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HOUGATE, Stephen.

The Unity of Theoretical and Practical Spirit in Hegel's Concept of


Freedom. The Review of Metaphysics, v. 48, n. 4, jun.1995, p. 859-881.

I
No §481 da PM, Hegel afirma que a vontade livre concreta é a união entre espírito teórico e
prático. Enquanto seres racionais, a ação do homem deve envolver um sujeito que conhece e
entende – 859 – o que quer fazer através daquela ação. Essa é a inteligência teórica. Atividade
prática e atividade teórica são modos da mesma básica atividade humana de pensar. A
diferença entre entendimento e vontade é a diferença entre uma atitude teórica e um atitude
prática. Pensamento e vontade não são faculdades mentais distintas, mas a vontade é uma
modo particular do pensamento (VR 4102), o que não quer dizer que sejam a mesma coisa. A
diferença entre “thinking as thinking and thinking as willing” está numa nota manuscrita a PR4:
a inteligência teórica está em considerar o que é, deixá-lo ser (es lassen) e perceber (“cognize”)
aquilo como é, sabendo ser universal; espírito prático é uma relação negativa com o mundo,
mudando conforme uma determinação colocada por mim. - 860

II
A inteligência teórica é externamente determinada, pois recebe seu conteúdo através da
sensação. Essas sensações são algo externo ao sujeito. – 861 – Ou seja, há a consciência de um
objeto externo ao sujeito e, por conseguinte, de um sujeito. Mas sensação e consciência não
fazem o próprio momento teórico do conhecimento. A consciência é teórica na medida em
que concebe as coisas como distintas da subjetividade, mas, para a consciência, o objeto é
apenas algo externo, um outro para a subjetividade, enquanto ele apenas é propriamente
conhecido quando é desvelado pelo pensamento. É o pensamento o momento propriamente
teórico.

O caráter distintivo do pensamento é que, nele, o que o objeto é não é apenas o que é externo
para nós, mas o que é revelado no pensamento. O pensamento não é apenas uma
representação do objeto, mas uma realização do caráter objetivo da coisa enquanto algo que é
trazido à minha mente no próprio pensamento. A verdade de um objeto está no meu
pensamento – 862 -, o que Hegel explica como sendo a remoção do que há de estranho no
objeto e tornando-o meu (VR 4103-5). Isso não é um idealismo, como se o objetos apenas
existissem na minha mente. É precisamente o pensamento que afirma a verdadeira
objetividade dos objetos, aquilo que os sentidos não captam diretamente.

Com isso temos três importantes elementos na concepção de Hegel sobre o pensamento: o
pensamento é subjetivo, é sempre pensamento de alguém; o pensamento não é puramente
subjetivo que é peculiar apenas a mim, mas é algo universal que pode ser entendido por
todos; o pensamento é objetivo, o que entendo haver é o que de fato há (as determinações do
pensamento são determinações fundamentais da coisa). – 863 – Nada disso exclui a
necessidade da sensação, por exemplo para os objetos naturais. Ocorre que a sensação é
apenas a percepção de um objeto como algo que existe [ein Seiendes], enquanto o
pensamento é a percepção de que as estruturais universais que entedemos o mundo ter de
fato estão lá. Pensamento e consciência são como intuições intelectuais. - 864

III
Do outro lado, a inteligência prática nos diz que é possível agir no mundo. Isso apenas é
possível pois o homem é capaz de abstrair. Abstrair de suas próprias características e dos
elementos ao seu redor. Ao abstrair esses elementos, o homem é capaz de projetar novas
possiblidades para si e para o mundo. “That is to say, by understanding myself as essentially
the source of new possibility, I understand that what I "am" is ultimately not determined, but
is instead essentially indeterminate. This consciousness of myself as indeterminate, as sheer
possibility - as the possibility even of voluntary death is - Hegel explains, nothing but the pure,
abstract thought of oneself.” – 865 – A liberdade prática se funda no pensamento abstrato, no
poder de abstração.

