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A sociedade está a mudar de base.

O que acontece diante dos


nossos olhos não é senão uma mudança de civilização (2018)
RAOUL VANEIGEM
(tradução de Emanuel Cameira)

Raoul Vaneigem (à direita) na companhia de Guy Debord

No cruzamento de todos os lugares e de nenhum situa-se a encruzilhada do


possível e do impossível

Um caos planetário assombra hoje as ruas e as cabeças. Estamos a sofrer os


efeitos de um terramoto cujo epicentro está em toda a parte e em lugar nenhum. Tanto
assim é que neste reino absurdo onde continuamos a subscrever um pretenso contrato
social, nenhuma base, nenhum valor seguro oferece a ajuda da sua estabilidade.
A mudança de civilização a que assistimos não se insere no círculo apocalíptico
que fazia girar a peste, a fome, a sida, as guerras, as insurreições, a devastação atómica,
a catástrofe ecológica. Resulta de uma evolução da história que, tendo atingido um
impasse, revela a sua aberração original: o desvirtuamento de um devir humano,
paralisado pelo surgimento de um sistema económico e social inadequado. O que surge
em simultâneo é a superação que traça, como única saída, a fundação de uma civilização
radicalmente diferente.
A consciência de uma verdadeira humanidade exige o abandono das utopias
putrefactas a que a opinião dominante sempre deu crédito. O Estado de Bem-Estar, a
sociedade de bem-estar consumista na qual continuamos a tropeçar não prova que
aquilo a que chamam de realidade é a verdadeira utopia: um lugar que não está em lugar
nenhum e um tempo onde, representados por toda a parte, estão exilados do vosso
próprio corpo?
A rocha das velhas certezas despedaçou-se, não permitindo às evidências do
passado senão uma rápida volta no frágil palco do espectáculo.
Atingidos de frente por um passado em colapso e um futuro ensombrado pelo
vazio do pensamento, os costumes e as mentalidades dobram-se sobre si mesmos,
recuam para o que não mais tem lugar, falhando em abrir-se para o que ainda não existe
e que, no entanto, está para nascer.
O espectáculo da vida às avessas devora toda a esperança. Testemunhamos a
renovação dos arcaísmos que fizeram a glória sangrenta do velho mundo. Embora cada
retrocesso seja saudado pela fanfarra das novidades antigas, sabemos que nunca há volta
atrás, que a cola estupidificante só produz efeito durante a colagem mediática, do furo,
como dizem os jornalistas.
Ontem, a crise económica havia revelado que era, na realidade, uma crise da
economia. Evidência que, hoje, esconde outra. O desmoronamento do sistema revela,
aos olhos que se abrem, algo que não é senão uma mudança de civilização.
O desequilíbrio das sociedades resulta de um deslizamento das placas tectónicas,
de uma total subversão das nossas condições de existência. Ainda não percebemos a
infinidade de possibilidades que se abrem diante de nós. A exploração da vida é uma
aventura que não tem comparação com a experiência labiríntica de sobrevivência, onde
não temos nada mais a aprender, a não ser como escapar dela. A experiência da vida
economizada foi um fracasso. Guiada pela consciência humana, a vida nada tem a
demonstrar excepto a sua própria existência.

O regresso da consciência humana

A consciência proletária dotou de uma praxis – de uma prática inscrita nas


condições particulares da história – essa consciência humana que o humanismo do
Renascimento tinha revelado na sua forma intelectual, geradora, no entanto, de
profundas convulsões psicológicas e sociais.
O projecto proletário de uma sociedade sem classes foi além da ideologia
humanista, rapidamente assumida pelo capitalismo filantrópico. Baseava na realidade
vivida sob exploração, na existência consternada de milhares de homens, mulheres e
crianças – da qual dará conta Flora Tristan –, a luta pela emancipação liderada pelo
proletário, a fim de se libertar e de libertar o mundo da proletarização.
A ascensão e o dinamismo do capitalismo produziram as condições históricas
favoráveis ao nascimento de uma consciência proletária. A burocratização do
movimento operário, a marginalização do sector produtivo e o tsunami consumista
levaram a melhor.
Os ganhos de ter estão destinados a perder-se. O que o ser adquiriu persiste.
Embora o poder letárgico do capitalismo financeiro tenha confortado o sono do
proletariado, o seu sonho permanece e é como se a consciência humana – de que a luta
de classes se tinha, de certa forma, vestido historicamente – ressurgisse do fundo das
trevas. Como se se preparasse para brilhar no quadro que a sociedade autogestionária
lhe vai proporcionar.
A consciência de ser e de querer ser humano nunca desaparece, desperta sempre
dos seus entorpecimentos. Ao perceber, por meio de turbulências e confusões, que um
processo de mudança radical está em acção, a inteligência sensível redescobre a
consciência humana de que a consciência proletária e o seu projecto de emancipação se
haviam revestido de forma historicamente fugaz.
Tudo aquilo em que os homens acreditaram ruiu porque a sua credulidade levou-
os sempre a confiar naquilo que os negou, sufocou e aniquilou. Eles têm essa qualidade
extraordinária para se destruir, para odiar, para desprezar. Desconsideram aprofundar as
alegrias que lhes competem em favor de um momento de amor, de felicidade, de
criação.
Um movimento de autogestão que não se empenhe, desde o início, em fazer com
que a vida tenha precedência sobre a economia, apenas administraria a miséria de estar
sob o jugo do ter.

