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Volta ao primeiro amor

PERGUNTA
Nome: Fernando
Enviada em: 13/10/2003
Local: Florianópolis - SC,
Religião: Católica
Idade: 33 anos
Escolaridade: 2.o grau concluído

Existem tantas linhas de partida, tantos "é aqui o meu lugar" que não sei ao certo por onde começar
o que quero falar.

Afinal o que quero? Talvez ja esteja eu cansado de tantas perguntas e perguntas, hoje tenho sede
de uma resposta.

Me recordo de Cristo momentos antes de morrer na cruz ao falar "Tenho sede". Acredito que hoje
Jesus ainda tem "sede", porem sede de que estejamos junto a Ele, libertos de preconceitos, injurias,
blasfêmia, pecado ....

Hoje não pertenço a nenhuma crença ou religião (não frequento). Nasci num berço católico, e como
todo reçém nascido começamos primeiro a beber leite, para depois comermos a comida sólida (ICor. 3: 1-
2). Quando nosso estômago já está desenvolvido, então deixamos de ser meninos e já estamos preparados
para nos alimentarmos com uma comida mais "consistente". Crendo fielmente nisso, ainda um neófito (hoje
desconheço meu estado), dando meus primeiros passos na vida espiritual, fui guiado por mãos que me
guiavam por onde queriam, porém aprendi a dar meus passos sozinho, e busquei um "caminho melhor".

"No principio, a terra era sem forma e vazia", e assim eu me senti, pensei que minha vida vazia e
sem forma iria terminar no sétimo andar de um prédio, mas uma vóz em meio a chuva que caia falava "você
ja tentou de tudo com os homens, mas ainda nada fizeste com o teu criador".

Um novo começo, uma nova vida a partir daí.

Em alguns meses a partir daí, aquele menino se tornara um Adventista do Sétimo Dia. Um professor
de classe bíblica, missionário, professor de pequenos grupos, pregador, diretor de comunicação e com a
chave da porta da Igreja para fechar abrir e criar programações.

"...buscai e achareis..."(Lc 11:9), e assim se fez; e assim se cumpriu.

Com a Bíblia quase decorada em minha mente, tudo parecia ser muito correto e perfeito, estava eu
no meio do povo remanescente, eleito, dentro de uma redoma cheio de glórias (pessoais) e orgulho.

Após um culto em minha casa, na sala a sós (com meu Senhor) leio: "Guardais dias (sábado),
tempos e anos, receio que eu tenha trabalhado em vão convosco"(Gal.4:10-11)Mas como pode isso, como
posso "conhecer" quase toda a Bíblia e nunca ter observado esse texto?

Inúmeras respostas recebi de muitos, mais "aquele que quer sabedoria peça-a a Deus que lhe dará,
mas não duvide" (Tg 1:5-6), pois é, quanto menos duvidava e buscava sabedoria no Senhor, mais certeza
me vinha de que estava eu também trabalhando "em vão" tirando inúmeras famílias (inclusive a minha) de
outras igrejas trazendo-as para "a minha".

Fiquei feliz e de certo modo intrigado (no bom sentido) ao encontrar este site após algum tempo de
tormenta e vazios que me acompanham depois de toda essa frustação e busca (Escrevi mais de 25.000
palavras em refutações a doutrina que estava frequentando e vivendo - ao ponto de morrer por ela).

Estudei com Mórmons, Assembleianos, Testemunhas de Jeová, Espíritas e nunca tive oportunidade
de conversar com um (membro) católico que responde-se a algumas questões que surgiram no decorrer de
toda essa busca. E agora estou de uma certa forma, Deus sabe, a me "simpatizar" (converter-me) ou quem
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sabe "Voltar ao primeiro amor" com a Igreja a quem mai persegui, condenei, despresei e considerei como a
"mãe das meretrizes", a grande babilônia", como pode isso?

Deus me perdoe, e todos aqueles quem tirei (crio que sairam por não serem conhecedores da
palavra " tanto quanto eu") de todas as igrejas, hoje devem não compreender o que acontece.

Pois bem, chega de murmuros e desabafos, gostaria de conhecer e aprender um pouco mais sobre
o "nisto cremos" da Igreja Católica, assuntos como: - Porque se prostam diante do Papa (e beijam seu anel
ou mão).

- Porque recebem os fieis o Corpo de Cristo (hóstia) e não o Sangue (vinho).

- Porque batizam por aspersão e não imersão.

- O que pensa a Igreja sobre a segunda vinda de Cristo.

- O que ensinam a respeito de ITess.4:13-18 considerando que existe santos intersessores.

Desde já fico muito grato pelo carisma e preocupação dispensadas ao lerem (assim creio) meu
pequeno relato. Obrigado. "Paz e Bem".

