjunto,
conjunto universo, elemento e pertinência (Seção 2); igualdade entre conjuntos e
propriedades básicas da igualdade (Seção 3), especificação de conjuntos por listagem
(Seção 4); especificação de conjuntos por universo e propriedade (Seção 5); conjunto
vazio (Seções 4 e 5).
Depois de estudar este texto, vamos ser capazes de: reconhecer quando uma pa-
lavra denota um conjunto (Exercı́cios 1; entender que conjuntos podem ou não ser
elementos de outros conjuntos (Exercı́cios 2 e 3); verificar quando dois conjuntos são
iguais (Exercı́cio 4); justificar formalmente alguns enunciados envolvendo a igual-
dade de conjuntos (Exercı́cio 5); especificar e reconhecer conjuntos pela listagem dos
seus elementos (Exercı́cios 6, 7 e 8); escrever simbolicamente quando, ou não, um
elemento pertence a um conjunto (Exercı́cio 9); e especificar um conjunto por meio
de um conjunto universo e uma propriedade (Exercı́cio 10).

2 Conjuntos, elementos e pertinência


A noção de conjunto empregada em Matemática é muito parecida — mas não é
idêntica — com aquela que empregamos no dia a dia.

Um conjunto é um

agregado, agrupamento, classe, grupo, etc

de objetos.

Exemplo 1 Alguns exemplos de conjunto são:

(a) O conjunto formado pela letra a (e nada mais).

(b) O conjunto formado por todos os seres vivos.

(c) O conjunto formado por todos os números naturais.

(d) O conjunto formado pela estátua do Cristo Redentor e pela saudade que sentimos
quando estamos longe de um ente querido.

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(e) O conjunto formado pelo conjunto dos números pares e pelo conjunto dos
números ı́mpares.

Observe no Exemplo 1 que um conjunto pode ser formado por: (a) um número
especı́fico de objetos; (b) um número não especı́fico mas finito de objetos; (c) um
número infinito de objetos; (d) objetos concretos e objetos abstratos; (e) outros
conjuntos.
Uma diferença essencial entre a maneira como a palavra “conjunto” é empregada
em Matemática e como ela é usada no dia a dia é a seguinte:

Em Matemática, quando nos referimos a conjuntos (agregados, agrupamentos,


classes, grupos, etc) de objetos, estamos assumindo os seguintes aspectos:

– todos os conjuntos em questão são formados com objetos obtidos de um


outro conjunto, que chamamos de conjunto universo;

– o conjunto universo a partir do qual os conjuntos são formados nem


sempre é explicitamente caracterizado, mas está fixo, no contexto;

– a ordem dos elementos nos conjuntos não é relevante;

– a repetição dos elementos nos conjuntos não é relevante.

Assim, conjuntos são usados quando temos um grupo de objetos distinguidos —


dentro de um grupo maior de objetos — para os quais nem ordem nem repetição
são levadas em consideração.

Exemplo 2 (a) Consideremos o enunciado:

Quantas comissões de 3 elementos podemos formar, dado um grupo com


10 pessoas?

Aqui, as palavras “comissão” e “grupo” são sinônimas de “conjunto”.


De fato, de acordo com o enunciado, não estão especificadas nem a ordem nem
a repetição de pessoas nas comissões e no grupo.

(b) Em contraste com o enunciado acima, consideremos o enunciado:

Quantas comissões consistindo de um presidente, um vice-presidente e


um secretário, podemos formar, dado um grupo com 10 pessoas?

Aqui a palavra “grupo” é sinônima de “conjunto”, mas a palavra. “comissão”


não é sinônima de “conjunto”.
De fato, de acordo com o enunciado, há uma hierarquia das pessoas que fazem
parte da comissão.

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Dado um conjunto universo e um conjunto qualquer, alguns objetos do universo


estão no conjunto e outros não.

Os objetos que fazem parte do conjunto são os seus elementos.

Os elementos do conjunto são ditos pertencer ao conjunto.

Assim, pertinência é uma relação entre dois objetos, que se estabelece quando
o segundo é um conjunto e o primeiro é um elemento do segundo.

A relação de pertinência, denotada

é a principal relação estudada na Teoria dos conjuntos.

Um aspecto bastante sutil do conceito ‘elemento’ é que ser um elemento não é


uma propriedade, mas sim uma relação. Isto é, dado apenas um objeto, não faz
sentido perguntarmos se ele é um elemento ou não. O que faz sentido é, dado dois
objetos (não necessariamente distintos) perguntarmos se um objeto é elemento do
outro ou não.

Formalmente, dados os nomes N1 e N2 de dois objetos, podemos formar o


enunciado componente
N1 ∈ N2
que expressa que o objeto denotado por N1 é um elemento do objeto denotado
por N2 .

Como sempre, um enunciado N1 ∈ N2 pode ser V ou F , dependendo do


contexto em que é proferido.