O espírito prática envolve não apenas o pensamento absrato, mas também a tomada de
decisões para satisfazer uns desejo e não outros. A escolha é uma expressão da atividade
prática na medida em que sempre poderia ser diferente. Essa escolha não significa que não
poderia ter sido outra, lembrando que ainda não estamos no mundo da moralidade ou da vida
ética. – 866

O exercício desse poder de abstração também me torna indistinguível das outras vontades
livres. Com isso, tenho uma identidade universal, algo que toda vontade livre deve ter para ser
livre. “By conceiving of myself as pure I, I thus come into an identity that is utterly mine, that
constitutes my own inner freedom, and one that is also utterly universal, and so not just mine,
but rather the identity that all free wills share.” O espírito prático se tornou novamente
teórico, pois uma das características da inteligência teórica é precisamente a consciência da
universalidade.

“This is the point at which the truly free will emerges. The truly free will, for Hegel, is thus the
unity of theoretical and practical spirit, the unity of intelligence and will - the will that does not
just promote its own arbitrariness, but rather wills what it understands freedom to be, namely,
something universal.” - 867

IV
Vimos também como a inteligência teórica não é apenas entender o que haveria, mas o que de
fato há (“that what it unterstands (rather than imagines) there to be, is in fact what there is”).
Na medida em que a vontade se torna explicitamente teórica, o conceito de liberdade também
muda. A liberdade não é apenas a possiblidade, mas é a atualidade/realidade da possibilidade.
A vontade não é apenas uma capacidade, mas “infinite in actuality” (PR22). Diferentemente de
Kant, em Hegel ser livre não exige uma intuição, podendo ser dado apenas pelo pensamento,
pois a liberdade não é a propriedade de um objeto putativo chamado “self” ao qual é preciso
ter acesso, mas é o próprio ato de abstrair e pensar por si. O ato de abstração já faz daquele
que o pensa livre. – 868 – Enquanto os objetos naturais exigem sensação e intuição, pois é um
conhecimento que envolver percepção, ao Eu basta o pensamento para garantir que se é livre,
pois a liberdade é o próprio ato de se pensar como livre. Ao mesmo tempo, ao saber isso, a
vontade também passa a saber que querer mudar o mundo de acordo com essa liberdade é
mudar o mundo de acordo com algo que, no momento, não é posto pela vontade livre. Essas
possiblidades não podem, porém, ser absolutamente arbitrárias, mas devem ser formadas
pelo que a própria libera é e o que a vontade se torna(rá).

Com o reconhecimento da liberdade como algo que pertence a vontade – 869 -, a liberdade se
torna um direito. O direito é a existência da vontade livre (PR29). A pessoa é a portadora desse
direito abstrato, que é a compreensão e que o direito e a personalidade são universais
(inteligência teórica) e o entendimento de que essa liberdade está na consciência da pessoa
como um Eu abstrato (inteligência prática). A pessoa percebe a si e a todos os demais como
portadores desse direito inalienável à liberdade abstrata. “My right to do and appropriate
whatever I choose is contained in the universal right of persons to do and appropriate
whatever they choose.” Ao abstrair minha liberdade da liberdade universal, eu cometo um
ilícito/dano (“wrong”). Nesse sentido, a ideia de uma liberdade minha e um direito
exclusivamente meu é um efeito ilusório [Schein] criado pela ideia de direitos de uma pessoa
abstrata. – 870 – Essa abstração da minha liberdade em relação a dos demais é uma separação
entre o lado prático da vontade (que me permite abstrair) do lado teórico (que entende a
liberdade como algo universal). Por isso a vontade do criminoso é uma abstração (VR 4552). Ao
fazer isso, o criminoso volta a dimensão universal da liberdade contra si, agora como algo
externo, pois nega o que o sujeito afirma como uma liberdade pessoal, mas o faz em nome de
um direito universal. – 871