Fernando

RESPOSTA

Prezado Fernando, salve Maria, "Mãe de meu Senhor" (S. Lucas, I, 43)
Alegrou-nos imensamente sua carta.

E o motivo principal dessa nossa alegria é sua conversão.

Mas nossa alegria deve-se também - e finalmente - ao encontro de um protestante sincero, que
compreendendo o erro desta doutrina infundada e vazia, reconhece a verdade da Igreja Católica - a Igreja
de Cristo - e à Igreja retorna. Como você, nós também já escrevemos muito, e nossa esperança é que
nossos debatedores se convertam, pois o inimigo não deve ser destruído, mas convertido, com a graça de
Deus.

Você tem inteira razão ao dizer que voltou ao "primeiro amor" ao voltar à Igreja Católica, pois: “Dois
amores fundaram duas cidades, a saber, o amor próprio levado ao desprezo de Deus, a terrena; o
amor de Deus levado ao desprezo de si próprio, a celestial. Uma gloria-se em si mesma, a outra em
Deus. Aquela busca a glória dos homens, e esta tem por máxima glória de Deus, testemunha de sua
consciência". É o que diz Santo Agostinho na "Cidade de Deus", unindo uma verdade profundíssima a uma
beleza inigualável, unindo a coruja ao rouxinol (http://www.montfort.org.br/veritas/coruja.html).

O protestantismo, com sua falsa moral social, que busca a glória do homem dizendo que busca a
glória de Deus, leva de fato à cidade dos homens, que é a cidade do demônio, príncipe deste mundo. Basta
folhear qualquer obra do imoral e mundano Lutero, fundador dessa religião do homem, para perceber isso.

A Igreja Católica, ao contrário, ao colocar na vida eterna a finalidade dos homens, busca a maior
glória extrínseca de Deus, aceitando os sofrimentos desta vida passageira, e portanto forma a cidade
celestial.

Você nos conta sua saga desde o abandono da Igreja Católica até seu retorno, retorno este que
você diz espantar até seus adversários na polêmica. De fato, Fernando, Deus nos guia por toda vida,
dando-nos continuamente ocasiões de conversão. Como diz o profeta Isaías, "Pois eu, o Senhor, teu Deus,
eu te seguro pela mão e te digo: Nada temas, eu venho em teu auxílio ." (Isaías, 41, 13). É Deus onipotente
que nos carrega pela mão! Sua conversão portanto não deveria espantar ninguém.

Nós é que fugimos da conversão e das obrigações, e nos recusamos a aceitar a verdade que brilha
a todo homem que vem a esse mundo (S. João I, 9), e que quando levantado na cruz atraiu tudo a si.

Fugimos em busca de uma falsa paz, a paz do mundo, enquanto recusamos a tranqüilidade na
ordem, a verdadeira paz de Cristo (S. João XIV, 27).
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Fugimos em busca do reconhecimento dos homens, enquanto Cristo mandou abandonar tudo por
sua causa e tomar sua Cruz. (S. Lucas, IX, 23).

Fugimos, enfim, para fazer nossa vontade, que passa a ser nosso supremo guia, quando Cristo
disse para fazer a vontade do Pai (S. Mateus, VI, 10).

E quando finalmente cansados de nossa fuga, resolvemos aceitar as obrigações, a verdade e a


verdadeira paz, o desapego do mundo, a vontade de Deus em todas as coisas, então temos o verdadeiro
descanso, em plena guerra. Pois é Nele unicamente que encontramos a paz, a consolação da alma, o guia
verdadeiro. "Vinde a mim vós que estais cansados e atribulados, e eu vos aliviarei." (S. Mateus, XI, 28).

Como você lembrou bem, Fernando, Cristo teve sede na cruz, e teve sede no poço. Mas o que
Cristo teve sede infinitamente superior foi da salvação das almas. A salvação de todos os homens na cruz
(objetivamente), a salvação do homem particular - da pecadora - no poço (subjetivamente, aplicando os
méritos infinitos da cruz a cada homem, no batismo). Por isso disse Cristo aos Apóstolos: "Desiderio
desideravi hoc Pascha manducare vobiscum" (Tenho desejado ardentemente comer convosco esta Páscoa)
(S. Lucas, XXII, 15). Cristo Senhor Nosso morreu por cada homem, e mesmo que fosse para salvar ainda
um só homem, ainda assim ele teria encarnado no seio da Virgem Maria, padecido os sofrimentos da
Paixão e da morte, e "morte de cruz" (Filipenses, II, 8) por essa única alma. E isso Cristo desejava
ardentemente.