Exemplo 3 (a) Considere o conjunto P dos planetas do Sistema Solar e o conjunto


A dos objetos estudados pela Astronomia.
Temos que:
Terra ∈ P : V
Sol ∈ P : F
P ∈ Terra : F
Sol ∈ A : V
P ∈A : V

(b) Considere o conjunto C dos continentes da Terra e o conjunto G dos objetos


estudados pela Geografia.

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Temos que
América ∈ C : V
Oceano Atlântico ∈ C : F
Oceano Atlântico ∈ G : V
G ∈ Oceano Atlântico : F
C∈C : F

(c) Considere o conjunto S das seleções que participaram da Copa do Mundo de 2002
(observe que, como estamos tratando de um conjunto, não estamos considerando
nenhuma hierarquia entre as seleções). Neste caso, consideramos que cada seleção é
um conjunto de jogadores (analogamente, como estamos tratando de conjuntos, não
estamos considerando nenhuma hierarquia entre os jogadores de cada seleção).
Temos que
Seleção Brasileira ∈ S : V
Observe que, neste caso, o conjunto Seleção Brasileira pertence a outro con-
junto, S.
Também, temos que
Seleção Peruana ∈ S : F
Além disso, neste caso, temos que

Ronaldo Fenômeno ∈ Seleção Brasileira : V


Romário ∈ Seleção Brasileira : F

Sempre que for conveniente, vamos denotar conjuntos genéricos por letras latinas
maiúsculas, como
A, B, C, . . . , X, Y, Z
e elementos genéricos destes conjuntos por letras latinas minúsculas, como

a, b, c, . . . , x, y, z.

Assim, dados um elemento genérico a e um conjunto genérico A:


escrevemos no lugar de

a é um elemento de A
a∈A a pertence a A
a faz parte de A

a não é um elemento de A
a 6∈ A a não pertence a A
a não faz parte de A

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Em particular, as notações
a 6∈ A
e
¬(a ∈ A)
são equivalentes.
Exemplo 4 Em relação ao Exemplo 3, podemos escrever:
Sol 6∈ P
Oceano Atlântico 6∈ P
Seleção Peruana 6∈ S
Romário 6∈ Seleção Brasileira

2.1 Observações
Observação 1 Um aspecto importante dos conjuntos usados em Matemática é o
seguinte:

A distinção entre elementos e conjuntos não é absoluta, mas depende do con-


texto. Isto é, um objeto que é considerado como um elemento em um contexto
pode ser considerado como um conjunto em outro.

Por exemplo, considere a Universidade Federal Fluminense, UFF, como um con-


junto. Neste caso, ela é formada por Institutos, que são os seus elementos neste
contexto. Assim, temos que o Instituto de Matemática e Estatı́stica, IME, é um
elemento da UFF, ou seja,
IME ∈ UFF
mas o Instituto Félix Pacheco, IFP, não é um dos institutos da UFF, ou seja,
IFP 6∈ UFF
Neste caso, cada instituto da UFF é visto como um elemento.
Por outro lado, cada instituto da UFF é formado por departamentos, que são
os seus elementos. Assim, temos o Departamento de Análise, GAN, que é um dos
departamentos do Instituto de Matemática e Estatı́stica da UFF, ou seja,
GAN ∈ IME
mas o Departamento de Estradas de Rodagem, DER, não é um dos departamentos
do Instituto de Matemática e Estatı́stica da UFF, ou seja,
DER 6∈ IME
Neste caso, cada instituto da UFF, que antes era visto como um elemento, agora é
visto como um conjunto de departamentos.
Assim, neste contexto, a UFF é um conjunto de institutos e cada instituto da
UFF é um conjunto de departamentos.

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Observação 2 Outro aspecto importante dos conjuntos usados em Matemática é


o seguinte:

Os elementos de um conjunto podem, eles mesmos, serem conjuntos! Assim,


dependendo da situação, é legı́timo escrever

a∈A

mesmo quando a é um conjunto!

Já vimos exemplos desta situação no Exemplo 3(c), onde cada elemento do con-
junto S é um conjunto de jogadores, e na Observação 1, onde cada elemento do
conjunto UFF é um conjunto de departamentos.
Aparentemente, esta elaboração de que os elementos de um conjunto podem por
sua vez ser vistos como conjuntos sempre pode ser levada adiante.
Por exemplo, voltando a UFF e seus departamentos, temos que cada departa-
mento da UFF é, por sua vez, um conjunto de professores. Assim, temos o Professor
Petrucio Viana, Petrucio, que é um dos professores do Departamento de Análise do
Instituto de Matemática e Estatı́stica da UFF, ou seja,
Petrucio ∈ GAN.
Mas a Professora Márcia Cerioli, Márcia, não é professora do Departamento de
Análise do Instituto de Matemática e Estatı́stica da UFF, ou seja,
Márcia 6∈ GAN.
Na verdade, Márcia Cerioli não é professora da UFF mas, sim, da Universidade
Federal do Rio de Janeiro, UFRJ.
Assim, neste contexto, o Instituto de Matemática da UFF é um conjunto de
departamentos, e cada departamento é um conjunto de professores.
Em resumo, de acordo com esta análise, a UFF é um conjunto cujos elementos são
institutos; o IME (que é um dos elementos da UFF) é um conjunto cujos elementos
são departamentos; o GAN (que é um dos elementos do IME) é um conjunto cujos
elementos são professores; e o Petrucio (que é um dos elementos do GAN) é um
professor.
Observação 3 Admitimos como conhecidos os conjuntos numéricos usuais:
N : dos números naturais, inclusive o zero;
N∗ : dos números naturais, exclusive o zero;
Z : dos números inteiros, negativos, zero e positivos;
Q : dos números racionais, frações negativas, zero e frações positivas;
R : dos números reais, dı́zimas periódicas e não periódicas, negativas
ou positivas, e zero.
Fazemos referências aos elementos destes conjuntos, suas propriedades e relações,
sempre que for necessário, confiando no entendimento que já obtivemos destes ob-
jetos, em estudos anteriores.

