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ENCRUZILHADAS

Depois dos Mestres Cantores eis os Mestres Decapitadores: é uma fanfarra enleada em
bosta de cão, na farsa deste século que tropeça nos próprios pés. O pai de uma aluna e um
militante islamita radical emitiram uma “fatwa” contra Samuel Paty, o professor decapitado
na sexta-feira na região de Paris. É um ver se te avias de fátuas e peregrinas arrogâncias,
depois dos 15 segundos de Fama do Andy Warhol temos os 15 segundos de Empolamento
do Poder Divino.
Dizem os testemunhos, Samuel tratou com deferência os seus alunos islâmicos e antes de
mostrar as caricaturas de Maomé nas aulas explicou-lhes porque teria de as mostrar aos
outros colegas, não os desrespeitou nem o seu gesto tinha um carácter denegridor.
Em 2006, por ingenuidade minha, na universidade em Maputo, querendo mostrar como as
nossas escolhas quanto à identidade sexual que assumimos têm o seu quê de construção
social, passei nas aulas o filme Crying Games/Jogo de Lágrimas, de Neil Jordan, um dos
mais belos filmes que conheço sobre o amor e os conflitos que este pode gerar se toma uma
feição desviante em relação à intratabilidade da educação que nos condicionou.
Fui depois chamado à direcção do departamento: para um grupo de estudantes islâmicos eu
havia “pecado” ao mostrar um transsexual nas aulas e ao falar desassombradamente de
sexo. Chocou-me não terem sido frontais, o espírito de baixa bufaria entranhado. Foram
umas semanas de tensão no relacionamento com os alunos.
Chegado de outras coordenadas não imaginava que o filme chocasse jovens universitários e
supus que as virtualidades do debate que o filme suscitaria seriam vantagens sobre qualquer
melindre.
Tive sorte, o então coordenador do curso meteu-se do meu lado e “decapitou” logo a
avançada moralista; estou incerto sobre se o resultado seria o mesmo agora – e este
retrocesso é uma realidade descoroçoadora.
Hoje, na fronteira norte, supostamente a 3000 km de uma ilusória geografia, decapitam-se
pessoas por dá aquela palha.
Esta semana, a minha amiga Aliete Matias, postou no fb esta fotografia de Jessica Antola,
de uma Mãe Mursi (uma etnia da Etiópia) armada, e comentou “não encontro palavras para
esta foto”. Também não encontro, mas aquela arma é para defender o filho nos portais do
inferno com que aquela mulher se depara regularmente.
Agora que um filho da mãe de um burguês – a ouvir no leitor de cds de um Peugeot da
última gama o mais recente disco da Fatoumata Diawara, baixado do Youtube – enquanto
aguarda nos semáforos, decida lançar uma fatwa sobre um professor (tudo o indica) que
não quis provocar, de modos delicados, num país que não reconhece a alegação da
apostasia, é demasiado cínico e macabro.
“Um dos nossos compatriotas foi morto hoje porque ensinou a liberdade para acreditar e
não acreditar”, acrescentou Emmanuel Macron. Como deve proceder a democracia diante
de quem enfia o garfo no coração dos seus direitos mais profundos e o revolve? Como
reagir face aos que usam a liberdade para negar a dos outros e não sabem viver senão em
suposto apostolado?
Há um aforismo do poeta Wallace Stevens que talvez aqui caiba: «A intolerância a respeito
da religião dos demais é tolerância comparada com a intolerância a respeito da arte dos
demais». Ou seja: talvez não seja só a nossa liberdade que está em jogo como também a
nossa arte, vista à luz dos radicais islâmicos. Lembremo-nos das estátuas dos Budas em
Gandara.
Se o apelo da preservação da liberdade não for suficiente como reacção civilizacional que
ao menos o da defesa da arte seja uma razão suficiente para a urgência de pensar e articular
uma resposta para estes problemas, sem esquecer que é no vazio do pensamento que se
localiza o ninho da víbora.
Sem isso, só se seguirá aquilo que Houellebecq previu: a obediência.
E já que chamei o poeta à liça aproveito para apresentar uma primeira selecção dos 289
adágios ou provérbios que o Wallace Stevens deixou e a que os organizadores, num
livrinho póstumo, deram o nome de Adagia.  Esta é uma primeira selecção de entre os
cento e cinco primeiros. A tradução é minha:  
 Cada era é uma casinha no pombal.      
 Dos vermes, faz o poeta trajes de seda.
  Os poetas de mérito são tão aborrecidos como a gente de mérito.
O pensamento é uma infecção. No caso de certos pensamentos converte-se em epidemia.
 Parece o poeta outorgar a sua identidade ao leitor. É mais fácil reconhecer isto quando se
ouve música. Refiro-me ao seguinte: à transferência.
A imaginação deseja que a consintam.
A coisas vistas são as coisas como são vistas.
Tem em conta: I. Que o mundo inteiro é matéria para a poesia; II. Que não existe nenhuma
matéria especificamente poética.
O poeta é o intermediário entre as pessoas e o mundo em que vivem, e também entre as
pessoas entre si; mas não entre a gente e algum outro mundo.
A poesia não é o mesmo que a imaginação tomada isoladamente. As coisas são em virtude
de interrelações ou de interacções.
A poesia deve ser algo mais que uma concepção da mente. Deve ser uma revelação da
natureza. As concepções são artificiais. As percepções são essenciais.
Ler um poema deveria ser uma experiência, como quando se experimenta um acto.
A morte de um deus é a morte de todos.
Em presença da facticidade extraordinária, a consciência toma o lugar da imaginação.
Tudo tende a tornar-se real; o todo move-se na direcção da realidade.
(à suivre)