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FILOSOFIA E CIÊNCIA: SEMELHANÇAS E DIFERENÇAS

Juliana Vannucchi e Pedro Bracciali

Filosofia e Ciência embora hoje possuam distinções, são áreas que, no passado, já
estiveram vinculadas. Apesar das divergências, ambas carregam elementos em comum,
como, por exemplo, o rigor de seus estudos, a busca pela verdade, a explicação lógica
da realidade e a diferença que possuem em relação ao mito e à religião. É importante
esclarecer, que estes dois últimos itens baseiam-se em crenças sustentadas pela fé e em
verdades reveladas por profetas e/ou livros sagrados. Ou seja, não exigem provas
físicas, demonstrações, testes ou análises mais profundas para chegar até suas verdades,
pois estas já são previamente postuladas.

“A ciência deve tornar-nos senhores da Natureza” – Descartes.

A ciência é uma forma de conhecimento de natureza crítica, que busca verdades


necessárias e universais, e que possui caráter empírico e sistemático, e adquirido de
maneira programada, através de uma metodologia que baseia-se numa metodologia que
pode ser descrita simplificadamente como um processo que engloba observação,
hipótese, experimentação e conclusão. O primeiro passo, a observação, se dá quando o
homem atenta-se à natureza a sua volta para tentar compreendê-la. Este é o momento
em que surgem incertezas, teorias, e o desejo de conhecer aquilo que o cerca. A hipótese
é meramente provisória, e consiste em ideias e especulações que sugerem respostas para
tais incertezas. Os experimentos surgem então para tentar certificar a parte inicial da
tarefa (dúvida e hipótese) e para que assim, chegue-se ou não, a um resultado. Por fim,
aparece a conclusão, que pode confirmar ou negar os testes e as teorias hipotéticas.

Além desse procedimento padrão que a guia e a caracteriza, a ciência, por meio de suas
descobertas, busca prever os acontecimentos da natureza, pautando-se naquilo que
descobriu e concluiu através de seu método. Isto significa que as respostas que ela
encontra, não são válidas somente para os casos observáveis, mas sim, de maneira
genérica para todos os outros semelhantes. Portanto, uma série de experimentos,
proporciona respostas para quantidades de fenômenos que podem ser bem maiores do
que as que foram experimentadas previamente. Ressaltemos uma frase de Albert
Camus: “A primeira coisa que um bom cientista faz quando está diante de uma
descoberta importante e tentar provar que ela está errada”.
A ciência deve ser entendida como uma área que está sempre sujeita a mudanças, e que
se atualiza frequentemente sendo que, muitas vezes, substitui descobertas e “certezas”
antigas por descobertas e “certezas” novas. Por isso, a ciência possui também como
marca, o aspecto provisório.

Que é isto – a filosofia?

Ao pensar sobre essa questão, Heidegger (1999) argumenta que esse campo é muito
vasto e por isso se torna indeterminado. Há diferentes modos para discorrer sobre o que
é a filosofia. Ele sugere que se tome um caminho para não perder a devida
concentração. Tomando a questão dessa forma, ‘Que é isto – a filosofia? ’, aquele que
indaga coloca-se num ponto fora da filosofia, podendo transformá-la assim num objeto
do mundo afetivo e sentimental. Mas de fato, o que se deseja é filosofar, ou seja, mover-
se no âmbito da filosofia, e não fora e em torno dela.

Buscando determinar mais exatamente a questão e levando o diálogo para uma direção
segura, o ponto de partida pode ser a própria palavra philosophía em sua origem. Ela é
grega em sua essência, diz respeito ao mundo grego: ela se apoderou do mundo grego,
usando-o para se desenvolver. Por isso, somente é possível levantar a questão: ‘Que é
isto – a filosofia? ’, se o diálogo iniciar a partir de uma reflexão situada na cultura
helenística.