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2.2 Exercı́cios resolvidos


Exercı́cio 1 Em cada enunciado abaixo, determine se a palavra sublinhada está
sendo usada (naquele contexto) como um conjunto ou não.

(i) um bolo consiste de uma camada de massa, coberta com uma


camada de chocolate
(ii) uma urna consiste de várias bolas misturadas, uma de cada cor
(iii) um trajeto consiste de uma escadaria, seguida de uma calçada,
seguida de outra escadaria
(iv) uma gaveta consiste de várias bugigangas guardadas
(v) uma vestimenta consiste de um par de sapatos nos pés, uma calça
cobrindo as pernas, e uma camisa cobrindo o tórax

Exercı́cio 2 Dê exemplo de um objeto que pode ser visto como um conjunto cujos
elementos também são conjuntos.

Exercı́cio 3 Na análise que fizemos na Observação 2, sobre uma representação da


UFF como um conjunto cujos elementos são conjuntos, obtivemos:

Petrucio ∈ GAN , GAN ∈ IME e IME ∈ UFF.

Agora, baseados nesta mesma análise, é correto concluir que Petrucio ∈ UFF?

Antes de ler as resoluções, tente resolver o exercı́cio usando os con-


ceitos estudados.

Resolução do Exercı́cio 1 : (i) “Bolo” não está sendo usada como conjunto, pois para formar
um bolo, devemos observar a ordem das camadas. (ii) “Urna” está sendo usada como conjunto,
pois para formar uma urna, não precisamos observar a ordem das bolas. (iii) “Trajeto” não está
sendo usada como conjunto, pois para formar um trajeto, devemos, primeiro seguir a escadaria,
segundo seguir a calçada e, terceiro, seguir a outra escadaria. (iv) “Gaveta” está sendo usada
como conjunto, pois para formar uma gaveta não precisamos observar a ordem das bugigangas.
(v) “Vestimenta” não está sendo usada como conjunto, pois para formar uma vestimenta devemos,
em alguma ordem, colocar os sapatos nos pés, cobrir as pernas com a calça e cobrir o tórax com
a camisa. Resolução do Exercı́cio 2 : Há muitas possibilidades de respostas para esta questão.
Por exemplo, o conjunto dos seres humanos. Em certas circunstâncias, cada ser humano pode
ser visto como um conjunto de órgãos. Resolução do Exercı́cio 3 : Não é correto. Segundo a
análise feita na Observação 2, a UFF é um conjunto de institutos e Petrucio é um professor e não
um instituto. Observação: Nada impede que em outras circunstâncias analisemos a UFF como um
conjunto de professores. E, neste caso, seria correto concluir que Petrucio ∈ UFF. Mas esta seria
uma outra análise!

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3 Igualdade
Além da pertinência, outra relação fundamental entre os objetos da Teoria dos
Conjuntos é a relação de igualdade. Quando estamos tratando de conjuntos, ela é
regulada pelo seguinte princı́pio:

Princı́pio da Extensão:

Dois conjuntos são iguais se, e somente se, possuem os mesmos elementos.

Exemplo 5 (a) Considere o conjunto A formado pelos números 1, 2, 3 e 4; e o


conjunto B formado pelos números 4, 3, 2 e 1. Observe que A e B possuem os
mesmos elementos (a ordem em que os elementos estão listados não é levada em
conta). Portanto, A e B são iguais.
(b) Considere o conjunto C formado pelos números 1, 2, 3 e 4; e o conjunto D
formado pelos números 1, 2, 2, 3, 3, 3, 4, 4, 4 e 4. Observe que C e D possuem os
mesmos elementos (a repetição de elementos não é levada em conta). Portanto, C e
D são iguais.
(c) Considere o conjunto E formado pelos números 1 e 2; e o conjunto F formado
pelas soluções da equação x2 − 3x + 2 = 0. Observe que E e F possuem os mes-
mos elementos (a maneira como o conjunto está definido não é levada em conta).
Portanto, E e F são iguais.
(d) Considere o conjunto G formado pelos números 1 e −3; e o conjunto H formado
pelas soluções da equação x2 − 3x + 2 = 0 que são números naturais. Observe que G
e H não possuem os mesmos elementos. De fato, temos que −3 ∈ G mas −3 6∈ H.
Portanto, G e H não são iguais.
Usando as notações que aprendemos nas Aulas de Linguagem e Lógica, podemos
reescrever o Princı́pio da Extensão de uma maneira mais formal.

