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WWF - BRASIL

CPS 715.2004

RESERVA DE DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL


RDS

ANÁLISE DA CATEGORIA DE MANEJO E PROPOSTA DE


REGULAMENTAÇÃO

CONSULTORES
Lucila Pinsard Vianna
Renato Rivaben de Sales

COLABORADORES
Henrique Gomes – RDS Iratapuru (AP)
Raimundo Marinho – RDS Mamirauá (AM)
Thelma Dias – RDS Ponta do Tubarão (RN)

Brasília, Abril de 2006


ÍNDICE

1. Apresentação 2

2. Aspectos metodológicos 4

3. Histórico da inclusão da categoria RDS no SNUC 6

4. A RDS segundo o SNUC 10

5. Estudos de caso: Os processos de criação, implantação e gestão de 3 RDS 20

6. Interpretações e polêmicas sobre a Categoria de Manejo RDS 46


7. Propostas e Recomendações para Regulamentação da categoria RDS 66

8. Bibliografia consultada 78

9. Versão Resumida 82

10. Anexos 103

10.1 Oficina 104

10.1.1 Estenotipia 118

10.2 Entrevistas 210

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1. APRESENTAÇÃO

A Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) é uma das categorias de Unidade de Conservação


criada pelo Sistema Nacional de Unidades de Conservação da Natureza (SNUC), Lei Federal nº 9.985,
de 18 de julho de 2000.

Esta categoria de manejo é definida como uma área natural que abriga populações tradicionais, cuja
existência baseia-se em sistemas sustentáveis de exploração dos recursos naturais, desenvolvidos ao
longo de gerações e adaptados às condições ecológicas locais e que desempenham um papel
fundamental na proteção da natureza e na manutenção da diversidade biológica.

Estas UCs têm por objetivo básico, conforme o Art. 20, parágrafo 1 da Lei 9.985 (SNUC) “preservar a
natureza e. ao mesmo tempo, assegurar as condições e os meios necessários para a reprodução e a
melhoria dos modos e da qualidade de vida e exploração dos recursos naturais das populações
tradicionais, bem como valorizar, conservar e aperfeiçoar o conhecimento e as técnicas de manejo do
ambiente , desenvolvido por estas populações”.

Ainda segundo a Lei do SNUC, a Reserva de Desenvolvimento Sustentável é de domínio público,


devendo as áreas particulares incluídas em seus limites serem desapropriadas, quando necessário. A
posse e os usos das áreas ocupadas pelas populações tradicionais deveriam, segundo o Art. 23 da
referida lei, ser regulados por contrato, o qual, por sua vez, deveria ser regulamentado em ato
normativo posterior.

No entanto, a regulamentação específica da Lei do SNUC, promulgada por meio do Decreto nº 4.340,
de 22 de agosto de 2002, além de não tratar da regulação da posse e usos das áreas de reservas de
uso sustentável (RDS e Reservas Extrativistas), não dispôs sobre a regulamentação específica de
qualquer outra categoria de manejo, fazendo com que importantes aspectos jurídicos e sócio-
ambientais referentes às unidades de conservação ficassem a descoberto , notadamente as de uso
sustentável.

No caso particular de RDS, as indefinições decorrentes desta situação têm determinado que variados
órgãos executores do SNUC apresentem diversas interpretações sobre esta categoria, resultando em
diferentes práticas no que se refere aos processos de criação, implantação e gestão destas unidades
de conservação. No mais, a falta de regulamentação específica tem acarretado também em conflitos
de interesses entre populações locais, proprietários rurais e empresários que passaram a conviver em
áreas sob as normas de um regime legal específico, passível de variadas interpretações jurídicas.

Neste contexto, e considerando também que vários estados da Federação têm criado novas RDS em
áreas onde ocorrem propriedades privadas, como forma de não onerar seus orçamentos com
desapropriações de terras, torna-se urgente e necessária a proposição de princípios e diretrizes legais
que subsidiem a regulamentação desta categoria de manejo, inclusive para que seu conceito e
objetivos não sejam desgastados em função de interpretações e aplicações equivocadas.

Entre os pontos que merecem maior atenção em uma futura regulamentação podem ser citados, a
título de exemplo:
- As condições sócio-ambientais mais adequadas e pertinentes à criação de uma RDS;
- O papel das comunidades locais na criação, implementação e gestão das RDS;
- A conveniência de se proceder à desapropriação total da área;
- Os procedimentos para a legitimação da posse e dos usos da terra por seus moradores;

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- A distinção entre as características de RDS e Reserva Extrativista;
- A definição das atividades econômicas pertinentes às áreas das RDS, enquanto áreas destinadas à
conservação ambiental e ao desenvolvimento das poulações humanas locais em bases sustentáveis.

Como forma de propor maiores esclarecimentos sobre esses pontos, ensejando à formulação de um
documento que subsidie o Ministério do Meio Ambiente e demais órgãos executores do SNUC no
processo de regulamentação da categoria RDS, a equipe responsável pelo presente trabalho realizou
consultas a diplomas legais e documentos pertinentes e procurou entrevistar o maior número possível
de técnicos e representantes de entidades com atuações relacionadas ao SNUC. Além disso, foram
contemplados três estudos de caso que subsidiassem as análises: as RDS amazônicas de Mamirauá
(AM) e Rio Iratapuru (AP) e a RDS costeira da Ponta do Tubarão (RN). Após a pesquisa, foi elaborada
uma proposta de regulamentação para a RDS para ser discutida na Oficina Diálogos sobre Reserva de
Desenvolvimento Sustentável, realizada em fevereiro de 2006, com a participação de gestores
públicos, pesquisadores, Ongs e associações de classe. As colaborações advindas da oficina foram
incorporadas à proposta final de regulamentação.

Este relatório é composto por: descrição metodológica do trabalho realizado, resultados das pesquisas,
levantamentos e entrevistas realizadas, análise da legislação, proposta de regulamentação e anexos
com as entrevistas, roteiros utilizados e documentos da oficina.

A seguir constam os aspectos metodológicos utilizados neste trabalho.

2. ASPECTOS METODOLÓGICOS

O trabalho foi composto por 3 linhas de atuação: pesquisa bibliográfica e documentos legais
pertinentes, estudo de caso de 3 RDS e entrevistas com gestores, pesquisadores e Ongs.

A escolha das 3 RDS – Mamirauá, Iratapuru e Ponta Tubarão - definidas como estudo de caso teve os
seguintes critérios:
RDS Mamirauá - “inspiradora” da categoria RDS tal como incluída no SNUC, a RDS Mamirauá é
considerada um exemplo e modelo para RDS. Sua longa história nos relata o processo de
consolidação desta categoria, bem como desvenda suas lacunas e possibilidades.

RDS Iratapuru - inspirado na RDS Mamirauá, o governo do estado do Amapá criou, um ano depois
(1997), a RDS do Rio Iratapuru. Assim como Mamirauá, a RDS do Rio Iratapuru é pioneira, criada
antes mesmo de haver discussões acerca da inclusão desta categoria no SNUC. Neste sentido,
Iratapuru também pode ser considerada exemplo e modelo de RDS, pois a história de 8 anos de sua
existencia revela a realidade da implantação desta categoria de manejo de unidade de conservação.

RDS Ponta Tubarão – é a única unidade de conservação desta categoria existente fora da região
amazônica e abriga parcelas de diversos ecossistemas da região nordeste, o que lhe confere
especificidade a ser investigada. Além disso, foi criada a partir de sérios conflitos de interesses entre
moradores locais e grupos empresariais, representando um exemplo de resistência à tentativa de
implantação de atividades econômicas concorrentes com as tradicionalmente desenvolvidas.

Além do levantamento de dados secundários, foram realizadas pesquisas expeditas em cada uma das
RDS por meio da colaboração de pesquisadores locais. As entrevistas seguiram roteiros específicos,
pré-estabelecidos (em anexo), e foram registradas em fitas. As informações obtidas, assim como as
impressões dos pesquisadores, foram encaminhadas pela Internet e correio convencional.

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O público alvo da pesquisa expedita foi composto por diferentes atores sociais que se relacionam direta
ou indiretamente com a RDS. Para cada uma das três reservas foram realizadas entrevistas com pelo
menos um representante dos seguintes segmentos:
• Moradores da unidade que tenham participado ativamente de sua criação e/ou façam parte
atualmente de uma organização que represente os interesses das comunidades locais.
• Moradores que não tenham se envolvido diretamente com a criação da reserva e que não
estejam acompanhando diretamente as atividades para sua gestão.
• Proprietários de imóvel do interior da RDS, cujas atividades e interesses não
necessariamente se coadunem com os objetivos da unidade.
• Moradores do entorno imediato da RDS.
• Responsáveis pela gestão da reserva.
• ONGs envolvidas com as reservas.
• Autoridades municipais locais.
• Instituto de pesquisas.

É necessário ressaltar que a pesquisa expedita não foi determinante na análise sobre a situação atual
das reservas e sobre o entendimento ou aceitação dessa categoria de unidade de conservação por
parte dos segmentos mais diretamente envolvidos. Dada a natureza desse trabalho e suas limitações
de tempo e recursos, as informações coletadas tiveram caráter de checagem rápida e indicativa das
análises dos dados obtidos por meio da prestação de informações de agentes locais, da consulta ao
material bibliográfico e de entrevistas institucionais, os quais, em boa parte, já trataram de temas
relacionados ao envolvimento dos atores locais com as reservas.

Para cada um dos segmentos foi elaborado um roteiro específico, tratando das questões mais afeitas a
seus interesses e objetivos (ver em anexo).

Ao todo foram realizadas 42 entrevistas com segmentos envolvidos nas 3 RDs em questão : moradores
do interior e entorno das ucs; proprietários de imóveis; responsáveis pela gestão da RDS; órgãos
públicos; sociedade civil organizada; institutos de pesquisa.

As informações locais, obtidas a partir do trabalho de pesquisador contratado, tiveram o seguinte foco:

• Identificação de instituições vinculadas ao assunto e de pessoas a serem entrevistadas


• Levantamento de bibliografia específica
• Levantamento de outros documentos pertinentes
• Repasse de suas experiências com as reservas
• Apoio às análises dos dados coletados e dos documentos disponíveis

Paralelamente, foram entrevistados representantes de Órgãos Executores do SNUC, Organizações da


Sociedade Civil e Instituições de Ensino e Pesquisa. O objetivo dessa atividade consistiu na obtenção
de informações sobre a categoria de manejo de unidade de conservação RDS. A intenção foi registrar
opiniões, entendimento e grau de conhecimento dos entrevistados sobre a categoria RDS. Foram
realizadas 10 entrevistas com especialistas, representantes de órgãos públicos, institutos de pesquisa,
movimentos sociais e ONGs;

As entrevistas foram iniciadas excepcionalmente em novembro de 2004, em função da ocorrência da I


Conferência das Populações Tradicionais do Estado do Amazonas, unidade da federação que detém a

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maior extensão de áreas transformadas em RDS. Após estas entrevistas, os roteiros específicos
passaram por um processo de aprimoramento.

As analises efetuadas a partir da sistematização dos levantamentos e das entrevistas focaram os


processos de criação, implantação e gestão de cada RDS, apreensão do conceito da categoria,
impactos da criação da RDS e representação desta categoria. Além disso, foi realizada uma avaliação
dos dispositivos legais sobre a categoria e análise dos dados à luz do SNUC e sua regulamentação.

Finalmente, foi formulada uma proposta preliminar de regulamentação para a categoria RDS. Esta
proposta foi apresentada na Oficina Diálogos sobre RDS, realizada em fevereiro de 2006.

Finalmente, à luz da discussão realizada na Oficina, este relatório apresenta uma proposta final para
subsidiar regulamentação da RDS.

3. HISTÓRICO DA INCLUSÃO DA CATEGORIA RDS NO SNUC DO PONTO DE VISTA DOS


ATORES ENTREVISTADOS PARA ESSE TRABALHO

A Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) é uma das categorias de Unidade de Conservação


criada pelo Sistema Nacional de Unidades de Conservação da Natureza (SNUC), Lei Federal nº 9.985,
de 18 de julho de 2000. Mas a categoria já existia desde 1996, quando foi criada a primeira RDS pelo
governo do estado do Amazonas: RDS de Mamirauá. No ano seguinte, inspirado na RDS Mamirauá, o
governo do estado do Amapá criou a RDS do Rio Iratapuru.

A incorporação desta categoria ao SNUC foi um dos muitos pontos da discussão que se prolongou por
dez anos para a elaboração do instrumento legal que viabilizasse o sistema. Um de seus resultados
acabou sendo o reconhecimento “pelo ordenamento jurídico, da essencialidade do território para as
populações tradicionais e de sua importância para a própria construção da identidade coletiva das
mesmas” (Santilli, 2004, p.140). Este processo de reconhecimento iniciou-se com o movimento pela
criação das Reservas Extrativistas – Resex – categoria de unidade de conservação que, em certa
medida, inspirou a RDS.

Santilli descreve o surgimento desta categoria de manejo: “A proposta de RESEX surgiu no contexto da
luta pela reforma agrária e a partir de mobilizações sociais e políticas realizadas inicialmente pelos
seringueiros do vale do rio Acre, especialmente no município de Xapuri, no Acre, sob liderança de
Chico Mendes (...). O objetivo geral das Resex é conciliar a solução dos conflitos pela posse de terra
com a gestão sustentável de recursos naturais, fazendo convergir políticas públicas que tendem a atuar
de forma divergente: reforma agrária e meio ambiente “.(2004, p.142)

Na década de 80 os seringueiros passaram a se organizar e reivindicar a criação das Resex, vista


como estratégia que os possibilitaria continuar a coletar a seringa, colher a castanha, pescar, caçar e
utilizar os mais variados recursos da floresta e de suas águas. Assim, como relata Santilli, “a proposta
de criação de RESEX – desenvolvida pelo movimento social dos seringueiros visando promover o
casamento entre conservação ambiental e reforma agrária – passou a ser considerado por cientistas e
formuladores de políticas publicas como uma via de desenvolvimento sustentável e socialmente
eqüitativo para a Amazônia. “ (2204. p.33).

Por sua vez, a Política Nacional do Meio Ambiente, lei nº 7804/89, já contemplava as reservas
extrativistas, mas sua criação e implantação foram regulamentadas pelo Decreto nº 98897/90, que

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define as Resex como “espaços territoriais destinados à exploração auto-sustentável e conservação
dos recursos naturais renováveis por população extrativista”.

As primeiras reservas extrativistas foram criadas no ano de 1990. A partir de 1992, esta categoria –
concebida para contemplar a realidade dos seringueiros da Amazônia – passou a ser criada para
designar unidades de conservação em outros biomas, habitadas por outros tipos de populações
tradicionais, como por exemplo, pescadores artesanais.

HISTÓRICO das RDS

À época da discussão do substitutivo de Fernando Gabeira (1995), um dos relatores do projeto de lei
do SNUC, foram acrescentadas novas categorias de unidades de conservação, todas de uso
sustentável. Entre elas podemos citar as Reservas de Desenvolvimento Sustentável e as Reservas
Ecológico- Culturais.

No entanto, para a grande maioria de especialistas em áreas protegidas entrevistados para este
trabalho, a categoria RDS, tal qual está disposta no SNUC, foi diretamente inspirada no modelo de
Mamirauá, sendo seus criadores e gestores (Sociedade Civil Mamirauá e, posteriormente, o Instituto de
Desenvolvimento Sustentável Mamirauá) os principais articuladores para a inclusão desta categoria no
SNUC. Esta informação está presente em vários depoimentos dos entrevistados:

“A principio o que havia sido previsto no SNUC sobre categoria de unidade de conservação relacionado
à população eram as Resex. Em função da criação da RDS de Mamirauá, as pessoas vinculadas
àquela Unidade de Conservação fizeram a proposta durante a discussão do SNUC. Mamirauá foi a
primeira RDS existente. Teve muita polêmica, pois esta categoria podia ser uma repetição da Resex,
mas acabou entrando no SNUC.”

“Foi por causa de Mamirauá, que era estação ecológica estadual, e se tornou RDS antes do SNUC,
que esta categoria entrou para o SNUC”.

“Acredito que houve motivações pela experiência positiva da RDS de Mamirauá (AM)”.

Por outro lado, há quem tenha chamado a atenção para a categoria Reserva Ecológico- Cultural,
proposta também inspirada nas Resex, muito semelhante à proposta da RDS.

A Reserva Ecológico-Cultural foi uma proposta do Núcleo de Apoio à Pesquisa sobre Populações
Humanas e Áreas Úmidas Brasileiras (NUPAUB), da Universidade de São Paulo, coordenado pelo
professor Antonio Carlos Diegues. Em 1991 a proposta de criação desta categoria foi encaminhada
para as discussões no CONSEMA e aprovada para compor a proposta do estado para o SNUC. Sua
definição era “área natural, que abriga populações tradicionais, cuja existência baseia-se em sistemas
sustentáveis de exploração dos recursos naturais, desenvolvidos ao longo de gerações e adaptados às
condições ecológicas locais, e que desempenham um papel fundamental na proteção da natureza e na
manutenção da diversidade biológica”.

Um dos entrevistados menciona aspectos desta história: “A discussão da categoria RDS, cuja
proposição é praticamente idêntica à proposta da Reserva Ecológico - Cultural, começa apenas a partir
de 1993 e, de fato, acontece a partir de 1994”.

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Mas as motivações para estas propostas foram diferentes. Enquanto a RDS foi pensada para a
Amazônia, a Reserva Ecológico-Cultural é uma proposta que nasceu no sudeste e pensada para
contemplar, principalmente, o contexto da Mata Atlântica.

A justificativa para criação da Reserva Ecológico-Cultural dispunha: “Não existe, a nível federal, uma
categoria de unidade de conservação que contemple especificamente as populações tradicionais, com
exceção das reservas extrativistas, que, no entanto, estão muito centradas no extrativismo vegetal
como atividade principal e até como modo de vida. Grande parte das culturas tradicionais brasileiras
tem no extrativismo vegetal somente uma das atividades que compõem seu calendário de atividades
econômicas”.(...) “A categoria de unidade de conservação proposta, Reserva Ecológico-Cultural,
deverá ser um mecanismo para resolver situações em que há necessidade de proteção de
ecossistemas importantes, em áreas habitadas por populações tradicionais”.(...) “Esta proposta
abrange populações tradicionais que, apesar de viverem basicamente da exploração de diversos
recursos naturais, não são necessariamente extrativistas vegetais. Neste sentido, a proposta visa
reconhecer os ocupantes tradicionais como parte do ecossistema (já que desenvolvem atividades
tradicionais adaptadas ao ecossistema), cuja herança cultural a conservar e proteger é valiosa”.

Assim, a proposta pretendia contemplar outras populações tradicionais que não as extrativistas.
Considerava que as Resex atendiam plenamente as populações da Amazônia, mas não contemplavam
as populações tradicionais de outros biomas, cujas atividades não se centram no extrativismo.

Já a RDS foi formulada por iniciativa de pesquisadores, que pretendiam conservar o hábitat de
espécies da fauna ameaçada de extinção do ambiente de várzea de Mamirauá. A proposta foi fruto do
processo de diálogo com as comunidades locais e ribeirinhas e do estabelecimento de parceria
buscando conciliar a conservação ambiental com o desenvolvimento social. Uma das entrevistadas,
que vivenciou a criação da RDS de Mamirauá, relata que a categoria foi uma resposta social às
demandas locais.

“Este modelo foi construído adaptado às questões sociais locais de Mamirauá. A formatação legal foi
em função da organização das populações. (...). Não foi criado nada novo, foi respeitado a organização
que já havia e o que queria a comunidade”.(...). “E como havia pesquisadores biólogos envolvidos,
preocupados com a conservação da área, foi proposta uma área de proteção integral, o que não está
contemplado na proposta da Resex”.

A entrevistada afirma ainda que houve a percepção do interesse de financiadores para criação da
unidade de conservação e o nome foi pensado para identificar a proposta de conciliar conservação
com desenvolvimento social.

Na versão final do SNUC, que resultou na Lei nº 9985/2000, a categoria Reserva Ecológico - Cultural
foi excluída e a RDS permaneceu. Segundo Santilli isto ocorreu “graças, em parte, à experiência da
Reserva de Desenvolvimento Sustentável de Mamirauá” (2004, p.120). Sem dúvida, a experiência já
em curso em Mamirauá, que aliava conservação ambiental com participação de comunidades locais
com sucesso, pesou para que a proposta de RDS fosse incorporada pela SNUC em detrimento da
proposta de Reserva Ecológico - Cultural.

Mesmo assim, na proposta final da RDS incluída no SNUC procurou-se mesclar as propostas originais
das duas categorias. Por exemplo, a definição atual da RDS é a mesma definição da Reserva
Ecológico - Cultural, descrita acima. Alguns entrevistados colocam este ponto de vista:

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“Na discussão do SNUC em Brasília, a categoria Reserva Ecológico-Cultural continuou fazendo parte
do sistema e só foi retirada nos últimos meses, antes de se fechar a proposta do SNUC, e RDS
continuou. Mas pode ler o texto e comparar, que é idêntico. “

“E eu acho que essa história de RDS foi uma solução de última hora para algumas pressões que até
então eram separadas. Foi uma discussão liderada pelo Diegues que dizia que, sobretudo para o litoral
sudeste, as Resex eram muito restritas porque só pensava no extrativismo e tinha obrigatoriedade de
domínio público. E fizeram a proposta da Reserva Ecológico-Cultural. Do outro lado tinha uma
realidade que era uma área super conhecida, que era Mamirauá, com liderança do Márcio Ayres.
Mamirauá era uma Estação Ecológica que não poderia funcionar como tal e ele inventou um novo
nome, RDS, e não ficou definido o que seria. Várias coisas avançaram e recuaram durante a discussão
de dez anos do SNUC, e no final, por algum lobby bem feito, provavelmente pelo Márcio Ayres ou por
alguém liderado por ele, se conseguiu incluir essa categoria, mas não tinha uma proposta de definição
muito clara. Essas duas propostas acabaram sendo misturadas”.

Há que se destacar, porém, que diferentemente da proposta da Reserva Ecológico-Cultural, que previa
uma mescla de domínio público com pequenas propriedades dos moradores locais, a RDS prevê a
“possibilidade de só fazer a desapropriação das áreas particulares incluídas em seus limites quando
necessária” (artigo 20, parágrafo 2º, da Lei do SNUC). Tal disposição também remete ao modelo de
Mamirauá, que desde sua criação abriga propriedades particulares e tem sido fator decisivo para
criação recente de algumas RDS, em casos que o poder público não tem interesse ou recursos para a
desapropriação de áreas privadas.

Desta maneira, ainda que o nome desta categoria tenha origem numa proposta de conservação para
uma área na Amazônia, ela propiciou, por meio de seus objetivos gerais, a preocupação em atender
populações tradicionais não extrativistas de outros Biomas. Chama atenção, porém, o fato de que a
maioria das RDS existentes até o momento encontra-se na região amazônica, e não raro abrigando
populações extrativistas. São as seguintes as Reservas de Desenvolvimento Sustentável estaduais já
criadas até o momento: Rio Iratapuru (AP); Amanã, Cujubim, Mamirauá e Piagaçu-Purus (AM);
Veredas do Peruaçu (MG); Alcobaça e Pucuruí-Aratão (PA) e Ponta do Tubarão (RN). A única RDS
federal foi criada recentemente, em junho de 2005 . Com área de 65 mil hectares, a RDS de Itatupã-
Baquiá abriga 7 comunidades de pescadores no município de Gurupá, arquipélago de Marajó (PA).

Enquanto a Resex é fruto da mobilização social e política iniciada pelo movimento dos seringueiros,
“procurando conciliar as reivindicações por reforma agrária nos moldes amazônicos com a defesa do
meio ambiente.” (Santilli, 2004, p.148), a concepção das RDS nasceu de proposta de pesquisadores.
Santilli, a este respeito, coloca que “No caso das Resex, o componente social certamente pesou mais
sobre as propostas e concepções que orientaram a sua formulação inicial, e no caso das RDS o
componente ambiental (a preocupação com a conservação da diversidade biológica) foi a mola
propulsora das iniciativas para a proteção da área, que incorpora também a sustentabilidade social”.
(2004, p.149).

Uma das entrevistadas também discorre sobre este ponto:

“A categoria RDS foi incluída no SNUC para ajeitar a situação de Mamirauá, que era uma estação
ecológica estadual, com população nativa, incluindo índios. Durante o processo de discussão da RDS
não houve manifestação das populações indígenas, por exemplo, porque eles teriam benefício com o
projeto de Mamirauá. A categoria RDS entrou para ajustar esta unidade. Não dava para ser RESEX,
naquele caso, porque era uma população de pescadores que não se vêem como extrativistas. A RDS

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não foi demanda da população. A proposta da RDS veio ao encontro da idéia de uma categoria de
manejo de uso sustentável mais flexível, mais aberta, não atrelada à idéia de extrativismo e
seringueiros.”

A única RDS não amazônica criada até o momento, Ponta do Tubarão (RN), contou em seu histórico
de consultas públicas com a discussão sobre a categoria que mais conviria à situação local, tendo sido
cogitadas APA, Resex e RDS. Transformou-se em RDS em função do entendimento, pelos atores
envolvidos, de que o perfil sócio-econômico da população não se encaixava enquanto extrativista,
embora a principal ocupação dos moradores seja a pesca, atividade considerada extrativista na lei do
SNUC. A categoria APA também foi descartada por ser considerada pouco eficaz para a proteção da
área, constantemente ameaçada de invasão por grupos empresariais. Por parte do órgão gestor
estadual, pesou também na decisão o fato de a situação fundiária ser bastante complexa, envolvendo
áreas privadas e, conseqüentemente, processos de desapropriação, caso se optasse por outra
categoria que não APA e RDS.

Relacionada a essa questão, é também interessante destacar que alguns entrevistados têm o
entendimento de que as RDS são assemelhadas às APAS, ou modelos mais aprimorados desta
categoria, em função, segundo eles, de não resolver a questão fundiária, com reflexos negativos à
própria conservação ambiental e aos direitos das famílias locais ou tradicionais. Ou seja, as RDS, por
permitirem a ocorrência de propriedades privadas, não garantem a resolução de conflitos entre grupos
de interesse e não podem ser plenamente implementadas se os proprietários de terras não
concordarem com seus objetivos ou com as normas e diretrizes de seus instrumentos operacionais,
como o zoneamento e o plano de manejo da área.

Além disto, alguns especialistas e representantes de movimentos sociais crêem que a inclusão da
categoria RDS na lei do SNUC acarretou no enfraquecimento da importância da categoria Resex, tida
como símbolo da capacidade de organização e mobilização das populações consideradas tradicionais.
O fato da categoria RDS ter sido concebida a partir do modelo de Mamirauá, a qual foi criada por
demandas notadamente conservacionistas de pesquisadores, descaracterizaria esta categoria
enquanto instrumento de resolução de conflitos sócio-econômicos e fundiários, além de comprometer a
auto-determinação das sociedades locais ou tradicionais. Tal posicionamento fundamenta-se, segundo
os representantes de movimentos sociais, como o Conselho Nacional dos Seringueiros, no fato de que
vários governos estaduais estariam preterindo a criação de Resex, em favor das RDS, em função da
falta de interesse político em desapropriar áreas privadas e/ou incentivar o fortalecimento de
organizações comunitárias localizadas nas áreas alvo de proteção ambiental.

Mesmo autoridades estaduais, responsáveis hoje pela criação de RDS, declaram ter se posicionado
contra a inclusão desta categoria no SNUC, por considerarem que não incentivava a mobilização e
organização social, ao contrário das Resex. No entanto, atualmente argumentam que têm apoiado a
criação de RDS como única forma de se proteger áreas naturais e populações humanas ameaçadas,
devido à falta de vontade política e de recursos financeiros para a implantação de processos de
desapropriação de imóveis nessas áreas.

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4. A RESERVA DE DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL SEGUNDO O SNUC

Uma das inovações da lei federal nº 9.985 de 18 de julho de 2000, que institui o Sistema Nacional de
Unidades de Conservação da Natureza (SNUC) é a proposta de contemplar a interface entre a
diversidade biológica e cultural. Podemos identificar, entre os objetivos do SNUC, por exemplo, não só
a conservação da biodiversidade, como também a conservação da sócio-diversidade (Santilli, 2004):

O Art. 4º o SNUC aponta como objetivos:


IV - promover o desenvolvimento sustentável a partir dos recursos naturais;
XIII - proteger os recursos naturais necessários à subsistência de populações tradicionais, respeitando
e valorizando seu conhecimento e sua cultura e promovendo-as social e economicamente.

Neste contexto propício, o SNUC, preocupado em criar categorias de manejo de unidades de


conservação especificamente destinadas a abrigar as populações tradicionais , instituiu uma nova
categoria de manejo denominada Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS)

Segundo a lei do SNUC (capítulo III, artigo 20), as RDS são áreas naturais que abrigam populações
tradicionais, cuja existência baseia-se em sistemas sustentáveis de exploração de recursos naturais,
desenvolvidos ao longo de gerações e adaptados às condições ecológicas locais e que desempenham
um papel fundamental na proteção da natureza e na manutenção da diversidade biológica.

Em seu parágrafo primeiro, o referido artigo define o objetivo básico desta categoria de unidade de
conservação: preservar a natureza e, ao mesmo tempo, assegurar as condições e os meios
necessários para a reprodução e a melhoria dos modos e da qualidade de vida e exploração dos
recursos naturais das populações tradicionais, bem como valorizar, conservar e aperfeiçoar o
conhecimento e as técnicas de manejo do ambiente, desenvolvido por estas populações.

Esses dois enunciados merecem alguns destaques iniciais:

• As RDS devem ser áreas que abrigam populações tradicionais que dependem de sistemas
sustentáveis de exploração dos recursos naturais para sua existência.
• Estes sistemas devem ser resultado de um processo histórico de construção, assim como
devem estar adaptados às condições ecológicas locais, desempenhando papel fundamental na
proteção da natureza e na manutenção da biodiversidade.

Dessa forma, a definição e o principal objetivo desta categoria de unidade de conservação restringem
sua aplicação aos casos em que populações consideradas tradicionais propiciam a conservação dos
ecossistemas locais por meio da utilização de sistemas patrimoniais e sustentáveis de exploração de
recursos ambientais. Para compreendermos esta afirmação temos que analisar os seguintes termos:
conservação, uso sustentável, populações tradicionais.

De acordo com o próprio SNUC, inciso II do Capítulo I, conservação da natureza constitui-se no


manejo do uso humano da natureza, compreendendo a preservação, a manutenção, a utilização
sustentável, a restauração e a recuperação do ambiente natural, para que possa produzir o maior
benefício, em bases sustentáveis, às atuais gerações, mantendo seu potencial de satisfazer as
necessidades e aspirações das gerações futuras, garantindo a sobrevivência dos seres vivos em geral.
Por sua vez, uso sustentável é assim disposto no inciso XI do mesmo capítulo: exploração do ambiente
de maneira a garantir a perenidade dos recursos ambientais renováveis e dos processos ecológicos,

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mantendo a biodiversidade e os demais atributos ecológicos de forma socialmente justa e
economicamente viável.

Analisando conjuntamente os dois conceitos, tem-se que as atividades permitidas em uma RDS devem
contemplar os benefícios às atuais e futuras gerações, no caso, principalmente das populações
abrigadas pela unidade de conservação, compreendendo ações de preservação, manutenção,
utilização sustentável e recuperação do ambiente natural em bases socialmente justas e viáveis em
longo prazo. Além disso, uma RDS tem o papel de conservar e aperfeiçoar o conhecimento e as
técnicas de manejo desenvolvidas pelas populações tidas como tradicionais, conforme disposto em seu
objetivo principal.

Quanto ao termo populações tradicionais, mesmo que no escopo da lei do SNUC tenha sido vetado o
inciso que ensejava conceituar populações tradicionais1, pode-se pressupor pelos demais enunciados
referentes à categoria RDS, que se tratam de grupos humanos residindo há algumas gerações nas
áreas ou ecossistemas objetos de proteção, de forma que puderam obter e gerar conhecimentos sobre
o meio e seus recursos, fazendo de sua exploração, em bases sustentáveis, o principal esteio de sua
economia e de sua reprodução sócio-cultural.

No entanto, variadas e, não raro, contraditórias considerações sobre o conceito de populações


tradicionais já foram traçadas, acarretando na ocorrência de diversas interpretações entre
ambientalistas, movimentos sociais e administradores públicos. Santilli (2004) coloca que “ainda que
alguns antropólogos apontem as dificuldades geradas pela forte tendência a associações com
concepções de imobilidade histórica e atraso econômico e consideram o conceito ‘problemático’ em
face da forma diversificada e desigual com que os segmentos sociais se inserem na Amazônia sócio-
ambiental, a categoria ‘populações tradicionais’ tem sido reconhecida em sua dimensão política e
estratégica. Entretanto, o direito ainda dá os primeiros passos na formulação de uma definição –
jurídica – de ‘populações tradicionais’. (p. 124) e acrescenta: “a lei do SNUC e o decreto que a
regulamentou utilizam termos distintos, com significações distintas, que são comumente confundidas
pela doutrina e pelos aplicadores da lei. São elas: populações tradicionais, populações tradicionais
residentes, populações locais e populações residentes.”(p.161)

Entre as considerações sobre este tema constam, por exemplo, as de Diegues e Arruda (2001), que
em obra publicada pelo Ministério do Meio Ambiente, afirmam que tais populações podem ser
caracterizadas:
• pela dependência da relação de simbiose entre a natureza, os ciclos e os recursos naturais
renováveis com os quais se constrói um modo de vida;
• pelo conhecimento aprofundado da natureza e de seus ciclos, que se reflete na elaboração de
estratégias de uso e de manejo dos recursos naturais. Esse conhecimento é transferido por oralidade
de geração em geração;
• pela noção de território ou espaço onde o grupo social se reproduz econômica e socialmente;
• pela moradia e ocupação do território por várias gerações, ainda que alguns membros individuais
possam ter-se deslocado para os centros urbanos e voltado para a terra de seus antepassados;
• pela importância das atividades de subsistência, ainda que a produção de mercadorias possa estar
mais ou menos desenvolvida, o que implicaria uma relação com o mercado;
• pela reduzida acumulação de capital;
• pela importância dada à unidade familiar, doméstica ou comunal e às relações de parentesco ou
compadrio para o exercício das atividades econômicas, sociais e culturais;
1
Devido à falta de consenso entre os diversos segmentos da sociedade que discutiram a lei
do SNUC por mais de dez anos.
11
• pela importância das simbologias, mitos e rituais associados à caça, pesca e atividades extrativistas;
• pela tecnologia utilizada, que é relativamente simples, de impacto limitado sobre o meio ambiente. Há
uma reduzida divisão técnica e social do trabalho, sobressaindo o artesanal, cujo produtor e sua família
dominam todo o processo até o produto final;
• pelo fraco poder político, que em geral reside nos grupos de poder dos centros urbanos; e
• pela auto-identificação ou identificação por outros de pertencer a uma cultura distinta

Dessa forma, os autores utilizam a noção de ‘sociedades tradicionais’ para definir “grupos humanos
diferenciados sob o ponto de vista cultural, que reproduzem historicamente seu modo de vida, de forma
mais ou menos isolada, com base na cooperação social e relações próprias com a natureza. Essa
noção refere-se tanto a povos indígenas quanto a segmentos da população nacional2, que
desenvolveram modos particulares de existência, adaptados a nichos ecológicos específicos”.

Por outro lado, os referidos autores ressalvam que há sérias limitações em tais definições já que, a
rigor, todas as culturas e sociedades têm uma ‘tradição’. “Além disso, tipologias como essas, baseadas
num conjunto de ‘traços culturais’ empíricos, tendem a apresentar rigidez simplificadora, dificultando a
análise dessas sociedades e culturas como fluxos socioculturais dinâmicos e em permanente
transformação”. No mais, as tipologias permitem sua utilização em determinados contextos sócio-
políticos, ora ensejando a reivindicação e/ou a garantia dos direitos de comunidades ditas tradicionais,
ora negando ou suprimindo esses mesmos direitos.

Sobre esta questão, e no que se refere mais especificamente às políticas ambientais, Little (2002)
menciona que a “sociogênese do conceito de povos tradicionais e seus subseqüentes usos políticos e
sociais se deu para englobar um conjunto de grupos sociais que defendem seus respectivos territórios
frente à usurpação por parte do Estado-Nação e outros grupos sociais vinculados a este. Num contexto
ambientalista, o conceito surgiu a partir da necessidade dos preservacionistas em lidar com todos os
grupos sociais residentes ou usuários das unidades de conservação de proteção integral, entendidos
aqui como obstáculos para a implementação plena das metas dessas unidades. Noutro contexto
ambientalista, o conceito dos povos tradicionais serviu como forma de aproximação entre sócio-
ambientalistas e os distintos grupos que historicamente mostraram ter formas sustentáveis de
exploração dos recursos naturais, assim gerando formas de co-gestão de território. Assim, o conceito
de povos tradicionais contém tanto uma dimensão empírica quanto uma dimensão política, de tal modo
que as duas dimensões são quase inseparáveis”.

. Os antropólogos Manuela Carneiro da Cunha e Mauro de Almeida discorrem sobre populações


tradicionais, relacionando a categoria “populações tradicionais” ao uso de técnicas de baixo impacto e
formas eqüitativas de organização social:
Quem são as populações tradicionais? O emprego do termo “populações tradicionais” é
propositalmente abrangente. Contudo, sua abrangência não deve ser confundida com confusão
conceitual. Definir as populações tradicionais pela adesão à tradição seria contraditório com os
conhecimentos antropológicos atuais. Defini-las como populações que têm baixo impacto sobre o
ambiente, para depois afirmar que são ecologicamente sustentáveis, seria mera tautologia. Se
definirmos como populações que estão fora da esfera do mercado, será difícil encontrá-las hoje em dia.

2
Segundo os autores citados, as comunidades tradicionais se constituiriam, de forma
empírica, de caiçaras, jangadeiros, pescadores artesanais em geral, sitiantes, roceiros, quilombolas,
ribeirinhos, sertanejos, grupos extrativistas em geral e indígenas. Contraporiam-se a esses os
fazendeiros, veranistas, comerciantes, servidores públicos, empresários em geral e seus
empregados, donos de empresas de beneficiamento de recursos naturais, aquicultores em escala
industrial, madeireiros.
12
[...]
No momento, a expressão “populações tradicionais” está na fase inicial de sua vida. Trata-se
de uma categoria pouco habitada, mas já conta com alguns membros e candidatos à entrada. Para
começar, tem existência administrativa: o Centro Nacional de Populações Tradicionais, um órgão do
IBAMA. No início, a categoria congregava seringueiros e castanheiros da Amazônia. Desde então
expandiu-se, abrangendo outros grupos, que vão de coletores de berbigão de Santa Catarina a
babaçueiras do sul do Maranhão e quilombolas do Tocantins. O que todos estes grupos possuem em
comum é o fato que tiveram pelo menos uma parte de história de baixo impacto ambiental e de que
têm no presente interesses em manter ou em recuperar o controle sobre o território que exploram. E,
acima de tudo, estão dispostos a uma negociação: em troca do controle sobre o território,
comprometeram-se a prestar serviços ambientais.
[...]
Já podemos afirmar que as populações tradicionais são grupos que conquistam ou estão
lutando para conquistar (através de meios práticos e simbólicos) uma identidade pública que inclui
algumas e não necessariamente todas as seguintes características: o uso de técnicas ambientais de
baixo impacto, formas eqüitativas de organização social, a presença de instituições com legitimidade
para fazer cumprir suas leis, liderança social e, por fim, traços culturais que são seletivamente
reafirmados e re-elaborados.(Cunha, M.C & Almeida, M W.B. Populações tradicionais e conservação
ambiental : In Capobianco, João Paulo Ribeiro et al (orgs) Biodiversidade na Amazônia Brasileira:
avaliação e ações prioritárias para a conservação, uso sustentável e repartição de benefícios. São
Paulo: estação Liberdade, Instituto Socioambiental, 2001, p.184-193.)

Vianna (1996), por sua vez, ao tratar de conflitos entre órgãos gestores de unidades de conservação
de proteção integral e populações locais, conclui que, mesmo que ciências como a antropologia
possam subsidiar o deslindamento das contradições relacionadas ao tratamento conceitual dado às
comunidades tradicionais, colaborando para o equacionamento dos conflitos entre elas e os tomadores
de decisão das políticas conservacionistas, o fulcro da questão se situa na forma ainda pouco
democrática como as áreas protegidas têm sido criadas. Além disso, afirma que a cristalização de
posicionamentos antagônicos entre as partes diretamente interessadas tem dificultado o entendimento
sobre a necessidade das ações de proteção de ecossistemas importantes e/ou ameaçados e impedido
que as populações locais sejam as principais beneficiárias dos processos de criação e implantação das
unidades de conservação.

Mesmo que a referida autora esteja tratando de unidades de proteção integral e, portanto, de um
histórico de exclusão de populações de áreas selecionadas prioritariamente para a preservação
ambiental, quando o SNUC passa a contemplar as unidades de uso sustentável, reservando-as a
populações consideradas tradicionais, a questão, da mesma forma, volta à pauta. Ou seja, a falta de
definição mais clara sobre populações tradicionais no quadro legal do Sistema Nacional pode
determinar também que para Reservas Extrativistas (Resex) e RDS as populações locais sejam
submetidas a avaliações formuladas de acordo com interesses e posicionamentos ideológicos de
grupos ambientalistas, movimentos sociais e administradores de órgãos públicos das três esferas do
poder, conforme anteriormente mencionado.

Ainda sobre esta questão, outro exemplo demonstra a dificuldade de enquadramento legal das
populações consideradas tradicionais: a assessoria técnico-científica da recém criada Comissão
Nacional de Desenvolvimento Sustentável das Populações Tradicionais3, majoritariamente formada por
antropólogos, acabou optando por não definir rigidamente um conceito para esses grupos humanos.
Em texto preparatório (2005) para o Primeiro Encontro Nacional das Populações Tradicionais está
3
Decreto Federal de 27 de dezembro de 2004.
13
registrado que “não cabe ao Estado a definição de quem são as Comunidades Tradicionais, mas a elas
próprias, aquelas que assim se autodefinem e sejam consoantes com os objetivos da ação
governamental. Há de se ter também consenso, sendo imprescindível que seus membros se
manifestem coletivamente favoráveis a tal pertencimento, constituindo a autodefinição como ato de
reconhecimento dessa adesão”.

Por outro lado, o documento afirma também que alguns critérios básicos devem ser criados para
nortear o conceito, e conseqüentemente, definir o público alvo das ações governamentais, sendo
inicialmente listados: formas de organização social, formas de produção e de utilização de recursos,
vínculo com território, uso dos recursos naturais e costumes (aspectos religiosos, culinária, festas,
arquitetura e outros).

Por fim, o grupo de assessores da Comissão estabeleceu que populações tradicionais devem ter como
uma de suas características o fato de viverem em comunidades, sendo conceituada comunidade “como
grupo que interage diretamente, face a face, que é capaz de agir coletivamente a partir destas
interações e que compartilha um patrimônio e um pacote de recursos, dentre eles o território, sobre os
quais são estabelecidos direitos coletivos. O tradicional, por sua vez, não se refere apenas aos
conhecimentos ou práticas em si, mas a maneira de produzi-los e utilizá-los”. Nesse sentido, concluem
que “a tradição é um processo em evolução e um laboratório coletivo: os conhecimentos são
materializados em dispositivos de ação, regras, normas e formas de reconstruir a natureza”.

Comparando-se as definições de RDS e de Resex (Reservas Extrativistas) de acordo com o que está
disposto no SNUC, nota-se que também para essa última categoria o enunciado refere-se a
populações tradicionais, apenas com duas diferenças: 1) as RDS devem obrigatoriamente abrigar em
suas áreas segmentos destas populações, condição não constante no enunciado sobre RESEX, que
dispõe que estas unidades são destinadas ao uso sustentável por populações tradicionais, sem
especificar se devem ou não residir na área delimitada4 e 2) para as Resex é sublinhado que as
populações têm também que ter sua subsistência baseada no extrativismo (Capítulo III, artigo18). O
inciso XII, Capítulo I da lei nº 9.985/2000, dispõe, de forma sucinta, que extrativismo é um sistema de
exploração baseado na coleta e extração, de modo sustentável, de recursos naturais renováveis.

Desta forma, o que diferenciaria uma reserva e outra no que se refere ao perfil da população residente
na área seria o fato de que para Resex a principal atividade econômica seria a exploração de recursos
naturais renováveis, não importando se pertencentes à fauna ou à flora.

No entanto, é recorrente entre sociedades rurais do país, notadamente as localizadas em regiões onde
ainda ocorrem ecossistemas em bom estado de conservação, a existência de estratégias econômicas
baseadas no consórcio de variadas atividades, como a pequena agricultura, a pesca, a caça e o
extrativismo, tanto para comercialização da produção, quanto para consumo local. Tal situação torna
difícil a valoração, inclusive para os moradores locais, da importância de cada atividade para a
subsistência e reprodução sócio-cultural das comunidades.

Mesmo as atividades que não geram renda, e por isso mesmo menos valorizadas pelos segmentos
urbanos, representam em determinadas sociedades um papel fundamental para a garantia da
qualidade de vida das famílias locais.

4
Tal diferença foi apontada por Paulo Oliveira, assessor da presidência do IBAMA,
responsável pelo CNPT, centro responsável pela criação e administração das unidades de uso
sustentável federais. Cabe, porém, destacar que a RDS estadual de Iratapuru (AP) é um exemplo
desta categoria em que os usuários residem somente na área de entorno da unidade.
14
Assim, a questão que se coloca para a criação de uma RDS ou de uma Resex com habitantes em seu
interior, é que, além do enquadramento de determinada população como tradicional ou não, há que se
julgar também se ela é predominantemente extrativista ou não, o que não deixa de ser um dilema para
as próprias comunidades.

Em recente encontro promovido pela Secretaria do Meio Ambiente e do Desenvolvimento Sustentável


do Governo do Estado do Amazonas5, grande parte dos indivíduos definidos como extrativistas
vegetais, artesãos ou pequenos agricultores apontaram o pescado como principal recurso para a
manutenção da qualidade de vida de suas comunidades.

Portanto, elegeram a pesca como a principal atividade econômica, mesmo que em boa parte dos casos
a produção fosse apenas voltada para o consumo local. Levando-se em conta que a pesca pode ser
considerada atividade extrativista, de acordo com a conceituação do SNUC, para os casos em que os
moradores são identificados como extrativistas de recursos florestais, não haveria problemas quanto ao
seu enquadramento.

Porém, para as situações em que os locais são definidos como agricultores, restariam dúvidas sobre
sua principal base de subsistência e, conseqüentemente, sobre as opções para a eventual implantação
de uma unidade de uso sustentável em sua área de atuação econômica. De forma similar, há diversos
casos na costa brasileira em que atividades vinculadas ao turismo são, há anos, a principal ocupação
dos moradores locais, embora as comunidades sejam identificadas, e se auto-identifiquem, como
pescadores artesanais e, portanto, extrativistas de recursos haliêuticos.

Outras disposições do SNUC definem distintivamente cada categoria de reserva de uso sustentável,
entre elas a questão fundiária. Neste quesito, Santilli coloca que “Uma idéia chave da proposta de
criação de RESEX é a titularidade coletiva e compartilhada sobre os direitos de uso dos recursos
naturais nelas existentes. Inspiradas no modelo de terra indígenas, as reservas extrativistas se
baseiam no conceito de que são bens de domínio da União (de forma que evite a sua venda e lhes dê
garantias de que só gozam os bens públicos) (...), e a posse e o uso dos recursos naturais é coletivo e
compartilhado” (p.33).

No capítulo III, § 1º do Artigo 18º da lei 9.985/2000, está disposto que a Resex é de domínio público,
com uso concedido às populações extrativistas tradicionais conforme o disposto no art. 23º desta lei e
em regulamentação específica, sendo que as áreas particulares incluídas em seus limites devem ser
desapropriadas, de acordo com o que dispõe a lei.

O referido artigo 23º determina que a posse e o uso das áreas ocupadas pelas populações tradicionais
nas RESEX e RDS serão reguladas por contrato, conforme se dispuser no regulamento desta lei. Por
sua vez, o decreto 4.340/2002, que regulamenta a lei, apenas menciona, em seu artigo 13º, que o
contrato de concessão de direito real de uso e o termo de compromisso firmados com populações
tradicionais das Resex e RDS devem estar de acordo com o Plano de Manejo, devendo ser revistos, se
necessário.

5
I Conferência Estadual das Populações Tradicionais do Estado do Amazonas, realizada em
novembro de 2004, que congregou por volta de duzentos representantes de comunidades residentes
em áreas de floresta.
15
Cabe aqui destacar que o mesmo decreto 4.340/2002 dispõe que o Plano de Manejo das unidades de
uso sustentável deve ser aprovado em resolução do conselho deliberativo, no caso de Resex e RDS,
após prévia aprovação do órgão executor (Inciso I do artigo 12).

Para o caso das RDS, a lei do SNUC , em seu artigo 20º, § 2º, determina que a área da unidade é de
domínio público, sendo que as áreas particulares incluídas em seus limites devem ser, quando
necessário, desapropriadas, de acordo com o que dispõe a lei.

Por outro lado, o § 3º do artigo 20 dispõe que o uso das áreas ocupadas pelas populações tradicionais
será regulado de acordo com a o disposto no artigo desta lei e em regulamentação específica,
remetendo à mesma situação descrita acima para as Resex.

Ou seja, o que difere em termos fundiários as duas categorias é que para as RDS a lei pode ser
interpretada como aberta à possibilidade de sua área contar com propriedades privadas, só
desapropriadas quando necessário, sem que conste na lei, ou na sua regulamentação, indicativos mais
precisos para tanto. Neste caso, é de se alertar que se as famílias residentes detiverem títulos das
terras, a questão da concessão de direito real de uso fica comprometida, comprometendo,
conseqüentemente, o termo de compromisso que subsidiaria a elaboração e a efetiva implantação do
plano de manejo da unidade.

Pela lógica do SNUC, qual seja, conservação da biodiversidade como objetivo primordial, presume-se
que será necessária a desapropriação em casos de imóveis cujas formas de uso e ocupação sejam
incompatíveis às características e aos objetivos desta categoria, e/ou estejam em desacordo com seu
zoneamento e plano de manejo.

No entanto, essa ambigüidade legal, aberta pelo referido § 2º do artigo 20 da lei do SNUC, tem
determinado que várias RDS estejam sendo criadas como forma de se contemplar áreas habitadas e
utilizadas por populações humanas inseridas ou contíguas a imóveis particulares , sem o ônus da
desapropriação de terras, requerido legalmente para o caso de Resex. Esta é uma interpretação muito
comum entre especialistas, estudiosos e gestores públicos, conforme observado nas entrevistas
realizadas para esse trabalho.

Tal situação, por sua vez, não contempla o disposto na legislação, dado que raramente os proprietários
dos grandes imóveis têm sido consultados sobre a criação das unidades ou concordem em submeter
suas práticas produtivas aos objetivos das RDS.

Um exemplo desta situação é a RDS de Cujubim, criada pelo Governo do Estado do Amazonas, que
apresenta a maior parte de sua área, de mais dois milhões de hectares, formada por latifúndios, cujos
proprietários não concordam em se submeter às normas decorrentes da implantação da RDS.

Outro exemplo, estudado mais detidamente para este trabalho, é a RDS da Ponta do Tubarão / RN, em
que a situação fundiária é bastante complexa e polêmica, havendo uma série de pessoas jurídicas e
físicas que declaram ser proprietárias de terras na área da reserva, e que também declaram, de
antemão, não concordar em acatar as regras de um futuro plano de manejo. Além disto, cinco
empresários, que se dizem proprietários de imóveis no interior da RDS, entraram com ações na justiça
reivindicando a implantação de empreendimentos de carcinocultura na área, atividade considerada
impactante e inadequada pelo órgão gestor (IDEMA / RN) e pelo conselho gestor deliberativo da
unidade.

16
Com relação a esta questão, atividades adequadas a uma RDS, a legislação do SNUC é também
bastante imprecisa, ensejando variadas interpretações: partindo mais uma vez da analogia entre RDS
e RESEX, está disposto na lei nº 9.885/2000, que para essas últimas a visitação pública6 e a pesquisa
são permitidas, ao contrário das atividades de exploração de recursos minerais e a caça, tanto
amadorística, quanto profissional ( § 3º e 6º do artigo 18, capítulo III). Por outro lado, o § 7º do mesmo
artigo dispõe que a os recursos madeireiros só poderão ser explorados em bases sustentáveis e em
situações especiais, complementares às demais atividades desenvolvidas na RESEX, conforme
regulamento e o plano de manejo da unidade.

Para as RDS, é apenas disposto que as atividades desenvolvidas deverão obedecer a quatro
condições, segundo o § 5º do artigo 20 da lei do SNUC:
• A visita pública é permitida e incentivada, desde que compatível com interesses locais e
prevista no plano de manejo;
• A pesquisa científica é permitida e incentivada, conquanto seus resultados subsidiem a
conservação da natureza, a melhor relação entre os moradores com o meio e a educação
ambiental;
• Deve ser considerado o equilíbrio dinâmico entre o tamanho da população e a
conservação e
• É admitida a exploração de componentes dos ecossistemas naturais em regime de manejo
sustentável e a substituição da cobertura vegetal por espécies cultiváveis, desde que
sujeitas ao zoneamento, às limitações legais e ao plano de manejo da área.

Ou seja, fica subentendido neste último inciso, diferente do que está disposto para RESEX, que
mineração, agricultura, pecuária e exploração vegetal, inclusive de espécies madeireiras, podem
eventualmente ser admitidas, inclusive com substituição da cobertura vegetal, conquanto submetidas à
legislação vigente e às normas da própria reserva, conferindo ao órgão gestor da unidade e,
principalmente, a seu conselho gestor, que é deliberativo, a competência pelas decisões sobre quais
atividades serão aceitas na área.

Dessa forma, serão, essencialmente, o grau de mobilização e de organização da população residente


na RDS, refletido na composição e funcionamento do conselho, e a capacidade de articulação do órgão
gestor que irão definir se as atividades da unidade irão beneficiar a população local e a plena
conservação do meio natural.

Assim, as RDS, segundo a legislação, admitem maior diversidade de atividades, incluindo aquelas
potencialmente com maior impacto sobre o ambiente, do que as Resex. Mas, se analisarmos os
objetivos inscritos no SNUC destas duas categorias (artigos 18 e 20), aliado ao histórico de cada uma
delas, chama atenção o fato de que é possível interpretar que a RDS tem por objetivo privilegiar a
preservação da natureza em si, enquanto a Resex tem o de “proteger os meios de vida e cultura
dessas populações”, sendo a preservação da natureza considerada apenas uma condição para
assegurar o uso sustentável , por estas populações, dos recursos naturais da unidade.

Corroborando esta interpretação, o § 6º do art. 20 prevê zona de proteção integral na RDS, o que não é
previsto nas RESEX: “o plano de manejo da Reserva de Desenvolvimento Sustentável definirá as
zonas de proteção integral, de uso sustentável e de amortecimento e corredores ecológicos, e será
aprovado pelo Conselho Deliberativo”.

6
Desde que compatível com os interesses locais e de acordo com o plano de manejo da área.
17
Embora toda categoria tenha por objetivo primordial a conservação da natureza, condição para
pertencer ao Sistema Nacional de Unidades de Conservação, esta distinção expressa nos objetivos
das Resex e RDS é mais um fator a ser considerado na definição de uma categoria de manejo para
uma determinada área a ser protegida.

Cabe ainda em relação a esse tema, uma consideração sobre o inciso III do referido § 5º do artigo 20
da lei do SNUC, que expressa preocupação com capacidade de suporte das RDS: quando é disposto
que deve ser sempre considerado o equilíbrio dinâmico entre o tamanho da população e a
conservação, subentende-se que o número de moradores deve manter uma relação satisfatória com as
dimensões da área, de forma que eles possam efetivamente administrá-la e fiscalizá-la, dela tirando os
recursos necessários para sua sobrevivência e reprodução sócio cultural em bases sustentáveis.

Duas outras questões, que diferenciam uma categoria da outra, também merecem destaque:

Diferente do que disposto legalmente para as Resex, os planos de manejo das RDS terão que definir
zonas de proteção integral, de uso sustentável, de amortecimento e corredores ecológicos, aprovadas
pelo conselho gestor (§ 6º, artigo 20), conforme descrito acima. Isto é, a proteção aos ecossistemas
passa, hipoteticamente, a também ser garantida pelo zoneamento da área, principalmente pela
obrigatoriedade de implantação de uma zona de exclusão de atividades econômicas. No entanto,
também para esta situação, cabe principalmente ao conselho deliberativo da unidade a
responsabilidade para que as zonas estabelecidas, suas áreas e normas sejam satisfatórias para a
conservação ambiental e para a manutenção ou melhoria de qualidade de vida das populações locais.

A portaria IBAMA 51-N, de 11 de maio de 1994, foi o primeiro instrumento legal a detalhar os
procedimentos para criação, implantação e gestão de Resex, reforçando o conceito de Contrato de
Concessão de Direito Real de Uso, o qual define as regras para a regularização fundiária na unidade e
eleva as pessoas diretamente interessadas na criação das Resex ao papel de principais responsáveis
pela administração da área.

Para tanto, a referida portaria exigia que os processos para criação de Resex fossem precedidos pelo
encaminhamento, aos órgãos ambientais responsáveis, de abaixo-assinados dos moradores
requerendo a unidade e se comprometendo pela sua administração.

Esta exigência tinha a função de tornar explícito, inclusive juridicamente, o conhecimento dos
moradores sobre as conseqüências da implantação da unidade e seu compromisso pelo seu
funcionamento, de acordo com a própria portaria 51-N e demais atos normativos vigentes,
principalmente o decreto federal 98.897/90, o qual dispõe, pela primeira vez, sobre a regulamentação
de Resex.

No entanto, quando da assinatura da lei do SNUC tal dispositivo foi suprimido, não constando, de
forma análoga, para as RDS, ensejando duas situações: 1) paradoxalmente, as reservas de uso
sustentável podem hoje ser criadas sem o aval dos moradores da área e 2) não há garantias formais
de que seus moradores irão se comprometer com as normas estabelecidas para esta categoria de
unidade de conservação após sua criação, favorecendo a ocorrência de conflitos e de situações de
desobediência à legislação e aos atos normativos específicos, como zoneamento e planos de manejo.

Com tantas responsabilidades – plano de manejo, zoneamento, capacidade de suporte, gestão da


área, conservação – e com tantos desafios - como o uso sustentável e economicamente viável dos

18
recursos naturais – sobre os ombros das populações residentes nas RDS, torna-se no mínimo
incoerente o fato de que as mesmas não precisem ser consultadas para a decretação da área.

Finalmente, esta consideração remete ao posicionamento de Vianna (op.cit.), quando menciona que a
criação das unidades de conservação deve ser precedida e pautada por um processo democrático que
contemple a efetiva participação de todos os segmentos interessados.

Tal processo seria mais eficaz se, inclusive, o enquadramento da área alvo de proteção em uma das
categorias dispostas no SNUC fosse tema para discussão e negociação no processo de consulta
pública para criação de nova unidade de conservação. No entanto, a lei e o decreto que estabelecem o
SNUC excluem esta possibilidade, cabendo nas consultas públicas apenas as discussões sobre a
localização, dimensão e limites da área a ser protegida.

Sobre esse aspecto, a Diretoria de Áreas Protegidas do Ministério do Meio Ambiente, principal
articulador para implantação do SNUC, o Ibama e ONGs ambientalistas como WWF-Brasil, Fundo
Brasileiro para a Biodiversidade, The Nature Conservancy e Instituto Internacional de Educação do
Brasil apresentaram, em publicação recente, a proposta para que a definição de categoria de cada
nova unidade de conservação seja levada à discussão no processo de consulta pública,
independentemente das propostas técnicas prévias, que teriam somente o papel de subsidiar as
discussões (pp.38 & 39 do Caderno Gestão Participativa do SNUC – Série Áreas Protegidas do Brasil.
MMA, 2004).

Tal procedimento, além de contemplar os direitos das populações locais, propicia também, no caso das
unidades de uso sustentável, a melhor definição sobre a categoria mais adequada para cada situação,
mesmo porque também é recorrente a falta de maior compreensão, inclusive entre as instâncias
executoras do SNUC, sobre as diferenças legais entre reservas extrativistas e reservas de
desenvolvimento sustentável.

5. ESTUDOS DE CASO: OS PROCESSOS DE CRIAÇÃO, IMPLANTAÇÃO E GESTÃO DE TRÊS


RDS ESTADUAIS.

RDS DO RIO IRATAPURU – AMAPÁ


DADOS GERAIS:
Nome como a unidade é conhecida na região: Reserva do Iratapuru
Data de criação da RDS: 11 de dezembro de 1997
Responsável pela RDS: Secretaria do Meio Ambiente do Estado do Amapá
Atos normativos da RDS: Lei estadual nº 0392 de 11 de dezembro de 1997 (criação da RDS); decreto
estadual nº 1777 de 09 de julho de 1999 (dispõe sobre a criação do Conselho Consultivo da Reserva
de Desenvolvimento Sustentável do Rio Iratapuru).
Área da Reserva de Desenvolvimento Sustentável do Rio Iratapuru – 806.184 ha
Municípios abrangidos: Laranjal do Jarí, Mazagão, Pedra Branca do Amaparí, na região sul do estado
do Amapá.
Fontes principais de recursos : Governo do estado do Amapá (Secretaria do Meio Ambiente, secretaria
de Ciência e tecnologia, Secretaria de Turismo,Secretaria de Educação) Natura, FFEM, WWF Brasil,
Conservation International, Fundação Orsa
Número de funcionários da UC: não há funcionário local.

19
HISTORICO DE CRIAÇÃO:

A RDS Iratapuru protege predominantemente floresta tropical úmida densa de terra firme: 80% da área
da RDS (6925km²) é de floresta com domínio da castanha do Brasil (bertholletia excelsa H & B
lecythidaceae). Possivelmente o estoque de castanha do Brasil dessa reserva transcende em muito as
estimativas existentes. Esse ambiente caracteriza-se ainda pela sua riqueza em biodiversidade, a
formação estrutural de alto porte, a freqüência de essências de alto valor econômico, complexa cadeia
funcional, dentre outras (ZEE, s/data). Há espécies de grande valor econômico, como por exemplo, a
castanha do Brasil, copaíba (copaifera reticulata ducke), andiroba (caraoa guianensis aubl), cipó titica
(heteropsis jemniane) e na área de várzea o camu-camu (myrciaria dúbia). O relevo é altamente
acidentado – região de depressão da Amazônia setentrional e planalto de bacia sedimentar do
Amazonas. A RDS localiza-se na bacia hidrográfica do rio Iratapuru, afluente do rio Jarí, com grandes
desníveis. (Brito, 2001). Na região ainda estão alojados depósitos de manganês, ouro e ferro e têm
favorabilidade à mineralização de cobre, chumbo, zinco, prata, platina, etc. bem como indicadores de
mineralização de estanho, nióbio e tântalo. (ZEE, s/data).

A criação da RDS do Rio Iratapuru aconteceu no contexto do Programa de Desenvolvimento


Sustentável do Amapá (PDSA – instituído por meio do decreto estadual n 2453 de 14 de agosto de
1995) que “tem a sustentabilidade econômica como uma de suas principais diretrizes, definida com o
resultado do equilíbrio entre os aspectos econômicos, sociais e ambientais das atividades produtivas”
Brito (2001, p.9). O PDSA tinha o foco no fortalecimento das cooperativas e na melhoria dos meios de
produção, promovendo mudanças na cadeia produtiva da castanha a fim de possibilitar a inserção, em
escala industrial, dos produtos regionais. Ao mesmo tempo PDSA objetivou preservar a natureza e
respeitar a cultura local, embora tenha provocado o reassentamento forçado de algumas famílias para
área fora dos limites da reserva no processo de sua criação.

A intenção maior do Governo do Estado do Amapá (GEA) com este programa foi a auto-suficiência na
produção de alimentos, o desenvolvimento industrial, com a instalação de pequenas unidades de
transformação dos produtos oriundos do extrativismo e o desenvolvimento sustentável (Ruellan, 2000
in Barbosa, 2001). A região sul do estado do Amapá foi priorizada para a aplicação de ações do PDSA,
em função da gravidade dos problemas ambientais predominantes na região, com impactos profundos
sobre a sustentabilidade dos recursos naturais e na qualidade de vida das populações humanas
residentes.

Além disso, o Programa de Proteção das Florestas Tropicais – PPG7, tinha por orientação priorizar
também esta região na implementação de suas ações. Acrescente-se ainda que a ação do governo de
apoio ao extrativismo , em prol da sua valorização e da sua modernização pretendeu proteger os
recursos florestais do Estado, assegurando a permanência das comunidades tradicionais nas áreas
que habitam e melhorando suas condições de vida (GEA, 1999 in Barbosa, 2001).

Neste contexto a RDS do Rio Iratapuru foi criada. Um contexto político que expressa a preocupação
com o fortalecimento das populações tradicionais pelas instituições públicas do estado, favorecendo
resultados positivos na implantação da RDS, embora seja questionado o reassentamento de algumas
famílias quando da delimitação da unidade. Esta preocupação está intrinsecamente ligada à
conservação no estado do Amapá, como por exemplo: segundo o Código de Proteção Ambiental do
Amapá “compete ao Poder Publico definir, implantar e administrar espaços territoriais a serem
especialmente protegidos, inclusive Unidades de Conservação, objetivando a efetiva proteção de
amostras representativas de todos os ecossistemas e da diversidade biológica do estado e proteção de
populações tradicionais” (artigo 19). A mesma lei, no seu artigo 20, dispõe sobre os critérios de

20
classificação dos espaços territoriais especialmente protegidos. Os critérios são: proteção de
ecossistemas; a manutenção da diversidade biológica; a proteção de populações tradicionais, o manejo
de recursos da flora e da fauna; o incentivo a pesquisas cientificas e tecnológicas em matéria
ambiental; a proteção de espécies raras, endêmicas, vulneráveis ou em perigo de extinção; o
desenvolvimento de atividades de educação ambiental, lazer, cultura e turismo ecológico. Assim, as
unidades de conservação do Amapá são vistas como instrumentos de valorização dos recursos
naturais e humanos.

No Amapá, a criação da RDS do Rio Iratapuru foi considerada como “uma das ações institucionais que
mais incorporavam as diretrizes do PDSA. A categoria RDS adquiriu ali o sentido de inovação em
termos de proposta de ocupação e uso territorial” (segundo ofício n 047/97 – Gabinete-SEMA,
expedido em Macapá em 16 de maio de 1997, in Barbosa, 2001). Esta visão se deve ao fato de que na
época a área da RDS caracterizava-se pela pressão migratória exercida sobre a exploração
desorganizada da castanha e do minério.

Entre as justificativas para criação da unidade de conservação, apontado por praticamente todos, está
o fato da área estar regularizada e ser de domínio público, além do apoio das prefeituras e das
populações usuárias moradores do entorno. Estas justificativas também estão presentes na lei de
criação da RDS. Em relação à propriedade da área ser pública (a discriminatória da TERRAP apontou
a área como devoluta, tornando-a do Estado) tanto a atual da gestão da secretaria do meio ambiente,
quanto a gestão da época em que foi criada a unidade de conservação, considera este uma das
condições de sucesso da RDS, quer seja porque assim há maior controle sobre a área, quer seja por
viabilizar a implementação da UC, já que não tem que se desapropriada. A área é cercada por
unidades de conservação e este era o único espaço sem proteção alguma.

Dentre as características ambientais que justificaram a criação da RDS está o fato de que na época
haviam poucas áreas protegidas de terra firme no estado. Além disso, no Zoneamento Ecológico
Econômico do Estado (ZEE) os castanhais são apontados como “espaços juridicamente diferenciados
com implicação no processo de gerenciamento destes recursos. A valorização dessas áreas vem
sendo objeto de decisão em nível federal e estadual voltada à proteção dos recursos naturais e das
populações tradicionais.”

O curioso é perceber que, se por um lado as UCs de uso sustentável na Amazônia tem um caráter de
garantir acesso à terra, além do acesso aos recursos naturais, neste caso isto não se confirma: a
comunidade de São Francisco, a principal beneficiária da unidade de conservação, ficou fora dos
limites da RDS, por estarem numa área de propriedade da Jarí celulose.

Os considerandos arrolados no projeto de lei que justificam a criação da RDS são, resumidamente, os
seguintes:

9 Convenção sobre Diversidade Biológica, Convenção Climática, Capítulo 15 da Agenda 21, o


programa de desenvolvimento sustentável do Amapá – PDSA e o capítulo VI do título III do código de
proteção ao meio ambiente do estado do Amapá;
9 o alerta da comunidade científica quanto à perda da biodiversidade principalmente nas regiões
tropicais e suas conseqüências globais;
9 necessidade de garantir a utilização econômica sustentável dos componentes da
biodiversidade
9 interesse do GEA em sensibilizar a população para a problemática do clima (efeito estufa)

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9 que o sul do Amapá é área prioritária para o Programa piloto para a Proteção das Florestas
tropicais do Brasil – PPG7 /sub-programa política de recursos naturais
9 que a porcentagem de 8% de proteção por unidade de conservação no Estado do domínio da
Floresta Amazônica Densa é insuficiente
que a situação fundiária da área esta regularizada, discriminada e inscrita como propriedade do
Estado;
9 o parecer do Zoneamento Ecológico Econômica do Amapá – ZEE/AP;
9 o incentivo e apoio dos poderes publicas executivos e legislativos do município de Laranjal do
Jarí;
9 o interesse das populações tradicionais extrativistas que ocupam a área

Segundo depoimentos de todos os entrevistados pelo projeto, houve várias reuniões para discutir a
criação da RDS, envolvendo as prefeituras e as comunidades do entorno, além d governo estadual. É
unânime a percepção de que todas as comunidades foram chamadas a participar. “Não participou
quem não quis.” Mas as comunidades ditas do entorno se ressentem de não terem sido beneficiadas
pela criação da RDS, apesar de terem participado do processo de criação da mesma. Não houve
acordo formal. As reuniões foram promovidas pelo governo do estado: “Através da diretoria da
cooperativa que chamava para as reuniões as vezes também vinha gente do governo. Houve uma
audiência publica, mas nós não assinamos nada que eu me lembre.”; “a gente queria que criasse a
RDS e queríamos que fosse proibido o uso dessa área por outras pessoas”; “Como estavam os
representantes do Iratapuru, da Cachoeira, Padaria e São Militão e outros nós sugerimos que fosse
criada uma reserva para todas essa comunidades fossem incluídas.” “Quem chamou a comunidade
naquela época foi um pessoal de fora. Primeiro começou foi o governo agora está por conta deles ai da
Amapaz. Ai eles chamam para a reunião, mas as pessoas não vão, só participam quando para
resolver esse negócio da castanha.”A reclamação maior é de que no processo de criação da RDS
todos foram consultados e participaram, mas depois , só a Vila de São Francisco foi beneficiada. “Nós
participamos da reunião para a criação, que foi no Laranjal na quadra de esportes. Foi articulada uma
coisa que seriam todas as comunidades beneficiadas, mas no final só ficou o Iratapurú do lado de
dentro”.

SITUAÇÃO ATUAL

A RDS tem apenas uma entrada de acesso, pelo rio Iratapuru.

Não há comunidades residindo no interior da RDS, todas localizam-se no entorno da unidade de


conservação. Entretanto a Comunidade de São Francisco de Iratapuru é a que fica mais próxima dos
limites da RDS e tornou-se a guardiã da mesma ( o estado está ausente do local, a RDS não possui
qualquer infra-estrutura administrativa até o presente momento), além de ser privilegiada com todos os
recursos e iniciativas relacionadas à unidade de conservação. Na verdade, age como se fosse
comunidade moradora do interior da RDS, com mais direitos que as demais, já que é a única que
coleta nos castanhais.

Seis comunidades são descrita por Brito (2001) vivendo no entorno da RDS do Rio Iratapuru: São
Franscisco de Iratapuru, Cachoeira de Santo Antonio, Retiro, São Militão, São José e Padaria. Alguns
entrevistados entretanto reconhecem, dentre estas comunidades, apenas São Francisco, Padaria e
Santo Antonio. Em 2001 a população total estava estimada em 150 famílias

As vilas estão em área pertencente à Jarí Celulose.

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A população usa apenas 5% da área da RDS para extrair produtos da floresta. Por estes motivos, e
não em função de ações efetivas de gestão, após 8 anos de criação da RDS, os objetivos de gestão da
unidade de conservação, em certa medida, estão sendo cumpridos (excetuando a
recreação/ecoturismo).

Um dos instrumentos de gestão que mais tem sido cumprido na RDS do Rio Iratapuru é “Cooperação
internacional para promover a pesquisa cientifica, praticas produtivas, educação ambiental”. A RDS
tem tido, ao longo da sua existência, diversos parceiros e investimentos de diferentes fontes nacionais
e internacionais. Entretanto, as ações, até o momento, conforme expresso no “I Seminário sobre plano
de manejo da RDS do Rio Iratapuru”, não são integradas ou articuladas, e tampouco se pautam por
alguma diretriz do órgão gestor. O governo do Estado não tem cumprido seu papel de articulador das
ações. Muitas delas, inclusive, transpareceram serem iniciativas com pouca participação da população
local. Ficou claro durante o mesmo seminário que a comunidade estava conhecendo os resultados de
algumas ações que vinham sendo desenvolvidas há algum tempo no local apenas naquele momento.
Um dos objetivos do seminário foi justamente o de definir o papel de cada instituição na RDS – o que,
porque para que – e normatizar ação e atuação de cada ator presente na RDS

Embora na agenda positiva do estado do Amapá (formulada na década de 90) conste como uma das
prioridades se ação no tema unidades de conservação a demarcação do perímetro da RDS do Rio
Iratapuru, a RDS não esta totalmente demarcada.

