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O Petróleo em África e em Angola

Difícil Equação do Desenvolvimento


Alves da Rocha
maldição dos recursos natu- de produção (3,1 % do mundo). Os que as elites do poder político têm

A rais tornou-se numa desi-


gnação normal para carac-
terizar a situação de alguns países
factores determinantes da verifica-
ção da maldição do petróleo na
Nigéria têm sido: a corrupção (este
sobre o papel e a função do Estado,
a corrupção endémica, o tráfico de
influências, a sistemática falta de
ricos neste tipo de factor de produ- país é considerado o mais corrupto transparência das instituições e os
ção, mas que não têm conseguido do mundo, segundo a Transparência amiguismos -, tenho sérias reservas
aproveitá-lo no sentido da melhoria Internacional), o inadequado clima sobre a validade desta solução para
do bem-estar nacional e do pro- de negócios (é o pior país para se os países africanos ao sul do Sara
gresso económico. Parece ter-se tor- fazer negócios, de acordo com o produtores de petróleo e de outras
nado evidente uma correlação Banco Mundial2), a baixa competiti- riquezas minerais, muito embora os
negativa entre riquezas naturais - vidade (é um dos países menos casos do Botswana e da África do
em especial petróleo e diamantes - competitivos no mundo3), a instabi- Sul sejam, invariavelmente, referidos
desenvolvimento social e melhoria na lidade política, os problemas étnicos como dois exemplos de comprovada
distribuição dos rendimentos. O des- e religiosos e a natureza das políti- boa gestão dos diamantes.
mentido desta conexão perversa cos- cas económicas. Muitos autores de Alguns dos países citados - como
tuma ser feito em relação a países estudos sobre a maldição do petró- Angola e a Nigéria - já produzem
que, não dispondo de recursos natu- leo em África defendem que uma petróleo há muitas décadas e com
rais em abundância, no entanto das formas de democratizar os resultados desastrados em matéria
lograram índices destacados e ganhos financeiros com o petróleo e de desenvolvimento económico e
importantes de crescimento e des- de colocá-los ao serviço da diversifi- redução da pobreza. Em 30 anos de
envolvimento. Valorizam ainda a cação produtiva é pela via dos “oil independência, Angola não apre-
crítica ao absurdo da maldição das funds”. O sucesso deste procedi- senta um rendimento médio por
riquezas naturais os casos dos paí- mento em alguns países - Noruega, habitante superior a 850 dólares
ses hoje industrializados e que o Alasca, Azerbaijão, Kazaquistão, americanos em 2004 (este indica-
devem à utilização óptima e racio- Canadá e Kuwait - tem levado o dor, na terminologia do Banco
nal das suas reservas em combustí- PNUD, o Banco Mundial e o Fundo Mundial, intitula-se Gross National
veis fósseis da primeira e segunda Monetário Internacional a defende- Income per capita, ou seja, rendi-
geração da Revolução Industrial. Vítor rem a sua utilização generalizada em mento nacional bruto por habi-
Santos apresenta alguns casos em que todos os países em que a exploração tante)5 - contra USD 720 em 1980,
a correlação negativa entre dotação dos recursos naturais não renováveis detendo, por outro lado, uma das
de recursos naturais e o ritmo de cres- tenha uma expressão significativa4. mais elevadas taxas de pobreza do
cimento não tem sido observada1. Enquanto determinados factores mundo (68,2 % em 2001, de acordo
Sendo verdade estas e outras consta- culturais não forem radicalmente alte- com o Inquérito às Receitas e
tações contrárias daquela terrível cor- rados - tais como, o entendimento Despesas Familiares do INE.
relação, não é menos certo, porém,
que os países africanos não têm O PETRÓLEO NA ÁFRICA SUBSARIANA E NO GOLFO DA GUINÉ - 2004
conseguido estabelecer uma matriz de PAÍSES RESERVAS COMPROVADAS PRODUÇÃO ANUAL Número
relacionamento correcto e eficaz entre Milhões % % Milhões % % de anos
as sub-economias dos recursos nacio- barris mundial africana barris mundial africana
nais e as respectivas economias nacio- Angola 176006 1,5 26,4 361,7 1,2 20,7 48,7
nais, mesmo depois de mais de 50 Nigéria 35300 3,0 52,9 915,4 3,1 52,3 38,6
anos de independência política. O Sudão 6300 0,5 9,4 109,9 0,4 6,3 57,3
caso mais flagrante de manifestação Chade 1250 0,1 1,9 12,8 0,04 0,7 97,8
da maldição é o da Nigéria, cuja Congo 1000 0,1 1,5 81,0 0,28 4,6 12,3
taxa de pobreza é das mais altas do Gabão 2300 0,2 3,4 74,5 0,25 4,3 30,9
mundo, sendo superior à de Camarões 600 0,1 0,9 26,3 0,09 1,5 22,8
Angola. C. Marfim 450 0,0 0,7 20,1 0,07 1,1 22,4
No entanto, a Nigéria é uma RDC 300 0,0 0,4 12,8 0,04 0,7 23,5
potência africana (o maior produtor S. Tomé 425 0,0 0,6 9,1 0,03 0,5 46,6
subsariano) e mundial do petróleo: Guiné-Equat. 1200 0,1 1,8 127,8 0,44 7,3 9,4
reservas comprovadas em 2004 de Áfri.Sub-sar 66725 5,6 100,0 1751,3 6,0 100,0 38,1
35300 milhões de barris (3% do
FONTE: B.P. Statistical Review of World Energy, 2006.
