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INSTRUMENTAÇÃO

BIOMÉDICA

Bruna Gerardon Batista


Validações dos
métodos analíticos
Objetivos de aprendizagem
Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados:

„„ Reconhecer os objetivos da validação de métodos analíticos.


„„ Determinar os principais parâmetros que integram a validação analítica
e seus significados.
„„ Identificar os procedimentos associados aos parâmetros de validação
analítica.

Introdução
O desenvolvimento, a adaptação ou a implementação de um método
analítico envolvem um amplo e complexo processo de avaliação que
estima sua eficiência na rotina do laboratório clínico. Denominado vali-
dação, esse processo possui vários parâmetros que passam por inspeção.
O sucesso desse método analítico se dá pelas suas características que, se
estiverem de acordo com os pré-requisitos estabelecidos, permitirão a
implementação do método. O objetivo da validação é demonstrar que
o método analítico é adequado para o seu propósito e, por isso, deve
ser considerada quando se desenvolvem ou se efetuam adaptações em
metodologias já validadas, na inclusão de novas técnicas ou no uso de
diferentes equipamentos.
Neste capítulo, você vai conhecer os objetivos da validação dos méto-
dos analíticos, vai ver quais são os principais parâmetros que integram essa
validação, assim como os procedimentos associados a esses parâmetros.
2 Validações dos métodos analíticos

Os objetivos da validação dos métodos


analíticos
Um método é uma sequência organizada de atividades com a finalidade de
obtenção de uma resposta para determinada questão. Aplicando esse conceito
à rotina laboratorial podemos pensar de que forma é feita a dosagem de gli-
cose que está no soro de um paciente. Nessa situação hipotética, a análise é
determinada pela ação de dosar essa glicose. Um método analítico, portanto,
é o processo que se utiliza para chegar até o resultado final, que será utilizado
para dosagem de substâncias de interesse no sangue de um paciente com
posterior liberação do laudo final (RIBANI et al., 2004). Por isso, o rigor da
análise laboratorial depende da reprodutibilidade do método utilizado para
tal, já que ela pode ser feita utilizando métodos analíticos qualitativos ou
quantitativos e, até mesmo, metodologias chamadas in house (metodologias
desenvolvidas pelo próprio laboratório).
Apesar de a escolha do método a ser utilizado no laboratório clínico ser
relativamente simples, ela não é a única, pois mais importante do que essa
escolha de metodologia, é a validação desse método para posterior utilização
na rotina (PEREZ, 2010). Isso acontece porque a demonstração de qualidade
dos resultados liberados no laudo de um laboratório é cada vez mais exigida e
reconhecida, visto que os dados analíticos (que são os resultados das dosagens)
não confiáveis podem comprometer a conclusão de um diagnóstico, conduzindo
a decisões, muitas vezes, fatais do corpo clínico com relação a um paciente.
O sistema analítico como um todo é conhecido por um conjunto de pro-
cedimentos que são utilizados para a realização de suas rotinas laboratoriais,
como a dosagem de glicose no soro, o exame químico da amostra de urina, a
contagem de hemácias no sangue, etc, incluindo também o funcionamento e o
uso de equipamentos, com possíveis diluições de amostras quando necessário,
e o uso de reagentes. Por mais insignificante que possa parecer, pequenas
alterações metodológicas na realização de um exame podem resultar em uma
alteração significativa na tomada de uma conduta clínica. É por essa razão que
a implementação de novos sistemas analíticos pode colaborar com o manejo
do paciente, já que resultados confiáveis das análises liberadas no laudo
laboratorial têm uma relação direta no diagnóstico do paciente. No entanto, a
busca por novas metodologias que visam a atender tanto implicações técnicas
quanto econômicas por parte do laboratório devem ser aliadas à qualidade
de forma estratégica.
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Com base nessa constante evolução dos processos analíticos no laboratório


