Você está na página 1de 4

Brasília, 16 de novembro de 2020.

Oficio nº 089/2020

Excelentíssima Senhora,
Arlete Avelar Sampaio
Deputada Distrital do Partido dos Trabalhadores (PT)

Assunto: Nota Técnica em referência à modalidade do Homeschooling no Distrito


Federal

Prezada Deputada,

A Associação Brasileira das Instituições Comunitárias de Educação Superior –


ABRUC, a Associação Catarinense das Fundações Educacionais – ACAFE, a Associação
Nacional de Educação Católica do Brasil – ANEC, a Associação Nacional das
Universidades Particulares – ANUP, o Consórcio das Universidades Comunitárias
Gaúchas - COMUNG, o Conselho de Reitores das Universidades Brasileiras – CRUB, a
Federação Nacional das Escolas Particulares – FENEP, o Fórum das Faculdades
Comunitárias – FORCOM, a Federação Nacional das Associações Pestalozzi –
FENAPESTALOZZI, o Sindicato dos Estabelecimentos Particulares de Ensino do DF -
SINEPE/DF, o Sindicato dos Professores no Distrito Federal - SINPRODF, o Sindicato dos
Professores em Estabelecimentos Particulares - SINPROEP, a União Brasileira dos
Estudantes Secundaristas – UBES, a União Secundarista do Distrito Federal – UESDF e a
União Nacional dos Estudantes – UNE, vem por meio desta Nota Técnica Emergencial,
solicitar que Vossa Excelência a aprecie, com assistência de vossa respeitável Assessoria
Técnica de Gabinete, e possa formar opinião contrária a autorização da modalidade do Ensino
Domiciliar denominada de “Homeschooling”, no âmbito do Distrito Federal; e, por conseguinte,
votar contrariamente à referida iniciativa em votação a ser realizada na Câmara Legislativa do
Distrito Federal.
Apresentamos, a seguir, os motivos que nossas Entidades argumentam tecnicamente
serem de grande relevância para que Vossa Excelência possa respaldar seu posicionamento
técnico e político:
1) A proposta da educação domiciliar, pela própria natureza de criação de modalidade de
ensino, é tema compreendido no capítulo constitucional da Organização do Estados, e remete
para as “diretrizes e bases da educação”, matéria da competência legislativa privativa da
União inscrita no art. 22, inciso XXIV, da Constituição. Neste sentido, no ordenamento
jurídico vigente não existe no Brasil a modalidade de Educação Domiciliar;

2) Como inexiste Lei Complementar editada com fundamento no art. 22, parágrafo único,
da Carta Magna para delegar aos Estados e ao DF a competência para legislar sobre
essa questão específica da matéria “diretrizes e bases da educação nacional”, exclui-se,
assim, a atuação legislativa Distrital nesse tema;

3) a Lei de Diretrizes e Bases da Educação - LDB, norma de caráter nacional, contém


dispositivo que torna incompatível a adoção da educação domiciliar no âmbito do
Ensino Fundamental. Assim, o Distrito Federal não detém competência legislativa para
instituir a educação domiciliar, como proposto nos Projetos de Lei nº 356/2019 e 1.268/2020,
pois a matéria, sendo pertinente às Diretrizes e Bases da Educação Nacional, é de
competência privativa da União, conforme disposto no art. 22, inciso XXIV, da Carta
Magna.

4) O posicionamento do STF sobre a matéria deixou claro em 2018 que, para o


reconhecimento do ensino domiciliar no Brasil, faz-se necessário alterar a Constituição
Federal, a Lei de Diretrizes e Bases da Educação, além do detalhamento de como será
encaminhada a aprendizagem das crianças pelas famílias, como por exemplo: qual o
projeto educativo, quem será o professor e qual a exigência pedagógica dessa formação, quais
serão os processos de avaliação por competências e habilidades da Base Nacional Comum
Curricular – BNCC, e dos itinerários formativos que devem ser avaliados e por quais
instrumentos, entre outros.