O cristão verdadeiro deve desejar ardentemente a conversão do próximo, e até do inimigo. Não
lembramos de ter debatido com você, Fernando, mas o que move nosso apostolado é também este desejo
ardente - desiderio desideravi - de salvar as almas, mesmo as dos inimigos. Se já debatemos, tenha certeza
que nossa alegria então é maior ainda, pois nosso desejo de conversão do inimigo, unido ao desejo
superabundante de Cristo atingiu seu fim. Um fim que se deseja ardentemente, com desiderio desideravi,
para todos os nossos inimigos!

E hoje, recebendo sua mensagem, pudemos ter também uma pausa no combate, para receber de
volta um irmão que havia se perdido. Um irmão que muito provavelmente gastou toda herança do seu pai, e,
enquanto comia as bolotas com os porcos lembrou-se que os servos de seu pai tinham um alimento melhor
que aquele. E o evangelho diz que aquele moço levantou-se e voltou ao pai: "I will arise and go, and go to
my father". E o pai se alegrou tanto com a volta do filho - que avistou de longe, vindo pela estrada - que fez
uma festa para ele. E diz o Evangelho que "Estava ainda longe, quando seu pai o viu e, movido de
compaixão, correu-lhe ao encontro, lançou-se-lhe ao pescoço e o beijou. O filho lhe disse, então: Meu pai,
pequei contra o céu e contra ti; já não sou digno de ser chamado teu filho. Mas o pai falou aos servos:
Trazei-me depressa a melhor veste e vesti-lha, e ponde-lhe um anel no dedo e calçado nos pés. Trazei
também um novilho gordo e matai-o; comamos e façamos uma festa. Este meu filho estava morto, e
reviveu; tinha se perdido, e foi achado. E começaram a festa." (S. Lucas, XV, 20-24).

E assim Deus faz com todos os que voltam...

Respondemos por fim suas perguntas:


A primeira delas:
>>"- Porque se prostam diante do Papa (e beijam seu anel ou mão)."
O respeito pelo vigário de Cristo na Terra exige que se lhe prestem as maiores homenagens, pois o
Papa (Pedro) recebeu as chaves do céu e o poder de apascentar o rebanho diretamente de Deus.

O anel do pescador é o símbolo do poder de Pedro, e se a sombra de Pedro merecia tal reverencia
pois curava as pessoas por onde ele passava (Atos V, 15), que dirá os objetos que estão em contato direto
com ele, e que são exclusivos do Papa! Quando se beija o anel do pescador, reconhecemos no Papa o
vigário de Cristo, posto na Igreja como cabeça visível do Corpo Místico, e a quem devemos obediência e
respeito grandes.

Por causa da corrupção do mundo, estas cerimônias da Igreja são menos compreensíveis hoje em
dia. A vassalagem medieval tinha cerimônias parecidas com a de reverência ao Papa, e demonstravam de
modo belíssimo como o nobre e o vassalo se comprometiam mutuamente a cuidar e a honrar um ao outro.
E isto por palavra! O que é a palavra hoje?... O que são os compromissos hoje? Mesmo aqueles escritos e
testemunhados?...

Em seguida, você pergunta:


>>"- Porque recebem os fieis o Corpo de Cristo (hóstia) e não o Sangue (vinho)."
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Por um motivo bastante simples. Porque Cristo está presente REALMENTE tanto na hóstia quanto
no vinho consagrados. E está presente - tanto na hóstia quanto no vinho consagrados - em corpo, sangue,
alma e divindade.

Cristo está presente na hóstia pela consagração, com o CORPO, mas também está presente na
hóstia com o sangue, alma e divindade, por "concomitância real", como ensina São Tomás de Aquino.
Sendo Cristo Deus, onde estiver seu corpo, concomitantemente estarão o sangue, a alma e a divindade,
pois Cristo é Deus, e depois da encarnação tem as duas naturezas - a divina e a humana. Onde está o
corpo, estará toda a natureza humana - com sangue e alma - estará toda natureza divina - a divindade.
Estará Cristo inteiro.

O mesmo se aplica ao vinho, onde o SANGUE torna-se presente pelas palavras da consagração; e
por concomitância estão ali também o corpo, a alma e a divindade.

Cristo está presente na hóstia e no vinho, em cada partícula do pão e em cada gota do vinho, e
deve-se portanto ter um cuidado enorme na distribuição do sacramento aos fiéis, para que não caia, nem
uma partícula e nem uma gota. Evidentemente a distribuição do vinho é muito complicada, pois facilmente
pode cair uma gota. As tentativas de compartilhar o mesmo cálice, ou então usando colheres ou outros
meios mostraram-se completamente inconvenientes. Mesmo o pão levedado, que era usado no início da
Igreja, causava problemas dessa ordem, sendo substituído pelo pão ázimo, e no formato de "coroa", como o
que temos até hoje.