Sejam A e B conjuntos sobre um mesmo universo U .

Dizemos que A é igual a B, simbolizado

A=B

quando, para todo x ∈ U : x ∈ A se, e somente se, x ∈ B.

Ou, de uma maneira mais formal e deixando o universo implı́cito, como é usual:

A=B
por definição
∀x(x ∈ A ↔ x ∈ B)

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A igualdade é uma relação importante entre conjuntos que possui várias propri-
edades fundamentais. Dentre elas, as mais destacadas são:

Propriedades da Igualdade:

Para todos os conjuntos A, B e C, valem as seguintes propriedades:

(i) A = A, ou seja, todo conjunto é igual a si mesmo.

(ii) Se A = B, então B = A, ou seja, se um conjunto A é igual a um conjunto


B, então B também é igual a A e dizemos, simplesmente, que A e B são iguais.

(iii) Se A = B e B = C, então A = C, ou seja, se um conjunto A é igual a um


conjunto B e este conjunto B também é igual a um conjunto C, então A e C
são iguais.

Os enunciados (i), (ii) e (iii) são intuitivamente verdadeiros e, portanto, podem


ser aceitos sem maiores explicações. Por outro lado, podemos justificá-los, usando
os nossos conhecimentos de Linguagem e Lógica Matemáticas. Vejamos como isto
pode ser feito.

(i) Seja A um conjunto qualquer.


Observe que o enunciado x ∈ A ↔ x ∈ A é uma tautologia.
Assim, para qualquer objeto x do domı́nio de quantificação, o enunciado x ∈ A ↔
x ∈ A é V .
Assim, de acordo com a Regra de Avaliação do ∀, o enunciado ∀x(x ∈ A ↔ x ∈ A)
é V .
Logo, pela definição de igualdade, A = A é V .

(ii) Sejam A e B conjuntos, tais que A = B é V .


Assim, pela definição de igualdade, ∀x(x ∈ A ↔ x ∈ B) é V .
Observe que os enunciados x ∈ A ↔ x ∈ B e x ∈ B ↔ x ∈ A são equivalentes.
Assim, o enunciado ∀x(x ∈ B ↔ x ∈ A) é V .
Logo, pela definição de igualdade, B = A é V .

(iii) Sejam A, B e C conjuntos, tais que A = B e B = C são V .


Assim, pela definição de igualdade, ∀x(x ∈ A ↔ x ∈ B) e ∀x(x ∈ B ↔ x ∈ C)
são V .
Assim, de acordo com a Regra de Avaliação do ∀, para qualquer objeto x no domı́nio
de quantificação, os enunciados x ∈ A ↔ x ∈ B e x ∈ B ↔ x ∈ C são V .
Observe que o argumento
x∈A↔x∈B
x∈B↔x∈C
x∈A↔x∈C
é válido.

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Assim, para qualquer objeto x no domı́nio de quantificação, o enunciado x ∈ A ↔


x ∈ C é V .
Assim, de acordo com a Regra de Avaliação do ∀, o enunciado ∀x(x ∈ A ↔ x ∈ C)
é V .
Logo, pela definição de igualdade, A = C é V .

As propriedades que relacionam a pertinência com a igualdade são as seguintes:

Propriedades da Pertinência e da Igualdade:

Para todo objeto a e todos os conjuntos A, B e C, valem as seguintes propri-


edades:

(iv) Se A = B e a ∈ A, então a ∈ B, ou seja, conjuntos iguais possuem os


mesmos elementos.

(v) Se A = B e A ∈ C, então B ∈ C, ou seja, conjuntos iguais pertencem aos


mesmos conjuntos.

Os enunciados (iv), (v) são intuitivamente verdadeiros. Mas, podemos justificar o


enunciado (iv), usando os nosso conhecimentos de Linguagem e Lógica Matemáticas.

(iv) Sejam a um objeto e A, B conjuntos, tais que A = B e a ∈ A são V .


Assim, pela definição de igualdade, ∀x(x ∈ A ↔ x ∈ B) é V .
Assim, de acordo com a Regra de Avaliação do ∀, o enunciado a ∈ A ↔ a ∈ B é
V.
Observe que, o argumento

a∈A
a∈A↔a∈B
a∈B
é válido.
Assim, temos que a ∈ B é V .

3.1 Observações
Observação 4 Como uma aplicação direta dos conhecimentos de Linguagem e
Lógica Matemáticas, podemos negar o Princı́pio da Extensão, para descrever preci-
samente quando um conjunto A é diferente de um conjunto B. De fato, temos:

¬(A = B)

é equivalente a

¬∀x(x ∈ A ↔ x ∈ B)

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é equivalente a

∃x¬(x ∈ A ↔ x ∈ B)

é equivalente a

∃x¬[(x ∈ A → x ∈ B) ∧ (x ∈ B → x ∈ A)]

é equivalente a

∃x[¬(x ∈ A → x ∈ B) ∨ ¬(x ∈ B → x ∈ A)]

é equivalente a

∃x[(x ∈ A ∧ ¬(x ∈ B)) ∨ (x ∈ B ∧ ¬(x ∈ A))]

é equivalente a

∃x[(x ∈ A ∧ x 6∈ B) ∨ (x ∈ B ∧ x 6∈ A)]
o que, em resumo, nos dá a definição de quando um conjunto é diferente de outro:

Sejam A e B conjuntos sobre um mesmo universo U .

