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 Apontamentos – 2012/2013 

José Paulo Vasconcelos

O movimento da Seara Nova


Raúl Brandão – Vida e Obra 11ºE
BIOGRAFIA

1 Infância e estudos
Raul Germano Brandão nasceu a 12 de Março de 1867 no nº 12 da Rua da Bela Vista (actual Rua de
Raul Brandão), na Foz do Douro, localidade que marcou de forma indelével a sua vida e obra, pelo mar e
pelos seus homens. Era filho de pequenos proprietários.
A infância e a adolescência foram passadas no Porto, onde completou os primeiros estudos,
nomeadamente no Colégio São Carlos. Aqui colaborou, em 1885, na publicação da revista escolar O
Andaluz, criada "a favor das vítimas dos terramotos da Andaluzia", e na qual participaram também João de
Lemos, José Leite de Vasconcelos e Trindade Coelho.
Seguidamente, frequentou a Academia Politécnica do Porto, entrando então em contacto com outros
jovens aspirantes a escritores, entre os quais se contavam os amigos da adolescência, António Nobre e
Justino de Montalvão.

2 Escritor e jornalista
Em 1888 ingressou na Escola do Exército, em Lisboa, talvez para agradar aos pais ou, mais
prosaicamente, em razão da "lei de recrutamento irreversível".
Em 1889 esteve na formação do grupo "Os Insubmissos" e da revista com o mesmo nome, que
coordenou.
Em 1890 estreou-se como escritor com a coletânea de contos naturalistas "Impressões e Paisagens".
Logo em seguida, participou ativamente em vários movimentos de renovação literária. Com Júlio Brandão e
D. João de Castro dirigiu a "Revista de Hoje" (1895) e encetou uma notável carreira jornalística no "Correio
da Manhã".
Em 1896, depois de concluído o estágio de 10 meses na Escola Prática de Infantaria, em Mafra, foi
colocado em Guimarães, como Alferes no Regimento de Infantaria nº 20. Na cidade berço conheceu Maria
Angelina, com quem veio a casar.
Mais tarde, foi transferido para Lisboa. Nesta fase, o jovem escritor dedicou-se a reflexões
metafísicas, colaborou na composição do folheto "Nefelibatas" (1893) e aproveitou os escritos no jornal
"Correio da Manhã" para publicar, em 1896, o livro "História de um Palhaço – Vida e Diário de K. Maurício",
reorganizado em 1926 com o título "A Morte do Palhaço e o Mistério da Árvore".
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José Paulo Vasconcelos

Em Março de 1897 casou com Maria Angelina, com quem viveu um ano em Guimarães.
Seguidamente, transferiu-se para o Porto, voltando ao lugar onde nascera, a Foz do Douro.
A escrita continuou a ocupar lugar importante na sua vida. Em parceria com Júlio Brandão escreveu a
peça "Noite de Natal", representada no Teatro D. Maria, em 1899.
Em 1901 pediu nova transferência, desta vez para Lisboa. Na capital contactou com intelectuais e
anarquistas e empenhou-se na área do Jornalismo.
Nesta fase, a sua existência dividia-se entre a escrita realizada na capital e a que produzia no
recolhimento da sua Casa do Alto, em Nespereira, nas proximidades de Guimarães, a qual adquirira em
1903. Nesta habitação, não se dedicava apenas à escrita, mas também à administração da sua
propriedade. Este contacto direto com o mundo rural despertou no escritor e no homem sentimentos de
comiseração e de pesar relativamente às agruras que marcavam a condição das comunidades agrícolas.
A partir daí, o tema principal da sua obra literária passou a ser o problema de consciência perante os
homens oprimidos e a análise de sentimentos contraditórios (a simpatia pelos explorados e o egoísmo de
um pequeno burguês), presente pela primeira vez em "Os Pobres", no início do século XX (1902-1903).
Em 1906 viajou pela Europa, na companhia da esposa.
Por volta de 1910 sofreu uma crise de depressão nervosa.
Em 1911 pôs fim à carreira militar, reformando-se do exército no posto de Major, em 1912.

3 A “Renascença” e a “Seara Nova”


Com mais tempo para a escrita, começou a interessar-se pela História de Portugal. Compôs a obra
"El-rei Junot", em 1912, e redigiu "A Conspiração de Gomes Freire", em 1914. Publicou "O Cerco do Porto"
na revista "Renascença", em 1915, uma obra atribuída ao coronel Hugo Owen e Brandão, que este anotou
e prefaciou.
Em 1917 deu à estampa a sua aclamada obra-prima, "Húmus", dedicada ao amigo Columbano, que
conheceu no final de Oitocentos e que lhe pintou dois retratos.
A partir desses anos começou a passar os Invernos em Lisboa, cidade onde conviveu com os
intelectuais do grupo da revista "Seara Nova" (1921), contando-se entre o grupo de fundadores deste
movimento, juntamente com Jaime Cortesão, Raul Proença e Aquilino Ribeiro, entre outros.
Neste período, também se dedicou à dramaturgia. Em 1923 publicou o livro "Teatro", no qual compilou "O
Gebo e a Sombra" (representado em 1927 no Teatro Nacional), "O Doido e a Morte" (representado em 1926
no Teatro Politeama) e "O Rei Imaginário".
Em 1927 publicou "Jesus Cristo", em colaboração com Teixeira de Pascoaes. No mesmo ano,
Columbano pintou o retrato do casal Raul e Angelina Brandão.
Em 1929 publicou "O Avejão" e o monólogo "Eu sou um Homem de Bem", na "Seara Nova".
Raul Brandão pretendeu tornar públicos quatro livros de trabalho de teatro; no entanto, o projeto
ficaria apenas pela publicação de um volume. Planeou, igualmente, escrever "A História Humilde do Povo
Português", da qual os "Os Pescadores" constituiria o 1º volume, e ao qual se seguiriam "Os Lavradores",
"Os Pastores", "Os Operários". Em 1924 realizou uma viagem aos Açores e à Madeira, que deveria fazer
parte desse plano e da qual resultou a edição da obra "As Ilhas Desconhecidas", de 1926.
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José Paulo Vasconcelos

Em colaboração com a esposa escreveu "Portugal Pequenino", uma narrativa para crianças, editada
em 1930.

A morte interrompeu estes projetos. Raul Brandão viria a falecer em Lisboa, no dia 5 de Dezembro de
1930, com 63 anos. Em 1931 foi publicado, postumamente, "O Pobre de Pedir".
Raul Brandão seguiu, como vimos, uma carreira militar. Mas foi, sobretudo, um grande jornalista (no
"Correio da Manhã", "Revista de Hoje", "Revista de Portugal", chefe de redação dos jornais "O Dia" e "A
República") e escritor, autor de uma extensa e diferenciada obra literária (ficção, teatro e livros de viagem),
marcada pelas vertentes social, ética e religiosa e entrecruzada pelo patético e pelo trágico. Pertenceu ao
grupo dos "Nefelibatas" e à "Geração de 90" do século XIX e foi influenciado não só pelas correntes do
Realismo, do Naturalismo, mas também pelo Simbolismo e o pelo Decadentismo. Foi um homem
imaginativo e talentoso, mas passivo e isolado, características que, no entender de muitos estudiosos da
sua vida e obra, acabaram por fazer dele, muitas vezes, um incompreendido.

Raúl Brandão, in Antigos Estudantes Ilustres da Universidade do Porto, on-line


URL: http://sigarra.up.pt/up/pt/web_base.gera_pagina?P_pagina=1001201
[Fevereiro de 2013]
(texto adaptado ao novo Acordo Ortográfico – 2013)

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