clínico, podemos afirmar que esse avanço só colabora com a medicina, visto que
o diagnóstico clínico é estabelecido e complementado pelo laudo laboratorial
com frequênia. Nesse contexto, podemos citar a história dos laboratórios de
análises clínicas que, antigamente, utilizavam métodos manuais quase na
totalidade dos procedimentos, o que demandava um trabalho excessivo e
demorado, além da interferência de vieses. De forma gradativa, os métodos
manuais foram substituídos por metodologias automatizadas com o aporte de
equipamentos de alta produtividade, que atendem o crescente aumento da de-
manda e fornecem resultados com elevada exatidão e precisão. O modernismo
laboratorial permite a implementação de métodos analíticos que garantem
um fluxo racional e eficiente que fornece resultados com elevado nível de
qualidade em um curto intervalo de tempo ao corpo clínico, proporcionalmente
relacionado com o estabelecimento de um diagnóstico acurado e um tratamento
mais rápido e eficiente ao paciente (CAMPANA; OPLUSTIL, 2011).
A validação de métodos assegura a credibilidade dos resultados, evi-
denciando que a documentação de dados, após as análises de parâmetros,
surge como uma ferramenta não apenas para fins regulatórios, mas também
estatísticos, para a conclusão de uma validação. Segundo a Agência Nacional
de Vigilância Sanitária (ANVISA), os parâmetros estabelecidos que devem
ser documentados na validação de um método analítico são (BRITO; AMA-
RANTE JUNIOR; RIBEIRO, 2003; PEREZ, 2010):

„„ especificidade e seletividade;
„„ intervalo de confiança;
„„ linearidade;
„„ limite de detecção;
„„ exatidão;
„„ precisão;
„„ robustez.

Avaliação do sucesso da implementação de um novo


sistema analítico no laboratório clínico
De que forma deve ser realizada a avaliação do sucesso da implementação de
um novo sistema analítico no laboratório clínico? A resposta dessa questão é
relativamente simples e está baseada em mais perguntas que, se respondidas
de forma positiva, farão desse novo sistema um sucesso. Observe, a seguir
(SUMITA, 2010):
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„„ Há referências na literatura que comprovem o desempenho do método


analítico?
„„ As condições de armazenamento dos reagentes que serão utilizados
na metodologia e a infraestrutura para uma possível estocagem desses
reagentes foi verificada? O laboratório está apto para essas condições?
„„ O laboratório está preparado para atender os requisitos de biossegurança
relacionados à geração de resíduos de um novo equipamento utilizado
para a implementação de uma nova metodologia?
„„ A biossegurança do trabalhador que estará exposto e irá realizar essa
nova metodologia foi analisada?
„„ A validação da metodologia atendeu aos testes dos parâmetros reque-
ridos pela ANVISA?
„„ Os valores de referência que serão liberados no laudo, junto ao resultado,
foram determinados e são compatíveis com o método anterior?
„„ A equipe foi treinada para a execução dessa metodologia?

A partir do momento em que se estabelece a necessidade da implementação


de uma nova metodologia analítica, de forma inicial, ela deve ser testada para
que se comprove, por meio da documentação de dados, o seu desempenho,
que é caracterizado como um resultado confiável a ser liberado no laudo final.
A confiabilidade do resultado se dá pela averiguação estatística dos parâmetros
estabelecidos pela ANVISA, como robustez, precisão, exatidão, limite de de-
tecção, linearidade, intervalo de confiança e especificidade. Para que se tenha
o sucesso da implementação metodológica, após o desempenho, outros fatores
como condições de estocagem e treinamento da equipe são fundamentais.

O objetivo de uma validação é demonstrar e comprovar que o método é apropriado


para a finalidade pretendida e, muitas vezes, há a necessidade de se alterar a meto-
dologia analítica de um laboratório clínico. Quando há a necessidade dessa alteração?
„„ Quando se procura melhorar a exatidão de um método atual.
„„ Quando há a necessidade de implementação de um novo equipamento.
„„ Quando há a necessidade de reduzir custos com relação a algum reagente utilizado
na metodologia atual.
„„ Quando há a necessidade de implementar uma nova análise (um analito que não
era dosado pelo laboratório).
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Principais parâmetros da validação analítica


A realização de uma validação consiste em uma série de ações documentadas
que determinam a implementação da metodologia analítica. Além disso, pode-
mos citar o treinamento do profissional; porém, vamos focar nos parâmetros
que devem ser analisados em um processo de validação de uma metodologia
analítica para que essa possa ser estabelecida como rotina de uso.
Os parâmetros que devem ser analisados e documentados com relação a
uma metodologia analítica no seu processo de validação são (GIUDICE, 2016):

„„ precisão;
„„ estabilidade da amostra;
„„ recuperação;
„„ linearidade;
„„ carreamento;
„„ robustez;
„„ interferências;
„„ intervalo de normalidade;
„„ sensibilidade.