mundo) e 915,4 milhões de barris

n° 28 - décembre 2006 LATITUDES 17


As evidências numéricas ante- tores de petróleo resolveram criar ção crescente dos diamantes como
riores comprovam a associação os Fundos Petrolíferos. forma de elevar o montante da sua
entre elevado crescimento petrolí- acumulação de capital, a intenção
fero e degradação das condições de alargar esta estratégia a outros
sociais da população. Samir Gharbi Angola: um caso de elevada minerais, como o ouro, o ferro, os
entende que a maldição do petróleo pobreza com intenso cresci- fosfatos, o cobre, etc. Os resultados
tem atingido os países africanos que mento do petróleo esperados deste modelo “rent-
o extraem e que se manifesta na seeking” serão o aumento das assi-
deterioração dos restantes sectores Parece incontestável que o metrias regionais e sectoriais, o
de actividade económica, mormente petróleo angolano não beneficiou, incremento da pobreza e a conti-
a agricultura, na corrupção, na aqui- até este momento, a generalidade nuação da desindustrialização do
sição de armamento, nos desvios de da população, em particular os País.
dinheiro e em outros desperdícios7. cerca de 70 % de pobres9. Segundo Estes aspectos levam à seguinte
No entanto, parece que não alguns estudiosos da economia colocação: a estratégia petrolífera
existe nada de determinante nesta angolana, o nosso petróleo foi, em Angola a quem, na realidade,
relação recursos naturais não reno- desde os primórdios da nossa inde- serve? Às companhias americanas
váveis-desenvolvimento social - o pendência, usado numa dupla pers- interessa-lhes a intensificação da
problema é de vontade política, pectiva, a saber, como instrumento produção de petróleo para reduzi-
ajustamento cultural, modelo de da política externa (valorizando o rem a dependência do instável
desenvolvimento e democracia seu poder negocial na arena polí- Oriente Médio. Para a China e a
económica. tica internacional) e enquanto ferra- Índia o petróleo angolano é essen-
O que fazer para alterar este menta do reforço da política do cial para assegurar os intensos cres-
estado de coisas? Desde logo, é “rent-seeking” da sua elite dirigente. cimentos esperados até ao final da
conhecimento geral que sistemas Ennes Ferreira apresentou no ano presente década. Para a elite polí-
democráticos consensuais e trans- passado um estudo bem documen- tica angolana envolvida nos negó-
parentes ajudam muito a assegurar tado sobre a inter-relação entre o cios do petróleo e dos diamantes é
que os frutos das riquezas naturais petróleo, a natureza das relações fundamental reforçar a sua partici-
sejam adequada e equitativamente externas de Angola e as alianças pação no “rent-seeking”.