A Sema possui a responsabilidade de fiscalizar, embora os fiscais efetivos sejam os associados da


COMARU, moradores da Vila de São Francisco de Iratapuru.

A COMARU – Cooperativa Mista de Produtores e Extrativistas do Rio Iratapuru – foi que demandou a
criação da unidade de conservação e tem sido ela a interlocutora para todas ações e iniciativas
relacionadas à RDS. É a única organização formal da população local. Entretanto, nem todos os
moradores de São Francisco são membros da COMARU, e muitos não se sentem representados por
ela. A atual diretoria, inclusive, considera que a COMARU tem função exclusivamente relacionada às
atividades produtivas e está incentivando a criação de um conselho comunitário que representaria os
moradores no conselho gestor.

Chama atenção o fato de os moradores entrevistados não terem conhecimento da implementação da


reserva. Houve reclamação de que a SEMA não informa o que está acontecendo: “Sempre o pessoal
da SEMA vem mas, quando a gente reivindica com relação a invasão para a pescaria ,o pessoal vem
coletar açaí nativo. Antigamente a safra do açaí era o ano todo agora a gente chega lá o pessoal já
pegou estragou a maior parte. A safra começa agora e em julho já não tem mais. Ai a SEMA faz
reuniões com relação a isso mas na verdade não acontece nada. Não somos informados de nada que
acontece na RDS.” A ausência da SEMA na região foi comentada por vários entrevistados. Parece que
há a expectativa de que a gestão seja feita pelo governo. As falas apontam para a pouca participação
dos moradores: “Acho que gestão tem que partir do órgão do governo”; “Quando nos trabalhávamos
com Wilis ( antigo técnico da SEMA) nós tínhamos muita informação e o gerenciamento era mostrado
para a gente. Agora não temos contato com o atual técnico da SEMA em Laranjal do Jarí. Então a
nossa participação é muito pouca hoje em dia. Então os planos para a RDS já chegam prontos de lá a
comunidade aceita porque sabe que é bom.”; “A SEMA que cuida da gestão da reserva. Quando faz
alguma prestação trabalho para a implementação da RDS existe muito pouca participação nossa,
geralmente o trabalho já vem de lá pra cá feito e a comunidade faz acatar. A comunidade já teve
participação mas hoje em dia não tem mais.”; “ Nos não temos o conhecimento do que é que vai ser
feito. Isso é um ponto importante porque se nós soubéssemos nós poderíamos reivindicar. Se nós

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soubéssemos dos projetos e se ele fosse viável aqui para a comunidade seria muito bom para incluir
também o que a gente precisa.”; “Agora este pessoal de cima nunca vão e depois ficam falando por
fora. Eles não percebem as coisas porque não vão na reunião para saber como é e como não é, depois
querem do jeito deles.”

Recentemente a SEMA iniciou o processo de elaboração do plano de manejo da reserva com a


realização do “I Seminário sobre plano de manejo da RDS do Rio Iratapuru”, e tem a perspectiva de
contratação, com apoio da Conservation International, de um técnico para ficar permanentemente na
Vila de São Francisco do Iratapurú. Também esta sendo planejado a construção de uma casa da
SEMA (com recursos da Conservação Internacional do Brasil) e a instalação de aparelho de radiofonia.

A iniciativa do seminário também foi um avanço para a organização da gestão da RDS, já que o poder
público se propôs ser o elo articulador das diferentes ações e parceiras em andamento na unidade de
conservação.

Entretanto, embora a intenção tenha sido discutir com a comunidade estas ações e a proposta do
plano de manejo, houve baixa presença da comunidade. Grande parte dos moradores de São
Francisco estavam puxando castanha rio acima. Os idealizadores do seminário não levaram em
consideração as atividades /ritmo da comunidade. Além disso, não havia nenhum representante de
moradores das demais comunidades de entorno da RDS, que, talvez, sequer tenham sido convidados.
Atente-se ainda para a pouca compreensão sobre o significado do plano de manejo pelos participantes.
Pareceu haver uma confusão sobre plano de manejo da unidade de conservação e plano de uso dos
recursos.

O artigo 5º (Lei estadual nº 0392/97) define que os atores sociais envolvidos direta ou indiretamente na
criação e implantação da RDS como responsáveis pelo manejo e gerenciamento da RDS, sendo os
moradores os principais atores. O mecanismo de gestão que viabiliza a participação dos atores e
segmentos envolvidos na RDS é o conselho gestor, expresso no artigo 6º. Entretanto, a lei não deixa
claro quem são estes moradores. Afinal, no interior da RDS não há moradores, e no entorno há
algumas comunidades (o numero de comunidades varia tanto nos documentos quanto nos discursos
dos entrevistados) entre elas a Vila de São Francisco do Iratapuru. Esta Vila, conforme colocado
anteriormente, tem sido a comunidade contemplada pelas ações relacionadas à RDS. As demais
comunidades estão marginalizadas deste processo, embora tenham sido envolvidas e consultadas na
ocasião da criação da RDS.

O Conselho Gestor não está funcionando. A comunidade de São Francisco é representada pela
COMARU. Barbosa, 2001, descreve, ainda, que, em sua pesquisa, grande parte da comunidade de
São Francisco não tinha conhecimento do Conselho Gestor, embora ele estivesse funcionando na
ocasião. Questiona a representatividade e legitimidade das decisões, pois além deste
desconhecimento, “os poucos que participam não comunicam aos demais as decisões tomadas nas
reuniões” (Barbosa, 2001, p.48). A autora acrescenta ainda que os representantes municipais não
tinham participação efetiva no conselho gestor, “como é o caso do representante da Prefeitura
Municipal de Laranjal do JARÍ, que declarou não saber do que se tratava” (op.cit, p.48) fragilizando a
representatividade do conselho gestor. Esta afirmação esteve presente também em entrevista com o
responsável governamental pela gestão da RDS.

Interessante notar que na constituição do conselho gestor, não está presente de forma explícita a
participação da população local diretamente afetada pela RDS. As ongs apontadas não
necessariamente representam esta população.

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No caso da RDS do Rio Iratapuru, conforme colocado acima, os moradores estão iniciando um
processo de organização de um conselho comunitário, que representaria toda a comunidade de São
Francisco, e que teria assento no Conselho Gestor. Mas, a figura deste tipo de organização não está
prevista na lei de criação da RDS. Chama a atenção também o fato de que há inúmeras ongs sócio
ambientalistas atuando na RDS, bem como empresas privadas, que, como atores sociais envolvidos,
poderiam fazer parte do conselho gestor, já que o mesmo tem a responsabilidade de analisar e
deliberar sobre todas as matérias pertinentes à RDS.

Quanto às prioridades de gestão da RDS, os moradores apontaram as seguintes: “o escoamento da


produção”; “Regularizar as colocações porque isso ainda não existe. As vezes um pega castanha do
outro e não pode abrir porque outro reclama”.; “Queria regularizar a situação das propriedades do
entorno da reserva porque a gente mora aqui”; “Acho que o que deveria ser feito é incluir esta área à
RDS desde a cachoeira das Panelas até aqui.”; “O que acho que falta é um projeto que trabalhe as
outros produtos da mata como a seringa, o cacau, a madeira porque depois da época da castanha nós
não temos outra atividade”; “Demarcar a reserva e incluir as nossas comunidades nos projetos.” Uma
prioridade comum apontada pelos entrevistados é a presença efetiva da SEMA na unidade de
conservação: “Acho que a Sema deveria fiscalizar melhor, criar um posto aqui dentro pois se a reserva
é do governo e ela deveria cuidar melhor.”;

CARACTERÍSTICAS DA OCUPAÇÃO DA VILA DE SÃO FRANCISCO DO IRATAPURU:

A comunidade de São Francisco do Iratapuru, localizada na região do Jarí, é composta, na sua grande
maioria, pelos descendentes diretos dos trabalhadores vindos do Pará e do Nordeste.(Barbosa, 2001).
Inicialmente esta população de ribeirinhos viviam à margem do Iratapuru e dos seus afluentes. Há
cerca de 10 anos iniciaram seu deslocamento em direção à foz do rio. “ este deslocamento ocorreu
devido à retirada dos patrões e o conseqüente desmantelamento do sistema de aviamento, abrindo
espaço para a entrada dos marreteiros ou atravessadores ao longo do Iratapuru, para o
estabelecimento da venda ou da troca de produtos do extrativismo floresta por mercadorias. Porém, os
atravessadores não forneciam a mesma assistência , na área de saúde e de favores diversos,
fornecida anteriormente pelos patrões.” (Batista 2001, p.55)

A formação atual da vila de São Francisco de Iratapuru iniciou-se com a concentração de 6 famílias
vindas do alto Iratapuru para a foz do rio. Estabeleceram-se a 300 metros do rio Jarí em busca de
melhores condições de vida e trabalho, já que no local teriam maiores possibilidades de acesso aos
serviços de saúde e à escola, implantada ali pelo governo do estado na ocasião. “estas famílias
exerciam originalmente o extrativismo de produtos florestais, a agricultura, principalmente de
subsistência (roça) , a pequena criação de animais, a caça e a pesca. Algumas pessoas trabalhavam
no garimpo.” (Batista 2001, p.55)

A biodiversidade local é utilizada pela comunidade para consumo próprio: alimentação, tratamento de
doenças, construção de casas, embarcações e confecção de instrumentos e artefatos; e para
comercialização: castanha do Brasil ( bertolletia excelsa), breu branco (protium pallidum), e em menor
escala a copaíba (copaifera spp). Exploram também “ (...) o cumaru, que é uma fruta que a gente vai
ver se vende pra fazer remédio pra pneumonia, gripe.”. A caça e a pesca são muito comuns na
comunidade. “Depois que criaram a reserva proibiram o marisco para vender e a caça. Os pescadores
que pescam no lago tiram um bocado de Piranha e tucunaré que aqui tem muito e deixam sempre um
monte de tucunarezinho que largam na beira do rio e fazem o maior estrago.”A carne de caça é,
inclusive, o alimento mais apreciado e valorizado na comunidade (segundo Brito, 2001, esta atividade

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necessita inclusive de monitoramento). A pesca supre as necessidades alimentares da comunidade (os
rios Iratapuru e Jarí são muito piscosos). A agricultura em pequena escala complementam as
necessidades de subsistência da comunidade. Plantam árvores frutíferas, medicinais e ornamentais,
hortaliças e condimentos ao redor das casas. “Fazemos roça pra sustento, mandioca, arroz, milho
feijão, macaxeira”.“Faz uma rocinha, planta mandioca , planta cana, planta banana, mas não para
vender” .

Também criam pequenos animais. Esta prática era mais comum quando moravam mais afastados, a
montante de onde se localizam hoje. Por depoimentos recolhidos por Barbosa, 2001, as moradias
anteriores, localizadas nas colocações, possibilitavam mais espaço disponível em volta das casas para
a formação deste quintal.

A principal atividade econômica da RDS é o extrativismo, beneficiamento e comercialização da


castanha do Brasil. Apesar de coletarem outros produtos da floresta, apenas a castanha do Brasil é
beneficiada. Produzem a amêndoa desidratada, farinha, óleo e sabão da castanha, além do biscoito. E
ainda tem a possibilidade de produzir óleo de copaíba, pracaxi, uxi e explorar o camu camu. Já o breu
branco foi objeto de contrato firmado entre o Conselho de Gestão do Patrimônio Genético (CGEN) do
Ministério do Meio Ambiente, órgão que licencia o uso de recursos genéticos e conhecimentos
tradicionais no país, a Secretaria de Meio Ambiente do Amapá, responsável pela gestão da reserva, e
a Comunidade do São Francisco do Iratapuru, por meio da COMARU, para uso desta matéria prima
com repartição de benefícios. Com isso, ficam regularizados os trabalhos da Natura com o breu branco
(Protium pallidum) fornecido pela comunidade da Reserva Estadual de Desenvolvimento Sustentável
do Iratapuru, utilizado para desenvolver uma linha de perfumes. O contrato garante a repartição de
benefícios pelo uso correto da biodiversidade brasileira. Além disso, o contrato também prevê a
implementação de um projeto de desenvolvimento sustentável comunitário para a população de
Iratapuru e a associação da imagem do estado do Amapá na venda dos perfumes.

Nas entrevistas ficou claro que há uma norma estabelecida pela comunidade para regular a
apropriação do espaço de coleta da castanha, denominado propriedade. Este termo não se refere à
questão fundiária, visto que as colocações localizam-se em terras de domínio do Estado. O termo
designa uma organização espacial estabelecida pela comunidade: a família que explora a área
permanentemente por alguns períodos de safra sucessivos permite ao explorador o status de
proprietário. Os proprietários têm status na comunidade e algumas vezes viram patrões, controlando a
produção de seus castanhais.

Em comparação às demais vilas da região pode-se considerar a Vila de São Francisco como próspera:
a maioria dos moradores possuem bens como embarcações motores e motoserras e devido ao preço
alto da castanha , esta vila tornou-se o símbolo de “desenvolvimento sustentável” do sul do estado do
Amapá.

ORGANIZAÇÃO SOCIAL

A Vila de São Francisco do Iratapuru está organizada em torno da COMARU – Cooperativa Mista de
Produtores e Extrativistas do Rio Iratapuru . As demais comunidades do entorno da RDS do Rio
Iratapuru não tem qualquer tipo de organização formal .

A COMARU foi fundada em 1995, pela iniciativa de 22 moradores de São Francisco do Iratapuru ,
como desdobramento da construção de uma pequena usina de beneficiamento da castanha do Brasil,
intencionado beneficiar 18 famílias diretamente e 15 indiretamente.

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A Cooperativa tem um histórico que se confunde com a própria história da RDS. Como dito
anteriormente, foi a COMARU quem demandou a criação da unidade de conservação e desde então
tem sido ela a interlocutora para todas ações e iniciativas relacionadas à RDS. Ela é a organização dos
castanheiros da Vila de São Francisco do Iratapuru, embora nem todos os castanheiros moradores
desta comunidade sejam associados, e muitos sequer a reconhecem como representante de seus
interesses. Houve quem justificasse a pequena participação dos moradores no Seminário organizado
pela SEMA devido ao fato de o vincularem a uma evento da cooperativa.

Mas a COMARU além de realizar sua função empreendedora também se coloca como representação
da Comunidade e seus diretores tomam para si decisões que vão além de suas atribuições. Todas as
negociações com agentes externos são feitas através da cooperativa, tornando-a a representante e
interlocutora da comunidade junto ao órgão gestor da RDS e agentes externos presentes. Inclusive no
estatuto da COMARU não consta nenhuma cláusula que se refere à RDS.

A cooperativa há tempos recebe assistência de diversas entidades governamentais e não


governamentais. Por exemplo, a COMARU se beneficiou das ações do PDSA. Entre eles, o projeto
Castanha do Brasil, abrangendo várias cooperativas com atividades agroextrativistas no sul do estado,
com os seguintes eixos estratégicos: propriedade da terra, educação, agricultura, beneficiamento de
produtos florestais não madeireiros.

Foi adquirida através de projetos a quantia de um milhão de reais em um período de 10 anos para a
cooperativa se estabelecesse e criasse a estrutura que possui atualmente. Na época do governo de
Capiberipe toda produção de biscoito de castanha era comprada pelo governo por um preço acima do
mercado para serem distribuídas na merenda escolar como forma de subsidio a produção. Atualmente
recebe investimentos da empresa Natura a qual possui um contrato para a compra de óleo de castanha
e todos os esforços da cooperativa estão voltados para cumprir este contrato. A Natura financiou a
reconstrução da fabrica incendiada e por ano libera 0,5% de seu lucro da venda dos produtos obtidos a
partir das matérias primas adquiridas na RDS para a comunidade.

Inúmeros projetos para implementação de benfeitorias e oportunidades junto à comunidade de São


Francisco injetaram recursos na comunidade desde a criação da COMARU e principalmente após a
criação da RDS. A criação da RDS do Rio Iratapuru trouxe investimentos para a área, por meio de
parcerias com instituições governamentais e não governamentais e organismos internacionais.
Colaborou também na obtenção de recursos financeiros para desenvolvimento de projetos, como o
PD/A ( MMA) e FUNBIO, entre outros. Ações deste tipo são investimentos na melhoria das condições
de trabalho e na qualidade de vida das famílias moradores da Vila de São Francisco.

Afora a Vila de São Francisco, todos reconhecem que as demais comunidades não estão organizadas.
A organização interna da Vila é controversa. Citam a COMARU, mas desavenças estão presentes em
diferentes falas: “Estão organizado pela cooperativa mas tem gente que nem vende a castanha para a
cooperativa e não participa das reuniões.”

CONSEQÜÊNCIAS DA CRIAÇÃO DA RDS

A criação da RDS acarretou a ampliação das atividades da COMARU e conseqüentemente ocorreu


uma significativa melhora na qualidade de vida dos moradores da comunidade de São Francisco do
Iratapuru, que deixarem de ser apenas coletores de castanhas para se transformar em fabricantes de
produtos derivados das amêndoas.

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Os depoimentos sobre as conseqüências da criação da RDS retratam a unidade de conservação como
um fator de mudança para o entendimento da temática ambiental uma apropriação da população local.
Citaram por exemplo , como resultado da orientação da RDS , o cuidado com a destinação do lixo: “A
criação da RDS trouxe muita orientação para nós. Antigamente não havia preocupação em não deixar
lixo nos barracos para cima no rio. Agora nós temos isso quase como uma ordem aqui e tem que ser
cumprida, portanto o lixo é trazido de volta. Hoje nós temos que zelar por essa natureza.” Há também a
consciência de garantir estoque pesqueiro: “Existem uma família que não esta preocupada com o meio
ambiente e estão realmente degradando porque eles trazem pescadores lá de Laranjal para caçar e
pescar com malhadeira proibida e nós que temos que pescar para o nosso sustento não usamos
malhadeira.” O futuro das próximas gerações também está associado à idéia de conservação: “o que
eu faço, que é um projeto novo, eu pretendo plantar castanheiras para a conservação da natureza e
pela preservação de meu trabalho porque vivemos da natureza.Nós temos que pensar também nos
nossos filhos.”

Os depoimentos apontam ainda a segurança e as oportunidades que a criação da RDS trouxe para a
comunidade, quer seja de formação quer seja de parcerias:“Bons, porque não entra gente de fora para
tirar a castanha e nem pescar, senão, estava cheio de garimpeiros ai pra dentro.”; “Foi muito bom
porque a gente agora tem mais segurança e a RDS proporcionou a vinda de pessoas do governo e da
Natura e FFEM que nos ajudam a crescer.”;Quando foi formada a RDS eu tive muita orientação para
minha vida”;”A RDS trouxe muita gente pra cá que ajudou na nossa instrução. Hoje em dia as pessoas
moram aqui na vila. Antigamente era uma viagem de 3 a 4 horas para chegar na casa de alguém.”
Outros apontaram para a possibilidade de diversificar os produtos coletados: “Poder explorar outros
recursos como o breu, a Copaíba, a pesca pra vender. É tanto peixe que a gente pega!”; “Eu espero
que a RDS tivesse um prédio da SEMA com um funcionário”;”Que a gente possa trabalhar e que nosso
produto seja valorizado. Com o manejo da Floresta a gente tenha uma renda melhor e que além destas
pessoas que nos ajudam venham outras pessoas para contribuir para o nosso crescimento, por
exemplo, para o ecoturismo.”; “Espero que a situação seja regularizada, que tenha trabalho e
transporte, ai nossa vida melhora.”

A RDS é a presença do estado na região. Novamente houve quem demonstrasse interesse na maior
presença da SEMA na unidade de conservação.

CONSIDERAÇÕES:

O processo de implementação desta RDS não representa a realidade da criação e implementação das
unidades de conservação neste país. A RDS do Rio Iratapuru, desde sua criação, teve apoio
significativo do governo do estado para o fortalecimento da população usuária dos recursos da reserva,
com aportes financeiro significativos para agregar valor à produção e fortalecimento da organização
social.

Além disso, a RDS tem sido alvo de aportes significativos de recursos nacionais e internacionais. A
RDS é uma vitrine para o GEA, que a cita em todos os documentos de divulgação do governo. Os
informativos turísticos do Estado também citam a RDS como um atrativo. “Na região Sul encontra-se a
Reserva de Desenvolvimento Sustentável do Rio Iratapuru com seu ecossistema rico em
biodiversidade e habitado por populações tradicionais. A RDS do Iratapuru foi criada para manter o
equilíbrio ecológico e proporcionar a exploração sustentável dos recursos naturais da região. As
comunidades que habitam a floresta estão envolvidas com o extrativismo da castanha-do-brasil,
transformada com a implantação da fábrica, em óleo, farinha e principalmente no biscoito.”;

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A RDS do Rio Iratapuru pode ser considerada uma unidade de sucesso já que cumpre os objetivos de
conservação e melhoria da qualidade de vida da população local. As comunidades de fato passaram a
agregar valor nas suas atividades a partir da criação da RDS.

O contrato firmado com a Natura, o segundo no Brasil com este caráter, também provocou grande
visibilidade para a RDS. A Natura também fatura com o marketing de ser parceira de unidade de
conservação de desenvolvimento sustentável, “ajudando a conservar a biodiversidade e fortalecendo
as populações tradicionais locais”. Outro fato interessante, nesse processo com a Natura, e
desdobramento da criação da RDS, é a valorização do conhecimento tradicional, do saber local, que foi
objeto de contrato pioneiro de acesso ao recurso da biodiversidade, gerando repartição de benefícios
para a comunidade;

Um aspecto favorável à gestão participativa presente na RDS é a COMARU, que apesar das
desavenças existentes, é um elo de união de grande parte dos membros da comunidade. Ainda assim,
alguns pontos devem ser considerados:

9 Falta de participação efetiva da comunidade na COMARU, em parte devido ao fato de que


algumas famílias desalojadas da área da RDS quando de sua criação.
9 Falta uma instituição que represente a comunidade na gestão da RDS;
9 A comunidade apresenta-se dividida entre as famílias tradicionalmente moradoras do local e
aquelas que recentemente se estabeleceram. Esta divisão é percebida quando se nota que os atuais
diretores da COMARU pertencem às famílias antigas. As famílias novas que moram na parte de cima
são excluídas de algumas decisões e poucos participam das reuniões da comunidade. Ataques verbais
são comuns entre os dois lados.
9 A inexistência do conselho gestor compromete a gestão da RDS;
9 Os moradores entrevistados não têm conhecimento da implementação da reserva. Infere-se
que há pouca participação (efetiva) da comunidade e de seus representantes nas discussões e
tomadas de decisão;
9 Falta de integração entre os diferentes setores do GEA para as ações na RDS;

O relatório do “I Seminário sobre Plano de Manejo da RDS do Rio Iratapuru” aponta que “Em relação à
socialização das informações produzidas e atuação na reserva, demonstram que é restrito a um
pequeno grupo de pessoas. Precisa-se buscar uma melhor transparência, seja em relação à
cooperativa, a comunidade e ao segmento gestor responsável pela a área. Duvidas como essa: O que
está sendo discutido com a comunidade? O que os parceiros estão desenvolvendo? Por que estão
fazendo/ que mandou e/ou autorizou fazer? Parece exemplificar como vem sendo feito o controle.”

A chegada de novos moradores também é um fator de preocupação mencionado pelos entrevistados.


Não há controle de entrada de novas pessoas. O plano de manejo deveria estar atento às
necessidades territoriais da população e definir o modelo de monitoramento das variáveis sociais e
ambientais que condicionam o padrão de ocupação na área afim de responder à evolução das
necessidade territoriais ao longo do tempo. Deveria também definir critérios de acesso à RDS. O fato
de que a Vila de São Francisco vem se tornando um pólo de atração migratória, pelas condições de
serviços e acesso à recursos presentes no local, deve ser motivo de reflexão e referencia para
definição da capacidade de suporte do local.

Pelas entrevistas realizadas com os moradores das assim chamadas comunidades de entorno da
reserva foi possível perceber uma marginalização com relação ao uso dos recursos da RDS e a falta
de informação a respeito da demarcação e objetivos da reserva. Estas comunidades têm direito de se

29
beneficiar das ações que vem ocorrendo na RDS. Embora tenham sido envolvidas no processo de
criação da RDS, encontram-se marginalizadas do processo de implantação da unidade de
conservação. É importante ressaltar, entretanto, que estas comunidades não possuem organização
alguma. A área em que residem pertence à empresa Jarí ( Grupo Orsa) e as atividades de extrativismo
são realizadas sem nenhuma autorização ou acordo com a mesma.

A Comunidade de São Francisco sente-se no direito de uso da RDS, como proprietários dos recursos
naturais, assim como responsáveis.

RESERVA DE DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL MAMIRAUÁ

DADOS GERAIS:

Nome como a unidade é conhecida na região: Reserva Mamirauá


Data de criação da RDS: Lei estadual Número 2.411, de 16 de julho de 1996
Inicio de implantação da RDS: 1991/ 1992: Projeto Mamirauá. A sociedade civil Mamirauá foi criada em
1992
Responsável pela RDS: Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá - IDSM, criado em 1999
Atos normativos da RDS: lei estadual Número 2.411, de 16 de julho de 1996 (criação da RDS
Mamirauá); decreto estadual 12.386 de 09 março de 1990 (criação da Estação Ecológica Mamirauá);
plano de manejo da RDS Mamirauá - 1996
Área da RDS Mamirauá: 1.124.000 ha (1990).
Localização: Situada a 600 quilômetros a oeste de Manaus, na confluência dos rios Solimões, Japurá e
Auati-Paraná, tendo a cidade de Tefé com principal referência urbana.
Fontes principais de orçamento: Gov. Brasileiro; Cooperação . Internacional (Grã-Bretanha); IPAAM;
ONG’s Internacionais (WCS, EU); PRÓ-MANEJO.
Numero de funcionários da UC: Os Funcionários são do Instituto responsável pela Unidade. Hoje são
em torno de 137 funcionários, entre técnicos e operacionais.

HISTÓRICO DA CRIAÇÃO

Originalmente Mamirauá foi decretada em 1990, como Estação Ecológica Estadual, pelo Governador
do Estado do Amazonas ( decreto n° 12836/90), com uma área de 1.124.000 hectares. A proposta de
criação da unidade de conservação foi formulada pelo biólogo José Márcio Ayres e visava proteger o
hábitat dos primatas uacari-branco e macaco-de-cheiro-de-cabeça-preta, ameaçados de extinção. Esta
categoria, Estação Ecológica, mostrava-se incompatível com o modelo de gestão participativa que se
pretendia implantar. No entanto, segundo depoimentos, o fato de ser uma reserva estadual facilitou que
o desenvolvimento das propostas de trabalho fosse “tolerado” pela Secretaria de Meio Ambiente
Ciência e Tecnologia do Estado do Amazonas.

Em 1996 Mamirauá foi transformada em Reserva de Desenvolvimento Sustentável, categoria de


manejo que até então não existia. A intenção foi legalizar e viabilizar a permanência e o envolvimento
das comunidades locais na gestão de seus recursos naturais, por meio de processos participativos, ao
mesmo tempo em que promovesse a proteção de grandes áreas de florestas tropicais. A proposta da
categoria caracterizava-se pela conjugação de três dimensões: preservação do patrimônio natural,
pesquisas sobre biodiversidade e combate à pobreza pela promoção de ações de desenvolvimento
sustentado.

30
Esta RDS é citada pela maioria dos entrevistados como o modelo para a criação e inclusão desta
categoria de manejo no Sistema Nacional de Unidades de Conservação, lei promulgada em 2000. A
Sociedade Civil Mamirauá e posteriormente o Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá,
propositores e incentivadores da criação da RDS Mamirauá, foram também os principais articuladores
para a inclusão desta categoria no SNUC.

Entretanto, o processo de criação desta UC não representa a realidade da criação e implementação


das Ucs neste país. Fruto de luta de pesquisadores que consideraram a área de valor biológico e
ecológico único, Mamirauá teve um aporte significativo de recursos nacionais e internacionais, que
financiou atividades de pesquisa em diversas áreas: pesquisas sobre sistemas terrestres (manejo de
espécies, caça, extração de madeira, levantamentos florestais e de fauna, dispersão de sementes);
sistemas aquáticos (limnologia, biologia de peixes comerciais e ornamentais, anfíbios e mamíferos
aquáticos); sócio economia e participação comunitária (levantamentos sócio-econômicos, organização
sócio-produtiva, estudos de mercado para a espécies nativas e extensão em saúde educação
ambiental).

O plano de manejo, por exemplo, embasado em 4 anos de pesquisa cientifica, ficou pronto no mesmo
ano da criação da RDS, fato inédito na história das unidades de conservação deste país.

Os recursos facilitaram também o processo de envolvimento da população moradora na proposta da


RDS. Sobre este aspecto, outro fator que contribuiu decisivamente para a organização da população
foi a presença de movimentos sociais (movimento de pescadores, Movimentos de Educação de Base)
que propiciou um processo histórico de diálogo e participação desde a década de 70. Quando se
iniciou o processo de busca da conciliação da conservação da biodiversidade e do desenvolvimento
sustentável das populações humanas residentes, empreendido pelos pesquisadores do Projeto
Mamirauá, a partir de 1992 (ano de criação da Sociedade Civil Mamirauá), muitas comunidades já
possuíam uma liderança política eleita pelos moradores. Além disso, desde 1980 já havia um
movimento de preservação dos lagos comunitários: “o projeto Mamirauá teve como vantagem a
preexistência de um movimento ecológico local e a maturidade política das comunidades já
organizadas e com prática de discussão de seus problemas comuns” in CNPQ/MCT/ IPAAM -
Mamirauá: Plano de Manejo, SCM, p 47. Segundo Deborah Lima, “A organização de um sistema para
participação comunitária foi facilitada pela existência não só do movimento de preservação de lagos
mencionado anteriormente como também pelo fato das comunidades já terem uma organização política
formada e terem uma prática de discussão democrática de seus problemas desenvolvida desde o final
da década de 1960 pelo movimento de Educação de Base (MEB) - “O envolvimento de populações
humanas em unidades de conservação: a experiencia de Mamirauá. In Capobianco, João Paulo &
Ramos, Adriana (orgs) Unidades de Conservação no Brasil: aspectos gerais, experiencias inovadores e
a nova legislação (SNUC). São Paulo: Instituto Socioambeintal, 1006 (Documentos do ISA n 1), p.38.

Resultado do processo dialógico e da avançada organização comunitária, a concepção original da RDS


de Mamirauá é “de uma área protegida que concilie os objetivos de preservação da natureza aliada à
melhoria de qualidade de vida de seus habitantes” ( in CNPQ/MCT/ IPAAM - Mamirauá: Plano de
Manejo, SCM , 1996; p 17). Da mesma forma, o decreto que cria Mamirauá apresenta como seu
principal objetivo o desenvolvimento sustentável das populações que habitam a área, apesar da
demanda para a criação da unidade ter se baseado em aspectos notadamente ecológicos. E é esta
demanda predominantemente ecológica que, por sua vez, acaba se refletindo nas disposições para
RDS inseridas na lei do SNUC, que define como objetivo básico desta categoria a preservação da
natureza.

31
Por ser a “inspiradora” da categoria de manejo RDS tal como incluída no SNUC, Mamirauá é
considerada um exemplo e modelo para outras RDS. Sua longa história nos relata o processo de
consolidação desta categoria, bem como desvenda suas lacunas e possibilidades.

As justificativas para criação da RDS Mamirauá, expressos no Plano de Manejo, são as seguintes|:

1. binômio pobreza e devastação, que “mostra que o subdesenvolvimento leva à pressão naturalmente
maior sobre os recursos naturais, uma vez que os modelos desenvolvimentistas adotados geralmente
estão assentados sobre o uso à exaustão destes recursos” in CNPQ/MCT/ IPAAM - Mamirauá: Plano
de Manejo, SCM

2. permanência da população habitante pode evitar gastos com desapropriações e remoções;


promover um sistema de vigilância mais barato e efetivo e evitar colapso da economia local. in
CNPQ/MCT/ IPAAM - Mamirauá: Plano de Manejo, SCM

3. “Em curto prazo o modelo envolve custos maiores que a não consulta e que a retirada da população,
pois o envolvimento da comunidade requer um processo longo de negociações desgastante e que
necessita de pessoal qualificado para mediar os conflitos. Em longo prazo, porém, a participação
comunitária garante não só o apoio político local e menores custos de fiscalização da implementação
de normas de conservação, como assegura a manutenção do modo de vida local a partir de definição
de estratégias de uso sustentado dos recursos, dos quais dependem para sua sobrevivência”. in
CNPQ/MCT/ IPAAM - Mamirauá: Plano de Manejo, SCM,p.47

A RDS Mamirauá é a maior unidade de conservação da várzea amazônica. Santilli descreve a RDS
como “(...) uma grande ilha de florestas inundáveis, cortada por centenas de lagos que formam
sistemas aquáticos intercomunicáveis entre si e com os rios. É uma região de florestas inundadas que
permanecem seis meses submersas e sofrem variações anuais de até 12 metros dos níveis das águas.
É considerada área úmida/alagada (wetland) de importância internacional pela Convenção de Ramsar,
que foi firmada em 1971 e entrou em vigor em 1975, e se ocupa de um ecossitema específico, as áreas
úmidas.” (Santilli, Juliana: Socioambientalistmo e novos Direitos – proteção jurídica à diversidade
biológica e cultural - São Paulo: Peirópolis, 2005 Realização IEB – Instituto Internacional de Educação
do Brasil e ISA – Instituto Socioambiental , p.151)

Queiroz descreve a biodiversidade e a diversidade cultural de Mamirauá:

“A fauna encontrada em Mamirauá apresenta um alto grau de endemismo. As difíceis condições


criadas pelas enchentes prolongadas a cada ano limitam, por um lado, o número de espécies que
consegue sobreviver a tão dramática dinâmica, mas por outro lado propiciam o surgimento de
adaptações únicas que podem definir especificações e endemismos neste ambiente. Há, também
como os peixes, uma fauna mais diversa que nas áreas circundantes. A presença de importantes
espécies de vertebrados ameaçados de extinção também é um fator relevante na fauna de Mamirauá”.

Boa parte dessas espécies é explorada pelas populações amazônicas em muitos locais, mas, em
Mamirauá, elas continuam existindo em níveis satisfatórios (com algumas poucas exceções). Neste
sentido, a reserva cumpre um papel de berçário para vários recursos naturais que lá nascem e
amadurecem antes de partir para aqueles pontos externos onde serão captados. As várzeas da
Mamirauá funcionam também como um grande depósito de nutrientes, que são paulatinamente
exportados às regiões vizinhas por meio das mais distintas formas de carreamento.” in Queiroz, Helder.

32
Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá. Disponível no site do Instituto de
Desenvolvimento Sustentável Mamirauá: www.mamiraua.org.br

A RDS Mamirauá teve condições muito específicas no contexto de sua criação e, posteriormente,
implantação, que foi o apoio científico, sobretudo através do CNPQ, e o aporte de consideráveis
recursos da cooperação internacional, devido às articulações, prestígio científico e sensibilidade do
principal defensor da idéia, o biólogo Marcio Ayres e demais cientistas envolvidos. Rapidamente a
unidade de conservação organizou sua estrutura e começou o processo de implantação do plano de
manejo, com envolvimento da academia e um grande leque de pesquisadores.

De modo geral os entrevistados entendem que a RDS tem a função de conservar para garantir os
recursos naturais utilizados para sobrevivência pelas populações moradores e usuárias.

SITUAÇÃO ATUAL

A implantação desta RDS continua procurando conciliar a conservação da biodiversidade e o


desenvolvimento social, buscando a melhoria das condições de vida das populações locais.

Ocupação:

Foram definidos 8 setores que reúnem o conjunto de 3 categorias de ocupações – comunidades/sítios


e bairros isolados.

Comunidades/sitios Isolados Total


n° família população n° família população n° família população

Interior 39 318 1596 13 44 215 52 362 1811


Entorno 65 833 4486 28 74 345 93 907 4831
Total 104 1151 6082 41 118 560 145 1269 6642
Dados 1999-2002

A definição destes termos, constante no plano de manejo da RDS, é a seguinte:

Comunidades: termo adotado pela maioria dos assentamentos da região. Refere-se às localidades que
adotaram a proposta da Igreja, posteriormente apoiada por diversas instituições de extensão rural, e
que possuem uma liderança política eleita pelos moradores.

Sítios: núcleos populacionais menores, não organizados segundo o modelo de comunidade.

Setores: grupos de assentamentos vizinhos

Os moradores do entorno são, geralmente, usuários dos recursos naturais da RDS.

Na Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá, não são encontradas propriedades. Existem


pessoas que têm um certo tempo de moradia e que se dizem proprietários.

33
Não foi apontada a presença de grandes empreendimentos: “não temos conhecimento nesta área de
proprietários que queiram fazer investimentos e modificar o local” (depoimento do pesquisador de
campo).

Já em 1994, texto de Deborah Lima sobre o histórico de ocupação humana e mobilidade geográfica de
assentamentos na área da então estação ecológica de Mamirauá, propõe a indicação de variáveis
sociais e ambientais que condicionam o padrão de ocupação na área. A intenção é que o plano de
manejo atenda adequadamente às necessidades territoriais da população local e defina o modelo de
monitoramente destas variáveis a fim de responder à evolução das necessidades territoriais ao longo
do tempo. “A decisão sobre as limitações da mobilidade da população e a proibição ou não de novas
fundações deve levar em conta as necessidades da população, sejam estas necessidades de natureza
ambiental ou social.” in Lima Ayres, Deborah e Alencar, Edna Ferreira – Histórico da Ocupação
Humana e Mobilidade Geográfica de Assentamentos na área da Estação Ecológica Mamirauá in
ANAIS – IX Encontro Nacional de estudos Populacionais – volume 2, ABEP – Associação Brasileira de
Estudos Populacionais , Belo Horizonte, 1994.

O decreto de criação da RDS também explicita preocupação com a dinâmica de ocupação da


população, tanto no que diz respeito ao seu crescimento, quanto à migração. A este respeito, um dos
entrevistados citou que moradores que foram embora da área quando os recursos estavam escassos
estão num movimento de retorno em função das dificuldades encontradas na zona urbana e das
noticias de que os recursos se tornaram abundantes na região. Esta situação é motivo de geração de
conflitos. Até o momento não obtivemos informações sobre se há mecanismos regulatórios neste
sentido ou uma política de ocupação da área, como proposto pelo decreto de criação da UC e
posteriormente pelo plano de manejo.

Uma facilidade na implantação da RDS, segundo depoimento, é que a mesma tem pequena área
habitada. As terras de várzeas são freqüentadas para uso dos recursos, mas são desabitadas.

Participação:

Todo o processo de criação e implantação da RDS teve a participação da população local. A RDS é
dividida por setores, tipo de organização social já existente antes da criação da unidade de
conservação. As reuniões setoriais têm a participação dos presidentes das comunidades, e os
representantes dos diversos setores têm assento na assembléia geral. A deliberação de todas os
assuntos acontece com a participação das comunidades, poder público, ongs e institutos de pesquisa
nas Assembléias Gerais. Deborah Lima depõe, em entrevista, que a defesa dos lagos é de interesse
direto dos moradores, particularmente porque estavam sofrendo pressão de invasores externos que
ameaçavam o estoque dos recursos naturais. Este modelo informal está sendo repensado para se
adequar à determinação da Lei do SNUC que define como deve funcionar o conselho gestor, ainda não
formalmente implantado na RDS. Segundo depoimento, a formalização do conselho gestor tem
dificultado a participação, pois exige representações diferentes, categorias diferentes, interesses
diferentes dos que até então estão envolvidos no processo de implantação da unidade de conservação.

Deborah Lima menciona a cerca da participação da população que “o envolvimento da população se


deu a partir de uma série de articulações muito difíceis, em que primeiramente foi feita uma consulta à
população residente, que não tinha conhecimento da demarcação da área, para propor sua
participação na implantação da reserva. Foi somente porque houve uma resposta positiva da maioria
da população, pelo fato da reserva ir de encontro ao movimento comunitário de preservação de lagos
iniciado nos anos oitenta, que se deu continuidade aos trabalhos. (...) A intenção de transformar um

34
projeto vertical em projeto horizontal, com a participação da comunidade na gestão dos recursos e na
elaboração do plano de manejo, levou tempo. Após cinco anos de trabalhos dedicados à pesquisa e à
extensão, o projeto tem o apoio de praticamente todas as comunidades.” p.38 E ainda: “A experiência
com o envolvimento de populações locais desenvolvidas em Mamirauá não seguiu nenhum modelo
rígido. Ao contrário, foi sendo construída ao longo do processo de interação com a população local,
ajustando as demandas e costumes locais à intenção de construir um sistema de uso sustentado da
várzea, combinado com a preservação da biodiversidade , que garantisse uma melhoria na qualidade
de vida da população”. p.40 in O envolvimento de populações humans em unidades de conservação: a
experiência de Mamirauá. In Capobianco, João Paulo & Ramos, Adriana (orgs) Unidades de
Conservação no Brasil: aspectos gerais, experiencias inovadores e a nova legislação (SNUC). São
Paulo: Instituto Socioambeintal, 1006 (Documentos do ISA n 1),

Hoje em dia as associações comunitárias estão em estágio de organização muito variado. Em algumas
áreas estão bem organizadas, em outras existem muitos problemas de envolvimento e participação.
Segundo relato do pesquisador de campo, existem muitas pessoas “que duvidam do restabelecimento
dos recursos” por meio da conservação. Há também aqueles que acreditam que os recursos “não
acabam e acham que preservar é mera besteira”.

As pessoas isoladas são justamente aquelas que geralmente não participam de nenhuma organização.
As comunidades do entorno participam das reuniões e assembléias junto com as comunidades de
moradores do interior da RDS.

A concepção da RDS incorpora as populações indiretamente afetadas pela criação da RDS: “interferir
no processo de uso desses recursos de importância econômica significa influir diretamente na
economia e subsistência de uma população muito maior que aquela que reside nos limites da unidade
de conservação (...)” (in CNPQ/MCT/ IPAAM - Mamirauá: Plano de Manejo, SCM, 1996; p.12).

As populações de entorno tem direito a acesso à zona específica de uso dos recursos e participam
das reuniões conjuntamente com os moradores do interior da unidade. No entanto, os moradores do
interior têm direito a mais zonas de uso de recursos do que os moradores do entorno.

Mesmo assim, os conflitos de invasão com segmentos de fora da unidade foram resolvidos mais
facilmente do que os conflitos entre os moradores do interior da reserva nos casos de desrespeito aos
acordos, pois estes, em geral, apresentam vínculos de parentesco.

PLANO DE MANEJO

O plano de manejo procurou aliar a pesquisa científica e os conhecimentos tradicionais sobre uso dos
ecossistemas de várzea e manejo dos recursos naturais. O plano de manejo definiu “um sistema
adequado de zoneamento da área para delimitar os locais e definir normas de uso dos recursos de
forma a garantir a sustentabilidade deste uso e não afetar negativamente o abastecimento de peixe dos
mercados urbanos vizinhos à reserva” in CNPQ/MCT/ IPAAM - Mamirauá: Plano de Manejo, SCM,

Acordos que constam no plano de manejo e citado pelos entrevistados: fechamento dos lagos da
reserva para pesca profissional destinada aos mercados mais distantes (Manaus e Manacapuru
principalmente); definição dos lagos de preservação, manutenção e comercialização dos produtos de
cada comunidade, com fiscalização dos lagos de preservação pelos respectivos moradores (e apoio do
IBAMA para atuar contra invasores); alocação de lagos destinados às sedes de município para pesca

35
comercial; proibição de extração de madeira das restingas ao redor dos lagos de preservação,
diâmetro mínimo para a extração de madeira, tamanho mínimo das principais espécies de peixe
comercializadas.

Para que o zoneamento e as normas estabelecidas pelo plano de manejo sejam respeitados, o projeto
Mamirauá procurou trabalhar com os comunitários a idéia de que estas medidas são a garantia da
sustentabilidade dos recursos que exploram. Sobre este aspecto, a citada autora coloca que “as
normas de manejo que resultaram das pesquisas biológicas estão sendo negociadas com os
comunitários. A fiscalização dos lagos de preservação escolhidos por cada comunidade só é feita
voluntariamente porque há interesse econômico da população que reconhece que a preservação de
lagos a beneficia, não só quanto aos resultados positivos do manejo, como porque recebem apoio
institucional para proibir a entrada de peixeiros profissionais. Portanto, mesmo reconhecendo que o
envolvimento das comunidades locais é fundamental para viabilizar a implantação de uma unidade de
conservação, não podemos ignorar as dificuldades que decorrem desse envolvimento, nem idealizar a
natureza de seus interesses pela preservação. A parceria que se estabelece entre conservacionistas e
comunitários envolve interesses específicos que podem ou não convergir e por isso requer que os
acordos sejam negociados com habilidade e os interesses de cada parte reconhecidos. Não podemos
esquecer que o interesse das chamadas ‘ populações tradicionais’ pela conservação se baseia em um
interesse econômico específico, a sua sobrevivência.” Deborah de Magalhães Lima – O Envolvimento
de populações Humanas em unidades de Conservação – A experiência de Mamirauá in Unidades de
Conservação no Brasil: aspectos gerais, experiências inovadoras e nova legislação (SNUC) -
Capobianco, J.P. e Ramos, A. (orgs) – documentos do ISA , nº 1- Instituto Socioambiental, P. 39.

RESERVA DE DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL DE PONTA DO TUBARÃO (RN)

DADOS GERAIS:
Nome como é conhecida na região: “Reserva Ambiental”, “Reserva Sustentável” e “Reserva de Diogo
Lopes”.
Data de criação da RDS: 18 de julho de 2003.
Início de implantação: 11 de dezembro de 2003, com a constituição e tomada de posse do Conselho
Gestor.
Responsável pela RDS: IDEMA - Instituto de Desenvolvimento Econômico e Meio Ambiente do Rio
Grande do Norte (vinculado à Secretaria Estadual de Planejamento)
Atos normativos da RDS: Lei Estadual No. 8.349 / 2003
Área da RDS: 12.960 hectares ou 129,6 km2
Localização: Norte da Região Costeira do Estado do Rio Grande do Norte, abrangendo os municípios
de Macau e Guamaré.
Fontes Principais de Orçamento: até o presente, o Governo do Estado ainda não destinou recursos
financeiros específicos para a gestão da RDS Ponta do Tubarão.
Número de funcionários da UC: Todas as atividades/ações desenvolvidas são realizadas por
voluntários das comunidades e pelos funcionários do órgão ambiental estadual (IDEMA/RN), que
possui um Núcleo de Unidades de Conservação. Desse Núcleo, dois funcionários (sendo um efetivo e
um consultor) participam diretamente dos trabalhos da RDS. Dois outros funcionários da Sub-
Coordenadoria de Gerenciamento Costeiro dão suporte aos trabalhos, totalizando quatro técnicos
envolvidos. As reuniões e oficinas, entre outras atividades, são realizadas em sedes de associações
comunitárias, uma vez que a UC ainda não conta com sede própria.

36
HISTÓRICO DA CRIAÇÃO7

A intenção de se criar um reserva ambiental que abrangesse as comunidades de Diogo Lopes,


Barreiras e Sertãozinho, localizadas no município de Macau / RN, foi despertada diante de dois
acontecimentos que foram considerados por essas comunidades como uma ameaça ao meio
ambiente local e à continuidade das atividades tradicionalmente realizadas na área, notadamente a
pesca artesanal.

O primeiro acontecimento se deu em 1995: moradores da comunidade de Diogo Lopes se depararam


com técnicos da Gerência Regional do Patrimônio da União (GRPU/RN) realizando medições
topográficas da restinga que separa o rio Tubarão do mar, em frente ao núcleo de habitações. As
atividades da GRPU estavam relacionadas a um pedido de aforamento da restinga solicitado pela PPE
Participações e Administração LTDA., empresa de capital estrangeiro sediada na cidade do Rio de
Janeiro. Caso o aforamento da restinga fosse concedido, o local seria destinado à construção de um
hotel com grandes dimensões. Este fato gerou indignação nos moradores, que nunca foram informados
sobre a intenção de se transformar a região em pólo turístico. No entanto, o pedido de aforamento foi
negado. Mas em 1996, ranchos de palha dos pescadores localizados na restinga foram queimados e
acreditou-se que os representantes da referida empresa, de origem italiana, fossem os mandantes
dessa agressão. De qualquer forma, o pedido de aforamento não foi aceito e esses problemas foram
superados na época.

O segundo acontecimento ocorreu no final de 2000: as comunidades foram surpreendidas pela queima
de quatro hectares de mangue em uma das ilhas do manguezal do rio Tubarão, conhecida como Ilha
dos Cavalos. Apesar de alguns moradores terem suspeitado da presença de alguns homens estranhos
na comunidade de Diogo Lopes, só tiveram a certeza de que algo errado estava acontecendo quando
um dos moradores admitiu que estava apoiando um grupo de forasteiros que tinha a intenção de
implantar um projeto de carcinicultura na Ilha dos Cavalos. Os moradores ameaçaram-no, dizendo que
se ele continuasse, ateariam fogo em seu barco. Entretanto, em seguida, a comunidade de Diogo
Lopes se deu conta de que um incêndio consumia a vegetação da ilha, determinando que se
organizassem e, armados de pedras e pedaços de madeira, fossem ao local para controlar o fogo e
expulsar os forasteiros. Na seqüência, foram realizadas denúncias da situação às autoridades
competentes, para as quais foi também solicitado que tomassem providências para evitar outras
agressões.

Diversos jornais divulgaram este acontecimento, como segue (ver anexos):

“Crime ambiental abala Diogo Lopes” – O Vale, Macau, Janeiro de 2001, p. 7.


“Crime ambiental em Diogo Lopes” – Diário de Natal, Natal, 11 de janeiro de 2001.
“Ibama fiscalizará mangues de Diogo Lopes” – Tribuna do Norte, Natal, 12 de janeiro de 2001.
“Devastação em mangue é denunciada” – Diário de Natal, Natal, 20 de janeiro de 2001, p.3.

Ensejando garantir maior proteção à área, no início de 2001 os moradores solicitaram ao órgão
estadual de meio ambiente, IDEMA, a criação de uma Área de Proteção Ambiental (APA) que
englobasse as comunidades de Diogo Lopes e Barreiras. Sem retorno à solicitação, os moradores se
uniram através de entidades comunitárias, escolas e voluntários, e decidiram chamar a atenção pública
à sua causa, optando, inicialmente, pela realização de eventos em prol da criação da unidade de
conservação.
7
Informações prestadas pela Professora Thelma Dias, membro do conselho da RDS representando a
Universidade Federal da Paraíba.
37
O primeiro desses eventos aconteceu em 2001, entre os dias 18 e 20 de maio, denominado “I
Encontro Ecológico de Diogo Lopes e Barreiras: Em Defesa do Nosso Futuro”. O Encontro
contou com a participação de pesquisadores, professores locais e de outros estados, representantes
de órgãos governamentais e não governamentais, além de ampla participação dos moradores das
comunidades de Diogo Lopes, Barreiras, Sertãozinho e da cidade de Macau. Foram proferidas diversas
palestras acerca de temas relacionados à questão ambiental e à criação de unidades de conservação.
Inclusive, na ocasião, foi apresentada uma palestra que mostrou a experiência da RDS Mamirauá. Foi
também neste período que os moradores haviam tomado conhecimento da Lei do SNUC, onde
puderam conhecer a nova categoria de manejo recém incorporada a esse documento: a Reserva de
Desenvolvimento Sustentável. Foi a partir da Lei do SNUC que os moradores constataram que para a
realidade de Diogo Lopes e Barreiras, a categoria de unidade mais adequada seria a RDS ao invés de
APA. O I Encontro foi encerrado com a redação de uma moção, assinada por 208 pessoas, e de um
abaixo-assinado, com 1.336 adesões, que foram entregues ao presidente do IDEMA solicitando a
criação de uma RDS na área. O mesmo pedido foi feito ao IBAMA/RN. O I Encontro foi registrado pela
mídia em jornais e na internet, como mostram as matérias abaixo:

“A Petrobrás de volta para a região de Macau com programas sociais e de preservação do meio
ambiente” – Folha de Macau, Macau, Julho/Agosto de 2001, pág. 13.
“Comunidade de Diogo Lopes realiza encontro” – Diário de Natal, Natal, 17 de maio de 2001, Pág.
11.
“I Encontro de Barreiras e Diogo Lopes neste final de semana” – Tribuna do Norte, Natal, 17 de
maio de 2001, Pág. 4.
“Comunidades pesqueiras discutem preservação” – Diário de Natal, Natal, 18 de maio de 2001.
“Comissão solicita ao Idema a preservação de manguezais em Diogo Lopes e Barreiras” – Jornal
de Hoje, Natal, 19 de maio de 2001.

Em 2002, entre os dias 5 e 9 de junho, as comunidades realizaram novo evento, desta vez denominado
“II Encontro Ecológico de Diogo Lopes e Barreiras: Pela Reserva Ambiental”. O II Encontro
contou com a participação de palestrantes de diversas Universidades e órgãos públicos, como
Universidade Federal da Paraíba (UFPB), Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN),
IBAMA/RN, IDEMA/RN, Gerência Regional do Patrimônio da União (GRPU/RN), Petrobrás, Ordem dos
Advogados do Brasil (OAB/RN), entre outras representações. Além das palestras, foram ministrados
cursos para professores e moradores da comunidade (pescadores, donas de casa, estudantes),
atividades de limpeza do manguezal, apresentações teatrais, concursos de artes (desenho, pintura e
poesia) e exposição de vídeos sobre temas ambientais. O Encontro foi encerrado com uma mesa
redonda intitulada “Situação atual do processo para a criação da Reserva Sustentável da Ponta
do Tubarão”, que contou com a participação de representantes das comunidades e de órgãos
públicos municipais, estaduais e federais. Os componentes elaboraram e leram publicamente as
recomendações tiradas deste Encontro e assinaram uma moção solicitando agilidade na criação da
Reserva. Neste Encontro, a moção contou com a assinatura de 232 pessoas e o evento foi realizado
por 17 entidades das comunidades (incluindo escolas municipais e estaduais) com o patrocínio da
Petrobrás e o apoio da Prefeitura Municipal de Macau.

No dia 22 de agosto de 2002, representantes das comunidades se reuniram com um técnico do


IBAMA/RN (Sr. Jean Túlio Cunha dos Anjos), um representante do CNPT de Brasília (Sr. Alexandre
Zananiri Cordeiro) e representantes do IDEMA (Sra. Ana Maria Marcelino, entre outros). A finalidade da
reunião foi decidir se a comunidade queria criar uma Reserva federal, estadual ou municipal.
Entretanto, as comunidades já demonstravam o desejo de criar uma RDS federal, na esperança de que

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as influências políticas fossem menores do que seriam no âmbito estadual. O que surpreendeu os
presentes foi o fato de que a “decisão” já veio pronta. A orientação do representante do CNPT foi a de
que a escolha fosse por uma RDS estadual, alegando que poderia demorar anos para o governo
federal criar a RDS, uma vez que o IBAMA não dispunha de recursos humanos ou financeiros para
uma empreitada como essa. Surpresos e decepcionados, os moradores presentes apenas tiveram que
acatar a decisão e aceitaram continuar batalhando pela Reserva, agora na esfera estadual. No início
de 2003, com a mudança de governo estadual, se intensificaram os trabalhos em prol da criação da
Reserva, como delimitação da área e elaboração da minuta do decreto de criação.

No que diz respeito à definição das dimensões da RDS e seus limites, diversas reuniões foram
realizadas na comunidade de Diogo Lopes com a participação de representantes de entidades
envolvidas no processo de criação da RDS e dos moradores das comunidades de Diogo Lopes,
Barreiras e Sertãozinho. Inicialmente, a RDS estava mais voltada para a conservação da área
estuarina (rio Tubarão), da restinga e da parte marinho-costeira, em função da pesca e das
especulações imobiliárias que ameaçavam a restinga.

Pensou-se também em estender a RDS para englobar os estuários dos rios Casqueira e Conceição,
localizados mais a oeste, em direção ao centro de Macau. Nestes dois últimos estuários há uma
significativa biodiversidade (Dias, em preparação), ocorrendo, por exemplo, a maior densidade de
cavalos-marinhos entre diversas áreas estudadas no nordeste do Brasil.

Além disso, constituem-se em importantes áreas de pesca para moradores das comunidades vizinhas
(Diogo Lopes, Barreiras, Chico Martins, Soledade, Canto do Papagaio e a própria comunidade da
Casqueira). Entretanto, essa região como um todo está fortemente pressionada por englobar diversos
projetos de carcinicultura, salinas e campos de exploração de petróleo.

Dessa forma, apesar da importância desses estuários, alguns fatores foram apontados como
impedimentos para que essa área fosse incorporada:
- Dificuldade de fiscalização por parte da comunidade, por se tratar de uma área relativamente distante
das comunidades mais próximas;
- Presença de segmentos econômicos que causariam muitos conflitos e resistência à criação da RDS;
- O próprio fato de ser área de ocorrência de variadas atividades impactantes, como projetos de
carcinicultura, exploração de petróleo e exploração de sal.

À época, as comunidades, por meio de suas representações, chegaram ao consenso de não


contemplar na área da futura unidade o maior número possível de atividades que pudessem gerar
problemas atuais e futuros.

Dessa forma, o limite oeste só foi até a Ponta do Tubarão e proximidades da comunidade de Soledade,
deixando de fora os campos de exploração de petróleo de Macau Serra e a sonda SC-106, que
funcionam na praia de Soledade, além da Salina Soledade, Salina Cristal, Salina Riachão e diversos
projetos de carcinicultura que estavam se instalando na época (hoje já em funcionamento e ampliação).

No sentido norte (em direção ao mar), o limite de dois km mar adentro, foi definido para contemplar a
área onde ocorre a pesca de tresmalhos (ver Dias, 2005) e as atividades de lazer dos moradores. No
sentido leste, a preocupação foi englobar todo o manguezal do rio Tubarão, que ultrapassava o limite
entre os municípios de Macau e Guamaré. E com relação ao limite sul, inicialmente as comunidades
pensavam em englobar apenas uma pequena parte das dunas para contemplar os bosques de
quixabeiras, árvores bastante importantes para os moradores (pela madeira, por fornecer alimento para

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animais, etc), e o lençol freático que fornece água potável a grande maioria dos moradores. Entretanto,
os técnicos do IDEMA alegando que seria muito importante contemplar não apenas parte do lençol
freático, mas também as áreas de caatinga onde ocorrem suas nascentes, impuseram o alargamento
da área em direção ao sul.

Após discussões e negociações, os moradores ficaram convencidos da importância de englobar todo o


lençol e os rios subterrâneos que alimentam o lençol freático. Por causa dessa justificativa, foi preciso
abarcar a área que abrange as comunidades de Lagoa Doce, Mangue Seco I, Mangue Seco II (já
pertencentes ao município de Guamaré) e todas as virtuais propriedades particulares que abrangem
praticamente todo o campo dunar e a porção de caatinga da RDS.

Em função desta imposição técnica do IDEMA, as comunidades predominantemente agrícolas de


Lagoa Doce e Mangue Seco I e II, que não participaram do processo de reivindicação da unidade de
conservação, se viram inseridas na área da RDS, sem que tivessem sido devidamente informadas
sobre as conseqüências relacionadas à criação da unidade e sem que tivessem sido devidamente
consultadas sobre seu interesse em terem seus espaços de habitação e de desenvolvimento de
atividades econômicas transformadas em área legalmente protegida.

Da mesma forma, as pessoas que se identificam como proprietárias de áreas na região não foram
previamente consultadas e hoje, apesar de concordarem com a necessidade de conservação
ambiental da área, declaram que não irão submeter os usos e formas de ocupação de seus imóveis às
normas do futuro plano de manejo da unidade ou às deliberações de seu conselho gestor.

Ainda em 2003 as comunidades inicialmente envolvidas deram mais um passo decisivo ao realizarem o
“III Encontro Ecológico de Diogo Lopes e Barreiras: Pela Implantação da Reserva”, entre os dias
5 e 8 de junho. Na cerimônia de abertura do III Encontro, as comunidades foram surpreendidas com a
presença da Governadora do Estado do Rio Grande do Norte, Wilma Maria de Faria, que, na ocasião,
assinou um projeto de Lei de sua autoria criando a Reserva de Desenvolvimento Sustentável Ponta do
Tubarão. Assim como os demais Encontros, este contou com a participação de professores
universitários, pesquisadores de diversas áreas, representantes de órgãos públicos das três esferas de
poder, moradores das comunidades, artistas e voluntários diversos. Houve a realização de cursos,
apresentações teatrais, shows de música popular e concursos de artes entre os alunos das escolas
locais. O Encontro mais uma vez foi encerrado com uma mesa redonda e posteriormente com a
elaboração e leitura pública das recomendações. Desta vez, a mesa redonda abordou o tema
“Estudos para elaboração do Plano de Manejo e implantação da Reserva de Desenvolvimento
Sustentável Ponta do Tubarão”.

O III Encontro teve uma novidade em relação aos anteriores, que foi a publicação da Revista do III
Encontro Ecológico de Diogo Lopes e Barreiras. Este Encontro foi realizado por 23 entidades da
sociedade civil e do Governo municipal (incluindo escolas públicas e o Programa Criança da
Petrobrás). O patrocínio foi da Petrobrás e o apoio da Prefeitura de Macau.

Em 24 de junho de 2003, o projeto de Lei da Governadora foi aprovado por unanimidade pela
Assembléia Legislativa do Rio Grande do Norte e em 18 de julho de 2003 foi publicada a Lei Estadual
n0 8.349, criando a Reserva de Desenvolvimento Sustentável Ponta do Tubarão.

É importante salientar que durante todo o processo de criação e durante a votação na Assembléia, as
comunidades estiveram presentes para lutar pela aprovação do projeto de Lei. Um outro fator

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importante a ser considerado foi a ampla participação de representações comunitárias durante a
delimitação da área da Reserva e a elaboração da minuta do projeto de Lei de criação da RDS.

Entretanto, um dos pontos mais polêmicos e que gerou forte resistência por parte do governo estadual
foi o desejo das comunidades de proibir a “instalação de novos empreendimentos de carcinicultura
e ampliação da área dos viveiros de camarão já instalados na área da Reserva” (Art. 5º, Inciso I).
Até hoje, deputados tentam alterar este artigo da Lei estadual que cria a RDS, mas a pronta reação dos
moradores e ambientalistas tem evitado seu intento.
A seguir, consta as relações de entidades governamentais e da sociedade civil envolvidas com a
criação da RDS:

Entidades Governamentais:
Instituto de Desenvolvimento Econômico e Meio Ambiente do Rio Grande do Norte (IDEMA/RN)
Gerência Regional do Patrimônio da União (GRPU/RN)
Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA/RN)
Prefeitura Municipal de Macau
Câmara Municipal de Macau
Petróleo Brasileiro S.A. (Petrobrás/UN-RNCE)
Universidade Federal da Paraíba (UFPB)
Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN)

Entidades não governamentais:


Associação de Mulheres Luiza Gomes (AMLG) – Diogo Lopes
Associação de Desenvolvimento Comunitário de Barreiras (ADECOB) – Barreiras
Associação de Desenvolvimento Comunitário de Diogo Lopes (ADECODIL) – Diogo Lopes
Associação de Pescadores e Pescadoras de Macau (APPM) – Macau
Associação Comunitária de Mangue Seco e Lagoa Doce (ASCOMAS) – Mangue Seco I e II, e Lagoa
Doce
Centro de Educação Integrada Monsenhor Honório (CEIMH) – Escola particular de Macau, ligada a
Igreja Católica
Centro Social Pio XI – Macau
Centro AMA-GOA – Macau
Comissão de Justiça e Paz de Macau (CJP/Macau) – Diogo Lopes
Colônia de Pescadores Z-41 – Diogo Lopes
Conselho Pastoral dos Pescadores (CPP) – Diogo Lopes
Escola Estadual Isolada de Diogo Lopes (EEIDL) – Diogo Lopes
Escola Municipal Alferes Cassiano Martins (EMACM) – Barreiras
Escola Municipal José Ribeiro da Costa (EMJRC) – Diogo Lopes
Escola Municipal Luzia Bonifácio de Souza (EMLBS) – Diogo Lopes
Escola Municipal Salete Martins (EMSM) – Sertãozinho
Grupo Ecológico Gaivotas do Sal (GEGS) – Macau
Grupo Ecológico Ponta do Tubarão (GEPT) – Diogo Lopes
Associação Potiguar de Apoio aos Jovens do Meio Popular (ILEAÔ) – sede em Parnamirim/RN
Jardim Escola Amiguinhos do Saber (JEAS) – Diogo Lopes
Jovens Lutando para Vencer (JLPV) – Diogo Lopes
Jovens Unidos a Serviço de Cristo (JUSC) – Diogo Lopes
Paróquia de Macau – Macau
Pastoral da Juventude do Meio Popular (PJMP) – Macau
Programa de Criança da Petrobrás – Diogo Lopes e Barreiras

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IMPLANTAÇÃO E GESTÃO DA RDS PONTA DO TUBARÃO

A primeira atividade desenvolvida após a criação da Reserva foi a organização das regras para eleição
das entidades não-governamentais que iriam compor o Conselho Gestor da RDS. A eleição aconteceu
no dia 25 de setembro/2003 e em 11 de dezembro de 2003 houve a cerimônia de posse do Conselho.
Na ocasião, também foi escolhida a logomarca da RDS, que resultou de um concurso de idéias
realizado na comunidade.

Abaixo segue a relação de entidades com representação no conselho gestor da RDS:

Representações Governamentais (9) Representações Não-Governamentais (10)


- Instituto de Desenvolvimento Econômico e - Comissão de Justiça e Paz – CJP
Meio Ambiente do Rio Grande do Norte –
IDEMA (presidente)
- Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos - Conselho Pastoral dos Pescadores – CPP
Recursos Naturais Renováveis – IBAMA/RN
- Gerência Regional do Patrimônio da União – - Paróquia de Macau
GRPU/RN
- Poder Executivo do Município de Guamaré - Centro Social Pio XI
- Poder Executivo do Município de Macau - Colônia de Pescadores Z-41
- Poder Legislativo do Município de Guamaré - Associação de Desenvolvimento Comunitário
de Diogo Lopes – ADECODIL
- Poder Legislativo do Município de Macau - ILEAO
- Petrobrás (representante do setor produtivo) - Grupo Ecológico Ponta do Tubarão – GEPT
- Universidade Federal da Paraíba – UFPB - Associação de Mulheres Luiza Gomes –
(instituição de pesquisa com atuação na AMLG
reserva)
- Associação Comunitária de Mangue Seco e
Lagoa Doce – ASCOMAS

Os representantes governamentais do Conselho foram indicados por cada instituição, com exceção do
representante do setor produtivo (Petrobrás) e da instituição de pesquisa (UFPB), que foram escolhidos
através de votação pelos representantes das entidades que realizaram o III Encontro Ecológico. Os
representantes das entidades não governamentais que se inscreveram para concorrer a uma das 10
vagas no Conselho votaram entre si, e as dez mais votadas foram a escolhidas.

O Conselho se reúne bimensalmente em caráter ordinário, tendo ocorrido também reuniões em caráter
extraordinário. Cabe ressaltar que o papel de cada membro do Conselho ainda não está bem claro
para alguns deles. Algumas pessoas não conseguiram assimilar o que é um Conselho Gestor e o seu
caráter deliberativo.

Nota-se que algumas pessoas (até mesmo do próprio Conselho) ainda não fazem idéia da importância
desse tipo de representação para a RDS, sendo considerada prioritária a capacitação dos membros do
Conselho no sentido de se esclarecer qual a importância do Conselho, qual o seu papel enquanto
grupo e qual o papel de cada membro individualmente.

Após a posse, o Conselho iniciou os trabalhos de elaboração de seu regimento interno que deveria ser
submetido à aprovação do Conselho Estadual de Meio Ambiente do RN (CONEMA), conforme
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especificado na Lei Estadual n0 8.349 de 18 de julho de 2003. Mesmo com seu regimento ainda em
fase de elaboração, em 16 de fevereiro de 2004 iniciaram-se as reuniões do Conselho.

Outras atividades visando a implantação da reserva foram:

IV Encontro Ecológico da RDS Estadual Ponta do Tubarão: Comunidades e Reserva de Mãos


Dadas

O IV Encontro Ecológico teve seu nome alterado, desta vez, já carregando o nome da RDS. Essa
decisão foi tomada em reunião entre as entidades que realizaram os encontros anteriores e o Conselho
Gestor da Reserva. Foi então aprovado o nome: “IV Encontro Ecológico da RDS Estadual Ponta do
Tubarão: Comunidades e Reserva de Mãos Dadas”. O IV Encontro seguiu o modelo dos anteriores
e teve a apresentação de palestras, realização de cursos, treinamentos, concursos de artes,
apresentações teatrais e shows de música. As novidades do IV Encontro foram: o lançamento do
Boletim Informativo do Encontro e a participação das comunidades de Mangue Seco I e II e Lagoa
Doce, pertencentes ao município de Guamaré e inseridas na porção oeste da Reserva. A cada ano, o
número de entidades realizadoras do Encontro tem crescido, sendo agora 27.

1ª. Oficina de Planejamento do Plano de Manejo da RDS Estadual Ponta do Tubarão

A 1ª. Oficina de Planejamento ocorreu no dia 20 de setembro de 2004 e contou com a apresentação de
palestras sobre temas relevantes na Reserva. O ponto mais importante da Oficina foi a definição dos
temas prioritários no tocante à implantação da Reserva. Os temas apontados foram:
Uso e ocupação do solo
Arranjo da pesca
Levantamento socioeconômico
Inventário da fauna e da flora
Arranjos produtivos das comunidades rurais
Solução para o problema da barra
ZEE
Mapeamento arqueológico
Extração de areia
Envolvimento e articulação com entidades e a sociedade
Arranjo do turismo
Levantamento dos recursos hídricos
Demarcação e sinalização da Reserva

2ª. Oficina de Planejamento para Elaboração do Plano de Manejo RDS Estadual Ponta do
Tubarão

A 2ª. Oficina de Planejamento ocorreu no dia 04 de setembro de 2004 e contou com a apresentação de
palestras sobre temas que causam conflitos e dúvidas nos moradores das comunidades, como as
implicações ambientais de uma possível abertura da barra do rio Tubarão, detalhamentos sobre a Lei
do SNUC, a importância da participação comunitária no processo de implantação da Reserva e a
definição de três temas prioritários para começarem a ser trabalhados na RDS. Os temas apontados
pelos presentes foram: (1) arranjo do turismo, (2) arranjo da pesca e (3) uso e ocupação do solo. Nesta
oficina, ficou acordado entre os participantes, que se formariam grupos de trabalho compostos por
moradores e colaboradores externos para discutir esses temas e buscar formas de resolução de

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problemas, de melhoria para as pessoas envolvidas e formas de desenvolvimento sustentável dentro
de cada uma dessas prioridades.

I Seminário de Turismo Sustentável da RDS Estadual Ponta do Tubarão: Que Turismo


Queremos?

O primeiro grupo a se organizar foi o grupo do turismo, que realizou diversas reuniões para agregação
de participantes. O público alvo deste grupo são as pessoas que tem empreendimentos relacionados
ao turismo como bares, comércios de alimentos, de objetos, de roupas, pousadas, culinária,
artesanatos, entre outros, e pessoas que demonstram interesse em trabalhar nesse ramo. Uma das
atividades mais relevantes foi a visita à Prainha do Canto Verde, no Ceará, para conhecer a
experiência dessa comunidade no turismo de base comunitária. A visita, que contou com a participação
de 50 pessoas foi financiada pelo IDEMA/RN e durou 2 dias. Em seguida, o grupo de turismo organizou
e realizou o “I Seminário de Turismo Sustentável da RDS Estadual Ponta do Tubarão: que
turismo queremos?”, que contou a participação de palestrantes locais e de outras localidades, nos
dias 10 e 11 de dezembro de 2004. O objetivo do seminário foi: “Apresentar uma série de informações
e experiências a respeito da atividade turística para subsidiar as comunidades da RDS no processo de
decisão sobre a forma de turismo a ser implantada na Reserva, como parte das estratégias de
desenvolvimento sustentável a serem contempladas no plano de manejo da Reserva”. Neste
seminário, os temas das palestras apresentadas foram:

Impactos do turismo e seu monitoramento


Turismo em unidades de conservação
Turismo de base comunitária
Turismo como alternativa de renda
Fontes de financiamento para micro empreendimentos na Reserva
Instituições ligadas ao turismo e os serviços oferecidos

I Seminário para Organização do Espaço das Comunidades, Mangues e Dunas da RDS

Em 12 de março de 2005, foi realizado o “I seminário para organização do espaço das


comunidades, mangues e dunas da RDS” em Diogo Lopes, que contou com a participação de
moradores das diversas comunidades da Reserva. Na ocasião, os participantes formaram grupos para
organizar propostas para o uso e ocupação do espaço das comunidades, mangues e dunas da RDS,
atividade que posteriormente ocorreu para os demais grupos de trabalho como turismo e pesca.

SITUAÇÃO ATUAL E PERSPECTIVAS

Os trabalhos visando a implantação da RDS Ponta do Tubarão vêm se sucedendo regularmente,


entretanto com a participação de uma parcela pequena das comunidades inseridas na RDS. Apesar da
pequena participação comunitária, decisões importantes estão sendo tomadas com relação ao uso e
ocupação do solo e implantação do turismo, que, de acordo com a maioria dos participantes, deve ser
de base comunitária. O turismo convencional foi completamente rejeitado pelos moradores integrantes
do grupo de trabalho deste tema.

Dois fatores principais podem ser destacados como entraves à implantação da RDS. O primeiro deles
é a falta de compromisso dos representantes governamentais nas reuniões, nas formas de atuação e
na tomada de decisões dentro das suas competências. O segundo é a quase total falta de recursos

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(humanos e principalmente financeiros) para implantação mínima da Reserva. Por exemplo, nenhuma
placa foi colocada na Reserva indicando que a área trata-se de uma unidade de conservação. Nenhum
recurso foi disponibilizado pelo Governo para viabilizar a compra de material de escritório, por exemplo.