Precisão
Para documentar a precisão de um método analítico em uma validação são
utilizados resultados de dosagens de uma série de medidas. Sendo assim, a
precisão é conhecida por ser a avaliação da proximidade dos resultados.
Ela agrega resultados que mostram a repetibilidade e a reprodutibilidade das
dosagens medidas, que são:

„„ repetibilidade de um resultado — concordância entre os resultados dosa-


dos em um curto espaço de tempo e realizadas pelo mesmo profissional;
„„ reprodutibilidade — concordância entre resultados dosados em labo-
ratório diferentes.

A determinação do parâmetro da precisão de intraensaio (simples) ou da


repetibilidade pode ser feita por meio da análise de nove resultados, sendo eles
dosados em três concentrações diferentes. Ou seja, são dosadas três amostras
de soro para verificação de um analito, sendo uma amostra que possui valor
conhecido de baixa concentração, outra com concentração média, e outra com
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alta concentração do analito a ser medido. Cada uma das três amostras deve
ser dosada em triplicata para posterior análise estatística.
É recomendada a realização das repetições em dois períodos diferentes do
dia para que se minimizem possíveis erros oriundos de interferentes, como,
por exemplo, interferência do profissional que está realizando a dosagem.
Os resultados obtidos devem ser idênticos ou perto disso, no mesmo equipa-
mento (quando este estiver com o mesmo reagente, de mesmo lote, e realizado
pelo mesmo operador no mesmo momento). Ou seja, deve-se calcular a média,
o desvio padrão e o coeficiente de variação do estudo e comparar o resultado
esperado com a especificação definida.
A aprovação desse parâmetro é feita quando os níveis de imprecisão
encontram-se menores ou iguais aos determinados como aceitáveis. Esses
limites são estabelecidos após análise estatística e devem ser padronizados
pelo laboratório, devendo sempre contemplar a linearidade do desvio padrão.
A precisão interensaio (completa) também é um parâmetro que avalia a
repetibilidade, porém, é estabelecida por meio da concordância de resultados
dosados no mesmo laboratório, obtidos em dias diferentes e por profissionais
diferentes.
Os dados devem ser documentados com amostras de duas concentrações
(baixa e alta, por exemplo) do analito que se deseja dosar, em duplicata, durante
20 dias. Esses dados não precisam ser documentados no processo de validação
e são mais aplicados com relação a uma avaliação contínua da exatidão e da
confiabilidade dos resultados desse método analítico.

Estabilidade da amostra
Para que se determine a estabilidade de uma amostra que será utilizada em
determinada metodologia, algumas informações relevantes precisam ser
conhecidas. Em geral, estudos de estabilidade são feitos para que se definam
prazos adequados para a realização de um exame, assim como também a
definição de um prazo máximo para sua repetição.
Para esse estudo devem ser obtidos materiais como o soro, por exemplo,
abrangendo valores de intervalo de concentração baixa, média e alta do analito
de interesse. A finalidade é quantificar as amostras selecionadas, previamente
analisadas e com valores conhecidos, estocadas em temperatura ambiente
(22ºC a 26ºC), geladeira (2ºC a 8ºC) e câmara fria (-20ºC). Sendo assim,
para verificação da estabilidade, as dosagens devem ser realizadas nas três
amostras, em duplicata, em períodos de 7, 30, 60 e 90 dias. Os resultados
variam conforme o laboratório, que tem poder para escolher e determinar
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qual é a variação aceitável para o seu processo. Esse parâmetro sempre deve
ser especificado com foco no impacto para a interpretação médica.

Recuperação
A recuperação é determinada pela capacidade de um método analítico medir
um analito de forma correta, quando uma quantidade conhecida de analito
é adicionada à amostra. Sendo assim, a realização de um estudo de recupe-
ração envolve a utilização de uma concentração já conhecida de um analito.
Uma amostra de paciente pode ser utilizada; o estudo consiste em dividir
essa amostra em três partes e, a cada uma das partes, adicionar um material
previamente selecionado (contendo concentrações em níveis baixo, médio e
alto). As três amostras finais devem ser analisadas por meio dos resultados
de cinco dosagens repetidas e calculadas, verificando, assim, a capacidade
de recuperação do analito.