gastos. Mas, também, os fundos políticas internacionais que foi Tem sido criado em Angola uma
petrolíferos (“oil funds”). Vítor possível lapidar com base na nego- espécie de Estado mercantilista, em
Santos escreve: “mas, afinal de ciação dos recursos naturais ango- que, à semelhança da Idade Média
contas, quais são os fenómenos lanos 10 . O ponto essencial da europeia, a prosperidade da Nação
económicos, típicos de países produ- “realeconomic” e da “realpolitik” é avaliada pela riqueza do monarca
tores de petróleo, que podem ser que Ennes Ferreira apresenta é o e da sua côrte. A ideia de que é
minimizados através da criação de do sucesso que a diplomacia necessário o estabelecimento duma
“oil funds”? Sem procurar ser exaus- externa angolana conseguiu na burguesia nacional endinheirada -
tivo, destacaria os seguintes temas: disputa de apoios políticos interna- diferente, como se sabe, duma
as consequências da volatilidade cionais e na negociação de finan- burguesia rica - de modo a que se
dos preços do petróleo sobre a evolu- ciamentos externos 11 . Aponta-as, garanta a independência económica
ção das variáveis macroeconómi- igualmente, como responsáveis pela do País, tem levado à acentuação
cas e os seus efeitos perversos sobre possibilidade do País ter sistemati- do comportamento “rent-seeking” e
os comportamentos das empresas e camente adiado o estabelecimento ao agravamento das desigualdades
dos consumidores; os reflexos no dum programa económico com o na distribuição do rendimento
padrão de especialização dos países, Fundo Monetário Internacional e a nacional. Mesmo que seja verda-
decorrentes da apreciação da taxa discussão de parte da dívida externa deira a estimativa do Governo de
de câmbio resultante do súbito e no Clube de Paris, segundo as suas que a taxa global de pobreza se
intenso afluxo de receitas de expor- condições. Os recentes financia- tenha reduzido para 56 % em
tação de petróleo ( a “Doença mentos chinês e indiano são referi- 2005 12 - consequência dum maior
Holandesa” é isto); a repartição dos por Ennes Ferreira como exem- resguardo do poder de compra dos
equitativa dos benefícios decorren- plos actuais da utilização da arma rendimentos da população pobre
tes da exploração petrolífera entre do petróleo para a obtenção de (consentido pela valorização do
a geração presente e as gerações créditos externos. kwanza e a diminuição da inflação),
futuras; finalmente, a utilização Quanto ao comportamento dum aumento da produção agrícola
dos recursos petrolíferos no finan- “rent-seeking” da elite dirigente camponesa e duma diminuição do
ciamento do processo de diversifica- angolana, Ennes Ferreira afirma que desemprego - ainda assim Angola
ção da base económica dos países a exploração intensa dos recursos continua a ser um País de pobres.
em vias de desenvolvimento 8.” Foi minerais do País o serve duma O separador económico médio
por estas razões, como sublinha maneira lapidar. De resto, acres- entre ricos e pobres - o conhecido
Vítor Santos, que a Noruega e cento eu próprio, conforma-se quintil de rendimento - continua a
outros países desenvolvidos produ- naquele comportamento a explora- agravar-se, assistindo-se a uma cres-

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cente concentração da riqueza em RECEITAS FISCAIS PETROLÍFERAS EM ANGOLA
pouco mais de 5 % da população13. (milhões de dólares)
Algumas das vias de enriqueci-
mento passam, inexoravelmente, RUBRICAS 2000 2001 2002 2003 2004 2005
pelo Orçamento Geral do Estado, Valor Produção 7414 6144 7739 9007 13304 23014
adjudicando-se por 500 o que na % governam. 53 52 43 43 42 43
realidade vale 50 14 . A evidente Rec. Fiscais 3945 3194 3304 3892 5624 9909
abundância de recursos financeiros Taxas 2976 2211 2275 2757 3953 6496
do Estado - proveniente do incre- Comp.estrang. 1786 1490 1633 1937 2955 4705
mento no preço e na produção de Sonagol1190 721 642 820 998 1791
petróleo e dos empréstimos exter- Gover.Oil Profit 968 983 1030 1136 1671 3413
nos com garantia do petróleo - faci- Bónus - 350 75 34 301 -
lita e estimula uma gestão laxista
FONTE: Angola – Selected Issues and Statistical Appendix, International Monetary
dos dinheiros públicos, promove a
escolha de maus projectos de inves- até 2010-2012. Até esta altura e para ainda não são visíveis os seus resul-
timento público e atenua o rigor da uma produção média diária de 2,2 tados na vida quotidiana das
fiscalização. Corre-se o risco de o milhões de barris, ter-se-à consu- pessoas?