A Igreja sabiamente, conduzida pelo Espírito Santo, limitou aos fiéis a comunhão sob uma espécie,
a da hóstia consagrada, que é a recepção completa do sacramento. Recebendo sob uma espécie, recebe-
se o sacramento por inteiro.

A questão é portanto de uma sábia atitude de conveniência da Igreja, guiada pelo Espírito Santo.

E como era de se esperar, a questão do batismo:


>>"- Porque batizam por aspersão e não imersão."
Se é preciso mergulhar no rio porque Cristo assim foi batizado, então é preciso que seja no rio
Jordão, pois foi lá que Cristo o fez... Ora, isso é um absurdo. Cristo usou água, e ensinou a fórmula do
batismo. Basta isso.

Também São Pedro não imergiu as 3000 pessoas que ele converteu no dia de Pentecostes, e por
motivos bastante simples: não havia um rio ali perto, e nem a possibilidade de fazer tal cerimônia com
tantas pessoas (Atos II, 41). E São Paulo batizou o guarda da prisão com toda a sua família (TODA a família
inclui as crianças) (Atos, XVI, 33), sem um rio, pois batizou-os ali mesmo na prisão.

Para batizar, não foi dito que era preciso mergulhar num rio, mas usando água, tendo a intenção de
batizar e pronunciando a fórmula correta: "Eu te batizo em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo"
(Mateus, XXVIII, 19). Aliás, os testemunhas de adonay não usam esta fórmula, negando a Santíssima
Trindade, e portanto o batismo deles é inválido.

E sobre o advento:
>>"- O que pensa a Igreja sobre a segunda vinda de Cristo."
O que a Igreja sempre ensinou, pois está nas Escrituras: que Cristo voltará no final do mundo para
julgar os vivos e os mortos (Juízo Final).

E também:
>>"- O que ensinam a respeito de ITess.4:13-18 considerando que existe santos intersessores."
A citação é : "Irmãos, não queremos que ignoreis coisa alguma a respeito dos mortos, para que não
vos entristeçais, como os outros homens que não têm esperança. Se cremos que Jesus morreu e
ressuscitou, cremos também que Deus levará com Jesus os que nele morreram. Eis o que vos declaramos,
conforme a palavra do Senhor: por ocasião da vinda do Senhor, nós que ficamos ainda vivos não
precederemos os mortos. Quando for dado o sinal, à voz do arcanjo e ao som da trombeta de Deus, o
mesmo Senhor descerá do céu e os que morreram em Cristo ressurgirão primeiro. Depois nós, os vivos, os
que estamos ainda na terra, seremos arrebatados juntamente com eles sobre nuvens ao encontro do
Senhor nos ares, e assim estaremos para sempre com o Senhor. Portanto, consolai-vos uns aos outros
com estas palavras." Muitos interpretaram erroneamente este texto, achando que os últimos homens não
morrerão, mas serão arrebatados ao céu ainda vivos. Particularmente as seitas pentecostais gostam desta
interpretação, que se encaixa perfeitamente na sua escatologia de pinel: um grupo escolhido passando para
o paraíso sem a dor da morte. Daí marcarem datas para o fim do mundo, prometendo aos que se dedicarem
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a ela a vida eterna fácil... (ex.: testemunhas de adonay) Mas a Bíblia deve ser interpretada no conjunto, não
isoladamente, e também diz São Paulo: "Assim como todos morreram em Adão, assim todos serão
vivificados em Cristo". (I Cor. 15,22). Além do que, nesta mesma passagem de Tessalonicenses, se diz que
"que Deus levará com Jesus os que nele morreram". Portanto, para ir com Cristo, é preciso morrer primeiro.

Os que serão arrebatados morrerão neste arrebatamento, para que possam então renascer e ter a
vida eterna. Assim sempre entendeu a Igreja, cuja doutrina se encontra bem expressa nas palavras de S.
Ambrósio: "Nesse arrebatamento sobrevirá a morte. À semelhança de um sono, a alma se desprenderá do
corpo, (mas) para voltar ao corpo no mesmo instante. Ao serem arrebatados, morrerão. Chegando, porém,
diante do Senhor, novamente receberão suas almas, em virtude da (própria) presença do Senhor;
porquanto não pode haver mortos na companhia do Senhor". (Ambr. in 1 Th. 4, apud. Catecismo Romano, I
XII 6) Despedimo-nos, desejando chamá-lo doravante irmão em Cristo,

In corde Iesu et Mariae


Marcos Libório.