Linearidade
A linearidade pode ser compreendida como a capacidade do método em gerar
resultados linearmente proporcionais às concentrações de um analito. Nesse
estudo, podem ser feitas diluições seriadas de uma amostra de concentração
baixa e uma amostra de concentração alta.
Para a verificação desse parâmetro, se utilizam diluições dosadas em
duplicatas com cinco valores previamente conhecidos. Para validação de
metodologia in house, recomenda-se ampliar para ao menos sete diluições em
duplicata ou triplicata. Para estabelecer o intervalo de linearidade, recomenda-
-se de 9 a 11 diluições com 2 a 4 replicatas de cada valor.
A modernização dos equipamentos utilizados para realização dos exames
em laboratório de análises clínicas tornou os sistemas robóticos (automatiza-
dos), nos quais a pipetagem, a dispensação de reagentes, e a limpeza de probes
(braços de pipetagem) e cubetas mantêm um fluxo contínuo. Sendo assim, é
possível a realização em ampla escala, tanto de quantidade quanto de variedade
de exames. A presença de uma a duas probes para dispensar reagentes faz
com que elas sejam expostas em uma sucessão rápida a um grande número de
diferentes reagentes, o mesmo ocorre com as cubetas. Então, como verificar
se não está ocorrendo o carreamento de um reagente de uma amostra para
outra? Caso haja um carreamento, ocorrerá contaminação do teste, que se não
for identificada será transferida para os demais exames.
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Carreamento
Em alguns casos, o carreamento não irá interferir nos resultados dos exames
e não acarretará consequências clínicas, entretanto, um arraste pode resultar
em um erro positivo (caracterizado como a identificação de um analito em
uma amostra, quando ela não possui esse analito) ou negativo (quando não é
feita a identificação do analito na amostra, quando ela realmente apresenta o
analito) com repercussões clínicas graves. Para evitar situações desagradáveis
com relação ao que foi apresentado, um protocolo de inspeções e verificações
periódicas de carreamento deve ser adotado pelos laboratórios clínicos nos
seus métodos analíticos. Quando se utilizam equipamentos automatizados,
há mecanismos para manter o carreamento sob controle, tais como: materiais
especiais na composição de probes, troca de ponteiras entre as pipetagens
seriadas ou incorporação de estações de lavagens para a probe de amostras.
Além disso, é recomendada assistência técnica periódica para assegurar os
procedimentos operacionais.

Robustez
A robustez de um método é a capacidade de ele resistir a pequenas e delibe-
radas variações nas condições analíticas, como: condições ambientais, fator
humano, variações entre lotes de reagentes ou materiais empregados. Para esse
controle na rotina, controles internos devem ser empregados diariamente, de
preferência com análise estatística e gráficos de controle. Avaliar a robustez
do método faz com que possam ser indicados os fatores que podem influenciar
de forma significativa na resposta do sistema analítico estudado.

Interferências
Os interferentes são substâncias de origem endógena ou exógena que podem
alterar os valores medidos de um analito em uma amostra biológica. Essa
interferência pode ocorrer pela presença de produtos de competição ou de
inibição química, pelas interferências com a matriz da amostra (viscosidade,
turbidez), pela inibição enzimática ou pela reação cruzada. Há também os
medicamentos que podem induzir interferências nos parâmetros laboratoriais.
Os principais interferentes relacionados à maioria dos sistemas analíticos
são a lipemia, a hemólise e a icterícia. Nem sempre determinar uma interfe-
rência é fácil e, em muitas ocasiões, essa análise de interferentes é complexa.
Para verificação de uma interferência é necessário adicionar as substâncias
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de interesse às amostras de valores já conhecidos e uma amostra sem adição


do possível interferente é utilizada como controle. As substâncias a serem
testadas são adicionadas em diferentes concentrações às amostras teste, sendo
testadas por, no mínimo, cinco vezes em replicada.