Dizemos que A é diferente de B, denotado

A 6= B

quando existe um elemento em A que não está em B ou existe um elemento


em B que não está em A.

3.2 Exercı́cios resolvidos


Exercı́cio 4 Considere os seguintes conjuntos:
A : formado pelas letras a, a, a, b, b
B : formado pelas letras a, b
C : formado pela segunda letra da palavra aba
D : formado pelas vogais da palavra baba
E : formado pela letra a
Classifique como V ou F . Justifique.
(i) A = B (ii) A = C (iii) B = C
(iv) B = D (v) D = E
Exercı́cio 5 Usando os conhecimentos de Linguagem e Lógica Matemáticas, jus-
tifique os enunciados abaixo, para todo objeto a e todos os conjuntos A, B, C e
D:

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(i) Se A = B, B = C e C = D, então A = D.
(ii) Se a ∈ A, A = B e B = C, então a ∈ C.

Antes de ler as resoluções, tente resolver o exercı́cio usando os con-


ceitos estudados.

Resolução do Exercı́cio 4 : (i) V . A e B possuem os mesmos elementos: a e b. (ii) F . Temos


que a ∈ A, mas a 6∈ C. (iii) F . Temos que a ∈ A, mas a 6∈ C. Ou ainda, como A = B e
A 6= C, temos B 6= C. (iv) F . Temos que b ∈ B, mas b 6∈ D. (v) V . D e E possuem um
único mesmo elemento: a. Resolução do Exercı́cio 5 : (i) Sejam A, B, C e D conjuntos, tais
que A = B, B = C e C = D são V . Assim, pela definição de igualdade, ∀x(x ∈ A ↔ x ∈ B) e
∀x(x ∈ B ↔ x ∈ C) e ∀x(x ∈ C ↔ x ∈ D) são V . Assim, de acordo com a Regra de Avaliação do ∀,
para qualquer objeto x no domı́nio de quantificação, os enunciados x ∈ A ↔ x ∈ B, x ∈ B ↔ x ∈ C
x∈A↔x∈B
x∈B↔x∈C
x∈C↔x∈D
e x ∈ C ↔ x ∈ D são V . Observe que o argumento x ∈ A ↔ x ∈ D é válido (este argumento
não é um passo lógico, mas sua validade é imediata). Assim, para qualquer objeto x no domı́nio de
quantificação, o enunciado x ∈ A ↔ x ∈ D é V . Assim, de acordo com a Regra de Avaliação do ∀,
o enunciado ∀x(x ∈ A ↔ x ∈ D) é V . Logo, pela definição de igualdade, A = D é V . (ii) Sejam
a um objeto e A, B, C conjuntos, tais que a ∈ A, A = B, B = C são V . Assim, pela definição de
igualdade, ∀x(x ∈ A ↔ x ∈ B) e ∀x(x ∈ B ↔ x ∈ C) são V . Assim, de acordo com a Regra de
Avaliação do ∀, os enunciados a ∈ A ↔ a ∈ B e a ∈ B ↔ a ∈ C são V . Observe que, o argumento
a∈A
a∈A↔a∈B
a∈B↔a∈C
a∈C é válido (este argumento é um passo lógico). Assim, temos que a ∈ C é V .

4 Especificação de conjuntos por listagem

Em Matemática Discreta, com raras exceções, todos os conjuntos considerados


são finitos, isto é, possuem um número bem definido de elementos.

Neste caso, sempre que for conveniente, vamos especificar os conjuntos listando
(os nomes dos) seus elementos entre chaves e separados por vı́rgulas.

A observação estrita desta convenção é uma necessidade.

Em Matemática, os conjuntos não podem ser definidos por listagem de ne-


nhuma outra maneira que não a aqui especificada, ou seja, usando chaves e
vı́rgulas.

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Exemplo 6 (a) O conjunto dos resultados possı́veis do arremesso de uma moeda


(que não cai em pé) pode ser especificado como

{K, C}

onde K denota cara e C denota coroa.

(b) O conjunto dos resultados possı́veis em um único arremesso de um dado pode


ser especificado como
{1, 2, 3, 4, 5, 6}

Na especificação de conjuntos por listagem, é usual admitirmos a possibilidade


de listarmos um único elemento ou, até mesmo, não listarmos nenhum elemento.
Nestes casos extremos, especificamos dois conjuntos especiais:

(1) Chamamos de conjunto unitário ao conjunto que possui um único ele-


mento.

Como usual, denotamos um conjunto unitário por

{a}

onde a representa o único elemento do conjunto.

