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Desreferencializado, isto é, maMi- pós-moderna, corno já se disse, a vi- Giannotti, J.A.

A universidade
pulando cada vez mais:signos em vez da não é um problema a ser resolvi·-· emritmodebarbárie. São Paulo, .
de coisas reais, e dessubstancializa- do, mas experiências em série para Brasiliense, 1986. 113p.
do, ou seja, sem substância interior, se fazer. Abertas ao infinito pelo pe-
o indivíduo pós-moderno tem seu le- quenino e" (p. 111).
me conduzido por um feixe de valo-
res que são antitéticos. O niilismo
torna-se-uma bandeira. José Carlos da· Silva Busto
Aluno do Curso de Mestrado em
b cotidiano banalizado, a antiar- Administração da EAESP-FGV.
te, a desestatização, a figuração, o
pastiche, a participação do público,
o cômico, a paródia são algumas das
constantes nas manifestações
pós-modernistas, seja nas artes plás-
ticas, no cinema, na música, ou na
Raramente se falou tanto, entre nós,
literatura.
a respeito da /'crise da universida-
.. O pós-moderno promove a derro- de/'. Os estudantes contestam o en-
cada das grandes idéias e valores que
sino que recebem, os professores
suportavam as principais instituições
sentem-se pouco satisfeitos com1
ocidentais. Deus, ser, verdade, famí-
suas funções e salários e a socieda-
lia. É em Nietzsche, na ser:niologia,
de faz recair sobre a instituição uni-
no ecletismo Marx com Freud que
versitária a expectativa de contribui-
pensadores como Derrida, Deleuze,
ções decisivas para a solução de seus
Lyotard, Baudriilard se armaram pa-
problemas._ Na tentativa de com-
ra desconstruir os princípios e con-
preender esta situação, pelo menos
cepções do pensamento ocidental e
· duasquestõesseimpõem: primeira- ~
desenvolver temas até então consi- j
mente, a de se saber quais são os li-
derados marginais, como: desejo,
mites possíveis para a atuação da
loucura, sexualidade,- poesia.
universidade, numa sociedade como
a :1ossa, e em segundo lugar, a de in-
O homem Rós-modemo é predo-
dagar o que está ocorrendo, de fato,
minantemente cool, apático, não se
no interior das escolas superiores de
entrega ao movimento de classes,
não lhe interessa o poder; tem suas modo a permitir que se fale em "cri-
raízes fincadas no momentâneo. Ele se".
é um narcisista, descontraído, de-· José Arthur Giannàtti propõe-se
senvolto, de identidade móvel. Seu a examinar tais questões, levando
ambiente é dominado pela tecno- em conta suas próprias idéias e an-
ciência. Vive no simulacro das coi- seios com relação à vida universitá-
sas, alimenta-se de signos. ria, da qual sempre participou, e a
sua experiência enquanto membro
O que advém ·disso tu.do? da comissão que estudou um novo
estatuto para a Universidade de São
"Sem identidade, hierarquias no Paulo e do grupo nomeado pelo
chão, estilos misturados, a pós-mo- MEC para formular uma nova políti-
d~rnidade é isto e aquilo, num pre- ca para a educação superior brasilei-
sente aberto pelo e. A tecnociência ra. Dividido em seis capítulos, A uni-
avança, maravilhosa, programando versidade em ritmo de barbárie ço-
tudo, mas sem rumo. O sujeito blip, meça por justificar seu título: o que
sem perseguir uma identidade única, são os ~~t~mpos bárbaros"? Tema do
harmonio'sa, vive a vida justapondo primeiro capítulo, este problema é
lado a lado suas vivências: e, e, e, e. apresentado a partir das confusões
Vivências pequenas, fragmentárias, teóricas que pode engendrar, daí a
porquE não se crê mais em totalida- observação do autor: "A barbárie
des o•J valores maiúsculos tipo Céu, não seria (. .. ) retroceder ao estado
Pátria, Revolução, Trabalho, mas se dos selvagens, à abolição de qual-
prestigia a prática na micrologia do quer legalidade, mas à dissolução
cotidiano. Assim posto, enfim, o dela, sua transformação em mero
pós-modernismo continua a flutuar expediente de domínio, instrumen-
no indecidível. Não há como decidir. toadhocdecontrolesocial" (p. 10).
Fim do moderno e começo do Pergur:1ta-se o autor se o Brasil dos
pós-moderno. É demônio terminal e últimos tempos não seria a encarna-
anjo anunciador. Na condição ção perfeita desse estado.