“canteiro de obras” em que o País mido 32% das reservas estabeleci- Compulsando as estatísticas
se está a transformar dar origem a das em 17600 milhões de barris. disponíveis verifica-se que entre
empreendimentos de qualidade Depois - a não ser que novas desco- 2000 e 2005 o PIB petrolífero cres-
discutível, durabilidade reduzida, bertas se efectivem - a estabilização ceu 68,5% em termos acumulados,
retorno económico marginal e utili- e o crescimento económico terão a que correspondeu uma taxa
dade social duvidosa. de seguir por caminhos bem mais média anual de 11,0% - comparável
As receitas fiscais petrolíferas ortodoxos, como, por exemplo, a à cadência chinesa nos últimos
têm sido o suporte fundamental da da sustentabilidade orçamental pela anos. Para 2006 está averbada uma
manobra de estabilização macroe- vertente das despesas, a da redu- taxa de crescimento de 21,2% (o
conómica de Angola, mas não, pelo ção de alguns investimentos públi- que perfaz uma duplicação do
menos, por enquanto, da redução cos, a da reforma da Administração produto em seis anos) e para 2007
significativa da pobreza. A sua Pública pelo despedimento de prevê-se uma cifra em torno dos
evolução apresenta-se do modo funcionários, a da eliminação da 33,6%. Os preços internacionais do
seguinte. corrupção, do tráfico de interesses petróleo angolano - que em
A segunda linha da tabela ante- e do amiguismo, a do apoio susten- conjunto com as quantidades
rior - que se refere à percentagem tado à agricultura, às pescas e à produzidas perfazem as receitas
das receitas petrolíferas do Governo indústria transformadora. fiscais petrolíferas do Governo -
face ao valor de produção - vai Desde a independência que a mais do que duplicaram naquele
colocar problemas importantes no estrutura económica se tem mesmo período de tempo. Em
futuro. Os custos elevados - parti- desequilibrado em favor da extrac- contrapartida, a economia não
cularmente na fase de “startup” - da ção de petróleo, o sector de maior mineral - responsável por dar
extracção de petróleo em águas dinamismo na economia nacional. emprego à população activa, gerar
ultraprofundas reduzem a potencial O quadro a seguir apresenta esta rendimento, combater a pobreza
margem de partilha das receitas situação desde 1997. endémica, melhorar a distribuição
totais para o Governo (e também A quem tem aproveitado o uso do rendimento e reduzir a depen-
para as companhias petrolíferas) e das receitas petrolíferas para a esta- dência externa do País - apresentou
na medida em que se prevê um bilização macroeconómica? Porque um desempenho muito mais
corte substancial na exploração “on
ESTRUTURA DA ECONOMIA ANGOLANA
shore” e “off shore”- águas superfi- (valores em percentagens)
ciais - a que rende maior margem
para o Estado - as receitas fiscais SECTORES ECONÓMICOS Média97/00 2001 2002 2003 2004 2005
petrolíferas irão declinar bastante Agricultura,silvicultura,pescas 8,4 8,3 8,1 8,4 9,7 8,6
até 2025, prevendo-se que nesse Petróleo e refinados 52,5 52,3 54,7 49,4 51,9 56,3
ano se situem em torno dos 12 mil Diamantes e outros 6,1 6,3 4,8 4,6 3,1 2,9
milhões de dólares (contra, por Indústria transformadora 4,2 4,0 3,8 3,9 4,8 4,1
exemplo, 19 mil milhões em 2010, Energia eléctrica e água 0,0 0,0 0,0 0,0 0,2 0,1
ano em que se prevê o “peak oil” Obras públicas e construção 4,0 3,7 3,5 3,6 4,7 4,1
angolano). Equivale por dizer que Comércio,Bancos,Seguros,
Trasportes, Comuni. etc. 16,2 15,8 14,3 14,5 13,8 14,9
o mais importante da estabilização
Outros 8,6 9,5 10,7 15,4 12,0 9,0
macroeconómica e da reabilitação
PIB 100,0 100,0 100,0 100,0 100,0 100,0
das infraestruturas físicas, pela
vertente das receitas dos impostos FONTE: Relatório Económico de Angola 2005, Universidade Católica de Angola, Centro
petrolíferos, terá de estar concluído de Estudos e Investigação Cientifica

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modesto e traduzido, para o mesmo reformas e os ajustamentos não privada e o investimento produ-
período, por uma variação acumu- tiveram, por enquanto, espaço e tivo.
lada de 46,5%, correspondente a tempo de afirmação. Quando falo • Temos uma cultura e uma atitude
uma taxa média anual de 7,9% 15 . de instituições refiro-me ao que não promovem a auto-respon-
Fica, por conseguinte, evidente que sistema judicial, de notariado e sabilidade do cidadão (o espírito
a estratégia de estabilização macroe- registo, ao sistema de educação, de partido único e do Estado-
conómica de Angola tem tido o seu ao sistema de saúde e ao sistema Providência ainda se encontra
centro de gravidade na economia de Administração Pública. Mas não muito arreigado, aliado a uma
petrolífera e nas receitas por si gera- só. Tão importantes, nesta tradição em que pretensamente a
das. designação de instituições, quanto solidariedade é o valor mais
Apesar de todo o sucesso - as anteriores, coloco o reconheci- importante), nem o incentivam
mesmo que relativo - nas medidas mento da propriedade privada, os para os comportamentos e posi-
de ajustamento macroeconómico, hábitos de trabalho, de disciplina cionamentos mais correctos. Neste
nas reformas de mercado e em e respeito, as atitudes e comporta- contexto, a probabilidade de quem
alguns acomodamentos na gestão mentos, etc. nascer pobre, assim morrer, é
orçamental, a melhoria das condi- • Temos uma sociedade que não muito elevada.
