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Boas práticas laborais nas empresas


Por: Paulo Pereira de Almeida – Professor do ISCTE; Diretor do OPBPL – Observatório Português de Boas Práticas Laborais; Investigador.
Fotografia: Plinfo Informação, Lda.

as empresas, em particular. Podemos definir


boas práticas laborais como um conjunto de
práticas e de políticas das empresas e das
organizações privadas e públicas, orien-
tadas no sentido do respeito mútuo entre
empregados e empregadores, sendo os
empregados motivados e protegidos de
comportamentos arbitrários dos empre-
gadores e, simultaneamente, garantindo
aos empregadores uma conduta correta e
produtiva da parte dos empregados.
Nos últimos anos têm – justamente – existido
um aumento das expectativas e das exigên-
cias dos clientes e dos utentes, relativamente
ao modo como as empresas e as organiza-
ções cuidam desta vertente. E o caminho
valorizado parece ser o dos investimentos
feitos na melhoria das condições de trabalho,
em políticas de equidade salarial, de igualdade
de oportunidades e de valorização global dos
colaboradores.
Em termos muito concretos, a aposta das
empresas e das organizações numa gestão
1. A importância das boas práticas laborais no século xxi que se oriente pelas melhores práticas laborais acaba – geral-
As boas práticas laborais são hoje um fator de diferenciação e de mente – por se revelar muito compensadora. Uma política em-
captação de colaboradores com elevado potencial (Silva, 1998). presarial orientada por boas práticas laborais – no sentido de
Revelam-se ainda bastante importantes para uma prática de re- práticas na sua gestão global que se orientam para a valoriza-
cursos humanos motivadora: ção de todos os colaboradores – tem resultados positivos, de-
signadamente (Almeida, 2012; Craine et al., 2010):
• As boas práticas laborais têm um impacto positivo sobre o
clima geral das relações industriais numa empresa. • Aumento da produtividade: os estudos sugerem que as
• As boas práticas laborais diminuem os níveis de conflitua- práticas de trabalho responsáveis podem ​​traduzir-se em
lidade laboral. recompensas financeiras nos mercados em expansão, por
• As boas práticas laborais potenciam formas de envolvi- uma maior produtividade, redução de custos de conformi-
mento dos trabalhadores, tais como a qualidade de vida dade, e maior volume de negócios.
no trabalho e as iniciativas de círculos de qualidade e de • Uma melhoria do diálogo entre colaboradores: o investi-
crescimento sustentável. mento em melhores condições de trabalho a partir de um
diálogo com os trabalhadores aumenta a produtividade, di-
2. Boas práticas laborais: definição e resultados minui as tensões e aumenta as oportunidades para um diá-
As boas práticas laborais têm vindo a tornar-se gradualmente logo aberto e inclusivo dos colaboradores nas discussões
bastante importantes para as organizações, em geral, e para sobre como introduzir melhorias no seu trabalho diário.