De qualquer forma, os trabalhos continuam e, aos poucos, alguns pontos estão sendo delineados.
Espera-se que estas barreiras possam ser superadas e que o processo de implantação da RDSPT
ocorra de fato, com maior disponibilidade de recursos (humanos e financeiros) e que a demora na
tomada de decisões não desestimule a parcela da comunidade que está realmente envolvida nos
trabalhos. Espera-se também que estratégias de mobilização das comunidades sejam delineadas e
aplicadas para que o processo seja de fato participativo.

Finalizando, como atividades prioritárias para a implantação da RDS podem ser citadas: (1)
regularização fundiária; (2) ordenamento do uso e ocupação do solo em todos os diferentes
ecossistemas da RDS (porção marinha / restinga, estuário / manguezal, porção urbana, dunas com e
sem vegetação, falésia e caatinga), o que, na verdade, estaria intimamente relacionado ao
Zoneamento Ecológico-Econômico, e (3) definição / implantação de estratégias para atrair e envolver o
maior número de moradores no processo de gestão.

6. INTERPRETAÇÕES E POLÊMICAS SOBRE A CATEGORIA DE MANEJO RESERVA DE


DESENVOLVIMENTO SUSTENTADO

A regulamentação da categoria de manejo RDS não é precisa. Em vários itens provoca diferentes
interpretações de suas definições, gerando polêmica. Tanto nas entrevistas realizadas, quanto nas
discussões que aconteceram na Oficina Diálogos sobre Reserva de Desenvolvimento Sustentável a
polêmica esteve presente.

Um referencial importante nas discussões foi a diferença entre RESEX e RDS, já que todos
consideram as duas categorias muito semelhantes, o que gera dúvidas do porque escolher uma ou
outra categoria para se criar uma unidade de conservação. Neste sentido, embora não haja consenso,
a regulamentação das RDS é uma maneira de estabelecer critérios para sua criação, implantação e
gestão, dirimindo tais polêmicas. Porém, há quem entenda que a falta de definições mais precisas
desta categoria lhe confere flexibilidade para atender diferentes situações, abrindo possibilidade para
experimentação social a fim de dar conta de situações locais específicas e contingentes.

De fato, é o que tem ocorrido. As RDS têm sido criadas sob as mais variadas argumentações. Hoje a
grande maioria das RDS existentes encontra-se na Amazônia, a maior parte criada e gerida pelos
estados.

Apenas recentemente (2005) foi criada a primeira RDS federal no Arquipélago do Marajó. Parte dos
governos dos estados amazônicos entende que RDS podem comportar propriedades privadas. A
existência de conflitos de terra nesta região, aliado à falta de recursos para desapropriação, tem sido
motivos para criação de unidades de conservação desta categoria.

Outra justificativa para criação de unidades de conservação nesta categoria é o termo sustentável
presente no nome. Este termo seria um elemento de marketing que potencialmente atrairia
financiamentos de agências e empresas que visam o apoio, não só à conservação ambiental, mas
também ao desenvolvimento de comunidades humanas. É comum também a criação de RDS como
medida urgente para proteção de ecossistemas ou grupos sociais ameaçados, ou ainda, quando não

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há organização da população local. Nestes casos, a justificativa está embasada no entendimento de
que as RDS podem ser decretadas apenas por iniciativa do poder publico, não exigindo iniciativas da
população local para este fim.

Neste item descrevemos a interpretação da categoria RDS pelos entrevistados, agrupando os diversos
entendimentos por itens. As entrevistas realizadas (com os moradores das RDS estudadas, seus
gestores e entidades da sociedade civil relacionadas, assim como com autoridades e especialistas)
revelaram o entendimento destes atores sociais sobre a categoria de manejo Reserva de
Desenvolvimento Sustentável.

A análise das entrevistas permite o entendimento de que o conceito desta categoria de manejo de
unidade de conservação encerra muitas ambigüidades e interpretações. Por um lado aponta-se para o
fato de que, por ser uma categoria muito recente, e com poucas experiências de unidades de
conservação criadas, as pessoas não têm conhecimento das determinações a respeito das RDS
expressas na lei do SNUC e sua regulamentação.

Esta situação é bastante compreensível em relação aos moradores das unidades de conservação
estudadas, visto que em função da realidade das ocupações – relativamente isoladas dos centros
urbanos - têm menos acesso a informações. Mesmo assim, considerando que esta categoria de
manejo privilegia a participação da comunidade local, prevendo inclusive conselho deliberativo
(enquanto na maioria das demais unidades de conservação os conselhos são consultivos) os
moradores necessariamente deveriam ter maior conhecimento dos limites, possibilidades,
responsabilidades, direitos, deveres e opções já definidas para as RDS nos instrumentos jurídicos.

Por outro lado, os gestores entrevistados, bem como estudiosos e especialistas em unidades de
conservação, dos quais poderia se esperar conhecimento da legislação, expressaram, em alguns
casos, desconhecimento dos diplomas legais, e em outros, interpretações contraditórias dos mesmos.
A discussão sobre a diferença entre Resex e RDS, que mereceu especial atenção destes atores,
exemplifica as contradições e imprecisões conceituais que envolvem a categoria de manejo RDS.

PERCEPÇÃO SOBRE CATEGORIA DE MANEJO RESERVA DE DESENVOLVIMENTO


SUSTENTADO PELOS MORADORES DAS RDS ESTUDADAS:

A percepção do entendimento acerca desta categoria, no caso dos moradores entrevistados, revela-se
a partir da descrição dos mesmos sobre as RDS (Mamirauá – AM, Iratapuru – AP e Ponta do Tubarão
– RN) na qual habitam ou têm algum tipo de relação de uso, no caso dos moradores do entorno das
unidades de conservação.

É importante ressaltar o fato de que praticamente 100% dos entrevistados não tinham conhecimento do
motivo pela qual a categoria de manejo escolhida foi RDS e não Resex.

Praticamente todos responderam desconhecer a diferença entre RDS e Resex e a única resposta que
avança um pouco mais nesse sentido, identifica RDS como uma categoria exclusivamente estadual e a
diferencia da Resex por permitir o uso dos recursos por moradores do entorno (resposta de um
morador de Mamirauá), embora tais afirmações não sejam condições dispostas na lei do SNUC.
Mesmo os moradores de Ponta do Tubarão, aonde por mais de quatro anos foram realizadas
discussões sobre qual categoria seria mais adequada à sua realidade, não têm segurança sobre as
diferenças entre as duas categorias de unidades de conservação.

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Grande parte dos entrevistados tampouco domina plenamente o significado da categoria RDS. Sabem
que estão inseridos em reservas ou com elas estão fortemente envolvidos, mas amiúde não sabem
como deve se dar seu funcionamento. Além disso, nenhum morador entrevistado soube explicar os
critérios para definição dos limites e desenho da RDS da qual fazem parte.

Tal quadro nos permite interpretar que a participação dos moradores no processo de criação e
implantação das unidades de conservação não atingiu plenamente seus objetivos, certamente em
função da precariedade dos processos de consultas públicas sob responsabilidade dos órgãos
executores do SNUC, reflexo da débil preocupação do poder público pela democratização de suas
políticas ambientais, inclusive em situações em que a criação de uma unidade de conservação deveria,
teoricamente, beneficiar populações locais. Na RDS Ponta do Tubarão, apesar do longo período de
discussões que subsidiaram a criação da unidade, pode –se inferir que a participação ficou restrita a
representantes dos segmentos produtivos e sociais locais, com baixo grau de capilaridade entre a
comunidade como um todo.

Por outro lado é unânime a percepção, entre as populações locais, que a RDS impõe limites à
exploração dos recursos naturais e das fontes de alimentação em beneficio da própria comunidade,
que mantém seu direito de uso dos recursos da unidade, controlando sua exploração e protegendo-os
de agentes externos à comunidade: “As pessoas daqui tem permissão para tirar o que quiser, até ouro,
mas só as pessoas daqui”.

No que se refere à implantação e gestão das RDS, a relação dos moradores com esses processos é
bastante frágil em Iratapuru, é razoavelmente intensa em Ponta do Tubarão e mais estruturada em
Mamirauá. Nesta última os moradores enfatizam a forte participação das comunidades nas
assembléias setoriais e gerais, assim como nas atividades voluntárias de apoio à organização social e
à obtenção de novos conhecimentos. Tal situação, entretanto, deve-se, em grande parte, a um
processo desenvolvido por instâncias da Igreja Católica de apoio à organização comunitária local,
iniciado antes da criação da reserva.

Já a população beneficiária de Iratapuru não citou qualquer participação no processo de implantação, a


não ser um entrevistado que tomou parte das atividades de demarcação da unidade de conservação.

Na Ponta do Tubarão o processo se dá, conforme já mencionado, por meio da participação formal de
representantes dos segmentos locais, mas a comunidade como um todo, embora valorize a unidade,
mostra-as alheia às atividades para sua implantação e gestão.

No que se refere especificamente à gestão das unidades, um aspecto ressaltado entre os depoimentos
dos moradores das três reservas é a consciência de sua responsabilidade de fiscalizar o acesso e
permanência de pessoas estranhas às RDS.

Vinculado a esse aspecto, chama também a atenção, no caso de Iratapuru, a freqüência de respostas
relacionadas à ausência do poder público na unidade de conservação, quer seja o governo estadual,
responsável pela gestão da unidade, quer seja o governo municipal.

Abaixo, as opiniões sobre alguns itens relacionados à categoria de manejo RDS:

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Objetivo principal:

De modo geral, os entrevistados que responderam, entendem que a RDS tem por objetivo a promoção
da qualidade de vida dos moradores e usuários, garantindo a disponibilidade e reprodução dos
recursos naturais utilizados para seu consumo ou comercialização. A conservação da biodiversidade
não está presente nos discursos dos moradores, e em alguns casos, nem no discurso dos agentes
governamentais.

“Serve pra você tirar os produtos de dentro da reserva pro seu sustento de uma forma que não traga
problema ambiental. “
“Porque ela é uma Reserva de desenvolvimento sustentável, então ela mesmo é capaz de se
sustentar. Então é preciso algum investimento do poder publico como estrada, escola, saúde e
saneamento básico mas a outra parte da sustentabilidade da população, financeiramente esse povo
tem como trabalhar e tem como sobreviver.”
“Dar sustento à população e extrair a castanha, a seringa sem fazer desmatamento. Para beneficiar a
comunidade.”;
“Então a RDS foi criada para preservar o castanhal e também a natureza. Então isso aqui nós estamos
passando para os nossos filhos e dos nosso filhos para outros filhos de outras gerações, então acho
que ela foi criada exatamente por isso, para proteger.”;
“A RDS serve ao futuro da geração porque a nova geração vai desfrutar disso e nós temos a obrigação
de fiscalizar e preservar”;
“A reserva garante a continuidade das famílias em suas áreas tradicionais e impede a entrada de
hotéis e criadores de camarão”;
“A reserva foi criada para que assegurasse isso (a natureza) porque hoje em dia a devastação está
imensa”.
“Manter primeiramente o que existe e cuidar do que nós temos para que nunca venha a faltar”;
“Tanto conservação ambiental quanto o desenvolvimento dos moradores. Por que um depende do
outro”;
“Falaram que é para conservar, não deixar destruir as madeiras e não fazer estrago”;
“A mata só está conservada por causa da RDS, então devemos zelar por ela. Até hoje não precisamos
desmatar”.

De maneira em geral, os moradores citam a importância da reserva como instrumento de conservação


por proteger recursos dos quais dependem para sua reprodução sócio-cultural e por evitar que as
terras lhes sejam tomadas por grupos estranhos à comunidade.

Houve respostas dos moradores de Mamirauá que apontaram como objetivos da RDS a organização e
envolvimento da população local.

Porque criar?

As respostas para esta questão expressaram diversos entendimentos:

9 A criação da RDS propiciaria investimentos na área e nas comunidades

“A gente articulou isso porque sabíamos que com a criação da reserva o recurso do PPG-7 seria maior
e como a fatia do bolo vinha maior isso iria beneficiar as comunidades.”

48
“Chegamos ao consenso de que na Amazônia tinha que se fortalecer as áreas de proteção e
desenvolvimento, então a RDS é um modelo de desenvolvimento sustentável porque ela é muito rica
em peixe, ervas medicinais e a castanha.”

9 A categoria permite moradores

“Acho que é porque pode ter pessoas dentro da reserva”;


“Acho que é porque facilita mais a divisão da área”;
“RDS é melhor pela forma de gerenciamento, tem mais recursos”.

9 Para conter invasão e depredação dos recursos naturais

“A gente soube que a reserva foi criada por causa da criação de camarão, devastação do mangue. E a
gente sabe que o mangue é algo essencial pra nós aqui que vive dentro da reserva”.
“ Se a gente deixar como estava estaria muito pior que hoje; por isso pensaram em proteger”.
“Foi para o pessoal não invadir, e se nós não tivesse inventado isso teria um monte de gente aí”.
“Porque havia muita invasão de pessoas que iam mariscar e tirar castanha de nossas propriedades
sem permissão. Já teve muita confusão por causa disso e já teve gente que saiu daqui algemada”.
“Foi por causa de forasteiros que queriam se apossar de nossa comunidade e quebrar nossas
tradições. Vieram com história de turismo, mas quem pensa no futuro dos que virão, viu que isso não
seria bom para nossa comunidade”.
”Antes da criação da reserva nos foi dito que uma estrada chegaria até a área de onde nós tiramos
castanha e isso iria coalhar de gente e não poderíamos mais se utilizar da floresta”
“Para proteger as atividades de pesca”
“Pra evitar a invasão pelo pessoal da carcinicultura”

9 Para propiciar oportunidades, quer seja de formação, quer seja de parcerias, e aumentar o
conhecimento;

“A criação da RDS trouxe muita orientação para nós. Antigamente não havia preocupação em não
deixar lixo nos barracos para cima no rio. Agora nós temos isso quase como uma ordem aqui e tem
que ser cumprida, portanto o lixo é trazido de volta. Hoje nós temos que zelar por essa natureza”.

9 Para propiciar aumento da disponibilidade dos recursos naturais utilizados pelas comunidades;

“Faltava de peixes nos lagos”;


“Foi a comunidade que quis preservar a partir do momento que conheceu como usar”.
“Para que as atividades do pessoal, de pesca e mariscagem pudessem continuar”.

9 Para proteção de espécies endêmicas, como o macaco Acari, no caso de Mamirauá, e


espécies de cavalo-marinho em Ponta do Tubarão.

Tipo de ocupação

Os entrevistados se auto-identificam como tradicionais. População tradicional é definida a partir do


histórico de moradia e uso dos recursos naturais na região.Tradicional também adquire significado de
antigo, continuidade (“usam as mesmas tradições”), ser nativo. Há quem aponte para uma identidade
cultural e/ou de organização para definir a tradicionalidade.

49
“Eu acho que é a pessoa lá onde ela vive, onde ela trabalha. Se ele não sai para trabalhar na cidade.
Se nós moramos aqui, temos aqui o nosso emprego, nosso dinheiro, não trabalhamos em Macapá, de
gari, indo pra lá e voltando pra cá. A gente é acostumado aqui, com disciplina, essas coisas.”;
“Sim porque sempre estiveram ai.”
“Fazem as mesmas atividades que os pais, os avós”.

Gestão
As prioridades de gestão para os moradores e usuários entrevistados concentram-se em:

9 Apoio às comunidades:
- envolvimento das comunidades, conquistando mais apoio para a preservação;
- organização das comunidades para manter os recursos naturais para o futuro; proporcionar
conhecimento para as comunidades;
- melhorar qualidade de vida das comunidades.

9 Em relação à produção:
-“ Melhorar o escoamento da produção”;
- “O que acho que falta é um projeto que trabalhe os outros produtos da mata como a seringa, o
cacau, a madeira porque depois da época da castanha nós não temos outra atividade”;
- “Eu acho que a prioridade nossa é fazer esse plano de manejo. É como a gente vai saber o que pode,
o que não pode, o que deve, o que não deve”.
- “Regularizar as colocações porque isso ainda não existe. As vezes um pega castanha do outro e não
pode abrir porque outro reclama”.
- “Essa questão dos caranguejos é muito séria, pois sabemos que tem forasteiros explorando nossos
caranguejos de forma desordenada”.

9 Situação fundiária:
“Queria regularizar a situação das propriedades do entorno da reserva porque a gente mora aqui”.
“Acho que o que deveria ser feito é incluir esta área à RDS desde a cachoeira das Panelas até aqui.”.

9 Implantação da RDS:
Demarcar a reserva;
Criar conselho deliberativo;
Envolver mais a população.

PERCEPÇÃO SOBRE A CATEGORIA DE MANEJO RESERVA DE DESENVOLVIMENTO


SUSTENTADO PELOS ESPECIALISTAS, GESTORES PÚBLICOS E ORGANIZAÇÕES DO
TERCEIRO SETOR

As entrevistas revelaram interpretações contraditórias e expectativas diferenciadas em relação à


categoria de manejo RDS. A diferença entre a categoria RDS e Resex foi um dos destaques nas
análises.

Basicamente os pontos principais de distinção entre as categorias são:

9 tipo de ocupação e uso dos recursos naturais


9 tamanho da unidade
9 questão fundiária
9 processo de criação

50
9 prioridade para conservação
9 histórico da categoria
9 gestor publico – estadual/federal

Alguns comentários acerca da diferença entre RDS e Resesx:

“No conjunto do SNUC isso entre uma modalidade e outra as diferenças são mínimas.”
“As RESEX devem ser federal e as RDS estaduais”
“A RESEX brotou de lutas sociais e a RDS não. A RDS não foi demanda da população. A proposta da
RDS veio de encontro com idéia de uma categoria de manejo de uso sustentável mais flexível, mais
aberta, não atrelada à idéia de extrativismo e seringueiros.”
“O que caracteriza a RDS é seu vinculo com a comunidade acadêmica. “
“A RESEX dá maior nível de autonomia para a comunidade. Quando a comunidade está organizada
ela sempre pleiteia RESEX. O processo de demanda da RESEX envolve a organização da
comunidade, e da RDS não necessariamente. A RESEX é uma solução mais definitiva, mais segura,
mais permanente, do ponto de vista das comunidades. Na RESEX as populações tem mais poder
sobre o território, já que a concessão para a população é de toda a área, todo o território.”
“RESEX é um modelo histórico, fruto da luta política dos seringueiros. A RESEX é proposta pela
comunidade. Toda vez que a comunidade pleitea, sempre, pleiteam RESEX.”
“As RDS são quase como uma APA: pode ter vários tipos de atividades sustentáveis, não desapropria,
não retira população, não precisa ser extrativista. A regulamentação é mais frouxa.”
“A RDS é um ordenamento para acesso aos recursos e para a ocupação.”
“A Resex é uma área utilizada por populações extrativistas locais. A reserva de desenvolvimento
sustentável é uma área natural que abriga populações tradicionais. Pronto, está aqui a diferença”.
“O SNUC igualou muito as coisas, eu achava que tinha que diferenciar. O quê que o SNUC fez? O
SNUC deixou a RDS meio liberal, um pouco mais liberal do que eu acho que deveria ser e a RESEX
um pouco menos autônoma do que deveria ser”.

A tabela abaixo resume as diferenças apontadas pela maioria dos entrevistados e participantes da
Oficina “Diálogos sobre Reserva de Desenvolvimento Sustentável” entre as categorias de manejo de
unidade de conservação Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) e Reserva Extrativista
(RESEX)

RDS RESEX
Populações devem residir na área da UC. Populações podem ou não residir, devem
utilizar a área da UC
Populações tradicionais não necessariamente Exclusivamente populações extrativistas
extrativistas
Pode ter propriedade privada Propriedade deve ser de domínio publico
Sua criação pode ser iniciativa do poder Sua criação tem que ser iniciativa da
publico e ONgs população
Exige a demarcação de área de proteção Não exige demarcação de área para proteção
integral integral
Possibilidade de exploração de componentes Proibida a caça, mineração, e animais de
do ecossistema e autorização da substituição grande porte.
da cobertura vegetal por espécies cultiváveis Não há autorização explicita para substituição
em seu interior, implicitamente permitindo da cobertura vegetal por espécies cultiváveis
mineração, animais de grande porte e caça
Não necessidade de plano de manejo de Necessidade de plano de manejo de
51
rendimento sustentável para exploração rendimento sustentável para exploração
comercial de recursos madeireiros comercial de recursos madeireiros
São estaduais São federais
Grandes áreas Áreas menores
Concepção da categoria respondeu à Concepção da categoria respondeu à
demanda da comunidade acadêmica demanda da luta social dos extrativistas
Não há necessidade de organização da A população deve estar organizada
população
População com menor poder sobre o território População tem mais poder sobre o território
devida a exigência de conservação da área.
Área com significativa diversidade biológica Área com recursos naturais passíveis de
extração

Abaixo, as opiniões sobre alguns itens relacionados à categoria de manejo Reserva de


Desenvolvimento Sustentado.

Objetivo principal:

A interpretação é que a RDS deve atender, como um dos objetivos principais, as populações
moradoras, garantindo acesso à terra e aos recursos naturais.

“O objetivo que as UCs de uso sustentável tem com a população tradicional é a questão fundiária”;
“A questão principal é a garantia de Terras e as duas garantem isso, o espaço da população que está
lá, ter o seu espaço e poder usar.”;
“É uma experiência singular, de desenvolvimento da população”.
“RDS é uma categoria diferente porque nela é possível viabilizar projetos de desenvolvimento e a
exploração econômica dos produtos.”

Todos ressaltam os objetivos de conservação desta categoria, entretanto, há quem a considere mais
“flexível” por prever diversidade de usos dos recursos naturais. Há quem a considere, por outro lado,
mais “conservacionista” do que a RESEX

“A RESEX é uma UC voltada para a extração, não para conservação, como a RDS”.
“A RDS tem um teor de proteção, de pesquisa de possibilidades amplas”.
“Diferente da RDS, na RESEX a comunidade é o principal objetivo da categoria. Estas comunidades
usam os recursos de forma tradicional. A conservação está associada ao estilo de vida destas
comunidades. Elas pleiteiam, elas gerem a unidade de conservação.”
“O objetivo principal é a conservação, e depois conciliar com a exploração sustentável de recursos
naturais”.
“Mais aberta do ponto de vista ambiental, pois permite exploração de maior vulto”.
“Preocupa-se mais em proteger o patrimônio natural que são medidas mais efetivas e mais rápidas
enquanto que medidas relacionadas ao desenvolvimento sustentável, que são melhoria de vida das
populações residentes, são muitos demoradas. Pode-se observar que plano de manejo poucas tem,
conselhos gestores poucos estão em funcionamento. O que se faz é demarcar a área e promover um
sistema de fiscalização e monitoramento. Ao meu ver o que acontece nas RDS ainda é conservação
ambiental.”
“(...) são mais condescendentes em relação à conservação, são menos restritivas. A conservação
ambiental é o segundo objetivo. Garantir o acesso à recursos para população é o objetivo primordial. “

52
Muitos entendem a conservação na perspectiva da sobrevivência das comunidades, ou seja,
conservação como um meio para garantir os recursos naturais para as populações locais, o que denota
que consideram como objetivo prioritário desta categoria a qualidade de vida da população afetada
pela implementação da UC :

“(...) uma RDS tem que ser pra beneficiar a população que mora lá.”

A conservação seria o mote, mas sempre com a perspectiva da comunidade.

“As duas. A prioridade é conciliar a utilização dos recursos naturais e o desenvolvimento econômico
sustentável”.
“Conservação ambiental é importante, é uma meta que as comunidades estão sempre tentando no
sentido de poder garantir os recursos naturais”.
“Propiciar às pessoas que vivem naquele local, viver condignamente, sem devastar, sem degradar
aquilo que a natureza lhe propiciou tirando o sustento para sua família.”,

Houve aqueles, entretanto, que destacaram que esta categoria deve atender tanto os objetivos de
conservação quanto o de desenvolvimento da população local.

“A prioridade é conciliar a utilização dos recursos naturais e o desenvolvimento econômico sustentável”


“A prioridade é a possibilidade de fixação de populações tradicionais, com áreas restritivas para
conservação, determinadas pelas populações”.
“O objetivo das RDS é compatibilizar a presença da população local com a conservação da natureza”
“Eu destaco que os dois objetivos estão interligados, a questão da preservação é um foco, mas a
permanência do homem na terra é outro foco que estão aliados, um estar interligado ao outro”
“Como toda a UC, o objetivo é a conservação da natureza Na verdade a interpretação é que as duas
coisas podem conviver, mas se elas não tiverem como objetivo a conservação, elas não são unidades
de conservação do SNUC. Mas para essa categoria específica tem que estar junto com o
desenvolvimento das comunidades locais.”
“RDS é como se fossem duas coisas em uma só. É uma área como se fosse Resex, com mais
flexibilidade, e uma área com proteção integral também dentro da mesma reserva. É uma idéia que foi,
dentro da lógica do movimento conservacionista, superarada como reserva de uso múltiplo pela noção
de mosaico. Então o conceito como se tratava RDS pra mim é como se fosse um mosaico dentro de
uma unidade só. Para RDS você tem uma lógica de proteção independente da área de uso, por isso
que eu falo de usos múltiplos”.
“RDS e Resex têm objetivos de conservação e desenvolvimento das comunidades”,

Por que criar?


Uma consideração comum foi de que as RDS são caracterizadas por serem unidades de conservação
com grandes dimensões.

“A tendência das RDS é de conservar grandes áreas.”


“A área ter condição ambiental para ser declarada uma RDS, primeiro, o óbvio, é ser uma área
grande.(...) Uma área grande na Mata Atlântica é diferente da Amazônia. Amazônia a gente pode falar
em 300, 400 mil hectares pra cima. Para Mata Atlântica e para o Nordeste já é mais complicado.”

Outra consideração é que as RDS protegem os moradores e a conservação da área e deve ser criada
ou para viabilizar a atividade econômica da população ou para proteger a área de ameaças externas.

53
“A criação só é possível quando a própria comunidade se sente ofendida com a sua capacidade
produtiva ameaçada. O produto começa ficar escasso e a reserva vem favorecer isso.”
“Primeiro ela teria que ser uma área onde tivesse uma biodiversidade capaz de fazer com que as
pessoas que vivem dentro dela e no seu entorno se auto-sustentem. Pra mim esse é o critério básico.
Ao analisar toda a biodiversidade do Amapá, temos que ver que recursos podem ser utilizados pelas
populações para a sua ascensão social, para o seu ganho de vida. Num cerrado como o do norte, nós
não podemos ter uma RDS porque lá as pessoas não teriam que sobreviver porque lá não é tão
diverso assim. (...) A diversidade tem que ser boa o suficiente pra permitir que uma família viva ali pra
sempre, melhorando a sua qualidade de vida.”
“Área de baixa ocupação populacional, significativa diversidade biológica e de favorável opção
comunitária pelo uso sustentável de recursos naturais”.
“A RDS não se limita ao predomínio de atividades extrativistas e a existência de populações
tradicionais. Deve ser analisada sua criação toda vez que haja motivação para experiências de uso
sustentável da biodiversidade e preservação”.
“Nos casos em que se tem uma população que esta utilizando aqueles recursos naturais e que há risco
da área estar sendo utilizada para outro tipo de empreendimento potencialmente degradador.”
“Quando há risco eminente de um empreendimento potencialmente degradador ser implantado em
uma área em que há uma exploração supostamente sustentável sendo praticada por moradores
tradicionais ou pelo menos radicados há algum tempo”.
“Quando a população residente faz uso racional dos recursos naturais”.
“Quando há potencial de conservação ambiental e atividades não impactantes”.
“O uso racional justifica a criação da área e se subordina ao manejo. O que importa é garantir um tipo
de uso que esteja no perfil, e nas condições para permanecer numa área de conservação”.
“A RDS poderia se prestar ao papel de parque com gente porque aí a gente resolveria o problema de
várias unidades no Amazonas, caso fosse readequada para categoria em que a população tenha um
impacto mínimo na área e se fosse supervisionada”.

Estas percepções trazem consigo a noção de que as populações que vivem da biodiversidade na
floresta tem noção de capacidade de suporte e equilíbrio ambiental.
“Aí as pessoas que vivem no interior ou entorno da unidade, elas têm a precisa noção de que isso
precisa ficar em equilíbrio”.
“A base da conservação na Amazônia é a criação de unidades de conservação, a pedido das próprias
comunidades, que enxergam nas UCs de uso sustentável uma solução para garantir acesso às terras e
aos recursos naturais.”
“Nos casos em que se tem uma população que está utilizando aqueles recursos naturais e que há risco
da área estar sendo utilizada para outro tipo de empreendimento potencialmente degradador.”

Um entrevistado apontou que a RDS é indicada para o bioma Mata Atlântica, particularmente porque
as populações residentes deste bioma praticam atividades complementares.

“Na mata atlântica as populações praticam atividades diversas, tais como turismo, artesanato,
agricultura, extrativismos pesqueiro. A RDS foi pensada para dar conta deste leque de atividades
complementares. É mais adequada para sistemas com maior complexidade social e econômica, como
ocorre na mata atlântica – várias atividades complementares, ligações complexas com o mercado.”

Outro motivo apontado para criação de uma RDS foi de atender populações tradicionais com ocupação
diferente dos seringueiros.

“Proteção de espaços e recursos de uma população mais complexa que os seringueiros”.

54
“(...) duas situações em que RDS seria interessante hoje. A primeira é essa, quando os sistemas de
vida da comunidade local são mais diversos e amplos e implicam em mais uso agrícola e outros, mas
ainda assim cabe dentro do que a gente definiu antes, dentro do objetivo que a conservação da
natureza e desenvolvimento da comunidade andam juntos e não são contraditórios”.
“Uma outra situação é onde exista essa comunidade que não seja exclusivamente extrativista,
incluindo a pesca, mas que ela tenha interesse e a visão de conservação da natureza”.

Entretanto, chama atenção o entendimento de alguns, particularmente na Amazônia, de que as RDS


são uma categoria transitória. Esta transitoriedade é atribuída à questão fundiária8 – enquanto não há
recursos para desapropriação - ou quando a população não está organizada o suficiente para
demandar um outro tipo de categoria, como por exemplo, a Resex.

“Como as RDS são unidades de conservação menos restritivas, podem ser futuramente transformadas
em unidades de conservação mais restritivas”.

“Quando a comunidade não está organizada, o governo estadual faz a mediação, e a RDS é uma
solução intermediária”.

“A RDS é uma solução importante, em função das circunstâncias, quando a comunidade não está
organizada, ou não há como fazer desapropriação.”
“Numa área grande, com muita incidência de títulos, com conflitos (fundiários, acesso a recursos) é
mais fácil criar RDS”.

As RDS são vistas, por um grande número de entrevistados, como uma categoria de manejo de
unidade de conservação para gestão estadual. Foram apontadas também como categoria de manejo
de uso múltiplo, que prevê áreas específicas para preservação permanente e o uso dos recursos
naturais, conforme zoneamento.

“Finalmente, há quem entenda que as RDS podem cumprir papel de ordenamento territorial numa
situação específica de uso múltiplo, com áreas para proteção permanente e áreas para ocupação e uso
dos recursos naturais”.
“(...) O segundo caso é quando a gente quiser uma reserva de uso múltiplo mesmo. O mosaico tem
fragilidade política, é melhor uma área gerida como unidade política.”
“(...) uma RDS tem que ter área para utilizar os recursos naturais existentes, ter a sua cultura de
subsistência, mas em pequena quantidade e ter a sua área de reserva permanente compatível, em
harmonia. “
“As RDS cabem bem num mosaico. Num macro ordenamento territorial elas cumprem seu papel. Elas
definem um certo ordenamento territorial, com áreas de uso e de conservação. É melhor do que não
criar nada. As unidades de conservação, mesmo sendo de papel sempre seguram algo num
ordenamento territorial”.

Tipo de ocupação

O entendimento unânime é que os moradores devem ser populações tradicionais, embora não haja
clareza do significado deste termo. Geralmente está relacionado a ocupações de pessoas com
histórico de uso dos recursos na área e por este motivo conhecem e respeitam a natureza. O
entendimento de todos é que as populações ocupantes não precisam ser necessariamente

8 Em relação à criação desta categoria em função da questão fundiária, ver item correspondente.
55
extrativistas. A RDS seria, portanto, uma categoria voltada para populações tradicionais não
extrativistas.

“RDS poderia ser uma alternativa para locais onde o sistema de vida das comunidades é mais diverso,
onde a pequena agricultura é mais importante.”
“Uma área em que há uma exploração supostamente sustentável sendo praticada por moradores
tradicionais ou, pelo menos, radicados há algum tempo”.
“Pode ser agricultor, pescador. Extrativista é apenas uma das possibilidades”.
“Pequeno numero de moradores (caiçaras)”.
“A proposta da RDS veio de encontro com idéia de uma categoria de manejo de uso sustentável mais
flexível, mais aberta, não atrelada à idéia de extrativismo e seringueiros”.
“(...) o modo de ocupação humana que leva à criação de uma RDS tem que ser baseado na ocorrência
de comunidades que usam vários recursos, que desenvolvam usos múltiplos, principalmente baseados
na agricultura”.
“Tem que ter usos múltiplos e ser mais baseado na agricultura do que no extrativismo, para diferenciar
da Rasex”.

De qualquer maneira, mesmo que sejam populações com outros modos de exploração dos recursos
naturais, como os pescadores, a referencia é que sejam “tradicionais”. O termo em si não justificaria a
criação de uma RDS, mas o modo de ocupação característico atribuído a este tipo de população.

“(...) um extrativismo sustentável de baixo impacto praticado por populações que tenham um mínimo
conhecimento destas práticas e tenham um histórico na região possam fazer. Caracterizar população
tradicional é muito difícil principalmente aqui na Amazônia pois existe uma grande mobilidade na região
e uma grande ocupação e miscigenação. “
“(...) Hoje em dia se formos pensar na Amazônia ou no resto do Brasil na existência de população
tradicional, aquela caracterizada, não vamos encontrar nenhuma. O que se deve considerar é o uso
sustentável e que se possa incorporar praticas mais eficazes no uso do recursos naturais, porque nem
sempre a forma que as populações fazem o extrativismo elas tem uma rentabilidade e condições
higiênicas adequada para o mercado.”
“(...) Então essas populações não têm que ser pensadas só para manter as condição de tradicional e
devem ter a capacidade de assimilar estes aperfeiçoamentos na sua forma de acessar o recursos
natural para agregar valor e oferecer um produto melhor pois estão em um sistema capitalista.”

Há quem considere que as RDS comportam ocupantes que não sejam populações tradicionais, como
por exemplo, veranistas.

“As RDS deveriam ser áreas não edificantes. Situações com mais de um tipo de ocupação, com
ocupação variada, tudo bem, quem tem que solicitar a criação da RDS são os próprios moradores.
Acho que veranista poderia continuar, por exemplo”.
“Na RDS são ribeirinhos, gente de fora da área, grandes propriedades que estavam lá. Eles podem
ficar nesta categoria de unidade de conservação”.
“Qualquer tipo de ocupação”.
“Se o estado tem uma área e quer transformar aquilo em uma RDS, e aproveitar a comunidade que
existem nas proximidades ou deslocar alguma comunidade pra lá pra usar recursos naturais”.

A ocupação está subordinada ao potencial de conservação da mesma. Num certo sentido, para alguns,
isto torna a RDS menos segura para os ocupantes, visto que estão sujeitos a serem questionados no
seu modo de ocupação caso não seja compatível com a conservação.

56
“A RDS é uma unidade para a conservação que permite a permanência das comunidades.
Teoricamente poderiam até questionar a ocupação , caso o modo de ocupação crie obstáculos para a
conservação.”

Situação ambiental
As respostas para esta pergunta contemplaram o estado ambiental da área que justificaria sua criação.
Os entrevistados interpretam que a RDS deve ser criada numa área que tenha potencial de exploração
e conservação, ou seja, numa área com grande biodiversidade, que sustente a população, tanto em
termos de diversidade de produtos quanto em relação à sua disponibilidade (o que justificaria a
necessidade de ser uma área grande).

“Principalmente a possibilidade de uso sustentável recursos da biodiversidade e com perspectivas que


essas experiências sinalizem novas abordagens em relação a conservação e a preservação da
biodiversidade. “
“Precisam estar presentes recursos naturais renováveis, que possam ser utilizados pelas populações
locais”.
“A área tem que estar conservada. Não tem justificativa para criar uma unidade de conservação numa
área degradada”.

Entretanto, alguns admitem a criação da RDS em áreas que não estejam intactas, com áreas pouco
degradadas, passiveis de serem recuperadas. Neste caso, fica nítida a priorização pelo uso dos
recursos naturais pelas populações moradores em detrimento da conservação ambiental.

. “... acho que restaurar uma área é complicado. Não pode estar num estado avançado de degradação.
Tem que estar no meio termo. A área não precisa ser necessariamente intacta”.
“Uma RDS deve ser criada num lugar com potencial de exploração e conservação. Pode também haver
recuperação de áreas”.
“Mas estar degradada não impede a criação de uma RDS, embora não deva estar totalmente
degradada”.
"Pode também ser uma área degradada com possibilidade de restauração. Não necessariamente tem
que ser uma área conservada. Pode aproveitar o potencial de regeneração em benefício da
população”.
“A IUCN discorda de reconhecer na qualidade ambiental motivo para a criação da unidade. Ela entende
que é só o objetivo da unidade é que vale. A qualidade é uma decorrência óbvia, mas ela tem que ser
monitorada em uma outra dimensão, que é o monitoramento da efetividade da gestão. Então você
pode até criar uma RDS para recuperar aquele objetivo que a RDS teria.”

Houve respostas que valorizaram a diversidade biológica. Neste sentido, considera importantes os
estudos biológicos para criação da UC:

“A necessidade de conservar (...) um bem prioritário, a questão de um recurso natural que não tenha
em nenhuma outra parte”
(...) “estar observando algum aspecto importante e específico daquela região”.
“Muitos companheiros têm dito: vamos criar uma Unidade de Conservação aqui e tal, mas não têm
uma noção de fato do que estar se querendo proteger, que área que tem que ser preservada (...) isso
vai partir muito dos estudos Biológicos”.

57
Questão fundiária :

A interpretação do § 2º do artigo 20 (lei do SNUC) é ambígua.

“Art. 20, § 2º: A Reserva de Desenvolvimento Sustentável é de domínio público, sendo que as áreas
particulares incluídas em seus limites devem ser, quando necessário, desapropriadas, de acordo com
o que dispõe a lei.”

Enquanto a maior parte dos entrevistados interpreta este parágrafo como não exigência de
desapropriação, os gestores do estado do Amapá entendem que RDS deve ser de domínio publico.

A questão fundiária é uma das motivações para criação de unidades de conservação nesta categoria,
quer seja por ser de domínio público – o que, segundo depoimento, garantiria maior segurança aos
moradores; quer seja por não necessitar de desapropriação, o que evitaria gastos para o órgão público
gestor da área.

“Domínio público. Se tiver propriedade privada, tem que indenizar”.


“GTA e CNS entendem que RDS não é para extrativistas porque não garante a terra”.
“As RDS são quase como uma APA: pode ter vários tipos de atividades sustentáveis, não desapropria,
não retira população, não precisa ser extrativista. A regulamentação é mais frouxa.
“Na Resex o poder de intervenção do estado é maior, por conta da desapropriação”
“Elas não exigem regularização fundiária, portanto não tem ônus (...)”.
“Não desapropriar significa economia para o governo”.
“Este se necessário é o problema. Afinal quem define quando é
necessário? Esta pequena abertura na questão da propriedade privada pode comprometer bastante o
uso da mesma, visto que, garante a posseiros indesejáveis ou
"grileiros" e afins as áreas "invadidas" e desonera o estado de
desapropriar a área e destiná-la ao usufruto das populações extrativistas
residentes e dá abertura a conflitos, principalmente no momento em que,
após criada a área, define-se seu zoneamento.”
“(...) não permite e não deve permitir áreas privadas no seu interior. A única situação que eu admito a
propriedade privada é no caso de propriedade coletiva, tipo quilombola. Propriedade privada individual
é inadequada aos modelos de gestão que a gente tem no país.”
“Propriedade Privada: é interessante a motivação para estimular o setor privado a desenvolver ou
apoiar atividades de uso sustentável da biodiversidade em RDSs, sob a ótica da responsabilidade
sócio-ambiental ou mesmo como medida compensatória.”

Há consenso de que a terra permanecendo particular pode ser fator de conflitos. Há o temor de que a
propriedade particular pode vir a prejudicar os moradores, pois “a tendência é que o menor trabalhe
para o maior”. Por outro lado há quem reconheça o direito de propriedade e a necessidade de ter estes
proprietários como aliados da Reserva:

“Permitindo propriedade particular não evita conflitos.”


“Você acaba criando outra situação, beneficia um grupo de pessoas como trabalhadores ribeirinhos e
para isso estamos lutando, mas você tira um outro grupo de pessoas que tem história e um bem, você
cria uma inimizade com essas pessoas (...) e a UC acaba sendo prejudicada por essa falta de
harmonia”.

58
É unânime a interpretação de que mesmo permitindo a propriedade particular, ela deve se coadunar
com os objetivos de conservação da categoria, ou seja, deve fazer uso da terra e dos recursos naturais
sem gerar impacto ambiental significativo.

“Não precisa desapropriar grandes propriedades. Apenas as que não coadunam com os objetivos de
conservação, em caso de conflitos, e aqueles que não moram e/ou vivam da terra”.
“Pode ter área privada sim. Mas estas áreas devem estar de acordo com os objetivos da reserva, sem
prejuízo da implantação da unidade de conservação”.
“Propriedades de famílias tradicionais não precisam ser desapropriadas”.

Há quem considere que não faz diferença a propriedade da terra, pois a regulação do seu uso deve ser
definida pelo plano de manejo.

“Independente da propriedade da terra, a solução está no plano de manejo, que, bem feito,
regulamenta o uso, imobiliza os grandes proprietários. No caso da Mata Atlântica tem ainda o rigor da
lei. O fato é que não faz diferença se as áreas são privadas ou publicas”
“Nas áreas costeiras as RDS são mais apropriadas, porque permite desapropriação, mas não
necessariamente”.

A interpretação de que a RDS não exige desapropriação traz consigo o entendimento de que esta
categoria deixa as populações muito vulneráveis a pressões externas, já que não detém a propriedade
da terra.

“Na RDS (os moradores) não tem segurança de continuidade, como na Resex. As comunidades
residentes da RDS estão mais vulneráveis às pressões locais, de expansão agrícola, por exemplo”.
“Não dá segurança na terra para os moradores porque não desapropria”.

Outro ponto importante, destacado por uma entrevistada, é que a concessão de uso prevista para a
população é garantida apenas para a área de uso, ao contrário da Resex, que prevê concessão de uso
de toda a área.

“Na RDS a concessão de uso não necessariamente abarca todo o território, a concessão está focada
na área de uso das populações. Desta maneira a comunidade não exerce controle sobre o território
como um todo”.
“A Resex, dá maior controle às comunidades”.

Atividades/tipo de uso

Todos entendem que um dos diferenciais da RDS é a possibilidade de diversidade de uso, para além
do extrativismo previsto pela Resex. Todos entendem que a Resex está restrita ao extrativismo.

“A RDS pode ter várias atividades para serem exploradas. Isto é uma vantagem por permitir
multiplicidade de utilização de vários recursos, tanto na área extrativista quanto na área agrícola”.
“RESEX é exclusivamente extrativista”
“RDS permite desenvolvimento de sistemas agroflorestais’”.
“Uso extrativista dos recursos naturais de várias origens (marinhos, terrestres), atividades de
artesanato aliadas á proteção dos ecossistemas onde se encontram as matérias primas – mangues,
caixeta”.

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“A RDS comporta ainda atividade de recuperação de áreas degradadas, e deveria incluir no plano de
manejo atividades de pesquisa”.
“A atividade turística se houver, tem que ser controlada”.
“Turismo convencional sim, desde que controlados os impactos, e que sejam oferecidas condições
para se fazer uma observação da natureza mais interessante”.
“(...) turismo pode ser numa parte, mas tem que ter uma grande área sem uso”.
“Uma RDS é uma unidade de conservação com abertura para compatibilizar diferentes usos
tradicionais dos recursos naturais pelas populações locais. São usos de baixo impacto”.
“A RDS não comporta atividades agropecuárias, mas sim agroflorestais, pequenas roças”.
“Atividades de pequena escala integradas em uma estratégia de múltipla utilização da natureza e com
impactos controlados. O reflorestamento em larga escala para a produção de papel, não. Nem a tal
terceirização que vai para o mesmo fim, porque o conjunto é grande, é como se fosse uma plantation
dividida em várias propriedades”.

Mas há duvidas sobre a possibilidade de exploração de algumas atividades:

“Não está definido se podem explorar minérios e recursos com valor comercial maior”
“Mineração é uma grande dúvida. Em princípio pode sim, porque todas as discussões internacionais
não fecharam a porta para mineração em categorias 5 e 6. Porque não uma mineração artesanal, um
garimpo, ou uma mineração altamente “tecnificada” ?
“Poderiam, por exemplo, ter um uso econômico da água mineral”.

O plano de manejo deve definir as atividades possíveis.

“Mas me parece que dentro de uma UC, o plano de manejo deve deixar claro quais são as atividades
que devem ser desenvolvidas, atividades que possam gerar renda, dar sustentabilidade a própria
comunidade (...) e as comunidades que estão dentro de sistema de Unidades de conservação, têm
claro o que deve ser feito, o que pode e o que não pode (...) essas são conversas que devem ser
tomadas com as comunidades e referendadas no plano de Manejo da UC.”
“Na RDS, as restrições ficam a cargo do Plano de Manejo da
área, definido posteriormente à criação, onde pode haver definição
inclusive para substituição de áreas florestadas por cultivos ou
exploração madeireira, ou ainda mineração, dando abertura para formas
descontroladas de uso de recursos e perda significativa de cobertura
florestal”.

Finalmente, há unanimidade no entendimento de que qualquer uso /ocupação da área e recursos da


RDS não deve gerar impactos significativos e deve ser sustentável. Quanto a empreendimentos, há
quem considere que as RDS permitem atividades de médio e pequeno porte, mas estas deveriam ser
realizadas pelas populações moradoras e não proprietários. Sempre com baixo impacto ambiental. Mas
há o temor de que as atividades extrapolem seus limites, principalmente pela falta de controle estatal
da unidade de conservação.

“Não aos usos com pouca capacidade de sustentabilidade”.


“O que se deve considerar é o uso sustentável e que se possa incorporar praticas mais eficazes no uso
dos recursos naturais, porque nem sempre a forma que as populações fazem o extrativismo elas têm
uma rentabilidade e condições higiênicas adequada para o mercado, porque o preço de produto cai
muito e não permite a própria sobrevivência e desenvolvimento.”

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“Se for um empreendimento da coletividade, sem muito impacto, de médio ou pequeno porte, não há
problema. Tem que ser manejado de forma adequada”.
“Tudo bem médias e grandes propriedades, desde que seja negociado o uso no processo de criação”.
“O que não poderia ter é uma porção de terra dentro de uma U.C sendo explorada pela iniciativa
privada, sendo explorada sem o controle da população que é quem tem obrigação pela guarda daquela
área”.

Há quem entenda que a RDS pode ser explorada por população não moradora, enquanto que para a
Resex é ao contrário.

“Na Resex, a área só pode ser explorada pela população moradora. Deixa em aberto sobre o uso da
área por população não moradora, o que traz insegurança para os moradores e disputa de recursos
com população de fora”.
“Permite o uso dos recursos por quem não vive no interior da RDS”.
“(...) existem algumas alternativas que podem ser destinadas à iniciativa privada como, por exemplo, o
turismo. Se você tiver um hotel lá dentro e que este hotel seja explorado por iniciativa privada e ele em
contrapartida vai gerar emprego dentro da comunidade e ele irá se responsabilizar por uma serie de
coisas que a aquela comunidade não tem condições para assumir enquanto empreendedores, porque
você tem uma legislação relativa a higiene no trabalho, contratação de pessoal, atendimento à normas
ambientais que nem sempre uma organização formada por pessoas com baixa escolaridade tem
condições, até mesmo condições de investimento.”

Demanda para criação de uma RDS

Praticamente todos entendem que a RDS não exige demanda formal para ser criada. Isto por um lado
é visto como uma facilidade, pois estaria possibilitando a criação de unidade de conservação de uso
sustentável em áreas onde a população não estivesse ainda organizada. É visto também como
vantagem no caso da necessidade de criação urgente de unidade de conservação para proteger uma
área sob ameaça.

“(...) acho que pode surgir uma demanda da comunidade, mas não necessariamente.”
“Pode ser interpretado que a RDS não implica na participação, pois pode ser decretada sem a
demanda da comunidade”.
“A diferença com a Resex é a ausência da necessidade de demanda da população para criação da
RDS”.
“A RESEX dá maior nível de autonomia para a comunidade. Quando a comunidade está organizada
ela sempre pleiteia Resex. O processo de demanda da Resex envolve a organização da comunidade, e
da RDS não necessariamente. A Resex é uma solução mais definitiva, mais segura, mais permanente,
do ponto de vista das comunidades.”

Um entrevistado analisou as reais motivações para criação de uma unidade de conservação de uso
sustentável afirmando que as mesmas são um mote para garantir acesso à terra e aos recursos
naturais de populações usuárias, muitas vezes ameaçadas de perder seu território. Afirma ainda que
nem sempre as populações têm claro o significado e objetivos de uma unidade de conservação.

“A demanda para a criação de uma reserva atende um apelo ou uma expectativa daquela população
que necessita de uma segurança ao uso da terra, (...) uma U.C de uso sustentável é uma boa
alternativa para fixar aquela população á terra e garantir os direitos mínimos de sobrevivência. (...)
muitos moradores não sabem o que significa. Eles querem porque é uma alternativa que dá uma

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segurança quanto a permanência na área, mas muitos deles não se vê dentro de uma UC quando a
expectativa é de praticar alguma exploração que eles consigam alguma condição mínima que é
exploração agrícola como criar gado, fazer roça mecanizada dentro daquela área. Mas neste momento
que estão na ameaça de perder a sua terra eles aceitam.”

Um único entrevistado considerou que para criar a RDS deve ter um pedido formal da população local,
como nas RESEX. Todos consideram que, embora não seja necessária a demanda formal, a
população local deve sempre ser consultada.

“(...) quem vai ficar dentro da RDS obviamente tem que ser consultado, clara e diretamente.”
“A concordância deve ser pré-requisito para criação de qualquer UCs”.
“Tem que haver concordância para que a reserva dê resultados”.
“Eu acho que as demandas devem partir das comunidades. Oo envolvimento do povo nessa discussão
é extremamente importante (...) porque se não houver um comprometimento das pessoas de manter os
recursos naturais de uma forma controlada e de usar esses recursos de maneira formal, mas que
possa garantir a sobrevivência do futuro, dificilmente essa Unidade vai sobreviver.”

Recém chegados

Apesar da polêmica que envolve esta questão e a relativização das respostas dos entrevistados, todos
afirmam que não dá para impedir a entrada de novas pessoas e expressaram preocupação com o
aumento populacional na RDS, bem como com a necessidade de adequação das pessoas ao contexto
da área e à comunidade, garantindo a relação de equilíbrio entre a população e o uso dos recursos
naturais. Além disso, há entendimento de que a população local é quem deve regular a entrada de
novos ocupantes.

“Pra ter a sustentabilidade é necessário um controle populacional”.


“O que precisa garantir é uma relação de equilíbrio entre os recursos naturais e a população”.

A entrada de novos ocupantes, implicitamente, é entendida como algo a ser regulado pela própria
população moradora, pelo conselho gestor, e/ou pelo plano de manejo.

“Eu acho que a população tem que ter um mecanismo próprio de regulação”
“Não dá para impedir a entrada de pessoas. Mas deveria ter pelo menos uma triagem: se a pessoa vai
trabalhar na área, se tem vocação para trabalhar com as atividades que estão sendo desenvolvidas.
Tem que evitar especuladores. Quem tem que controlar é a administração, órgão gestor, que deve
estudar a viabilidade das pessoas morarem ali, mas não dá para impedir.”
“Eu vejo que sim, desde que não cause impacto negativo àquela população que anteriormente ocupava
a região. Se a pessoa se enquadrar dentro dos critérios de acesso aos recursos naturais e que se dê
bem com a comunidade não tem porque não aceitar desde que, não passe da capacidade suporte que
o plano de manejo vai apontar. Porque a reserva é muito grande.”
“Pode ter, mas é duro definir o que são esses recentes. Se eles chegaram ontem, acho que não. Mas
quanto é recente, dois anos, cinco, três gerações”.
“Porque não? Esses ocupantes serão as futuras populações tradicionais.”

Houve um relato de que atualmente alguns ex-moradores estão retornando para a RDS de Mamirauá
em função do aumento de disponibilidade de recursos, o que potencialmente gera conflitos:

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“Ao longo de muito tempo a Amazônia foi depredada. Nossa região de Tefé foi muito explorada na
questão do pescado, da madeira e acabou esgotando os recursos naturais. Isso obrigou várias famílias
saírem para a cidade ou para outros lugares. Nos últimos 10 anos foram criadas UCs e quem ficou no
local lutou por essas unidades. E aí quando se criou as UCs, os estoques pesqueiros retornaram, as
madeiras de lei começaram a criar volume e houve fortalecimento da população enquanto organização
comunitária, isso é um trabalho de muita gente. Agora isso criou outro lado: algumas unidades de
Conservação têm recursos naturais que estão gerando renda,provocando retorno de famílias da
cidade onde há dificuldade de emprego e escassa geração de renda. Aqui o Mamirauá é exemplo
disso, Amaná também e Catuá Ipixuna é também exemplo de que as coisas estão melhorando no local
e uma vez que isso tem melhorado a qualidade de vida, as Políticas Públicas têm voltado o seu
trabalho para as comunidades ribeirinhas que estão em UC, tem olhado com mais carinho, como a
educação, saúde, saneamento básico, isso criou outra expectativa para essas pessoas que tinham
saído, então as pessoas que ficaram agora dizem: quando estava ruim você foi embora; agora que
está bom você retorna. Esse é um conflito local que as comunidades que têm que resolver“.

Gestão

Nesta questão a opinião de todos converge também, considerando que a gestão deve ser
compartilhada.

“Eu acho que a gestão da RDS tem que ser compartilhada (...) e que isso seja transparente, para que
haja um processo de discussão aberto e o encaminhamento das questões.”

Todos consideram que o Conselho Gestor é a instancia de gestão desta categoria de unidade de
conservação, e o principal instrumento de gestão é a plano de manejo. É unânime também que a
população esteja bem representada no conselho gestor. Além disso, fica claro, nos depoimentos, que a
população tem direitos e deveres a cumprir já que é o principal ator e beneficiário da gestão da área.

“A própria população é gestora, e a fiscalização é espontânea. A população é fiscal e usuária ao


mesmo tempo”.
“O conselho gestor deve elaborar e executar o plano de manejo. A Associação de moradores deve ter
papel privilegiado. A comunidade não pode ser apenas mais um no conselho gestor”.
“O órgão de gestão vai ter que ter uma atenção especial para esta comunidade”.
“Conselho Gestor tem que refletir essas duas demandas. Tem que ter uma representação muito mais
forte dessa comunidade local com essas características, e eventualmente a comunidade, tendo essa
característica de vários usos, tem que ter mais representantes, e tem que ter a representação de
ambientalistas e cientistas que são quem vai representar os interesses de conservação dessa área
maior, sem uso”.
“Conselho Gestor deve ser o principal instrumento de gestão. Com representação das comunidades,
garantida a paridade público/comunidade, eleição para presidência e diretoria e dotação orçamentária
garantida pelo setor público para funcionamento do Conselho Gestor”
“Deve seguir alguns princípios: primeiro relativo a ampla representação dos interesses da população
nas instâncias em que ocorrem as decisões, que podem ser desde uma audiência publica até o
conselho gestor”.

Há, entretanto, quem defenda que as RDS, por se constituírem em unidades de conservação que
apenas toleram comunidades em seu interior, devem ser rigidamente supervisionadas pelos órgãos
gestores.

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O plano de manejo deve contemplar os usos da área e dos recursos naturais. Além disso, é unânime o
entendimento de que a RDS deve contemplar uma área de proteção integral.

“Deve haver uma consulta popular com os moradores do interior da unidade de conservação. Deve ser
levantado o uso sustentado dos recursos naturais, no mangue, na terra. A lei não exige o envolvimento
local, mas deve ser uma alternativa. Todo mundo que será abrangido de alguma forma pela reserva
deve ser consultado”.
“Tem que fazer um plano de manejo participativo, envolvendo os principais atores: estado, comunidade
organizada, incluindo ai os veranistas e proprietários, sociedades de amigos e moradores.”
“Tem que ter um contrato com cada comunidade de uso, na hora do plano de manejo”.
“Que você tenha algumas área de uso da comunidade e algumas áreas sem uso”.
“Duas características que eu acho importante em RDS: uma comunidade que use os recursos naturais
de forma adequada. (...) O equilíbrio entre as atividades, você não ficar dependente só de um produto.
Não cabe ao órgão ambiental decidir os produtos, mas cabe a ele decidir os limites da produção. Se
essa comunidade quer ter uma estratégia de sustentabilidade econômica baseada em um produto só
ou em cinco, não cabe ao órgão ambiental julgar, cabe a ele dar os limites, e influenciando na prática
essa decisão. E o outro aspecto é o fato de você garantir que se tenha uma área grande sem uso
direto”.
“Acho que a gestão deveria ser mais direta. E por consenso do setor publico, comunidade, das
diferentes esferas. (...) planejamento para a RDS, zoneamento e plano de manejo para usar os
diferentes recursos naturais, para definir quais as possibilidades de atividades podem ser
desempenhadas na área.”

Uma colocação importante é que por abrigar populações locais, a gestão desta esta categoria de
manejo deve promover o acesso a serviços básicos, como saúde, educação e transporte. Esta
preocupação também está presente na fala dos moradores/usuários entrevistados. Como estes
serviços estão sob responsabilidade das prefeituras municipais, e as unidades de conservação sob
responsabilidade de governos estaduais e/ou federais, o que ocorre frequentemente é que a
municipalidade se retira da área e não cumpre com suas responsabilidades.

Além disso, é importante considerar que a presença de populações implica necessariamente em


negociações para atingir consensos e tomar de decisões. Os funcionários de unidades de conservação
usualmente têm pouco preparo para lidar com estas questões, necessitando, portanto, de formação
específica para este fim. Isto implica, num orçamento específico que atenda os investimentos
necessários neste sentido.

Finalmente, para que a RDS de fato cumpra com seus objetivos, que inclui a participação efetiva da
população na gestão da mesma, é imprescindível que haja um certo nível de organização dos
beneficiários. Além disso, o uso sustentável dos recursos naturais, para serem economicamente
viáveis, exigem incrementos tecnológicos e assistência técnica , que devem estar previstos no plano de
gestão destas unidades de conservação.

“Para a RDS dar certo, a população precisa ter uma organização.”


“A implantação das RDS requer mais investimento que a implantação de um Parque: precisa de gente
capacitada para gerir conflitos, é preciso uma organização social mais vigorosa (mais vigorosa que a
existente hoje); precisa de programas de desenvolvimento sustentado, investimentos em saúde,
educação, melhoria condições de vida, incorporação de técnicas mais compatíveis com a
sustentabilidade, comercialização da produção. Exige pessoal e recursos materiais”.

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7. PROPOSTAS E RECOMENDAÇÕES PARA REGULAMENTAÇÃO DA CATEGORIA RESERVA
DE DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL

Estas propostas foram apresentadas na “Oficina Diálogos sobre reserva de Desenvolvimento


Sustentável” realizada em Brasília, em fevereiro de 2006. Após contextualizar a pesquisa e os
resultados da análise dos dados dos estudos de caso das três RDS em foco, iniciou-se a discussão
sobre as propostas. Os comentários foram registrados em fleep chart durante a plenária, na tabela de
orientação da discussão (em anexo). As propostas e recomendações para regulamentação da
categoria RDS apresentadas a seguir incorporam os consensos das discussões realizadas durante a
oficina.

A Oficina teve participação de 21 pessoas: 9 de Ongs (6 WWF-Brasil; 1 ISA; 1 IEB; 1


TNC/Conservação Internacional) ; 1 do CNS; 2 de Secretarias Estaduais de Meio Ambiente (SDS/AM e
SEMA/AP); 1 de universidade (UFPA); 1 representante das RDS estudadas (Instituto de
Desenvolvimento Sustentável Mamiraua) ; 4 do MMA e 2 do IBAMA (ver lista de participantes em
anexo). A totalidade dos participantes (excetuando os consultores) concentram suas experiencias
sobre unidades de conservação na região amazônica. Por este motivo, as discussões tiveram como
referência o contexto amazônico (onde, aliás, se encontram todas as RDS existentes até o momento,
excetuando a RDS Ponta Tubarão / RN). Entretanto, em se tratando de uma categoria de manejo de
unidade de conservação pertencente ao Sistema Nacional de Unidades de Conservação (SNUC) , os
demais biomas deveriam, também, ser pano de fundo para a discussão, considerando suas
biodiversidade e sóciodiversidade especificas. Acrescente-se ainda a tendência que vem se
verificando de proposição de RDS como alternativa para solucionar as questões de ocupações
humanas em unidades de conservação de proteção integral, particularmente na Mata Atlantica (por
exemplo, há processos recentes, ainda em andamento, no Parque Estadual da Serra do Mar e Estação
Ecológica da Juréia, ambos no estado de São Paulo). Neste sentido, as propostas e diretrizes aqui
apresentadas objetivam contemplar também as diferenças da biodiversidade e da ocupação , uso e
manejo dos recursos naturais e história sócio-cultural das populações habitantes dos variados biomas
brasileiros, como cerrado, mata atlântica, campos de altitude, caatinga, pantanal, zonas consteiras, etc.

Uma discussão que permeou a Oficina foi acerca do ponto de partida para construção de uma proposta
de regulamentação para a categoria de manejo RDS. Alguns participantes consideram que o ponto de
partida deveria ser a definição de um modelo ideal do desenho desta categoria, a partir do perfil de
ocupação que se pretende contemplar com a criação de unidades de conservação nesta categoria.
Outros basearam suas contribuições nas experiências vividas em RDS já existentes.

As propostas e diretrizes para regulamentação da RDS, aqui apresentadas, têm como principal
referência o histórico da incorporação desta categoria no SNUC (ver capitulo 3): por um lado, abrigar
populações já organizadas e que praticavam manejo sustentado (o caso de Mamirauá) e por outro,
acomodar as situações freqüentes de sobreposição de unidades de conservação de proteção integral
com áreas ocupadas por populações tradicionais , particularmente as que vivem na Mata Atlântica,
praticantes de atividades econômicas complementares. Estas propostas também têm como referência
a análise dos processos de criação , gestão e implantação das três RDS estudadas, além da
interpretação da legislação vigente.

65
7.1 PROCESSO DE CRIAÇÃO

Critérios:

a) Ocorrência de populações locais, residentes na área alvo de proteção, que dependam


diretamente da exploração de espaços e recursos naturais para sua reprodução sócio-cultural, que
detenham conhecimentos sobre as características dos ecossistemas locais e que utilizem
modalidades relativamente impactantes de utilização /exploração de seus recursos.
Comentário: A lei federal 9.985/00 que institui o SNUC dispõe em seu vigésimo artigo que RDS é uma
área natural que abriga populações tradicionais, distintamente de outras categorias, como por
exemplo, Resex, para a qual o artigo dezoito da mesma lei dispõe tratar-se de área utilizada por
populações tradicionais, sem especificar se devem ser residentes ou não nos limites da unidade.
Entretanto, RDSs estaduais, como por exemplo, Iratapuru / AP, têm sido criadas para a proteção
ambiental de determinadas áreas sem que haja a ocorrência de moradores em seu interior. Por outro
lado, o mesmo artigo vinte da lei do SNUC determina que as populações residentes em uma RDS
devem ter sua existência baseada “em sistemas sustentáveis de exploração dos recursos naturais,
desenvolvidos ao longo de gerações e adaptados às condições ecológicas locais”. No entanto,
entrevistas com especialistas e responsáveis pela execução do SNUC, realizadas durante este
trabalho, revelam uma posição recorrente de que RDSs podem ser criadas para atendimento de
demandas de grupos recém chegados à região, ou até mesmo que não apresentem qualquer
familiaridade com os ecossistemas locais, contrariando a disposição legal.
Quanto à expressão “formas de manejo pouco impactantes dos recursos”, em vez de “formas de
manejo sustentável” constante na lei do SNUC, cabe destacar que nem sempre são encontradas
práticas de exploração de recursos naturais ambiental e economicamente sustentáveis utilizadas por
grupos que dependem desses recursos para sua sobrevivência e reprodução sócio-cultural. Entretanto,
em função de fatores tais como baixa densidade demográfica, utilização de práticas e meios de
produção simples e adaptados ao ambiente, ocorrência de ecossistemas em bom estado de
conservação (que permita uma oferta significativa das espécies naturais utilizadas) e existência de
traços culturais que não valorizam o excessivo acúmulo de bens e capital, são ainda encontrados
variados grupos sociais que pouco impactam o meio com suas atividades econômicas. Se essas
atividades não são sustentáveis, lato senso, podem apresentar, porém, um grande potencial de
sustentabilidade, com apoio técnico e financeiro, após a criação da unidade de conservação.
Cabe, por fim, destacar que no enunciado da condicionante acima, as populações não são adjetivadas
como tradicionais, embora a lei do SNUC utilize este termo. Ocorre que a própria legislação do SNUC
não conceitua “tradicional”, além do fato de que há variadas interpretações e posicionamentos teóricos
e políticos sobre este termo, não raro conflitantes. Dessa forma, sugere-se que a população alvo para a
criação de uma RDS apresente apenas como características: a) residência na área a ser demarcada,
b) dependência estreita da exploração de recursos naturais para sua reprodução sócio-cultural, c)
conhecimento prático sobre os ecossistemas locais, d) utilização de técnicas e práticas de exploração
do meio pouco impactantes.

b)Ocorrência, entre as populações residentes na área alvo de proteção, de atividades econômicas


não predominantemente extrativistas de recursos naturais.
Comentário: Para os casos de populações que tenham no extrativismo de recursos naturais suas
atividades predominantes no que diz respeito à geração de renda, produção de itens para consumo
local, tempo despendido e número de famílias envolvidas, está prevista na lei do SNUC a categoria
Reserva Extrativista (Resex). Embora as RDSs possam também contemplar extrativismo, o destaque a
esta atividade expresso na definição legal das Resex destina, implicitamente, às RDSs outros tipos de
usos e ocupações econômicas. Assim, a proposta é a de que as RDSs devem contemplar,

66
especialmente, populações que desenvolvam atividades econômicas, ou um consórcio de atividades
geradoras de baixos impactos ambientais, com potencial de sustentabilidade, como por exemplo,
pecuária extensiva em fundos de pastos (região nordeste) e faxinais (região sul), turismo, artesanato,
sistemas agroflorestais, pequena agricultura diversificada, aqüicultura em pequena escala. No entanto,
e inversamente, como as Resex estão historicamente identificadas com alguns movimentos sociais da
Amazônia, como, por exemplo, o Conselho Nacional dos Seringueiros (CSN), determinadas áreas com
predominância de populações extrativistas têm sido demandadas para se constituírem em RDS por
questões políticas (falta de vínculos com esses movimentos ou mesmo contraposições a eles) e até
mesmo pelo simples fato de não se localizarem na região amazônica.

c)Grau mínimo de coesão social e de práticas socioculturais coletivas que permita a efetiva
participação das comunidades nas práticas de gestão desta categoria de manejo de unidade de
conservação.
Comentário: Tem sido registrada, entre órgãos estaduais responsáveis pela execução do SNUC, a
postura de se optar pela criação de uma RDS, ao invés de Resex, em casos em que ameaças ao meio
ou a um determinado grupo ocorram em áreas onde seus residentes não apresentem qualquer forma
de organização social, formal ou informal, por pressuporem que tal requisito é exclusivo às Resex, em
função de seu histórico enquanto categoria de unidade de conservação. No entanto, a lei do SNUC
dispõe que a RDS deverá ser gerida por um Conselho Deliberativo, constituído, entre outros, por
representantes das populações tradicionais residentes na área (Artigo 20, § 4º). Além disso, o artigo
vinte e três da lei do SNUC, em seu parágrafo primeiro, determina que as populações das RDSs, assim
como das Resex, se obrigam “a participar da preservação, recuperação, defesa e manutenção da
unidade de conservação”, ações que exigem um considerável grau de organização interna. Sobre esse
aspecto, representantes de movimentos sociais, entrevistados para este trabalho, declaram que os
processos de criação de RDSs em tais situações, além de serem iniciativas das instâncias públicas ou
de ONGs ambientalistas, têm favorecido o quadro de desmobilização social de segmentos rurais, uma
vez que se sentem desonerados em incentivar ou propiciar o apoio para que as comunidades procurem
se organizar e se fazer representar com maior autonomia na defesa de seus direitos, como usualmente
ocorre no caso das Resex. No entanto, cabe ressaltar que tal posicionamento apresenta conotações
políticas de defesa dos ideais programáticos de alguns desses movimentos e traz, de forma
subjacente, a idéia de que apenas as Resex devem contemplar, ou favorecer, a ocorrência de
populações mobilizadas e organizadas. Ao contrário, tanto para Resex, quanto para RDS, os
procedimentos para sua criação e implantação devem ser permeados por ações de apoio ao
aprimoramento das formas de organização local, observando-se e respeitando-se suas
especificidades.

d)Ocorrência de áreas representativas de ecossistemas com relevância ecológica e/ou áreas com
importância simbólica para a população beneficiária, não significativamente impactados pelas
atividades historicamente desenvolvidas e com possibilidade de recuperação de parte das áreas
que se apresentem degradadas.
Comentário: Assim como também tem ocorrido para as Resex, é crescente a demanda para a criação
de RDSs em função de ameaças a grupos sociais, notadamente as advindas da expansão das
fronteiras do agro-negócio, da indústria turístico-hoteleira e da especulação imobiliária. Sem perder de
vista a dimensão de que RDSs, assim como Resex, têm também o papel de garantir a diversidade
cultural e de promover a justiça social, cabe lembrar que tais categorias de manejo constituem-se em
unidades de conservação da natureza, cujo objetivo principal é a conservação da biodiversidade,
devendo ser buscados outros instrumentos legais para se ensejar soluções para conflitos de interesse
e concorrências de uso em áreas fortemente antropizadas. Além disso, é necessário que a área

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apresente condições de equilíbrio e sustentação ecológica de forma a garantir uma disponibilidade
estável dos recursos naturais utilizados pelas famílias locais.

e)Existência de área com importância ecológica e com ocorrência de biodiversidade significativa


para preservação, com possibilidade de sua demarcação como zona de proteção integral.
Comentário: Reforçando o item anterior, distintamente do que está disposto para as demais seis
categorias de unidade de conservação de uso sustentável9, a lei do SNUC dispõe de forma explícita
sobre a necessidade de delimitação de zonas de proteção integral no interior das RDSs, a serem
previstas na elaboração de seu Plano de Manejo (Artigo 20, § 6º). A maior parte dos entrevistados
para esse trabalho concorda a respeito dessa disposição legal.

f) Realização de consultas públicas para criação de RDSs específicas para os usuários (residentes
no interior ou entorno imediato) da área a ser protegida, assim como consultas públicas mais
amplas, envolvendo todos os segmentos interessados, notadamente os órgãos públicos
responsáveis pelas estruturas e serviços sociais. Para ambos os casos as consultas públicas
devem se constituir em processos. Devem contar com levantamento de informações que
complementem os estudos preliminares, esclarecimento sobre as causas e conseqüências da
criação e implementação da reserva e estabelecimento de vias de comunicação e negociação com
os representantes de todos os segmentos envolvidos, visando sua plena compreensão sobre as
implicações (direitos e deveres) decorrentes desse processo, assim como a diminuição de conflitos
de interesses e de concorrências de usos.
Comentário: Ainda persiste no país uma parca preocupação em se democratizar as decisões sobre a
política ambiental, e alguns de seus reflexos são os procedimentos para a realização de consultas
públicas para criação de novas áreas protegidas: até mesmo os vagos procedimentos dispostos no
SNUC para a realização destas consultas (Artigo 22 da lei 9.985/00) não são plenamente utilizados e o
que se constata é que consulta pública se restringe a uma ou duas audiências formais, nas quais os
atores locais são meramente informados, em linguagem técnica, sobre a necessidade de conservação
de uma determinada área. Sua falta de reação, por não estarem suficientemente preparados para um
debate técnico, é geralmente considerada consentimento. Mesmo que estas práticas sejam mais
usualmente utilizadas para a criação de unidades de proteção integral, têm também se refletido nos
processos de criação das de uso sustentável, principalmente nos casos em que a identificação da
necessidade de proteção se dá por parte de agentes externos às comunidades locais. Dessa forma,
somente após a criação oficial da reserva é que os moradores se dão realmente conta das
responsabilidades que passam a assumir e, em muitos casos, não se mostram dispostos a participar
das formas de gestão e dos processos de elaboração dos instrumentos normativos da unidade
(zoneamento e plano de manejo). As conseqüências, já observadas, são o aparecimento de conflitos
internos, a fragilização das práticas de gestão e o comprometimento dos próprios objetivos da
categoria de manejo. Finalizando, quanto ao envolvimento dos órgãos públicos das três esferas do
poder, além de serem agentes interessados, notadamente os municipais, devem ser informados sobre
a necessidade de ações de inclusão social (acesso à saúde, saneamento, energia, coleta lixo,
educação e transporte) para a população residente da unidade de conservação, uma vez que entre os
objetivos básicos da RDS consta o de melhoria de qualidade de vida de seus moradores (§ 1º do
vigésimo artigo da lei 9.985/00).

g) Encaminhamento de manifestação por escrito com adesão de, pelo menos, a maioria simples
dos moradores maiores de idade da área do interior da futura RDS, contendo: solicitação para
criação da unidade; ciência sobre as causas e conseqüências relacionadas à criação da reserva;
9
Área de Proteção Integral, Área de Relevante Interesse Ecológico, Floresta Nacional, Reserva Extrativista,
Reserva da Fauna e Reserva Particular do Patrimônio Natural.
68
comprometimento preliminar em assumir responsabilidades e compromissos inerentes à gestão da
área.
Comentário: A maioria dos entrevistados para este trabalho concorda que as RDSs devem ser criadas
a partir de demandas expressas dos moradores / usuários da área alvo de proteção ambiental. No
entanto, a maior parte deles admite que as RDSs, via de regra, têm sido criadas por meio da
identificação, por parte de órgãos governamentais e ONGs, da necessidade da adoção de medidas de
proteção, tanto de ecossistemas, quanto de grupos sociais. Por outro lado, uma parte dos
entrevistados também admite que a criação de unidades desta categoria deve se dar por motivação
principalmente ambiental, cabendo aos moradores locais o ajustamento de seus modos de vida às
normas específicas da RDS. Ou seja, na prática, grande parte das iniciativas para criação de RDSs
não tem partido de seus virtuais beneficiários diretos, os quais, geralmente, têm consentido com a
criação da unidade a partir de informações e sugestões de agentes públicos e da sociedade
organizada, não raro urbana. Mesmo considerando o aspecto positivo dessa prestação de informações
e apoio à garantia da biodiversidade e de direitos básicos da população envolvida, a questão que se
coloca é que, geralmente, os procedimentos que são estabelecidos desde os primeiros contatos com a
população diretamente interessada até a criação da unidade, além de não permitirem a apreensão de
todos os aspectos que possibilitariam maior grau de eficiência para o alcance dos objetivos inicialmente
propostos, não possibilitam também que os virtuais beneficiários se dêem conta das causas e
conseqüências inerentes à criação de uma reserva. Esta situação, corriqueiramente observada, baseia-
se, notadamente, em três fatos: 1) A fragilidade dos procedimentos adotados para a realização de
consultas públicas, conforme mencionado no item anterior; 2) A primeira RDS criada, modelo para as
disposições legais do SNUC sobre esta categoria, foi Mamirauá / AM, produto de demandas
essencialmente ambientalistas. Inicialmente enquadrada como Estação Ecológica, foi transformada em
uma nova modalidade de unidade de conservação (RDS estadual) pelo fato de seus idealizadores se
depararem com comunidades locais fortemente mobilizadas e terem tido a sensibilidade de propor
novos arranjos políticos e legais visando a compatibilização entre conservação ambiental e
permanência / melhoria da qualidade de vida das famílias locais. No entanto, o marco para a criação de
Mamirauá é o da conservação ambiental, refletido na legislação do SNUC e reproduzido nos discursos
e práticas de grande parte dos responsáveis pela execução deste sistema legal. Assim, mesmo que
concordem que as populações locais devam ser co-responsáveis pelas demandas de criação das
unidades, objetam que o principal motivo para se transformar uma área em RDS é a sua importância
ecológica, não sendo dispensada maior atenção à prestação de informações às comunidades locais e
às negociações com os setores envolvidos. 3) A interpretação do § 2º do vigésimo artigo da lei do
SNUC sobre a possibilidade de ocorrência de propriedades privadas no interior das RDSs tem
determinado que governos estaduais estejam criando unidades dessa categoria de manejo em áreas
identificadas como ameaçadas, ocupadas por comunidades e mesmo por grandes propriedades rurais.
Ou seja, a possibilidade aberta pelo referido parágrafo determina que algumas áreas passem à
condição de unidades de conservação, no caso RDS, sem onerar os cofres públicos com
desapropriações de imóveis. Também nesses casos não tem havido o devido envolvimento das
comunidades e/ou de proprietários rurais, uma vez que a principal motivação é a rápida criação da área
protegida.
Um dos resultados de toda essa situação é a falta de garantia, após criação da reserva, de que seus
usuários estarão motivados e devidamente comprometidos com os objetivos inerentes a essa categoria
de unidade de conservação, lembrando que § 1º do artigo vigésimo terceiro da lei do SNUC determina
que as populações residentes “obrigam-se a participar da preservação, recuperação, defesa e
manutenção da unidade de conservação”.Esse quadro é ainda agravado em situações de ocorrência
de imóveis rurais de grandes dimensões, cujos proprietários não tenham sido consultados sobre a
criação da reserva ou não concordem em submeter os usos de suas terras às normas específicas do
zoneamento e do plano de manejo da RDS.

