Você está na página 1de 3

Prefácio

Antropólogo, filósofo, poeta, romancista e ensaísta,


Édouard Glissant integra a geração de intelectuais das
colônias que emigrou para a Metrópole (França) e cuja
reflexão crítica se formou durante o pós-guerra, na atmosfera
das lutas anticoloniais, e na reflexão sobre o colonialismo.
O conjunto de sua obra representa uma importante
contribuição para a discussão da identidade e do encontro
das culturas na contemporaneidade. Em sua Introdução a
uma poética da diversidade, o autor desenvolve uma reflexão
– ao mesmo tempo sutil e vigorosa, que se constrói longe
dos sistemas fechados e dos caminhos teóricos já trilhados –
acerca da defesa da diversidade das culturas face ao processo de
estandardização globalizadora, questionando os parâmetros
impostos pela cultura ocidental, dos países hegemônicos.
Para Glissant, os povos que irrompem na
contemporaneidade necessitam construir sua modernidade
à força, e cabe às artes em geral, e à literatura em particular,
a função essencial na propulsão do imaginário utópico de
suas coletividades; do contrário estas correm o risco de não
se nomear, de calar sua voz, sua identidade e seu projeto
coletivo. Assim sendo, sua escrita – de grande densidade
poética – está conscientemente ancorada na espessura
antropológica e na singularidade histórica do lugar de onde
o intelectual, o poeta, o escritor e o artista emitem a sua
voz, o seu canto.
Em sua produção poética, ficcional e ensaística,
Glissant discute as forças centrípetas das culturas
antilhanas e das Américas marcadas pelo Tráfico de
africanos, pelo sistema de plantação e a escravidão, forças
que considera determinantes no processo de constituição
da identidade cultural de uma grande parte dos povos da
América colonizada pela Europa, e marcada pela presença
africana. Nessa perspectiva, o autor fornece parâmetros
para compreender a complexidade das questões culturais
colocadas aos povos historicamente colonizados, e que hoje
vivenciam os impactos dos processos de globalização.
Entretanto, sua reflexão transborda o espaço do
Caribe e da América da diáspora africana, e, dentro de
uma perspectiva supranacional, nos remete à questão do
contato entre as culturas, as línguas e as civilizações, na
contemporaneidade.
Em Introdução a uma poética da diversidade, o
autor parte da análise das identidades culturais do espaço
geopolítico do Caribe e das Américas para abordar o
imaginário das línguas – os conflitos e negociações entre
as línguas e as linguagens – as culturas e as identidades em
movimento dentro do processo de crioulização relativo a
todos os povos na atualidade; o lugar cultural e o Todo-
o-mundo, entre outros, propondo uma estética da Relação
que considera a questão da identidade das minorias e dos
povos e/ou das nações emergentes, e a função emancipatória
das literaturas dos povos em face da dominação política e
econômica, e da ameaça de uniformização das culturas.
Na reflexão glissantiana, as fronteiras entre os
gêneros e a tipologia textual são deslocadas, abolidas e o
pensamento poético – que procura traçar um “rizoma com
o mundo”, conforme precisa o autor – irriga a escrita na
delicada busca de deciframento do real, tanto no campo
estético, quanto nos campos histórico, político e ideológico.
No processo de elaboração desse rizoma, as transformações
do espaço-tempo e das realidades culturais, bem como
os deslocamentos e as errâncias, tornam-se constitutivos
de sua própria escrita, no sentido de que o pensamento

10
divaga do espaço-tempo ocidental à diversidade cultural do
mundo, ao encontro entre as culturas cujas resultantes “são
imprevisíveis”.
Para Glissant, as culturas não são, mas estão dentro do
processo da Relação, e a função exploratória das artes e das
literaturas coloca-se como urgente e necessária no árduo
trabalho de fazer emergir a complexidade e a heterogeneidade
de cada cultura específica em Relação dentro da Totalidade-
Terra, tendo em vista pensar os caminhos possíveis para
a preservação da diversidade dentro da confluência das
culturas.
Enilce Albergaria Rocha*1

*
Profa. do Mestrado em Letras / Estudos Literários da UFJF. Doutora em
Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa/ USP com a tese
“A Utopia do Diverso: O pensamento Glissantino nas Escritas de Édouard
Glissant e Mia Couto”.

11