(2) Chamamos de conjunto vazio ao conjunto que não possui elementos.

Como usual, denotamos o conjunto vazio pelo sı́mbolo

que é a letra “o” do alfabeto norueguês estilizada.

Cuidado para não confundir ∅ (conjunto vazio) com 0 (número zero). Estes
objetos matemáticos, embora relacionados, não são iguais.

A primeira vista, ∅ parece ser um conceito estranho, já que o que caracteriza
um conjunto são os seus elementos e ∅ não possui elementos. Mas, como veremos
adiante, a noção de conjunto vazio é extremamente útil no desenvolvimento teórico
e nas aplicações da Teoria dos Conjuntos.

4.1 Observação
Observação 5 Um problema com o qual nos deparamos frequentemente é o seguin-
te:
Dado um conjunto A especificado por listagem e um objeto x, qualquer,
determinar se x ∈ A ou não.

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Para resolver este problema, basta fazer o seguinte:

1. apagar as chaves que delimitam A e as vı́rgulas que separam os elementos de


A;

2. verificar se x ocorre entre os “elementos que sobraram”.

Por exemplo, dado o conjunto

A = { 0, {1}, {{2}}, {{{3}}} }

e os objetos {2} e {{2}} (que por sua vez também são conjuntos) temos que

{2} 6∈ A

mas
{{2}} ∈ A.
De fato, apagando as chaves que “delimitam” A e as vı́rgulas que “separam” os
elementos de A, “sobram” os objetos:

0 {1} {{2}} {{{3}}}

Observe que {{2}} ocorre na lista acima, mas {2} não ocorre.

4.2 Exercı́cios resolvidos


Exercı́cio 6 Definir os seguintes conjuntos por listagem:
(i) Conjunto das letras da palavra óuauêaı́ó
(ii) Conjunto das matérias do primeiro perı́odo
do curso de Licenciatura em Matemática
do CEDERJ
(iii) Conjunto das três montanhas mais altas
da Terra
(iv) Conjunto dos números pares e primos
(v) Conjunto dos números reais que são
solução da equação x2 = −1

Exercı́cio 7 Seja A = {{1}, {2}, {3, 4}, {5, 6}, {7, 8, 9}, 10}. Classifique como V ou
F . Justifique.
(i) A tem 10 elementos
(ii) A é finito
(iii) 1 é um elemento de A
(iv) 1 é um elemento de um elemento de A
(v) {1} é um elemento de A

Exercı́cio 8 Classifique como V ou F . Justifique.

15
Novo Módulo de MD 2020 Unidade 2

(i) Todos os conjuntos ∅, {∅}, {{∅}} e {{{∅}}} são


elementos do conjunto {{{{∅}}}}.
(ii) O conjunto {∅, {∅}} tem exatamente 2 elementos.
(iii) Os conjuntos {∅, 1, {2, 3}, {4, 5, 6}, 7, 8, 9, {10}} e
{0, 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10} são iguais.

Antes de ler as resoluções, tente resolver o exercı́cio usando os con-


ceitos estudados.

Resolução do Exercı́cio 6 : (i) {ó, u, a, ê,ı́}. (ii) {Matematica Básica, Geometria Plana, Se-
minários EAD, Introdução à Informática}. (iii) {Monte Everest, K2, Kangchenjunga}. (iv) {2}. (v) ∅.
Resolução do Exercı́cio 7 : (i) F . Apagando as chaves e as vı́rgulas que delimitam A, “sobram”
os seguintes elementos de A: {1} {2} {3, 4} {5, 6} {7, 8, 9} 10. Assim, A tem 6 elementos. (ii)
V . Como vimos em (i), A tem 6 elementos. (iii) F . 1 não ocorre na lista dos elementos de A. (iv)
V . Temos que 1 ∈ {1} e {1} ocorre na lista dos elementos de A. (v) V . Como vimos em (iv), {1}
ocorre na lista dos elementos de A. Resolução do Exercı́cio 8 : (i) F . Apagando as chaves que
delimitam {{{{∅}}}} “sobra” um único elemento: {{{∅}}}. Assim, por exemplo, ∅ 6∈ {{{{∅}}}}.
(ii) V . Apagando as chaves que delimitam {∅, {∅}} “sobram” dois elementos: ∅ {∅}. Assim,
{∅, {∅}} tem dois elementos. (iii) F . Por exemplo, ∅ ∈ {∅, 1, {2, 3}, {4, 5, 6}, 7, 8, 9, {10}}, mas
∅ 6∈ {0, 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10}.

5 Duas notações alternativas


O método de especificação de conjuntos finitos pela listagem de seu elementos
tem um inconveniente: quando o conjunto é muito grande, ele se torna impraticável.

Exemplo 7 Se gastássemos um segundo para escrever cada número natural (o que


não é, nem de longe, viável na prática) gastarı́amos mais de 2.000 anos para es-
pecificar o conjunto dos números naturais maiores do que 1 e menores do que
63.450.432.000, inclusive 1 e 63.450.432.000.