Intervalo de normalidade
O intervalo de normalidade de um método também pode ser chamado de
valor de referência, que é utilizado para o clínico realizar a interpretação dos
resultados de um exame laboratorial, quando o resultado expresso no laudo é
comparado ao intervalo dito normal. Esse intervalo de normalidade é obtido
por meio de estudos com grupos controle de indivíduos clinicamente “normais”.

Sensibilidade
De acordo com a International Union of Pure and Applied Chemistry (IUPAC),
a definição de sensibilidade é a capacidade de um procedimento analítico gerar
um sinal para uma mudança de quantidade e ângulo de inclinação na curva de
calibração. Aliado à sensibilidade está o limite de detecção, que é a menor
concentração ou quantidade de um analito que um método pode detectar em
determinado procedimento. Portanto, na prática, se busca um elevado nível de
sensibilidade analítica e um baixo limite de detecção. A sensibilidade de um
método é a probabilidade de um resultado ser positivo ou detectar um analito
quando ele está realmente presente na amostra.
Sendo assim, todos os parâmetros apresentados devem ser estudados e
analisados para a validação de uma nova metodologia analítica antes que ela
possa ser implementada na rotina de um laboratório clínico.
Cada parâmetro irá contribuir estatisticamente para a determinação da
exatidão de um resultado, que é conhecida como a capacidade do método em
apresentar resultados próximos do valor verdadeiro. Na Figura 1, é possível
observar a relação exatidão e precisão. O “alvo” numerado 1 apresenta alta
exatidão e precisão, pois todos os valores encontrados estavam no “alvo”. Já
no número 2, observamos uma baixa exatidão, onde os resultados encontrados
estão todos fora do “alvo”, ou seja, valores estão fora da normalidade, porém,
a precisão é alta pois todos os valores se encontram dentro de uma linearidade.
O “alvo” número 3 mostra baixas exatidão e precisão, cujos valores estão fora
da normalidade e não seguem uma linearidade. Por fim, o “alvo” número 4
mostra que os valores encontrados necessitam de uma análise minuciosa com
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relação a essa amostra, que pode estar sobre efeito de interferentes, carreadores,
ou até mesmo, estar dentro da faixa de linearidade.

(1) (2)

Alta exatidão e Baixa exatidão e


alta precisão alta precisão
(3) (4)

Baixa exatidão e Grau de exatidão e precisão depende


baixa precisão dos critérios de aceitabilidade

Figura 1. Exatidão e precisão.


Fonte: Adaptada de Lopes (2015).

A exatidão é a capacidade do método em realizar dosagens com valores próximos


aos verdadeiros. Esse resultado é determinado apenas após a detecção da linearidade
do método e da posterior aplicação do cálculo:
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Procedimentos na validação analítica


Em uma validação, um passo relevante e imprescindível é a escolha dos
parâmetros que serão utilizados para essa análise. Essa escolha é feita com
base no caráter do que se pretende dosar (analito), seja ele quantitativo ou
qualitativo, assim como também deve atender e reportar os requisitos exigidos
pelo órgão fiscalizador. Esses métodos necessitam de uma validação, que
fornece resultados numéricos para determinar a confiabilidade do processo
(BERLITZ, 2010). Para calcular os dados obtidos das dosagens feitas nos testes
de validação, são utilizados modelos estatísticos após a aplicação de cálculos
que são específicos para cada parâmetro. Todo valor numérico expresso em
um resultado de um laudo laboratorial agrega um percentual de variação. Esse
percentual decorre do chamado erro aleatório ou sistemático.
Um erro aleatório é aquele que não pode ser identificado por ter ocorrido
ao acaso, sendo assim, não pode ser corrigido. Esse tipo de erro, na maioria
das vezes, ocorre durante a manipulação da amostra e pode ser calculado pelo
coeficiente de variação, por meio da relação entre o valor do desvio padrão e da
média aritmética. Quando há um baixo percentual de coeficiente de variação,
pode-se dizer que a reprodutibilidade do método é elevada.
Por sua vez, os erros sistemáticos são aqueles que ocorrem de maneira
regular e constante, resultando na perda da exatidão. Quando há a participação
do laboratório em programa de ensaio de proficiência, pode-se avaliar o erro
sistemático. A soma do erro sistemático com o erro aleatório é chamada de
erro total (SUMITA, 2010).
Outra questão que pode passar despercebida, mas que é de total relevância
é a demanda de suprimentos. O desempenho de reagentes, por exemplo, tem
muita variação com relação aos fornecedores. Toda gestão de suprimentos
acarreta implicações técnicas, econômicas e estratégicas, visto que o desem-
penho final do método que está sendo validado irá depender das condições dos
reagentes que estão sendo utilizados, que devem manter um padrão de quali-
dade. Para que um método validado continue fornecendo resultados confiáveis,
a aquisição de serviços ou de produtos devem seguir especificações, como,
por exemplo, na entrega de produtos. Todo produto, seja direto ou indireto,
influencia na qualidade do laboratório, então, do ponto de vista estratégico,
comprar bem também significa manter equilibradas as finanças e perpetuar
as vantagens competitivas e qualitativas já alcançadas pelo laboratório.
12 Validações dos métodos analíticos