A robotização dos seres vivos não sobreviverá ao despertar da vontade de viver


A experimentação das condições de sobrevivência atingiu o seu auge com as
consideráveis melhorias que as tecnologias avançadas, o consumismo, a democracia de
mercado trouxeram para o conforto desses animais domesticados e com antolhos que
são as mulheres e os homens obrigados ao trabalho.
Como não celebrar o progresso extraordinário das ciências médicas e
farmacológicas? Temos os meios para prolongar a duração da existência muito para
além do tempo fixado pelo passado. A desvantagem é que o beneficiário, tanto quanto
esse pastor a quem Zeus concedeu o pedido de um desejo, escolhe ser imortal. Tendo-se
esquecido de especificar que era permanecendo jovem que o queria, viu-se enrugado,
murcho, quebrado sob o efeito da velhice eterna.
O que as novas terapias melhoram não é a vida mas a ansiedade prolongada, um
desconforto que progride e seca, uma esterilização do viver que «vivifica» o mercado da
saúde.
A farsa do transumanismo. Embora o homem não tenha ainda dado lugar ao ser
humano, a máquina de descerebrar e de tornar a vida lucrativa oferece a sua concepção
do futuro e a sua imaginação advogando um transumanismo. Desprovido dos pitorescos,
muito questionáveis psicopatas que outrora nos matraquearam com o eugenismo, a
teoria das raças, a inferioridade da mulher e outras verdades devidamente acreditadas
pela ciência, defende-se o projecto de uma tecnologia enxertada nos vivos para eliminar
doenças, para retardar o envelhecimento e a morte, em suma, para se sobreviver com a
perfeição de um robô num universo regulado por uma máquina de lucro, que colocou
Deus no desemprego abolindo a sua função de grande relojoeiro.
Os intelectuais que trabalham para aperfeiçoar a ordem das coisas tendem a
esquecer que dentro de um tanque de guerra há um homem que, de repente, decide
salvar a sua pele e os seus desejos. A pobreza do cinismo deles é terrível. Eles têm a
arrogância do poder e a fraqueza do lacaio. É por estarmos de joelhos há tanto tempo
que não conseguimos levantar-nos para lhes cuspir na cara?
Porque é ajoelhados que gritamos: «Basta!» É ainda ajoelhados que, elevando os
nossos gestos de ameaça e de revolta para o céu vazio, estimulamos o sarcasmo dos
exploradores e dos seus mercenários mediáticos.
O que podemos opor à tirania e aos seus ditames senão esta consciência humana
que, baseando-se na vida e na liberdade dos seus desejos, se afirma, também ela, como
um facto consumado?
A vida é algo indiscutível. Não tem de prestar contas a ninguém, e ainda menos
a um sistema cujas engrenagens estripam os “cavalheiros” que se envaidecem de as
fazer girar.
Às estratégias dos assentamentos desumanizantes, a autogestão generalizada
opõe o surgimento das terras livres onde se concretiza, poeticamente, a nossa vontade
de uma vida soberana. Esta é uma determinação que exclui qualquer debate, qualquer
compromisso, qualquer diálogo com o «partido da morte».

tradução de:
VANEIGEM, Raoul, “La société change de base. Ce qui est en cours sous nos yeux
n’est rien d’autre qu’une mutation de civilisation”, in Contribution à l’émergence de
territoires libérés de l’emprise étatique et marchande – Réflexions sur l’autogestion de
la vie quotidienne, Paris, Éditions Payot & Rivages, 2018, pp. 77-85.

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