Neste caso, como não queremos listar os (nomes de todos os) elementos de um
conjunto para especificá-lo, podemos usar duas notações alternativas.

Podemos especificar um conjunto sem listar (os nomes de todos os) elementos,
listando apenas alguns deles e utilizando as reticências . . . para denotar os
elementos não listados, que consideramos implı́citos no contexto.

Exemplo 8 (a) O conjunto dos números naturais maiores do que 1 e menores do


que 63.450.432.000, inclusive 1 e 63.450.432.000, pode ser especificado como

{1, 2, 3, 4, . . . , 63.450.432.000}

16
Novo Módulo de MD 2020 Unidade 2

Está subentendido que este conjunto só possui como elementos, além dos que
estão listados, os outros números naturais entre 4 e 63.450.432.000 que não estão
listados.

(b) O conjunto das consoantes minúsculas do alfabeto da lı́ngua portuguesa pode


ser especificado como
{b, c, d, . . . , x, y, z}
Esta subentendido que o conjunto {b, c, d, . . . , x, y, z} só possui como elementos,
além dos que estão listados, as outras consoantes não listadas.

De uma maneira geral, usamos a seguinte notação para especificar o conjunto


finito que possui os n elementos, a1 , a2 , . . . , an :

{a1 , a2 , . . . , an }

Em particular, podemos usar a notação

{}

para especificar o conjunto vazio, que possui 0 elementos.

Na verdade, vamos sempre preferir escrever ∅, ao invés de { }.

A segunda maneira de definir conjuntos com muitos elementos utiliza as noções


de propriedade e variável.

Podemos definir um conjunto sem listar (todos os) seus elementos usando uma
propriedade (referente ao conjunto universo) que é verdadeira somente quando
se refere aos elementos que estão no conjunto que queremos especificar.

Neste caso, a propriedade que define o conjunto é representada por um enun-


ciado que possui ocorrência de variável.

Exemplo 9 (a) Considerando como universo o conjunto U formado por todas as


letras do alfabeto da Lı́ngua Portuguesa, o conjunto das vogais pode ser especificado
como
{x ∈ U | x é vogal}
Observe que aqui utilizamos a propriedade

x é vogal

17
Novo Módulo de MD 2020 Unidade 2

que possui uma ocorrêcia da variável x.


A especificação do conjunto acima deve ser lida como: “o conjunto dos x em U ,
tais que x é vogal”.
Já o conjunto das consoantes pode ser especificado no mesmo universo como

{y ∈ U | y é consoante}

que possui uma ocorrêcia da variável y.


A especificação do conjunto acima deve ser lida como: “o conjunto dos y em U ,
tais que y é consoante”.
Como U é formado exatamente por todas as letras do alfabeto da Lı́ngua Por-
tuguesa, o conjunto das consoantes também pode ser especificado como

{z ∈ U | ¬ (z é vogal)}

ou seja,
{z ∈ U | z não é vogal}
Assim, temos
{x ∈ U | x é vogal} = {a, e, i, o, u}
e
{y ∈ U | y é consoante} = {z ∈ U | ¬ (z é vogal)} = {b, c, d, . . . , x, y, z}

(b) Considerando como universo o conjunto N dos números naturais, o conjunto


dos números maiores do que 1 e menores do que 63.450.432.000, inclusive 1 e
63.450.432.000, pode ser especificado como

{u ∈ N | 1 ≤ u ≤ 63.450.432.000}

Observe que aqui utilizamos a conjunção

1 ≤ u ∧ u ≤ 63.450.432.000

que possui duas ocorrências da variável u e foi escrita abreviadamente como

1 ≤ u ≤ 63.450.432.000

A especificação do conjunto acima deve ser lida como: “o conjunto dos u em N,


tais que 1 é menor ou igual a u e u é menor ou igual a 63.450.432.000”.
Assim, temos

{u ∈ N | 1 ≤ u ≤ 63.450.432.000} = {1, 2, 3, 4, . . . , 63.450.432.000}

(c) Considerando como universo o conjunto N dos números naturais, o conjunto dos
números pares entre 1 e 100 (exclusive 1 e 100) pode ser especificado como

{v ∈ N | 1 < v < 100 e v é par}

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Observe que aqui utilizamos a conjunção

1 < v ∧ v < 100 ∧ v é par

que possui três ocorrêcias da variável v e foi escrita abreviadamente como

1 < v < 100 e v é par.

A especificação do conjunto acima deve ser lida como: “o conjunto dos v em N,


tais que 1 é estritamente menor do que v, e v é estritamente menor do que 100 e v
é par”.
Assim, temos

{v ∈ N | 1 < v < 100 e v é par} = {2, 4, 6, . . . , 96, 98}.

De maneira geral:

Usamos a seguinte notação para especificar o conjunto formado por todos os


elementos do conjunto universo U , que satisfazem a propriedade P :

{v ∈ U | E(v)}

onde v é uma variável e E(v) é um enunciado que expressa a propriedade P e


possui ocorrências não quantificadas de v.

A expressão {v ∈ U | E(v)} deve ser lida como “o conjunto dos v em U , tais


que E(v)”.