A palavra philósophos, segundo Heidegger, foi, presumivelmente, primeiro citada por


Heráclito ao se referir ao homem que ama a Sóphon. É um adjetivo como philárgyros, o
que ama a prata, como philótimos, que ama a honra. O que essa palavra diz para
Heráclito é difícil traduzir. Nessa época não existia a palavra philosophía, na forma
como passou a ser aplicada e conhecida. Heidegger assim define a palavra philósophos:
Philo: que ama; Sophón: “significa aqui, no sentido de Heráclito: homologein, falar
assim como o Lógos fala, quer dizer, corresponder ao Lógos. Esse corresponder está em
acordo com o sophón. ” (HEIDEGGER, 1999, p. 32)

A maneira de se expressar, como o fazem Sócrates, Platão e Aristóteles representa esse


modo grego de perguntar e pensar filosófico, por exemplo: ‘Que é isto – o belo? ’’, já
indica, ulteriormente, que se deseja estabelecer um conhecimento, ‘Que é isto (que se
denomina) belo? ’
Muito diferente do perguntar por perguntar: ‘Que é aquilo, lá longe? E a resposta
consistir em dar nome a algo que não se conhece exatamente: ‘é uma árvore’. É neste
sentido, que há um chamado de volta a essa origem grega, quando se pergunta: ‘Que é
isto – a filosofia? ’, pois se deseja investigar, verdadeiramente, pela essência da
filosofia.

Esse questionar filosófico ‘Que é isto? ’, é como algo a se destacar na observação


comum, como um admirar, um espanto. É uma busca por compreensão: Por que isso é
assim e não de outra forma? Essa procura pressupõe que existe algo a mais ainda não
revelado. Do espanto surge a dúvida e o questionar: ‘Que é isto – a morte? ’ ‘Que é isto
– o amor? ’. Platão, nos diálogos de Teeteto, diz do espanto, como essa origem
questionadora, sem com isso significar que o espanto é a causa do filosofar:

“Teeteto: Pelos deuses, Sócrates, como me espanto muitíssimo com o facto de ser assim
e, por vezes, quando verdadeiramente olho para isso, fico tonto.

Sócrates: Efectivamente, meu amigo, Teodoro parece não ter adivinhado mal a tua
natureza. Pois o que estás a passar, o maravilhares-te, é mais de um filósofo. De facto,
não há outro princípio da filosofia que não este […]” (PLATÃO, 2010, 155 d)

Em outro sentido, a indagação filosófica traz, em si, a procura pela essência do ser. A
resposta à questão: Que é isto – a filosofia? Consiste no fato de corresponder àquilo
para onde a filosofia está a caminho. E isto é: o ser do ente. recorre aqui a um outro
método que, se para ele não conduz ao filosofar, ao menos é historiográfico quando
interpreta Aristóteles na definição: “A filosofia é uma espécie de competência capaz de
perscrutar o ente, a saber, sob o ponto de vista do que ele é, enquanto é ente. ”
(HEIDEGGER, 1999, p. 34) A definição Aristotélica é uma entre muitas outras que se
pode escolher ao longo da história da filosofia. Ela assinala para o conteúdo e a
preocupação dos pensadores pré-socráticos, Heráclito e Parmênides – e mesmo outros
depois deles. É uma definição que está na origem da própria filosofia, mas que em
essência, é uma interpretação sobre ‘Que é isto – a filosofia? ’, definição essa que se
mostra bem atual.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
HEIDEGGER, Martin. Que é isto – a Filosofia? São Paulo: Nova Cultural, 1999. (Os
Pensadores). Tradução e Notas de Ernildo Stein

PLATÃO. Teeteto. 3.ed. Lisboa: Calouste Gulbekian, 2010. Tradução de Adriana


Manuela Nogueira e Marcelo Boeri. Prefácio de José Trindade Santos.