66 Revista de Administração de Empresas


Como se traduz a ·experi~ncia da . tas com cautela, pois"otreinamen- tura dependente são objeto de exa-
universidade em ·"tempos bárba- to se faz tanto na escola, como no lo- me pelo autor, que fornece assim,
ros"? A universidade moderna con-
JJ cal de trabalho. Naquela, cada indi- como se ilustrou, um quadro realis-
figura uma enorme máquina, alta- víduo procura obter uma educação ta das limitações e do alcance da
mente sofisticada e complexa, que formal mínima, dominar técnicas acão da universidade brasileira hoje,
engole e produz saberes, sábios e sa- simbólicas e corporais que o tornem f~rnecendo simultaneamente dados
bidos. Cada aula, cada artigo, cada flexível e adaptável a uma gama mui- sobre a vida destas instituições e ar-
lição se integra nesse corpo que res- to ampla de tarefas ..Num ·inundo em gumentos para que se pense sua
pira para manter sua ·longa letargia" que as profissões são muito lábeis, transformacão nos referenciais da
(p. 22}. Letargia esta, embalada no criando-se a todo instante caminhos sociedade atual. Todas estas razões
caso brasileiro pela "carência de tra- imprevisíveis, somente o planejador e a argúcia com a qual os problemas
dição, a gigantesca expansão dare- obcecado pode Imaginar uma estrei- são analisados tornam, portantà, o
de universitária durante a década de ta correlação entre a estrutura da livro uma leitura altamente recomen-
70, finalmente, o peso do autori1:aris- üniversidade e a estrutura do merca- dável.
mo dos últimos anos". A partirdes- do de trabalho" (p. 38).
sas constatações, o autor propõe-se Uma dimensão crucial da "crise"
a localizar origens da "crise" nas ca- da universidade, a qualidade do tra- Denice Barbara Catani
racterísticas da vida da universidade balho que ela vem desenvolvendo, é Professora assistente na Faculdade de
em nosso país, como, por exemplo, . analisada por Giannottí, partindo do Educação da USP .
a maneira pela qual esta instituição fato de que esta tem deixado .de la-
estabeleceu "um duplo·jogo de resis- do a verificação do valor da sua. pró-
tência e convivência com o autorita- pria atividade e produção. Diz ele:
rismo", nos anos subseqüentes ao "A universidade é o paraíso das clas-
golpe. E reconhece o fracasso da ses médias, o lugar por excelência de
universidade brasileira a·o colaborar suas práticas, o terreno onde se ar-
para a estruturação da tradição cien- ticulam seus ideais. Duma maneira
tífica no país formando "bons pes- muito peculiar combina o fazer e o
quisadores, competentes e capazes fazer de conta, tanto a prática do co-
de selecionar áreas estratégicas que nhecimento, como o conhecimento
lhes permitam aumentar as chances da prática. Escapando dos procedi-
de concorrer com os estrangeiros mentos $Oclalmente objetivos de
mais ricos (contribuindo para a orga- mensuração,transforma a docência,
nização de) uma infra-estrutura, du- o aprendizado e a pesquisa numa
ma organização, duma segunda na- dança ao mesmo tempo inútil e for-
tureza apropriada à prática científi- madora, vazia e cheia de significados
ca" (p. 31). sociais" (p. 46). E é "justamente esta
A questão seguinte, no livro: é a questão', da verificação da produção
de mostra r como a universidade vem da universidade, que hoje tem sido
funcionando enquanto escola: por mais debatida. A maioria dos envol-
que razões se supõe ser necessário vidos na discussão concorda em que
ensinar desde o início "a prática da esta verificação não tem sido ·levada
ciência e treinar para a descoberta"? a efeito. As opiniões divergem, no
Será que não se descuida, assim, do entanto,_ sobre as formas pelas quais
propósito de permitir o domínio de isso deveria ou poderia ocorrer, sem
vários saberes e técnicas essenciai$ que se exerça um efeito de falsa de-
à invenção? Qual é a suposição a monstração de serviços ou um con-
sustentar essa tendência? Para o au- trole ditatorial sobre professores e
tor, é importante lembrar a maneira funcionários, no interior de cada ins-
pela qual se têm concébido as rela- tituto ou escola·da universidade. Cri-
ções entre duas das funções da uni- térios de' avaliação do trabalho uni-
versidade: a docência e a pesquisa, versitário têm sido exaustivamente
que ele próprio entende possuir pon- discutidos e há também quem ponha
tos de interseção e separação nem em dúvida a própria exeqüibilidade
sempre bem divisados de modo a de uma verificação dessa natureza,
orientar a organização dos cutsos que seja significativa (é o caso ex-
que preparam pesquisadores e pro- presso no artigo do Prof. G. l..ebrun
fessores. Da rentabilidade, publicado pela Fo- ~ .
lha de S. Paulo, em .31 de agosto de
Um outro aspecto merece aten- ·. 1986) ..Universidade em ritmo de bar-
ção: a questão da organização de bárie não chega a discutir todas as
cursos, a demanda de diplomas e a implicações dessa proposta.
realidade do mercado de trabalho; as Temas como a autonomia da uni-
expectativas que recaem sobre a ins- versidade, democratização, ensino
tituição universitária devem ser vis- público e privado e a questão da cu I-

Resenluzs bibliográficas 67