Em particular, ∅ pode ser especificado por meio de qualquer propriedade que


não seja satisfeita por nenhum elemento do universo. Por exemplo,

{x ∈ R | x2 + 1 = 0}

é o conjunto vazio.

5.1 Observações
Observação 6 A listagem com reticências deve ser usada com cuidado, pois pode
levar a ambiguidades quando o contexto não deixa claro quais são os elementos que
não estão sendo listados.
Por exemplo, em um certo contexto, o conjunto A dos números naturais entre 2
e 2.011, inclusive 2 e 2.011, pode ser especificado como

{2, 3, . . . , 2.011}

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Novo Módulo de MD 2020 Unidade 2

Em um outro contexto, o conjunto B dos números primos entre 2 e 2.011, inclusive


2 e 2.011, também pode ser especificado como

{2, 3, . . . , 2.011}

Mas, observe que B é diferente de A, pois 4 ∈ A mas 4 não é primo.

Observação 7 Quando aplicadas a um mesmo universo, propriedades diferentes


podem especificar os mesmos elementos e, portanto, os mesmos conjuntos.
Por exemplo, o conjunto

{x ∈ N | 1 ≤ x ≤ n e x é par}

também pode ser especificado como

{x ∈ N | 1 ≤ x ≤ n e x é divisı́vel por 2},

ou ainda como
{x ∈ N | 1 ≤ x ≤ n e x não é ı́mpar},
ou ainda de outras maneiras.

Observação 8 A variável v que utilizamos em {v ∈ U | E(v)}, para especificar


o conjunto a partir de um conjunto universo e uma propriedade, é inteiramente
arbitrária e não tem nenhuma influência na definição do conjunto.
Por exemplo, os conjuntos

{x ∈ N | x é quadrado perfeito}

e
{y ∈ N | ∃x ∈ N (y = x2 )}
têm os mesmos elementos: 0, 1, 4, 9, . . . . Por isto, são iguais.

5.2 Exercı́cios resolvidos


Exercı́cio 9 Complete com ∈ ou 6∈ de modo a obter enunciados verdadeiros:
(i) 0 . . . . . . {0, 1, 2, 3, 4}.
(ii) {4} . . . . . . {{1}, {2}, {3}, 4}.
(iii) 3 . . . . . . {x ∈ N | 1 < x2 < 25}.
(iv) {3} . . . . . . {x ∈ U | x é um conjunto ∧ x possui dois elementos}.
(v) {3, {3}} . . . . . . {x ∈ U | x = 3 ∨ x = {3} ∨ x = {3, {3}}}.

Exercı́cio 10 Para cada conjunto abaixo, determine um conjunto universo ade-


quado, um enunciado E(x) que o define e a sua definição por meio da propriedade:
(i) Conjunto dos números naturais estritamente maiores do que 3.
(ii) {2}.
(iii) {1, {1, 2}}.
(iv) Conjunto dos números inteiros que não são quadrados perfeitos.
(v) Conjunto dos números primos naturais.

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Antes de ler as resoluções, tente resolver os exercı́cios usando os


conceitos estudados.

Resolução do Exercı́cio 9 : (i) ∈, pois 0 é listado como elemento de {0, 1, 2, 3, 4}. (ii) 6∈,
pois {4} não é listado como elemento de {{1}, {2}, {3}, 4}. (iii) ∈, pois 1 < 32 < 25 é V . (iv)
6∈, pois {3} não possui dois elementos. (v) ∈, pois como {3, {3}} = {3, {3}} é V , temos que
{3, {3}} = 3 ∨ {3, {3}} = {3} ∨ {3, {3}} = {3, {3}} é V . Resolução do Exercı́cio 10 : (i) U = N;
E(x) : 3 < x; {x ∈ N | 3 < x}. (ii) U = N; E(x) : x = 2; {x ∈ N | x = 2}. (iii) U :
o conjunto formado pelos números naturais e pelos conjuntos de números naturais; E(x) : x =
1 ∨ x = {1, 2}; {x ∈ U | x = 1 ∨ x = {1, 2}}. (iv) U = Z; E(x) : x não é quadrado perfeito;
{x ∈ Z | x não é quadrado perfeito}; Ou ainda, {x ∈ Z | ¬ (x é quadrado perfeito)}. Observe
que x é quadrado perfeito é equivalente a ∃y(y ∈ N ∧ x = y 2 ). Assim, o conjunto também
pode ser definido como {x ∈ Z | ¬∃y(y ∈ N ∧ x = y 2 )}. Além disso, como ¬∃y(y ∈ N ∧ x = y 2 )
é equivalente a ∀y(y ∈ N → x 6= y 2 ), o conjunto também pode ser definido como {x ∈ Z |
¬∀y(y ∈ N → x 6= y 2 )}. (v) U = N; E(x) : x é primo; {x ∈ N | x é primo}.

c 2020 Márcia Cerioli e Petrucio Viana


Coordenação da Disciplina MD/CEDERJ-UAB

Atualizado em 8 de abril de 2020.

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