“The will that acknowledges and internalizes the explicit difference between individual
arbitrariness and universal individual freedom and right, is the moral will.” A vontade moral se
liberta da ilusão de que a liberdade seria apenas perseguir as própria possibilidade, que a
liberdade é apenas algo seu, e percebe a liberdade como algo universal. A vontade moral
percebe que não é possível/correto simplesmente perseguir as possiblidades, pois as ações
tem consequências que devem ser antecipadas e levadas em consideração – esse é o direito
de objetividade da ação (PR120, 118). A vontade moral percebe que a persecução do seus
interesses e bem-estar deve avançar também os dos demais.

Na vontade moral, a demanda de universalidade não é algo externo, mas internalizado, pois
ela toma si a responsabilidade pelos seus atos, pois isso pode afirmar que não é responsável
por tudo, mas só pelo que intencionava. – 872 – O que era bom. “From this point of view it
becomes apparent that, even though the moral will does possess the theoretical
understanding that it is bound in its actions by the actual conditions it encounters in the world
and by the universal freedom of others, this will is still under the sway of the practical concern
to determine for itself and out of its own understanding what is required of it.” O direito da
subjetividade é o direito de ser ou reconhecer apenas aquilo que lhe é próprio.

A vontade moral, porém, ainda apenas persegue aquilo que colocou para si, por isso ainda é
uma vontade abstrata, por isso ainda está muito presa ao modo prático de pensamento. – 873
– Mas já há o reconhecimento do que se deve fazer como algo que vem de mim e não mais a
imposição de uma autoridade externa. A vontade moral que o bem-estar. A ela não lhe é
imposta uma concepção do que esse seria. Ao mesmo tempo, isso é a consciência do que se
deveria fazer, do que a liberdade exige de mim. - 874

V
“In the ethical will the moment of theoretical understanding is finally given equal status with
the practical will. The ethical will is theoretical in that, like the moral will, it knows freedom to
be universal, to be the freedom of all free individuals, but, unlike the moral will, it understands
freedom in the form of right and welfare to be actually present and realized in the world.” Isso
apenas é possível onde há leis e instituições, uma sociedade racional ou Estado, e não está
disponível a todos os povos e/ou em todos os momentos da história. O sujeito ético não se
limita a saber que existe leis e instituições para garantir seus direitos e bem-estar (inteligência
teórica) ou as toma como algo dado. Há também uma dimensão prática, pois ele age para
realizar suas possibilidades e interesses. “Moreover, the ethical subject recognizes that the
institutions that secure freedom and welfare only exist in the understanding and action of
practical beings who labor in order to secure their rights and welfare. For the ethical will,
therefore, ethical life has "its actuality through self-conscious action."” (PR142) – 875
Do ponto de vista moral, o agir ético conforme as leis do mundo apenas é uma limitação na
medida em que o sujeito moral quer resguardar sua liberdade prática abstrata. O dever ético
apenas limita a arbitrariedade da vontade moral, seu caráter abstrato. – 876 – A vontade ética
não vê sua liberdade como algo só seu e abstrato, mas percebe que sua liberdade é
assegurada pelas leis e instituições éticas, na medida em que esteja “em casa” naquelas. – 877

“The ethical will is the will that can and does make decisions by and for itself about what it is
to do (for example, about choice of work). It is, however, a will that makes its decisions on the
basis of its clear recognition of, and fundamental habitual disposition to promote, the laws,
institutions, and human practices that actually secure right and welfare.” – 878

“I wish to stress again that even though the ethical will is defined as ethical by its theoretical
understanding of what freedom actually is, and by allowing its activity to be guided by this
understanding, this will is also a practical will that produces new needs, new means of
production, and new social arrangements through its own activity; ethical life consists, after
all, in the will, action, and labor of individuals. However, the ethical wiil realizes that, as ethical,
its activity is also re-producing, sustaining, and giving life to the existing laws and institutions
which already actually secure freedom.” - 879

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