Depois de validado um novo método analítico, deve ser padronizado um


protocolo que irá estabelecer e efetuar a comparabilidade para cada analito,
que é medido em mais de um sistema analítico. Os requisitos regulamentares e
de acreditação devem ser incorporados, pois a verificação de comparabilidade
é considerada uma boa prática de laboratório clínico.
Os parâmetros escolhidos para análise no processo de validação são poste-
riormente calculados. Ou seja, as dosagens têm seu valor (dados) documentado
e, depois, todos esses números brutos precisam ser calculados para uma análise
minuciosa. O parâmetro de precisão é mostrado pela dispersão dos resultados
e é calculado pelo desvio padrão relativo (DPR) da série de medições, também
conhecido como coeficiente de variação, seguindo a fórmula DPR = (desvio
padrão/concentração média determinada) x 100, após a dosagem de, no mí-
nimo, nove concentrações, contemplando três concentrações baixa, média e
alta, sendo analisadas em três réplicas em cada nível (concentração exigida
no controle de qualidade) e, finalmente, expressa por meio do coeficiente de
variação.
A determinação da linearidade exige o uso de cinco concentrações diferen-
tes preparadas em triplicata, de preferência. Nesse parâmetro, há uma análise
visual de uma curva, que será determinada após a inserção dos resultados das
dosagens; essa curva é vista em um gráfico após a inserção dos resultados
das dosagens. Na robustez, basicamente se determina a capacidade de um
método analítico resistir a pequenas variações de alguns parâmetros. Cada
técnica possui fatores diferentes que precisam ser levados em consideração
para obtenção de dados que concluirão sobre essa capacidade do método
analítico. Na técnica de espectrofotometria, por exemplo, há necessidade de
verificação do pH de soluções, da temperatura e do preparo da amostra. Todos
os dados verificados e obtidos serão posteriormente analisados na validação
(OLIVEIRA; MENDES, 2010).
O parâmetro carreamento, que irá determinar se um reagente inicial foi
transferido para outra reação por falta de higienização das cubetas, por exemplo,
é analisado com o uso de 11 amostras com baixa concentração conhecida e
10 amostras de concentração alta já conhecida. Deverá ser feita uma dosagem
na seguinte sequência:

„„ três amostras baixas;


„„ duas amostras altas;
„„ uma amostra baixa;
Validações dos métodos analíticos 13

„„ duas amostras altas;


„„ quatro amostras baixas;
„„ duas amostras altas;
„„ uma amostra baixa;
„„ duas amostras altas;
„„ uma amostra baixa;
„„ duas amostras altas;
„„ uma amostra baixa.