5) A crise sanitária causada pela covid-19, agravou as desigualdades e as violências


estruturais e institucionais no país. As crianças, além de terem suas aprendizagens
comprometidas, também enfrentam questões graves de violência doméstica em todas as
classes sociais. A subnotificação e a escassez de dados sobre a violência contra
crianças e adolescentes são alarmantes, quando estão fora da instituição escolar, que
integra a rede de apoio à prevenção e proteção das infâncias e juventudes. Somente no mês
de abril, o Governo Federal recebeu 19.663 denúncias de violência sexual contra crianças
e adolescentes, o que representa um aumento de 47% em relação ao mesmo período do
ano passado. Diante dessas evidências estatísticas, questionamos: qual seria a real intenção
de aprovação em caráter de urgência da modalidade de educação domiciliar, já que ela não é
ensino remoto, e necessita de detalhamento pedagógico e regramento jurídico.

6) É relevante ser considerado que a escola, espaço social democrático e acolhedor da


diversidade, que é marca da nossa sociedade, pauta-se na educação inclusiva, na rede
pública e na rede privada. Nesse sentido, o que poderia justificar uma família a não querer
matricular seu filho em uma instituição escolar se temos a garantia da pluralidade de
ideias e concepções pedagógicas? Somente no Distrito Federal, pelo Censo Escolar 2019,
temos aproximadamente mais de 795 escolas da rede pública e 570 escolas de rede
privada; desta forma a Câmara Legislativa do Distrito Federal estaria dizendo que 1365
instituições de ensino não são capazes de oferecer um ensino de qualidade social?
Nessa perspectiva, parece-nos que o tema é uma questão que precisa de um regime de
colaboração entre todas as instâncias políticas, comunidade educativa e família. Entendemos
que não se justifica tirar a criança da escola, porque existem problemas; mas sim, unir os
sujeitos implicados em torno de uma gestão participativa das instituições de ensino para
melhoria tanto das questões estruturais como axiológicas que envolvem o ensino escolar.

7) Na escola aprendemos a conviver e a respeitar as diferenças. A família de uma criança


que requer educação especial, seja essa criança com deficiência, altas habilidades e/ou
superdotação, ou transtorno global de desenvolvimento, encontra na escola um espaço
inclusivo contribuindo assim para o desenvolvimento das potencialidades de seus filhos; bem
como, para o desenvolvimento socioemocional de todos os estudantes e da comunidade
educativa. Retirar as crianças da modalidade da educação especial da possibilidade de
frequentar a escola é retroceder na história da educação inclusiva para uma educação
pela integração ou exclusão, fato que não admitimos mais ser possível acontecer.

8) Questionamos se há viabilidade econômica do governo do Distrito Federal em garantir


benefícios às famílias da educação escolar, previstas nos Projetos de Leis submetidos a
essa casa, tais como passe estudantil, instrumentos de aferição e aprendizagem, retorno
ao sistema escolar na hora que quiserem, da mesma forma como é garantido às crianças
que estão no ensino escolar. Parece-nos um tanto contraditório na atual conjuntura
econômica que assola todas as instâncias do Governo Distrital.
Dada a urgência e a emergência política do momento, é o que apresentamos para a
vossa distinta consideração. Auguramos que Vossa Excelência se sensibilize com nossos
argumentos prévios, e que a educação das infâncias, adolescências e juventudes possa se
constituir em mais que discussões meramente políticas; e que alcancem o relevo para a devida
atenção pedagógica, social e educacional, a partir de critérios com base em evidências
educativas, definidas em lei discernidas as intencionalidades das famílias.
Certos de contarmos com vossa qualitativa apreciação e apoio, desejamos um
excelente debate em favor da Educação do Distrito Federal, em favor da Educação Brasileira.

Respeitosamente,

Ney José Lazzari Cláudio Alcides Jacoski Ir. Paulo Fossatti


Presidente ABRUC Presidente ACAFE Presidente ANEC

Elizabeth Guedes Carmen Lucia Helfer Waldemiro Gremski


Presidente ANUP Presidente COMUNG Presidente CRUB

Ademar Pereira Antonio L. Ternes Ester Alves Pacheco


Presidente FENEP Presidente FORCOM Presidente PESTALOZZI

Álvaro Moreira D. Júnior Karina B. de Jesus da Silva Rosana Barroso


Presidente SINEPE DF Presidente SINPRO EP Presidente UBES

Daniel F. de Correria Iago Montalvão


Presidente UESDF Presidente da UNE