A filosofia e a ciência

Maria Lúcia de Arruda Aranha

No seu começo, a ciência estava ligada à filosofia, sendo o filósofo o sábio que refletia
sobre todos os setores da indagação humana. Nesse sentido, os filósofos Tales e
Pitágoras eram também geômetras, e Aristóteles escreveu sobre física e astronomia. Na
ordem do saber estipulada por Platão, o homem começa a conhecer pela forma
imperfeita da opinião (doxa), depois passa ao grau mais avançado da ciência (episteme),
para só então ser capaz de atingir o nível mais alto do saber filosófico. A partir do
século XVII, a revolução metodológica iniciada por Galileu promove a autonomia da
ciência e o seu desligamento da filosofia. Pouco a pouco, desse período até o século
XX, aparecem as chamadas ciências particulares - física, astronomia, química. biologia,
psicologia, sociologia etc. -, delimitando um campo especifico de pesquisa. Na verdade,
o que estava ocorrendo era o nascimento da ciência, como a entendemos modernamente.
Com a fragmentação do saber, cada ciência se ocupa de um objeto especifico: à física
cabe investigar o movimento dos corpos; à biologia, a natureza dos seres vivos; à
química, as transformações substanciais, e assim por diante. Além da delimitação do
objeto da ciência, se acrescenta o aperfeiçoamento do método científico, fundado
sobretudo na experimentação e matematização (verCapítulos 14e IS). O confronto dos
resultados e a sua verif icabilídade permitem uniformidade de conclusões e, portanto,
certa objetividade. As afirmações da ciência são chamadas juízos de realidade, já que de
uma forma ou de outra pretendem mostrar como os fenômenos ocorrem, quais as suas
relações e, conseqüentemente, como prevê-los. A primeira questão que nos assalta é
imaginar o que resta à filosofia, se. ao longo do tempo, foi "esvaziada" do seu conteúdo
pelo aparecimento das ciências particulares, tornadas independentes. Ainda mais que,
no século XX, a té as questões referentes ao homem passam a reivindicar o estatuto de
cientificidade, representado pela procura do método das ciências humanas. Ora, a
filosofia continua tratando da mesma realidade apropriada pelas ciências. Apenas que as
ciências se especializam e observam "recortes" do real, enquanto a filosofia jamais
renuncia a considerar o seu objeto do ponto de vista da totalidade. A visão da filosofia é
de conjunto, ou seja, o problema tratado nunca é examinado de modo parcial, mas
sempre sob a perspectiva de conjunto, relacionando cada aspecto com os outros do
contexto em que está inserido. Se a ciência tende cada vez mais para a especialização, a
filosofia, no sentido inverso, quer superar a fragmentação do real, para que o homem
seja resgatado na sua integridap de e não sucumba à alienação do saber parcelado. Por
isso a filosofia tem uma função de interdisciplinaridade, estabelecendo o elo entre as
diversas formas do saber e do agir. O trabalho da filosofia sob ess e aspecto é
importante e, sem negar o papel do especialista nem o valor da técnica que deriva desse
saber, é preciso reconhecer que o saber especializado, sem a devida visão de conjunto,
leva à exaltação do "discurso competente (ver Capítulos 5 e 11) e às conseqüentes
formas de dominação. A filosofia ainda se distingue da ciência pelo modo como aborda
seu objeto: em todos os setores do conhecimento e da ação, a filosofia está presente
como reflexão crítica a respeito dos fundamentos desse conhecimento e desse agir.
Então, por exemplo, se a física ou a química se denominam ciências e usam
determinado método, não é da alçada do próprio físico ou do químico saber o que é
ciência, o que distingue esse conhecimento de outros, o que é método, qual a sua
validade , e assim por diante. Eles até podem dedicar-se a esses assuntos, mas, quando o
fazem, passam a se colocar questões filosóficas. O mesmo acontece com o psicólogo ao
usar, por exemplo, o conceito de homem livre. Indagar sobre o que é a liberdade é fazer
f ilosofia. Mudando o enfoque: e se a questão for o comércio, ou a fábrica? A partir da
análise das relações sociais resultantes da divisão do trabalho, podemos questionar
sobre o conceito subjacente de homem que se encontra nas relações estabelecid as
socialmente. Portanto, a filosofia não faz juízos de realidade, como a ciência, mas juízos
de valor. O filósofo parte da experiência vivida do homem trabalhando na linha de
montagem, repetindo sempre o mesmo gesto, e vai além dessa constatação. Não vê
apenas como é, mas como deveria ser. Julga o valor da ação, sai em busca do
significado dela. Filosofar é dar sentido à experiência.