69
h) Delimitação da área, no processo de consulta pública, considerando, na zona de uso antrópico,
uma estimativa preliminar da proporção entre o número de famílias usuárias e o espaço necessário
para sua reprodução sócio cultural e melhoria da qualidade de vida, assim como para viabilização
da efetiva participação dos usuários na administração, monitoramento e fiscalização da unidade de
conservação.
Comentário: O item III, § 5º do artigo vigésimo da lei do SNUC dispõe que para as RDSs “deve ser
sempre considerado o equilíbrio dinâmico entre o tamanho da população e a conservação” e o § 1º do
artigo vigésimo terceiro desta mesma lei determina, como anteriormente mencionado, que as
populações residentes “obrigam-se a participar da preservação, recuperação, defesa e manutenção da
unidade de conservação.” Dessa forma, as dimensões de uma RDS têm que propiciar que seus
moradores possam, por um lado, manter ou melhorar sua qualidade de vida com o uso dos recursos
dos ecossistemas abarcados pelos seus limites e, por outro, dar conta das obrigações legais dispostas
neste último artigo citado. Casos como a RDS estadual de Cujubim /AM, com mais de dois milhões de
hectares reservados para pouco mais de sessenta famílias, são exemplos da desproporcionalidade
entre número de moradores e área total da unidade, que acaba por inviabilizar o cumprimento das
disposições legais do SNUC.

i) Nos casos em que as famílias residentes na área alvo de proteção apresentem as características
descritas no item 1, detenham documentos comprobatórios de sua área de ocupação, demandem
a criação de uma reserva de uso sustentável e não queiram ter suas áreas desapropriadas, deverá
prevalecer a categoria RDS, em detrimento de Resex, mesmo que as atividades tradicionalmente
desenvolvidas sejam conceituadas como predominantemente extrativistas.
Comentário: O § 2º do vigésimo artigo da lei do SNUC, que aventa a possibilidade de ocorrência de
áreas privadas no interior de RDSs foi previsto considerando-se tanto o modelo de Mamirauá, a
primeira RDS criada, que apresenta propriedades rurais em sua área, quanto a proposta de outra
categoria encaminhada por ocasião das discussões deste sistema legal, denominada Reserva
Ecológico-cultural, que previa a possibilidade de imóveis particulares no interior da área protegida,
conquanto tais imóveis fossem pertencentes a famílias residentes no local, cujas atividades
econômicas pudessem ser consideradas tradicionais e resultassem em baixo nível de impacto
ambiental, podendo se aprimorar, após a criação da unidade, para manter ou alcançar um grau de
sustentabilidade, lato senso. No entanto, esta interpretação não foi claramente exposta no teor da lei
9.985/00, fato que tem acarretado a criação de RDSs com grandes propriedades, inclusive latifúndios,
em seu interior, dada a falta de recursos orçamentários e mesmo de vontade política dos governos
estaduais para promover a desapropriação de imóveis. Como já comentado, esta situação dificulta e
pode mesmo inviabilizar a implantação e a gestão das unidades, uma vez que, via de regra, os
proprietários desses imóveis não residem na região, são alheios aos interesses das comunidades
locais, não participam do processo de consultas públicas para criação da reserva, além de não
concordarem com virtuais ingerências em seus negócios, representadas, no caso, pelas normas do
zoneamento e do plano de manejo da unidade. A RDSs estaduais de Ponta do Tubarão / RN e Cujubim
/ AM são exemplos desta situação. Apesar desse quadro, sugere-se que em casos de ocorrência de
propriedades de famílias locais que reivindiquem a proteção de sua área e desenvolvam atividades
com potencial para alcançar uma sustentabilidade ambiental, econômica e gerencial, seja criada a
RDS, por permitir, diferentemente de Resex, que parte de sua área seja de domínio privado. Para as
demais propriedades que não se encaixem nesse quadro, sugere-se que sejam feitas avaliações,
durante o processo de consulta pública, sobre a pertinência de sua inclusão na área protegida,
notadamente no que se refere à preservação ambiental e à conservação dos ecossistemas
fundamentais para a continuidade de atividades econômicas sustentáveis desenvolvidas pela

70
população local. As propostas para resolução fundiária desses casos encontram-se no item 2 do
próximo bloco (Diretrizes para Implantação e Gestão de RDS).

Os critérios relacionados acima devem ser aferidos, de forma sistemática, por estudos
preliminares à criação da RDS que considerem:

• Levantamento de informações sócio-ambientais (secundárias) disponíveis sobre a área;


• Identificação e sistematização de lacunas de conhecimento;
• Identificação, em campo, dos diversos segmentos sócio-culturais, econômicos e políticos
envolvidos com a área a ser protegida;
• Levantamento expedito, em campo, das principais características biofísicas da área;
• Identificação preliminar do estado dos ecossistemas abrangidos e avaliação da
possibilidade de recuperação de áreas degradadas;
• Identificação preliminar das áreas significativas para a manutenção ou recuperação da
diversidade biológica;
• Sistematização e análise do tipo de ocupação da área, priorizando as características sócio-
econômico-culturais das famílias residentes e o mapeamento dos locais de moradia, de
uso comum e de exploração dos recursos naturais;
• Levantamento do contingente de não moradores usuários dos recursos naturais da área;
• Levantamento da situação fundiária da área;
• Levantamento das formas e graus de organização social e produtiva;
• Levantamento das estruturas e serviços sociais à disposição das comunidades;
• Avaliação do interesse dos moradores em permanecer e conservar o local de acordo com
a legislação vigente e as normas específicas da categoria de manejo RDS;
• Avaliação preliminar sobre o potencial de sustentabilidade econômica e ambiental das
atividades de exploração de espaços e recursos naturais da área.
• Identificação de outros segmentos regionais envolvidos com a área alvo de proteção, como
por exemplo, proprietários de imóveis rurais e empreendimentos industriais;
• Identificação de eventuais concorrências de usos e de conflitos de interesses entre os
segmentos;

7.2 DIRETRIZES PARA IMPLANTAÇÃO & GESTÃO DA RDS

a) As atividades econômicas desenvolvidas em uma RDS devem, até a elaboração de seu


plano de manejo, se restringir àquelas já desenvolvidas historicamente pelas populações
locais, cabendo, entretanto, esforços para seu aprimoramento, notadamente no que diz
respeito à sustentabilidade ambiental, aumento de produtividade, agregação de valor às
mercadorias produzidas e detecção de formas mais rentáveis de comercialização da produção
e de prestação de serviços. Após os estudos que irão embasar a elaboração do plano de
manejo e o zoneamento da unidade, se surgirem indicações de novas alternativas
econômicas, estas deverão estar de acordo com a lei do SNUC e dos demais instrumentos
da legislação ambiental e deverão ser geridas diretamente pelas famílias ou organizações
locais, as quais deverão ser suas principais beneficiárias.
Comentário: A legislação do SNUC não é precisa quanto às atividades passíveis de serem
desenvolvidas nas RDSs, estando apenas disposto que é permitida e incentivada a visitação pública e
a pesquisa científica, considerando-se o equilíbrio dinâmico entre o número de habitantes e a
conservação, sendo também admitidas a exploração de componentes dos ecossistemas naturais em
regime de manejo sustentável e a substituição da cobertura vegetal por espécies cultiváveis, desde

71
que sujeitas ao zoneamento, ao plano de manejo e às limitações legais (§ 5º do artigo vigésimo da lei
9.985/00). Por outro lado, como restrições explícitas às atividades antrópicas, constam apenas a
proibição do uso de espécies localmente ameaçadas (e as práticas que possam danificar seus
habitats) e a proibição de atividades que impeçam a regeneração natural dos ecossistemas (§ 2º do
artigo vigésimo terceiro da lei 9.985/00). Como usualmente é feita uma analogia entre RDS e Resex, o
fato de que para esta última está especificamente disposto no artigo décimo oitavo da lei do SNUC que
são proibidas a criação de animais de grande porte, a mineração e a caça (amadorística e profissional),
é usualmente argumentado que tais atividades são legalmente possíveis em uma RDS. Além disso,
como não há menção, no que se refere às RDS, sobre a necessidade de implantação de planos de
manejo de rendimento sustentável para a exploração comercial de recursos madeireiros, como ocorre
para Resex, argumenta-se também que tal atividade poderia ser factível nas reservas de
desenvolvimento sustentável, mesmo porque, como acima mencionado, há autorização para
substituição da cobertura vegetal por espécies cultiváveis em seu interior. Mais recentemente, novas
atividades econômicas, como, por exemplo, a criação industrial de crustáceos também tem ensejado
discussões sobre a pertinência de sua implantação em áreas de RDS, como ocorre atualmente na RDS
estadual da Ponta do Tubarão / RN. No entanto, o § 1º do artigo vigésimo da lei 9.985/00 explicita que
uma RDS tem como objetivos básicos: a) preservar a natureza; b) assegurar condições e os meios
necessários para melhoria da qualidade de vida das populações; c) melhorar os modos de exploração
dos recursos naturais utilizados pelas populações residentes na reserva e d) valorizar, conservar e
aperfeiçoar o conhecimento e as técnicas de manejo do ambiente desenvolvido por estas populações.
Dessa forma, a diretriz acima reforça o conceito de aprimoramento das atividades já desenvolvidas
historicamente, suscitando a possibilidade de adoção de novas atividades, conquanto sustentáveis e
geridas por grupos locais, os quais devem ser seus principais beneficiários, afastando, assim, o
acometimento de grupos empresarias e a implementação de empreendimentos alheios aos interesses
e vocações das famílias locais e da conservação ambiental.

b) Nos casos de famílias residentes no interior da RDS, acordadas com sua criação e
implantação, possuírem documentos comprobatórios de dominialidade de suas áreas de
moradia e/ou exploração econômica, os órgãos competentes deverão firmar com seus
representantes termos de compromisso, de acordo com o artigo trigésimo nono do Capítulo IX
do decreto 4.340/02, como forma de garantir que as normas do plano de manejo e o
zoneamento da unidade sejam devidamente cumpridas. Nesses casos, a dominialidade
permanece privada e os prazos dos termos de compromisso para permanência dos
proprietários na área protegida devem ser acordados entre as partes interessadas, prevendo,
entretanto, tempo suficiente para que os moradores tenham garantia para planejar suas
atividades presentes e futuras. Devem também ser renovados automaticamente após sua
expiração, sempre que houver interesse das partes envolvidas, incluindo-se aí o Conselho
Gestor da unidade. Para os casos de moradores não detentores de documentos
comprobatórios de dominialidade das terras que utilizam, deverá prevalecer o artigo décimo
terceiro do decreto 4.340/02 (que regulamenta o artigo vinte e três da lei do SNUC), o qual
prevê a assinatura de contrato de concessão de uso de terras públicas e de respectivo termo
de compromisso, específico para tais situações.
Comentário: Para as situações de comprovação da dominialidade privada de terras, surge sempre a
questão sobre a supremacia legal entre direito de propriedade e direito difuso, representado, nesse
caso, pela legislação ambiental. Como forma de garantir que as normas da unidade de conservação
sejam cumpridas nos casos de ocorrência de domínio privado em RDSs, sugere-se que a utilização do
artigo trigésimo nono, Capítulo IX do decreto de regulamentação do SNUC seja considerada, embora,
originalmente, este capítulo tenha sido incluído para regulamentar questões entre populações
tradicionais e unidades de proteção integral, conforme o artigo quarenta e dois , Capítulo VII da lei

72
9.985/00. No entanto, na falta de outro dispositivo legal que contemple a situação acima exposta,
poder-se-ia utilizar o que determina a regulamentação para populações residentes em unidades de
proteção integral, considerando-se apenas a renovação automática dos prazos de permanência na
área, se houver interesse das partes.

c) Nos casos em que os resultados dos estudos técnicos e das consultas públicas indicarem a
importância de incorporação de terras privadas à área da RDS, cujos proprietários tenham
interesses diversos daqueles das comunidades locais ou que com estas apresentem conflitos,
ou ainda, que tenham interesses e formas de ocupação conflitantes com os objetivos
ambientais da RDS, caberá aos órgãos competentes a iniciativa de providenciar sua
desapropriação, ou a intervenção do Ministério Público para que com seus proprietários sejam
assinados termos de compromisso sobre os usos dos imóveis, até o momento em que forem
disponibilizados recursos para sua desapropriação. Sugere-se que tais termos de
compromisso sejam embasados pelo disposto no artigo trigésimo nono do Capítulo IX do
decreto 4.340/02, que regulamenta o SNUC, apesar de tal capítulo tratar, originalmente,
apenas de populações tradicionais em unidades de proteção integral.
Comentário: Da mesma forma como exposto no item anterior, não constam soluções legais para tais
casos na legislação do SNUC, a não ser a desapropriação das terras, solução nem sempre viável em
função da falta de recursos orçamentários governamentais. Dessa forma, sugere-se que a
regulamentação de RDSs se aproprie do disposto no artigo 39 do decreto 4.340/02, por poder
representar, de forma satisfatória, uma solução para tais situações. Como exemplo de necessidade de
inserção de áreas privadas na delimitação de uma RDS, pode ser citada Ponta do Tubarão / RN: os
estudos técnicos apontaram para a importância de incluir propriedades localizadas em campos dunares
e porções de caatinga contíguas à área costeira inicialmente delimitada em função da percepção de
que a implantação de atividades impactantes ao meio nessas propriedades, como por exemplo,
carcinocultura, poderia comprometer as reservas d’água sub-dunares e, conseqüentemente,
comprometer poços de abastecimento e as próprias atividades pesqueiras e de coleta de mariscos
desenvolvidas historicamente pelas famílias locais, além de degradar ecossistemas importantes, como
manguezal e restinga, abarcados pela reserva.

d) Formação de conselho gestor deliberativo objetivando a participação do maior número de


representantes dos moradores e usuários da RDS, além de representantes de organizações
da sociedade civil regional e de órgãos públicos competentes das três esferas de poder. Os
setores produtivos regionais e do entorno imediato da unidade, cujos interesses sejam
distintos daqueles das comunidades locais, devem criar um comitê próprio para escolha de
apenas um representante com direito a assento nesse fórum.
Comentário: Como os conselhos de RDSs têm o caráter deliberativo, é fundamental para a boa gestão
da unidade a participação do maior número possível de representantes de seus moradores, sejam eles
organizados em instâncias produtivas, sociais, etárias ou de gênero. É de se destacar que cabe ao
conselho a gestão da reserva (§ 4º do artigo vigésimo artigo da lei 9.985/00), além da aprovação de
seu plano de manejo (item II do artigo doze do decreto 4.340/02 que regulamenta o SNUC), e dessa
forma, o cumprimento dos objetivos da unidade, por meio da elaboração e implantação participativa de
suas normas específicas, só terá êxito se a gama de interesses da população residente se fizer
representar no conselho. Portanto, é incumbência, tanto das formas de associações locais, quanto dos
órgãos executores do SNUC, o apoio para que os diversos segmentos constituintes da população
residente possam se organizar, se instrumentalizar e se capacitar para defender seus interesses e os
objetivos da RDS em seus âmbitos interno e externo. Por outro lado, ocorrem situações em que o
entorno e, por vezes, o próprio interior da RDS é ocupado por imóveis ou empreendimentos produtivos
cujos usos e interesses são alheios ou mesmo concorrentes com os inerentes à população local,

73
havendo demandas para que seus representantes participem do conselho da unidade, situação
justificada em função de terem suas atividades afetadas pela ocorrência da reserva. No entanto, se
cada um dos representantes desses segmentos produtivos ou dos empreendimentos locais reivindicar
uma cadeira no conselho, suas deliberações podem passar a não atender os próprios objetivos da
unidade de conservação. Casos como esse têm sido identificados na formação de variados conselhos
de unidades de conservação10, inclusive as de uso sustentável, para as quais os conselhos têm o
caráter deliberativo. Dessa forma, sugere-se que a totalidade dos segmentos produtivos estranhos às
comunidades abrigadas pela RDS se organize e escolha entre eles apenas um representante para o
conselho, seguindo o exemplo de unidades como a RDS estadual da Ponta do Tubarão / RN e a Resex
federal de Arraial do Cabo / RJ.

e) O plano de manejo da RDS deve ser elaborado de forma participativa e se constituir em um


documento prático que permita tanto a orientação dos moradores e gestores na condução das
práticas cotidianas da unidade, quanto o planejamento, em médio e longo prazo, das
atividades de preservação e conservação ambiental e de promoção da qualidade de vida das
comunidades locais. Deve ser elaborado a partir da consulta a dados secundários, da análise
dos resultados de estudos expeditos realizados em campo sobre a realidade sócio-ambiental
e da apreensão do conhecimento acumulado pelos moradores sobre os ecossistemas e sobre
suas expressões sociais, culturais e econômicas. Este primeiro esforço de elaboração
participativa do plano pode permitir a redação de uma primeira versão formal e a identificação
de lacunas de conhecimento, assim como a indicação de ações para preenchê-las. Deve,
portanto, também ter um caráter dinâmico, sendo a ele incorporadas, periodicamente, novas
normas e recomendações a partir do desenvolvimento de pesquisas técnicas e científicas,
identificadas como prioritárias, e do monitoramento sistemático das atividades e das decisões
tomadas pelas instâncias gestoras da unidade de conservação. Dado tratar-se de uma
unidade de uso sustentável, o plano de manejo deve contemplar a elaboração de planos de
manejo de rendimento sustentável para os recursos naturais mais intensamente explorados e
a realização de planos de negócio para os principais produtos comercializados. Por fim, o
plano de manejo deve indicar uma relação de pesquisas científicas que permitam a otimização
ambiental das zonas de preservação, bem como definir um protocolo de monitoramento
contínuo da unidade.
Comentário: As reservas extrativistas, desde sua concepção na década de 80 passada, contavam com
planos de utilização dos recursos e planos de desenvolvimento, que procuravam contemplar sua
realidade sócio-ambiental e continham normas claras e práticas sobre os potenciais ou restrições de
usos dos espaços e recursos naturais. Com a publicação da lei 9.985/00 e sua posterior
regulamentação, em 2002, tais instrumentos de gestão e normatização foram suprimidos, sendo
instituída, de forma generalizada para a totalidade das categorias de unidades de conservação, a
denominação plano de manejo, conceituado na referida lei como “documento técnico mediante o qual,
com fundamento nos objetivos gerais de uma unidade de conservação, se estabelece seu zoneamento
e as normas que devem presidir o uso da área e o manejo dos recursos naturais, inclusive a
implantação das estruturas físicas necessárias à gestão da unidade.” (item XVII do segundo artigo da
lei 9.985/00). Dado a amplitude desta conceituação e o fato de que o roteiro metodológico para
elaboração do plano de manejo de RDS não foi estabelecido pelos órgãos executores do SNUC,
conforme previsto no decreto 4.340/02, observa-se uma tendência por parte desses órgãos,
notadamente os estaduais, de tratar o plano de manejo, após a legislação do SNUC, nos moldes
recorrentemente utilizados para as unidades de proteção integral, sem considerar as especificidades
das unidades de uso sustentável. Ou seja, tem havido uma forte preocupação com a realização de
10
Sales, R. R. – Projeto de Consultoria ao IBAMA para Avaliação das Formas de Gestão de Unidades de
Conservação Federais, 2004.
74
pesquisas científicas da área biofísica com prazos bastante dilatados para sua execução; não tem sido
dada a oportunidade para que os conhecimentos das comunidades locais possam compor o conjunto
de informações básicas para a elaboração do documento; não tem sido considerado o processo de seu
contínuo aprimoramento e não tem havido a preocupação em se contemplar estratégias para o
desenvolvimento sustentável das famílias locais.

f) O zoneamento das unidades da categoria RDS deve ser elaborado de forma participativa e
contemplar zonas de proteção integral, de uso sustentável e de amortecimento e, quando
couber, corredores ecológicos (§ 6° do vigésimo artigo da lei do SNUC). Para tanto, devem
ser consideradas as informações sobre a dinâmica de utilização econômica e cultural dos
espaços e recursos naturais da área, dinâmica territorial da população (deslocamentos,
mobilidade espacial dos assentamentos), definição do número, densidade e distribuição dos
assentamentos, assim como os resultados dos estudos de levantamento de estoques e de
comportamento biológico e ecológico das espécies mais fortemente exploradas, realizados
para a formulação dos planos de manejo de rendimento sustentável destas espécies (os quais
devem se constituir em subprodutos do plano de manejo geral da unidade). Da mesma forma,
devem ser consideradas as pesquisas e informações dos moradores sobre áreas significativas
para a conservação da biodiversidade e de ocorrência de espécies nativas importantes ou
ameaçadas, a fim de se delimitar as áreas de preservação total e de se definir eventuais
defesos, temporais ou espaciais. Para as zonas de uso sustentável sugere-se sua divisão em:
áreas de moradias, equipamentos sociais e expansão urbana; áreas de usos culturais
comuns; áreas de ocupações predominantemente agrícolas e pecuárias; áreas de usos
predominantemente extrativistas; áreas de pesca e de coleta e criação de recursos aquáticos;
áreas com potencial para visitação turística.
Comentário: Como já mencionado neste documento, entre as unidades de uso sustentável
previstas no SNUC, a única para a qual está explicitamente disposto que deverá contar com uma
zona de proteção integral é a RDS. Desta forma, a identificação da área, sua delimitação, o plano
de manejo e, principalmente seu zoneamento, têm que atentar para essa disposição legal. Por
outro lado, a sugestão acima de subdivisão das zonas de uso sustentável considera as
especificidades de cada uma delas, facilita a elaboração das normas para o plano de manejo, seu
entendimento e, conseqüentemente, sua aplicação. Ainda no que se refere às estas zonas, o
processo de elaboração do plano de manejo deverá contemplar a discussão e a definição das
normas regulatórias de acesso às áreas de uso dos recursos naturais pela população local e do
entorno, bem como as normas para a entrada de novos ocupantes.

g) Os órgãos das três esferas do poder responsáveis pela execução do SNUC devem prever
recursos orçamentários para ações de apoio à organização social e produtiva das
comunidades residentes nas RDSs. Tais ações devem privilegiar o aprimoramento das
práticas e formas de atuação das organizações já existentes e facilitar a criação de
associações, cooperativas, etc. sempre que para isso haja consenso entre os usuários da
reserva. Os órgãos devem também apoiar a formação do conselho deliberativo da RDS,
propiciando a plena compreensão dos segmentos locais sobre esse fórum, a realização de
reuniões preparatórias, a elaboração e distribuição de material divulgativo e a disponibilização
de veículos e estruturas necessárias para visitas às localidades envolvidas, inclusive aquelas
de mais difícil acesso. Criado o conselho, os órgãos executores do SNUC deverão
responsabilizar-se pela capacitação específica de seus membros e disponibilizar estruturas e
meios necessários para seu funcionamento regular. Da mesma forma, os órgãos responsáveis
pelas RDSs devem servir como facilitadores na busca de financiamentos para aprimoramento
das atividades econômicas desenvolvidas, bem como nas negociações dos conselhos

75
deliberativos com outras instâncias públicas, das três esferas do poder, para intentar prover as
comunidades de equipamentos e serviços sociais importantes para a promoção da qualidade
de vida local.
Comentário: As unidades de conservação de uso sustentável demandam mais esforços e recursos
para sua implantação do que as de proteção integral, dado que, além de protegerem áreas
representativas de ecossistemas e a biodiversidade, envolvem populações humanas, cuja
qualidade de vida deve ser assegurada e incrementada após a criação da unidade, conforme a
legislação do SNUC. Atualmente o que se nota é a crítica ausência de recursos e de pessoal
capacitado para atendimento das demandas das unidades de conservação de uso sustentável, o
que pode determinar o próprio comprometimento do conceito desta categoria de manejo. Após a
criação da reserva, pouco tem sido realizado para promover o desenvolvimento em bases
sustentáveis, a capacitação dos moradores para a gestão compartilhada e a proteção da área
contra agressões ambientais. Tal quadro, por sua vez, tem suscitado a reação de grupos
ambientalistas que ensejam denunciar a ineficácia das RDSs e Resex enquanto instrumentos de
conservação ambiental, e mesmo de desenvolvimento humano, sem procurar entender que os
resultados observados são decorrência, em grande parte, do abandono a que estas áreas têm
sido relegadas.

h) A fiscalização e o monitoramento das RDS devem ser de responsabilidade compartilhada


entre os órgãos administradores e as comunidades locais, representadas pelo seu conselho
gestor. Sugere-se que este fórum seja co-responsável pela definição dos protocolos de
monitoramento e fiscalização da unidade, respeitando-se suas especificidades, bem como
seja responsável pela nomeação e administração do contingente de moradores voluntários
envolvidos com estas atividades. Sugere-se também que a vigilância das zonas de usos
sustentável seja de responsabilidade dos moradores e de agentes dos órgãos públicos,
recaindo nesses últimos a exclusividade nas tarefas de fiscalização das zonas de
preservação total.
Comentário: Considerando-se que o artigo vinte e três da lei do SNUC, em seu parágrafo primeiro,
determina que as populações das RDSs, assim como das Resex, se obrigam “a participar da
preservação, recuperação, defesa e manutenção da unidade de conservação” e considerando-se que o
artigo vinte da mesma lei, em seu parágrafo quarto dispõe que a Reserva de Desenvolvimento
Sustentável será gerida por um conselho deliberativo, formado, entre outros, por representantes da
população residente na área protegida, sugere-se que esse colegiado seja formalmente co-responsável
pelas funções de fiscalização e monitoramento da unidade. As zonas de preservação total, dado
tratarem-se de áreas protegidas para a conservação da biodiversidade, representam um interesse da
sociedade como um todo, cabendo aos órgãos públicos zelar pela sua integridade. No mais, as
ameaças a essas zonas devem, teoricamente, partir de atores externos à reserva, demandando a
atuação de agentes treinados para a minimização de impactos e conflitos.

Para cumprimento das diretrizes relacionadas acima é recomendável que a decisão para criação
e implantação de uma unidade de conservação na categoria RDS considere:

- Gestores públicos com bom senso e perseverança para gerir conflitos, capacitados para estabelecer
canais de comunicação, realizar negociações em busca de consensos e tratar com populações locais;

- Articulação e coordenação entre os atores envolvidos na gestão da unidade;

76
- Horizonte de longo prazo para planejamento das ações de implantação, considerando que o processo
de participação comunitária é longo, assim como o processo de formação da equipe de trabalho para
gestão da unidade de conservação.

- Possibilidade de compensações ou subsídios para a população moradora pelos serviços ambientais


prestados, considerando o interesse da sociedade como um todo na conservação da área e a
contribuição da comunidade para este fim.

77
8. BIBLIOGRAFIA CONSULTADA

Allegretti M. H., 1994.- “Reservas Extrativistas: parâmetros para uma política de desenvolvimentos
sustentável na Amazônia” In ARNT R., O Destino da Floresta: reservas extrativistas e desenvolvimento
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2003, Belém. Anais eletrônicos... Belém: Instituto Universitário de Pesquisa .

Arnt R., 1994.- “O Destino da Floresta: reservas extrativistas e desenvolvimento sustentável na


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82
WWF - BRASIL
CPS 715.2004

RESERVA DE DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL


RDS

ANÁLISE DA CATEGORIA DE MANEJO E PROPOSTA DE


REGULAMENTAÇÃO

VERSÃO RESUMIDA

CONSULTORES
Lucila Pinsard Vianna
Renato Rivaben de Sales

COLABORADORES
Henrique Gomes – RDS Iratapuru (AP)
Raimundo Marinho – RDS Mamirauá (AM)
Thelma Dias – RDS Ponta do Tubarão (RN)

Brasília, Abril de 2006

83
1. APRESENTAÇÃO

A Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) é uma das categorias de Unidade de Conservação criada
pelo Sistema Nacional de Unidades de Conservação da Natureza (SNUC), Lei Federal nº 9.985, de 18 de julho
de 2000.

A categoria de manejo é definida como uma área natural que abriga populações tradicionais, cuja existência
baseia-se em sistemas sustentáveis de exploração dos recursos naturais, desenvolvidos ao longo de gerações e
adaptados às condições ecológicas locais e que desempenham um papel fundamental na proteção da natureza
e na manutenção da diversidade biológica.

Estas UCs têm por objetivo básico, conforme o Art. 20, parágrafo 1 da Lei 9.985 (SNUC) “preservar a natureza e
ao mesmo tempo, assegurar as condições e os meios necessários para a reprodução e a melhoria dos modos e
da qualidade de vida e exploração dos recursos naturais das populações tradicionais, bem como valorizar,
conservar e aperfeiçoar o conhecimento e as técnicas de manejo do ambiente , desenvolvido por estas
populações”.

Ainda segundo a Lei do SNUC, a Reserva de Desenvolvimento Sustentável é de domínio público, devendo as
áreas particulares incluídas em seus limites serem desapropriadas, quando necessário. A posse e os usos das
áreas ocupadas pelas populações tradicionais deveriam, segundo o Art. 23 da referida lei, ser regulados por
contrato, o qual, por sua vez, deveria ser regulamentado em ato normativo posterior.

No entanto, a regulamentação específica da Lei do SNUC, promulgada por meio do Decreto nº 4.340, de 22 de
agosto de 2002, além de não tratar da regulação da posse e usos das áreas das reservas de uso sustentável
(RDS e Reservas Extrativistas), não dispôs sobre a regulamentação específica de qualquer outra categoria de
manejo, fazendo com que importantes aspectos jurídicos e sócio-ambientais referentes às unidades de
conservação ficassem a descoberto, notadamente as de uso sustentável.

No caso particular de RDS, as indefinições decorrentes desta situação têm determinado que variados órgãos
executores do SNUC apresentem diversas interpretações sobre esta categoria, resultando em diferentes práticas
no que se refere aos processos de criação, implantação e gestão destas unidades de conservação. No mais, a
falta de regulamentação específica tem acarretado também em conflitos de interesses entre populações locais,
proprietários rurais e empresários que passaram a conviver em áreas sob as normas de um regime legal
específico, passível de variadas interpretações jurídicas.

Neste contexto, e considerando também que vários estados da Federação têm criado novas RDS,
principalmente em áreas onde ocorrem propriedades privadas, como forma de não onerar seus orçamentos com
desapropriações de terras, torna-se urgente e necessária a proposição de princípios e diretrizes legais que
subsidiem a regulamentação dessa categoria de manejo, inclusive para que seu conceito e objetivos não sejam
desgastados em função de interpretações e aplicações equivocadas.
Entre os pontos que merecem maior atenção em uma futura regulamentação podem ser citados, a título de
exemplo:
- As condições socioambientais mais adequadas e pertinentes à criação de uma RDS;
- O papel das comunidades locais na criação, implementação e gestão das RDS;
- A conveniência de se proceder à desapropriação total da área;
- Os procedimentos para a legitimação da posse e dos usos da terra por seus moradores;
- A distinção entre as características de RDS e Reserva Extrativista;
- A definição dos usos e atividades econômicas pertinentes às áreas das RDS, enquanto áreas destinadas à
conservação ambiental e ao desenvolvimento das poulações humanas locais em bases sustentáveis.

Como forma de propor maiores esclarecimentos sobre esses pontos, ensejando a formulação de um documento
que subsidie o Ministério do Meio Ambiente e demais órgãos executores do SNUC no processo de
regulamentação da categoria RDS, a equipe responsável pelo presente trabalho realizou consultas a diplomas
legais e documentos pertinentes e procurou entrevistar o maior número possível de técnicos e representantes de
84
entidades com atuações relacionadas ao SNUC. Além disso, foram contemplados três estudos de caso que
subsidiassem as análises: as RDS amazônicas de Mamirauá (AM) e Rio Iratapuru (AP) e a RDS costeira da
Ponta do Tubarão (RN).

2. ASPECTOS METODOLÓGICOS

2.1 Revisão Bibliográfica

Para o cumprimento dessa atividade foram elencados e consultados documentos produzidos a partir de
pesquisas, estudos e pareceres realizados nas três reservas escolhidas para os estudos de caso, documentos
oficiais sobre sua criação e implementação, assim como documentos relacionados ao Sistema Nacional de
Unidades de Conservação da Natureza (SNUC). A leitura desses documentos permitiu a sistematização do
conhecimento sobre o histórico e situação atual de cada reserva, além da detecção de lacunas de informações,
que foram satisfatoriamente preenchidas no decorrer desse trabalho, por meio de entrevistas realizadas com
diversos atores envolvidos com a execução do SNUC.

2.2 Realização de entrevistas com técnicos e autoridades envolvidos com a elaboração e execução do
SNUC

O objetivo dessa atividade consistiu na obtenção de informações sobre as RDS a partir de entrevistas com
representantes de órgãos públicos e organizações sociais, além de especialistas no assunto. Pretendeu-se
também com a atividade a apreensão de opiniões, entendimento e grau de conhecimento que os entrevistados
detém sobre essa categoria de unidade de conservação.

As entrevistas, dez no total, foram direcionadas por roteiros de questões específicos, previamente elaborados,
os quais passaram por um processo de aprimoramento a partir de sua aplicação em entrevistas realizadas em
novembro de 2004, durante um evento em Manaus (I Conferência das Populações Tradicionais).

2.3 - Realização de entrevistas com autoridades, técnicos e representantes da sociedade vinculados


diretamente às RDS de Mamirauá, Iratapuru e Ponta do Tubarão.

A consulta bibliográfica e as primeiras entrevistas com representantes de instituições públicas e civis tiveram por
finalidade subsidiar a elaboração de roteiros de pesquisas de campo que direcionaram entrevistas para a
obtenção de informações mais precisas sobre as causas e conseqüências de transformação de uma
determinada área em RDS. O público alvo dessa pesquisa expedita, que totalizou quarenta e duas entrevistas,
foi composto por moradores das reservas, proprietários de imóveis em seu interior, moradores do entorno,
autoridades locais e representantes de órgãos gestores das unidades.

Para cada uma das três reservas foram realizadas entrevistas com pelo menos um representante dos seguintes
segmentos:
• Moradores da unidade que tenham participado ativamente de sua criação e/ou façam parte atualmente
de uma organização que represente os interesses das comunidades locais.
• Moradores que não tenham se envolvido diretamente com a criação da reserva e que não estejam
acompanhando diretamente as atividades para sua gestão.
• Proprietários de imóvel do interior da RDS, cujas atividades e interesses não necessariamente se
coadunem com os objetivos da unidade.
• Moradores do entorno imediato da RDS.
• Responsáveis pela gestão da reserva.
• ONGs envolvidas com as reservas.
• Autoridades municipais locais.

As informações locais foram obtidas a partir do trabalho de colaboradores contratados tanto para a realização de
entrevistas, quanto para a sistematização de bibliografia e o repasse de suas experiências com as reservas.

85
Foram contratados os seguintes agentes locais:

Raimundo Marinho – técnico de Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá (RDS Mamirauá).


Thelma Dias – doutoranda, pesquisadora e professora da Universidade Federal da Paraíba (RDS Ponta do
Tubarão).
Henrique Gomes – técnico da ONG Ollos (RDS Iratapuru)

2.4 – Análise dos documentos disponíveis e dos dados das entrevistas de campo

Foram realizadas análises do material bibliográfico técnico (teses, artigos, pareceres, etc.) e da relação de
documentos oficiais pertinentes a cada reserva (instrumentos legais para criação das unidades, processos de
consultas públicas, planos de manejo, regimento de conselhos ou outras instâncias gestoras, projetos em
andamento e propostos, etc.). Da mesma forma, as informações prestadas pelos pesquisadores locais e dados
dos questionários aplicados nas entrevistas foram analisados, sendo principalmente enfocados os seguintes
aspectos: razões e critérios para a escolha dessa categoria de unidades de conservação, pertinência ambiental
e sócio-econômica para a criação das reservas, envolvimento dos segmentos interessados em sua criação e
gestão e grau de observância da lei do SNUC.

2.7 – Redação de relatórios e realização de oficina

A redação de um relatório preliminar teve como principal função a sistematização das análises, tanto dos
documentos legais, técnicos e científicos, quanto das informações colhidas em campo, classificando-as por
reserva e grupo de interesses dos entrevistados. Teve também como função a elaboração de sugestões de
diretrizes para a regulamentação dos processos de criação e gestão das Reservas de Desenvolvimento
Sustentável, para que fossem submetidas à avaliação dos participantes de uma oficina técnica, promovida pelo
WWF-Brasil e realizada em Brasília no mês de fevereiro de 2006. As críticas e contribuições às análises
realizadas e às sugestões formuladas para regulamentação dos processos de criação e gestão das RDS foram
debatidas durante a oficina e inseridas no relatório final deste trabalho de consultoria, o qual apresenta em seu
escopo os seguintes aspectos:
• Análise do SNUC no que se refere às unidades de conservação de uso sustentável, em especial as
RDS;
• Avaliação da postura e entendimento dos órgãos públicos competentes sobre essa categoria de
unidade de conservação;
• Avaliação da postura e entendimento de representantes de organizações da sociedade civil sobre as
RDS;
• Análise dos históricos de criação das três RDS, considerando-se depoimentos de técnicos e
pesquisadores, moradores e autoridades locais, representantes de ONGs e dos órgãos gestores;
• Análise das formas de gestão das três RDS e do envolvimento dos moradores locais com os assuntos
das unidades, considerando-se depoimentos de técnicos e pesquisadores, moradores e autoridades
locais, representantes de ONGs e dos órgãos gestores;
• Proposição de critérios e diretrizes para a criação de RDS;

3. PRINCIPAIS CARACTERÍSTICAS DAS RDS ESTUDADAS

3.1 RDS Mamirauá (AM)

DADOS GERAIS:

• Data de criação: Lei estadual Número 2.411, de 16 de julho de 1996;


• Inicio de implantação: 1991: Projeto Mamirauá. A sociedade civil Mamirauá foi criada em 1992;
• Responsável: Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá - IDSM, criado em 1999

86
• Atos normativos: lei estadual Número 2.411, de 16 de julho de 1996 (criação da RDS Mamirauá);
decreto estadual 12.386 de 09 março de 1990 (criação da Estação Ecológica Mamirauá);
• Área: 1.124.000 ha (1990).
• População: 6.642 pessoas (4831 no entorno /1811 no interior)
• Características da população: ribeirinhos, pequenos agricultores, extrativistas, pescadores, prestadores
de serviço,
• Localização: Situada a 600 quilômetros a oeste de Manaus, na confluência dos rios Solimões, Japurá e
Auati-Paraná, tendo a cidade de Tefé com principal referência urbana.
• Fontes principais de orçamento: Gov. Brasileiro; Cooperação . Internacional (Grã-Bretanha); IPAAM;
ONG’s Internacionais (WCS, EU); PRÓ-MANEJO.
• Numero de funcionários da UC: 137 funcionários (IDSM)

HISTÓRICO

• Identificação da necessidade de proteção da área por pesquisadores ambientalistas;


• Decreto de criação da ESEC estadual Mamirauá- 12.836/90;
• Transformação da UC em nova categoria (RDS estadual) – demanda dos pesquisadores;
• Justificativa para transformação da área em RDS: viabilização e legalização da permanência da
população; participação da comunidade local na gestão e proteção de grandes áreas de floresta;

CARACTERISTICAS PRÉ-EXISTENTES:

• Área de ocorrência de biodiversidade significativa/ espécies ameaçadas em extinção;


• Envolvimento direto de pesquisadores
• Disponibilidade de financiamentos;
• População organizada;
• Acordos sociais de manejo dos recursos naturais

OBJETIVOS DA RDS:

• Preservação do patrimônio natural, pesquisa sobre biodiversidade, combate à pobreza.

SITUAÇÃO ATUAL:

• Plano de manejo (1996) em revisão;


• Gestão participativa – modelo informal
• Comunidades organizadas em setores
• Deliberações em assembléia gerais
• Adaptação ao SNUC - Conselho gestor em fase de implantação –FNMA;
• Envolvimento comunidades do interior (52) e do entorno (93)
• Desenvolvimento de processos de Educação Ambiental

IMPACTOS DECORRENTES DA RDS:

• Maior eficácia na proteção da biodiversidade – zoneamento participativo


• Melhoria da qualidade de vida das populações locais
• Aumento do número de acordos sociais de manejo dos recursos naturais
• Incremento das formas de organização social - regulação dos usos dos RN
• Maior conscientização da comunidade sobre cidadania e aspectos ambientais

87
PONTOS CARACTERÍSTICOS:

• Conquistas e resultados muito dependentes de financiamentos contínuos e significativos


• Conflitos fundiários pontuais entre locais, proprietários de terras e áreas indígenas
• Ocorrência de domínio público e privado
• Administração efetiva pela sociedade civil (IDSM)

3.2 RDS da Ponta do Tubarão (RN)

DADOS GERAIS:

• Data de criação: 18 de julho de 2003.


• Início de implantação: 11 de dezembro de 2003, com a constituição e tomada de posse do Conselho
Gestor.
• Responsável: IDEMA - Instituto de Desenvolvimento Econômico e Meio Ambiente do Rio Grande do
Norte (vinculado à Secretaria Estadual de Planejamento)
• Ato normativo da RDS: Lei Estadual No. 8.349 / 2003
• Área: 12.960 hectares ou 129,6 km2
• População: 10.000 pessoas
• Características da população: pescadores artesanais, marisqueiras, pequenos agricultores e
prestadores de serviço;
• Localização: Norte da Região Costeira do Estado do Rio Grande do Norte, abrangendo os municípios
de Macau e Guamaré;
• Fontes Principais de Orçamento: não há recursos específicos;
• Numero de funcionários: 2 (IDEMA).

HISTÓRICO

• Ameaça de perda de território nas comunidades de Diogo Lopes e Barreiras em função de projeto de
implantação de pólo turístico (1995)
• Degradação do mangue e ameaça a ecossistemas utilizados e ocupados pela população em função de
projetos de implantação de carcinicultura (2000)
• Mobilização da comunidade – proposta de criação de uma unidade de conservação
• Definição pela categoria RDS federal – demanda da comunidade, após longo processo de acesso a
informações, discussão e consultas públicas
• Justificativas para criação da RDS: importância da conservação dos recursos naturais para
continuidade das atividades das comunidades; permanência das famílias locais em suas áreas
tradicionais
• Criação da RDS estadual em função do não atendimento pelo IBAMA (2003);
• Área original expandida em função de argumentação técnica e científica (IDEMA).

CARACTERISTICAS PRÉ-EXISTENTES:

• Alta produtividade haliêutica;


• Um dos principais pólos de pesca artesanal do NE
• Ocorrência de espécies ameaçadas de extinção
• Bom estado de conservação de diversos ecossistemas (caatinga, duna, restinga, mangue, praias, mar)
• Ameaça eminente à qualidade de vida das comunidades e à conservação ambiental
• Mobilização social significativa (por volta de 20 associações, realização de encontros ecológicos
anuais).

88
OBJETIVO DA RDS:

• Conservar parcelas de variados ecossistemas da região nordeste, assegurando a permanência e a


qualidade de vida das famílias locais, bem como a garantia de reprodução de suas características
culturais.

SITUAÇÃO ATUAL:

• Conselho gestor (2004) – formação de GT para discussão do plano de manejo (em andamento);
• Gestão participativa – cerca de 20 associações de moradores;
• Não está demarcada;
• Comunidades do interior (9);
• Envolvimento gradual das comunidades (interior e entorno) ausentes no processo de criação;
• Sob ameaça de implementação de fazendas de carcinicultura;
• Desenvolvimento de processos de Educação Ambiental.

IMPACTOS DECORRENTES DA RDS:

• Aumento do número de organizações formais da sociedade


• Maior capacidade de mobilização social
• Diminuição da pressão por agentes externos - maior eficácia de proteção da biodiversidade
• Proposição de novas alternativas econômicas para os moradores
• Maior conscientização da comunidade sobre cidadania e aspectos ambientais

PONTOS CARACTERÍSTICOS:

• Falta de participação de todas as comunidades no processo de criação da UC


• Forte participação de organizações, mas baixa capilaridade dos assuntos de gestão entre moradores
• Continuidade da insegurança em relação às ameaças dos agentes produtivos externos
• Forte influência de empresa estatal, potencialmente impactante na gestão da RDS
• Indefinição da situação fundiária da área – falta de comprometimento dos virtuais proprietários com a
gestão da RDS e parca participação do órgão gestor para resolução do problema
• Única RDS que protege mais do que um bioma
• Única RDS que protege o bioma Caatinga
• Única RDS não localizada na Amazônia

3.3 RDS Iratapuru

DADOS GERAIS:

• Data de criação: 11 de dezembro de 1997


• Responsável: Secretaria do Meio Ambiente do Estado do Amapá.
• Atos normativos da RDS: Lei estadual nº 0392 de 11 de dezembro de 1997 (criação da RDS); decreto
estadual nº 1777 de 09 de julho de 1999 (dispõe sobre a criação do Conselho Consultivo da Reserva de
Desenvolvimento Sustentável do Rio Iratapuru).
• Área: 806.184 ha
• População: não há população residente; 6 comunidade no entorno / 150 famílias (2001);
• Característica da população: extrativista (castanha e produtos florestais);
• Localização: Municípios de Laranjal do Jarí, Mazagão, Pedra Branca do Amaparí, na região sul do
estado do Amapá.

89
• Fontes principais de recursos: Governo do Estado do Amapá (Secretaria do Meio Ambiente, Secretaria
de Ciência e Tecnologia, Secretaria de Turismo, Secretaria de Educação) Natura, FFEM, WWF Brasil,
Conservation International, Fundação Orsa
• Número de funcionários da UC: não há funcionários do governo na reserva

HISTÓRICO

• Iniciativa do Governo Estadual – fortalecimento da organização dos modos de produção – criação de


cooperativa (COMARU) em 1995
• Demanda da COMARU para criação de UC de uso sustentável
• Processo de consulta às comunidades locais
• Realocação de famílias do interior da reserva
• Aceitação das comunidades locais do entorno e prefeitura de Laranjal do Jari para criação da RDS
• Criação de RDS estadual.
• Justificativa: compatibilidade com o objetivo do Programa de Desenvolvimento Sustentável do governo
do Amapá (PDSA)

CARACTERISTICAS PRÉ-EXISTENTES:

• Região prioritária para o governo do estado em função de ameaças, segundo ZEE;


• Implantação do PDSA voltado para organização e fortalecimento dos meios de produção;
• Interesse específico da comunidade usuária dos castanhais – organização em cooperativa;
• Ocorrência de diversas espécies florestais com valor comercial;
• Importância da proteção de florestas de terra firme;
• Área sem ocupação e devoluta;

OBJETIVO DA RDS:

• Promover a conservação e o uso sustentável da biodiversidade

SITUAÇÃO ATUAL:

• Não há plano de manejo


• Plano de manejo de uso sustentável de recursos naturais em elaboração
• Não há conselho gestor
• Parcialmente demarcada
• 5 comunidades no entorno que demandam participação nos benefícios da RDS
• Comunidade de São Francisco do Iratapuru como guardiã, usuária e beneficiária da RDS
• Comunidades assentadas em área de empresa privada
• Uso de 5% da área da RDS para extrativismo
• Presença de diversos parceiros e investimentos de diferentes fontes nacionais e internacionais
• Iniciativas de parceiros desarticuladas
• COMARU – única organização formal da população local.

IMPACTOS DECORRENTES DA RDS:

• Aporte de financiamentos de projetos para comunidade de São Francisco do Iratapuru;


• Fortalecimento da COMARU;
• Agregação de valor por meio do beneficiamento da castanha;
• Alternativas de exploração comercial de novos produtos florestais;
• Contrato de acesso a recursos genéticos com empresa de cosméticos;
• Diminuição da pressão de agentes externos - maior eficácia de proteção da biodiversidade;
90
• Maior conscientização da comunidade sobre cidadania e aspectos ambientais;
• Melhoria da qualidade de vida dos cooperados.

PONTOS CARACTERÍSTICOS:

Conquistas e resultados muito dependentes de financiamentos contínuos significativos


Domínio público
Sem população residente – realocamento forçado de famílias do interior e incongruência com decreto de criação,
que dispõe que os moradores são principais responsáveis pela gestão
Cooperativa é a única interlocutora junto aos órgãos gestores e agentes externos
Demanda de 5 comunidades do entorno pelos benefícios da RDS
Única UC no Amapá protegendo floresta de terra firme
RDS com características da categoria Resex – predominância de extrativismo, domínio publico, sem moradores.

4. INTERPRETAÇÕES E POLÊMICAS SOBRE RDS

Constam nesse item os principais pontos de divergência sobre RDS expressados pelos entrevistados e pelos
participantes da oficina técnica sobre esta categoria do SNUC. Tais divergências se devem principalmente à falta
de regulamentação específica da categoria e à falta de maior clareza das correspondentes disposições legais
vigentes (Lei 9.985/00 e Decreto 4.340/02).
Entre os pontos que permitem diferentes interpretações, como anteriormente mencionado, podem ser
detectados:
- As condições sócio-ambientais mais adequadas e pertinentes à criação de uma RDS;
- O papel das comunidades locais na criação, implementação e gestão das RDS;
- A conveniência de se proceder à desapropriação total da área;
- Os procedimentos para a legitimação da posse e dos usos da terra por seus moradores;
- A definição dos usos e atividades econômicas pertinentes às áreas das RDS, enquanto áreas destinadas à
conservação ambiental e ao desenvolvimento das poulações humanas locais em bases sustentáveis.
- A distinção entre as características de RDS e Reserva Extrativista.

Este último ponto, as diferenças entre as reservas de uso sustentável, pode ser considerado dos mais polêmicos
entre os entrevistados para este trabalho, constando abaixo um resumo das interpretações dadas pela maioria
deles e pelos participantes da oficina.

RDS RESEX
Populações devem residir na área da UC. Populações podem ou não residir, mas devem
utilizar a área da UC.
Populações tradicionais não necessariamente Exclusivamente populações extrativistas
extrativistas
Pode haver propriedade privada Área deve ser de domínio publico
Sua criação pode ser iniciativa do poder público e Sua criação tem que ser iniciativa da população
ONGs
Exige a demarcação de área de proteção integral Não exige demarcação de área para proteção
integral
Possibilidade de exploração de componentes do Proibida a caça, mineração, e criação de animais
ecossistema e autorização da substituição da de grande porte.
cobertura vegetal por espécies cultiváveis em seu Não há autorização explícita para substituição da
interior, implicitamente permitindo mineração, cobertura vegetal por espécies cultiváveis
criação de animais de grande porte e caça.
Não há necessidade de plano de manejo de Necessidade de plano de manejo de rendimento
rendimento sustentável para exploração comercial sustentável para exploração comercial de recursos
de recursos madeireiros madeireiros
Devem ser preferencialmente estaduais Devem ser federais

91
Deve ter grandes áreas O tamanho das áreas deve atender a cada
situação encontrada
Concepção da categoria respondeu à demanda da Concepção da categoria respondeu à demanda da
comunidade acadêmica luta social dos extrativistas
Não há necessidade de organização da população A população deve estar organizada
População com menor poder sobre a gestão e o População deve deter maior poder sobre a gestão
território devida às exigências de conservação e o território
Área com significativa diversidade biológica Área com recursos naturais passíveis de extração

Considerações sobre outros pontos polêmicos são resumidas abaixo:

Com relação à ocupação, uso dos recursos naturais e ações de conservação, há quem entenda que a RDS é
uma unidade bastante flexível, pois, entre outros fatores, permite a supressão da cobertura vegetal, e há quem
entenda que seu principal objetivo é a conservação ambiental, devendo, inclusive, ser utilizada como solução
para presença de populações em unidades de conservação de proteção integral.

Quanto à criação, parte das pessoas consultada neste trabalho crê que não haja necessidade de se contar com
uma demanda da população envolvida, divergindo de outro grupo que considera imperiosa a exigência de
demanda desta população.

No que diz respeito à questão fundiária, há divergência com relação à ocorrência de propriedades privadas no
interior da RDS: por volta de metade dos entrevistados se manifesta contrária por considerar que a existência de
imóveis particulares não garante o cumprimento dos objetivos e das normas da reserva. A outra metade, de
forma mais pragmática, considera que a possibilidade de não se ter que realizar desapropriações flexibiliza a
criação de unidades de conservação, principalmente por não onerar cofres públicos e por não desencadear
disputas políticas e judiciais com eventuais prejudicados com a criação da RDS.

Também não há consenso quanto à capacidade de organização formal ou informal da população a ser envolvida
com a RDS: embora seja admitido pela maioria que quanto maior a organização local, mais facilmente poderá se
dar a gestão da unidade, um considerável número de entrevistados crê, também de forma pragmática, que
condicionar a criação da reserva à capacidade de organização dos moradores poderá inviabilizar a criação de
várias delas. São especialmente partidários desta posição os que interpretam RDS como uma unidade de
conservação fortemente restritiva, que apenas admite populações em pequenas áreas historicamente ocupadas.

Finalmente, no que tange às atividades permitidas em uma RDS, parte dos entrevistados prevê a possibilidade
de ocorrência de empreendimentos potencialmente mais impactantes, como mineração e turismo convencional,
conquanto controlados, e outra parte só admite a ocorrência de atividades ditas tradicionais, relacionadas à
exploração sustentável de recursos dos biomas locais. Os que defendem a segunda posição são tanto os que
consideram que as RDS são prioritariamente direcionadas à conservação da biodiversidade, quanto os que
consideram que esta categoria deve priorizar a proteção de grupos sócio-culturais, potencialmente ameaçados
por agentes externos.

5. PROPOSTAS E RECOMENDAÇÕES PARA REGULAMENTAÇÃO DA CATEGORIA RESERVA


DE DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL

5.1 PROCESSO DE CRIAÇÃO

Critérios:

1. Ocorrência de populações locais, residentes na área alvo de proteção, que dependam diretamente
da exploração de espaços e recursos naturais para sua reprodução sócio-cultural, que detenham
conhecimentos sobre as características dos ecossistemas locais e que utilizem modalidades
relativamente impactantes de utilização /exploração de seus recursos.
92
Comentário: A lei federal 9.985/00 que institui o SNUC dispõe em seu vigésimo artigo que RDS é uma
área natural que abriga populações tradicionais, distintamente de outras categorias, como por
exemplo, Resex, para a qual o artigo dezoito da mesma lei dispõe tratar-se de área utilizada por
populações tradicionais, sem especificar se devem ser residentes ou não nos limites da unidade.
Entretanto, RDSs estaduais, como por exemplo, Iratapuru / AP, têm sido criadas para a proteção
ambiental de determinadas áreas sem que haja a ocorrência de moradores em seu interior. Por outro
lado, o mesmo artigo vinte da lei do SNUC determina que as populações residentes em uma RDS
devem ter sua existência baseada “em sistemas sustentáveis de exploração dos recursos naturais,
desenvolvidos ao longo de gerações e adaptados às condições ecológicas locais”. No entanto,
entrevistas com especialistas e responsáveis pela execução do SNUC, realizadas durante este
trabalho, revelam uma posição recorrente de que RDSs podem ser criadas para atendimento de
demandas de grupos recém chegados à região, ou até mesmo que não apresentem qualquer
familiaridade com os ecossistemas locais, contrariando a disposição legal.
Quanto à expressão “formas de manejo pouco impactantes dos recursos”, em vez de “formas de
manejo sustentável” constante na lei do SNUC, cabe destacar que nem sempre são encontradas
práticas de exploração de recursos naturais ambiental e economicamente sustentáveis utilizadas por
grupos que dependem desses recursos para sua sobrevivência e reprodução sócio-cultural. Entretanto,
em função de fatores tais como baixa densidade demográfica, utilização de práticas e meios de
produção simples e adaptados ao ambiente, ocorrência de ecossistemas em bom estado de
conservação (que permita uma oferta significativa das espécies naturais utilizadas) e existência de
traços culturais que não valorizam o excessivo acúmulo de bens e capital, são ainda encontrados
variados grupos sociais que pouco impactam o meio com suas atividades econômicas. Se essas
atividades não são sustentáveis, lato senso, podem apresentar, porém, um grande potencial de
sustentabilidade, com apoio técnico e financeiro, após a criação da unidade de conservação.
Cabe, por fim, destacar que no enunciado da condicionante acima, as populações não são adjetivadas
como tradicionais, embora a lei do SNUC utilize este termo. Ocorre que a própria legislação do SNUC
não conceitua “tradicional”, além do fato de que há variadas interpretações e posicionamentos teóricos
e políticos sobre este termo, não raro conflitantes. Dessa forma, sugere-se que a população alvo para a
criação de uma RDS apresente apenas como características: a) residência na área a ser demarcada,
b) dependência estreita da exploração de recursos naturais para sua reprodução sócio-cultural, c)
conhecimento prático sobre os ecossistemas locais, d) utilização de técnicas e práticas de exploração
do meio pouco impactantes.

2. Ocorrência, entre as populações residentes na área alvo de proteção, de atividades econômicas


não predominantemente extrativistas de recursos naturais.
Comentário: Para os casos de populações que tenham no extrativismo de recursos naturais suas
atividades predominantes no que diz respeito à geração de renda, produção de itens para consumo
local, tempo despendido e número de famílias envolvidas, está prevista na lei do SNUC a categoria
Reserva Extrativista (Resex). Embora as RDSs possam também contemplar extrativismo, o destaque a
esta atividade expresso na definição legal das Resex destina, implicitamente, às RDSs outros tipos de
usos e ocupações econômicas. Assim, a proposta é a de que as RDSs devem contemplar,
especialmente, populações que desenvolvam atividades econômicas, ou um consórcio de atividades
geradoras de baixos impactos ambientais, com potencial de sustentabilidade, como por exemplo,
pecuária extensiva em fundos de pastos (região nordeste) e faxinais (região sul), turismo, artesanato,
sistemas agroflorestais, pequena agricultura diversificada, aqüicultura em pequena escala. No entanto,
e inversamente, como as Resex estão historicamente identificadas com alguns movimentos sociais da
Amazônia, como, por exemplo, o Conselho Nacional dos Seringueiros (CSN), determinadas áreas com
predominância de populações extrativistas têm sido demandadas para se constituírem em RDS por

93
questões políticas (falta de vínculos com esses movimentos ou mesmo contraposições a eles) e até
mesmo pelo simples fato de não se localizarem na região amazônica.

3. Grau mínimo de coesão social e de práticas socioculturais coletivas que permita a efetiva
participação das comunidades nas práticas de gestão desta categoria de manejo de unidade de
conservação.
Comentário: Tem sido registrada, entre órgãos estaduais responsáveis pela execução do SNUC, a
postura de se optar pela criação de uma RDS, ao invés de Resex, em casos em que ameaças ao meio
ou a um determinado grupo ocorram em áreas onde seus residentes não apresentem qualquer forma
de organização social, formal ou informal, por pressuporem que tal requisito é exclusivo às Resex, em
função de seu histórico enquanto categoria de unidade de conservação. No entanto, a lei do SNUC
dispõe que a RDS deverá ser gerida por um Conselho Deliberativo, constituído, entre outros, por
representantes das populações tradicionais residentes na área (Artigo 20, § 4º). Além disso, o artigo
vinte e três da lei do SNUC, em seu parágrafo primeiro, determina que as populações das RDSs, assim
como das Resex, se obrigam “a participar da preservação, recuperação, defesa e manutenção da
unidade de conservação”, ações que exigem um considerável grau de organização interna. Sobre esse
aspecto, representantes de movimentos sociais, entrevistados para este trabalho, declaram que os
processos de criação de RDSs em tais situações, além de serem iniciativas das instâncias públicas ou
de ONGs ambientalistas, têm favorecido o quadro de desmobilização social de segmentos rurais, uma
vez que se sentem desonerados em incentivar ou propiciar o apoio para que as comunidades procurem
se organizar e se fazer representar com maior autonomia na defesa de seus direitos, como usualmente
ocorre no caso das Resex. No entanto, cabe ressaltar que tal posicionamento apresenta conotações
políticas de defesa dos ideais programáticos de alguns desses movimentos e traz, de forma
subjacente, a idéia de que apenas as Resex devem contemplar, ou favorecer, a ocorrência de
populações mobilizadas e organizadas. Ao contrário, tanto para Resex, quanto para RDS, os
procedimentos para sua criação e implantação devem ser permeados por ações de apoio ao
aprimoramento das formas de organização local, observando-se e respeitando-se suas
especificidades.

4. Ocorrência de áreas representativas de ecossistemas com relevância ecológica e/ou áreas com
importância simbólica para a população beneficiária, não significativamente impactados pelas
atividades historicamente desenvolvidas e com possibilidade de recuperação de parte das áreas
que se apresentem degradadas.
Comentário: Assim como também tem ocorrido para as Resex, é crescente a demanda para a criação
de RDSs em função de ameaças a grupos sociais, notadamente as advindas da expansão das
fronteiras do agro-negócio, da indústria turístico-hoteleira e da especulação imobiliária. Sem perder de
vista a dimensão de que RDSs, assim como Resex, têm também o papel de garantir a diversidade
cultural e de promover a justiça social, cabe lembrar que tais categorias de manejo constituem-se em
unidades de conservação da natureza, cujo objetivo principal é a conservação da biodiversidade,
devendo ser buscados outros instrumentos legais para se ensejar soluções para conflitos de interesse
e concorrências de uso em áreas fortemente antropizadas. Além disso, é necessário que a área
apresente condições de equilíbrio e sustentação ecológica de forma a garantir uma disponibilidade
estável dos recursos naturais utilizados pelas famílias locais.

5. Existência de área com importância ecológica e com ocorrência de biodiversidade significativa para
preservação, com possibilidade de sua demarcação como zona de proteção integral.

94
Comentário: Reforçando o item anterior, distintamente do que está disposto para as demais seis
categorias de unidade de conservação de uso sustentável11, a lei do SNUC dispõe de forma explícita
sobre a necessidade de delimitação de zonas de proteção integral no interior das RDSs, a serem
previstas na elaboração de seu Plano de Manejo (Artigo 20, § 6º). A maior parte dos entrevistados
para esse trabalho concorda a respeito dessa disposição legal.

6. Realização de consultas públicas para criação de RDSs específicas para os usuários (residentes
no interior ou entorno imediato) da área a ser protegida, assim como consultas públicas mais
amplas, envolvendo todos os segmentos interessados, notadamente os órgãos públicos
responsáveis pelas estruturas e serviços sociais. Para ambos os casos as consultas públicas
devem se constituir em processos. Devem contar com levantamento de informações que
complementem os estudos preliminares, esclarecimento sobre as causas e conseqüências da
criação e implementação da reserva e estabelecimento de vias de comunicação e negociação com
os representantes de todos os segmentos envolvidos, visando sua plena compreensão sobre as
implicações (direitos e deveres) decorrentes desse processo, assim como a diminuição de conflitos
de interesses e de concorrências de usos.
Comentário: Ainda persiste no país uma parca preocupação em se democratizar as decisões sobre a
política ambiental, e alguns de seus reflexos são os procedimentos para a realização de consultas
públicas para criação de novas áreas protegidas: até mesmo os vagos procedimentos dispostos no
SNUC para a realização destas consultas (Artigo 22 da lei 9.985/00) não são plenamente utilizados e o
que se constata é que consulta pública se restringe a uma ou duas audiências formais, nas quais os
atores locais são meramente informados, em linguagem técnica, sobre a necessidade de conservação
de uma determinada área. Sua falta de reação, por não estarem suficientemente preparados para um
debate técnico, é geralmente considerada consentimento. Mesmo que estas práticas sejam mais
usualmente utilizadas para a criação de unidades de proteção integral, têm também se refletido nos
processos de criação das de uso sustentável, principalmente nos casos em que a identificação da
necessidade de proteção se dá por parte de agentes externos às comunidades locais. Dessa forma,
somente após a criação oficial da reserva é que os moradores se dão realmente conta das
responsabilidades que passam a assumir e, em muitos casos, não se mostram dispostos a participar
das formas de gestão e dos processos de elaboração dos instrumentos normativos da unidade
(zoneamento e plano de manejo). As conseqüências, já observadas, são o aparecimento de conflitos
internos, a fragilização das práticas de gestão e o comprometimento dos próprios objetivos da
categoria de manejo. Finalizando, quanto ao envolvimento dos órgãos públicos das três esferas do
poder, além de serem agentes interessados, notadamente os municipais, devem ser informados sobre
a necessidade de ações de inclusão social (acesso à saúde, saneamento, energia, coleta lixo,
educação e transporte) para a população residente da unidade de conservação, uma vez que entre os
objetivos básicos da RDS consta o de melhoria de qualidade de vida de seus moradores (§ 1º do
vigésimo artigo da lei 9.985/00).

7. Encaminhamento de manifestação por escrito com adesão de, pelo menos, a maioria simples dos
moradores maiores de idade da área do interior da futura RDS, contendo: solicitação para criação
da unidade; ciência sobre as causas e conseqüências relacionadas à criação da reserva;
comprometimento preliminar em assumir responsabilidades e compromissos inerentes à gestão da
área.
Comentário: A maioria dos entrevistados para este trabalho concorda que as RDSs devem ser criadas
a partir de demandas expressas dos moradores / usuários da área alvo de proteção ambiental. No
entanto, a maior parte deles admite que as RDSs, via de regra, têm sido criadas por meio da
11
Área de Proteção Integral, Área de Relevante Interesse Ecológico, Floresta Nacional, Reserva Extrativista,
Reserva da Fauna e Reserva Particular do Patrimônio Natural.
95
identificação, por parte de órgãos governamentais e ONGs, da necessidade da adoção de medidas de
proteção, tanto de ecossistemas, quanto de grupos sociais. Por outro lado, uma parte dos
entrevistados também admite que a criação de unidades desta categoria deve se dar por motivação
principalmente ambiental, cabendo aos moradores locais o ajustamento de seus modos de vida às
normas específicas da RDS. Ou seja, na prática, grande parte das iniciativas para criação de RDSs
não tem partido de seus virtuais beneficiários diretos, os quais, geralmente, têm consentido com a
criação da unidade a partir de informações e sugestões de agentes públicos e da sociedade
organizada, não raro urbana. Mesmo considerando o aspecto positivo dessa prestação de informações
e apoio à garantia da biodiversidade e de direitos básicos da população envolvida, a questão que se
coloca é que, geralmente, os procedimentos que são estabelecidos desde os primeiros contatos com a
população diretamente interessada até a criação da unidade, além de não permitirem a apreensão de
todos os aspectos que possibilitariam maior grau de eficiência para o alcance dos objetivos inicialmente
propostos, não possibilitam também que os virtuais beneficiários se dêem conta das causas e
conseqüências inerentes à criação de uma reserva. Esta situação, corriqueiramente observada, baseia-
se, notadamente, em três fatos: 1) A fragilidade dos procedimentos adotados para a realização de
consultas públicas, conforme mencionado no item anterior; 2) A primeira RDS criada, modelo para as
disposições legais do SNUC sobre esta categoria, foi Mamirauá / AM, produto de demandas
essencialmente ambientalistas. Inicialmente enquadrada como Estação Ecológica, foi transformada em
uma nova modalidade de unidade de conservação (RDS estadual) pelo fato de seus idealizadores se
depararem com comunidades locais fortemente mobilizadas e terem tido a sensibilidade de propor
novos arranjos políticos e legais visando a compatibilização entre conservação ambiental e
permanência / melhoria da qualidade de vida das famílias locais. No entanto, o marco para a criação de
Mamirauá é o da conservação ambiental, refletido na legislação do SNUC e reproduzido nos discursos
e práticas de grande parte dos responsáveis pela execução deste sistema legal. Assim, mesmo que
concordem que as populações locais devam ser co-responsáveis pelas demandas de criação das
unidades, objetam que o principal motivo para se transformar uma área em RDS é a sua importância
ecológica, não sendo dispensada maior atenção à prestação de informações às comunidades locais e
às negociações com os setores envolvidos. 3) A interpretação do § 2º do vigésimo artigo da lei do
SNUC sobre a possibilidade de ocorrência de propriedades privadas no interior das RDSs tem
determinado que governos estaduais estejam criando unidades dessa categoria de manejo em áreas
identificadas como ameaçadas, ocupadas por comunidades e mesmo por grandes propriedades rurais.
Ou seja, a possibilidade aberta pelo referido parágrafo determina que algumas áreas passem à
condição de unidades de conservação, no caso RDS, sem onerar os cofres públicos com
desapropriações de imóveis. Também nesses casos não tem havido o devido envolvimento das
comunidades e/ou de proprietários rurais, uma vez que a principal motivação é a rápida criação da área
protegida.
Um dos resultados de toda essa situação é a falta de garantia, após criação da reserva, de que seus
usuários estarão motivados e devidamente comprometidos com os objetivos inerentes a essa categoria
de unidade de conservação, lembrando que § 1º do artigo vigésimo terceiro da lei do SNUC determina
que as populações residentes “obrigam-se a participar da preservação, recuperação, defesa e
manutenção da unidade de conservação”.Esse quadro é ainda agravado em situações de ocorrência
de imóveis rurais de grandes dimensões, cujos proprietários não tenham sido consultados sobre a
criação da reserva ou não concordem em submeter os usos de suas terras às normas específicas do
zoneamento e do plano de manejo da RDS.