ções de vida da população ainda prepara bem os seus cidadãos, em • O(s) empréstimo(s) chinês(es)
não se fez sentir16. Algumas justifi- particular os mais desfavorecidos, não têm aquecido a economia, na
cações podem ser apresentadas: que perpetua elevadas taxas de proporção que se esperava,
• Não conhecemos bem os “lags” repetência e de abandono escolar porque o grau de incorporação
da política económica em Angola, e mantém um ensino caduco e de nacional dos empreendimentos é
ou seja, o “tempo de espera” entre baixa qualidade. muito baixo. Assiste-se a um incre-
as medidas, os resultados intermé- • Temos uma sociedade rígida e mento do Valor Agregado do
dios (como a estabilização macroe- com um Estado ineficiente e sector da Construção sem reflexo
conómica) e os resultados finais asfixiante, em que os recursos no aumento da cadeia de consu-
(como o crescimento económico disponíveis têm fraca mobilidade mos intermédios e do Valor
dos sectores não minerais); pode- e são, no geral, mal afectados, com Acrescentado Interno (juros, lucros
se estar à espera de algo que ainda mercados pouco abertos e concor- e salários ficam na China).
não teve tempo de aparecer. renciais, onde prevalecem protec- Aumenta a Construção, sem
* A estrutura da nossa economia - cionismos e favorecimentos e com aumentar a indústria dos materiais
petróleo/dependente (70%), “rent- um enquadramento que não faci- de construção e outras derivadas
seeking” (provocando uma lita, nem estimula, a iniciativa (telhas, tijolos, abobadilhas,
desigual repartição do rendimento
e da riqueza e, consequentemente, DISTRIBUIÇÃO FUNCIONAL DAS DESPESAS GOVERNAMENTAIS
o aparecimento duma burguesia
endinheirada) - pode funcionar RUBRICAS ORÇAMENTAIS POR FUNÇÕES 2001 2002 2003 2004 2005
como um factor limitativo da Em percentagem do Produto Interno Bruto
extensificação dos efeitos do ajus- Despesas com serviços gerais 13,5 16,5 6,6 3,9 7,8
tamento macroeconómico e das Defesa e segurança interna 9,0 7,5 2,9 1,8 7,3
reformas de mercado. Na África Educação 3,3 3,0 3,0 2,3 2,1
do Sul, no Botswana e nas Saúde 2,8 2,0 2,3 1,9 1,4
Maurícias, com estruturas econó- Segurança, assistência social, habitação,
serviços comunitários 3,5 2,8 4,4 3,3 5,4
micas e produtivas bem mais equi-
libradas e competitivas, as refor- Energia, agricultura, minas e transportes 3,6 2,6 10,1 7,1 2,2
mas têm outras condições e Juros 0,1 1,0 1,8 2,2 5,6
contextos de gerarem efeitos posi- Despesas não classificadas 12,9 14,4 13,7 17,4 -
tivos mais imediatos. Por isso e, TOTAL 48,7 49,9 44,7 39,9 31,9
também, por esta via, os mais Em milhões de dólares
importantes países “sadcianos” Despesas com serviços gerais 1210 1786 907 797 2572
têm vantagens sobre Angola, o Defesa e segurança interna 807 809 395 366 2408
que quer dizer que o nosso País Educação 292 321 417 478 702
tem de andar muito mais depressa Saúde 247 213 324 379 443
em questões de natureza estrutu- Segurança, assistência social, habitação,
serviços comunitários 310 307 607 678 1763
ral.
• As questões institucionais são Energia, agricultura, minas e transportes 324 277 1392 1437 734
determinantes. Não existem insti- Juros 9 112 251 458 1833
tuições no País e as aproximações Despesas não classificadas 1149 1555 1893 3538 -
existentes - no que a alguns órgãos TOTAL 4349 5382 6186 8131 10455
do Estado diz respeito - são muito FONTES: Fundo Monetário Internacional, op.cit.; Universidade Católica de Angola,
pouco competitivas, pelo que as op.cit.