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• Um alinhamento das práticas de trabalho sustentáveis ​​com designadamente a identificação de benchmarkings por
a estratégia empresarial: estas ​​são mais eficazes quando setores de atividade, relacionados com a adoção de Best
se encontram alinhadas com os objetivos de negócio. Pro- Practices de RH; a análise da relação entre as caracterís-
gramas que produzem benefícios tangíveis para a empre- ticas das empresas e o grau de adoção de Best Practices
sa e seus funcionários a encontrar maior apoio entre a alta de RH; e a análise da influência de fatores ambientais ex-
administração, garantindo a manutenção do investimento ternos e da estratégia organizacional no posicionamento
e compromissos de longo prazo. do capital humano como fonte de vantagem competitiva.
• Uma redução dos custos operacionais: uma abordagem di- • O Estudo Acerca do Estado das Relações Laborais em
ferente, olhando para as formas de ganhar uma vantagem Portugal do OPBPL – Observatório Português de Boas Prá-
competitiva através da melhoria das práticas de saúde e ticas Laborais, no qual foi elaborada uma análise ao esta-
segurança ajuda as empresas a economizar dinheiro ao re- do das Relações Laborais em Portugal para uma amostra
duzirem os custos de cumprimento associados geralmen- representativa da população portuguesa. Compararam-se
te com o correto cumprimento dessas normas. os dados de janeiro de 2010, de julho de 2010, de janeiro
• Uma mudança de foco: priorizando a melhoria contínua, e de 2011, de julho de 2011 e de janeiro de 2012. Este estudo
incluindo as questões de saúde e de segurança nas ava- permite assim retirar conclusões sobre tendências, sendo
liações anuais de desempenho dos gestores em todas feita uma análise global ao mercado laboral. São analisados
as funções permite às empresas e organizações respon- temas centrais para esta problemática tais como o estado
der mais rapidamente a novas iniciativas, o que reduz o das relações laborais em Portugal; o estado das relações
tempo para implementar inovações de gestão e os cus- laborais nas Empresas Portuguesas; as relações laborais
tos administrativos associados. Trata-se de mudanças de entre Sindicatos e Empregadores; os aspetos das relações
curto prazo que irão reduzir os custos relacionados com e das práticas laborais que os Trabalhadores Portugueses
o absentismo e aumentar a produtividade do trabalhador consideram os mais importantes; e ainda a atuação das
no longo prazo. Empresas Portuguesas em matéria de Responsabilidade
• Uma comunicação efetiva entre os funcionários e gesto- Social para com os Trabalhadores.
res: quando se trata de programas de trabalho responsá-
veis estes são uma parte crítica da construção de con- Em termos de resultados, no Estudo Best Practices de Recur-
fiança. Uma das melhores formas de encorajar o diálogo sos Humanos de 2009, este registou uma adesão de 19% das
é permitir que os trabalhadores sugiram inovações con- empresas, e – segundo os seus responsáveis – apontou indí-
cretas para melhorar suas próprias condições de trabalho cios e conclusões que sustentam o princípio de que a gestão
e produtividade. do capital humano tem o potencial de constituir uma fonte de
vantagem competitiva no processo de criação de valor. Como
3. Boas práticas laborais em portugal: estudos e resultados principais conclusões destacam-se:
Conforme vimos, as boas práticas laborais têm vindo a consoli-
dar-se como essenciais para a reputação e atratividade das or- • Em Portugal, existe um caminho importante a percorrer na
ganizações, em geral, e das empresas, em particular. Em Portu- transição para uma gestão mais sofisticada das pessoas.
gal já existem hoje um conjunto de estudos que permitem – de Com efeito, verificou-se um índice global médio de utili-
um modo cientificamente validado – obter resultados acerca da zação de best practices de aproximadamente 46% e um
implementação de boas práticas laborais. Destes destacaremos gap significativo face a benchmarkings internacionais.
de seguida dois: • Os setores mais avançados, do ponto de vista da im-
plementação de melhores práticas são a Hotelaria e
• O Estudo Best Practices de Recursos Humanos de 2009, restauração (aproximadamente 74%), Equipamento de
pioneiro em Portugal e direcionado para as 500 Maiores transporte e Água, eletricidade e gás (aproximadamen-
e Melhores empresas do ranking da EXAME, desenvolvido te 71%). Os setores com pior posicionamento ao nível da
em parceria com a AIP-CE, AEP, APG, AIMinho e RH Maga- utilização de melhores práticas são o Comércio de veí-
zine. Este estudo correspondeu a diferentes objetivos, culos automóveis (aproximadamente 14%), Distribuição

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alimentar (aproximadamente 27%) e Construção (aproxi- vamente com o grau de utilização de melhores práticas,
madamente 31%). tais como natureza lucrativa e não lucrativa, número de
• A maioria das empresas do estudo (cerca de 62%) perse- anos de laboração e práticas salariais agressivas.
gue uma estratégia de negócio de diferenciação, focalizan-
do-se na procura de fontes de vantagem competitiva que Além disso – e ainda segundo os responsáveis pelo Estudo
permitam assegurar uma resposta distintiva face aos seus – as empresas posicionadas no intervalo Top 25% de imple-
principais concorrentes. mentação de melhores práticas registam um índice de pro-
• A função de RH ocupa um papel maioritariamente de par- dutividade superior em cerca de 300.000 euros de vendas
ceiro estratégico (em 74% das empresas), o que sugere anuais/colaborador face às Bottom 25%. O índice de adoção
um progressivo envolvimento da área de RH no suporte ao de best practices permite predizer em cerca de 13% e 4%,
processo de criação de valor e na formulação estratégica. respetivamente, a margem de lucro e a produtividade das
• As características das empresas correlacionam positi- empresas.