8. Delimitação da área, no processo de consulta pública, considerando, na zona de uso antrópico,


uma estimativa preliminar da proporção entre o número de famílias usuárias e o espaço necessário
para sua reprodução sócio cultural e melhoria da qualidade de vida, assim como para viabilização

96
da efetiva participação dos usuários na administração, monitoramento e fiscalização da unidade de
conservação.
Comentário: O item III, § 5º do artigo vigésimo da lei do SNUC dispõe que para as RDSs “deve ser
sempre considerado o equilíbrio dinâmico entre o tamanho da população e a conservação” e o § 1º do
artigo vigésimo terceiro desta mesma lei determina, como anteriormente mencionado, que as
populações residentes “obrigam-se a participar da preservação, recuperação, defesa e manutenção da
unidade de conservação.” Dessa forma, as dimensões de uma RDS têm que propiciar que seus
moradores possam, por um lado, manter ou melhorar sua qualidade de vida com o uso dos recursos
dos ecossistemas abarcados pelos seus limites e, por outro, dar conta das obrigações legais dispostas
neste último artigo citado. Casos como a RDS estadual de Cujubim /AM, com mais de dois milhões de
hectares reservados para pouco mais de sessenta famílias, são exemplos da desproporcionalidade
entre número de moradores e área total da unidade, que acaba por inviabilizar o cumprimento das
disposições legais do SNUC.

9. Nos casos em que as famílias residentes na área alvo de proteção apresentem as características
descritas no item 1, detenham documentos comprobatórios de sua área de ocupação, demandem
a criação de uma reserva de uso sustentável e não queiram ter suas áreas desapropriadas, deverá
prevalecer a categoria RDS, em detrimento de Resex, mesmo que as atividades tradicionalmente
desenvolvidas sejam conceituadas como predominantemente extrativistas.
Comentário: O § 2º do vigésimo artigo da lei do SNUC, que aventa a possibilidade de ocorrência de
áreas privadas no interior de RDSs foi previsto considerando-se tanto o modelo de Mamirauá, a
primeira RDS criada, que apresenta propriedades rurais em sua área, quanto a proposta de outra
categoria encaminhada por ocasião das discussões deste sistema legal, denominada Reserva
Ecológico-cultural, que previa a possibilidade de imóveis particulares no interior da área protegida,
conquanto tais imóveis fossem pertencentes a famílias residentes no local, cujas atividades
econômicas pudessem ser consideradas tradicionais e resultassem em baixo nível de impacto
ambiental, podendo se aprimorar, após a criação da unidade, para manter ou alcançar um grau de
sustentabilidade, lato senso. No entanto, esta interpretação não foi claramente exposta no teor da lei
9.985/00, fato que tem acarretado a criação de RDSs com grandes propriedades, inclusive latifúndios,
em seu interior, dada a falta de recursos orçamentários e mesmo de vontade política dos governos
estaduais para promover a desapropriação de imóveis. Como já comentado, esta situação dificulta e
pode mesmo inviabilizar a implantação e a gestão das unidades, uma vez que, via de regra, os
proprietários desses imóveis não residem na região, são alheios aos interesses das comunidades
locais, não participam do processo de consultas públicas para criação da reserva, além de não
concordarem com virtuais ingerências em seus negócios, representadas, no caso, pelas normas do
zoneamento e do plano de manejo da unidade. A RDSs estaduais de Ponta do Tubarão / RN e Cujubim
/ AM são exemplos desta situação. Apesar desse quadro, sugere-se que em casos de ocorrência de
propriedades de famílias locais que reivindiquem a proteção de sua área e desenvolvam atividades
com potencial para alcançar uma sustentabilidade ambiental, econômica e gerencial, seja criada a
RDS, por permitir, diferentemente de Resex, que parte de sua área seja de domínio privado. Para as
demais propriedades que não se encaixem nesse quadro, sugere-se que sejam feitas avaliações,
durante o processo de consulta pública, sobre a pertinência de sua inclusão na área protegida,
notadamente no que se refere à preservação ambiental e à conservação dos ecossistemas
fundamentais para a continuidade de atividades econômicas sustentáveis desenvolvidas pela
população local. As propostas para resolução fundiária desses casos encontram-se no item 2 do
próximo bloco (Diretrizes para Implantação e Gestão de RDS).

Os critérios relacionados acima devem ser aferidos, de forma sistemática, por estudos
preliminares à criação da RDS que considerem:

97
1. Levantamento de informações sócio-ambientais (secundárias) disponíveis sobre a área;
2. Identificação e sistematização de lacunas de conhecimento;
3. Identificação, em campo, dos diversos segmentos sócio-culturais, econômicos e políticos
envolvidos com a área a ser protegida;
4. Levantamento expedito, em campo, das principais características biofísicas da área;
5. Identificação preliminar do estado dos ecossistemas abrangidos e avaliação da possibilidade
de recuperação de áreas degradadas;
6. Identificação preliminar das áreas significativas para a manutenção ou recuperação da
diversidade biológica;
7. Sistematização e análise do tipo de ocupação da área, priorizando as características sócio-
econômico-culturais das famílias residentes e o mapeamento dos locais de moradia, de uso
comum e de exploração dos recursos naturais;
8. Levantamento do contingente de não moradores usuários dos recursos naturais da área;
9. Levantamento da situação fundiária da área;
10. Levantamento das formas e graus de organização social e produtiva;
11. Levantamento das estruturas e serviços sociais à disposição das comunidades;
12. Avaliação do interesse dos moradores em permanecer e conservar o local de acordo com a
legislação vigente e as normas específicas da categoria de manejo RDS;
13. Avaliação preliminar sobre o potencial de sustentabilidade econômica e ambiental das
atividades de exploração de espaços e recursos naturais da área.
14. Identificação de outros segmentos regionais envolvidos com a área alvo de proteção, como por
exemplo, proprietários de imóveis rurais e empreendimentos industriais;
15. Identificação de eventuais concorrências de usos e de conflitos de interesses entre os
segmentos;

5.2 DIRETRIZES PARA IMPLANTAÇÃO & GESTÃO DA RDS

1. As atividades econômicas desenvolvidas em uma RDS devem, até a elaboração de seu plano de
manejo, se restringir àquelas já desenvolvidas historicamente pelas populações locais, cabendo,
entretanto, esforços para seu aprimoramento, notadamente no que diz respeito à sustentabilidade
ambiental, aumento de produtividade, agregação de valor às mercadorias produzidas e detecção de
formas mais rentáveis de comercialização da produção e de prestação de serviços. Após os estudos
que irão embasar a elaboração do plano de manejo e o zoneamento da unidade, se surgirem
indicações de novas alternativas econômicas, estas deverão estar de acordo com a lei do SNUC e
dos demais instrumentos da legislação ambiental e deverão ser geridas diretamente pelas famílias
ou organizações locais, as quais deverão ser suas principais beneficiárias.
Comentário: A legislação do SNUC não é precisa quanto às atividades passíveis de serem desenvolvidas nas
RDSs, estando apenas disposto que é permitida e incentivada a visitação pública e a pesquisa científica,
considerando-se o equilíbrio dinâmico entre o número de habitantes e a conservação, sendo também admitidas
a exploração de componentes dos ecossistemas naturais em regime de manejo sustentável e a substituição da
cobertura vegetal por espécies cultiváveis, desde que sujeitas ao zoneamento, ao plano de manejo e às
limitações legais (§ 5º do artigo vigésimo da lei 9.985/00). Por outro lado, como restrições explícitas às
atividades antrópicas, constam apenas a proibição do uso de espécies localmente ameaçadas (e as práticas que
possam danificar seus habitats) e a proibição de atividades que impeçam a regeneração natural dos
ecossistemas (§ 2º do artigo vigésimo terceiro da lei 9.985/00). Como usualmente é feita uma analogia entre
RDS e Resex, o fato de que para esta última está especificamente disposto no artigo décimo oitavo da lei do
SNUC que são proibidas a criação de animais de grande porte, a mineração e a caça (amadorística e
profissional), é usualmente argumentado que tais atividades são legalmente possíveis em uma RDS. Além disso,
como não há menção, no que se refere às RDS, sobre a necessidade de implantação de planos de manejo de
rendimento sustentável para a exploração comercial de recursos madeireiros, como ocorre para Resex,
argumenta-se também que tal atividade poderia ser factível nas reservas de desenvolvimento sustentável,
98
mesmo porque, como acima mencionado, há autorização para substituição da cobertura vegetal por espécies
cultiváveis em seu interior. Mais recentemente, novas atividades econômicas, como, por exemplo, a criação
industrial de crustáceos também tem ensejado discussões sobre a pertinência de sua implantação em áreas de
RDS, como ocorre atualmente na RDS estadual da Ponta do Tubarão / RN. No entanto, o § 1º do artigo vigésimo
da lei 9.985/00 explicita que uma RDS tem como objetivos básicos: a) preservar a natureza; b) assegurar
condições e os meios necessários para melhoria da qualidade de vida das populações; c) melhorar os modos de
exploração dos recursos naturais utilizados pelas populações residentes na reserva e d) valorizar, conservar e
aperfeiçoar o conhecimento e as técnicas de manejo do ambiente desenvolvido por estas populações. Dessa
forma, a diretriz acima reforça o conceito de aprimoramento das atividades já desenvolvidas
historicamente, suscitando a possibilidade de adoção de novas atividades, conquanto sustentáveis e geridas
por grupos locais, os quais devem ser seus principais beneficiários, afastando, assim, o acometimento de grupos
empresarias e a implementação de empreendimentos alheios aos interesses e vocações das famílias locais e da
conservação ambiental.

2. Nos casos de famílias residentes no interior da RDS, acordadas com sua criação e implantação,
possuírem documentos comprobatórios de dominialidade de suas áreas de moradia e/ou exploração
econômica, os órgãos competentes deverão firmar com seus representantes termos de compromisso,
de acordo com o artigo trigésimo nono do Capítulo IX do decreto 4.340/02, como forma de garantir que
as normas do plano de manejo e o zoneamento da unidade sejam devidamente cumpridas. Nesses
casos, a dominialidade permanece privada e os prazos dos termos de compromisso para permanência
dos proprietários na área protegida devem ser acordados entre as partes interessadas, prevendo,
entretanto, tempo suficiente para que os moradores tenham garantia para planejar suas atividades
presentes e futuras. Devem também ser renovados automaticamente após sua expiração, sempre que
houver interesse das partes envolvidas, incluindo-se aí o Conselho Gestor da unidade. Para os casos
de moradores não detentores de documentos comprobatórios de dominialidade das terras que utilizam,
deverá prevalecer o artigo décimo terceiro do decreto 4.340/02 (que regulamenta o artigo vinte e três
da lei do SNUC), o qual prevê a assinatura de contrato de concessão de uso de terras públicas e de
respectivo termo de compromisso, específico para tais situações.
Comentário: Para as situações de comprovação da dominialidade privada de terras, surge sempre a questão
sobre a supremacia legal entre direito de propriedade e direito difuso, representado, nesse caso, pela legislação
ambiental. Como forma de garantir que as normas da unidade de conservação sejam cumpridas nos casos de
ocorrência de domínio privado em RDSs, sugere-se que a utilização do artigo trigésimo nono, Capítulo IX do
decreto de regulamentação do SNUC seja considerada, embora, originalmente, este capítulo tenha sido incluído
para regulamentar questões entre populações tradicionais e unidades de proteção integral, conforme o artigo
quarenta e dois , Capítulo VII da lei 9.985/00. No entanto, na falta de outro dispositivo legal que contemple a
situação acima exposta, poder-se-ia utilizar o que determina a regulamentação para populações residentes em
unidades de proteção integral, considerando-se apenas a renovação automática dos prazos de permanência na
área, se houver interesse das partes.

3. Nos casos em que os resultados dos estudos técnicos e das consultas públicas indicarem a
importância de incorporação de terras privadas à área da RDS, cujos proprietários tenham interesses
diversos daqueles das comunidades locais ou que com estas apresentem conflitos, ou ainda, que
tenham interesses e formas de ocupação conflitantes com os objetivos ambientais da RDS, caberá aos
órgãos competentes a iniciativa de providenciar sua desapropriação, ou a intervenção do Ministério
Público para que com seus proprietários sejam assinados termos de compromisso sobre os usos dos
imóveis, até o momento em que forem disponibilizados recursos para sua desapropriação. Sugere-se
que tais termos de compromisso sejam embasados pelo disposto no artigo trigésimo nono do Capítulo
IX do decreto 4.340/02, que regulamenta o SNUC, apesar de tal capítulo tratar, originalmente, apenas
de populações tradicionais em unidades de proteção integral.
Comentário: Da mesma forma como exposto no item anterior, não constam soluções legais para tais casos na
legislação do SNUC, a não ser a desapropriação das terras, solução nem sempre viável em função da falta de
recursos orçamentários governamentais. Dessa forma, sugere-se que a regulamentação de RDSs se aproprie do
disposto no artigo 39 do decreto 4.340/02, por poder representar, de forma satisfatória, uma solução para tais
situações. Como exemplo de necessidade de inserção de áreas privadas na delimitação de uma RDS, pode ser
99
citada Ponta do Tubarão / RN: os estudos técnicos apontaram para a importância de incluir propriedades
localizadas em campos dunares e porções de caatinga contíguas à área costeira inicialmente delimitada em
função da percepção de que a implantação de atividades impactantes ao meio nessas propriedades, como por
exemplo, carcinocultura, poderia comprometer as reservas d’água sub-dunares e, conseqüentemente,
comprometer poços de abastecimento e as próprias atividades pesqueiras e de coleta de mariscos
desenvolvidas historicamente pelas famílias locais, além de degradar ecossistemas importantes, como
manguezal e restinga, abarcados pela reserva.

4. Formação de conselho gestor deliberativo objetivando a participação do maior número de


representantes dos moradores e usuários da RDS, além de representantes de organizações da
sociedade civil regional e de órgãos públicos competentes das três esferas de poder. Os setores
produtivos regionais e do entorno imediato da unidade, cujos interesses sejam distintos daqueles das
comunidades locais, devem criar um comitê próprio para escolha de apenas um representante com
direito a assento nesse fórum.
Comentário: Como os conselhos de RDSs têm o caráter deliberativo, é fundamental para a boa gestão da
unidade a participação do maior número possível de representantes de seus moradores, sejam eles organizados
em instâncias produtivas, sociais, etárias ou de gênero. É de se destacar que cabe ao conselho a gestão da
reserva (§ 4º do artigo vigésimo artigo da lei 9.985/00), além da aprovação de seu plano de manejo (item II do
artigo doze do decreto 4.340/02 que regulamenta o SNUC), e dessa forma, o cumprimento dos objetivos da
unidade, por meio da elaboração e implantação participativa de suas normas específicas, só terá êxito se a
gama de interesses da população residente se fizer representar no conselho. Portanto, é incumbência, tanto das
formas de associações locais, quanto dos órgãos executores do SNUC, o apoio para que os diversos segmentos
constituintes da população residente possam se organizar, se instrumentalizar e se capacitar para defender seus
interesses e os objetivos da RDS em seus âmbitos interno e externo. Por outro lado, ocorrem situações em que
o entorno e, por vezes, o próprio interior da RDS é ocupado por imóveis ou empreendimentos produtivos cujos
usos e interesses são alheios ou mesmo concorrentes com os inerentes à população local, havendo demandas
para que seus representantes participem do conselho da unidade, situação justificada em função de terem suas
atividades afetadas pela ocorrência da reserva. No entanto, se cada um dos representantes desses segmentos
produtivos ou dos empreendimentos locais reivindicar uma cadeira no conselho, suas deliberações podem
passar a não atender os próprios objetivos da unidade de conservação. Casos como esse têm sido identificados
na formação de variados conselhos de unidades de conservação12, inclusive as de uso sustentável, para as
quais os conselhos têm o caráter deliberativo. Dessa forma, sugere-se que a totalidade dos segmentos
produtivos estranhos às comunidades abrigadas pela RDS se organize e escolha entre eles apenas um
representante para o conselho, seguindo o exemplo de unidades como a RDS estadual da Ponta do Tubarão /
RN e a Resex federal de Arraial do Cabo / RJ.

5. O plano de manejo da RDS deve ser elaborado de forma participativa e se constituir em um documento
prático que permita tanto a orientação dos moradores e gestores na condução das práticas cotidianas
da unidade, quanto o planejamento, em médio e longo prazo, das atividades de preservação e
conservação ambiental e de promoção da qualidade de vida das comunidades locais. Deve ser
elaborado a partir da consulta a dados secundários, da análise dos resultados de estudos expeditos
realizados em campo sobre a realidade sócio-ambiental e da apreensão do conhecimento acumulado
pelos moradores sobre os ecossistemas e sobre suas expressões sociais, culturais e econômicas. Este
primeiro esforço de elaboração participativa do plano pode permitir a redação de uma primeira versão
formal e a identificação de lacunas de conhecimento, assim como a indicação de ações para preenchê-
las. Deve, portanto, também ter um caráter dinâmico, sendo a ele incorporadas, periodicamente, novas
normas e recomendações a partir do desenvolvimento de pesquisas técnicas e científicas, identificadas
como prioritárias, e do monitoramento sistemático das atividades e das decisões tomadas pelas
instâncias gestoras da unidade de conservação. Dado tratar-se de uma unidade de uso sustentável, o
plano de manejo deve contemplar a elaboração de planos de manejo de rendimento sustentável para
os recursos naturais mais intensamente explorados e a realização de planos de negócio para os

12
Sales, R. R. – Projeto de Consultoria ao IBAMA para Avaliação das Formas de Gestão de Unidades de
Conservação Federais, 2004.
100
principais produtos comercializados. Por fim, o plano de manejo deve indicar uma relação de
pesquisas científicas que permitam a otimização ambiental das zonas de preservação, bem como
definir um protocolo de monitoramento contínuo da unidade.
Comentário: As reservas extrativistas, desde sua concepção na década de 80 passada, contavam com planos
de utilização dos recursos e planos de desenvolvimento, que procuravam contemplar sua realidade sócio-
ambiental e continham normas claras e práticas sobre os potenciais ou restrições de usos dos espaços e
recursos naturais. Com a publicação da lei 9.985/00 e sua posterior regulamentação, em 2002, tais instrumentos
de gestão e normatização foram suprimidos, sendo instituída, de forma generalizada para a totalidade das
categorias de unidades de conservação, a denominação plano de manejo, conceituado na referida lei como
“documento técnico mediante o qual, com fundamento nos objetivos gerais de uma unidade de conservação, se
estabelece seu zoneamento e as normas que devem presidir o uso da área e o manejo dos recursos naturais,
inclusive a implantação das estruturas físicas necessárias à gestão da unidade.” (item XVII do segundo artigo da
lei 9.985/00). Dado a amplitude desta conceituação e o fato de que o roteiro metodológico para elaboração do
plano de manejo de RDS não foi estabelecido pelos órgãos executores do SNUC, conforme previsto no decreto
4.340/02, observa-se uma tendência por parte desses órgãos, notadamente os estaduais, de tratar o plano de
manejo, após a legislação do SNUC, nos moldes recorrentemente utilizados para as unidades de proteção
integral, sem considerar as especificidades das unidades de uso sustentável. Ou seja, tem havido uma forte
preocupação com a realização de pesquisas científicas da área biofísica com prazos bastante dilatados para sua
execução; não tem sido dada a oportunidade para que os conhecimentos das comunidades locais possam
compor o conjunto de informações básicas para a elaboração do documento; não tem sido considerado o
processo de seu contínuo aprimoramento e não tem havido a preocupação em se contemplar estratégias para o
desenvolvimento sustentável das famílias locais.

6. O zoneamento das unidades da categoria RDS deve ser elaborado de forma participativa e contemplar
zonas de proteção integral, de uso sustentável e de amortecimento e, quando couber, corredores
ecológicos (§ 6° do vigésimo artigo da lei do SNUC). Para tanto, devem ser consideradas as
informações sobre a dinâmica de utilização econômica e cultural dos espaços e recursos naturais da
área, dinâmica territorial da população (deslocamentos, mobilidade espacial dos assentamentos),
definição do número, densidade e distribuição dos assentamentos, assim como os resultados dos
estudos de levantamento de estoques e de comportamento biológico e ecológico das espécies mais
fortemente exploradas, realizados para a formulação dos planos de manejo de rendimento sustentável
destas espécies (os quais devem se constituir em subprodutos do plano de manejo geral da unidade).
Da mesma forma, devem ser consideradas as pesquisas e informações dos moradores sobre áreas
significativas para a conservação da biodiversidade e de ocorrência de espécies nativas importantes
ou ameaçadas, a fim de se delimitar as áreas de preservação total e de se definir eventuais defesos,
temporais ou espaciais. Para as zonas de uso sustentável sugere-se sua divisão em: áreas de
moradias, equipamentos sociais e expansão urbana; áreas de usos culturais comuns; áreas de
ocupações predominantemente agrícolas e pecuárias; áreas de usos predominantemente extrativistas;
áreas de pesca e de coleta e criação de recursos aquáticos; áreas com potencial para visitação
turística.
Comentário: Como já mencionado neste documento, entre as unidades de uso sustentável previstas no
SNUC, a única para a qual está explicitamente disposto que deverá contar com uma zona de proteção
integral é a RDS. Desta forma, a identificação da área, sua delimitação, o plano de manejo e,
principalmente seu zoneamento, têm que atentar para essa disposição legal. Por outro lado, a sugestão
acima de subdivisão das zonas de uso sustentável considera as especificidades de cada uma delas, facilita
a elaboração das normas para o plano de manejo, seu entendimento e, conseqüentemente, sua aplicação.
Ainda no que se refere às estas zonas, o processo de elaboração do plano de manejo deverá contemplar a
discussão e a definição das normas regulatórias de acesso às áreas de uso dos recursos naturais pela
população local e do entorno, bem como as normas para a entrada de novos ocupantes.

7. Os órgãos das três esferas do poder responsáveis pela execução do SNUC devem prever recursos
orçamentários para ações de apoio à organização social e produtiva das comunidades residentes nas
RDSs. Tais ações devem privilegiar o aprimoramento das práticas e formas de atuação das
organizações já existentes e facilitar a criação de associações, cooperativas, etc. sempre que para isso
101
haja consenso entre os usuários da reserva. Os órgãos devem também apoiar a formação do conselho
deliberativo da RDS, propiciando a plena compreensão dos segmentos locais sobre esse fórum, a
realização de reuniões preparatórias, a elaboração e distribuição de material divulgativo e a
disponibilização de veículos e estruturas necessárias para visitas às localidades envolvidas, inclusive
aquelas de mais difícil acesso. Criado o conselho, os órgãos executores do SNUC deverão
responsabilizar-se pela capacitação específica de seus membros e disponibilizar estruturas e meios
necessários para seu funcionamento regular. Da mesma forma, os órgãos responsáveis pelas RDSs
devem servir como facilitadores na busca de financiamentos para aprimoramento das atividades
econômicas desenvolvidas, bem como nas negociações dos conselhos deliberativos com outras
instâncias públicas, das três esferas do poder, para intentar prover as comunidades de equipamentos
e serviços sociais importantes para a promoção da qualidade de vida local.
Comentário: As unidades de conservação de uso sustentável demandam mais esforços e recursos para
sua implantação do que as de proteção integral, dado que, além de protegerem áreas representativas de
ecossistemas e a biodiversidade, envolvem populações humanas, cuja qualidade de vida deve ser
assegurada e incrementada após a criação da unidade, conforme a legislação do SNUC. Atualmente o que
se nota é a crítica ausência de recursos e de pessoal capacitado para atendimento das demandas das
unidades de conservação de uso sustentável, o que pode determinar o próprio comprometimento do
conceito desta categoria de manejo. Após a criação da reserva, pouco tem sido realizado para promover o
desenvolvimento em bases sustentáveis, a capacitação dos moradores para a gestão compartilhada e a
proteção da área contra agressões ambientais. Tal quadro, por sua vez, tem suscitado a reação de grupos
ambientalistas que ensejam denunciar a ineficácia das RDSs e Resex enquanto instrumentos de
conservação ambiental, e mesmo de desenvolvimento humano, sem procurar entender que os resultados
observados são decorrência, em grande parte, do abandono a que estas áreas têm sido relegadas.

8. A fiscalização e o monitoramento das RDS devem ser de responsabilidade compartilhada entre os


órgãos administradores e as comunidades locais, representadas pelo seu conselho gestor. Sugere-se
que este fórum seja co-responsável pela definição dos protocolos de monitoramento e fiscalização da
unidade, respeitando-se suas especificidades, bem como seja responsável pela nomeação e
administração do contingente de moradores voluntários envolvidos com estas atividades. Sugere-se
também que a vigilância das zonas de usos sustentável seja de responsabilidade dos moradores e de
agentes dos órgãos públicos, recaindo nesses últimos a exclusividade nas tarefas de fiscalização das
zonas de preservação total.
Comentário: Considerando-se que o artigo vinte e três da lei do SNUC, em seu parágrafo primeiro, determina
que as populações das RDSs, assim como das Resex, se obrigam “a participar da preservação, recuperação,
defesa e manutenção da unidade de conservação” e considerando-se que o artigo vinte da mesma lei, em seu
parágrafo quarto dispõe que a Reserva de Desenvolvimento Sustentável será gerida por um conselho
deliberativo, formado, entre outros, por representantes da população residente na área protegida, sugere-se que
esse colegiado seja formalmente co-responsável pelas funções de fiscalização e monitoramento da unidade. As
zonas de preservação total, dado tratarem-se de áreas protegidas para a conservação da biodiversidade,
representam um interesse da sociedade como um todo, cabendo aos órgãos públicos zelar pela sua integridade.
No mais, as ameaças a essas zonas devem, teoricamente, partir de atores externos à reserva, demandando a
atuação de agentes treinados para a minimização de impactos e conflitos.

102
ANEXO I

OFICINA

DIÁLOGOS SOBRE RESERVA DE DESENVOLVIMENTO SUSTENTADO


(14 de fevereiro de 2006)

LISTA DOS PARTICIPANTES


TABELA ORIENTAÇÃO DA DICUSSÃO COM REGISTROS DAS CONTRIBUIÇÕES
ESTENOTIPIA DO EVENTO

103
OFICINA “DIÁLOGOS SOBRE RESERVA DE DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL: PROPOSIÇÃO DE REGULAMENTAÇÃO”
LISTA DOS PARTICIPANTES
Nome Organização Correio Eletrônico
André Rodolfo de Lima ISA alima@socioambiental.org.br

Antonio Oviedo WWF-Brasil Antonio@wwf.org.br

Atanagildo CNS gatão444@hotmail.com / cnsbelem@terra.com.br

Claudio C. Maretti WWF-Brasil Claudio@wwf.org.br

Fernando Vasconcelos de Araújo WWF-Brasil fvasconcelos@wwf.org.br

Secretaria de Estado do Meio


Francisco Ademar da Silva Ambiente e Desenvolvimento seae_sds@yahoo.com.br
Sustentável - SDS/AM

Henyo Barreto IEB - Brasília beca@iieb.org.br

Instituto de Desenvolvimento
Isabel Sousa isabel@mamiraua.org.br
Sustentável Mamiraua
Secretaria de Estado do Meio
Jessejames Costa jessejames@sema.ap.gov.br
Ambiente - SEMA

Ligia Simonian UFPA ligiasimonian@ig.com.br / simonian@ufpa.br

Lucila Pinsard Vianna lulupv@uol.com.br

Marcelo Ivan Pantoja Creão WWF-Brasil marcelocreao@wwf.org.br

Marcos Roberto Pinheiro WWF-Brasil marcos@wwf.org.br

Marisete Ines Santin Cattapan WWF-Brasil marisete@wwf.org.br

Maurício Mercadante DAP-SBF-MMA mauricio.mercadante@mma.gov.br

Paulo Oliveira Junior Ibama CNPT paulo.oliveira-junior@ibama.gov.br

Raquel Carvalho de Lima TNC - Conservação Internacional r.carvalho@conservation.org.br

Renato R. Sales rivabendesales@uol.com.br

Sônia Maria Pereira Wiedmann Ibama soniwied@terra.com.br

Ronaldo Weigand
UCP/MMA ronaldo.weigand@mma.gov.br

Danielle Calandino UCP/MMA danielle.silva@mma.gov.br

Rita Mesquita SDS/MMA rita@buriti.com.br

104
OFICINA "DIÁLOGOS SOBRE RESERVA DE DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL: PROPOSIÇÃO DE
REGULAMENTAÇÃO"

Tabela Orientadora da Discussão dos Grupos


Anotações Fleep Chart

Processo de Criação
Condicionantes Pontos Favoráveis Pontos Contrários
Ocorrência de populações
locais, residentes na área Entendimento de que devem Não é necessário que haja
alvo de proteção, que ser residentes a partir moradores no interior.
dependam diretamente da do termo abrigar, que Interpretação de abrigar
exploração de espaços e consta na lei. É pode ser usada para
recursos naturais para sua importante que seja usuários também;
reprodução sócio-cultural, definido que devem Flexibilizar – incluir a
que detenham morar, para criar maior possibilidade de abrigar
conhecimento prático responsabilidade e os usuários; ou incluir a
sobre as características compromisso dos possibilidade dos
dos ecossistemas locais beneficiários com a residentes na zona de
e que utilizem formas unidade de amortecimento – talvez
pouco impactantes de conservação isto possa ser
utilização ou exploração de Definição de comunidades considerado, a zona de
seus recursos. locais para serem amortecimento!!!!.
beneficíárias, com Substituir “formas” por
descrição de suas “modalidade”; consenso
características, que são Substituir “pouco
de comunidade impactantes” por
tradicional, mas não “relativamente
reafirmam o tema, que é impactantes” –
polemico consenso
Acrescentar teórico relativo Substituir população local
à conhecimento das por população
populações tradicionais tradicional
- consenso

105
Condicionantes Pontos Favoráveis Pontos Contrários
Ocorrência, entre as Dificuldade de determinar
populações residentes na Sugestão : acrescentar predominantemente;
área alvo de proteção, de atividades de Não deve ser exclusivo
atividades econômicas subsistência/familiar –
não predominantemente não foi consenso
extrativistas de recursos
naturais. Reescrever – não ser
extrativista não deve ser
enfatizado

Grau mínimo de organização Incluir idéia de consenso/coesão é preciso colaborar com a


sócio-produtiva, mesmo – substituir esta idéia pela organização – não deve ser
que informal, das grau mínimo de organização condicionante;
comunidades moradoras, o - consenso a decretação da unidade de
qual permita sua efetiva conservação pode ser
participação nas práticas instrumento de incentivo à
de gestão desta categoria organização
de gestão de unidade de a viabilização de unidades de
conservação. conservação sustentáveis
são processos em
construção, não dá para
condicionar a organização,
que faz parte deste
processo.

106
Condicionantes Pontos Favoráveis Pontos Contrários
Ocorrência de áreas Juntar com a 5
representativas de
ecossistemas com Substituir áreas
satisfatória qualidade representativas de
ambiental, não ecossistemas com
significativamente satisfatória qualidade
impactados pelas ambiental por relevância
atividades historicamente ecológica – consenso
desenvolvidas e com Considerar importância
possibilidade de ecológica , significado
recuperação de parte das da natureza/paisagem,
áreas que se apresentem para a população local -
degradadas. consenso

Existência de área com


importância ecológica e
com ocorrência de
biodiversidade significativa
para preservação, com
possibilidade de sua
demarcação como zona de
proteção integral.

107
Condicionantes Pontos Favoráveis Pontos Contrários
Realização de consultas Acrescentar que deve ser consulta publica não deve
públicas, para criação de feita o registro e ser regulamentada por
RDS, específicas para os sistematização de todo categoria, e sim de
usuários (residentes no o processo. modo geral
interior ou entorno
imediato) da área a ser Pertinência de tratar
protegida, assim como consulta publica na
consultas públicas mais regulamentação,
amplas, envolvendo todos considerando que RDS
os segmentos envolve população
interessados, notadamente diretamente, que se
os órgãos públicos torna responsável pela
responsáveis pelas área.
estruturas e serviços
sociais. Para ambos os
casos as consultas
públicas devem se
constituir em processos
(levantamento de
informações,
esclarecimento sobre as
causas e conseqüências,
estabelecimento de vias de
comunicação e
negociação, diminuição de
conflitos de interesses).
Encaminhamento de abaixo- Anuência é interessante, Não dá para ser
assinado com adesão de, mas sem tanto condicionante, pode
pelo menos, a maioria detalhamento. Incluir atropelar o ritmo da
simples dos moradores “manifestação por população;
maiores de idade da área escrito”.- Impossível determinar
do interior da futura RDS maioria simples –
contendo: solicitação para
criação da unidade de
conservação; ciência sobre
as causas e conseqüências
relacionadas à criação da
reserva; comprometimento
preliminar em assumir
responsabilidades e
compromissos inerentes à
gestão da área.

108
Condicionantes Pontos Favoráveis Pontos Contrários
Delimitação da área, no 9 Redação ambígua;
processo de consulta 9 Ampliar a delimitação
pública, considerando para para além do uso
a zona de uso antrópico antrópico
(ou uso sustentável,
conforme a Lei do Snuc)
uma estimativa preliminar
da proporção entre o
número de famílias
usuárias e o espaço
necessário para sua
reprodução sócio-
cultural e melhoria da
qualidade de vida, assim
como para viabilização da
efetiva participação dos
usuários na gestão
(administração,
monitoramento, controle...)
da unidade de
conservação.

TENHO DUVIDAS – TALVEZ A


AREA DE USO ANTRÓPICO
NÃO PRECISA SER DEFINIDA
PARA A CRIAÇÃO
Nos casos em que as famílias Este item diferencia a RDS não da para ter proprietários
residentes na área alvo de da RESEX, pois admite particulares –
proteção apresentem as a propriedade privada, preocupação com as
características descritas na ainda que em casos relações de poder entre
condicionante nº. 1, muito específicos; proprietários e
detenham títulos de Substituir títulos de comunidade;
propriedade das terras, propriedade das terras
demandem a criação de por documentos Propriedade pode ser
uma reserva de uso comprobatórios;- vendida- para quem???
sustentável e não queiram consenso
ter suas áreas Acrescentar “de acordo
desapropriadas, deverá com os objetivos da
prevalecer a categoria RDS” ao final da
RDS, em detrimento de proposição;
ResEx, mesmo que as Abre brecha para
atividades tradicionalmente descaracterizar se
desenvolvidas sejam houver venda das terras
conceituadas como – mas informação do
predominantemente André Lima é que se a
extrativistas. venda for feita para
populações que não se
enquadre nas
109
Condicionantes Pontos Favoráveis Pontos Contrários
características definidas
para as populações que
tem permissão de
manter a propriedade
privada, deve ser
desapropriado. O medo
porém é que isto não
aconteça;

OFICINA "DIÁLOGOS SOBRE RESERVA DE DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL: PROPOSIÇÃO DE


REGULAMENTAÇÃO"

TABELA ORIENTADORA DA DISCUSSÃO DOS GRUPOS

Implantação & Gestão da Reserva de Desenvolvimento Sustentável

Diretrizes Pontos Favoráveis Pontos Contrários


As atividades econômicas Não discutidas durante a oficina
desenvolvidas em uma
RDS devem, até a
elaboração de seu plano
de manejo, se restringir
àquelas já desenvolvidas
historicamente pelas
comunidades locais,
cabendo, entretanto,
esforços para seu
aprimoramento,
notadamente no que diz
respeito à sustentabilidade
ambiental, aumento de
produtividade, agregação
de valor às mercadorias
produzidas e detecção de
formas mais rentáveis de
comercialização da
produção e de prestação
de serviços. Após os
estudos que irão embasar
a elaboração do plano de
110
manejo e o zoneamento
da unidade de
conservação, se surgirem
indicações de novas
alternativas econômicas,
estas deverão estar de
acordo com a lei do Snuc e
dos demais instrumentos
da legislação ambiental e
deverão ser geridas
diretamente pelas
famílias ou organizações
locais, as quais deverão
ser suas principais
beneficiárias.

Nos casos de famílias


residentes no interior da
RDS, que concordaram
com sua criação e
implantação e possuam
documentos
comprobatórios de
dominialidade de suas
áreas de moradia ou
exploração econômica, os
órgãos competentes
deverão firmar com seus
representantes termos de
compromisso, de acordo
com o artigo trigésimo
nono do capítulo IX do
Decreto 4.340/2002, como
forma de garantir que as
normas do plano de
manejo e o zoneamento da
unidade de conservação
sejam devidamente
cumpridas. Para os casos
de moradores não
detentores de
documentos
comprobatórios de
dominialidade das terras
que utilizam, deverá
prevalecer o artigo décimo
terceiro do Decreto
4.340/2002 (que
regulamenta o artigo vinte
111
e três da lei do Snuc), o
qual prevê a assinatura de
contrato de concessão
de uso de terras públicas
e de respectivo termo de
compromisso, específico
para tais situações.

Nos casos em que os


resultados dos estudos
técnicos e das consultas
públicas indicarem a
importância de
incorporação de terras
privadas à RDS, cujos
proprietários tenham
interesses conflitantes
com aqueles das
comunidades locais ou
ainda que tenham
interesses e formas de
ocupação conflitantes
com os objetivos
ambientais da RDS,
caberá aos órgãos
competentes
providenciar sua
desapropriação, ou a
intervenção do Ministério
Público para que com seus
proprietários sejam
assinados termos de
compromisso sobre os
usos dos imóveis. Sugere-
se que tais termos de
compromisso sejam
embasados pelo disposto
no artigo trigésimo nono do
capítulo IX do Decreto
4.340/2002, que
regulamenta o Snuc –
112
apesar de tal capítulo
tratar, originalmente,
apenas de populações
tradicionais em unidades
de conservação de
proteção integral.

Formação de conselho
gestor deliberativo
objetivando a participação
do maior número de
representantes dos
moradores e usuários da
RDS, além de
representantes de
organizações da sociedade
civil regional e de órgãos
públicos competentes das
três esferas de poder. Os
setores produtivos
regionais e do entorno
imediato da unidade de
conservação, cujos
interesses sejam distintos
daqueles das comunidades
locais, devem criar um
comitê próprio para
escolha de apenas um
representante com direito
a assento nesse fórum.

113
O plano de manejo da RDS
deve ser elaborado de
forma participativa e
oferecer orientação
prática aos moradores e
gestores, tanto na gestão
da unidade de
conservação, quanto no
planejamento das
atividades de conservação
ambiental e de promoção
da qualidade de vida das
comunidades locais. Deve
se basear em dados
secundários, pesquisas
ou estudos expeditos e
no conhecimento
acumulado pelos
moradores. Este primeiro
esforço já permite uma
primeira versão formal e a
identificação de lacunas de
conhecimento. Deve,
portanto, também ter
caráter dinâmico, sendo
incorporadas,
periodicamente, novas
normas e recomendações
a partir de pesquisas
técnicas e científicas e do
monitoramento das
atividades e das decisões
tomadas. Sendo uma RDS,
o plano de manejo deve
contemplar planos de
manejo de rendimento
sustentável para os
recursos naturais mais
explorados e planos de
negócio para os
principais produtos. Por
fim, deve indicar uma
relação de pesquisas para
melhoria da gestão.

114
O zoneamento de RDS deve
ser elaborado de forma
participativa e
contemplar zonas de
proteção integral e de
uso sustentável, além de
amortecimento e
corredores ecológicos (§ 6°
do artigo 20 da Lei do
Snuc). Devem ser
consideradas as
informações sobre a
dinâmica de utilização
econômica e cultural dos
espaços e recursos
naturais da área, dinâmica
territorial da população,
definição do número,
densidade e distribuição
dos assentamentos, os
estudos de levantamento
de estoques e de
comportamento biológico
das espécies mais
exploradas. Devem ser
consideradas as
pesquisas e informações
dos moradores sobre
áreas significativas para a
conservação da
biodiversidade, a fim de se
delimitar as áreas de
preservação e de se definir
eventuais defesos. Para as
zonas de uso sustentável
sugere-se sua divisão em:
áreas de moradias,
equipamentos sociais e
expansão urbana; áreas de
usos culturais comuns;
áreas de ocupações
agrícolas e pecuárias;
áreas de usos extrativistas;
áreas de pesca e de coleta
e criação de recursos
aquáticos; áreas para
visitação turística.

115
Os órgãos responsáveis pela
execução do Snuc devem
prever recursos
orçamentários para ações
de apoio à organização
social e produtiva das
comunidades residentes.
Tais ações devem
privilegiar o aprimoramento
das práticas e formas de
atuação das organizações
já existentes e facilitar a
criação de associações,
cooperativas, etc. Os
órgãos devem também
apoiar a formação do
conselho deliberativo.
Criado o conselho gestor,
os órgãos executores do
Snuc deverão
responsabilizar-se pela
capacitação específica de
seus membros e
disponibilizar estruturas e
meios necessários para
seu funcionamento
regular. Os órgãos
responsáveis pelas RDSs
devem servir como
facilitadores na busca de
financiamentos para
aprimoramento das
atividades econômicas,
bem como nas
negociações dos conselhos
deliberativos com outras
instâncias públicas, para
prover as comunidades
de equipamentos e
serviços sociais
importantes para a
promoção da qualidade de
vida local.

116
A fiscalização e o
monitoramento das RDS
devem ser de
responsabilidade
compartilhada entre os
órgãos administradores e
as comunidades locais,
representadas pelo seu
conselho gestor. Sugere-se
que este fórum seja co-
responsável pela definição
dos protocolos de
monitoramento e
fiscalização da unidade de
conservação, respeitando-
se suas especificidades,
bem como seja
responsável pela
nomeação e administração
do contingente de
moradores voluntários
envolvidos com estas
atividades. Sugere-se
também que a vigilância
das zonas de usos
sustentável seja de
responsabilidade dos
moradores e de agentes
dos órgãos públicos,
recaindo nesses últimos
a exclusividade nas
tarefas de fiscalização das
zonas de proteção
integral.

117
WWF BRASIL

ESTINOTIPIA

OFICINA: “DIÁLOGOS SOBRE RESERVA DE DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL:


PROPOSIÇÃO DE REGULAMENTAÇÃO”

Hotel Confort Suítes


Brasília-DF

14 de fevereiro de 2006

(Transcrição ipsis verbis)

118
O SR. FERNANDO VASCONCELOS DE ARAÚJO (WWF-Brasil) – Vamos dar início aos
nossos trabalhos. Bom-dia a todos. Eu convido vocês a tomarem assento. Nós vamos compor
aqui uma pequena Mesa de abertura. Eu vou convidar aqui algumas pessoas, com o apoio do
Cláudio, para compor, para nós fazermos um pequeno bate-papo inicial. Primeiro, eu vou
convidar o meu chefe, que é o Cláudio Maretti. Eu queria pedir também ao Paulo Oliveira para
fazer essa pequena abertura. O Jesse também, por favor; o Ademar também, por favor; o
Maurício Mercadante, diretor de Áreas Protegidas do Ministério do Meio Ambiente também deve
estar se deslocando... Se chegar, nós compomos também a Mesa com a presença dele, claro. O
meu nome é Fernando. Eu falei com vários de vocês por e-mail e alguns por telefone. Eu estou à
disposição de vocês ao longo do dia para qualquer coisa que vocês precisarem. Então, Cláudio.
Ante, só mais um esclarecimento: nós estamos gravando, e vai ter um registro mais detalhado
sobre a reunião. E qualquer intervenção, eu vou pedir, por favor, para vocês usarem sempre o
microfone. Obrigado. Cláudio.

O SR. CLÁUDIO MARETTI (WWF-Brasil) – Bom-dia. Sem grandes formalidades, até porque
nós conhecemos quase todos e estamos em número pequeno aqui. Eu, como anfitrião, obro e
vou deixar aqui os colegas do Estado. Nós terminaríamos com o Ministério, mas o Maurício
Mercadante confirmou a presença e ainda não chegou. Então, nós terminamos com o
representante do Governo Federal, Paulo Oliveira, que é futuro diretor do Desenvolvimento
Sócio-Ambiental do IBAMA. Gente, bem-vindos. O que eu quero dizer basicamente é o seguinte:
esse é um programa do WWF-Brasil, que é voltado para o apoio ao ARPA. Na verdade, nós
fazemos uma contribuição a essa parceria, esse consórcio liderado pelo Governo Brasileiro, pelo
Ministério do Meio Ambiente, com participação fundamental do IBAMA de sete Estados da
Amazônia, entre os quais o Amazonas e o Amapá, mas nós também temos atividades
complementares, além de uma doação, que hoje está chegando perto de 14 milhões de dólares
só do WWF. Essas atividades complementarmos incluem análises, apoios para o que nós
chamamos de sustentabilidade em longo prazo, entre elas nós temos capacitação e atividades
de apoio ao Plano Nacional de Áreas Protegidas e algumas coisas que nós achamos
fundamentais. Uma primeira iniciativa desse tipo foi com o Ministério do Meio Ambiente,
Diretrizes para Consulta Pública e Conselho de Gestão. Essa é uma segunda iniciativa porque
nós achamos que a categoria Reserva Desenvolvimento Sustentável é aquela que está mais
precisando de diretrizes, porque ela é menos compreendida, a história dela é menor, ela é a
menos compreendida e tem sido muito usada, sobretudo, em alguns Estados da Amazônia, mas
nós pretendemos continuar com outros temas neste ano e no próximo ano. Então, é com muito
prazer que nós estamos recebendo vocês. Nós convidamos seletivamente algumas pessoas.
Tinha um número maior de confirmação, mas a idéia sempre era de uma oficina reduzida. Então,
se o Fernando puder passar o próximo diapositivo só para dizer dos objetivos deste evento. Na
verdade, a grande preocupação nossa é sedimentar reflexões sobre a categoria RDS. O WWF-
Brasil não tem legitimidade para fazer uma proposta de regulamentação formal. Nós podemos
fazer qualquer proposta para os governos de Estados, mas nós achamos que é mais
interessante avançar no processo de reflexão e deixar aos órgãos competentes fazer o processo
oficial depois. Então, nós vamos pretender sair daqui hoje com diretrizes para uma
regulamentação da categoria RDS, mas isso não implica que esta reunião obrigatoriamente vai
fechar um consenso, nem que os órgãos oficiais aqui presentes se obriguem a respeitar o que
sai da reunião, nem muito menos as opiniões do WWF-Brasil. Então, a idéia do evento é
basicamente discutir, fazer um trabalho coletivo, trocar idéias preexistentes, avançar nas
reflexões de forma a oferecer um trabalho e que depois os órgãos competentes possam usar ou
não, se preferirem, isso para suas propostas oficiais de regulamentação. Então, para ser breve e
curto para nós passarmos para os trabalhos técnicos, é com muito prazer que nós temos aqui
colegas de universidades, especialistas, representantes dos órgãos de gestão, outras ONGs

119
ambientalistas, os colegas que fizeram o trabalho e, sobretudo, os representantes
governamentais. Então, eu passo a palavra para o Jesse e depois seguimos aqui e terminamos
com a autoridade federal, com o Paulo.

O SR. JESSEJAMES COSTA (Secretaria de Estado do Meio Ambiente - SEMA) – Bom-dia a


todos. É importante este evento. Nós que estamos que na ponta, que vivemos RDS, nós
sabemos da pressão que nós sofremos dentro da RDS e fora da RDS. E quando nós temos uma
lei que é um pouco ambígua, que deixa várias interpretações e não tem uma definição clara da
lei, isso nos deixa um pouco fragilizados na ponta para mantermos a integridade da Unidade de
Conservação. Então, essa atitude do WWF, desde o ano passado, no Amapá, onde foi nos
entrevistar, ela iniciou praticamente esse processo, e chegando aqui nesta oficina, eu acredito
que hoje nós possamos, como o Cláudio falou, não ter uma proposta fundamentada, finalizada,
mas que seja o início para que possamos ter uma discussão para uma nova regulamentação
dessa nossa legislação, que nossas RDSs é muito frágil em relação ao que está escrito, tem
alguns poréns que deixam muitas dúvidas e fica muito fácil de ter abertura para ações judiciais
ou até pessoas, políticos intervirem na RDS sem nós podermos fazer nada porque a
interpretação da lei permite. Então, esse processo iniciando hoje, eu acredito que seja um passo
para que possamos ter algo mais fechado nas RDSs, eu acredito bastante, inclusive estou de
férias; adiei um pouco as minhas férias para estar aqui, porque eu não poderia perder esta
discussão.

O SR. FRANCISCO ADEMAR DA SILVA (Secretaria de Estado do Meio Ambiente e


Desenvolvimento Sustentável - SDS/AM) – Bom-dia a todos. Para quem não me conhece, eu
sou Ademar. Trabalho hoje no Governo do Estado do Amazonas como secretário-adjunto. É uma
satisfação muito grande poder participar deste evento, que eu acho que vai contribuir muito
numa concepção mais geral nesse modelo de Unidade de Conservação conhecido como RDS.
Eu queria parabenizar o WWF por essa iniciativa, que eu acho que iniciativa como essa ajuda
um pouco a amadurecer e consolidar aquelas lacunas que, às vezes, ficam na lei e, às vezes,
são mal interpretadas por alguns, fazem até de propósito isso. A nossa contribuição aqui nesse
sentido é dizer que o Estado do Amazonas tem adotado essa Unidade de Conservação como
uma das principais iniciativas para a proteção da biodiversidade e para ajudar o desenvolvimento
socioeconômico das populações tradicionais da região amazônica, do Estado do Amazonas em
particular. E hoje nós estamos com quase 50% das Unidades de Conservação criadas no
Estado, são RDS. Na verdade, nós entendemos que a RDS deveria talvez, na interpretação de
alguns, ser um caminho para chegar até quem sabe a uma RESEX. As populações precisavam
amadurecer. Então, se você cria uma RESEX de cara, talvez tenha grandes problemas, como
tem acontecido, principalmente a questão fundiária. Talvez a RDS fosse um caminho para
amadurecer a chegada de uma RESEX, porque a RESEX é um impacto que se dá num
ambiente no geral, mas essa não foi a intenção da RDS. A intenção da RDS é exatamente ser
uma Unidade de Conservação também assim como as RESEX para garantir a sustentabilidade
das populações que ali vivem. Mas o grande problema que fica nessa questão é a questão da
desapropriação. A população tradicional da região Amazônica, do Estado do Amazonas, em
particular, tem um conflito direto praticamente com a predominância da terra. Então, a RDS não
dá essa garantia e coloca uma interrogação que “caso seja necessário”. E esse “caso seja
necessário” muitas vezes o Governo não tem dinheiro, tem outras prioridades, e isso fica para
depois. Então, esse para mim é o principal problema que nós encontramos na RDS, que é a
questão fundiária, que a RDS, na sua lei, permite a permanência de propriedade particular
dentro das Unidades de Conservação . E isso, muitas das vezes, os proprietários chegam e
querem... Não deixam a população usufruir dos produtos, por exemplo, da castanha, etc., porque
eles se dizem donos da propriedade. E isso gera um conflito entre a população, que acham que

120
o Governo conseguiu criar uma lei para ajudar a eles a resolver um problema de sobrevivência
deles na floresta, mas o proprietário não permite a entrada dessas populações para colher
produtos. Por exemplo, em PH Supurus, nós estamos tendo um problema muito sério com uma
propriedade lá, que um Secretário do Meio Ambiente do município tem uma grande propriedade
dentro da reserva, e não permite as populações colherem a castanha. Então, eu acho que essa
modalidade precisa avançar nessa leitura. Essa leitura é uma leitura que está muito fragmentada
nas suas interpretações, e deixa a desejar naquele aspecto, eu diria, para a população local, não
para a preservação, no que diz respeito a colher os produtos, a sobreviver daquilo ali, parece-me
que fica ainda muito frágil essa coisa. Então, eu acho que esse é um ponto que na minha
avaliação esta oficina deveria trabalhar, avançar também nesse aspecto, apesar de que aqui nós
não temos ainda a predominância jurídica de avançar nisso, mas criar mecanismos e propostas
para avançar, para nós tentarmos ver o que nós podemos amenizar dessa situação desses
conflitos. Então, a RDS, nesse aspecto, ela não ameniza, pelo contrário, ela aumenta os
conflitos. E a outra coisa, para finalizar na questão da RDS: eu acho que uma coisa é importante,
a RDS, o Governo vai criando por uma questão de que não custa muito caro para os cofres
públicos porque não vai ter que desembolsar nada de imediato. As reservas extrativistas já têm
essa questão da indenização, e aí os governos param porque têm mil e uma prioridades. Então,
eles acham que a indenização de terras para particulares não vêm ao caso agora. Então, por
isso que muitas das vezes no Estado do Amazonas hoje nós temos poucas reservas extrativistas
em relação às RDSs. Nós temos um volume de RDs muito grande no Estado. Na verdade, eu
acho que bom, por quê? O Estado do Amazonas avançou muito nesse aspecto de Unidades de
Conservação , porque bom ou ruim, mas reservas de desenvolvimento sustentável, elas trazem
uma questão de amenizar, o conforto daquela população que, às vezes, não sabe para aonde
vai. E na medida em que você cria uma RDS, você começa a ter um Conselho que começa a
discutir, você tem uma associação que começa a se reunir e isso facilita então a concepção da
preservação e do desenvolvimento sustentável. Então, seria de imediato... O Governo do Estado
do Amazonas está aberto para discutir, para dialogar para o amadurecimento dessa categoria,
que em nosso ver, ela também importante para a preservação do meio ambiente. Muito
obrigado.

O SR. PAULO OLIVEIRA JUNIOR (IBAMA/CNPT) – Bom-dia a todos. Eu queria agradecer à


WWF pelo convite e mais do que isso, pela iniciativa de trazer neste diálogo “inicial”, mais para o
debate a partir de um esforço que foi feito de entrevista, de sistematização e de pesquisa das
diferentes três iniciativas e mais as entrevistas com os órgãos responsáveis pela questão da
criação e gestão de RDS para essa conversa que eu tenho como ainda intermediária, um
momento intermediário que nós vamos estar certamente aproveitando e ampliando esses
debates. Eu queria ter esse compromisso aqui colocado e firmado com vocês que estão aqui
presentes e junto também com as organizações que você representa. Para nós do IBAMA,
especificamente para nós hoje do CNPT, as RDSs são objeto do nosso trabalho também. O
CNPT, vocês sabem que tem uma história toda construída em cima das reservas extrativistas. E
quando há um ano e cinco meses atrás eu assumi essa função que hoje eu estou, o desafio e a
pressão dos movimentos sociais eram para ter um tipo de entendimento entre RESEX e RDS de
que as RESEX seriam federais e as RDS estaduais. Eu estou trazendo aqui para vocês um
primeiro debate que me surgiu e que me espantou porque de onde eu vinha, lá do Marajó, nós já
estávamos iniciando uma discussão e já estávamos tendo uma iniciativa, e aqui eu gostaria de
registrar com o apoio da Conservation, da CA, de uma RDS municipal, no município de Gurupá,
especificamente na Ilha Grande de Gurupá, que foi protocolado no IBAMA, depois de esgotadas
as discussões e vistos os limites da própria gestão municipal enquanto o SISNAMA ainda não
está devidamente implantado, quer dizer, os próprios limites da gestão municipal de estar
fazendo a gestão e a criação... Não tanto a criação, mas muito mais a própria gestão dessa

121
categoria. E por que uma RDS? Eu acho que esse é o elemento que eu gostaria de trazer como
contribuição e já inclusive coloquei na entrevista que me foi feita, por que uma RDS? E nós
trouxemos isso para o nível federal e conseguimos criar a primeira RDS federal exatamente a
partir dessa experiência, fizemos um exercício puramente conceitual - eu gostaria de deixar isso
também registrado - em cima de dois elementos centrais: o primeiro elemento de que
necessariamente - essa daí é a nossa leitura - as RDSs, as populações tradicionais estão
abrigadas nessa cataria de Unidade de Conservação, ou seja, necessariamente elas têm que
estar habitando a Unidade de Conservação; e segundo, havia uma única propriedade particular
dentro dessa área, desse território, dessa localidade da Ilha Grande de Gurupá. Uma
propriedade particular que vem desde títulos paroquiais e que a família vem cumprindo à risca
toda a legislação e apresentando aos órgãos públicos a partir daqueles inúmeros decretos, leis,
portarias e tudo mais, vinha apresentando todos os documentos e vem se regulando
sistematicamente, inclusive no que diz respeito à legislação, e se eu me recordo bem, a
legislação de 95, que o Governo do Pará baixou para a apresentação da documentação para a
legitimidade do título, que foi algo que é contestado até hoje, porque não foi devidamente
divulgado e tudo mais, mas até essa família cumpriu. Que família que é essa? Uma família que
tem 300 hectares, absolutamente ribeirinha, com o mesmo tipo de trabalho, a mesma lógica
produtiva, o mesmo tipo de organização familiar, compadre e todo mundo, quer dizer,
absolutamente integrada àquela sociedade, àquele ambiente e compunha aquela territorialidade
que o decreto manifestou no momento da sua criação. E em consulta pública todo mundo foi
favorável a não ter a desapropriação porque os legítimos, digamos assim, proprietários tiveram
um esforço por gerações da família de estarem legalizando aquele seu pedaço de terra. Então,
nesse sentido, nós fizemos sim, trouxemos para esse exercício conceitual e estamos hoje no
desafio da gestão desse exercício conceitual. Então, a contribuição que nós estamos trazendo
para cá é dessa única experiência em nível federal, uma experiência que para nós está sendo
extremamente interessante. Há outras demandas de RDS que nós estamos colocando para
debate com a sociedade local da validade... Eu não quero chamar atenção aqui, por exemplo,
para Caravelas, na Bahia, é um exemplo claro de uma intenção de uma RDS, mas que na hora
que nós vamos lá fazer o debate com o pessoal, o pessoal fala: “Não, nós não queremos, e
queremos que esse sujeito ou essa família, esse proprietário seja desapropriado”. A nossa
postura está sendo de ir, portanto, para a reserva extrativista quando há essa manifestação nas
consultas que estão sendo realizadas. E Caravela tem um outro detalhe, que é o mangue, é área
de manguezais e que, portanto, a população não mora dentro do mangue, mora fora do mangue.
Nesse sentido também, por outro entendimento que nós temos, a RESEX seria o mais
adequado. Só para vocês terem uma idéia, essa propriedade privada é geradora de um conflito
de implantação de um grande projeto de carcinicultura no sul da Bahia, portanto, dentro dessa
lógica e dessa visão do trabalho, do próprio exercício conceitual mesmo e a perspectiva que nós
temos para as RDSs, nós estamos fazendo a opção de RESEX, o que está gerando uma série
de debates e de conflitos com as autoridades municipais, grupos econômicos interessados
naquela área, mas nós estamos enfrentando esse debate. E essa iniciativa da WWF junto com
os demais parceiros só vem a alimentar toda a expectativa que nós temos para partir
rapidamente para a regulamentação. Eu gostaria de anunciar também que a partir dos dias 6 a
15 de março, 120 técnicos e técnicas do CNPT do Brasil todo vão estar reunidos. E um dos
temas vai ser a questão da regulamentação das duas categorias que estão hoje sob a nossa
responsabilidade das RESEX e das RDSs. Então, o material que sair aqui desta oficina, Cláudio,
nós levaremos assim com todo ímpeto para um debate mais ampliado em nível dos técnicos. Eu
quero também ressaltar que nós teremos um outro momento com os movimentos sociais, onde
nós temos esse compromisso... Eu trago aqui mesmo um compromisso com vocês de esse
material que sair daqui desta oficina, nós darmos uma amplificação nesses fóruns que nós
vamos estar trabalhando. Esses fóruns são preparatórios junto com o pessoal da educação

122
ambiental da criação da nova diretoria, que faz um ano e cinco meses que nós estamos
esperando que ela saia, mas agora está na reta final, já foi para a Casa Civil ontem. Então,
esperamos que agora seja rápido. Muito obrigado pelo convite e vamos estar aí participando do
debate junto com todos.

O SR. FERNANDO VASCONCELOS DE ARAÚJO (WWF-Brasil ) – Eu agradeço as palavras


do Doutor Paulo. Convido para compor a Mesa, Ronaldo Weigand, coordenador da Unidade de
Coordenação do Projeto do Ministério do Meio Ambiente, unidade responsável pelo programa
Áreas Protegidas do Brasil - ARPA.

O SR. RONALDO WEIGAND JR. (ARPA/SBF/MMA) – Eu agradeço o convite e parabenizo o


empenho dos parceiros na promoção deste evento, especialmente do WWF. Eu acho que a RDS
traz para nós uma série de desafios, porque é um modelo que tem crescido muito, é uma
categoria cuja aplicação cresceu muito, tem uma área muito grande de aplicação. O Estado do
Amazonas especialmente é fã dessa categoria. E de certa forma ter tem mesmo uma indefinição
do que deveria ser, o que é essa categoria e assim por diante. Então, eu vejo que tem uns bons
potenciais para essa categoria. Um deles é preencher uma lacuna, que eu identifico no SNUC
em espectro de Unidade de Conservação. Então, nós temos unidades que são extremamente
restritivas, que são estações ecológicas, reservas biológicas e unidades que permitem até
mesmo a exploração por empresa e assim por diante. Então, no meio disso aí você tem todo um
espectro de categorias de Unidades de Conservação e quase lá no extremo, mas não no
extremo, você tem uma categoria que eu sou fã, que é a reserva extrativista, que ela permite a
gestão. Então, tem a reserva extrativista, que eu acho que não dá para você conversar sobre
RDS sem conversar sobre reserva extrativista. É isso que é interessante, porque as duas se
parecem muito. Então, nós temos que procurar uma diferença porque senão para que adianta ter
dois nomes diferentes e duas categorias diferentes? Então, eu acho que procurar definir RDS é
de certa forma procurar essa diferença. E para mim, a diferença é que reserva extrativista é de
gestão comunitária, de responsabilidade da comunidade. Enquanto as duas permitem o uso
sustentável, na reserva extrativista a gestão deveria ser extremamente comunitária, é onde a
comunidade é responsável pela gestão do seu recurso e não só participante na gestão dos
recursos. Então, ela pode ser penalisada, inclusive por uma má gestão dos recursos. A
associação comunitária poderia perder a concessão, perder direito de manejar aquela RESEX,
não a comunidade em si, mas a associação poderia perder esse direito caso não fizesse um
bom uso da área e não tomasse conta direito da área, enquanto que a RDS poderia ser aquela
área em que as pessoas podem estar lá dentro, mas elas desempenham suas atividades com
supervisão mais próxima do órgão gestor. Então, este é o vazio que está faltando dentro do
SNUC: essa categoria não existe, que é o parque com gente dentro, é o parque que as pessoas
podem utilizar os recursos naturais com supervisão governamental. Nós não criamos isso, não
está bem definido, não está claro em nenhum lugar. Então, esse é um potencial que a RDS tem.
Um outro potencial que a RDS tem é de ser um modelo que não tem como base o extrativismo
de recursos. E aí o nome dá uma abertura de visão maior para você pensar em turismo, pensar
em outras coisas e as reservas extrativistas ficariam mais restritas ao local onde se faz
realmente extração tradicional de recursos. Enfim, eu acho que vai ter bastante conversa sobre
isso, tem o diagnóstico que foi feito. Esses são alguns potenciais que nós identificamos quando
nós temos uma categoria que não está bem delimitada. Nós temos algumas preocupações fortes
no âmbito do Ministério e do Programa ARPA, uma delas está relacionada com o entendimento
sobre a titularidade da terra, se é de domínio público, se não é de domínio público. Pelo menos
no ARPA, nós temos um temor de que se a RDS começa a ser tratada como uma unidade que
não é necessariamente de domínio público, nós estejamos transformando ela numa ARPA, que
é uma categoria que já existe, não precisa de outra igual. Então, é mais uma vez o exercício de

123
definir a RDS pela diferenciação das outras categorias que já existem. Então, eu acho que vai
ser um debate bastante interessante e nós vamos estar acompanhando aqui com bastante
interesse. Obrigado.

O SR. FERNANDO VASCONCELOS DE ARAÚJO (WWF-Brasil ) – Eu agradeço aos


componentes da Mesa, e convido os mesmos a participarem agora aqui do auditório e também
gostaria de apresentar... Tomar esses breves minutos para nós darmos uma olhada na dinâmica
que nós vamos estar trabalhando durante o dia de hoje. Então, com o perdão dos horários que
estão um pouco estourados, nós prosseguimos agora com a apresentação dos trabalhos dos
consultores Lucila e Renato, após o que o André, do ISA, vai dar algumas perspectivas para nós
sobre a análise jurídica que foi feita sobre o assunto. Chamo a atenção de vocês que talvez a
partir das 11h30, nós iniciemos uma sessão de debates e com um pequeno break para o horário
de almoço. Vamos ter então em nível de discussão, mais no final da manhã, um momento de
discussão e no período da tarde, nós pretendemos, havendo e nós trabalhando em grupos, em
quatro grupos de trabalho, um voltado para a criação e outro para a regulamentação... Dois
grupos de cada assunto talvez pelo número de pessoas: um para criação e outro para
regulamentação. Nós vamos fazer inscrições para que as pessoas possam se mobilizar em cada
um desses grupos com outro material de suporte que vamos estar distribuindo. Eu pedir
rapidamente para nós fazermos uma breve rodada de apresentação. O que você acha, Cláudio?
Vamos fazer uma breve rodada de apresentação e ficamos todos nos conhecendo e em seguida
o Renato e Lucila com a palavra.

O SR. RENATO R. SALES – Bom-dia. Meu nome é Renato Sales. Eu sou formado em Ciências
Sociais, Antropologia Social. Trabalho já há uns vinte anos com planejamento regional, com
criação de Unidades de Conservação e também sua regulamentação e gestão.

A Srª. LUCILA PINSARD VIANNA (Consultora) – Oi. Eu sou Lucila Viana. Também sou
antropóloga e estou trabalhando aqui como consultora deste trabalho sobre a RDS.

A SRª. SÔNIA MARIA PEREIRA WIEDMANN (IBAMA) – Bom-dia. Meu nome é Sônia
Wiedmann. Eu sou procurador do IBAMA. E em 2002, junto com o Márcio Aires, nós fizemos
uma primeira tentativa de regulamentação de RDS para o Estado do Amazonas. E esse
documento vai estar disponibilizado para vocês.

A SRª. LÍGIA SIMONIAN (UFPA) – Bom-dia a todos. Eu sou Lígia Simonian. Sou antropóloga,
advogada e professora da Universidade Federal do Núcleo de Altos Estudos Amazônicos, onde
nós temos um doutorado em desenvolvimento do trópico úmido. Tenho trabalhado com
Unidades de Conservação desde meados dos anos 80, comecei no Acre e contínuo nessa área.
Tenho orientado muitas teses de doutorado e dissertação de mestrado sobre Unidades de
Conservação .

O SR. MARCELO IVAN PANTOJA CREÃO (WWF-Brasil) – Bom-dia. Marcelo Creão. Trabalho
no WWF-Brasil, no escritório de Macapá. E lá nós desenvolvemos atividades com várias
categorias de Unidades de Conservação , incluindo o apoio ao Governo do Estado local na RDS
do Iratapuru.

O SR. MARCOS ROBERTO PINHEIRO (WWF - Brasil) – Bom-dia. Meu nome é Marcos
Pinheiro. Também trabalho no WWF. Estou coordenando o escritório em Manaus. E eu estive
envolvido com a criação, espero que com a criação da RESEX do Rio Unini. Esperemos para a
COP deste ano.

124
A SRª. MARISETE INES SANTIN CATAPAN (WWF-Brasil) – Meu nome é Marisete Catapan.
Trabalho no WWF aqui e trabalho há alguns anos já com planejamento de Unidades de
Conservação .

O SR. ANDRÉ RODOLFO LIMA (ISA) – Eu sou André Lima. Sou advogado. Fiz mestrado no
CDS na área de gestão em política ambiental. Eu estou aqui numa dupla qualidade - eu julgo
qualidade -, uma delas é que eu represento o ISA – Instituto Sócio-Ambiental - que foi convidado
a participar do seminário; e a outra eu fui... Como profissional da área jurídica, eu estou fazendo
um trabalho para o WWF de uma análise jurídica sobre a RDS e tentar desenrolar um pouco
esse imbróglio, alguns dos quais foram apresentados aí.

O SR. LUIZ CARLOS PINAGÉ (FUNBIO) – Bom-dia. Meu nome é Luiz Carlos Pinagé. Eu
trabalho do FUNBIO - Fundo Brasileiro para a Biodiversidade, no programa Áreas Protegidas da
Amazônia. O meu contato principalmente é com as RESEX desde o tempo do PDA, depois no
próprio WWF com as RESEX de Rondônia e sempre na área de produção sustentável e
melhoria dos padrões de vida das comunidades.

A SRª. RAQUEL CARVALHO DE LIMA (Conservação Internacional) – Bom-dia. Meu nome é


Raquel Carvalho. Eu sou especialista em áreas protegidas, trabalho no programa Amazônia da
Conservação Internacional. E no Estado do Amazonas, nós temos uma parceria com a
Secretaria de Extrativismo, na implementação da RDS Cujubim.

O SR. HENYO BARRETO (IEB - Brasília) – Henyo Barreto. Também sou antropólogo – e não é
serva de mercado, Paulinho – ex-professor do Departamento de Antropologia da UNB,
aguardando publicação da sua portaria de exoneração, ansiosamente; e atualmente como diretor
acadêmico do IEB, coordenando o programa de Bolsa de Estudos para a Conservação da
Amazônia – BECA.

A SRª. DANIELLE CALANDINO (ARPA/SBF/MMA) – Bom-dia. Meu nome é Danielle Calandino.


Sou técnica da unidade de coordenação do Programa ARPA. Sou responsável pelas unidades
estaduais do Amazonas, do Pará e do Amapá.

A SRª. ISABEL SOUSA (Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamiraua) – Bom-dia. O


meu nome é Isabel Soares de Souza. Eu também sou antropóloga do Pará. Trabalho na
Universidade Federal do Pará. Trabalho na Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá,
há 5 anos. E pelo que eu percebi, já existem parece que dois times, e a RDS como uma
desvantagem, mas eu acredito que as pessoas que torcem por uma ou outra estão baseadas no
SNUC. E eu acho que nós temos que partir da realidade: como é que funciona uma RDS e como
é que funciona uma RESEX para poder chegar a uma definição, a uma regulamentação. O
conceito está muito reduzido ao que está no SNUC e não é isso. Uma RDS é muito mais do que
Unidade de Conservação, conservação da biodiversidade com participação popular, é muito
mais do que isso. Eu espero que nós possamos discutir isso hoje e tentar mudar um pouco a
legislação, adequar essa legislação à realidade. Nós temos uma experiência de RDS de 15 anos
e eu acho que de RESEX também. E alguém falou que não dá para falar de uma sem fazer as
comparações. Então, seria interessante que nós tivéssemos também estudos de casos de como
é que funciona uma RESEX, como é que funciona uma RDS para podermos ver como é que
pode incluir esse funcionamento na legislação, o que é o mais difícil. A legislação sempre reduz
muito os conceitos. Obrigada.

125
O SR. FERNANDO VASCONCELOS DE ARAÚJO (WWF-Brasil) – Obrigado a todos. Eu sou
Fernando, o cara que providenciou uma coluna no meio de vocês. E agora eu passo a palavra
então aos nossos consultores, Renato e Lucila, para a apresentação do primeiro trabalho. Tem
uma lista de presença que está circulando. Eu vou pedir que todos vocês assinem.

A Srª. LUCILA PINSARD VIANNA (Consultora) – Fernando, você vai ficar ali para mim? Então
bom-dia. A idéia é apresentarmos um pouco os resultados dos nossos estudos. Primeiro nós
fizemos um levantamento bibliográfico de dados secundários a respeito de RDS e na seqüência
nós escolhemos três RDSs para ser justamente o estudo de caso, Isabel. E apesar de ser sido
uma pesquisa muito expedita, a idéia era exatamente ver como funciona as RDSs de Mamirauá,
Iratapuru e Ponta Tubarão para estar subsidiando um pouco essa análise nossa a respeito da
categoria. Mamirauá porque é a primeira RDS criada, antes mesmo de ser incorporada pelo
SNUC e, inclusive, uma das inspiradoras da categoria para o SNUC. O Iratapuru foi criada na
seqüência de Mamirauá e também antes da RDS ter sido incorporada pelo SNUC. E Ponta
Tubarão é a única RDS existente que não está na Região Amazônica, então nós também
fizemos questão da estar trabalhando com essa Unidade da Conservação por conta de ter um
outro referencial que não seja a Amazônia, já que nós estamos falando de uma legislação
nacional. O Renato está aqui me lembrando que Ponta Tubarão é costeira. Bom, nós
contratamos três pessoas, um em cada RDS, para estar fazendo um levantamento junto aos
moradores e aos Órgãos Estaduais. No caso de Iratapuru foi o Henrique Gomes, que é de uma
ONG, a HOLOS O Marinho, Raimundo Marinho de Mamirauá e a Telma Dias de Ponta Tubarão.
As entrevistas foram feitas com diversos segmentos, basicamente nós fomos falar com
moradores que participaram, que não participaram da criação, moradores do interior e do
entorno, os Órgãos Públicos Municipais e os Órgãos Gestores também, Institutos de Pesquisa e
Sociedade Civil. O que nós focamos nessas entrevistas? Nós queríamos saber o que as pessoas
achavam do processo de criação, da implantação e da gestão de cada RDS e qual é a
representação que se entende pelo conceito de categoria, que aí nós vemos bem como é a
interpretação do SNUC e é absolutamente dispare, conforme o interlocutor. E o impacto da
criação da RDS, que é uma outra coisa que a gente prestou bastante atenção, quer dizer, o que
a RDS trouxe de fato para conservação da biodiversidade e para população. Ao todo foram dez
entrevistas, além dessas entrevistas em campo, a gente fez entrevistas com especialistas e com
pessoal de Órgão Público responsável pelo CNPT, o ISA, o FUNBIO , enfim, não vou citar todo
mundo aqui. E na seqüência o que nós fizemos? A gente fez uma avaliação das disposições
legais sobre a categoria, fizemos análise dos dados à luz do SNUC e fizemos a proposta de
regulamentação, que é uma proposta preliminar, justamente para gente estar aqui discutindo e
dialogando com todo mundo para depois a gente fazer uma proposta final. Eu vou falar a
respeito dos estudos de caso. Essa parte das disposições legais o André depois vai, inclusive,
abordando um pouco o histórico da inclusão da RDS na Lei. E ainda agora de manhã o Renato
vai estar apresentando, então, a proposta de regulamentação que a gente fez para a categoria,
tentando embarcar todos esses pontos polêmicos já levantados. Ok, então vamos falar um
pouco de Mamirauá. Mamirauá foi criada em 96, mas ela já estava existindo como Unidade de
Conservação desde 91, era uma Estação Ecológica. E atualmente o responsável de fato é o
Instituto de Desenvolvimento Sustentável de Mamirauá. Ela tem uma área de um milhão de
hectares, uma população que mora de 1800 (mil e oitocentos), mas essa RDS trabalha muito
com a população do entorno também que é usuária dos lagos e é uma característica muito forte
de Mamirauá. Bom, a característica da população, são ribeirinhos que envolvem pequenos
agricultores, extrativistas, pescadores e prestadores de serviços. A localização, eu acho que todo
mundo conhece, é há 600KM (seiscentos quilômetros) a oeste de Manaus na confluência do Rio
Solimões. E a Mamirauá também tem uma outra especificidade, ela tem muitas fontes de
financiamento e isso é algo que diferencia de todas as RDS e talvez não dê para tê-la como

126
modelo porque isso é algo que faz com que a implantação seja facilitada e tenha mais recursos e
tenha uma série de programas de suporte a comunidade. Isabel, se quiser me corrigir.