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cimento, metalurgia, siderurgia, is in an extraordinary transition Algumas outras formas simples
fibrocimento, etc.)17. from an $800 per capita economy de melhorar a repartição do rendi-
• O montante de crédito ao sector about two years ago, to a $2400 per mento petrolífero são as seguintes21:
privado continua em patamares capita economy in around two • atribuição generalizada de bolsas
manifestamente insuficientes para years time. It is inconceivable that de estudo aos estudantes do
que as medidas de ajustamento the best use of this huge increase is ensino primário, para que o quan-
macroeconómico signifiquem to spend all of it through the govern- titativo de crianças fora do sistema
maiores investimentos nos secto- ment. Even if public spending is escolar diminua e se consiga, no
res não minerais18. Em Dezembro brilliant, the result would be an futuro, gerações de força de
de 2005, o crédito à economia absurd imbalance between public trabalho competentes22;
(sem o Estado) representou menos consumption and private consump- • generalização da merenda esco-
de 2% do PIB. tion. No society on earth has public lar, melhorando, qualitativamente,
Do ponto de vista dos sistemas consumption higher than private o seu conteúdo proteico e energé-
sociais de apoio à redução da consumption. So, the government of tico; esta é uma forma indirecta
pobreza - embora depois de Abril Angola needs to channel some of de aumentar o rendimento dispo-
de 2002 o Governo tenha alterado the oil money directly to households nível das famílias mais pobres;
um pouco a tendência das suas so they can spend the money on • aumento do valor unitário das
opções de afectação dos dinheiros private consumption”. reformas e pensões;
públicos - a situação permanece
crítica, conforme o atestam as infor-
mações numéricas da tabela
seguinte.
Uma actuação firme em prol da
erradicação da pobreza exige uma
percentagem média de 30% das
receitas ficais totais, das quais 75%
são de origem petrolífera, pelo
menos até 2010-2011 (o “peak oil”
angolano), o que perfaz 4275
milhões de dólares em 2010 prove-
nientes deste sector de extracção
mineral, quando os impostos do
petróleo ascenderem a cerca de 19
biliões de dólares. Esta poderá ser
uma das formas de transformar o
crescimento petrolífero em desen-
volvimento social.
Paul Collier sugere outras
tendentes a valorizar as despesas
públicas e a considerá-las como um
factor de desenvolvimento da socie-
dade19:
• a criação de sistemas de
“procurement” e de avaliação para
as despesas públicas em infraestru-
turas, visando garantir a sua quali-
dade, durabilidade e correcta prio-
rização;
• a melhoria considerável do
“accountability” das despesas
sociais, com o objectivo de garantir
a melhor prestação de serviços
sociais à população e fazer com
que, de facto, os serviços cheguem
aos destinatários;
• a distribuição directa à popu-
lação de algum dinheiro com
origem petrolífera, para que se sinta
um beneficiário da extracção de
petróleo20. Collier escreve: “Angola Sonda de Petróleo

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privatizações e os seus resultados,
os juros activos e o sistema finan-
ceiro angolano, a necessidade duma
reforma tributária renovadora e
motivadora da iniciativa privada, a
erradicação da corrupção e a
promoção da transparência, o
sistema de educação, a burocracia
e a produtividade. São estes os
temas e serão as consequentes
reformas que ajudarão a resgatar o
dinamismo sustentável e a competi-
tividade estrutural da economia
nacional e a promover o espectá-
culo do crescimento económico 

1 Vítor Santos, op.cit em bibliografia,


página 81.
2 Ease of Doing Business, World Bank,
2005.
Luanda, Banco de Angola. 3 The Africa Competitiveness Report,
2004.
• distribuição duma cesta básica de de vida de 40,8 anos, um IDH de 4 Paul Collier opõe-se abertamente aos
alimentos às famílias mais pobres, 0,445, uma taxa de alfabetização Fundos Petrolíferos Inter-Geracionais.
o que aumentará o seu rendimento dos adultos de 66,8%, uma taxa Ver Paul Collier - Angola: Options for
Prosperity, May 2006.
disponível para aplicá-lo noutras bruta de escolarização combinada 5 É um indicador bastante diferente do
áreas valorizadoras do seu de 20,6%, uma taxa de pobreza de PIB por habitante.
trabalho na sociedade. 68% e uma repartição do rendi- 6 Não existem informações seguras
mento muito assimétrica. O correcto quanto às reservas petrolíferas do
aproveitamento das receitas fiscais nosso País. A B.P. Statistical Review
aponta para os 8,8 mil milhões de
Conclusões petrolíferas pode ser uma grande barris. O Fundo Monetário
oportunidade para se tornar o País Internacional para 9 mil milhões de
Angola pode vir a defrontar num dos melhores de África. barris. O The Africa Report, March,
problemas adicionais sérios para Quando se fala de desenvolvi- 2006, admite como certa uma cifra
converter a grave situação de mento é da sinergia e da integração de 12,4 mil milhões de barris, mas
fala da possibilidade do número ser
pobreza, se as reformas económi- da economia, da política e do social de 20 mil milhões de barris. O
cas, sociais e institucionais não que se está falando. É por isso que número do quadro acaba por ser
forem capazes de resolver os a resposta à pergunta “quanto uma média de todas estas aproxima-
problemas estruturais que tornam o tempo falta para o desenvolvimento ções. Quanto às reservas de gás natu-
País num dos mais dependentes da em Angola?” é muito difícil 23 . ral, o FMI avalia-as em 10 trilhões de
pés cúbicos.