Após esse processo, são calculadas as médias das concentrações de todas


as amostras “baixas” analisadas após uma amostra baixa (B–B) e a média das
concentrações de amostras “baixas” após amostra alta (A–B). O carreamento
é obtido pela diferença entre as médias de B–B e A–B.
Para definir os parâmetros de normalidade, ou seja, estabelecer os valores
de referência para determinado analito, 2,5% dos valores extremos observados
em um grupo considerado com resultados de dosagens “normais” (ausência
de doença) são excluídos; então 5,0% das dosagens clinicamente classificadas
como “normais” estarão acima ou abaixo dos limites do intervalo de referência.
Sendo assim, a cada 20 dosagens, alguma poderá apresentar resultados fora
dos intervalos de normalidade o que não pode ser caracterizado como diag-
nóstico para uma doença. Um exemplo é quando o médico solicita dosagem
da glicose, em que um indivíduo não diabético apresenta uma concentração
de glicose inferior a 100 mg/dL (até 99 mg/dL). Dois resultados de 126 mg/dL,
em sequência, porém em momentos distintos, podem confirmar o diagnóstico
de diabetes melito, sendo que a dúvida do diagnóstico situa-se no intervalo
de concentração entre 100 e 125 mg/dL (o indivíduo é classificado como
pré-diabético), em que a dosagem da glicose não é capaz de discriminar a
presença ou a ausência da doença.
Então, para que o processo de validação aconteça e forneça todas as in-
formações necessárias e requeridas pelo órgão regulador, é essencial que
se estabeleçam os parâmetros que serão utilizados, assim como, se entenda
como sua avaliação acontece. A validação consiste em um processo de ensaios
experimentais que irão confirmar e fornecer evidências objetivas de que os
requisitos específicos para o seu uso serão atendidos.
14 Validações dos métodos analíticos

Para a realização do processo de validação de um método


analítico, é importante lembrar que há regulamentação e
exigências que devem ser seguidas. No link a seguir ou no
código QR ao lado, você encontra a Resolução da Diretoria
Colegiada que abrange todas as informações necessárias
para você aprofundar seus conhecimentos no assunto.

https://qrgo.page.link/DaXaV

Calculando a precisão simples


O laboratório A precisa determinar a precisão do seu sistema automatizado de ensaio
imunoturbidimétrico, que determina a ferritina sérica. Para esse teste, são utilizados
insumos, calibradores e controles do mesmo fornecedor. O estudo de precisão simples
(intraensaio) utilizou uma única amostra com valor normal e dosou em 20 replicadas e
dois momentos diferentes do dia, somando 40 medidas ao final. Um gráfico de precisão
utilizando índices de desvio padrão foi gerado, representando a dispersão dos dados e
possibilitando a verificação de que todos os resultados obtidos encontravam-se dentro
de dois desvios padrões, ou seja, seguiam a linearidade, conforme apresenta a Figura 2.

Precision plot
3

1
SD index

-1

-2

-3

Figura 2. Gráfico de precisão que representa a dispersão dos dados.


Fonte: Adaptada de Lopes (2015).
Validações dos métodos analíticos 15

BERLITZ, F. A. Controle da qualidade no laboratório clínico: alinhando melhoria de


processos, confiabilidade e segurança do paciente. Jornal Brasileiro de Patologia e
Medicina Laboratorial, v. 46, n. 5, p. 353−363, 2010. Disponível em: http://www.scielo.
br/pdf/jbpml/v46n5/03.pdf. Acesso em: 31 ago. 2019.
BRITO, N. M.; AMARANTE JUNIOR, O. P. A.; RIBEIRO, M. L. Validação de métodos analíticos:
estratégia e discussão. Pesticidas: Revista de Ecotoxicologia e Meio Ambiente, v. 13, p.
129−146, 2003. Disponível em: https://revistas.ufpr.br/pesticidas/article/view/3173/2546.
Acesso em: 31 ago. 2019.
CAMPANA, C. A.; OPLUSTIL, C. P. Conceitos de automação na medicina laboratorial:
revisão de literatura. Jornal Brasileiro de Patologia e Medicina Laboratorial, v. 47, n. 2, p.
119−127, 2011. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/jbpml/v47n2/v47n2a05.pdf.
Acesso em: 31 ago. 2019.
GIUDICE, G. H. Parâmetros de uma validação analítica: uma revisão bibliográfica. Acta
de Ciências e Saúde, v. 1, n. 5, p. 130−134, 2016. Disponível em: http://www2.ls.edu.br/
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LOPES, R. M. Ferramentas do controle de qualidade analítico: da validação à verificação.
Brasil, 2015. Disponível em: http://www.lacen.saude.pr.gov.br/arquivos/File/SESLAB/
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OLIVEIRA, C. A.; MENDES, M. E. Gestão da fase analítica do laboratório como assegurar a
qualidade na prática. Rio de Janeiro: ControlLab, 2010.
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Leituras recomendadas
BRASIL. Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Resolução da Diretoria Colegiada -
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