A Srª. ISABEL SOUZA (Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá) – Eu acho que


o diferencial não são os recursos, isso é uma conseqüência de quem está fazendo a gestão.
Então a gestão é da Sociedade Civil Mamirauá, que tem o convênio com o Governo do Estado
do Amazonas e a Sociedade Civil Mamirauá tem um outro acordo com o Instituto Mamirauá, que
é uma OS, que tem os pesquisadores, enfim. Eu sou funcionaria do Instituto Mamirauá. E aí são
essas Organizações que buscam os recursos. Eu acho que esse é o diferencial, é que existe
uma co-gestão com Instituição que não é o Governo, enquanto que as outras que está só o
Governo, o Governo não injeta recursos, enfim. E não dá também para fazer conservação
ambiental se não tiver esses investimentos em pesquisa e em desenvolvimento social também.

A Srª. LUCILA PINSARD VIANNA (Consultora) – Obrigada, Isabel. Porque foi criada a RDS?
Qual foi o histórico da criação dessa Unidade de Conservação? Havia os pesquisadores ali,
ambientalistas que perceberam a necessidade de estar conservando a área por conta de
algumas espécies ameaçadas que estavam sendo pesquisadas. Foi quando se fez um
movimento junto ao Governo para criar uma Estação Ecológica, mas a Estação Ecológica, como
todo mundo sabe, não podem ter moradores no seu interior. Então foi quando se começou a
discutir junto com moradores que já tinham todo um zoneamento de uso da área, dos lagos e
resolveu-se criar, então, uma categoria que contemplasse tanto a conservação, quanto a
possibilidade de uso dos recursos pelos moradores, que foi a RDS. Então, na verdade, ela é
parte de uma demanda dos pesquisadores e que depois foi construída uma proposta junto com a
comunidade. A justificativa que está na Lei é viabilização e livre ação da permanência da
população, participação da comunidade local na gestão e proteção de grandes áreas de
florestas. Bom, o que a gente já tinha antes de RDS que facilitou a criação dessa unidade? Já
era uma área que tinha ocorrência de objeto significativo, como eu tinha dito, tinha o
envolvimento direto de pesquisadores que já traziam consigo financiamentos, a população já
estava organizada, ou seja, eles já tinham todo um trabalho com a comunidade eclesial de base
de anos anteriores à chegada dos pesquisadores, que tinham uma organização, estavam
fazendo associações, já tinham todo um esquema de zoneamento de uso e regulação dos
recursos e já tinham acordos sociais de manejo. Bom, o objetivo da RDS é preservação do
patrimônio natural, pesquisa sobre a biodiversidade e combate a pobreza. E a situação atual é a
seguinte: O plano de manejo foi formalizado em 97 e agora está em revisão. A gestão é
absolutamente participativa, a RDS trabalha com oito setores, são divididos em oito setores e o
processo de participação se dá pela reunião de comunidades, depois reuniões das comunidades
por setores e depois os setores se reúnem na Assembléia Geral. Acontece que o SNUC define
como tem que ser o Conselho Gestor e então agora eles estão num processo de adaptação
desse processo todo de participação via Assembléia Geral para se transformar no Conselho
Gestor e tem, inclusive, financiamento do Fundo Nacional para isso. São 52 comunidades no
interior e 93 no entorno. E uma outra coisa que é bastante forte em Mamirauá é que existem
bastantes trabalhos relacionados à educação ambiental para fortalecer a participação das
comunidades, como também para trabalhar com conceito de conservação e a importância da
conservação da biodiversidade. Mamirauá trouxe vários impactos positivos junto à comunidade.
Primeiro, em relação à proteção de biodiversidade porque o zoneamento participativo fez com
que houvesse maior envolvimento das comunidades e, portanto, maior responsabilidade com a
conservação. As populações locais tiverem uma significativa melhoria de qualidade de vida,
particularmente, por conta de garantir o uso dos recursos e diversificar os recursos naturais que
estão sendo explorados. Os acordos sociais também aumentaram envolvendo a população do
entorno. As organizações sociais, até a notícia que tivemos, estão mais fortalecidas. E há maior

127
conscientização da comunidade sobre cidadania e aspectos ambientais. Quais são os pontos de
discussão? Quer dizer, pontos de discussão não são nem positivos e nem negativos, é o que de
relevante o que diferencia a RDS. Quer dizer, então as conquistas e os resultados são muito
dependentes dos financiamentos contínuos e significativos que estão presentes desde o primeiro
minuto que se pensou essa Unidade de Conservação. Os conflitos fundiários existentes lá são
pontuais porque o RDS tem propriedades privadas no seu interior. Então têm proprietários que
de alguma maneira tem conflito porque a situação fundiária não está resolvida. E tem também
algumas áreas indígenas, mais recentemente, que eram ribeirinhos e que foram reconhecidos
como indígenas e que por conta de serem indígenas têm uma outra legislação que os regem e
isso significa que há um certo conflito com os ribeirinhos em relação às normas já estabelecidas
da própria RDS. Nós temos, então, domínio público e privado em Mamirauá. E tem essa outra
especificidade que a Isabel lembrou, que é a administração pela OS, que é o Instituto de
Desenvolvimento Sustentável em Mamirauá.

O SR. RENATO SALES – Como a Lucila falou, nós escolhemos, até por orientação do pessoal
do WWF, duas RDSs Amazônicas em função, inclusive, de prestar o apoio ao programa ARPA
que tem se deparado com a criação de várias RDSs e tem apoiado essas RDSs. Entretanto,
como é uma legislação nacional, a gente achou que seria interessante pegar outra reserva fora
do domínio amazônico e que, por exemplo, tivesse atividades econômicas bastante
diferenciadas, como é o caso de RDS da Ponta do Tubarão que é basicamente uma unidade
costeira. Foi criada em 2003, em julho de 2003 pelo Governo Estadual. Foi implantada em
dezembro de 2003 com a constituição e tomada de posse do Conselho. E o responsável pela
administração é o Instituto de Desenvolvimento Econômico do Meio Ambiente do Rio Grande do
Norte, que é vinculado à Secretaria Estadual de Planejamento. E o ato normativo, enfim, é de
2003 e foi assinado pela Governadora Wilma Farias. É uma reserva pequena se comparada,
principalmente, as da Amazônia, são 12960 (doze mil, novecentos e sessenta) hectares. Boa
parte dessa área é área marítima, é área de mar mesmo, mar aberto. Tem uma população
bastante significativa, são dez mil pessoas, são pescadores artesanais e nós encontramos
também um significativo número de marisqueiras que trabalham com caranguejos, sururu e
vários outros mariscos. Tem pequenos agricultores numa área de caatinga, que é contígua área
costeira. E também temos prestadores de serviços que são vinculados a uma recente atividade
turística, mas também temos comerciantes e etc. Fica no norte da região costeira do Rio Grande
do Norte e abrange dois Municípios: Maçal e Guamaré. Fonte principal de orçamento ficaria por
conta do EDEMA, mas não há uma previsão orçamentária para o RDS. Então, assim, raramente
a RDS conta com recurso próprio para tocar alguma atividade. Isso se reflete também no número
de funcionário. A gente estava mostrando que Mamirauá tem 137 e essa daqui tem dois e
mesmo assim não trabalham em tempo integral. Como é que surge essa intenção de se criar
uma RDS estadual lá no Rio Grande do Norte. É uma questão recorrente em toda a costa do
Brasil, que é a ameaça de perda dos territórios das comunidades pesqueiras, das comunidades
tradicionais, no caso, inicialmente Diogo Lopes e Barreiras. E em 95 houve uma investida de um
grupo empresarial para implantar um resort na região e começou haver uma mobilização da
comunidade para tentar evitar que esse resort se implantasse. Em 2000 colocaram fogo numa
ilha, na vegetação da ilha, que era manguezal, uma coisa muito esquisita, colocar fogo em
mangue, mas conseguiram colocar. E a intenção nesse momento era de um grupo de
carcinicultores que estavam querendo descaracterizar um pouco ambientalmente a área para
facilitar a implantação dos tanques de criação de camarão. Bom, em 2000 a população resolveu
que precisaria reagir de forma bastante contundente e começou uma mobilização envolvendo a
imprensa, a televisão, indo até o Ministério Público e etc. e começaram a pensar na criação de
uma Unidade de Conservação na sua área de moradia e de uso econômico. Inicialmente
pensaram numa APA, depois pensaram numa RESEX e tendo maior conhecimento do SNUC

128
resolveram por uma RDS. Bom, a definição pela categoria RDS... Inicialmente eles queriam o
que IBAMA fosse responsável pela categoria, que o CNPT fosse responsável e eles chegaram,
como eu acabei de dizer, a categoria RDS fez uma serie de discussões que, inclusive, são
conseqüências dessa mobilização, eles começaram a criar o movimento que eles denominaram
de Encontros Ecológicos e são anuais e nós já estamos no 5º, o André até esteve no último. E
nesses encontros eles começaram a ter toda uma troca de informação, intercambio com vários
especialistas e etc. e definiram pela categoria RDS federal. E a justificativa era isso, a
importância da conservação dos recursos naturais para continuidade das atividades das
comunidades e a garantia da permanência das áreas de ocupação das famílias locais. Bom,
como o IBAMA não tinha como atendê-los naquele momento, foi estabelecido então que o
Governo Estadual se encarregaria pela criação de unidade. Aqui tem uma questão interessante,
que a área inicialmente delimitada ou proposta para delimitação era só uma área costeira que
abrangia, principalmente, três comunidades: Diogo Lopes, Barreiras e Sertãozinho e cuidava
mais da questão pesqueira, entretanto, os técnicos que participaram desse trabalho de
delimitação, de criação e etc., eles chegaram à conclusão que se não houvesse uma proteção
na região de caatinga contígua a essa área costeira e entre a caatinga e a área costeira a região
de dunas, poderia haver o comprometimento da qualidade ambiental da área, caso, por exemplo,
as propriedades na caatinga houvesse atividades predatórias como, por exemplo, a
carcinicultura e isso se daria por meio da infiltração dos despejos dos tanques de carcinicultura
que iriam acabar não só salinizando mais algumas áreas, como o poços artesianos, mas até
comprometendo o mangue. Mesmo porque é interessante que mangue ocorre em águas
salobras e aqui não há um rio, ele só se forma em função de infiltração das águas subdunares,
então, qualquer comprometimento dessas águas poderia atrapalhar as atividades desenvolvidas
pelos moradores. Então foi incluída na área uma área de catinga, uma área de dunas e foram
incluídas também mais duas ou três comunidades, sem, entretanto, que fosse feito um processo
de consulta pública e esse é um problema que vamos ver depois, o que atrapalhou um pouco
esse movimento para criação da unidade. As características pré-existentes é uma alta
produtividade de (?), é um dos maiores pólos de pesca artesanal do Nordeste, eles chegam a
pegar 5000 (cinco mil) toneladas de sardinha por dia em algumas épocas, é extremamente
produtiva a área. Apresentam bom estado de conservação de diversos ecossistemas e aí a
caatinga, duna, restinga, mangues, praias e mar. Outra condição era ameaça eminente a
qualidade de vida das comunidades e a conservação ambiental. E havia também uma
mobilização social significativa por volta de 20 (vinte) Associações de Moradores ou então de
produtores que existiam na região e isso facilitou um pouco todo esse processo de mobilização
para criação da Unidade. Bom, o objetivo da RDS que consta, inclusive, no Decreto de criação é
conservar parcelas de variados ecossistemas da região Nordeste, assegurando a permanência e
qualidade de vida das famílias locais e a garantia e produção de suas características culturais.
Essa questão de características culturais é uma coisa que os moradores prezam muito e uma
das razões para escolher RDS, inclusive, foi questão de tentar preservar a cultura local. O
Conselho Gestor, até em função desse grau de organização que eles têm, foi montado rapidinho
em 2004. Eles já estão trabalhando com grupos de trabalho para discutir plano de manejo,
portanto, o plano de manejo está em andamento. Tem uma gestão bastante participativa, são
cerca de 30 Associações de Moradores que hoje estão envolvidas com a reserva. Cabe dizer
que essa participação ainda tem alguns problemas, por exemplo, existem 30 associações, mas
quem está participando mesmo são Diretores dessas Associações sem muita participação da
massa que essas Associações representam. Então há algumas reclamações que, enfim, não
está havendo muita capilaridade nas discussões e decisões, que isso está muito concentrado em
um ou dois membros de uma determinada Associação. A reserva não está demarcada, são hoje
nove comunidades do interior. Nós estamos vendo hoje um gradual envolvimento das
comunidades que ficaram ausentes no processo de criação que são dos Municípios de

129
Guamaré. Eles continuam ainda sobre a ameaça de implantação de fazendas de carcinicultura,
há todo um movimento de políticos locais para descaracterizar a Lei e fazer com que possa ter
outras atividades de carcinicultura dentro da reserva. E um trabalho importante que têm feito é
de educação ambiental, principalmente, com as escolas locais. Os impactos, houve um aumento
do número de organizações formais da sociedade, está havendo uma maior capacidade de
mobilização. Toda vez que tem uma ameaça de implantação de um tanque de carcinicultura eles
já alugam ônibus, vão direto a Assembléia de Deputados, até o Governo do Estado, enfim, eles
estão cada vez mais ágeis para se mobilizar. Houve uma diminuição dessa pressão de agentes
externos, embora ainda haja ameaça, mas diminuiu um pouco essa pressão. Outras alternativas
econômicas estão sendo estudadas, por exemplo, o turismo comunitário e tem havido também
maior conscientização da comunidade sobre cidadania e aspectos ambientais. Pontos de
discussão, como a lucila falou, não se trata de questões positivas ou negativas, mas que
ressaltam: falta de participação de todas as comunidades no processo de criação da Unidade,
agora que essas comunidades estão se inserindo nessas discussões. Existe ainda uma
insegurança em relação às ameaças dos agentes externos, principalmente, carcinicultura. Forte
influencia de uma estatal potencialmente impactante na gestão da RDS. Cá entre nós, é a
Petrobrás que tem várias plataformas de exploração de petróleo ao longo da costa e vizinho a
reserva e eles estão no Conselho Gestor e eles têm muitos recursos, então, eles estão de
alguma forma tentando ter um papel mais proeminente nesse Conselho. Bom, a indefinição da
situação fundiária da área. Até o André andou vendo isso, existe uma série de possibilidades em
termos de domínio das terras e existe posse, existem propriedades privadas, gente que se
garante por usucapião e, enfim. É importante, isso a gente considera importante, porque ela
protege mais como bioma, é uma das poucas Unidades de Conservação que protege a caatinga
no Rio Grande do Norte. É a única RDS fora da Amazônia e que protege a caatinga.
A Srª. LUCILA PINSARD VIANNA (Consultora) – A Sônia está dizendo que tem uma RDS no
Rio Grande do Sul. Já foi criada, Sonia? É no Marajó? Bom, vamos falar de Iratapuru. Iratapuru
foi criada em 97, um ano depois de Mamirauá pelo Governo do Estado do Amapá. Tem uma Lei
Estadual que a rege e também tem o Decreto que dispõe sobre a criação do Conselho. A área
de Iratapuru é 8 mil hectares e tem uma população no entorno da RDS, é a população de São
Francisco de Iratapuru, que é a comunidade que está mais relacionada com a RDS, a maior
beneficiária da criação dessa Unidade e fica fora dos limites da RDS. Então ao todo são seis
comunidades no entorno, por volta de 150 famílias, são dados de 2001 esses. A população se
caracteriza basicamente por ser extrativista, fazem a extração da castanha e mais recentemente
eles estão incorporando a extração de novos produtos. A RDS abrange três Municípios: Laranjal
do Jarí, Mazagão e Pedra Branca que fica ao sul do Estado do Amapá. Também existem várias
fontes de recursos ali, tem o Governo do Estado do Amapá com diversas Secretarias que
desenvolvem programas na Unidade de Conservação, a Natura dá um aporte de recursos para
RDS por conta da compra dos produtos e também por conta do contrato de acesso a recursos
genéticos que foi feito junto ao governo do Amapá e a comunidade de São Francisco do
Iratapuru por exploração do Breu Branco, tem o FFEN que é uma outra ONG francesa, o WWF,
Conservation e a Fundação Orsa, que de alguma maneira, em programas mais pontuais,
também dá um aporte de recurso para RDS. Não existem funcionários especificamente
designados para Unidade de Conservação, até quando a eu estava lá, já mudou isso, Jesse?
Ok, o Jessé está dizendo que existe funcionário responsável pela Unidade de Conservação,
embora, como tem varias secretarias envolvidas tem várias pessoas que estão do Governo do
Estado trabalhando indiretamente na RDS. Bom, a RDS em princípio foi uma iniciativa do
Governo do Estado e na verdade é o seguinte, o Governo do Estado estava implementando um
programa de desenvolvimento sustentável que era um programa do Governo Capiberibe que
visava o fortalecimento da organização dos modos de produção de várias comunidades. Eles
trabalharam com o pessoal de São Francisco de Iratapuru e foi quando foi criada a cooperativa,

130
chamada COMARU, Cooperativa de São Francisco de Iratapuru, que são dos extratores de
castanha. A Cooperativa é que demandou a criação de Unidade de Conservação para proteger
os castanhais de invasores, de possíveis invasores. O Governo do Estado, por conta dessa
demanda, começou a fazer uma rodada de consulta para as comunidades do entorno, foram
feitas várias reuniões e teve uma aceitação boa pelas comunidades locais e pelas Prefeituras e
também estariam envolvidas ou seriam abarcadas pelos limites da unidade. E aí se criou, então,
uma RDS estadual que, na verdade, porque RDS e não RESEX? Foi algo também controverso
lá entre as pessoas que a gente conversou, mas basicamente foi um pouco na esteira de
Mamirauá. , Mamirauá já tinha sido criado e foi fonte de inspiração para criação de Iratapuru.
Além disso, também combinava com a proposta do Governo que era uma proposta de programa
de desenvolvimento sustentável, então tinha mais afinidade o nome com a proposta do Governo.
Quais são as características pré-existentes da criação dessa RDS? Era uma região prioritária
para o Governo do Estado em função das ameaças que foram detectadas pelos estudos. Tinha a
implantação do PDSA, que é esse programa de desenvolvimento sustentável do Amapá e
voltado para organização e fortalecimento dos meios de produção, então também tinha uma
maior presença do Governo na região. Teve o interesse especifico da comunidade usuária dos
castanhais, no caso específico, São Francisco de Iratapuru que já estavam organizados em
Cooperativa, então tinha uma organização que facilitou essa interlocução com o Governo do
Estado. Têm ocorrência de diversas espécies florestais com valor comercial, ou seja, você tem a
possibilidade de estar ampliando a geração de recursos para essas comunidades. Outra
característica é que no Amapá tinham poucas unidades ou quase nenhuma que protegia terra
firme e aquela região é uma região que tem várias Unidades de Conservação . Enfim , sentiram
falta da proteção da área de Iratapuru que é justamente de terra firme. A outra justificativa
colocada pelo Governo para criação de Iratapuru é que ela é justamente uma área devoluta e
então não haveria necessidade de desapropriação. A interpretação do Governo do Estado é que
RDS tem que ser de domínio público, então para não fazer desapropriação é mais fácil criar uma
Unidade de Conservação que a implementação não envolvia recursos. Bom, o objetivo da RDS é
promover a conservação e uso sustentável da biodiversidade e a situação atual da RDS, pelo
menos, até o ano passado já que tudo é dinâmico e pode ter mudado, não tinha plano de
manejo, estava começando, eu participei do Seminário que foi o primeiro passo do processo de
realização do plano de manejo e tem um plano de manejo sustentável de uso de recursos
naturais em elaboração, que naquela ocasião ainda não tinha sido publicado os resultados, não
sei que pé que isso está , foi o pessoal da Natura que estava fazendo. Não tem o Conselho
Gestor, embora ele tenha sido definido por Decreto, conforme eu disse anteriormente, mas
atualmente o Conselho Gestor não está funcionando. Ela está parcialmente demarcada, tem
comunidades no entorno que demandam participação dos benefícios da RDS, ou seja, essas
comunidades foram envolvidas na época da criação, mas atualmente elas não estão envolvidas
com a RDS, então, tem uma certa demanda delas de poder participar dos benefícios que a RDS
está trazendo para particularmente São Francisco do Iratapuru, que atualmente entende-se que
ela é a guardiã,usuária e é beneficiária da RDS. Todas as comunidades estão em área de
empresa privada, esse foi um dos motivos pelos quais se justificas as comunidades não estarem
no interior da Unidade de Conservação, pelo fato delas estarem em área privada, de propriedade
privada. Apenas 5% da área da RDS é utilizada para o extrativismo e têm vários parceiros e
investimentos em diferentes fontes, tanto nacionais como internacionais ali, embora esse
investimento na RDS, muitas vezes, são desarticuladas, não tem um trabalho integrado entre
essas ações. A COMARU é a única organização formal da população local, então a COMARU
muitas vezes representa as comunidades, a própria participação da população do Iratapuru,
entretanto, nem todo mundo é cooperado, apesar de ser o grande veículo, o grande interlocutor
com os agentes externos e com o Governo do Estado. Bom, quais são os impactos decorrentes
da RDS? Primeiro, o aporte de financiamentos de projetos para a Comunidade de São Francisco

131
do Iratapuru, o fortalecimento da Comaru que hoje em dia é uma organização bastante
organizada que negociou, inclusive, o contrato dela de acesso a recursos genéticos, agregação
de valor por meio de beneficio da castanha, quer dizer, antes o pessoal só coletava e agora está
beneficiando a castanha, alternativa de exploração comercial de novos produtos florestais, que
se abriu muito com a criação da RDS, o tal do contrato que eu já citei, contrato de acesso a
recursos genéticos com a Natura, teve uma diminuição da pressão dos agentes externos, que o
pessoal de São Francisco citou várias vezes, que depois da RDS eles conseguiram estar de
alguma maneira pressionando para que não haja agentes externos, eles denunciam, procuram o
pessoal do Governo e tal. E isso claro traz maior eficácia na proteção da biodiversidade. A
comunidade, ela própria aponta que depois da RDS eles tiveram mais consciência a respeito das
questões ambientais, particularmente em relação ao lixo. E todos também consideram que eles
tiveram uma melhoria de qualidade de vida porque têm mais recursos. Eu acho que isso está
mais relacionado ao pessoal da COMARU. Quais são os pontos relevantes da RDS Iratapuru?
Na verdade, é Rio Iratapuru o nome da RDS. As conquistas dos resultados são muito
dependentes de financiamentos contínuos e significativos, ou seja, o que nós temos de
conquista hoje lá é muito por conta das parcerias e financiamentos externos. Ela é de domínio
público, que é uma diferença das demais RDSs existentes. Não tem população residente, o que
de alguma maneira traz uma incongruência com o decreto, já que o decreto dispõe que os
moradores são os principais responsáveis pela gestão. Então, no caso da RDS de Iratapuru nós
temos um problema porque os moradores não estão morando dentro dela. A cooperativa é a
única interlocutora junto aos órgãos gestores e agentes. Isso , por um lado tem facilitado as
negociações e as conversas; e por outro, a cooperativa não é a representante de fato de toda a
comunidade. Tem essa história que eu contei para vocês da demanda de cincocomunidades do
entorno que não estão diretamente beneficiadas pela RDS. Ela é a única Unidade de
Conservação que protege terra firme no Amapá. E ela tem muitas características semelhantes a
RESEX. Então, atende uma comunidade permanentemente extrativista, é de domínio público e
não tem moradores no seu interior, que é algo possível numa RESEX, é previsto numa RESEX.
Corrija-me.

O SR. MARCELO IVAN PANTOJA CREÃO (WWF-Brasil) – As outras unidades também


projetem terra firme. Todas protegem (...) Tumucumaque.

A SRª. LUCILA PINSARD VIANNA (Consultora) – Essa informação foi da época de criação,
que não tinha Tumucumaque e não tinha Unidade de Conservação de terra firme, pelo menos foi
o que Dagnete me falou. Ok, correção feita. Esqueçam essa informação, que está errada.

A SRª. LÍGIA SIMONIAN (UFPA) – Eu teria mais uma informação com relação à questão de que
não existe população dentro da reserva: quando foi criada existia população dentro. Nós fizemos
um mapeamento agora com GPS de todas as colocações que eram habitadas. O problema é
que o projeto do PDSA não teve uma análise, um estudo de impacto sócio-ambiental, e eles
simplesmente trouxeram, fizeram um deslocamento forçado da população lá para a foz.

A SRª. LUCILA PINSARD VIANNA (Consultora) – Sobre esse deslocamento, eu achei que
tivesse sido antes da RDS.

A SRª. LÍGIA SIMONIAN (UFPA) – Não. E a outra questão que eu acho que faltou, que
precisaria agregar, não que faltou, talvez no texto – eu recebi agora, eu não sei se está - é a
questão dos conflitos, que é uma sociedade que está permeada por conflitos, inclusive as
unidades lá foram queimadas recentemente, houve problema inclusive de tortura dentro da RDS,
da comunidade. Então, o problema é justamente por causa dessa desagregação que o

132
deslocamento forçado ocasionou. Na época, eu me lembro que eu chamei muita atenção do
Capi e da Maria Alegrette, mas não foi feito nada, quer dizer, aquele oba, oba: “Vamos criar”, e
vem todo mundo para a foz. Foi um caos. Eu acho que lá foi muito mais grave do que a própria -
hoje análise que se faz - revolução chinesa na China, porque é uma comunidade muito pequena
e são poucas famílias que se dizem as “donas” da RESEX. Então, isso realmente foi gravíssimo.
Nós temos um aluno lá que fez o doutorado dele, ficou oito meses lá. E eu também faço
pesquisa lá. Tenho mais um aluno de doutorado trabalhando agora. E a outra questão que eu
acho gravíssima também é que o Estado não tem conseguido... Há pouco eu até falei com o
Governador do Estado, porque é tudo muito esfacelado: um trabalha para cá, outro trabalha para
lá, aí enche de pesquisador lá em cima. Eles não agüentam mais. Lá está que nem a situação
dos Navajos, que cada família indígena é composta de um avô, um agregado e etc. e um
antropólogo. Então, Iratapuru está exatamente assim. Então, é terrível a situação o ponto de
vista social para quem fica, para quem conhece a questão da educação, professor alcoolizado
dando aula, a questão da saúde que não tem. Agora mesmo eu estou com uma pessoa de lá
fazendo tratamento em Belém. E é terrível a situação. Enfim, eu acho que essa coisa mais dos
conflitos internos e dos problemas precisaria ficar mais claro porque é um caos a RDS Iratapuru.
Eu posso dizer de cátedra porque tenho várias pesquisas na área e está tudo documentado isso.

O SR. NÃO IDENTIFICADO – De qualquer forma não é necessariamente conseqüências da


RESEX e sim...

A SRª. LÍGIA SIMONIAN (UFPA) – Eu só estou colocando (...) por isso é importante essa
discussão sobre a criação e como fazer (...).

O SR. RENATO R. SALES – Eu vou pedir um favor: quando se manifestar, por favor, fale o
nome antes para facilitar o registro.
A SRª. LUCILA PINSARD VIANNA (Consultora) – Obrigado, Lígia. Seria ótimo eu ter
encontrado com você antes. Nós conversamos com o pessoal do Amapá, no caso. Vamos lá.
Bom, é o seguinte: agora nós vamos levantar um pouco quais são os pontos polêmicos
relacionados a essa categoria. A idéia é estar pontuando eles, e o André depois vai falar um
pouco sobre o SNUC; e na seqüência, baseado nesses pontos polêmicos, nós fizemos uma
proposta de regulamentação para a RDS. A primeira coisa que nós levantamos aqui é o perfil da
população residente usuária, quer dizer, a legislação define que tem que ser população
tradicional, mas todo mundo sabe que esse termo é um termo bastante controverso, que o
próprio SNUC não quis conceituar, e que ele tem uso político, tem uso técnico também, mas
muitas vezes usar o termo pode estar trazendo benefícios para a população e, às vezes, pode
não estar trazendo benefícios, pode estar trazendo prejuízo. Então, na verdade, esse é um ponto
bastante polêmico, que não sei nem se é o caso de estarmos aprofundando, mas que tem que
ser levantado. A obrigatoriedade é abrigar populações no interior. Há quem entenda que não
necessariamente as populações têm que estar morando no interior da Unidade de Conservação.
E nós já entendemos que sim porque está dizendo na legislação que a RDS abriga populações
tradicionais. Atividades econômicas admitidas. Esse é outro ponto bastante polêmico a RDS
permite a supressão da cobertura vegetal e não deixa claramente explícito se pode ou não pode
mineração como, por exemplo, deixa na RESEX. Então, quais são as atividades que de fato
pode ser admitidas na RDS é outro ponto que nós temos que estar discutindo. A necessidade de
anuência formal das comunidades para a criação da unidade. O SNUC também não prevê essa
anuência formal, mas nós consideramos absolutamente importante, visto que os moradores são
os responsáveis pela manutenção e pela defesa da Unidade de Conservação. Então, parece
claro que a anuência seria uma maneira de você envolver e de permitir que o futuro gestor saiba
exatamente quais são os impactos na vida dele, primeiro a criação daquela unidade. A mesma

133
coisa tem a ver com a capacidade de organização formal ou informal dos moradores. Há quem
diga que a RDS tem que ser criada justamente quando não há nenhuma organização como um
passo para a RESEX. Isso não foi só o Ademar colocou aqui, mas tem várias pessoas que têm
essa visão. Então, quando você está trabalhando com populações que não estão organizadas,
você criaria RDS em vez de criar RESEX. Isso também é bastante controvertido, visto que
independente de estar mais ou menos organizado, os moradores são obrigatoriamente
responsáveis pela área. Então, teoricamente é o mínimo de organização exigido para que eles
consigam se fortalecer e compor um conselho gestor e tal. O outro ponto polêmico que todo
mundo citou aqui, que todo mundo que já falou sobre RDS está apontando, e de fato é bastante
polêmico, são as propriedades privadas no interior da Unidade de Conservação, se é permitido
ou se não é permitido e o que é mais conveniente para essa categoria. Então há quem justifique
a criação de RDS justamente porque são áreas com propriedades privadas e por isso não
podem ser RESEX; e há quem justifique o contrário, quer dizer, que RDS tem que ser de
domínio público para estar cumprindo os seus objetivos. Uma outra coisa que chama atenção é
a responsabilidade pela fiscalização das diversas zonas da Unidade de Conservação. A RDS,
diferente da RESEX, ela exige que tenha uma zona de proteção integral, mas não deixa claro
quem é o responsável pela gestão e pela administração dessa área, mas você pode interpretar
que são os próprios moradores, visto que eles estão lá sendo responsabilizados pela
manutenção, pela defesa e de toda a Unidade de Conservação. E por último, na linha de todos
os comentários que foram feitos, é quase impossível você pensar em RDS sem pensar em
RESEX, quer dizer, por que é que você decreta uma área como RDS e não como RESEX. Tem
pelo menos algumas diferenças também baseadas nesses pontos polêmicos aqui, quer dizer, os
motivos para criar RDS são os mais variados possíveis. Como eu já disse, existe desde motivo:
“Porque tem propriedade privada”, até motivos do tipo que RDS é um nome mais chamativo, que
traz mais marketing, mais possibilidades de financiamento do que uma RESEX. Eu vou ler aqui
uma listinha rápida das diferenças entre RDS e RESEX: na RDS, a população deve residir na
área de Unidade de Conservação e na RESEX, pode ou não residir; na RDS, as populações
tradicionais não são necessariamente predominantemente extrativistas, coisa que na RESEX,
segundo a legislação, tem que ser predominantemente extrativista; na RDS, há quem interprete
que pode ter propriedade privada e na RESEX, isso é claro que tem que ser de domínio público;
a RDS exige demarcação da área de proteção integral, coisa que não é prevista na RESEX; já
na RESEX é proibida a caça, mineração e os animais de grande porte e não há autorização para
supressão da vegetação, na RDS tem explicitamente autorização para supressão da vegetação
para trabalhar com espécies cultiváveis, mas não tem nada explícito a respeito de mineração
particularmente; e por último, a RESEX exige o plano de manejo de rendimento sustentável para
a exploração dos recursos florestais, coisa que também não é previsto na RDS, que deveria ser
contemplada também. É isso. André, sua vez.

O SR. CLÁUDIO MARETTI (WWF-Brasil) – (...) rápido, do ponto de vista da organização, esse
estudo produziu uma série de relatórios, ainda relatórios de trabalho. O que está entregue para
vocês são dois documentos relativos a esse estudo, que tem mais a ver com o que vai ser
discutido depois do coffee break, depois de pausa. Então, na verdade, tem dois documentos aí,
um deles está sem nome, mas os dois documentos produzidos pela Lucila e pelo Renato são as
conclusões para o debate, os pontos para o debate; e o outro documento é o do André, que vai
apresentar agora; e o último documento que nós acabamos de reproduzir e distribuir foi uma
proposta de regulamentação feita já em 2002 para o Governo do Amazonas, para o Estado do
Amazonas, baseado na experiência de Mamirauá pela Sônia Wiedmann, que está aqui presente.
Nós pretendemos depois ter um relatório final, até atendendo à solicitação do Paulo, para
discussão. Mas o relatório final, os documentos finais podem demorar algum tempo para a
difusão pública. Então, para aqueles que tiverem necessidade de trabalhos específicos, nós

134
temos interesse em disponibilizar documentos inclusive preliminares paro não perdemos a
oportunidade de aproveitamento deles, mas isso não deve levar a difusão pública desses outros
documentos. Então, nós pretendemos colocar depois os relatórios com os documentos
intermediários, o relato do evento e as conclusões tudo na Internet para quem fazer Download
para baixar, mas o que eu estou querendo reafirmar é que os documentos aqui distribuídos para
vocês são para fomentar a discussão. Eles não refletem todo o trabalho feito, não têm a
documentação, os dados das entrevistas, dos levantamentos de dados que foram feitos. Esse
material poderá ser disponibilizado para vocês em caráter restrito se alguém solicitar
especificamente. Obrigado.

A SRª. LUCILA PINSARD VIANNA (Consultora) – Só para complementar: de todos esses


documentos, o documento que se chama Recomendações para Regulamentação é, na verdade,
o produto de todo esse trabalho, que é a proposta que nós estamos trazendo aqui para a
discussão hoje no Grupo de Trabalho.

O SR. FRANCISCO ADEMAR DA SILVA (Secretaria de Estado do Meio Ambiente e


Desenvolvimento Sustentável (SDS/AM) – Eu queria, antes do André... Só um minutinho. Isso
talvez possa ser mais tarde, mas no sentido de entende o nível de... Quando você falou da
questão das listas que diferenciam e com essa lista que é a base para a tomada de decisão, tem
uma... Eu não sei se você chegou a pesquisar ou ouvir as pessoas quais são dessas que são...
Quais são delas que têm maior prioridade. Por exemplo, porque tem terras particulares que o
grau de valor dessas decisões são... Qual é que pesa mais? Ou foi ouvido, foi conversado, por
exemplo, para criar uma RDS qual é o grau? Qual é que pesa mais? Eu não sei se eu estou
conseguindo fazer você entender. Qual é a característica (...) decisão, “é porque tem a terra
particular; não, é porque um nome de marketing; não, é porque os moradores querem”. O que
leva as pessoas...? Você chegou a fazer esse levantamento de informação?

A SRª. LUCILA PINSARD VIANNA (Consultora) – Se nós consideramos proporcionalmente, o


Estado do Amazonas é onde tem o maior número de RDS. E no Estado do Amazonas, até onde
eu entendi, umas das justificativas é justamente por conta da existência de propriedades
privadas nessas áreas, não é isso? Então, essa tem sido a justificativa mais recorrente para a
criação de RDS até o momento.

O SR. RENATO R. SALES – Ademar, nós estudamos três reservas. Então, nós não temos essa
visão geral de como é que se dá essa demanda para a criação das reservas. Esses três casos
são diferentes. Iratapuru havia um plano governamental que ajudou a induzir ou a fazer com que
uma cooperativa solicitasse a criação de uma unidade, mas tinham, pelo que deu para entender,
uma vontade política para se implantar o envolvimento, e uma RDS seria uma boa causa. Na
Ponta do Tubarão, no Rio do Grande do Norte, como nós vimos, foi uma pressão a alguns
grupos sociais que ainda bem eram muito bem organizados. Eles se rebelaram, procuraram
soluções para a situação e a escolha por RDS basicamente foi em função de uma avaliação que
eles fizeram muito cuidadosa do SNUC. Eles acharam que eles não se encaixavam como
extrativistas. É uma questão conceitual. Achavam que pesca não é extrativismo. E lá chegaram a
essa conclusão. O Estado, quando entra em Ponta do Tubarão também concorda com RDS
porque tinham propriedades privadas lá dentro. E Mamirauá é outro caso, quer dizer, Mamirauá
é a primeira que surge como uma estação ecológica, mas daí existe comunidade dentro, existe
organização dessa comunidade. Então, se negocia com ela para saber como é que se poderia
continuar abrigando essa população e conservar os recursos. Eu acho que até pela própria falta
de maior definição no SNUC do que quer na RDS são várias interpretações, são vários os
debates que são feitos e as motivações para a criação dessas unidades.

135
A SRª. LÍGIA SIMONIAN (UFPA) – A questão fundiária da RDS do Rio Iratapuru, eu acho que
tem um ponto aqui que precisa ser esclarecido porque foi mencionado que as populações
moram fora, no entorno. Uma parte dessa população mora numa área que já era para ser
agregada à anexada, que foi a Jarí. A empresa Jarí reivindica o direito de propriedade dessa
área. E vocês sabem que agora com essa última CPI da Grilagem, a Jarí foi chamada depor.
Tem problemas sérios lá, mas eu não vou me alongar aqui. Só para dizer que uma parte dessa
população está nessa área, que já havia um compromisso de Jarí de anexar e depois com a
citação dela na CPI, ela retirou e disse que não vai mais anexar. Então, por isso que hoje
também essa população está bem solta e tem problemas para serem discutidos e
encaminhados, do ponto de vista fundiário. Obrigada.

O SR. ANDRÉ RODOLFO DE LIMA (ISA) – Bom-dia. Eu vou tentar ser objetivo, o que não é
uma das qualidades de advogado, mas eu vou me esforçar, até porque eu tenho quinze minutos
e nós já estamos razoavelmente avançados no tempo e às 15 para as 13h eu tenho que buscar
a minha filha na escola, não tem jeito. Ontem eu saí de uma audiência... Eu estava
representando o GT Floresta junto com outras organizações: WWF, Greenpeace e tal, eu tive
que sair de audiência com o Presidente da República, porque não tinha ninguém para buscar a
minha filha na escola. Então, hoje vai ser o mesmo, mas isso é só às 15 para as 13h. Só duas
premissas para eu entrar um pouco na análise dos pontos... Alguns aspectos jurídicos
fundamentais: primeiro, é que é uma análise legal, uma análise jurídica, é uma análise técnica-
jurídica que foi feita. Não se trata aqui de uma manifestação de uma opinião pessoal ou política
em relação à melhor ou mais pertinente interpretação jurídica. Evidentemente que isso tem que
ser feito ou no caso a caso à luz das experiências concretas. Eu tive a oportunidade de conhecer
RDS. Eu tive na Ponta do Tubarão. Tive a oportunidade de conhecer outras Unidades de
Conservação , mas RDS não. Então, é uma análise da lei e das contradições inerentes à lei com
a regulamentação. Isso é importante e, portanto, não é uma coisa abrangente e conclusiva e
necessariamente. E segundo que foi uma análise da legislação federal. Não houve uma análise
da legislação estadual. Eu recebi alguns documentos, atos de criação de Unidades de
Conservação estadual que têm alguns elementos interessantes que podem merecer uma análise
de contraponto com a legislação federal. Isso não foi feito porque eu comecei a trabalhar 15 dias
atrás e não tive como juntar esses documentos. Então, é uma análise preliminar, e a idéia é que
o documento final evidentemente envolva essa análise um pouco mais abrangente de
legislações estaduais. E aí indo direto ao ponto, bem rapidamente, buscando o histórico dentro
do SNUC, da RDS, ela está diretamente associada a duas propostas que vieram à luz bem nos
últimos momentos... Nos últimos não, mais ou menos quando ela foi discutida na Comissão de
Meio Ambiente da Câmara dos Deputados, ela tem relação direta com a solução encontrada
para a Estação Ecológica de Mamirauá, que já foi dito aqui. Então, se você olhar o ato de criação
ou na verdade de conversão de transformação da RESEX em RDS, você vai ver que inclusive
alguns dispositivos da lei estadual estão quase que transcritos na regulamentação do SNUC,
não literalmente, mas você observa numa análise mais apurada que existe esse empréstimo do
conceito. E ela tem relação direta evidentemente com a discussão sobre a Reserva Ecológica
Cultural que inclusive teria sido já aprovada na Comissão de Meio Ambiente e foi, na verdade,
adotado o nome da RDS em função da experiência concreta já havida com Mamirauá. É
interessante olhar inclusive o histórico disso no Congresso Nacional. Eu entrevistei o arquivo
vivo do debate sobre o SNUC, que é o nosso amigo Maurício Mercadante. Infelizmente ele não
apareceu aqui. Seria muito importante ter uma conversa com ele mais aprofundada sobre isso.
Ele tem histórico. É bem interessante fazer essa conversa com ele. Eu fiz cinco entrevistas com
pessoas que eu julgo chave no processo de discussão do SNUC, tanto porque atuavam à época
do debate do SNUC em postos chaves como porque hoje estão também não necessariamente

136
nos mesmos postos, mas são funções importantes de análise jurídica e de atuação na prática.
Não foi só o Doutor Ubiraci Araújo que à época era Procurador-Geral do IBAMA e hoje é
Assessor Jurídico do Ministério Público na Câmara de Meio Ambiente da Procuradoria-Geral da
República. Eu falei com o Maurício Mercadante, hoje diretor de Áreas Protegidas, à época
Consultor Parlamentar na Câmara dos Deputados, que participou praticamente de todos os
debates do SNUC. Falei também com o Doutor Gustavo Trindade, que hoje é o Consultor-Chefe
do Ministério do Meio Ambiente. E conversei também com o Doutor Sebastião Azevedo, hoje
Procurador-Geral do IBAMA, já foi presidente do INCRA e já foi Procurador-Geral do INCRA.
Então, são pessoas que participaram dos debates e têm hoje funções importantes na discussão
sobre a lei e na regulamentação da lei. E aí eu destaco em relação à questão conceitual duas
opiniões que são interessantes, válidas, embora contraditórias, mas que demonstram que a
RDS, do ponto de vista da regulamentação, ainda tem muito a ser feito. O Doutor Ubiraci diz que
a RDS, na verdade, ela uma proposta de RESEX. Eu não estou usando aqui literalmente as
palavras dele, mas é esta a interpretação que ele deu. É uma RESEX mais flexível, onde você
pode ter novas atividades econômicas para além das extrativistas, chegando inclusive em
determinadas situações a admitir, por exemplo, mineração - isso tem parecer do próprio
Ministério Público Federal - nos casos em que houve aprovação anterior ao SNUC com
licenciamento ambiental anterior ao SNUC. Isso é uma interpretação que inclusive o próprio
IBAMA também já deu em pareceres oficiais a respeito de mineração em FLONA. Já o
Mercadante, ele tem uma visão mais, eu não vou dizer conservacionista, mas ele trata a RDS,
ele vê a RDS como uma unidade que teria... É aquela coisa que quase foi a solução para
populações dentro de parques, quase. Como não houve essa situação, teve uma categoria de
Unidades de Conservação com o objetivo de proteção - inclusive a lei usa essa expressão
“preservação da natureza” - e melhoraria da qualidade de vida das populações. Então, ela seria,
na verdade, uma Unidade de Conservação mais restritiva do que a RESEX, que tem o objetivo
fundamental de propiciar o extrativismo de recursos naturais. Então, ela seria, se é possível dizer
isso, mas para o debate é possível, porque eu posso levar tomatada, não tem problema, seria
um parque com população dentro, a RDS. E um dos atributos que justifica a criação da RDS
seria a proteção da população dentro da unidade. Então, eu destaquei isso para mostrar que, na
verdade, esse é o desafio na regulamentação. Como a lei e os conceitos são abrangentes e
admitem interpretações absolutamente contraditórias e legítimas e consistentes, porque tem uma
visão mais técnica legal e tem uma visão mais histórica, tem uma visão mais teleológica dos
objetivos da lei que são inclusive técnicas de interpretação da lei. Portanto, há uma aparente
contradição de norma ao prevê preservação simultaneamente com melhoria de condições de
vida e da exploração de recursos naturais por populações naturais. Aparente porque os
conceitos legais de preservação, em tese não são compatíveis com o conceito de uso
sustentável. A flexibilidade representa uma oportunidade, por tanto, para a regulamentação.
Então, isso são panos de fundo que eu passei aqui muito rapidamente, mas que eu acho que
são centrais e que a regulamentação vai ter que enfrentar, que é a questão conceitual. Algumas
coisas são específicas. Necessidade de consulta pública. Questões específicas que foram
apresentadas a mim pelo WWF. Consulta pública sim sem sombra de dúvidas, quer dizer, tanto
por uma diretriz geral do SNUC, que a população tem que participar da gestão, da criação, etc.
quanto por uma disposição específica que trata da criação de Unidades de Conservação . O que
a regulamentação pode fazer e deve fazer a meu ver é estabelecer critérios especiais em função
dessa categoria de Unidades de Conservação . Algumas, inclusive já foram apresentadas aqui
pela Lucila. Uma audiência pública é suficiente, não tem que ter uma preparação, uma discussão
bem anterior e antecedente com a população antes de uma oficialização e aí por diante? Se a
população é beneficiária, não existe criação de Unidades de Conservação sem o assentimento,
o desejo e a vontade do suposto beneficiário, mas tem a questão também de como é que é a
consulta com populações supostamente não beneficiárias ou diretamente não beneficiárias, que

137
aí de repente é um outro regime. E nós sabemos que na prática essas consultas têm problemas
sérios tanto de ordem processual ou procedimental pelos órgãos criadores quanto até mesmo
evidentemente em função da população que muitas vezes não que a Unidade de Conservação.
Uma questão que foi colocada: pré-existência de população tradicional utilizando recursos
naturais. Eu vou colocar aqui uma visão da possibilidade de interpretação da lei, que pode ser
polêmica, mas meu ver é possível, não necessariamente precisa haver pré-existência da
população na unidade porque a lei diz: “É uma unidade que abriga”, mas acontece que existe
uma lei complementar que diz como é que as leis têm que ser escritas e ela sempre diz que o
verbo tem que estar sempre no presente. “A unidade abriga”. E o verbo tem que estar sempre no
presente, mesmo que ele queira dizer alguma coisa do passado ou do futuro. Então, está aí:
“Abriga”. Agora, abriga quer dizer abrigará. Abrigava talvez não porque ela tem que abrigar no
presente. Então, quando a unidade é constituída, ela tem que ser constituída para abrigar uma
população, portanto, inclusive a possibilidade indesejável em meu ver de reassentamento de
populações tradicionais em Unidades de Conservação de proteção integral é você fazer o
reassentamento e a criação de uma reserva de desenvolvimento para essa população. Não
estou entrando no mérito da pertinência disso do ponto de vista sociológico, etc. e pragmático,
mas do ponto de vista legal é possível isso. Evidentemente que está aí também mais um
elemento para regulamentação fechar a questão. Isso porque regulamentação serve exatamente
paro isto: esclarecer dúvidas do texto da lei. As condições, vocês conhecem, estão na lei desde
que se utilize sistema sustentável de exploração dos recursos naturais. Entendam isso como
puderem. E que tais usos sejam adaptados às condições ecológicas locais, quer dizer, local não
quer dizer, necessariamente do local limite da unidade da conservação; é o local, é a bacia
hidrográfica, é o ecossistema local, é o entorno e assim por diante. Portanto, essa é a pergunta
que eu coloquei e diz que a lei admite, pode não ser desejável e, portanto, é importante que isso
fique claro... Se não for desejável, é importante que isso fique claro na regulamentação. Agora,
um exemplo que foi dado e que eu achei bem interessante, pelo Sebastião Azevedo, Procurador
do IBAMA é: é possível que uma comunidade quilombola, por exemplo, queira uma RDS. E ela
não está necessariamente na área onde vai ser reconhecida a sua titularidade, portanto, hoje ela
não abriga, mas abrigará e ela vai querer uma RDS ali, que ela vislumbra algum benefício em
função disso. Então, existem essas possibilidades na lei. A tal desapropriação no caso de
existirem propriedades no interior. Eu, tanto pelas interpretações em função das entrevistas
como da leitura N vezes da lei, eu vejo duas hipóteses que são claras: a primeira é a
possibilidade de populações tradicionais terem o domínio, o título, o que é raro, mas não é
impossível. Então, nessas hipóteses não faz sentido desapropriar para conceder. Eu não vou
entrar no detalhe disso porque eu acho que é desnecessário. Por exemplo, na Ponta do
Tubarão, tem gente que tem lá títulos, pode não ser válido, pode ser, mas é um título de posse,
título por usucapião, direito a usucapião, etc., que seria desnecessário desapropriar. Hipótese
mais polêmica do ponto de vista político e sócio-econômico é a hipótese de propriedades
insuladas. O que significa isso? Significa que a propriedade, ela não é RDS. Isso que é
importante. Essa é a diferença. A propriedade dentro da RDS não é RDS, ela é uma ilha dentro
da RDS. Não é que você está admitindo a propriedade privada na RDS, é que a lei, com a
redação que está dada, parece e nos induz a interpretar que é possível se criar uma RDS e
dentro você excluir propriedades privadas no seu interior, exclui dos limites, ela não entra no
cômputo da área total da RDS, por exemplo. A lei permite essa interpretação. Agora, o que vai
se discutir é o seguinte: qual é o impacto disso no cumprimento dos objetivos da unidade: a
população deseja ou não deseja, se tem impacto direto, se tem benefícios, não tem benefícios.
Aí tem uma série de características reais do caso concreto que evidentemente tem que ser
consideradas, mas há interpretações jurídicas de pessoas com condição e capacidade para
tanto: o Doutor Guilherme Purvin e outros Procuradores de Estado, por exemplo, que entendem

138
isso, e que a lei permite esse tipo de interpretação. Eu acho que aqui vai dar pano para manga
para discussão. Eu não sei se vocês querem parar cinco minutos para...

O SR. NÃO IDENTIFICADO – André, só para esclarecimento, é porque você escreveu uma
coisa e falou outra. Essa situação de estar insulada é diferente.

O SR. ANDRÉ RODOLFO DE LIMA (ISA) – É diferente de monumento natural e refúgio de vida
silvestre, por quê? Porque, na verdade, o monumento natural e o refúgio de vida silvestre, a
propriedade privada é a Unidade de Conservação e será desapropriada se o proprietário não
quiser cumprir os objetivos ali dispostos. Ela é a Unidade de Conservação. Ela conta no cálculo
da Unidade de Conservação.

O SR. RONALDO WEIGAND JR. (ARPA/SBF/MMA) – André, só uma pergunta, para você
prosseguir e não para debater: por que você identifica uma diferença entre o que a leite diz para
monumento e refúgio do que está sendo dito para RDS?

O SR. ANDRÉ RODOLFO DE LIMA (ISA) – Parece tênue essa diferença, mas a diferença é a
seguinte: você pode obrigar um proprietário privado dentro de uma RDS, por exemplo, às regras
de um corredor ecológico e não necessariamente precisa desapropriá-lo. Ele fica restrito às
regras dispostas no Plano de Manejo em relação à sua área sem necessariamente desapropriá-
lo. No caso da reserva de recursos naturais, se ele não concordar com essas regras, ele tem o
direito a desapropriação. Quem está lá dentro... Porque existe o seguinte: se o poder público não
desapropria e a Unidade de Conservação cria uma restrição que não é de desejo do proprietário,
no caso da reserva de recursos naturais, ele tem o direito a desapropriação. Ela entra com uma
desapropriação indireta e vai cobrar do poder público essa desapropriação porque está previsto
esse direito. É um direito dele porque é uma obrigação do Estado, no caso do monumento
natural e do refúgio de vida silvestre. No caso do proprietário insulado, se o Conselho Gestor da
RDSA estabelecer que aquela propriedade insulada esteja dentro de um corredor ecológico e
que as regras de uso lá não admitem mineração, etc., ele vai ter que se adequar a essa regra e
não tem o direito a desapropriação porque nós olharmos desapropriação como um ônus ao
proprietário, mas não necessariamente. Ele pode querer a desapropriação porque ele quer um
dinheiro e quer sair dali. Do ponto de vista jurídico – veja bem, se é desejável ter um cancro lá no
meio da Unidade de Conservação, se vai ser um câncer lá dentro, é evidente que isso tem que
ser considerado – mas eu estou dizendo que do ponto de vista jurídico, da forma como está a
redação do § 1º do art. 20, ele permite essa interpretação. Tem gente que dá essa interpretação.

O SR. RONALDO WEIGAND JR. (ARPA/SBF/MMA) – Eu queria entender porque uma redação
leva há uma interpretação e outra leva a outra interpretação. Olha onde está a vírgula? Parece
igual.

O SR. ANDRÉ RODOLFO DE LIMA (ISA) – A vírgula está aí porque um diz quando necessário
e o outro não diz. A outra é explícita que diz o seguinte: “Quando o proprietário não concordar
ele será desapropriado e a outra diz quando necessário. E um depoimento interessante que o
Maurício vai poder dizer aqui, que foi na conversa que eu tive com ele e ele disse isso. No
debate do SNUC ele lembra claramente dessa discussão em relação a Monumento Natural e
refúgio de Vida Silvestre, mas essa discussão não foi feita na RDS. Essa hipótese não foi
prevista para RDS.

O SR. FRANCISCO ADEMAR DA SILVA (Secretaria de Estado de Meio Ambiente e


Desenvolvimento Sustentável - SDS/AM) – Deixe-me só aproveitar aqui. A sua apresentação

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levanta para gente várias interrogações. A começar pela questão que o SNUC diz na sua
redação que a RDS é de domínio público e aí no caso nosso do Governo do Amazonas, quando
se cria uma Unidade de Conservação, um milhão e oitocentos e tantos mil hectares, está
significando também as propriedades particulares que estão lá dentro. Pela sua fala agora com o
que o Ronaldo perguntava, essas propriedades não deveriam constar como Unidade de
Conservação. Parece-me que aí surge uma polêmica e nós precisamos ficar mais esclarecidos
sobre isso. Para nós do Governo do Estado do Amazonas, quando se cria Unidade de
Conservação, as áreas particulares contam e aí se você for, por exemplo, tirar essas áreas
particulares de dentro dessa unidade você vai criar um outro problema, qual é? Que as
populações tradicionais moram, na sua maioria, em cima dessas terras particulares, então, não
resolve o problema da comunidade. Então me parece que esse tipo de categoria, nesse sentido
dessa redação, não vai resolver o problema das populações tradicionais. E aí no caso de
desapropriação ela tem que constar no período da criação no Decreto que cria, ou seja, porque
nos estudos de criação me parece que você já tem que prevê que essa propriedade deverá ser
desapropriada. Ficou meio em dúvida para mim e eu queria que você esclarecesse melhor esse
ponto.

O SR. ANDRÉ RODOLFO DE LIMA (ISA) – O que eu estou te dizendo é exatamente isso. A Lei,
da forma como está, permite essa interpretação de que o proprietário que está lá dentro dos
limites da Reserva, no interior dos limites da Reserva é uma propriedade privada e se não for
não precisa ser desapropriada e ao não ser desapropriada, por não ser de domínio público,
porque está lá dito que a Reserva é uma Reserva de domínio público, por não ser de domínio
público não é contabilizada na RDS. Embora ela possa ser submetida às restrições por força de
instituição de um Corredor Ecológico, assim como nas zonas de amortecimento e etc.

O SR. RENATO SALES – No memorial descritivo das áreas dessas RDSs que estão sendo
criadas as propriedades contam como área da tal Unidade. É como o Ademar está falando. Você
acha que isso, de alguma forma é ilegal? Vai contra a Lei?

O SR. ANDRÉ RODOLFO DE LIMA (ISA) – Eu acho que pode. Aí é que está, esse é o espaço
da regulamentação porque eu estou dizendo o seguinte. A Lei prevê interpretações, essa
interpretação é possível e a regulamentação pode e deve esclarecer isso. Ela pode prevê esta
hipótese. Não que necessariamente esta seja a única aplicação desse dispositivo, mas ela prevê
dentro propriedades privadas que não são contabilizáveis ou contabilizadas na Unidade de
Conservação. Vamos seguir? Bom, em ambos os casos pode haver termo de compromisso em
relação às regras do plano de manejo, não evidentemente que tanto pela propriedade privada da
população tradicional, quanto por proprietários de fora. Nas hipóteses, aqui algumas hipóteses,
na hipótese de propriedades insuladas que ainda não assinem o TAC os usos podem ser
resistidos em função de Corredor Ecológico etc., foi o que eu já disse aqui. Se o uso atual
prejudicar você e contrariar os seus objetivos ou for indesejável pela população, a propriedade
deve ser desapropriada. Isso é em função, tanto do próprio dispositivo do § 1º do art. 20 como
em função do conceito de reserva. A reserva foi criada para beneficiar a população, esse é o
objetivo central dela. A população não deseja aquele uso naquela região, a população não
deseja aquela atividade e tem que ser necessariamente desapropriada nessa hipótese. Usos
possíveis, bom, aí todo mundo já disse, é evidente, a Lei é confusa, flexível, maleável, delega
tudo para o zoneamento e para o plano de manejo. Os usos precisam ser analisados em função
dos objetivos, preservação mais qualidade de vida, portanto, as exceções que me parece que
deveria ser o objetivo da regulamentação, usos por população não tradicional serem permitidos
são exceções e como tais deveriam ser tratados como exceções. Agricultura e exploração
sustentável de recursos florestais, voltando dizer, regra é uso por população tradicional, exceção

140
não tradicional. Agricultura e exploração sustentável desde que de acordo com a legislação
ambiental aplicável, por exemplo, reserva legal nesse caso do Código Florestal se aplica na
hipótese de uso para agricultura, mas a pergunta é: somente por populações locais? Essa que a
pergunta que a gente tem que tratar na regulamentação. Em que hipóteses poderia haver
usuário do entorno, população tradicional de fora da área e população não tradicional dentro da
área, desde que haja o benefício, tenha o consentimento, haja o interesse da população nisso a
RDS não veda o uso em atividades econômicas por populações não tradicionais, embora a
regulamentação possa fazê-lo. Essa é a questão. A Lei não faz, mas a regulamentação vai poder
fazer. E aqui é uma interpretação interessante, se a visitação pública somente permitida se
compatível com os interesses locais, interesses locais aqui leia-se da população beneficiária,
quaisquer outras atividades também devem ser de interesse das populações locais. A grande
polêmica hoje e não só em torno da RDS, mas em torno de Unidade de Conservação é a
questão da mineração. Se na RESEX é vedada expressamente porque na RDS não? E aí entra
aquela primeira questão que foi colocada, quer dizer, se na visão de uns a RDS deveria ser UE,
uma unidade que supostamente é mais restritiva do que a RESEX porque não seria vedada a
mineração? E não foi. Isso significa que a mineração é permitida? Bom, um elemento
interessante para discussão e análise disso é que várias flonas foram criadas antes do SNUC,
evidentemente, com previsão expressa de mineração, exatamente no contexto de negociação
com empresas que detinham concessão do DNPM e, inclusive, se comprometiam a aportar
recursos para isso. O Decreto que regulamentava a flona previa expressamente essa atividade,
como? Aí entra mais um ponto fundamental para regulamentação, eu acho que a
regulamentação tem que tratar objetivamente de mineração. Como a Lei não veda e embora
para a reserva esteja vedado é fundamental que a regulamentação trate e a regulamentação
pode expressamente vedar. Porque ela pode expressamente vedar? Apesar de que isso vai criar
um caos dentro do Governo que a gente sabe disso e dentro daqueles que pretendem ampliar a
sua rede de Reservas de Desenvolvimento Sustentável, porque isso? Por quê? Eu estou falando
aqui o Decreto Federal, o Decreto Estadual, talvez já não possa. O Decreto Federal pode vedar
porque o minério é um bem da União, o Presidente da República é o Chefe do Poder Executivo,
ele regulamenta e ele pode regulamentar por Decreto outorga de título minerário, ele pode dizer
que em algumas circunstancias não será admitida outorga e a concessão de títulos minerários.
Portanto, o Decreto assinado pelo Presidente da República pode vedar a concessão de
mineração dentro de RDS, embora expressamente não esteja vedado e aí você vai ter o eu
costumo dizer, você põe dois advogados na mesa e você tem no mínimo três opiniões. Você vai
ter gente que vai defender com consistência que pode porque não existe uma vedação expressa
e você vai ter gente que pode fazer uma interpretação, nós podemos construir uma interpretação
de que em função dos objetivos da Unidade de Conservação, quando a mineração, por exemplo,
é interesse da população tradicional? É uma atividade de interesse da população tradicional? E
assim sucessivamente. Agora, uma coisa que é evidente é o plano de manejo também pode
vedar a atividade. O que vai resultar disso do ponto de vista da indenização a quem tem um
título minerário é uma outra questão. Quer dizer, se o Conselho Gestor ou o plano de manejo
disserem que não tem jogo para mineração é possível vedar e o que vai gerar em relação à
indenização para quem tem o título, para quem investiu na pesquisa e etc. isso é uma outra
questão, mas que é possível é possível. Agora, tem um detalhe aí, a própria Lei do SNUC diz o
seguinte: “o subsolo pode ficar de fora do ato de criação da Unidade de Conservação”. Aí é para
complicar um pouco mais, quer dizer, se no ato de criação da Unidade de Conservação estiver
explícito que o subsolo não integra a Unidade de Conservação aí a discussão fica mais
complicada porque isso está expresso na Lei. A Lei diz que o subsolo e o espaço aéreo podem
ser regidos por regimes diferenciados. Então essa é uma hipótese complexa, mas plausível em
função do que está na Lei. Embora tenham tentado resolver isso na regulamentação, porque
isso? Por que o jogo no Congresso é um e o jogo no Executivo é outro. O Jogo no congresso é o

141
seguinte, não querem vedar a mineração, tem um lobby forte para mineração. Então tentaram lá
acochambrar e viabilizar a possibilidade de mineração. Na regulamentação, talvez o IBAMA
tenha tido um poder maior da definição disso lá e tal, incluiu um outro artigo, que é o 23, art. 24
do SNUC fala da inserção ou não do subsolo, mas o Decreto tenta corrigir essa abertura dizendo
que “sempre que influir no ecossistema o subsolo deve ser compreendido nos limites da UC”.
Agora, quer dizer, quando é que o subsolo não influi no ecossistema, arranca o subsolo de lá e
como é que faz. Claro que têm metodologias hoje que o cara vai lá e fura um buraco, põe os
pilares ali e aparentemente nada acontece, mas é uma discussão técnica, não é uma discussão
jurídica, é uma discussão que tem ser feita nos estudos preliminares para criação de Reserva, é
fundamental isso, porque não vai valer dizer que o subsolo está fora se não houver o mínimo de
análise disso e, evidentemente, que no plano de manejo nas análises para definição de
zoneamento e etc. Então está aí mais um pepino para regulamentação. Uma pergunta eu que fiz
aqui, é possível mineração no interesse das populações tradicionais? Essa discussão, por
exemplo, no plano dos povos indígenas tem sido feita, tem uma série de comunidades indígenas
que têm interesse em fazer garimpo. O garimpo estaria aí dentro do conceito mais genérico de
mineração e aí neste caso o garimpo é de interesse da população local e é possível se discutir
essa hipótese, mas isso também é uma lacuna na Lei e evidentemente que era melhor até não
tratar isso com profundidade na Lei. Se a Resolução do Conselho ou Portaria, isso aqui é uma
outra análise mais técnica também, se uma Resolução do Conselho Gestor mais uma Portaria
do Órgão Administrador pode vedar uma mineração por uma análise jurídica, o Decreto é um
instrumento jurídico mais hierarquicamente superior, na verdade, ele pode também vedar,
inclusive, porque como eu já disse minério e bem federal, portanto, o Chefe do Poder Executivo
Federal pode vedar a outorga. Só para concluir, uma coisa que é importante, o que não for
regulamentado pela legislação federal poderá ser feito pelas legislações estaduais. Enquanto
não há uma regulamentação do SNUC no plano Federal os Órgãos Estaduais, em tese, estão
autorizados a legislar, a legislar não, a regulamentar abrangentemente em relação à lei do
SNUC. Aqui eu concluo e abro para discussão.

A Srª. SÔNIA MARIA PEREIRA WIEDMANN (IBAMA) – Sobre a mineração em Unidade de


Conservação, realmente não foi só nas RDSs que houve essa omissão. Isso não significa que
ela é permitida em hipótese alguma, porque o Parque Nacional e as Reservas de Proteção
Integral também não tem nenhuma previsão de exclusão e, no entanto, se sabe que não pode
fazer. É porque essa matéria ficou realmente para regulamentação, tanto que nós temos agora
um grupo de trabalho mineração e meio ambiente, que é o Ministério de Minas e Energia e o
IBAMA que nós estamos estabelecendo como resolver esses conflitos. No caso das Florestas
Nacionais, por exemplo, que foi um exemplo que você citou e esses pareceres que estão aqui
foram nossos. Como é que tem sido feito? Aquelas Florestas Nacionais que têm previsão
expressa no Decreto de criação da continuação, tanto da concessão de pesquisa e de lavra elas
vão ter continuidade, não vão realmente ser interrompidas, mesmo porque são coisas que são
de interesse nacional, interesse público quase que prevalente, vamos dizer assim. E, por outro
lado, as novas Florestas Nacionais que não têm nenhuma mineração dentro, a idéia é que elas
realmente não vão poder ter mineração, iniciar um processo de mineração dentro dessas
Unidades de Conservação . Agora, no caso das Reservas de Desenvolvimento Sustentável não
está previsto, mas eu concordo com você, André, que o Decreto pode realmente vedar e se
vedar vai ser uma coisa genérica para todas. Não pode deixar, e aí eu discordo de você, para o
plano de manejo não. O plano de manejo não vai ter essa competência de decidir se pode ou
não fazer mineração, mas o Decreto sim. Isso é matéria regulamentar e eu acho que o Decreto é
fundamental para isso.

142
O SR. FERNANDO VASCONCELOS DE ARAÚJO (WWF-Brasil ) – Passar para o Paulo antes
de a gente passar para a apresentação sobre a regulamentação.

O SR. PAULO OLIVEIRA JÚNIOR (IBAMA/CNPT) – Eu só queria deixar uns três pontos
registrados porque, infelizmente, eu não vou poder estar aqui para esse debate e que você
André colocou de forma apropriada os elementos. Primeiro ponto, eu gostaria de deixar
registrado que seria importante nos documentos deixar bem claro que o Conselho é Conselho
Deliberativo. Estamos falando em Conselho Gestor, mas o Conselho de uma RDS é deliberativo.
Então sugiro que nos documentos ao invés de colocar Conselho Gestor coloque Conselho
Deliberativo, que isso ao é um ponto crucial no meu ponto de vista e é central no debate, então
para deixar claro. O segundo ponto e que nós estamos no meio de um forte debate sobre a
questão de consulta pública, que eu também gostaria de deixar claro também, explícito que a
própria Lei coloca que pode reuniões públicas ou outras formas de oitiva. Então esse é um outro
elemento também, quer dizer, como você foi tão afirmativo na questão da consulta pública e no
ponto de vista nosso, do CNPT, isso não está resolvido, não está definido. Não está definido, por
exemplo, nós temos a opção de outras formas de oitiva, que outras formas de oitiva são essas?
Não necessariamente seja uma consulta pública. Então é uma questão que ainda não está bem
definida na história. Então eu também trabalharia com um pouco de cautela com relação à
questão tão afirmativa, como você colocou, em relação à questão da consulta pública. E por fim,
eu não tive tempo para colocar nenhuma exposição na realidade, mas aí me preocupa um
pouco, André, quando você coloca a questão da RDS ter como objetivo primeiro à população
tradicional, quer dizer, eu também não colocaria com tanta afirmação isso porque também há
interpretações dúbias, como você mesmo colocou na sua exposição. Aí você pega a Reserva e
ela tem como objetivo básico preservar a natureza, bem como você mesmo colocou, e ao
mesmo tempo assegurar as condições e meios necessários para reprodução.
O SR. ANDRÉ RODOLFO DE LIMA (ISA) – Aparece um detalhe. Ao mesmo tempo não quer
dizer no mesmo espaço.

O SR. PAULO OLIVEIRA JÚNIOR (IBAMA/CNPT) – Exatamente, eu concordo plenamente


contigo. Então eu não colocaria também com tanta ênfase. Concordo plenamente, mas como
você colocou também com ênfase, eu trabalharia também de uma forma preventiva, com um
certo equilíbrio com relação a essa questão da preservação e assegurar os meios de reprodução
e etc. e tal. Seriam somente esses três pontos iniciais porque gostaria de você de dar os
parabéns a sua exposição porque ela levanta os pontos que no nosso ponto de vista são
centrais.

O SR. FERNANDO VASCONCELOS DE ARAÚJO (WWF-Brasil ) – Dr. Maurício. O Dr.


Maurício está como ultimo inscrito antes da proposta de regulamentação que a gente apresenta.
E já que eu estou com a palavra, rapidamente, eu vou em seguida, depois do inicio da
apresentação da Lucila, trazer o Coffee Brake para cá para dentro para gente não parar porque
eu acho que o debate está bastante interessante.

O SR. MAURÍCIO MERCADANTE (DAP/SBF/MMA) – Sem querer tomar muito tempo, só


aproveitar. Primeiro lamentar não ter podido estar aqui desde o início. Segundo destacar a
importância dessa discussão. Eu acho que regulamentação de categoria de UC é uma das
tarefas urgentes que a gente tem aí para fazer, não só em relação à RDS, mas em relação há
várias outras categorias. Só para informar, no caso de RPPN, por exemplo, a gente está
encaminhando para a Presidência da República a proposta de regulamentação das RPPNs que
foram mais de anos sendo discutidas dentro do IBAMA. Não sei se a Sônia Wiedmann tem
informação, mas na Reserva Biológica e Estação Ecológica o pessoal estava também numa

143
discussão avançada sobre isso e eu não sei, avançou bastante e depois parou e não sei
exatamente onde está lá dentro do IBAMA. Mas, enfim, a gente tem recebido uma série de
demandas com relação a várias outras categorias, com relação questão marinha, por exemplo, é
uma demanda muito forte. A gente tem categorias que foram construídas para ecossistemas
terrestres e estão sendo aplicadas em ecossistemas marinhos e aí gerando uma série de
dificuldades porque a realidade em alguns casos é completamente diferente.

A Srª. SÔNIA MARIA PEREIRA WIEDMANN (IBAMA) – De FLONAS.

O SR. MAURÍCIO MERCADANTE (DAP/SBF/MMA) – De FLONAS, enfim, regulamentação de


categoria de UC é uma tarefa urgente que temos que enfrentar e acho que, portanto, uma
iniciativa como essa aqui é extremamente importante. Acho até que a gente podia reproduzir
esse modelo aqui para outras categorias, usando essa experiência aqui e contando com a
colaboração dos parceiros que estão nesse processo. Em relação à RDS eu só queria...
Conversei bastante com o André sobre essa questão e eu sei que o que está escrito hoje é o
que vale, a história passada que gerou essa redação acaba ficando para traz, mas de qualquer
forma eu só queria dar o testemunho aqui da história de construção, daquilo que eu me lembro
da história de construção dessa proposta e dizer o seguinte. A categoria RDS, o modelo, não sei,
pelo menos o modelo que estava na cabeça das pessoas que sentaram para redigir a Lei do
SNUC era a Estação Ecológica da Mamirauá. Para simplificar e sendo um pouco simplista
demais, na verdade, a idéia da RDS era um “Parque Nacional com gente dentro”.

O SR. ANDRÉ RODOLFO DE LIMA (ISA) – Eu usei essa frase só que não pus as aspas.