actividade petrolífera. Para um Muitos dirigentes políticos e gover- 7 Samir Gharbi, op.cit.
montante de reservas deste mineral namentais estão convencidos que o 8 Vítor Santos, “Oil funds -
fóssil de 12,4 mil milhões de barris espectáculo do desenvolvimento já Fundamentos Teóricos e Evidência
e uma produção diária de 2,2 começou em Angola, quando nem Empírica”, Lucere, Revista Académica
milhões de barris, Angola terá petró- o próprio espectáculo do cresci- da Universidade Católica de Angola,
nº 2, Fevereiro de 2005.
leo para apenas mais 15 anos, que mento está sequer garantido para o 9 Não existem evidências empíricas
poderão não ser suficientes para futuro24. Depois de se passar pelo definitivas que comprovem que os
erradicar a pobreza, se persistirem “peak oil” em 2010 - quando a resultados positivos e animadores da
e se aprofundarem os esquemas produção petrolífera diária espe- estabilização macroeconómica e de
existentes de acesso desigual à rada for de cerca de 2,5 milhões de algumas reformas institucionais te-
nham gerado emprego em abundân-
renda petrolífera. Que poderão, barris - o PIB petrolífero contrair- cia, alterado a excessivamente dese-
igualmente, ser insuficientes para se-á 31,7% até 2015, não havendo, quilibrada repartição do rendimento
se criarem outros fundamentos com toda a certeza, alternativas e da riqueza, melhorado a condição
económicos alternativos do petró- sustentáveis na economia não de vida da população pobre e
leo, se a agricultura e a indústria petrolífera para permitir taxas democratizado a vida económica. O
que existe são meras suposições
transformadora não se reestrutura- globais de crescimento económico quanto aos impactos positivos deri-
rem convenientemente. em torno dos 8%-10% ao ano25. Por vados do controlo da inflação, da
Os indicadores sociais de Angola isso é que o debate sobre as refor- estabilização cambial, da recupera-
são dos mais baixos de todo o mas tem de ser permanente, tendo ção da confiança na moeda nacional
mundo, com uma esperança média de assentar em temas como as e dos investimentos públicos nas

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infraestruturas económicas e sociais. Banco Mundial para 2005 - que colo- REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
10 Manuel Ennes Ferreira - Realeconomic cam Angola abaixo de muitos países
e realpolitik nos recursos naturais em subsarianos, o número reduzido de • AFRICA (The) Report - Jeune
Angola, Relações Internacionais, nº6, recomendações da KPMG sobre a Afrique, March, 2006.
Junho 2005, páginas 73-89. transparência nas receitas fiscais • BRITISH Petroleum - Statistical
11 Em particular, Enes Ferreira apre- petrolíferas postas em prática, as fa- Reviwe of World Energy, 2006.
senta como exemplos destas posi- lhas do Tribunal de Contas na fiscali- • CAMBELL, Colin - The Essence of
ções realistas das autoridades ango- zação dos actos governamentais de Oil & Gas Depletion, MultiScience
lanas: a não nacionalização do gestão orçamental, etc. Publishing C. Ltd, 2003.
capital estrangeiro não português 17 Não invalidam o essencial destas • CARNEIRO, Emmanuel -
depois da independência, a não afirmações os investimentos previs- Especialização Rendeira e
entrega da exploração dos diamantes tos no Programa Geral do Governo Extroversão na África Subsariana,
e do petróleo aos soviéticos, a diver- 2007-2008 em novas cimenteiras e “Principia”, Setembro de 2004.
sificação da exploração dos blocos cerâmicas de barro vermelho, ainda • CATHOLIC Relief Services - O
petrolíferos com a entrada de novos por cima de iniciativa estatal. Fundo do Barril: O Boom do
operadores como a BP e a ELF, a 18 As taxas de juro nominais situavam- Petróleo em África e os Pobres,
entrada recente da China no negócio se, em Dezembro de 2005 e para 2003.
do petróleo angolano e o apelo a empréstimos bancários de maturi- • COLLIER, Paul - Angola: Options
comportamentos recíprocos em rela- dade superior a 1 ano, nos 70% for Prosperity, May 2006.
ção à renegociação da dívida externa (43,5% em termos reais), o que é, • DUARTE, José Caleia - Petróleo:
do País. francamente, desestimulador do Que Crise?, Editorial Bizâncio, 2006.