Quadro 1
Principais Resultados do Estudo Best Practices Estudo 2009
de Recursos Humanos de 2009
Índice global médio de utilização de best practices 46%
Setor mais avançado, do ponto de vista da implementação de melhores práticas: 74%
hotelaria
Função de RH com papel maioritariamente de parceiro estratégico 74%

Quadro 2

Globalmente, como classifica janeiro julho janeiro julho janeiro


o estado das relações laborais 2010 2010 2011 2011 2012
em Portugal? (escolher apenas um)
Positivo 22,0% 21,8% 19,8% 16,5% 14,7%
Neutro 33,9% 28,1% 30,2% 34,3% 30,4%
Negativo 36,5% 43,3% 43,8% 42,4% 47,5%
Ns/Nr 7,6% 6,8% 6,2% 6,8% 7,4%
Total 100,0% 100,0% 100,0% 100,0% 100,0%

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Quadro 3

Dos seguintes itens relativos às relações janeiro julho janeiro julho janeiro
laborais, indique os três que considera mais 2010 2010 2011 2011 2012
importantes para si (escolher os 3 principais)
Carreiras e sistemas de remuneração 11,9% 14,8% 13,5% 20,8% 19,4%
Comunicação e diálogo com os responsáveis 11,2% 16,0% 14,8% 19,4% 12,6%
da empresa
Direitos de associação e liberdade sindical 7,0% 6,8% 2,5% 4,8% 5,3%
Direitos para mães e pais 8,6% 6,5% 4,9% 6,9% 6,2%
Horário de Trabalho 10,0% 7,2% 10,0% 9,3% 8,5%
Igualdade de oportunidades entre 15,9% 14,5% 12,5% 12,5% 15,4%
trabalhadores
Não discriminação entre trabalhadores 9,0% 7,8% 8,5% 6,3% 7,4%
Saúde e segurança no trabalho 10,6% 10,0% 13,2% 8,5% 10,2%
Sistemas e complementos de reforma 6,2% 4,8% 5,6% 3,3% 3,7%
Tratamento positivo pelas chefias 7,7% 5,9% 8,2% 4,3% 6,5%
Tratamento positivo pelos colegas 1,9% 5,7% 6,3% 3,9% 4,8%
Total 100,0% 100,0% 100,0% 100,0% 100,0%

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
A LMEIDA, P. P., As Boas Práticas Laborais em Portugal, Lisboa, RH Edi-
tora, 2012.
Em termos de outros resultados, e para o Estudo Acerca do Esta- CARRELL, M. et al., Labor Relations and Collective Bargaining: Cases,
do das Relações Laborais em Portugal do OPBPL: Practice, and Law, New York, Prentice-Hall, 2006.
CRANE, A. et al., Business Ethics: Managing Corporate Citizenship and
• Em janeiro de 2012, 47,5% dos trabalhadores portugueses Sustainability in the Age of Globalization, Oxford, Oxford University
classificam como «negativo» o estado das relações labo- Press, 2010.
rais em Portugal. Este valor representa mais 11% em rela- McIntosh, M. et al., Living Corporate Citizenship, London, Pearson,
ção a janeiro de 2010. 2003.
• Dos aspetos das relações laborais, em geral, considerados Phillips R., Stakeholder Theory and Organizational Ethics, San Fran-
mais importantes pelos trabalhadores portugueses em cisco, Berrett-Koehler, 2003.
janeiro de 2012, continuam a ser as «carreiras e sistemas SILVA, S. R., «Elements of a sound industrial relations system», ILO,
de remuneração» que surgem em primeiro lugar, com Bangkok, http://www.ilo.org/public/english/dialogue/actemp/papers
19,4% de respostas. Recorde-se que em janeiro de 2010 /1998/srseleme.htm, 1998.
era a «igualdade de oportunidades entre trabalhadores»
que surgia em primeiro lugar, com 15,9% de respostas. WEBGRAFIA
http://opbpl.cies.iscte.pt/
Trata-se aqui – e em conclusão – de dois Estudos cujos resul- https://sites.google.com/site/bestpracticesrh/HOME
tados permitirão, num futuro próximo, a continuada monitoriza-
ção das boas práticas laborais em Portugal.

40 jan. / mar. 2012 revista Dirigir

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