O SR. MAURÍCIO MERCADANTE (DAP/SBF/MMA) – Quer dizer, era uma área cujo objetivo
principal era a preservação, esse era o foco, mas que tinha a população tradicional dentro. Então
o modelo disponível para lidar com essa situação era, por um lado um Parque Nacional que não
resolvia porque obrigava a exclusão da população. O outro modelo era a Reserva Extrativista,
mas também não resolvia porque o foco era muito na população, no extrativismo. Então, RDS
pretendia ser uma categoria intermediária entre essas duas e na verdade, em minha opinião,
mais próxima do Parque do que da Reserva Extrativista. Então o foco primeiro era a preservação
e criando um espaço para você resolver acomodar a questão das populações tradicionais.
Então, quer dizer, questão de mineração nem foi discutida durante a elaboração da Lei, mas
porque não foi discutida? Na verdade, a questão é inversa, porque foi discutida na Reserva
Extrativista? Porque você já tinha a Reserva Extrativista criada no País, você já tinha essa
questão posta se poderia ou se não fazer mineração em reserva extrativista. Então, essa
discussão foi levantada e a solução dada dentro do Congresso Nacional não, envolvendo todas
as pessoas que estavam trabalhando com Reserva Extrativista, é que não era conveniente ter
mineração em Reserva Extrativista, então vamos proibir mineração na Reserva Extrativista. Em
RDS essa questão nem foi levantada. Não existia nenhuma RDS, a não ser Mamirauá. A
mineração não era uma questão em Mamirauá. O modelo era voltado mais para o foco na
preservação, então não tinha porque discutir mineração em RDS, assim como não tinha porque
discutir mineração em Parque Nacional. Então eu continuo preso, digamos assim, a essa
interpretação original de que não faz nem sentido discutir mineração em RDS, não é esse o foco.
Agora eu, reconhecendo que a história agora é outra e eu acho que temos que partir daquilo que
está escrito e ver qual é a melhor solução. E só para concluir, eu acho que essa proposta que foi
feita para o Estado do Amazonas, que a Sônia Wiedmann redigiu aqui e eu tive a oportunidade
de ajudar a Sônia a escrever, a gente colocou muito claramente aquilo que traduzia esse
entendimento. Então, aqui, da definição e objetivo da RDS: os objetivos da RDS são conservar a
natureza... “Na RDS só é admissível manejo da flora e da fauna com finalidade conservacionista

144
e uso sustentável dos recursos naturais pelas populações tradicionais”. Tudo bem que aí
mineração é um recurso natural e não está muito claro aqui, mas a idéia era realmente traduzir
aquilo que eu disse aqui em relação à finalidade da RDS. Era isso.

O SR. FRANCISCO ADEMAR DA SILVA (Secretaria de Estado de Meio Ambiente e


Desenvolvimento Sustentável - SDS/AM) – Eu queria dar uma contribuição. Eu acho que o
aspecto de avaliação que se tem, eu acho que é legal, mas você tem que olhar, o Estado
Amazonas consegue entender, leva a discussão de RDS para uma RESEX por conta da questão
fundiária. Então se nós estamos interpretando de que a RDS é uma unidade de produção
integral diferenciada, um pouco aliviada então não tem sido esse o nosso entendimento. E acho
que isso aqui me deixa como lição a forma que tem sido a condução do processo de estudos
para criação de uma RDS, me parece que ela precisa de um pouco mais cuidado do que até
mesmo a RESEX, a começar pelas questões de áreas particulares. Precisa ser muito claro
porque no Estado do Amazonas está cheio de áreas particulares, mas na verdade você tem que
analisar a questão da legalização, se o “cara” está com título legalizado, se é um título frio, se foi
uma posse. Então tem uma série de coisas que precisam ser vistos para criação de uma UC
dessa categoria. Acho que para nós a RDS é Reserva Extrativista diferenciada e não leva para
questão a área de proteção integral. E acho que assim como o Maurício estava falando, eu acho
que é legal pensar que mineração é uma questão... Nem acho, pode ser que vocês queiram
considerar nesse foro aqui discutir isso, mas eu acho que ela é uma questão tão forte e que leva
a ter outros momentos mais adequados para fazer isso. Porque tem outras coisas anteriores a
mineração que precisam ser discutidas, tipo essa questão do modo de como são interpretadas
essas questões das RDSs. Há coisas que se diz de domínio público e aí você tem áreas
particulares lá dentro, por exemplo, Mamirauá é um exemplo claro, (?), Cujubim, Uacari, eu
estou falando todas as Unidades de Conservação do Estado do Amazonas, que todas elas têm
áreas particulares dentro e que os proprietários interferem, ou seja, na vida das populações
tradicionais. Eu acho que essa coisa deveria também fazer parte de nossa interpretação e acho
que o André coloca isso claramente, mas precisamos trilhar melhor essas interpretações para
que a gente não se complique mais na frente porque o Governo do Estado do Amazonas, me
parece, da forma que está levando a criação das Unidades de Conservação nessa categoria vai
ter um problema muito grande futuramente, se for olhar por esse lado.

O SR. MARCELO IVAN PANTOJA CREÃO (WWF-Brasil ) – Ok, obrigado. Vamos dar
continuidade na apresentação e depois abriremos para discussões.

O SR.CLÁUDIO C. MARETTI (WWF-Brasil ) – Ainda do ponto de vista operacional, agora a


gente vai focar exatamente nos temas mais polêmicos e depois dessa apresentação a gente
volta ao debate público. E à tarde a gente está propondo discutir nos grupos exatamente tema
por tema para poder daí ter as contribuições desse grupo para o processo que segue
posteriormente.

O SR. RENATO SALES – Então, a gente vai seguir com as recomendações e essas
recomendações surgem a partir da análise desse trabalho que nós fizemos em campo, das
entrevistas que nós realizamos, de estudo bibliográfico e etc. Nós dividimos em dois blocos: um,
Condicionantes para Criação de uma Reserva de Desenvolvimento Sustentável, quer dizer, são
situações que conjugadas elas permitem que a Unidade de Conservação a ser criada seja uma
RDS e não, por exemplo, uma RESEX ou uma APA ou então outro tipo de Unidades de
Conservação . E o segundo bloco nós temos Diretrizes para Implantação e Gestão da Unidade e
Conservação. Nós não consideramos nessa nossa proposta, por exemplo, o que até o
Mercadante fez uma menção, a proposta feita pela Sônia para o Governo do Amazonas porque

145
nos chegou só ontem esse documento e seria ótimo ter consultado antes também, mas eu acho
que há como compatibilizar.

A Srª. SÔNIA MARIA PEREIRA WIEDMANN (IBAMA) – Só a título de esclarecimento. Essa


proposta que foi feita para o Estado do Amazonas que eu e o Maurício fizemos, o Maurício teve
é uma participação fundamental nisso aí. Ela é uma proposta de Lei Estadual de RDS. A gente
tentou ser o mais auto-regulável possível nessa Lei. Ela ainda não é uma regulamentação. O
que está tratado nesse projeto é matéria de Lei, não é matéria de Decreto.

O SR. RENATO SALES – Então, vamos começar com essas condicionantes. Nesse documento
que vocês todos receberam existe um enunciado da recomendação, no caso da condicionante e
logo em seguida tem um comentário onde a gente leva em consideração as fontes e as análises
que nós fizemos para chegar a esse condicionante. Então a primeira seria a seguinte.
Ocorrência de populações nos locais, condicionante para criar uma RDS: ocorrência de
populações nos locais residentes na área alvo de proteção que dependam diretamente da
exploração de espaços e recursos naturais para sua reprodução sócio cultural, que detenham
conhecimento prático sobre as características dos ecossistemas locais e que utilizem formas
poucos impactantes de utilização ou exploração dos recursos natural. Alguns comentários
rápidos. Primeiro, como dá para perceber nós compramos o conceito utilizado pelo Paulo
Oliveira e pelo pessoal do CNPT. Nós estamos considerando que uma RDS deve abrigar
populações, mesmo porque a única Unidade dessas de uso sustentável onde existe essa
condição “abrigar populações” é RDS. RESEX fala que as áreas têm que ser utilizadas, não
especificando se a população tem que ser residente ou não. E pensando em Mamirauá e
pensando naquela proposta da Reserva Ecológica Cultural, que foi até mencionada agora, tanto
pelo Mercadante como pelo André, em ambos os casos a situação era essa. Eram populações
em determinadas área que necessitava de proteção e, portanto, uma das condições de RDS é
que tem que ter gente morando dentro porque senão você transforma em outro tipo de Unidade
ou mesmo RESEX e etc., mas uma das condições que eu acho que tem que ser levada em
consideração no ato de criação é se abriga populações. Como o André colocou, existem casos
que, por exemplo, podem ser úteis se houver concordância de uma população que está numa
área que vai ser transformada numa unidade de proteção integral e se concordarem em ser
removidas para uma outra área que pode se transformar, por exemplo, em RDS, tudo bem,
continua abrigando, porque ela vai abrigar, mas eu acho que uma condição básica é abrigar
populações. Nesse enunciado, nós estamos também falando que essas populações têm que
deter um conhecimento prático bastante significativo dos ecossistemas locais. Em várias
entrevistas que nós fizemos, vários dos especialistas e várias das autoridades e técnicos que
nós entrevistamos admitiram a possibilidade, por exemplo, de um grupo de sitiantes do Paraná
se mudar para o Amazonas e lá ser feita uma Unidade de Conservação numa RDS para abrigar
esse grupo, que eu acho que embora algumas pessoas concordem, eu e a Lucila, quando nós
estávamos redigindo, nós achamos que para ser fiel ao SNUC e para ser fiel também a essas
práticas sustentáveis que devem ser desenvolvidas numa RDS, as comunidades têm que
conhecer muito bem o ecossistema ou os ecossistemas e ter práticas de exploração de manejo
já consolidadas há algumas gerações. Não vamos falar quantas gerações. Houve essa
discussão no histórico do SNUC, mas que sejam populações que conheçam praticamente o
ecossistema e que tirem o seu sustento da exploração. Outro comentário que pode ser feito com
relação a esse enunciado: nós não estamos usando, como o SNUC fala, formas de manejo
sustentável, mas estamos falando do ato de criação da RDS. Nós estamos falando de formas de
manejo pouco impactantes dos recursos. Dificilmente nós vamos encontrar, sem que haja apoio
de técnicos, apoio de institutos de pesquisa, de financiamentos, etc., atividades que sejam
sustentáveis mesmo desenvolvidas por grupos locais. É uma questão bastante polêmica, mas

146
conceitualmente, eu acho que sustentável não leva em consideração só a questão ambiental,
mas a questão gerencial, econômica, administrativa. Então, é uma série de questões que não
necessariamente faz com que a atividade seja sustentável, mas é pouco impactante e tem o
potencial para se transformar em sustentável sim após a criação da Unidade de Conservação no
caso aqui da RDS. Então, nós tentando fugir um pouco dessa pré-existência de formas
sustentáveis. É claro que pode existir, mas nós não queremos ser tão rígidos porque dificilmente
você vai encontrar essas atividades desenvolvidas de forma totalmente sustentável. Por último,
ainda comentando esse enunciado, vocês reparam que não aparecem populações tradicionais.
Então, isso é uma coisa pensada. Populações tradicionais envolvem uma série de questões
ideológicas, política, técnicas. E a Lucila já até comentou isso. E nós quisemos fugir um pouco
dessa questão deixando então como adjetivo para essa população ou então como atributos
residir na área demarcada, depender estreitamente da exploração de recursos naturais para a
sua reprodução sócio-cultural, ter o conhecimento prático sobre os ecossistemas locais e utilizar
técnicas e práticas de exploração de meios poucos impactantes. Então, é para tentar fugir um
pouco dessa questão inclusive ideológica que está permeando já há alguns anos essa questão
de conceituação de população tradicional.

O SR. FRANCISCO ADEMAR DA SILVA (Secretaria de Estado do Meio Ambiente e


Desenvolvimento Sustentável - SDS/AM) – Mas não fica muito aberto?

O SR. RENATO R. SALES – Eu acho que a população morando lá, detendo o conhecimento
sobre o ecossistema, desenvolvendo atividades adaptáveis a esse ecossistema e praticando
formas de exploração pouco impactantes no meio, eu acho que você não deixa muito aberto
não. No fundo, você vai cair em algum tipo de conceitual de população tradicional também. É só
para fugir um pouco desse termo polêmico. A segunda condicionante ocorrência entre as
populações residentes na área alvo de proteção de atividades econômicas não
predominantemente extrativistas dos recursos naturais. Isso é só para tentar fazer uma distinção
mais clara entre RDS e RESEX. E o interessante com relação a essa questão é entender que
inversamente algumas RESEX estão sendo... Algumas áreas estão virando RDS em vez de
RESEX, embora tenham todas as características para se transformar numa RESEX até por
questões políticas. As reservas extrativistas são muito identificadas com alguns movimentos
sociais da Amazônia e a falta de maior participação desses grupos, desses movimentos em
determinadas regiões ou então até o fato da área alvo de proteção não ser na Amazônia, leva as
pessoas a criarem uma RDS achando que reserva extrativista tem que estar vinculada, por
exemplo, ao Conselho Nacional de Seringueiros, tem que ser na Amazônia. Então, esse
enunciado é só para tentar deixar um pouco claro que para a reserva extrativista sim predomina
o extrativismo e para a RDS outras atividades como, por exemplo, pecuária extensiva em fundos
pastos no Nordeste, faxinais, aqüicultura em algumas regiões costeiras, enfim, existe uma série
de outras atividades que podem ser contempladas por uma RDS. A terceira condicionante seria
um grau mínimo de organização sócio-produtiva mesmo que formal das comunidades
moradores, a qual permita a sua efetiva participação nas práticas de gestão nessa categoria de
manejo de Unidades de Conservação . A Lucila também entrou nessa questão. Tem sido optado
pela criação de RDS em casos onde não haja nenhum tipo de organização da comunidade
porque as pessoas acham que organização implica a criação de RESEX e não de RDS. RDS
seria reservada para áreas onde as populações não são organizadas. Nós não concordamos.
Nós achamos que tanto para uma quanto para outra tem que haver um grau mínimo de
organização e pode ser informal, não precisa ser uma cooperativa ou uma associação, mas tem
que ter um grau de organização entre os moradores e isso tem que ser avaliado no ato de
criação, mesmo porque no art. 23, § 1º do SNUC, determina que “as populações das RDS assim
como das RESEX se obrigam a participar da preservação, recuperação, defesa e manutenção

147
da Unidade de Conservação”. Se você não tiver um mínimo de organização, você não consegue
isso, você não consegue atender à lei. Então, você vai estar cometendo uma infração à
legislação se não tiver essa mobilização. Então, na verdade, o que nós consideramos é que
tanto para RESEX quanto para RDS os procedimentos para a sua criação e implantação, eles
devem ser permeados por ações de apoio e aprimoramento das formas de organização local
observando e respeitando as suas especificidades. Então, eu acho que cabe sim ao órgão
gestor, ao futuro órgão gestor, o apoio para que essas comunidades tenham oportunidades para
se organizar, para se mobilizar, etc. 4 – “Ocorrência de áreas representativas”. Também é outra
condicionante, de ecossistemas com satisfatória qualidade ambiental, não se significativamente
impactados para as atividades historicamente desenvolvidas e com possibilidades de
recuperação de partes de áreas que se apresentem degradadas. O Paulo tinha feito um
comentário agora há pouco e isso tem a ver com esse comentário sim. Existem hoje algumas
demandas para a criação de RDS que partem de ameaças a grupos sociais em áreas fortemente
antropizadas, com forte atuação de atividades econômicas, e muito delas predatórias, etc. e tal.
Então, com uma tentativa de conseguir a permanência dessas comunidades ameaçadas sugere-
se a criação de RDS. E a RDS não deve servir só para isso, ela tem esse caráter ambiental, é
uma unidade do SNUC e, portanto, um dos seus principais objetivos é a conservação da
biodiversidade. Então, você não pode levar em consideração áreas extremamente antropizadas
e só criar RDS porque existe uma demanda de um grupo social que está ameaçada. Deve haver
outros meios para se resolver essas questões. 5 – “Existência de área com importância
ecológica e como ocorrência de biodiversidade significativa para a preservação com
possibilidades de sua demarcação como zona de proteção integração”. Distintamente do que
está disposto pelas demais seis catarias de Unidades de Conservação sustentável, a lei do
SNUC dispõe de forma explícita sobre a necessidade de delimitação de zonas de proteção
integral no interior de uma RDS a serem previstas na elaboração do seu plano de manejo. Só
repetindo: a RDS é a única unidade que no SNUC consta essa obrigatoriedade de ter uma zona
de proteção integral, mesmo que seja desejável nas outras unidades, mesmo que na prática isso
se dê em alguns casos, a única que está explicitamente obrigada é a RDS. Então, você tem que
ter área com importância ecológica, área com importância para a biodiversidade. 6 – “Realização
de consultas públicas para a criação de RDS específicas para os usuários residentes no interior
ou entorno imediato da área a ser protegida, assim também como a realização de consultas
públicas mais amplas envolvendo todos os segmentos interessados, notadamente os órgãos
públicos responsáveis por estruturas e serviços sociais”. Para ambos os casos, as consultas
devem se constituir em processos. Isso tem um pouco a ver com o que o Paulo tinha levantado
agora há pouco, que o CNPT ainda está discutindo qual é a forma de se desenvolver esse tipo
de contato, de consulta mesmo à população envolvida. E o que nós entendemos é que consulta
pública - isso até dá uma certa confusão - ela é geralmente confundida com audiência pública.
Então, as pessoas acham que é uma ou duas reuniões locais que caracterizam a consulta
pública. Isso é audiência, isso faz parte do processo, no nosso entendimento. Então, no nosso
entendimento, uma consulta envolve estudos, envolve formas de negociação, estabelecimento
de vias de comunicação e de negociação, tentativas de diminuir conflitos e concorrências, e
principalmente deixar muito claro para a população alvo quais são as causas e conseqüências
da criação daquela Unidade de Conservação porque tem sido - e não só para RDS, para RESEX
também - tem acontecido de comunidades de que de engajam na idéia, que acaba aceitando a
criação de uma unidade de uso sustentável em sua área de residência ou de uso econômico e
só depois quando começa a ser discutido o plano de manejo, quando começa a ser discutida a
implantação efetiva da reserva é que eles vão perceber onde eles se meteram, que eles vão
começar a se dar conta da série de direitos que eles têm, mas também da série de
responsabilidades que eles têm. E isso é muito comum. E uma das razões para isso é essa falta
desse processo de consulta pública que nós estamos propondo, quer dizer, não é só esse

148
processo, mas esse é um instrumento importante também para que as pessoas envolvidas, as
comunidades envolvidas tenham plena consciência do que elas estão assumindo na hora em
que elas, por exemplo, redigindo um baixo assinado solicitando a criação de uma Unidade de
Conservação.

A SRª. SÔNIA MARIA PEREIRA WIEDMANN (IBAMA) – Eu posso falar uma coisa sobre isso?
Eu acho importante nós distinguirmos o tempo todo a consulta pública da audiência pública
porque a audiência pública, sobretudo, nos processos de licenciamento ambiental, onde é algum
empreendimento que vai causar o impacto ambiental; já a consulta publica, ela usada muito aqui
no caso de criação de unidades, ou seja, o contrário, são iniciativas de proteção. Então, a
primeira, a audiência pública, ela pode ser chegar a impedir o empreendimento; já a consulta,
como o próprio nome indica, ela tem uma aspecto consecutivo, quer dizer, ela pode re delimitar a
área, mas ela não vai influenciar na criação, ela não vai interferir no processo de criação.

O SR. RENATO R. SALES – 7 – Essa é outra questão polêmica entre os entrevistados para a
esse trabalho, que seria o encaminhamento de abaixo-assinado com a adesão de pelo menos a
maioria simples dos moradores maiores de idade da área do interior da futura RDS, constando
solicitação para a criação da unidade, ciência sobre as causas e conseqüências relacionadas à
criação da reserva, comprometimento preliminar em assumir responsabilidades e compromissos
inerentes à gestão da área. Existe muito ainda essa polêmica se uma RDS deve ser criada
prioritariamente para conservação de uma determinada parcela de um ecossistema ou então de
várias parcelas de vários ecossistemas ou se ela atender aos interesses de uma população.
Independente de um caso ou de outro de outro, é fundamental que essas populações que
moram na área que vai virar Unidade de Conservação, elas têm plena consciência sobre o
empreendimento que elas entrando. Então, eu acho que é extremamente importante que nesse
processo, inclusive de consulta pública, mas no próprio processo de implantação e de discussão
de negociação com as comunidades que vão residir em terras do entorno da Unidade de
Conservação, que fique bastante claro as causas e conseqüências e que elas assumam
formalmente esse compromisso, mesmo porque eu volto ao SNUC lembrando que o SNUC fala
que essas populações se obrigam a defender, a preservar, a conservar, a proteger a Unidade de
Conservação. Se não houver esse compromisso... Eu conheço casos, por exemplo, de
propostas de criação de RDS numa área que além de não haver muita organização, as pessoas
detinham vontades de migrar, de sair para outras áreas, etc. e tal. E as poucas pessoas que
ficaram não tinham o menor compromisso com a conservação do meio, com a continuidade das
atividades de forma sustentável, etc. e tal. Criar uma RDS nesse caso é chegar a uma ineficácia.
Então, seria interessante haver já um comprometimento no ato de criação das reservas, que
essas pessoas se comprometem, enfim, que elas vão estar envolvidas com a implantação da
unidade. 8 – “Delimitação da área no processo de consulta pública, considerando na zona de
uso antrópico - ou na zona de uso sustentável, como diz o SNUC – uma estimativa preliminar da
proporção entre o número de famílias usuárias e o espaço necessário para a sua reprodução
sócio-cultural e melhoria da qualidade de vida, assim como para a viabilização e definitiva
participação dos usuários na administração, monitoramento e fiscalização ou defesa da Unidade
de Conservação”. Um dos motivos para nós termos colocado essa condicionante é o caso,
Ademar, de Cujubim. Em Cujubim são 69 famílias para uma área de quase 2 milhões de
hectares. Como que essas famílias, do jeito que está disposto no SNUC, elas vão se
comprometer, vão se obrigar a fiscalizar e a proteger essa área toda? Então, mais adiante,
quando nós falamos da implantação e gestão, nós vamos fazer propostas também sobre
responsabilidades para fiscalização, para administração das áreas dependendo das zonas, mas
em todo caso é fundamental que a reserva não seja muito pequena que não dê para que seus
moradores, as comunidades não tirem sustento por meio da exploração dos recursos naturais

149
dessa área, ele pode ser muito grande para que essas populações não consigam administrar.
Iratapuru também é parecida, 5% (cinco por cento) da aérea são utilizados para exploração de
castanhas e outros produtos florestais; e 95% (noventa e cinco por cento) estão muito bem
preservados, mas se você for ler o SNUC hoje, você vai cobrar dessas pessoas que hoje são
usuárias a responsabilidade pela fiscalização de Iratapuru. Então, é uma coisa complicada. E
essa condicionante, na verdade, ela tenta dirimir um pouco esse problema.

O SR. RONALDO WEIGAND JR. (ARPA/SBF/MMA) – Eu estou com um pouco de dificuldade


de progredir a acompanhando os pontos porque a discussão de RDS tem que ser feita em
relação à escolha que se faz mais geral a respeito da categoria. Então, quando você vai ponto a
ponto, e eu já tenho como... Por exemplo, eu compartilho com o Maurício a visão de que RDS é
um parque com gente dentro e não uma RESEX e nem nada mais leve do que uma RESEX em
termos de controle, quando você vai segundo nos pontos é claro que você começa a ter uma
série de colocações para cada um desses pontos. Quando você vai com uma outra visão, você
pode concordar mais ou menos com esses pontos. E essa escolha precisa ser feita senão nós
vamos começar a discutir casos específicos ou refletir sobre casos específicos sem pensar no
caso mais geral. Eu gostaria de fazer umas colocações sobre os pontos que foram colocados
inicialmente. E eu tenho a impressão que tem muito chão pela frente ainda para nós
caminharmos em relação a essa proposta e nós vamos ter que chegar só no final para depois
tentarmos dizer: “Não é esse o modelo que nós temos em mente” ou: “Esse modelo não é
estratégico para conservação”.

O SR. RENATO R. SALES – Qual é a sua proposta?

O SR. RONALDO WEIGAND JR. (ARPA/SBF/MMA) – Eu acho que nós devemos compartilhar
qual é o nosso modelo: qual é o modelo que é estratégico para conservação, é um modelo que
preenche essa lacuna no SNUC de um parque com gente dentro ou um modelo próximo ao de
RESEX com algumas outras considerações que parece que é o caminho da proposta de
regulamentação de vocês ou é um modelo ainda mais próximo de uma ARPA, que é um
caminho ainda mais leve? Então, eu acho que fazer uma discussão do que é estratégico para
depois nós considerarmos os detalhes de uma proposta de regulamentação.

O SR. RENATO R. SALES – Ronaldo, deixa eu fazer só uma pergunta: em qual desses pontos
que foram apresentados que você identifica uma situação que inviabiliza esse seu conceito ou o
conceito utilizado de parque com gente dentro?

O SR. RONALDO WEIGAND JR. (ARPA/SBF/MMA) – Por exemplo, a proposta de mobilização.


Se você pensar nos casos de propostas de manejo coletivo ou comunitário de recursos naturais
que você encontra ao redor do mundo... Eu fiz uma revisão para casos de pesca, quando eu
estava trabalhando com reserva extrativista marinha, você pega desde as áreas comunitárias
que não têm nenhum suporte estatal, que não é o nosso caso, até áreas em que todo o suporte
de controle, organização, concessão de licenças é feito pego Estado em consulta com a
comunidade, que seria o caso de baixíssima mobilização. E o caso intermediário, que é o caso
de RESEX em que a comunidade tem o suporte estatal do território, mas ao mesmo tempo tem a
responsabilidade de conservação. Quando você coloca também a necessidade da mobilização
desse compromisso, você também está excluindo do nosso horizonte de atuação a possibilidade
de conservar áreas de interesse para a biodiversidade em que a população tem o direito de estar
lá dentro, embora esteja com baixíssimo grau de organização. Então, você já está colocando um
caminho que começa a inviabilizar alguns dos interesses estratégicos que eu acho que nós
temos com a categoria.

150
A SRª. LÍGIA SIMONIAN (UFPA) – Com relação a essa questão de ser prioridade para poder
definir uma área, por exemplo, se tu pegas a Amazônia – eu vou só exemplificar mais ou menos
o que ele disse – na prática é muito difícil para as comunidades e as populações locais se
organizarem porque isso tem um custo altíssimo. Você não imagina o que é chegar lá em Novo
Aripuanã, em Manicoré e ver o custo da gasolina, do combatível para uma voadeira para
mobilizar a população. Então, é um custo altíssimo que a população não tem como... Então, ela
não é organizada não por que ela não queira, mas porque ela não tem condições objetivas de se
organizar. Então, seria perigoso realmente uma observação desse tipo eu acho, mas são coisas
ainda para nós discutirmos .

O SR. RENATO R. SALES – Eu acho que são duas questões que devem ser colocadas mesmo:
uma dela é a seguinte: é desejável sim, isso no meu ponto de vista, que as organizações tenham
oportunidades de se organizar, de se mobilizar e de se fazer ouvir e defender os seus direitos,
em qualquer situação. E quando eu falo em comunidades organizadas, eu não digo formalmente
só, eu não quero dizer que são associações, cooperativa formalizadas, etc., têm que ter uma
certa coesão sim social ou então produtiva entre esses moradores para que eles, inclusive
possam cumprir o que dispõe o art. 23, § 1º, que fala que eles são obrigados a defender e a
preservar a área. Como é que eles vão fazer isso sem...? Ou precisa mudar, Ronaldo, precisa
mudar...

O SR. RONALDO WEIGAND JR. (ARPA/SBF/MMA) – Mas não precisa ser a área inteira (...).

O SR. RENATO R. SALES – Mais adiante, nas propostas para implantação e gestão, nós
estamos entrando nessa questão, sugerindo a definição de quem toma conta do que, mas eu
não vejo nenhum problema em se desejar ou se querer que haja uma organização da população.

O SR. FERNANDO VASCONCELOS DE ARAÚJO (WWF-Brasil) – Questão de ordem. Eu


consulto o Renato se esse é o último slide ou se teriam outras...

O SR. RENATO R. SALES – Teria depois uma relação de estudos ou de suscitações que nós
consideramos importantes para que esses condicionantes sejam aferidos, mas depois nós
passaríamos para implantação e gestão.

O SR. FERNANDO VASCONCELOS DE ARAÚJO (WWF-Brasil) – A proposta é prosseguir,


porque vai atender algumas ansiedades... E vamos ter um espaço à tarde justamente para dar
foco nesses aspectos que estão agora já polêmicos. Então, Renato, vamos em frente.

O SR. RENATO R. SALES – Então, nos casos em que as famílias residentes na área alvo de
proteção apresente características descritas no Item I, isto é, “aquelas características como, por
exemplo, residir na área, conhecer o ecossistema, desenvolver atividades não impactantes, etc.,
detendo títulos de propriedades da terra demanda a criação de uma reserva de uso sustentável
e não queiram ter as suas áreas desapropriadas, deverá então prevalecer a categoria RDS em
detrimento de RESEX mesmo que as atividades tradicionalmente desenvolvidas sejam
conceituadas como predominantemente extrativistas”. E aqui entra uma questão também de uma
discussão do que foi historicamente aquela contraposição entre Mamirauá e a proposta da
Reserva Ecológica Cultural. Mas eu acho que os comunitários para cada uma dessas
condicionantes constam aqui também, se nós formos parar em cada uma delas, nós vamos
extrapolar em muito o tempo. Diretrizes. Só falando rapidamente, o que nós achamos que deve
ser feito para se fazer uma avaliação dessas condicionantes, seria: “Levantamento das

151
informações sócio-ambientais disponíveis sobre a área, identificação em campo dos diversos
segmentos sócio-culturais, econômicos e políticos envolvidos, levantamento em campo das
principais características da área, identificação preliminar do estado de ecossistemas abrangidos
e a avaliação de possibilidade de recuperação de áreas degradadas, identificação preliminar das
áreas significativas para manutenção ou recuperação da diversidade biológica, sistematização e
análise do tipo de ocupação na área (...) as características sócio-econômica culturais das
famílias residentes e o mapeamento dos locais de moradia de uso comum de exploração dos
recursos naturais, levantamento de contingentes não-moradores usuários dos recursos naturais,
levantamento da situação fundiária e levantamento das formas de graus de organização sócio-
produtiva, estrutura de serviços sociais, avaliação do interesse dos moradores em
permanecerem e conservar o local de acordo com a legislação vigente, avaliação preliminar
sobre o potencial de sustentabilidade econômica e ambiental das atividades de exploração dos
espaços de recursos, identificação de outros seguimentos regionais envolvidos com a área alvo
de proteção, identificação de eventuais ocorrências de uso e de conflitos e interesses entre os
segmentos”. Eu pergunto a vocês e Fernando, eu continuo com as diretrizes para implantação e
gestão ou não?

O SR. FERNANDO VASCONCELOS DE ARAÚJO (WWF-Brasil) – Em atenção à estrutura que


nós fizemos para o debate de hoje e ao que está previsto para hoje à tarde, nós vamos distribuir
esse condicionantes para a criação, e a idéia é formar Grupos de Trabalho conforme os dois
temas. Voltando aqui um pouquinho: os dois temas são estes dois: condicionantes para a
criação e diretrizes para implantação. Então, essa parte de diretrizes é o que viria agora
alimentar uma outra parte do debate, que seriam os dois grupos para o primeiro item –
condicionantes para a criação - e outros dois grupos para diretrizes. Então, os outros dois
grupos, os últimos dois, seriam beneficiados agora com a explanação do Renato sobre esse
assunto. A minha proposta é que se prossiga e dê elemento para esses grupos também.

O SR. RONALDO WEIGAND JR. (ARPA/SBF/MMA) – A minha questão é quando é que nós
fazemos a escolha estratégica de qual modelo nós estamos falando, porque depois nós
detalhamos o modelo, mas tem uma escolha estratégica a ser feita antes, que é o parque com
gente dentro, é uma RESEX com um nome diferente ou é uma coisa mais liberal, mais próxima
da APA, ou de um modelo francês de parque, alguma coisa assim. Então, do que nós estamos
falando? Daí nós podemos olhar... Ir para Grupo de Trabalho, detalhar e tudo, mas se nós não
soubermos do que nós estamos falando fica difícil, tem que fazer escolha, tem que se discutir
isto aí: o que é estratégico para o Brasil em termos de detalhamento dessa categoria?

O SR. CLÁUDIO MARETTI (WWF-Brasil) – Eu queria discordar do Ronaldo, com respeito, na


seguinte questão: este evento não tem condições de definir qual é o modelo. Nós não podemos
definir um modelo para depois debater porque nós não temos nem legitimidade para isso e não
tem esse acúmulo já feito, essa possibilidade de decisão. Então, o que nós identificamos foram
os elementos a partir dos quais o modelo se define. Pode ter sido errada essa escolha dos
elementos, mas nós entendemos que eles estão apresentando a proposta deles, dos elementos.
E o que nós vamos fazer à tarde é discutir se nós concordamos ou não se a comunidade tem
que ser organizada, se nós concordamos ou não que tem que se morar dentro da área, etc. E ao
definir esses pontos, nós vamos estar discutindo o modelo de cada um, mas o resultado não é
um modelo. O resultado deste evento não é um modelo porque nós vamos levantar inclusive as
divergências e apresentar para os órgãos que aí sim vão interpretar, adotar o modelo para a
regulamentação de fato. Então, eu acho que nós estamos, na verdade, a um passo disso. Com
base nesta discussão talvez possa haver um debate... O que eu acho é que eu acho que a

152
discussão do modelo cabe aqui hoje, mas não a definição. Então, a partir do momento em que
encerre, nós teríamos previsto, já que o debate já está ocorrendo, um espaço de discussão
geral, onde pode se discutir modelos, questionamentos, criticar. Eu tenho inclusive alguns pontos
para criticar. E depois, à tarde, analisar ponto por ponto, porque nós achamos que não dá para
definir um modelo aqui. O modelo vai ser definido pelos seus elementos, o que pode ter sido
uma escolha equivocada, mas essa foi a opção.

O SR. MAURÍCIO MERCADANTE (DAP/SBF/MMA) – Só talvez defendendo um pouco o ponto


de vista do Ronaldo, é porque se eu entendi bem eu concordo com o Ronaldo, do modo como foi
apresentado, o que foi apresentado pressupõe já um modelo, essa é a questão, um modelo com
o qual o Ronaldo e eu em particular também não concordamos. Então, eu acho que essa é a
questão que ele está colocando. Se você não definir o modelo, é difícil detalhar.

O SR. RENATO R. SALES – Mas Maurício, quais pontos são que não se encaixam nesse
modelo que vocês defendem? Tem essa questão da mobilização. Eu falei de organização. E
quando eu falo em organização, não precisa ser formal, mas tem que ter uma coesão social para
que aquele pessoal queira continuar na área, porque senão nem precisa fazer uma RDS. Então,
existem alguns indicativos...

O SR. MAURÍCIO MERCADANTE (DAP/SBF/MMA) – Mas nós não estamos concordando muito
com isso que você está afirmando. É discutível.

O SR. RENATO R. SALES – Mas essa é a única questão ou tem outros pontos desses que
foram apresentados que comprometem esse modelo?

O SR. RONALDO WEIGAND JR. (ARPA/SBF/MMA) – Tem a questão da população residente.


A questão da população residente é uma outra questão para nós estarmos discutindo em relação
a isso, o tipo de população que está lá, o tipo de atividade que pode ser feita. Então, tem várias
coisas que estão sendo colocadas aí: a questão da desapropriação, da inclusão ou não... Tudo
isso são questões que a discussão desse modelo reflete.

O SR. RENATO R. SALES – Na seqüência nós vamos tratar disso.

O SR. RONALDO WEIGAND JR. (ARPA/SBF/MMA) – Eu sei que os pontos são os mesmos,
mas a forma como nós recebemos a proposta que vocês estão colocando muda conforme nós
estamos convencidos de um modelo ou de outro. Não é que eu esteja discordando dos pontos,
mas eu gostaria de ter como pano de fundo um pouco dessa discussão estratégica a respeito do
modelo para poder receber a proposta de um jeito ou de outro.

O SR. RENATO R. SALES – Eu entendi.

O SR. CLÁUDIO MARETTI (WWF-Brasil) – Antes de você entrar na discussão do conteúdo,


vamos numa questão de forma aqui. São duas coisas que estão juntas e talvez isso esteja
gerando confusão, são pontos que foram levantados e a opinião de quem fez o estudo. Não é
preciso adota essa opinião. Isso não vai ao resultado do evento. Se a opinião está sendo
apresentada é ponto para debate. Então, os pontos que estão sendo levantados, não
necessariamente serão aqueles que nós vamos concluir, quer dizer, os pontos, nós vamos
discutir sobre eles. Essa é a previsão do horário da tarde. Agora, a posição nossa não é
concordância com o que está sendo apresentado, não precisa ser. Então, não há essa

153
suposição de que nós vamos discutir só a posição de quem apresentou, questionar e tal, mas há
possibilidade de levantar as opiniões próprias.

O SR. RENATO R. SALES – E nem temos a pretensão também.

O SR. MAURÍCIO MERCADANTE (DAP/SBF/MMA) – Na verdade, os pontos que foram


colocados são excelentes eu acho. Eu acho que está super posto, super-bem colocado. A
qualidade do trabalho que foi feito é que está inclusive tocando em alguns pontos fundamentais
e está sucitando a discussão, está nos ajudando a ir ao âmago da questão. Agora, a nossa
dificuldade aqui é que me parece que não se trata de partir dos elementos para se chegar ao
modelo. Se nós aqui não temos condições de definir o modelo, pelo menos nós temos que deixar
definido claramente quais são os modelos. Eu acho que esse é o exercício que o Ronaldo fez:
“Nós temos o modelo A e nós temos o modelo B”. Se o modelo A é esse, as características de
uma regulamentação, por exemplo, têm que ser essas e essas; se o modelo é o B, tem que ser
essas e essas, mas ter claro quais são os modelos e não ir para a discussão dos itens sem ter
claro do que nós estamos falando, porque fica: “Eu acho que é assim, eu acho que é assado”,
mas qual é o modelo que está na sua cabeça? “O meu modelo é esse”. Eu acho que essa é a
questão que o Ronaldo está colocando. Então, a sugestão é que nós... Eu não sei nem se o
caso, talvez nós devamos... Vamos em frente e vemos no que dá, mas tendo claro que existem
modelos aqui em discussão que não são coincidentes,são diferentes.

O SR. RONALDO WEIGAND JR. (ARPA/SBF/MMA) – É discutir: “O meu modelo é tal”.

O SR. CLÁUDIO MARETTI (WWF-Brasil) – Antes de entrar na discussão, vamos a uma


questão de forma aqui. Estava previsto nós termos uma hora ou uma hora e meia de debate,
onde a discussão dos modelos caberia. Na verdade, já são 12h40, eu não sei como é que nós
programamos o interromper para o almoço porque o que nós podemos eventualmente fazer, se
essa for a opinião da maioria, é interromper agora, fazer o debate geral e voltar nisso no começo
da tarde para daí discutir ponto por ponto, porque estava prevista uma hora, uma hora e pouco e
do jeito que vai nós vamos até... Porque nós estamos fazendo o debate no meio. Então, do jeito
que vai, para ele apresentar as outras oito diretrizes vai mais 15 ou 20 minutos. Então, que horas
que nós paramos para almoçar? Nós temos almoço combinado para todo mundo?

O SR. FERNANDO VASCONCELOS DE ARAÚJO (WWF-Brasil) – Por volta das 13h.

O SR. CLÁUDIO MARETTI (WWF-Brasil) – Temos almoço aqui no hotel?

O SR. FERNANDO VASCONCELOS DE ARAÚJO (WWF-Brasil) – Aqui no hotel, por volta das
13h.

O SR. CLÁUDIO MARETTI (WWF-Brasil) – Então, nós temos almoço disponível para vocês
aqui no hotel. Nós convidamos vocês todos a almoçarem e continuar na parte da tarde por volta
das 13h, ou seja, nós temos cerca de meia hora. Quais são as opiniões: vamos fazer uma
votação rápida só para consultar ou não? Alguém acha que é melhor adiar o almoço? Alguém
acha que é melhor adiar o almoço? São duas questões. Qual que a gente coloca primeiro? O
adiamento do almoço ou o que a gente faz agora? Então antes de discutir adiamento ou não tem
a proposta de continuar apresentando as diretrizes e aí depois ir para o debate geral e isso pode
ser que já dê a hora do almoço e daí a gente vai para tarde e depois tem o trabalho dos grupos
para discutir ponto por ponto. Essa é a proposta. A segunda proposta é a gente interromper as

154
diretrizes agora e fazer meia hora ou um pouco mais de debate geral e depois voltar para as
diretrizes para encaminhar o trabalho dos grupos.

O SR. NÃO IDENTIFICADO – O debate sobre gestão no primeiro bloco, é isso? Agora seria
somente sobre criação, aliás?

O SR.CLÁUDIO C. MARETTI (WWF-Brasil ) – Não, seria geral: modelos, idéias, dúvidas,


críticas sobre o que o André falou, o Renato, a Lucila e tudo, manifestações de opiniões,
qualquer coisa. Debate geral, desde que geral relativo à RDS.

O SR. ANDRÉ RODOLFO DE LIMA (ISA) – Sem prejuízo da anarquia geral e sem ter feito uma
reflexão vertical sobre isso daí, eu acho o seguinte. Ele iniciou uma apresentação, ela já suscitou
debates pertinentes e imagino que não só você esteja pensando sobre isso, como outras
pessoas estejam pensando. Quer dizer, isso aqui se encaixa no meu modelo e não se encaixa
no outro. Eu acho que ele poderia concluir essa parte e vamos almoçar às 13h, em meia hora ele
conclui isso, vamos almoçar, voltamos e abrimos uma hora de conversa geral sobre a análise. A
partir dos pontos que ele levantou uma geral e aí vai para os grupos com esse aquecimento do
geral.

O SR. CLÁUDIO C. MARETTI (WWF-Brasil ) – Mas então essa é a discussão que eu estou
querendo para sentir o plenário. Nós continuamos com essas diretrizes ou vamos para o debate
geral agora? Só para gente sentir a manifestação. Quem quer continuar a apresentação das
diretrizes e depois nós continuamos o resto? Seis pessoas. Quem que acha que a gente deve
fazer o debate geral já agora e interromper isso? Então, a gente continua com as diretrizes e
quando ele acabar a gente avalia o horário do almoço.

O SR. RENATO SALES – Então, são Diretrizes para Implantação e Gestão da Reserva. A
primeira trata daquela questão das atividades econômicas. O enunciado ficou como “atividades
econômicas desenvolvidas de uma RDS deve ter a elaboração do seu plano de manejo, se
restringir aquelas já desenvolvidas historicamente pelas populações locais, cabendo, entretanto
esforços para seu aprimoramento notadamente no que diz respeito a sustentabilidade ambiental,
aumento de produtividade, agregação de valor as mercadorias produzidas e detecção de formas
mais rentáveis de comercialização da produção de prestação de serviço. Após os estudos que
irão embasar a elaboração dos planos de manejo e zoneamento da Unidade, se surgirem
indicações de novas alternativas econômicas, essas deverão estar de acordo com a Lei do
SNUC e dos demais instrumentos de legislação ambiental e deverão ser geridas diretamente
pelas famílias ou organizações locais, as quais deverão ser suas principais beneficiárias. O
comentário que eu posso fazer a respeito disso é para tentar, quer dizer, esse enunciado tenta
fugir um pouco daquela questão se tem que ter mineração ou não, se tem que ter exploração de
petróleo ou não e etc. dentro de uma RDS”. O que nós pretendemos com essa redação, com
esse enunciado é fazer com que atividades prioritariamente a serem desenvolvidas são aquelas
já historicamente desenvolvidas pelos moradores, cabendo o aprimoramento. Se surgir alguma
outra indicação, se tiver uma vocação da área que permita alguma outra coisa, essa atividade
tem que ser geridas por famílias ou organizações locais, não pode ser uma empresa. E mais, os
beneficiários, os principais beneficiários tem que ser os moradores locais. Então você não pode
imaginar que alguma empresa vá lucrar dentro de uma RDS. Essa seria a idéia principal desse
enunciado. Há outros comentários, mas eu acho que é bom deixar para os debates. 2 – “Nos
casos de famílias residentes no interior da RDS que concordam, que já entraram em acordo com
a sua criação e implantação, possuírem documentos comprobatórios de dominialidade de suas
áreas de moradia e ou exploração econômica, os Órgãos competentes deverão firmar com seus

155
representantes Termos de Compromisso, de acordo com o artigo 39º do capítulo 9º do Decreto
4340, como forma de garantir que as normas do plano de manejo e o zoneamento das Unidades
sejam devidamente cumpridas. Nesses casos, a dominialidade permanece privada e os prazos
dos Termos de Compromisso para permanência dos proprietários na área protegida devem ser
acordos entre as parte interessadas, prevendo, entretanto, tempo suficiente para que os
moradores tenham garantia para planejar as suas atividades presentes e futuras. Na verdade, o
que está querendo se fazer com isso é comprometer um pouco mais as propriedades existentes
dentro da área, mas propriedades essas de famílias tradicionais que queiram Reserva e que
aceite o plano de manejo. Devem também ser renovados automaticamente esses prazos de
Termos de Compromisso, o prazo de inspiração é sempre que houver interesse das partes,
inclusive, entre as partes do Conselho Gestor. Para os casos de moradores não detentores de
documentos de documentos comprobatórios de dominialidade das terras que utilizam, daí deverá
prevalecer o artigo 10º do Decreto do SNUC o qual prevê a assinatura de contrato de concessão
de uso de terras públicas e de respectivo Termo de Compromisso específico para tais
situações”. 3 – “Nos casos em que os resultados dos estudos técnicos e das consultas públicas
indicarem a importância de incorporação de terras privadas a área RDS, cujos proprietários
tenham interesse diversos daqueles das comunidades locais ou que com estas apresente
conflitos ou ainda que tenham interesse de forma de ocupação conflitantes com os objetivos
ambientais da RDS, caberá aos Órgãos competentes a iniciativa de providenciar a sua
desapropriação ou intervenção, por exemplo, do Ministério Público para que com seus
proprietários sejam assinados Termos de Compromisso sob os usos do imóveis até o momento
que for disponibilizado o recurso para sua desapropriação. Sugere-se que tais Termos de
Compromisso sejam embasados pelo disposto no artigo 30º do capítulo 9º do Decreto do SNUC
que regulamenta, apesar de tal capítulo tratar originalmente apenas de populações tradicionais
em Unidades de Proteção Integral”. Não existe um instrumento no SNUC que trate desses
assuntos, então a sugestão é que se use esse instrumento que trata de populações tradicionais
em Unidades de Proteção Integral que teria, acho, na verdade, o mesmo efeito. Mas é claro que
cabe aos juristas uma opinião mais balizada sobre isso. 4 – “Formação de Conselho Gestor
objetivando a participação de maior número de representantes dos moradores e usuários da
RDS, além de representantes de Organizações da Sociedade Civil Regional e de Órgão Públicos
competentes das três esferas de poder. Os setores produtivos regionais em torno imediato da
Unidade, cujos interesses sejam distintos daqueles das comunidades locais devem criar um
Comitê próprio para escolha de apenas um representante com direito a assento nesse Fórum”.
Na verdade, o que se pretende com isso é, em alguns casos, onde a RDS seja rodeada por
vários empreendimentos, enfim, estatais ou particulares, etc. e tal, fazendas, que esses
representantes desses setores produtivos, mais empresariais ou então conflitantes com os
interesses da Reserva não tenha assento garantido para cada um deles no Conselho
Deliberativo, mas sim eles devem se reunir, se organizar de qualquer forma e eleger um
representante do setor produtivo para o Conselho. Existem alguns casos, por exemplo, Arraial do
Cabo, essa é uma RESEX, mas se não fosse tomada uma medida similar seria um grande
problema e nenhuma mais votação beneficiaria os pescadores, mas sim os agentes de turismo,
a Petrobrás, a Marinha, etc. e tal, a Prefeitura, porque existem tantos interesses envolvidos que
se cada um estivesse representado no Conselho o próprio objetivo da Reserva iria para o brejo
porque nenhuma dessas pessoas querem a Reserva.

A Srª. SÔNIA MARIA PEREIRA WIEDMANN (IBAMA) – você vai falar ainda da zona de
amortecimento. Isso que nós estamos tratando aqui é exatamente os impactos da zona de
amortecimento, não é?

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O SR. RENATO SALES – Não só. No caso de RDS, como foi dito, existem em vários Estados e
hoje nós temos fazendas dentro das RDSs. Então enquanto não fizer, ser for cumprido esse
roteiro, mas enquanto não fizer a desapropriação, essas pessoas estarem lá e vai se julgar e até
com um certo direito de participar de um Conselho porque as suas atividades estão sendo de
alguma forma prejudicadas ou, enfim, afetadas pela existência da Reserva. Então, a idéia é fazer
com que não cada representante de uma fazenda, de um empreendimento tenha assentou ou
voto, mas se fazer com que os vários empreendimentos do setor produtivo se unam e elejam
apenas um porque senão pode comprometer o objetivo da reserva sim. A mesma coisa acontece
n reserva da ponta do tubarão e eles tiveram essa solução. Vocês se reúnem e reúne desde o
pequeno comerciante, padeiro até a Petrobrás, carcinicultura, não quero saber, vocês se reúnem
e escolham o representante de vocês e foi isso que foi feito e está funcionando. 5 – “O plano de
manejo da Reserva de Desenvolvimento Sustentável deve ser elaborado de forma participativa e
se constituir em documento prático que permita, tanto a orientação dos moradores gestores na
condução das práticas cotidianas da Unidade, quanto o planejamento em médio e longo prazo
das atividades de preservação e conservação ambiental e de promoção da qualidade de vida
das comunidades locais. Deve ser elaborado, a partir da consulta, dados secundários, análises
dos resultados de estudos expeditos realizados em campo sobre a realidade sócio-ambiental e
da apreensão do conhecimento acumulado pelos moradores sobre os ecossistemas e suas
expressões sociais, culturais e econômicas. Esse primeiro esforço de elaboração participativo do
plano pode permitir a redação de uma primeira versão formal e a identificação de lacunas de
conhecimento, assim como indicação de ações para preenchê-las. Deve, portanto, também ter
um caráter dinâmico, sendo a ele incorporadas periodicamente novas normas e recomendações,
a partir do desenvolvimento de pesquisas técnicas e científicas identificadas como prioritárias e
do monitoramento sistemático das atividades e das decisões tomadas pelas Instâncias Gestoras
da Unidade de Conservação. Deve tratar-se de um Unidade de Uso Sustentável e o plano de vê
contemplar a elaboração de planos de manejo de rendimento sustentável de espécies - que isso
confunde um pouco o nome, mas tecnicamente é usado plano de manejo de rendimento
sustentável de espécie - E também da realização de plano de negócios para os principais
produtos comercializados pelas comunidades da Unidade”. Por fim, “o plano de manejo deve
indicar uma relação de pesquisas científicas que permitem a otimização ambiental da zona de
preservação, bem como definir um protocolo de monitoramento contínuo da Unidade”. Essa
diretriz está bastante relacionada ao sumiço na versão do SNUC do plano de utilização e o plano
de desenvolvimento das Reservas Extrativistas que eram planos diferenciados dos planos de
outras Unidades de Conservação , principalmente, de Proteção Integral. Então, na verdade, quer
dizer, anteriormente o que se preconizava era que as RESEX teriam planos de utilização e plano
de desenvolvimento que têm, na verdade, normas muito claras e muito fácies para que as
comunidades e as famílias saibam o que pode e o que não pode se fazer, em qual área pode se
fazer e em qual não pode. Quando é lançado o SNUC some essa figura do plano de utilização,
plano de desenvolvimento e tudo é tratado como plano de manejo. E o que a gente tem reparado
é que em vários Estados, quando as pessoas começam a se preparar para elaborar o plano de
manejo elas levam em consideração aquela receita da DIREC do IBAMA para montar plano de
manejo para proteção integral. Então é uma série de estudos biofísicos, muitos deles com uma
longa duração, cinco a seis anos para ficar pronto e pouca participação da comunidade, enfim,
dos moradores, etc. e tal. Como tem uma área dentro de uma RDS que é uma área de uso
antrópico, mesmo eu seja sustentável, tenha um uso antrópico é fundamental que o plano de
manejo leve em consideração também essas atividades desenvolvidas e que ele sirva de uma
constituição bastante prática para Unidade de Conservação, para que as pessoas saibam,
primeiro: que discutam, decidam e saibam claramente o que pode e o que não pode fazer e
quais são as penalidades inerentes a qualquer tipo de infração. 6 – “O zoneamento das
Unidades de categoria RDS deve ser elaborado de forma participativa e contemplar zonas de

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proteção integral de uso sustentável e de amortecimento, e quando couber, Corredores
Ecológicos - isso está no § 6º do 20º artigo do SNUC – para tanto deve ser consideradas as
informações sobre a dinâmica de utilização econômica e cultural dos espaços e recursos
naturais da área, dinâmica territorial da população, definição do número, densidade e distribuição
dos assentamentos humanos, assim como os resultados dos estudos e levantamento de
estoques de comportamento biológico e ecológico das espécies mais fortemente exploradas
realizadas para formulação dos planos de manejo de rendimento sustentável. Esses planos de
rendimentos sustentáveis devem compor, devem ser subprodutos dos planos de manejo de
forma geral. Da mesma forma devem ser consideradas as pesquisas e informações dos
moradores sobre áreas significativas para conservação de biodiversidade e de ocorrência de
espécies nativas importantes ou ameaçadas, afim de se definir as áreas de preservação total ou
de proteção total e de definir eventuais defesos temporais ou espaciais. Para zona de uso
sustentável sugere-se sua divisão em áreas de moradia e equipamentos, áreas de uso culturais,
áreas de ocupações predominantemente extrativistas, áreas de pesca, coleta, áreas de usos
predominantemente agrícolas e pecuários, áreas com potencial para visitação turística e etc. No
que refere as essas zonas de uso sustentável deve-se também levar em consideração, tanto no
zoneamento como no plano de manejo a discussão e definição de normas regulatórias de
acesso às áreas de uso dos recursos naturais pela população local e do entorno, bem como as
normas para entrada de novos ocupantes ou novos usuários”. Existe também uma série de,
enfim, de considerações que podem ser feitas, mas acho que ficaria depois para o debate e a
gente já passaria para sete. 7 – “Os Órgãos responsáveis das três esferas de poder devem
prevê recursos orçamentários para ações de apoio a organização social e produtiva das
comunidades residentes nas Reservas de Desenvolvimento Sustentável. Tais ações devem
privilegiar o aprimoramento das práticas e forma de atuação das organizações já existentes,
facilitar a de associações, cooperativas e etc., sempre que para isso haja consenso entre os
usuários da Reserva. Os Órgãos devem também apoiar a formação do Conselho Deliberativo da
Reserva, propiciando a plena compreensão dos segmentos locais sobre esse fórum, a realização
de reuniões preparatórias, elaboração e distribuição de material de divulgação, disponibilização
de estruturas necessárias para o seu funcionamento. Da mesma forma, os Órgãos responsáveis
pela RDS devem servir como facilitadores na busca de financiamentos para aprimoramento das
atividades econômicas desenvolvidas, bem como nas negociações dos Conselhos Deliberativos
com outras Instâncias Públicas das três esferas do poder para gente tentar prover as
comunidades de equipamentos e serviço sociais importantes para promoção da qualidade de
vida local”. Isso tem a ver com aquilo que nós consideramos importante, para uma RDS
funcionar é bom sim que tenha organização das comunidades, então eu acho que cabe sim ao
Estado ou então ao Órgão Gestor o apoio para que elas se organizem. E cabe também, eu acho,
que esse papel de intermediário, de facilitador na busca de financiamentos ou então da
implantação de infra-estrutura básica para melhoraria de qualidade de vida, já que a RDS, no
SNUC está dito que um dos seus principais objetivos é melhorar a qualidade de vida das
populações locais. 8 – “A fiscalização e o monitoramento das RDSs devem ser de
responsabilidade compartilhada entre os Órgãos Administradores e as comunidades locais
representadas pelo seu Conselho Gestor. Sugere-se que esse fórum seja co-responsável pela
definição dos protocolos de monitoramento e fiscalização da Unidade, respeitando suas
especificidades, bem como sejam responsáveis pela nomeação e administração do contingente
de moradores voluntários envolvidos com essas atividades. Sugere-se também que a vigilância
das zonas de uso sustentável seja de responsabilidade dos moradores e de Agentes dos Órgãos
Públicos, recaindo nesses últimos, os Agentes dos Órgãos Públicos, a exclusividade nas tarefas
de fiscalização da zona de preservação total”. Tentando prever casos, por exemplo, como o Rio
Iratapuru, até mesmo o Cujubim do jeito que ela está, quer dizer, não recairia nas costas dos
moradores a responsabilidade por fiscalizar dois milhões de hectares. Enfim, e daí para o

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cumprimento dessas diretrizes a gente acha que tem algumas pré-condições, por exemplo,
Gestores públicos capacitados para estabelecer canais de negociação, realizar negociações em
busca de consenso e saber tratar com populações locais. É necessário também que haja
articulação e coordenação entre os atores envolvidos na gestão da Unidade. É necessário
sempre ter em conta um horizonte de longo prazo para o planejamento das ações de
implantação considerando que o processo de participação comunitário é longo, assim como o
processo de formação da equipe de trabalho para gestão das Unidades de Conservação . E
também a última consideração, que poderia haver uma possibilidade de compensação de se
subsidiar as populações moradoras pelos serviços ambientais prestados, considerando o
interesse da sociedade como um todo na conservação de área e a contribuição das
comunidades locais para este fim. Então essas são as condicionantes e as diretrizes.
Condicionantes para implantação e diretrizes pra implantação e gestão. Volto a dizer, a gente
não tinha a pretensão que isso fosse chegar facilmente ao consenso, muito pelo contrário, é um
assunto polêmico e delicado. Passa pelo que o Ronaldo e o Mercadante falaram que tem uma
questão de modelo a ser discutida, mas eu acho que... Sinceramente, eu não acho que esse
modelo defendido por vocês possa estar muito comprometido com o que foi colocado aqui. Mas
em todo caso isso vai ficar para o debate e é claro para os grupos de trabalho que vão ocorrer à
tarde.

O SR. MAURÍCIO MERCADANTE (DAP/SBF/MMA) – Quando o SNUC foi elaborado existia,


digamos assim, um modelo ideal, teórico para RDS ou não teórico porque a gente tinha a
experiência Mamirauá. A proposta original do SNUC era a Reserva Ecológica Cultural, como
vocês, inclusive, colocam aqui. Então o que está me parecendo do que foi apresentado aqui, é
que hoje nós temos o modelo teórico que é aquele que inspirou o SNUC e nós temos algumas
experiências concretas. Parece-me que algumas das experiências concretas de RDS estão
fugindo do modelo original. Então nós estamos discutindo, por exemplo, quando a gente fala em
grandes propriedades privadas dentro de uma RDS e que não são propriedades de
comunidades tradicionais, a minha pergunta é: o que essas propriedades estão fazendo aí
dentro da RDS? Porque essa não era a idéia original. Na verdade, o que está acontecendo? E aí
a gente fica numa situação complicada porque nós estamos discutindo um modelo teórico e o
regulamento vai ser construído tendo em vista esse modelo ou nós vamos fazer uma
regulamentação em cima de algumas práticas que já existem, não seria o caso da gente... Eu
acho que essa é a discussão que nós temos que fazer. Tem alguns outros elementos aqui nessa
discussão que eu acho interessante. A gente já falou que a RDS em princípio seria um parque
com gente dentro. Então qual é a idéia? A idéia é que você tem uma grande área protegida,
preservada ainda onde você tem comunidades que estão lá dentro daquela área que você não
tem como excluir daquela área no desenho da Unidade, senão você descaracteriza o desenho
da Unidade. Em geral são comunidades ribeirinhas, esse era o modelo original, essa era a idéia
original. Então você cria a RDS e você mantém aquelas comunidades lá dentro e faz a gestão da
área sem excluir as comunidades. Agora, se você tem grandes propriedades e então não seria o
caso de, no desenho da RDS, excluir essas propriedades? Não incluir dentro delas? Quando a
gente pensa nessa discussão sobre RDS, o problema do RDS já começa no nome, não é nem
no conteúdo da Lei porque você tinha a Estação Ecológica de Mamirauá e você tinha a proposta
de Reserva Ecológica Cultural. No meio do caminho, como Estação Ecológica não admitia
presença de comunidade tradicional dentro, então, foi necessário mudar a categoria e aí se
optou por esse nome de Reserva de Desenvolvimento Sustentável que politicamente, eu acho,
me corrijam, não sei por que não conheço toda história, mas politicamente era oportuno fazer
isso porque viabilizava, melhoravam as possibilidades de conseguir recursos e financiamentos,
politicamente era melhor e etc. Então botou-se o nome e a gente incorporou esse nome dentro
do SNUC para aproveitar a experiência de Mamirauá e eu acho que nós criamos um problema

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para nós depois porque Reserva de Desenvolvimento Sustentável, o nome sinaliza numa direção
que é a direção, talvez, que esteja sendo explorada e adotada nessas experiências práticas.
Devia ser Reserva Ecológica Cultural, isso daria uma idéia mais clara do que é. Eu acho que
outra questão complicada pra mim dentro do SNUC é o corte que a gente faz entre UC de
Proteção Integral e UC de Uso Sustentável, esse corte na verdade é arbitrário. Se a gente pegar
as UCs de Proteção Integral a gente tem lá Parque, Reserva Biológica e Estação Ecológica, tudo
bem não pode gente dentro, mas tem lá Monumento Natural que pode propriedade privada e
pode atividade econômica e nós temos Refúgio de Vida Silvestre que pode propriedade privada
e pode atividade econômica. E aí depois a gente pula para RDS que na verdade, eu acho que a
RDS está mais próxima de Proteção Integral do que de uma Floresta Nacional ou de uma
Reserva Extrativista, no entanto, está no outro grupo e está no outro grupo por quê? Por que
esse corte é um corte é arbitrário e tem razões práticas para gente fazer esse corte na Lei, na
hora de redigir uma série de dispositivos fica mais fácil fazer referência; Proteção Integral em
geral, Uso Sustentável de outro lado, mas cria também uma serão de dificuldades e induz a idéia
de que RDS é Uso Sustentável e Uso Sustentável é a Floresta Nacional, a Reserva Extrativista.
Podemos ter atividade econômica intensa naquela área e tal. Eu acho que é outro problema que
complica a gente pensar a RDS, eu acho que a gente devia pensar a RDS sim, abstraindo essa
discussão de Proteção Integral ou Uso Sustentável, eu acho que atrapalha, não ajuda. O nome
também atrapalha, não ajuda e eu acho que nós temos que pensar também a questão do que
nós estamos discutindo? Nós estamos discutindo o modelo e eu acho que para mim a palavra
chave é aquela que o Ronaldo usou, pra mim, me ajuda a organizar o pensamento.
Estrategicamente, o que nos interessa? Eu acho que essa é a pergunta e por isso que nós
estamos patinando aqui no mesmo modelo porque eu acho que nós estamos com uma visão
estratégica comum do que nós queremos lá para frente em relação ao SNUC. E algumas coisas
que estão sendo discutidas em relação as RDSs que estão propostas compromete essa visão
estratégica, não nos ajuda, não nos serve. Eu acho que por isso que nós estamos com essa
sintonia aqui.

O SR. RENATO SALES – Deixa só eu responder uma questão só que é quando você fala
assim. Afinal, o que está sendo levado em consideração? Se é o conceito original de RDS, a
situação atual? Porque houve é claro um certo desvirtuamento dos objetivos e etc. e tal. Quando
a gente prepara esse material a gente está levando em conta as duas coisas. Porque você sabe
que hoje existe uma série de RDSs Estaduais com grandes latifúndios dentro e é uma realidade.
Quando você pensa em regulamentar eu acho que você tem que levar em consideração essa
realidade já estabelecida. E é claro que bom manter viva a idéia original, resgatar o conceito
original, sem dúvida nenhuma, mas tem que correr atrás do prejudico também, enfim, do que foi
desvirtuado.

A Srª. LUCILA PINSARD VIANNA (Consultora) – Eu só queria falar uma coisa sobre o conceito
original, que não foi colocado aqui, mas que estava presente quando a gente escreveu a
Reserva Ecológica e Cultural. A idéia era poder abarcar populações que não são extrativistas,
quer dizer, a gente pensava muito na Mata Atlântica e no Cerrado, quer dizer, são populações
que não se encaixavam na RESEX. Então a Reserva Ecológica Cultural como originalmente foi
pensada era muito parecida com a RESEX, mas tinha uma preocupação maior de conservação
e, na verdade, ela era voltada para populações não extrativistas. Era essa a grande
preocupação.
O SR. FRANCISCO ADEMAR DA SILVA (Secretaria de Estado de Meio Ambiente e
Desenvolvimento Sustentável - SDS/AM) – Acho que as discussões para a gente trabalhar
sobre esses pontos polêmicos que levantaram aí nesses estudos, me parece, que não é só
nesse dia de hoje que vai ser possível a gente chegar a um consenso. Na verdade, eu senti falta

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de alguns elementos que, talvez, possa considerar o processo histórico dessa categoria. Fala-se
em Mamirauá, mas só fala a palavra Mamirauá, mas tem que falar as origens dessa categoria.
Eu acho que falta um pouco, eu senti falta disso. Hoje o Estado do Amazonas tem na gestão do
Estado doze a treze RDSs, cerca de nove a doze milhões de hectares e estão preservadas
nessas categorias. Então, o que eu quero falar? Como as populações locais... Reserva
Extrativista é uma questão de muito estudo, muito demorada, muito debate e isso acaba
deixando a comunidade, eu diria assim, meio desprotegida das suas atividades e dos seus
direitos. Então eles optam pela questão da RDS porque é uma coisa, pelo menos, no Estado é
uma questão de curto prazo, é uma coisa que acontece dentro de um prazo menor se levar em
consideração as RESEX. Então ela parte do princípio de quê? A primeira coisa que se tem é a
solicitação. Quando nós estamos falando de uma organização, eu estou dizendo que a
comunidade em si já começa a se organizar porque ela já faz um abaixo-assinado, faz uma
Assembléia e ela mesma já manda pedir ao Governo do Estado, ao Governo Federal para que
se crie uma Unidade de Conservação e normalmente eles, às vezes, colocam ali uma RDS.
Então ali me parece que já mostra um sinal de organização. Pelo menos, no nosso caso do
Estado tenho visto isso, há uma manifestação das comunidades locais para que seja criado isso.
Eu não sei, eu senti falta, Renato, disso e não sei se vocês conseguiram levantar isso. A outra
coisa que eu acho que ficou no item oito da sua fala aí da implementação é a questão da
fiscalização. Aí eu fico meio em dúvida, você está falando de co-gestão ou falando do gestor?
Porque se eu digo assim: Mamirauá, no caso, eles são co-gestores da RDS lá, eles vão ficar
responsáveis pela fiscalização? Ou não? É o papel do Gestor da Unidade. Para mim não está
muito claro, tem que saber de quem é o papel da fiscalização da Unidade. É dos moradores e do
co-gestor ou do gestor? Porque no caso da RDS a gente adota essa questão da co-gestão: PH
Sul, Mamirauá e aí nesse caso, talvez, precisa um pouco trabalhar isso. O processo de produção
eu acho que discordo, eu não sei, eu discordo nessa questão da pecuária. Eu acho que a
Unidade de Conservação na categoria RDS... Eu me aproximo da RESEX. A minha avaliação é
que as Unidades de Conservação categoria RDS tem que estar mais próximas da Reserva
Extrativista do que do Parque, por exemplo. Eu acho que isso facilita a vida dos moradores lá
dentro, a compreensão dos moradores. A questão de não está numa Reserva Extrativista é por
uma questão muito simples, chama-se o Estado em si ter dinheiro para indenizar os títulos, as
propriedades particulares lá dentro, mas para as populações eles consideram viver como
Unidade de Conservação da categoria de reserva Extrativista. Eu acho que aí é que eu vou
trabalhar no meu conceito de que as populações para eles é uma Reserva Extrativista com a
diferença de que tal coisas possam ser resolvidas. Nesse aspecto eu acho que a questão, para o
Estado do Amazonas em particular, a questão de adotar a geração de renda como pecuária
dentro do seu âmbito da reserva, eu acho que isso cria um problema muito grande e cria por
quê? Por que as populações locais não têm financeiramente condições de ter... Um ou dois lá
dentro que vai ter e quem é esse um ou dois? É o “cara” que tem o terreno lá dentro e eles vão
começar a induzir a população a começar a usar a Reserva para fazer pecuária. Então eu acho
que nessa questão eu queria que a gente fizesse uma discussão mais ampliada nessa questão
de geração de renda. Eu acho que a geração de renda também nas Unidades de Conservação
de Desenvolvimento Sustentável, no caso, RDS, deverá ser muito parecida com as das
Reservas Extrativistas. Não quero dizer que a pesca e essas coisas entram também, estou
falando parecido, não estou dizendo que é igual. Essa seria a minha fala.

O SR. FERNANDO VASCONCELOS DE ARAÚJO (WWF-Brasil) – Estão inscrito agora


Cláudio, Ronaldo, Henyo e Isabel.

O SR.CLÁUDIO C. MARETTI (WWF-Brasil ) – Eu não tenho questões não, eu tenho


concordância e discordâncias. Na verdade, eu queria registrar, é pena que o André não esteja

161
aqui, eu acho que ele fez uma interpretação limitada, complicada na questão do subsolo. O
subsolo é parte da Unidade, no meu entender, o Decreto, na verdade, em vez de melhorar
piorou. Ele fala que pode estabelecer o limite, então dá a abertura para o limite ser mínimo, mas
a Lei fala que o subsolo e o espaço aéreo integram, desde que tenham vínculo ecológico, o que
normalmente ocorre. Também acho que essa história que não é dele, mas que ele traduziu aqui
de que pode ter áreas privadas, ilhadas no meio da RDS é confundir tudo. Eu acho que isso,
pensando até na diretriz estratégica do que a gente quer, só vai atrapalhar. Eu tinha como um
dos conflitos principais a questão da propriedade privada ou não. Eu acho que o estudo do
Renato e Lucila dão uma luz boa nisso aí e eu passo a aceitar a lógica de que é possível ter, e o
André falou nisso e muita gente que pronunciou, o Paulo e etc., é possível ter propriedade
privada, desde que dos locais, dede que para os locais. Ou seja, o que não tiver, no meu
entendimento, e aí não é legal não, o entendimento técnico, o que não for de comunidade local
não deve caber dento de uma RDS, ou desapropria ou faz outro desenho. Eu acho que “a
propriedade” que eu estou entendendo, para mim isso foi uma solução. Eu queria defender essa
visão como comunidades locais, justamente fugindo da polêmica, e acho que como eles
definiram está bastante adequado, porque não fica na questão de se é dez ou quinze anos, o
que é histórico, uma geração já é histórica, não é ou tradicional. Afinal o que é tradicional? É do
ponto de vista preconceituoso, aquilo que só se repete? Do ponto de vista legal todos temos a
nossa tradição? Então, é um processo complicado. Eu acho que isso resolve em parte a
questão. Agora, eu acho que o meu problema maior é que o modelo brasileiro do SNUC é
baseado em múltiplas questões, múltiplos critérios. E isso para mim confunde. Aqui é o vício de
obrigação. Estou baseado na discussão de UCN que tem décadas, quer dizer, depois de
décadas se reformulou terceiro, quarto sistema de classificação que não é para ser implantado
nos países, mas é um mecanismo de conversa internacional, nós termos dez anos de trabalho
para chegarmos à conclusão que tinha que se restringir aos objetivos. Nem o nível de restrição
está explícito na classificação internacional da UCN. É claro que tem de alguma forma implícita,
mas nem o nível de restrição está explícito. E aí o fato é que a discussão de (...) melhorou, no
último congresso de impactos, isso mais ainda porque em vez de misturar tudo, deixou separado
com dimensões diferentes. Em 2006, UCN tem um compromisso perante a CBB de fazer uma
discussão sobre o Sistema de Classificação Internacional. E a discussão que se faz hoje é se
mantém as categorias em seis, por objetivos confusos, que é confuso, etc. e tal, mas mesmo
assim é um pouco mais claro. Uma outra dimensão é a dimensão é dimensão da gestão, do
modelo de gestão e de quem faz a gestão, e aí gestão compartilhada, gestão comunitária,
gestão do Estado, gestão sub-nacional, etc. O terceiro é a questão da titularidade, como é que
se repassa e tal, que está associado à gestão, ou seja, quem tem o direito do acesso aos
recursos nem sempre é uma coisa clara, quem tem o direito à gestão da área, etc. E aí você
abre a possibilidade, inclusive para coisas que... A lógica é você ter, por exemplo, coisas que se
equivalem a reservas biológicas, a parques, mas na propriedade privada ou geridas por
comunidades. O que é afinal uma área - claro que normalmente elas são pequenas - de
interesse místico, ela pode ser muitas vezes uma zona intangível gerida por comunidade. Então,
a discussão do Congresso Mundial de Parques separa a lógica de que gestão de comunidade é
sempre uso sustentável e gestão do Governo Nacional é sempre proteção integral. É essa
separação. Agora, não cabe trazer e modificar o SNUC, não é isso, é só para nós pensarmos
que no SNUC... Por isso que eu acho que, às vezes, nós temos que pensar em algumas
dimensões diferentes. Então, essas dimensões, para mim esse é o meu raciocínio de apenar.
Então, dessa forma, chegando à idéia do modelo, para mim, o modelo, quando eu vi a primeira
vez uma RDS, o modelo que eu via era a antiga reserva de uso múltiplo, que é parecido com o
que vocês falam, parque com gente, só que não é parque com gente, porque pela classificação
internacional parque pode ter gente. A questão é do objetivo com a área de proteção, de estudo
e de ciência. O objetivo de um parque é ter turismo e é proteger e é ser local de pesquisa, não é

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se tem gente ou não, não é isso que define, do ponto de vista internacional, da classificação
internacional, mas de qualquer forma tinha antigamente essa lógica que era reserva de uso
múltiplo. E para mim, as RDSs trazem essa idéia de novo. Então, se aproxima desse modelo que
vocês falam. Eu sempre pensei que uma RDS deveria ser uma RESEX mais um REBIO ou uma
estação ecológica, algo desse tipo. E, na verdade, a evolução está mostrando que tem outras
coisas muito diferentes que é interessante atentar. De qualquer forma, reserva de uso múltiplo se
confunde hoje com o que nós chamamos de mosaico. Então, para que ter reserva de uso
múltiplo? Inclusive tem um caso mais importante internacionalmente, que é a barreira de recifes
de corais da Austrália, que ela foi definida - não sei nem o nome, acho que é parque - ela foi
considerada legalmente, oficialmente eu diria, para fins de relacionamento internacional como
Categoria 6, que equivale a reserva extrativista, a florestas nacionais e a RDS, porque tinha
áreas de pesca. Isso foi um debate que levou dez anos e aí o governo da Austrália resolveu
redividir, porque era um monstro aquilo, aquela Unidade de Conservação para classificar em...
Continua mantendo uma unidade única, mas, na verdade, é uma unidade que é um mosaico.
Então, se nós trazemos de volta a lógica de reserva de uso múltiplo de novo nós associamos
com mosaico. Então, para terminar, eu acho que para mim à luz... Se aceitar propriedade...
Porque eu acho que a lei está mal escrita, o problema é esse. Essa história de que é de domínio
público, desapropria quando é necessário, para mim é uma contradição na redação. Eu acho
que está mal escrita. Agora, nós temos que trabalhar com o escrito, como você mencionou.
Então, a questão principal para mim é da propriedade privada e eu acho que aqui tem uma luz
de como resolver isso, relacionando com as comunidades locais. Agora, fica como critérios
principais, eu acho, além dessa questão da propriedade privada para a população local a
situação de não predominantemente extrativista ou que permite isso, e quando há necessidade
por algum motivo se associar essa lógica de uma área de preservação ou de proteção integral,
que eu até fui contra o uso desse termo, e depois à lei e a lei diz: “Zona de proteção integral”,
quer dizer, confunde. Eu concordo plenamente. Eu acho que a separação em dois grupos de uso
sustentável e proteção integral só atrapalha, mas quando houver necessidade dessa coisa
múltipla entre a proteção e uso sustentável. Obrigado.