12 Balanço do Programa Geral do investimento privado. • FERREIRA, Manuel Ennes -
Governo 2005-2006 (ano de 2005) - 19 Paul Collier, op.cit., páginas 3 e 4. Realeconomic e Realpolitik nos
Governo de Unidade e Reconciliação 20 Naturalmente que pela via do “rent- Recursos Naturais em Angola,
Nacional, Março de 2006. seeking” o Governo já desde há bas- “Revista de Relações
13 Os chamados sinais exteriores de tante tempo tem promovido a trans- Internacionais”, Junho de 2005.
riqueza ajudam a entender o cerne da ferência de uma parte considerável • FUNDO Monetário Internacional
afirmação feita no texto: carros de da renda petrolífera para uma restrita - Angola: Selected Issues and
topo de gama às dezenas para uma burguesia nacional, ajudando ao seu Statistical Appendix, July 2006.
mesma família, disponibilidade de fácil enriquecimento. Não é desta • GHARBI, Samir - Oú Va Le
apartamentos de alto luxo - com pre- forma que a grande maioria da Pactole? “Jeune Afrique”,
ços entre 1 a 2 milhões de dólares - população, que é pobre, pode bene- Novembre, 2004.
esgotada antes mesmo de concluída a ficiar da economia petrolífera. • GOVERNO de Unidade e
sua construção e recheios habitacio- 21 Relatório Económico Anual 2005, Reconciliação Nacional de Angola -
nais caríssimos, ainda que, em muitos Universidade Católica de Angola, Balanço do Programa Geral do
casos, de muito mau gosto (este é um página 18. Governo 2005-2006 (Ano de 2005),
dos indicadores que diferencia uma 22 Esta medida costuma ser designada Março de 2006.
burguesia endinheirada duma outra de bolsa-família. • KUNSTLER, James Howard - O
rica). 23 Como é possível, mais de 14 anos Fim do Petróleo, Editorial Bizâncio,
14 A concorrência e o “procurement” depois de implantada a democracia, 2006.
no fornecimento de bens, serviços e que jornalistas, repórteres e turistas • LEITE, Carlos - Natural
obras ao Estado podem ser falseados estrangeiros estejam proibidos de Ressources, Corruption and
de diferentes maneiras. fotografar o mercado do Roque Economic Growth, Relatório
15 Deve-se esclarecer que existem mui- Santeiro e se o tentam são vítima dos Económico de Angola 2005,
tas dúvidas e reservas sobre a medi- mais abjectos impropérios proferidos Universidade Católica de Angola,
ção do nível de actividade do sector pelas autoridades policiais. A reporta- Centro de Estudos e Investigação
não mineral e da sua variação no gem do jornalista brasileiro sobre Científica.
tempo, donde não serem seguros os Luanda - Ricardo Freire: Luanda - do • SANTOS, Vítor - Oil Funds:
valores do texto. Acresce que as ponto de vista dum jornalista brasi- Fundamentos Teóricos e
bases sectoriais de partida são muito leiro, www.angonotícias.com - Evidências Empíricas, “Lucere”,
baixas. Pelo contrário, para as activi- deixou-me muito envergonhado e revista académica da
dades de extracção de petróleo e devia ser lida por quem acha que o Universidade Católica de Angola,
diamantes as informações são com- espectáculo do desenvolvimento já Fevereiro de 2005.
pletamente fiáveis. começou em Angola. • SANTOS, Vítor - Petróleo: Benção
16 No seu último relatório de missão 24 A expressão “espectáculo do cresci- ou Maldição? Relatório
de 5 de Julho de 2006, o Fundo mento” é de Luís Inácio Lula da Económico de Angola 2005,
Monetário Internacional aponta algu- Silva, Presidente do Brasil. Universidade Católica de Angola,
mas falhas essenciais nas reformas, 25 São estas as taxas que na NEPAD Centro de Estudos e Investigação
afirmando, nomeadamente (páginas estão estimadas como as mínimas Científica.
81 e 82), “the development of necessárias para que a taxa de • UNDP - World Human
Angola’s private sector has been slo- pobreza se reduza em pelo menos Development Report 2005.
wed in part by lack of transparency 50% até 2020. • UNIVERSIDADE Católica de
and poor governance and progress Angola, Centro de Estudos e
in resource revenue transparency Investigação Científica - Relatório
has been slow”, dando como exem- Económico Anual 2004 e 2005.
plos destes fracos resultados a falta • WORLD Bank - African
de empenho do Governo face à Development Indicators, 2005.
“Extractive Industries Transparency • WORLD Bank - Ease of Doing
Initiative”, a fraca capacidade de Business, 2005.
“procurement” das agências governa- • WORLD Bank - The Africa
mentais, a baixa performance nos Competitiveness Report, 2004.
indicadores de boa governação do

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