O SR. RONALDO WEIGAND JR. (ARPA/SBF/MMA) – Obrigado. Estão inscritos agora o


Ronaldo, o Henyo, a Isabel, Pinagé, e depois nós passamos a palavra para a consideração final
do Renato e paramos para o almoço.

O SR. RONALDO WEIGAND JR. (ARPA/SBF/MMA) – Eu acho que – já adiantei algumas


coisas antes - a questão para mim é realmente estratégica nós trabalharmos com modelo de
parque com gente dentro. Por que eu acho que isso é estratégico? Porque existe uma infinidade
de parques no Brasil com gente dentro que precisam ter a sua situação resolvida. E eu não
acredito que considerando que as garantias que as populações tradicionais têm diante da
Constituição, nós vamos poder realmente tirar essas populações de dentro. E nem sei se é
desejável que elas saiam de dentro. Então, a forma de resolver para mim isso é reclassificando
boa parte desses parques como RDS, se nós definirmos essa categoria como parque com gente
dentro. Por isso eu acho muito importante que RDS não seja definida como uma RESEX, mas
que ela seja definida de uma forma mais restritiva do que uma RESEX, e a RESEX seja... E
essas RDSs que deveriam ser RESEX também sejam definidas como RESEX a partir de agora.
Tudo isso é muito complicado de se fazer, mas seria muito mais honesto. O SNUC fala em
reavaliar as categorias das Unidades de Conservação criadas anteriormente. Na verdade, nós
não fizemos isso no prazo dado pelo SNUC, e eu não sei como é que isso vai ser resolvido, mas
a questão é séria. Eu acho que existe um certo estelionato conservacionista nesse processo de
várias unidades... De certa forma... Porque várias unidades que sugiram como um propósito
passaram a ser muito mais restringidas, a exemplo de estações ecológicas, reservas biológicas

163
que foram criadas, principalmente a Estação Ecológica... Anavilhanas, eu acho que é um caso
desses, que eu acho que não era para ser restrito do jeito que hoje a legislação coloca. E se nós
não fizermos o dever de casa, não dermos um jeito nessa situação, nós vamos ficar provocando
danos ao longo de muitas décadas nessas regiões que têm essas Unidades de Conservação .
Mas voltando aqui para o caso de RDS, eu acho que é importante também nós consideramos
um pouco o objetivo de RESEX, porque sempre tem que comparar uma com a outra. RESEX
surgiu dentro de uma luta pela posse da terra. E ela foi proposta como esse modelo,
basicamente porque o modelo de assentamento do INCRA não é era apropriado para modelo
extrativista, onde a posse dos recursos naturais não é baseada na terra, é baseada nos próprios
recursos, ou seja, seringueiro... Quando o pessoal fala colocação é a área composta por
seringais, roçados e tal, está errado. Colocação não é a área. Colocação são os roçados, as
seringueiras, os castanhais abrangidos. Não é a área abrangida por isso. Se fosse possível
abranger uma área, nós tínhamos recortado e dado lotes individuais para esse povo. O problema
é que não é possível. A estrada seringa de um passa dentro da estrada seringa do outro; um
caça no castanhal do outro. E isso não é possível. Então, algumas formas de regulamentação de
terra estão tentando resolver esse problema, que é o problema de posse da terra. Então, eu
acho que é isso é importante nós termos em mente quando nós começamos a definir RDS
parecida com RESEX e assim por diante. Outra questão é que o SNUC prevê desapropriação e
indenização para populações tradicionais residentes nas áreas. Então, se o cara não reside, ele
não tem direito a indenização. Se você vai lá e cria uma RDS ou vai criar uma Unidade de
Conservação que exclui o uso do cara numa determinada área, do cara que não reside, ele está
perdendo sem receber nenhuma indenização para a perda dele. Então, mais uma vez: se ele
tem direito de alguma forma àquele uso tradicional, nós deveríamos criar categorias, e aí pode
ser RESEX, no caso mais liberal ou no caso mais restritivo, RDS, que permitam que populações
não residentes na área... Eu acho que aí é a minha discordância em relação ao modelo
proposto, à proposta dos consultores, é que residentes não é a mesma coisa que se abrigar.
Como o Henyo falou aqui do meu lado, nem todo abrigo é residência; toda residência é um
abrigo. Então, em que casos que eu posso citar como estratégico para nós não colocarmos o
requerimento de residência: a questão dos fundos de pasto, onde as pessoas residem em
propriedades demarcadas; questão de comunidades pesqueiras, onde as comunidades residem
em pequenas cidades; questões de seringais de várzea, que não permitiam habitação durante o
ano todo, que são alagadas durante uma época do ano; questão de locais de caça ou mesmo de
coleta sazonal, como castanhais, que também não são do interesse das populações tradicionais
ficarem lá o ano inteiro. Então, vários desses casos que podem ser do nosso interesse em ter
um controle mais estrito com parque com gente dentro ou com RESEX, seria importante abrir a
possibilidade das populações não terem que necessariamente estar dentro dessa área. Volto a
ressalta a questão da organização mínima. Eu acho que é importante, desejável ter organização
crescente, mas eu acho para que o caso de RESEX não deveria ser um requerimento, já que o
Estado pode ser mais um supervisor mais próximo nesse caso do que na RESEX, onde sim eu
entendo que a comunidade tem que ter a responsabilidade de gerir os recursos e ser cobrada
por isso e tudo mais, e ter ata oportunidade de fazer alguns erros de sustentabilidades para ser
cobrada depois, que um modelo em evolução de gestão comunitária. Por isso que eu acho que é
importante que em RESEX, nós resgatemos de alguma forma um plano de utilização e um plano
de desenvolvimento, um plano simples de responsabilidade da comunidade, mas não
necessariamente em RDS. Em RDS, o plano pode ser mais complexo. Se for um parque com
gente dentro, ela estar mais relacionada, mas ela tem que ser trabalhada... As regras que afetam
a comunidade têm que ser trabalhadas de forma simples e entendíveis para a comunidade.
Então, eu acho que seria mais ou menos essas as colocações que eu tinha para fazer. Só mais
uma, que é sobre a questão da propriedade dentro da RDS. Eu acho que a solução do Cláudio é
uma solução inteligente, mas eu acho que até um certo limite, primeiro que nós passamos a falar

164
em local em vez de tradicional. O SNUC fala claramente tradicional e define inclusive nesse
artigo o que é tradicional nesse caso da RDS. Fala que faz uso dos recursos naturais, define
bem claramente o que população é essa. Então, é tradicional. Segundo: o que torna um grande
fazendeiro que mora no local não local. Então, o que isso realmente diferencia dizer local ou não
local. E no caso do cara mesmo pequeno que tem título de propriedade dentro de uma reserva,
por que nós podemos ir lá e limitar o direito de utilização dele, desenvolvimento dele sem dar
nenhuma compensação como limitaria um grande proprietário, por que ele não tem o direito de
desapropriação? Então, ele pode querer ser desapropriado pelo menos, deveria poder fazer a
opção, não é porque ele é pequeno ou local, tradicional, se ele tiver título, ele tem direito de
desapropriação ou exclusão da sua área de dentro da área da RDS. Agora, a interpretação do
André realmente nos coloca com um problemão com relação ao ARPa. Se nós excluirmos da
área das RDSs do Amazonas todas as propriedades privadas que estão lá dentro, a nossa meta
de uso sustentável cai para caramba as nossas realizações com a ajuda do Estado do
Amazonas.

O SR. HENYO BARRETO (IEB-Brasília) – Eu fiz uma série de anotações, mas o que eu queria
dizer era uma coisa bem geral e ao mesmo tempo bem precisa, e dando crédito... Quando o
Fernando me enviou o convite, eu imediatamente perguntei... Enviei um e-mail para a Débora
perguntando se ela tinha sido convidada porque eu acho que tem dimensões do processo
histórico que levaram a conversão de Mamirauá de uma estação ecológica estadual para uma
RDS que precisam ser ressaltadas, não porque Mamirauá, em minha cabeça funcione como um
modelo, eu até uma pequena com a Débora com relação a isso, mas que Mamirauá é uma
situação singular, e não modelo. Ela é muito específica para dizermos que ela é um modelo. Mas
de todo modo, o André disse que ia fazer uma apresentação técnica, legal, etc., que ele ia dá
uma interpretação. Então, cabe a nós agora interpretarmos algumas coisas, expressarmos as
nossas opiniões. Então, olhando para o que aconteceu em Mamirauá a partir inclusive de alguns
dados que a Débora me mandou por e-mail, dando crédito inclusive do nome, quer dizer, o
conceito, o termo Reserva de Desenvolvimento Sustentável, a paternidade dele é do finado
professor de Direito, Roberto dos Santos Vieira, no processo de discussão e articulação política
de bastidor que levou à elaboração do Projeto de Lei, que depois foi assinado, salvo melhor
juízo, pelo Amazonino, um ano depois se criava a Reserva de Desenvolvimento Sustentável de
Anamã durante uma plenária final da reunião dos doadores do PPG7, no Hotel Tropical; foi uma
canetada do Amazonino e de repente tinha aquele abacaxi para administrar, enorme, ligando
Mamirauá a Jaú. Isso já vai fazer dez anos. Mas o que aconteceu? Nós tivemos uma clara
situação em que você tem – a Débora diz isso muito claramente - uma solução legal pós-fato
para legitimar uma determinada situação, ou seja, a legislação foi formulada para se adequar a
uma realidade social inovadora. Outro termo dela: a legislação tentou dizer o que estava sendo
feito na prática. Ou ainda, usando a Débora de novo: a legislação tentou legitimar o que estava
se propondo do ponto de vista de gestão e de manejo e do ponto de vista de processo de
mobilização social numa circunstância com a característica muito singular, onde você já tinha o
GPD, onde você tinha uma presença histórica da Igreja no processo de organização de base
daquilo. Então, quando nós falamos no modelo Mamirauá, nós temos que ter cautela. Mamirauá
não é um modelo. Mamirauá é uma situação singular, na minha interpretação. Agora, nós
estamos numa situação oposta, paradoxal, que nós estamos tentando regulamentar, ou seja,
nós estamos tentando fazer com que a legislação diga o que deve ser com riscos tremendos
para limitação do espaço de experimentação social na gestão dos recursos naturais em várias
dessas áreas, com todas as contradições e complexidades. E uma das coisas que me toca muito
é nessa situação pela qual nós estamos caminhando e que nós estamos pensando como o
decreto que regulamenta a lei vai determinar o que deve ser feito, portanto, nós estamos nos
propondo, do ponto de vista sociológico, a disciplinar processos sociais extremamente

165
dinâmicos, a minha preocupação é com o tipo de enquadramento que nós vamos dar aos grupos
sociais locais sim independente deles serem ou não “modernos” ou tradicionais. Houve um
tempo em que se pensava nos povos indígenas como muralhas do sertão. Esse foi um termo
utilizado. Pensava-se em integrar alguns povos indígenas com funções precípuas de ocupação
de espaço, de papel e função geopolítica. Eu fico me perguntando se hoje nós não estamos
querendo construir as muralhas da biodiversidade, dizer: “Tudo bem, você fica aí, tem acesso ao
seu recurso natural, mas daqui para frente vai ter baixo impacto, vai continuar vivendo na
insegurança alimentar, no baixo estado nutricional, porque é isto que interessa do ponto de vista
da conservação da biodiversidade: é manter uma distribuição desigual no acesso aos recursos”.
Então, essa é uma preocupação. E mais ainda, além de cercear as possibilidades de
experimentação social, você tem o risco de desconstituir a autoridade dos conhecimentos locais.
E aí eu vou citar um dispositivo, e o Maurício entenda isso não como uma crítica, eu gosto muito
deste cruz maltino aqui, que é o seguinte, por exemplo: na proposta do Projeto de Lei, na minuta
do Projeto de Lei para regulamentação das RDSs do Estado do Amazonas, em que ele e a
doutora Sônia trabalharam, o § único do art. 5º, sobre a definição dos objetivos da RESEX diz o
seguinte, eu li muito (...), eu recebi agora, então corro o risco de tirar isso do contexto: “O manejo
conservacionista e uso dos recursos naturais devem estar fundamentados em pesquisa
científica”. Os conhecimentos e locais tradicionais vão para o saco numa situação dessas. Então,
essa é uma questão que me preocupa, ou seja, como é que de uma solução histórica
contingente num contexto determinado, que era o contexto de abertura, de democratização, etc.
você agora transforma isso num instrumento de controle social? A rigor é isso. Então, se
estamos discutindo um modelo estratégico... Quer dizer, será que as estratégias de controle
social são as mais interessantes, 1) para conservar a biodiversidade em cito, que é uma
dimensão disso; 2) para assegurar a justiça social, a segurança alimentar, status nutricional
adequado para algumas dessas populações? Porque certamente o fazendeiro grande não sofre
esse risco, para usar a sua expressão, embora ele seja uma pessoa que ocupa uma
determinada área e alguma solução vai ter que ser gerada. Disso tudo, a conclusão é a seguinte:
nós temos, por força da nossa tradição cartorial, botar a discussão da norma logicamente à
frente da discussão sobre princípios. Por isso que eu achei esse levantamento da discussão
sobre o que é estratégico, qual é o modelo estratégico interessante, mas nós temos que discutir
também quais são os princípios que estão nos norteando quando nós olhamos para uma área e
dizemos: “Essa área é interessante do ponto de vista de prioridade para a conservação”. Aliás, já
há vários estudos para Cerrado, para Mata Atlântica, para Amazônia, onde você tem lá as
prioridades de conservação da biodiversidade, que inclusive foram recentemente rediscutidas.
Então, não falta documentos para orientar e dizer: “Olha, ali é uma área importante para a
conservação da biodiversidade”. E via de regra ali tem gente, gente de diferentes extratos, perfis,
tradições, etc. Então, quais são os princípios que nos devem guiar mais do que qual é o conjunto
de normas e critérios aos quais nós devemos obedecer? Então, uma primeira conclusão que se
tira do que eu estou dizendo é que fico muito desconfortável na discussão sobre regulamentação
no sentido estrito como nós entendemos, ou seja, o exercício de esclarecer aquilo que a lei não
esclarece ou aquilo que está contraditório ou aquilo que está em dúvida. A rigor, nem um grande
exercício de regulamentação produziu efetivamente os efeitos que se queria. Olhem para o
regulamento dos parques nacionais de 79 ou olhem mais atrás ou um pouco mais adiante para
os distintos decretos que regulamentaram as categorias jurídicas antes da consolidação
propiciada pelo SNUC, mas o que o SNUC não deixou aberto para nós foi a possibilidade de
experimentação social, a possibilidade de nós criarmos novos conceitos, novas categorias,
novos termos que conseguissem dar conta de situações locais que são sempre muito
específicas e muito contingentes. Então, o que nós temos que olhar é como é que se adequa,
qual é a categoria que... Aquela situação se adequa a qual categoria e não que modelo de
gestão, que forma de definição de titularidade de acesso a recursos naturais que nós podemos

166
construir para assegurar esses dois objetivos não necessariamente excludentes, que são da
conservação da biodiversidade e da promoção da justiça social, que eu acho que são objetivos
que caminham para par e passo. Eu poderia dar um último exemplo só de como essas coisas no
processo de formalização, que é a elaboração de um dispositivo legal produz, que é para mim
uma coisa complicada, que foi a história dos tais Conselhos Gestores Deliberativos. Salvo
melhor juízo, e o Maretti e o Mercadante e todas as pessoas que estiveram envolvidas tanto no
debate do SNUC quanto na regulamentação podem recuperar isso, um dos objetivos centrais, ou
seja, um dos princípios da discussão do Conselho Gestor Deliberativo era porque havia um
passivo autoritário enorme na implementação das UCs de proteção integral e queria se
assegurar aos grupos sociais afetados pela sua criação espaços para dizer coisas na gestão
dessa áreas. Beleza! Aí o que pega? No processo de discussão, que foge um pouco do controle
das pessoas individualmente envolvidas, esse instrumento é transferido, por exemplo, para a
RESEX, onde originalmente a associação comunitária lá que tinha o contrato de concessão de
uso com o Governo, a ela se bastava. E você hoje dá uma brecha complicada para a
representação dos demais interesses e setores regionais de se ter assento no Conselho
Deliberativo e aprovar plano de gestão da RESEX e, portanto, eventualmente brecar a
possibilidade de avanços sociais, de autodeterminação dos grupos sociais locais. Você bota um
representante do setor madeireiro, um representante do agropecuário. E a associação que
originalmente era a quem cabia elaborar o plano de gestão, submeter, negociar com o IBAMA,
pactuar e gerir a área, agora vai ter que discutir a aprovação dele num Conselho Deliberativo,
onde você tem os interesses do desmatamento representados. Então, era um pouco isso para
tentar levantar essas questões, não só sobre modelo e estratégia, mas sobre princípios também.

A SRª. ISABEL SOUSA (Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá) – Eu também


queria reforçar um pouco a questão do contexto, porque o contexto em que a RDS Mamirauá foi
criada e daí a elaboração de uma legislação para explicar, para tentar conceituar o que era uma
RDS. Então, eu, ao contrário dos Henyo, acredito na reaplicação, não do modelo como uma
coisa que é acabada, que você pega daqui, de uma região do Médio Solimões e leva e joga bem
aqui, mas reaplicar a metodologia, como isso foi construído, em que contexto foi construído,
quais os atores sociais que foram envolvidos nesse processo. Assusta-me muito, Ademar, hoje
esse mente de RDSs que o Governo está criando e achando que é a melhor solução, que é mais
fácil, é mais rápido do que uma RESEX, e ainda dizendo que está reaplicando o modelo de
Mamirauá. Eu acho que cada situação você tem que analisar e você pode reaplicar a
metodologia. Agora, replicar modelo é mais complicado. E eu gostaria também de enfatizar uma
coisa: nós trabalhamos com três elementos na RDS Mamirauá: conservação da biodiversidade,
melhoria da qualidade de vida da população e pesquisa para embasar todo esse processo e
garantir um manejo dos recursos naturais de forma sustentável, que é uma coisa que há muito...
Uma diferença muito clara do que é uma RESEX. Você faz extrativismo, e quanto você pode tirar
de castanha? Não está definido. Se tirar tudo, o que vai acontecer no futuro? Enquanto que
numa RDS, a pesquisa para embasar o manejo sustentável tem que ser fundamental. Não dá
para você fazer extração ou pesca se você não tiver um plano de manejo específico para isso.
Nós temos lá um trabalho com manejo de Pirarucu que é interessante: você tem a pesquisa e
tem o monitoramento depois para saber se essa população está se reproduzindo de forma que
não vá prejudicar a reprodução dessa espécie. E aí já tem outros casos que estão fazendo
também manejo de Pirarucu, só que não tem a pesquisa e nem o monitoramento. Então, é
complicado. Então, você precisa analisar o contexto, ver o que pode ser feito ali: é uma RDS, é
uma reserva extrativista, é um parque? Não dá para pegar lá de cima e jogar o modelo na área.
Você tem que partir dali do contexto da área. Quais são as condições que estão lá
estabelecidas? Então, quando nós falamos de propriedades dentro, por exemplo, se é uma área
que tem fazendeiros, fazendas, mineração, não sei o quê, você nunca vai pensar numa RDS

167
para aquela área. Eu acho que não dá nem para pensar naquela área como uma Unidade de
Conservação. Eu não sei se eu estou sendo muito pessimista, mas tem fazendeiro, tem atividade
de mineração, você vai pensar que aquela área pode ser uma Unidade de Conservação? Eu
acho que não tem condições. E com relação aos conceitos... Nós temos muito assim: lá no
SNUC está: uma RDS é para preservação; em outro momento fala que é conservação da
biodiversidade com a melhoria de qualidade de vida da população local, com inclusão social,
umas coisas assim. Aí eu acredito que existe uma confusão na redação, que dá para ser
melhorada e explicar o que é uma RDS, por que é preservação? Se nós consideramos que
numa RDS tem que ter uma zona de preservação, então a RDS é preservação; se tem uma área
de uso sustentável, então a RDS é conservação também da biodiversidade, que tem uma área
de uso. E um dos objetivos mais importantes que eu acredito, que é essa promoção da
igualdade social, da melhoria da qualidade de vida das populações, também tem que ter. Então,
não é pensar numa área onde não tem população: “Ah, eu vou criar uma RDS aqui e vou trazer
gente não sei de onde porque o SNUC diz que abriga população”. Não é isso. A população tem
que estar lá, já tinha que estar lá, não é porque “não tem, mas como o SNUC diz que abriga, eu
vou trazer não sei quem não se de onde para cá”. Aí você está indo contra a reprodução dos
valores culturais, porque essas populações têm toda uma relação com o ambiente onde
nasceram, onde se criaram, onde estão se reproduzindo. Então, não é pensar que você vai
trazer alguém de algum lugar para cá que você está promovendo reprodução sócio-cultural
dessa população. Então, o “abriga”, que eu acredito que... O sentido do “abriga” é que nessa
área essas populações já existiam. Então, foi criado justamente para preservar a reprodução
sócio-cultural dessas populações, não é trazer de outro canto. E aí é claro que a legislação não
consegue dar conta da realidade, mas eu acho que é por isso que nós estamos aqui hoje. Ainda
bem que nós podemos mudar essa redação. E aí tentar fazer isso de uma forma mais próxima
da realidade possível. Então, eu acho que era isso. Outra coisa: a história da organização
comunitária, do compromisso das comunidades. É injusto falar que essas populações não têm
organização. Se elas não tivessem, não tinham sobrevivido até hoje, mas existem níveis de
organização, e a partir do momento em que elas são inseridas num processo de uma outra
sociedade, ou que nós nos inserimos lá com uma outra visão, essa demanda de organização
cresce, que elas começam a participar de um outro processo diferente do que elas estão
acostumadas. Então, precisa sim ter um certo nível de organização. Nós precisamos reconhecer
o nível que elas têm, em que nível elas devem chegar para atender os objetivos da lei. E o
compromisso também é muito importante. Alguém falava assim: “Tem que ter compromisso com
a conservação?” Se não tiver isso não vai adiantar criar uma RDS se a população não tiver
também esse compromisso e não tiver essa vontade de fazer a conservação, por que o que vai
adiantar criar uma reserva onde a comunidade com a fazer a conservação porque o que vai
adiantar criar uma reserva onde a comunidade não quer isso, e aí você vai estar criando reserva
por criar. Eu acredito que não é esse o objetivo das reservas. É garantir mesmo uma
conservação. Então, precisa ter... A comunidade precisa estar engajada também com esse
compromisso, com a conservação. E aí eu volto lá para o que o Henyo estava falando do
histórico da RDS Mamirauá. Qual era o contexto daquela época? As populações já estavam com
o movimento de preservação de lagos apoiado pela igreja católica. E por que isso surgiu?
Porque ela já estava sentindo os efeitos da pesca predatória, da extração ilegal de madeira,
enfim, estava naquela situação; e ela estava sentindo na pele essas dificuldades, os recursos
ficando escassos e muitas pessoas de fora na sua área. E nesse momento também o Márcio
Aires estava por lá, a Débora Lima, fazendo as suas pesquisas e foi teve esta interface: um
grupo de pesquisadores ambientalistas junto com a população que estava querendo também e
passando por todos esses problemas, se juntaram e pronto! Pronto, não! Não foi tão simples. E
aí tiveram essa idéia de como fazer, aliar uma conservação da biodiversidade, a melhoria da
qualidade de vida da população. E essa população principalmente participando de todos os

168
processos de tomadas de decisão. Então, o contexto é fundamental para você definir qual é a
categoria que vai se enquadrar lá, que eu acho que não adianta criar um parque ou uma RDS
em áreas de fazendeiros. Obrigada.

O SR. LUIZ CARLOS PINAGÉ (FUNBIO) – Como me deixaram na ingrata situação de o último a
falar, eu vou deixar os pontos gerais para depois dos Grupos de Trabalho. Eu vou dar só dois
pontos... Quando tem se falado na questão da solicitação do engajamento das populações na
criação e na gestão, eu acho que o SNUC e nós também perigosamente estamos dando muita
ênfase porque quando você vê na prática hoje as RESEX e RDSs, dentro do parco orçamento
público para as Unidades de Conservação , elas são as que menos recebem ainda. Então, você
tem RESEX sem chefe, você tem RESEX sem nenhuma estrutura de fiscalização, você não tem
equipamento, não tem plano de manejo, não tem nada; você tem ela criada no papel. E as
populações estão com esse encargo do órgão gestor, porque não exime o órgão gestor de
proteger, elaborar plano de manejo, enfim, fazer com que a unidade cumpra os seus objetivos.
Então, eu gostaria de chamar atenção para isso para nós não enfatizar demais essa questão,
tendo em vista essa realidade que nós vemos em campo. Então, eu acho isso muito prejudicial
para as populações, porque senão os Estado vai se eximindo e programas, o próprio ARPA, as
unidade de uso sustentável são como segunda categoria porque se pressupõe que as
populações estão lá dentro, que elas geram renda, quando nós sabemos que as atividades
extrativistas estão completamente inviável: “Mas a unidade gera renda, a população gera renda”,
já fazendo uma conclusão de sustentabilidade da população e da UC, já começa essa
conclusão. Então, eu só gostaria de chamar atenção para isso, para nós não enfatizarmos e não
reforçarmos muito isso, tendo em vista a realidade que hoje você vê em campo. E outro ponto
geral é em relação aos modelos: eu acordo que em algum momento nós temos que chegar a um
modelo, mas hoje se nós formos falar que a proposta é parque com gente, eu posso lançar aqui
mesmo que eu acho que não é, que é uma APA com sérias restrições. Então eu acho que a
gente devia discutir os princípios, como foi colocado, esgotar os seus prós e seus contras. Não
precisamos deixar para o final esse modelo, mas eu acho que colocar agora a gente já afunila e
já orienta demais a discussão. Se a gente tiver agora como modelo Parque com gente, então, se
for assim eu coloco outra, APA com restrição. Eu acho que essa discussão ainda é um
pouquinho prematura agora. Pontos mais gerais eu deixo para discussão.

A Srª. SÔNIA MARIA PEREIRA WIEDMANN (IBAMA) – Primeiro eu só queria esclarecer,


gente, que essa minuta que nós disponibilizamos para vocês do Anteprojeto de Lei para o
Estado da Amazonas não pretendeu ser, vou repetir isso, uma regulamentação de RDS. Isso foi
um Projeto de Lei de criação de RDS que tentou ser auto-regulável. E outra coisa, ele está, sem
dúvida nenhuma, dentro da dinâmica de legislação ambiental que nós temos hoje em dia, ele já
está defasado. Depois que nós fizemos esse Anteprojeto veio a Lei do Recurso do Patrimônio
Genético, do acesso ao conhecimento tradicional, da repartição desses benefícios, quer dizer,
tudo isso foram legislações posteriores que realmente vão ter agora uma grande influência em
qualquer projeto que a gente vai propor de regulamentação. E mais recentemente o projeto das
concessões florestais que também vai interferir de alguma forma nessas regulamentações que
nós vamos propor. Então sobre o Anteprojeto que nós apresentamos, eu quero que ele seja
olhado com uma certa condescendência porque ele foi disponibilizado para contribuir e não para
criar mais polêmica e criar problemas para o grupo. Agora, com relação às Unidades de
Conservação , o problema fundiário, que é uma coisa que eu trabalho há 30 anos nisso. Ou seja,
não vamos confundir Unidade de Conservação Públicas com Unidades de Conservação de
Domínio Público, são duas coisas diferentes. As Unidades de Conservação Pública elas
admitem, elas são Unidades de Conservação geridas pelo Poder Público, mas que podem ter
propriedades privadas no seu interior, como é o caso da APA, o modelo típico. Não é o caso da

169
RPPN, que ela não é uma Unidade de Conservação Pública, ela é uma Unidade de
Conservação do SNUC, mas privada. Já aquelas que são de domínio público, a premissa básica,
elas têm que estar no domínio público e aí se incluiu a RDS está claríssimo no artigo que ela é
uma Unidade de Conservação de domínio público. E esse problema que todo mundo está
achando que é problemático dizer ali no artigo 24, “quando necessária à desapropriação”, é
porque muitas vezes uma área está com particulares, mas ele não tem o domínio, ele não vai ser
desapropriado, ele vai ser indenizado, ele vai, enfim, tem várias formas apossamentos de terras
particulares que não implicam em desapropriação. A posse, por exemplo, você só vai indenizar
as benfeitorias. Então, quando necessária à desapropriação presume-se que foi uma análise do
título de domínio e que a pessoa é realmente proprietária e aí sim cabe o Instituto da
desapropriação por utilidade pública ou por interesse social e aqui vai uma outra grande
discussão, mas não é bem por aí. Quer dizer, a premissa básica é essa. A não ser que a gente
mude a Lei, a RDS é de domínio público.

O SR. FRANCISCO ADEMAR DA SILVA (Secretaria de Estado de Meio Ambiente e


Desenvolvimento Sustentável - SDS/AM) – Tem uma propriedade e um “cara” lá dentro e ele
diz: eu não quero que ninguém ponha castanha aqui. Mas é de domínio...

A Srª. SÔNIA MARIA PEREIRA WIEDMANN (IBAMA) – Esse é o problema fundiário de todas
as Unidades de Conservação . O Parque Nacional da Serra da Canastra agora é o modelo típico
do problema fundiário que permanece durante décadas, ou seja, o Governo não desapropriou e
as propriedades continuam lá, se desenvolveram Cidades, o patrimônio histórico tombou
patrimônio lá dentro que é incompatível com Proteção Integral e, no entanto, continuam sendo.
Quer dizer, a gente precisa resolver esse impasse agora na regulamentação. É fundamental que
isso seja resolvido nesse momento da regulamentação da categoria. Agora que ela é de domínio
público isso está escrito na Lei e nós não podemos fugir disso. Outro detalhe que eu queria
comentar com vocês ainda, por exemplo, no caso das Reservas Extrativistas. A história de
Reserva Extrativista é o PAE – Projeto de Assentamento Extrativista do INCRA. Aí sim, gente, é
uma área onde as populações tradicionais é o ponto focal da Unidade de Conservação. Então,
os projetos de assentamentos extrativistas que estavam sob o INCRA foram realmente
transferidos para o IBAMA na forma de Reserva Extrativista e depois passaram a integrar o
SNUC, isso desde 1990, foi um Decreto de 1990 que criou as primeiras Reservas Extrativistas,
mas o modelo eu entendo ser totalmente diferenciado e eu concordo plenamente com ela porque
no caso da Reserva de Desenvolvimento Sustentável o grande enfoque é realmente isso. É a
sustentabilidade baseada na pesquisa e de repente no conhecimento tradicional também, mas
basicamente na pesquisa que muda, inclusive, muitas vezes o comportamento tradicional, como
foi o caso típico do manejo do Pirarucu, a partir do momento que se conhece cientificamente
uma espécie e todo o seu desenvolvimento, isso pode interferir na mudança de comportamento
das populações em relação àquela espécie para benefício das populações. Então a pesquisa
cientifica para mim, no caso da Reserva de Desenvolvimento sustentável, é a mola mestra, é
realmente a mola mestra a era isso e eu estou dizendo aqui, estou repetindo para vocês
conversas, inúmeras conversas que eu tive com a pessoa que escreveu esse artigo aqui que foi
o Márcio Aires. É evidente que os contornos hoje podem ser outros, mas a origem é essa e o
que está na Lei é essa origem dessa e nós não podemos fugir dessa fonte do Direito. Então eu
acho que no caso, por exemplo, da Reserva Extrativista é o modelo mais adequado para atender
todos os anseios da população tradicional, da população extrativista, mas a diferença da
Reserva Extrativistas para Reserva de desenvolvimento na minha cabeça é tão clara como a
diferença da Reserva Biológica para APA. São totalmente diferentes na minha cabeça, são duas
categorias de Unidade de Conservação que são bem diferentes e os contornos são bem
precisos e eu queria deixar isso bem claro. Lembrar sempre que o Projeto de Assentamento

170
Extrativista é que deu origem a Reserva Extrativista e esse modelo deve ser perpetuado. Agora,
não foi o mesmo caso da Reserva de Desenvolvimento Sustentável aonde a pesquisa científica,
aonde a preservação, aonde os espaços onde se procurou criar essa Unidade de Conservação
são espaços que realmente têm populações tradicionais, nem sempre extrativistas, tradicionais
vivendo dentro desse modelo e que realmente podem ter as suas atividades alteradas em função
de resultados científicos que são benéficos para elas. Eu acho isso é fundamental para entender
o modelo.

O SR. FRANCISCO ADEMAR DA SILVA (Secretaria de Estado de Meio Ambiente e


Desenvolvimento Sustentável - SDS/AM) – Eu estou com dificuldade para compreender o
raciocínio dela e eu queria que ela me ajudasse. A Senhora está falando de domínio público, por
exemplo, mas o “cara” tem o título de alguma terra que está lá dentro e ele não permite que o
Governo legisle sobre aquela área. Como é domínio publico?

A Srª. SÔNIA MARIA PEREIRA WIEDMANN (IBAMA) – Ele tem que ser desapropriado. Sem
título de propriedade dele.

O SR. FRANCISCO ADEMAR DA SILVA (Secretaria de Estado de Meio Ambiente e


Desenvolvimento Sustentável - SDS/AM) – Caso seja necessário.

A Srª. SÔNIA MARIA PEREIRA WIEDMANN (IBAMA) – Foi o que eu tentei explicar. O
necessário aí é porque ele não é posseiro, se ele fosse posseira ele teria que sair também
porque ele não é da população extrativista ou tradicional. Então se ele tem lá uma área
incompatível com os objetivos de manejo da Unidade de Conservação, seja título de domínio,
seja arrendamento, seja posse, ele vai ter que ser ou indenizado, ou quando for o caso
desapropriado e a desapropriação é um instituto que é específico para tem título. E tem mais, no
caso Amazônico um título comprovado de domínio porque lá os títulos não são válidos. Título
legal.

A Srª. LIGIA SIMONIAN (UFPA) – Desculpe, gente, mas às 7h eu fiz uma massagem linfática a
aí na hora que se inscreveram eu tive que irão banheiro porque eu estava inchada e tive que
fazer, mas é só um segundo, eu não vou tomar o tempo de vocês. Eu queria só voltar essa
questão fundiária porque ela está aparecendo aqui sempre e o que nós temos que ter clareza é
que na Amazônia a maioria dos títulos é complicada. No caso da Jarí que tem esse problema
com a RDS Iratapuru. O Governo do Pará sabe exatamente que os títulos, a maioria, não são
válidos, mas por um problema de que o Município de Almeirim depende daquela renda ele não
quer mexer na questão dos títulos e, infelizmente, a CPI aqui não tomou um posicionamento que
deveria ter tomado. A mesma coisa no Amazonas e aí por todos os Estados. Agora nós estamos
com problema lá no (?) em que uma pessoa lá que se diz dona das terras está lá perturbando,
agredindo a população, retirando a possibilidade de utilização, eu já comuniquei isso para o
IBAMA lá em Manaus, a (?) também e não foi feita uma auditoria para saber disso. Eu tenho
experiência disso porque já dei vários laudos jurídicos para Juízes federais e, felizmente, sempre
ganhei, dei ganho de causa. Agora, como é que eu dei ganho de causa? Com muita pesquisa.
Com pesquisa em arquivo, não só indo no local ouvir as pessoas. E coloquei na cadeia um
fazendeiro com um laudo que eu fiz lá para Unidade de Marabá porque provei que ele mentiu em
juízo. Então isso é que falta, quer dizer, estudos aprofundados. Não adianta ficar falando que
tem problema fundiário. O Governo, infelizmente, não está tomando essa posição, nem os
Estaduais e nem o Federal. É um problema grave. Há pouco tempo eu estive com uma das
Advogadas que mais conhece o INTERPA lá no Pará e ela me confirmou isso. Quer dizer, o

171
Governo sabe exatamente quais os títulos que são válidos e quais os que não são, só que não
enfrenta a questão porque se enfrentar Almeirim acaba.

O SR. FERNANDO VASCONCELOS DE ARAÚJO (WWF Brasil) – Obrigado. Convido vocês


agora para o almoço que vai ser servido no térreo ao lado da recepção e a gente volta em 30
minutos.

(Intervalo para o almoço)

O SR. FERNANDO VASCONCELOS DE ARAÚJO (WWF-Brasil) – Bom, vamos retomando


nossos trabalhos da tarde. Vamos retomando nossos lugares para a gente poder dar início aí ao
trabalho da tarde. Como metodologia de trabalho para esse pós-almoço, nós temos então a
proposta de discussão em dois grupos, um para tratar de condicionantes para criação e o outro
para diretriz para implantação e gestão. Tínhamos então uma idéia inicial que a gente pode
colocar em discussão, como melhor tratar isso, já com um novo número de participantes, agora à
tarde é um pouco menor. A idéia que a gente está colocando é a que gente pudesse trabalhar
tanto para cada tema que foi colocado, o grupo, enfim, as referências, os condicionantes de
discussão. A gente pode trabalhar isso por grupos ou na Plenária Geral para cada subtema. No
total vão dar uns 17 condicionantes. Então, temos 17 condicionantes e a gente pode ir um por
um no grupo geral. O que vocês acham? Divide por dois grupos, de acordo com a afinidade,
para a gente trabalhar com os temas de condicionantes ou diretrizes para implantação e gestão
ou Plenária Geral? Quem vota na Plenária Geral. Já venceu a Plenária Geral, em homenagem à
Rita que chegou do Amazonas, chegou nada, a gente raptou ela desde a semana passada.
Vamos para a Plenária Geral, eu vou anotar as inscrições e vou precisar de um sub-relator e, por
unanimidade e aclamação, a gente vai nomear o Marcelo Creão como relator. Os de acordo,
permaneçam como estão. Está eleito. Vamos lá, o primeiro condicionante está aqui para a nossa
avaliação. Se vocês se sentirem prejudicados pela coluna, por favor, tem lugares aqui,
principalmente desse lado. “Ocorrência de populações locais, residentes na área alvo”. Eu tenho
também um material impresso que pode ajudá-los. Esses aqui foram pensados por grupos,
talvez eu pudesse distribuir por mesas. Mas também o material vai ficar impresso para consulta
de vocês e aí a gente vai trabalhar com os dois aspectos para cada condicionantes, os pontos
favoráveis e os pontos desfavoráveis. Temos a nossa sub-sub-relatora, Lucila, que estará aqui
no flip chart anotando. Está aberto o tema. Pontos favoráveis. Pinagé está inscrito.

O SR. LUIZ CARLOS PINAGÉ (FUNBIO) – A minha dúvida é quanto a essa interpretação de
abrigar populações, que aqui nós estamos tratando como residentes, sendo que isso pode, em
determinadas situações, engessar, diminuir as possibilidades para uma criação, numa situação
específica, de uma população que poderia ser a mais recomendável a criação de uma RDS.
Então, essa interpretação de abrigar que vocês traduziram por ser residente. Abrigar é mais
amplo.

A SRª. LUCILA PINSARD VINNA (Consultora) – Você acha que não tem que ser residente?

O SR. LUIZ CARLOS PINAGÉ (FUNBIO) – Eu acho que restringe as possibilidades de uma
solução via RDS.

O SR. FRANCISCO ADEMAR DA SILVA (Secretaria de Estado do Meio Ambiente e


Desenvolvimento Sustentável - SDS/AM)) – Eu gosto da redação como está, até porque eu
gosto como está porque você consegue amarrar as coisas. Eu tenho muito medo quando se
deixa as coisas muito incerta, porque aí vai depender da interpretação. Eu estou favorável com a

172
redação como está aí. “Residente”, ele tem que residir no local, reside ali, naquele ambiente,
porque não só um fazendeiro que vem lá do Paraná para entrando na reserva, e depois entra de
bonzinho e depois começa a fazer problema lá dentro. Eu acho que é trabalhar nisso. Que reside
no local.

O SR. HENYO BARRETO (IEB - Brasília) – Eu diria não só residentes, mas “ou”, uma
alternativa, ou “e/ou que utilizem os recursos naturais da área” porque tem essa situação do
Iratapuru. Se você disser que tem que ser residente, eu acho complicado. Você pode imaginar
situações onde as pessoas desejem estabelecer uma RDS, em relação você ter comunidades
dentro e fora do torno, com vínculos sociais de diferentes ordens, onde do entorno utilizam.
Então, eu acho que é possível dar uma flexibilizada naquela linha de “residente ou que utilizem
em modo permanente ou sazonal recursos da área foco de proteção”. Segunda, que a gente tire
o “prático”, como predicado do conhecimento dessas populações porque essas populações
também têm conhecidos teóricos sobre os recursos, ou, digamos assim, expressões simbólicas
a respeito do que esses recursos são. E, a terceira sugestão concreta é, onde tem “formas
pouco impactantes”, pouco impactante sempre é em relação a alguma coisa que é muito
impactante. Então, eu proponho um advérbio aí “relativamente pouco impactantes”. É a proposta
que eu tenho, não faço disso um cavalo de batalha, mas são os três comentários que eu tenho a
esse condicionante que eu acho importante. Estivesse eu numa posição de poder, fosse eu o
ditador máximo que legislasse, o editor das Medidas Provisórias, ela sairia com essa rede ação.

O SR. FERNANDO VASCONCELOS DE ARAÚJO (WWF-Brasil) – Próxima inscrita é a Sônia,


depois o Cláudio. Já passo a palavra para a Sônia, com o desafio dela de comentar o
“relativamente” proposto pelo Henyo, dentro do caráter subjetivo que isso pode dar.

A SRª. SÔNIA MARIA PEREIRA WIEDMANN (IBAMA) – Primeiro, para a gente seguir bem a
linguagem, nós estamos pensando, aqui estou falando como advogada mesmo, como uma
pessoa que cuida de regulamentação de lei. Então, ao invés de “populações locais”, vamos usar
a mesma terminologia da lei que fala em “populações tradicionais”. Eu diria, “residentes na área
alvo de proteção e na zona de amortecimento”, para dar um limite porque senão vai vir alguém,
como ele disse, lá do Paraná. Então, “na zona de amortecimento”, “residentes na área alvo de
proteção e na zona de amortecimento”, aí pode “e” aí fica definido. Bom, e aí eu concordo que a
eliminação do termo “prático”, “que detenha conhecimento sobre as características dos
ecossistemas”, agora, “formas pouco impactantes de utilização ou exploração desses recursos”,
como que a gente vai definir o que é uma forma pouco impactante? Qual é o parâmetro para
dizer que aquela forma é pouco impactante ou muito impactante? Porque às vezes uma ação
isolada pode ser pouco impactante, mas a ação de uma comunidade inteira já pode ser bastante
impactante. Então, eu acho difícil esse “pouco impactante”. Me lembra lá a legislação de
Licenciamento Ambiental que fala “significativo impacto ambiental”. O que é o “significativo
impacto ambiental”? É a mesma coisa que forma o pouco impactante. Eu acho muito pouco,
para a gente trabalhar com isso como você vai definir o que é pouco ou muito impactante?

O SR. FRANCISCO ADEMAR DA SILVA (Secretaria de Estado do Meio Ambiente e


Desenvolvimento Sustentável - SDS/AM)) – Eu acho que é de atividade regional.

O SR. ANDRÉ RODOLFO LIMA (ISA) – O Cláudio até chegou a falar isso antes de começar
essa sessão que tinha um certo receio que a gente entrasse numa coisa de redação. Eu acho
que nós não deveríamos nos preocupar em relação à redação mais adequada. Eu acho que fica
o registro da preocupação, mas não vamos ficar discutindo se é A ou B porque senão nós vamos
parar aí e não vamos andar adelante. E a minha opinião, já entrando no mérito, é que “abrigar” é

173
uma coisa mais abrangente mesmo, “abrigar” não é um conceito permanente e onipotente ou
onipresente. Você pode ter um abrigo contra fogo que só usa quando pega fogo, e você pode
abrigar uma população em uma determinada reserva quando lhe convém por “N” fatores.

O SR. CLÁUDIO C. MARETTI (WWF-Brasil) – Na verdade, só lembrar que o resultado desse


evento não pretende definir o texto da regulamentação e sim os pontos conceituais que vão ser
oferecidos para quem, depois, for elaborar essa regulamentação. Então, nesse sentido eu acho
que eu defendo também, não vou ficar repetindo, a lógica de que abrigar pode ser residente ou
que usa a área e acho que embora esteja aqui usado o termo “população tradicional”, não está
definido, tem vários documentos técnicos, científicos de ciências humanas que definem isso,
mas são contraditórios. Então, para cada fim você pode usar um ou usar outro. Então, eu acho
que caberia a gente pensar em expressar isso. Eu defenderia o termo, não pela redação, mas
pelo conceito de “comunidade local”. “Comunidade” dá um sentido de ter um mínimo de
consistência de relações sociais, sem entrar no detalhe do conceito. E aqui fala em “baseia-se
em sistemas sustentáveis de exploração dos recursos naturais”. Então, eu acho que essa
história de ter um conhecimento sobre o ecossistema e o uso, eu acho que é o conhecimento
sobre os ecossistemas e sobre o uso dos ecossistemas. Eu acho que é importante uma forma de
procurar explicitar melhor o que está definido no caput desse artigo da lei. Obrigado.

A SRª. LÍGIA SIMONIAN (UFPA) – A questão justamente era essa última que o CLÁUDIO
colocou, conhecimento, é bem mais amplo, já foi mencionado aqui anteriormente, e tirar o
“prático” talvez, enfatizar a questão de uso e aí tem um problema que é semântico, mas que eu
acho que é importante. Na verdade não são formas de utilização, são modalidades porque a
utilização é um processo, a forma sempre dá um indicativo de uma estaticidade, já algo mais de
estaticidade. Eu acho que é uma modalidade de utilização, porque forma... A questão do
tradicional, que está vindo à tona em vários momentos, realmente é um problema conceitual
dentro das ciências sociais e já se fala, inclusive hoje já tem uma tendência que está discutindo a
questão da destradicionalização, tendo em vista os impactos rápidos e abrangentes que estão
sendo produzidos pela globalização e a questão do acesso a aviões, o transporte hoje está muito
mais rápido e etc., uma série de condicionantes. Então, agora aí tem que se pensar se realmente
vai se minimamente aproximar da legislação ou não. Populações locais também é utilizado, o
Gertz utiliza muito essa expressão, mas é um ponto nevrálgico dentro das próprias ciências
sociais. Aí tem que ver a questão da legislação se pensa ficar mais próximo do que já existe no
corpus legislativo ou se se distancia e questiona. É uma decisão que tem que ser tomada.

O SR. FERNANDO VASCONCELOS DE ARAÚJO (WWF-Brasil) – Antes do Ademar, eu tenho


uma consideração aqui que o André me lembrou bem. A gente tem 17 condicionantes. Se a
gente der 10 minutos para cada, são 170 minutos. Então, eu vou propor para vocês a gente
tentar ser bem objetivos, na medida do possível, evitar polêmica e seis minutos para cada um.

O SR. FRANCISCO ADEMAR DA SILVA (Secretaria de Estado do Meio Ambiente e


Desenvolvimento Sustentável - SDS/AM)) – Eu só queria colocar uma coisa assim, a
experiência de várias Unidades de Conservação, eu acho que se a gente entender que essa
redação é justa para quem mora no lugar, porque uma coisa é um cara que mora em Tefé e usa
os lagos do Mamiraua para pescar, mas ele não tem compromisso nenhum. Quem tem trazido
os maiores problemas para dentro da reserva são quem só faz usar, ele não tem compromisso
com a reserva, ele não tem aquele compromisso com quem mora lá. Quem mora lá se
compromete, porque ele não quer que deixe acabar o recurso, ele não quer que alguém vá lá
fazer o estrago do recurso. Eu acho que essa redação é muito boa se deixasse assim porque
você tem que entender que muitas vezes o usuário é relativo, quem trata bem e quem trata mal.

174
Se você deixar a redação em aberto, deixa, ele vai lá e pega, “Mas está dizendo que eu posso
fazer parte também”. Eu acho que se você deixa esse compromisso, quem sofre as
conseqüências que está lá, de estar cuidando, de estar olhando a reserva, de estar trabalhando
dentro dela, de estar de estar trabalhando as questões políticas, você consegue, para os órgãos
de Governo é muito mais fácil controlar, muito mais fácil estar dialogando. Se você deixa essa
questão do usuário, é complicado porque quem são os usuários? Mora em Manaus, mora lá em
Tefé, mora em Tabatinga, mora lá em Santarém, é complicado. Por isso que eu acho que como
nós estamos definindo uma área, ela já tem uma territorialidade definida. Se você está definido
por um limite, isso significa que as populações já estão incluídas dentro desse limite. Se deixa
assim, “usuário”, me parece que abre uma abrangência e isso acaba comprometendo os
recursos que estão ali dentro e os conflitos com as populações que estão lá. Essa é a minha
recomendação na questão de mudar essa primeira parte da redação.

O SR. RENATO R. SALES – Só para dizer que concordo com o Ademar. Em todas aquelas
situações que a gente até conversou hoje pela manhã sobre o que é RDS, sobre o que as
pessoas consideram que seria RDS, se você pegar aquela conceituação de “parque com gente”
que o Ronaldo Mercadante estava usando hoje, se você pegar a concepção encaminhada pela
Universidade de São Paulo quando estava sendo discutido o SNUC, falava de áreas que devem
contemplar populações residentes e que merecem essas áreas ou a proteção, mas são
populações residentes. Se você pegar o caso de Mamiraua, que também foi um dos grandes
inspiradores do que consta, do que está disposto hoje no SNUC, é uma questão de moradores
dentro da área. Iratapuru, por exemplo, eu acho que não deveria ser encaixado como RDS. Eu
concordo que tem que ser só residente mesmo.

A SRª. LÍGIA SIMONIAN (UFPA) – Mas eles eram residentes, foram as políticas públicas que
tiraram eles de lá.

O SR. RENATO R. SALES – Tudo bem. Nós temos alguns princípios que nortearam a
elaboração da lei e temos hoje uma série de realidades que caracterizam o que são as RDSs
hoje. Mercadante colocou isso também. No que a gente vai se basear? Vai se basear só no que
foi estipulado pelo SNUC e na interpretação do SNUC ou a gente vai também trabalhar com a
realidade que existe hoje? Mas eu acho que em qualquer caso, tanto trabalhando só com o que
foi disposto no SNUC, ou só com a realidade atual, eu acho que não cabe, por exemplo, você ter
uma Unidade de Conservação para abrigar pessoas que seja, enfim, que não se encaixe nesse
conceito de RDS. RDS, para mim, uma das condições básicas, nisso eu concordo com o Paulo
Oliveira, é ter gente morando. Nesse caso também não está sendo tratado a questão das
pessoas da zona de amortecimento, da zona de entorno que podem trabalhar dentro ou ser
beneficiárias de alguma forma. O que está falando assim é que é uma condicionante para criar
uma reserva que tenha gente morando dentro, gente que resida, que dependa da exploração
dos espaços e recursos naturais, que detenha conhecimento sobre as características dos
ecossistemas e que utilizem modos pouco impactantes de utilização e exploração dos recursos
naturais. Essa é uma condição. Se veio gente depois, até porque o próprio Conselho
Deliberativo, porque existem acordos locais que garantem que os usuários precisam tirar, tudo
bem, isso é uma outra coisa a ser vista no Plano de Manejo, mas para ter essa categoria, RDS,
tem que ter gente morando dentro. Eu acho que Iratapuru escapa um pouco, do jeito que está
hoje, não estou falando da história.

A SRª. LÍGIA SIMONIAN (UFPA) – Vai punir agora a população por um erro histórico de um
Governo que não teve...

175
O SR. RENATO R. SALES – Mas não se trata de punir essas comunidades. O que, por
exemplo, pode ser até um ponto a favor dessas comunidades. A hora que você fala que pode ter
sim, que tem que ter gente morando, você até iniciar um processo para trazer essas pessoas
para dentro outra vez.

O SR. HENYO BARRETO (IEB - Brasília) – Obedecendo à sugestão do Maretti de discutir os


conceitos e não a redação, eu acho que a professora Ligia, ao fazer um comentário sobre uma
manifestação da Doutora Sônia, já sinalizou uma coisa muito clara, quer dizer, ou vai se fazer,
em algum momento nessa trajetória da regulamentação, uma opção pela manutenção da
uniformidade conceitual e aí se trabalhar com a noção de populações tradicionais, porque como
acho que o André salientou, não foi isso que ele disse, mas a gente pode interpretar, quer dizer,
dentro do SNUC, já embutido dentro dele você pode dizer que você tem o Estatuto das
Sociedades ou das populações tradicionais. Se você pega todos os artigos, parágrafos que
mencionam populações tradicionais, ainda que não esteja lá nos incisos das definições, você
consegue mapear, de fato existe e se estabelece ali uma forma de relação com esses grupos
quando da implementação de áreas protegidas, sejam elas de proteção integral ou de Unidades
de Conservação. Essa é uma opção. No caso da sugestão que eu fiz, eu caminho para uma
outra opção, apenas para registro, como diz o André, fundado nas seguintes considerações, uma
delas é que, e aí a questão que eu botei, além de residentes, outras coisas. Existem formas de
articulação núcleo/urbano/sítio, então, não necessariamente essas pessoas residem
permanentemente nas áreas que elas ocupam produtivamente, das quais elas se apropriam.
Isso é uma discussão clássica no campesinato. A gente imagina sempre o campesinato como
vinculado a uma área rural, mas você tem as articulações núcleo/urbano/sítio. Claro que
Iratapuru, pelas razões que a professora Lígia salientou, não se encaixa, historicamente, mas é
possível imaginar essas situações. Ao sul de Caxiuanã, por exemplo, alguns assentados da
Reforma Agrária que ainda não foram listados como beneficiários em relação ao INCRA e
satisfeitos com o atraso, já começam a imaginar a possibilidade de transformar um projeto de
licenciamento numa RDS. A grande maioria deles tem residência permanente na cidade de
Altamira. Então, você imagina uma fronteira florestada de 100 mil hectares ao norte da Altamira,
preservada dos madeireiros na forma de RDS e eles não residem permanentemente na RDS.
Então, concordo com a direção que Lucila e que Renato deram de omitir a referência a
população tradicionais. Acho que essa é uma direção salutar, contempla essas situações, acho
que é importante preservar, do ponto de vista conceitual, a possibilidade de que grupos que
ocupem produtivamente a área, mas não residam permanentemente nela sejam eventualmente
beneficiados, assim como a biodiversidade in sito da área foco e era isso. Só para justificar
conceitualmente as sugestões que eu fiz aquela hora.

A SRª. LUCILA PINSARD VINNA (Consultora) – Essa população que você está exemplificando
agora é extrativista ou qual é o tipo de atividade dela?

O SR. HENYO BARRETO (IEB - Brasília) – Eles são agro a caminho de serem extrativistas. A
gente foi lá ministrar um curso de manejo básico florestal comunitário, para fazer inventário
florestal, discutir manejo de açaí. Eles querem manter os 80% dos lotes florestados, mas,
insatisfeitos com a lerdeza do INCRA, eles começam a discutir, através das suas associações, a
possibilidade de uma outra forma de regulamentação. Essa dinâmica de experimentação social
que preserva cobertura florestal em áreas de fronteira e de pressão, nós estamos falando do
centro, de arco do desmatamento quase. Se vai um pouquinho mais para oeste de Altamira, as
madeireiras estão lá, você vê os pátios cheios quando você aterrisa. Então, só para dar um
exemplo concreto, mas a discussão é de definição conceitual, é para justificar apenas as
sugestões que eu tinha feito naquela hora. Só isso.

176
O SR. JESSEJAMES COSTA (Secretaria de Estado de Meio Ambiente – SEMA) – E a
tendência daquela comunidade do lado leste é habitar a RDS. Eles estão tão próximos que nós
estamos trabalhando em cima de capacitação deles, de agente ambiental comunitário que é
exatamente para fortalecer eles com a RDS. E a tendência é habitar. Inclusive há uma
associação que já está colocando os lotes deles lá, formando seus lotes dentro da RDS. Então,
eu acho que desqualificar RDS nessa altura, como o professor disse, seria jogar um processo
histórico todo.

O SR. HENYO BARRETO (IEB - Brasília) – Só para complementar, eu esqueci de dizer isso, eu
anotei aqui. Na minha sugestão está embutida também uma preocupação entre uma coerência
entre o condicionante um, o dois e o três. Depois, o sete e o nove vão falar sobre isso, mas a
característica das populações residentes na área alvo, predominantemente não extrativistas e a
questão da organização sócio-produtiva. Eu tenho sugestões específicas sobre essas
condicionantes, mas como as três estão ligadas, digamos assim, a caracterização do tecido
social, ao fazer essa sugestão, mas não quero me antecipar, quando chegar no dois e três.

O SR. FERNANDO VASCONCELOS DE ARAÚJO (WWF-Brasil) – A gente pode passar para o


dois, pode seguir para a segunda para relacionar todas as inquietudes que a gente tem sobre o
segundo condicionante. ”Ocorrências, entre as populações residentes na área alvo de proteção
de atividades econômicas não predominantemente extrativistas de recursos naturais”.

O SR. FRANCISCO ADEMAR DA SILVA (Secretaria de Estado do Meio Ambiente e


Desenvolvimento Sustentável - SDS/AM)) – Só perguntar, o que considera nas florestas das
áreas rurais? Pecuária cabe dentro de uma Unidade de Conservação? Eu imagino que não.
Então, eu acho que a gente entende que o manejo comunitário madeireiro, uma coisa pequena,
até se considere como produto extrativista, como uma pesca também, desde que seja uma
pesca manejada, eu considero também extrativista. O que para mim não está claro, acho que até
discordo da primeira fala de manhã, é essa questão, dentro da RDS, permitir atividade
econômica como pecuária, como criação de grande porte, por exemplo, mas acho que isso não
caberia dentro dessa categoria. Eu ainda considero, me desculpe eu insistir nisso, eu considero
que a RDS é uma unidade muito aproximada da Reserva Extrativista, com a diferença que nós
acabamos de ler de manhã essas diferenças. Por isso que eu acho que as Unidade de
Conservação, essa categoria, poderia ter no seu (...) geração de renda produção extrativista, ou
considerando pesca e madeira nessa questão de manejo comunitário como uma unidade
extrativista.

O SR. RENATO R. SALES – É o seguinte, no SNUC, se você for ver na conceituação de


extrativismo, é bastante amplo, eles falam de recursos naturais, não importa se seja de fauna ou
flora, quer dizer, é bastante abrangente a conceituação de extrativismo. Várias dessas atividades
realizadas pelos povos da floresta, da Mata Atlântica, da Mata Amazônica e tal são
caracterizadas como extrativismo sim. Com relação a esse condicionante, na verdade isso
também obedece uma orientação que o CNPT está procurando dar. O CNPT está cada vez mais
considerando a importância de você reforçar o conceito de ResEx e deixar a RDS para aqueles
casos onde haja uma questão fundiária diferenciada, onde você não tenha o domínio público da
área total e onde tenham atividades que sejam bastante diferentes mesmo de extrativismo, que
seja uma pequena agricultura, uma pequena criação de peixes, não em larga escala, mas em
escala familiar onde você tenha até pecuária. Conversando com o Paulo Oliveira, ele fala que o
maior problema hoje nas ResEx é a ocorrência de gado bovino. Para ele, e isso tem sido
discutido muito com os técnicos e tal, ele pensa até em alterar porque ele acha totalmente

177
impossível que essas populações vivam sem as cabeças de gado. O que precisaria haver é um
controle do número de cabeças por família, mas uma coisa que tem que ser consensuada,
discutida na região e ver, claro, os impactos que isso poderia causar. Então, é meio irreal falar
que pecuária não cabe dentro de uma Unidade de Uso Sustentável e você tem caso, aí você tem
que parar de pensar só na Amazônia, mas tem casos no cerrado, tem alguns casos na catinga,
tem alguns casos no sul onde essa questão do gado não é tão assim complicada. É uma
pecuária extensiva que causa impacto? Claro, mas, de alguma forma, o gado, em locais onde há
uma diversidade bastante grande de espécies vegetais que eles se alimentam, ele funciona
quase como um extrativista animal, de quatro patas, ele tem uma seleção de produtos e não é
tão impactante, como é talvez na floresta. Então, a gente não está pensando só em RDS na
Amazônia, a gente está pensando em geral.

O SR. LUIZ CARLOS PINAGÉ (FUNBIO) – É a dificuldade em você determinar até o que é
“predominantemente”, não estou discutindo o conceito de extrativismo não, porque hoje você vê,
na Amazônia e fora dela, você não tem uma pessoa que só pesca, que só faz roça, que só tem
três cabecinhas de gado, que coleta castanha. Ao longo do ano as populações fazem de roça,
que não é extrativismo, cria gado, na época da castanha, corta seringa em julho, coleta castanha
em janeiro. Então, como é que você vai... Comentar só a dificuldade em determinar o que é
“predominantemente extrativista”.
O SR. CLÁUDIO C. MARETTI (WWF-Brasil) – A bem do tempo não vou repetir o que eu
defendo ou não defendo dos demais. O que eu queria frisar é que eu concordo com esse
condicionante, como está sendo chamado, desde que ele não seja exclusivo, desde que não
seja o único, desde que não seja talvez nem o principal. Ele é um dos critérios, mas talvez, no
jogo dos critérios ou das condicionantes, é uma coisa que a gente tem que ver depois. Eu não
acho que ele possa ser obrigatório, exclusivo, senão talvez você perde opções. Queria só fazer
um comentário em relação à história de não pensar só a Amazônia, isso é fundamental. Nós
temos que, por isso que nós, que somos um programa de trabalho com a Amazônia, incluímos
uma zona costeira. Agora, eu acho que depois de RDS nós temos que discutir ResEx mesmo
porque gado e ResEx hoje é o problema, mas não é a solução.

O SR. MARCOS ROBERTO PINHEIRO (WWF - Brasil) – A minha sugestão, nessa perspectiva
de estar pensando o Brasil todo, acrescentar, logo depois de “ predominantemente extrativista e
recursos naturais”, “as atividades de subsistência” porque aí caracteriza o esforço da atividade
familiar e não em grandes escalas. Então, para aquele exemplo que você colocou do cerrado, no
nordeste, que não é extrativismo, que tem uma pecuária de cabra, por exemplo, “atividades de
subsistência”, dentro da RDS estaria trabalhando com essa dimensão de atividade econômica.
Mas não deixa brecha para uma coisa de atividade de grande escala. Uma sugestão, pensando
nessa escala do Brasil.

A SRª. RITA – A minha única preocupação é qual vai ser a implicação desse condicionante no
caso que você tenha populações, vai muito na linha do que o CLÁUDIO falou, que ele não
assuma uma importância maior do que deve ter, porque na verdade, você pode ter situações
onde você tem as populações predominantemente extrativistas e, ainda assim, a opção ser pela
RDS. Então, me preocupou por ser uma condicionante.

(Intervenção fora do microfone. Inaudível)

A SRª. RITA – Tem uma série de coisas. Em primeiro lugar, a demanda precisa partir das
populações tradicionais, no caso da ResEx. Você pode ter casos que não partiu das populações
tradicionais, onde elas entram no processo um pouco mais tarde, são simpáticas e apóiam a

178
criação, mas não se inicia ali. A gente tem alguns casos assim, onde, na verdade, existe toda
uma outra esfera de tomada de decisão. A questão fundiária é um assunto concreto que tem
sido discutido e de fato talvez a presença de comunidades com perfis um pouco distintos do
extrativista, vamos dizer assim, o tradicional, estereotipado, como a gente está vendo, não existe
esse perfil, necessariamente, porque eu concordo plenamente com o Pinagé, as populações
estão usando ciclos produtivos que vão mudando ao longo do ano, seguindo a dinâmica do lugar
aonde estão, numa época do ano são todos pescadores, noutra época são garimpeiros.

O SR. RENATO R. SALES – Só um esclarecimento, como o CLÁUDIO falou, essas


condicionante não foram pensadas como absolutas. Eu acho que a conjugação de todas elas
que começa a direcionar para você criar uma RDS. Não se pode pensar nelas de forma isolada,
é a conjugação da maior parte delas que leva à possibilidade de se criar uma RDS. E, outra
coisa, em momento nenhum eu acho que existe o extrativista exclusivo, não existe. Naquela
conferência lá de Manaus, o principal produto, embora tivesse extrativistas e etc., era o pescado,
o peixe, mas todas essas atividades lá discutidas, todas são extrativistas. Então, é
predominantemente extrativista sim. Agora, quando existe, por exemplo, uma agricultura que
toma muito mais tempo e demanda muito mais esforço das famílias e é ela que gera os
alimentos ou então a renda de forma primordial e faz algum extrativismo, para mim, é
predominantemente agrícola essa comunidade. E é claro que caso a caso que tem que ser visto,
não se pode rotular antes.

O SR. HENYO BARRETO (IEB - Brasília) – Partilhando dessa preocupação que o CLÁUDIO
expressou e dependendo de como se define esse condicionante, você fecha opções, então, para
manter opções abertas, eu fico me perguntando se não seria interessante frasear esse
condicionante de um modo negativo e fiz uma redação aqui que é absolutamente provisória, ao
invés de ser assim, “ocorrência de atividades não predominantemente extrativistas”, se a gente
não poderia frasear, digo, essa é uma redação que eu fiz aqui agora pensando em como traduzir
esse entendimento. Não enfatizar ou não superdimensionar o extrativismo, ou como sistema
produtivo ou como característica definidora das atividades econômicas, depende da questão
conceitual, na área alvo de proteção, ao considerar o estabelecimento da UC, é isso. Quer dizer,
não enfatizar o extrativismo como sistema produtivo na área alvo de proteção, produtivo das
populações dos grupos sociais, ao considerar a criação do estabelecimento da Unidade de
Conservação. E aí sugiro que subsistência, pequena escala e familiar sejam descartados. E aí
queria voltar o tema, só para dar um exemplo, do cipoal onde a gente está metido, final do ano
passado teve uma reunião em Porto de Mós com lideranças do movimento social organizado,
The Grass Roads Organization do Porto de Mós e uma das reivindicações que eles colocaram
para o Conselho de Desenvolvimento Sustentável e CNPT é o seguinte: “Respeito à diversidade
sociocultural dentro da ResEx”. O que eles queriam dizer com isso? Que havia um grupo lá
dentro que, historicamente, começou a trabalhar com búfalo e que quer continuar trabalhando
com búfalo, é uma reivindicação do movimento social local. Eu pergunto onde estavam os
auditores e as formas de oitiva na criação da ResEx ao ter simplesmente, essa é uma atividade
socialmente invisível? Acho difícil, ecologicamente certamente ela não é, mas hoje é uma
reivindicação e certamente é uma reivindicação de outros grupos sociais que se vêm
enquadrados dentro de certas categorias. Nessa perspectiva eu daria, de novo, de forma
conceitual, um fraseamento a esse condicionante de forma negativa, não ter o extrativismo como
ênfase. Se tiver gente extrativista, a definição negativa não impede que se crie a RDS.

O SR. CLÁUDIO C. MARETTI (WWF-Brasil) – Eu só queria reforçar que eu também considero


que subsistência não devia ser o critério. Eu acho que talvez a lógica lá da muralha, não vamos
promover a exclusão só porque hoje é uma atividade menos impactante ao meio ambiente.

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Então, a lógica do local volta a ser importante e acho que a essa condicionante de ser do
interesse da comunidade local, ou da população tradicional, como vier a ser definido, eu acho
que elimina ou retira o principal. Volto a dizer, não resolve tudo como o caso da ResEx Chico
Mendes que está gerando impacto com a ampliação da pecuária pela comunidade local, mas
acho que esse tem que ser o foco e não mera subsistência.

O SR. FRANCISCO ADEMAR DA SILVA (Secretaria de Estado do Meio Ambiente e


Desenvolvimento Sustentável - SDS/AM)) – Nós estamos ainda falando do processo de
criação. A gente está muito apegado às que já foram criadas. Eu queria que a gente separasse
um pouco isso. O que já está feito, está feito. Nós vamos ter que tentar melhorar isso, eu acho
que nós estamos preocupados: “Ah, porque tal situação”. Nós estamos pensando no passo
seguinte, ou seja, as novas reservas que vão ser criadas têm que preencher esses critérios que
estão aí. Por isso é que eu acho que a gente tem que considerar, e aí a minha preocupação é,
não conheço outras regiões do Brasil, a minha preocupação está na região amazônica,
particularmente, sul do Amazonas como Mato Grosso, Pará, Rondônia e Acre porque se a gente
não entender que as Unidades de Conservação têm um papel fundamental de, além de
preservar o meio ambiente, que é o papel mais importante que nós estamos defendendo aqui,
também é fazendo com que essas populações que estão lá dentro se sintam agasalhadas, uma
palavra bem caipira, abrigadas e se sintam bem morando lá. Isso que você tem que ver porque
senão você acaba pensando que tem muita gente que mora lá na região amazônica, mas se
criar Unidade de Conservação atrapalha a vida dele. Então, exclui essa família e bota lá dentro
as pessoas que comungam com essas idéias. Eu acho que é isso que nós temos que nos
preocupar porque tem gente que cria búfalo, “Ah, mas criar uma RDS aqui e ele vai ficar dentro”.
Se ver que a atividade que ele desenvolve é contrária aos princípios da RDS, exclui, deixa ele
fora e vai com outra população. Eu acho que a gente tem que pensar nisso porque senão você
acaba fugindo do princípio que é a Unidade de Conservação porque se você deixar esse negócio
aberto, “nego” vai botar roçado na Amazônia, eu sei como é que funciona. O cara bota um
roçado para mandioca hoje, amanhã aquela terra não serve para nada, tem que abrir outra
clareira, depois abre outra clareira, depois abre outra clareira e aí quando você pensa que é uma
agricultura familiar, se você somar o quanto de hectares que ele derruba por ano, já dá um
monstro de desmatamento dentro da floresta. Não estou falando de todas as áreas do Brasil,
mas se deixar a gente deixar aberto como está, nós estamos discutindo uma coisa que vai ser
para toda a região, isso acaba trazendo preocupação para aquilo que a gente chama que é
princípio, que é a preservação da floresta, da biodiversidade. Não estou querendo, eu sou contra
essa questão de engessar a população para não sobreviver, mas eu acho que a questão de se
nós olharmos a questão das Unidades de Conservação, a partir de usar os recursos que tem lá
dentro, na questão da pesca, na questão do açaí, na questão da castanha, na questão da
seringa, na questão do manejo comunitário, eu acho que já tem uma cesta de produtos que dá
muito bem para as populações locais se desenvolverem, desde que tenha pesquisa, tecnologia,
tudo isso agregado, eu não preciso estar lá dentro como colocaram ”predominantemente
agricultura”, “predominantemente a pecuária”. Eu acho que isso, para mim, foge do critério de
Unidade de Conservação.

A SRª. RAQUEL CARVALHO DE LIMA (Conservação Internacional) – Eu só queria fazer uma


sugestão porque eu acho que a gente está falando de realidades bem diversas. Mesmo falando
do bioma Amazônia, você vai ter que cada situação é bem particular. E aí eu acho que essa
palavra “condicionante” torna a coisa muito estanque. Você vai ter que atender todas essas
condições para você poder criar a área? Será que é exatamente isso? Não sei, queria deixar a
sugestão de talvez pensar em substituir essa palavra por “critérios” ou “características” que
definem uma área potencial para criação de uma RDS, alguma coisa assim, porque se você for

180
tentar abarcar todas essas realidades e aí o Renato falou, não tem as áreas costeiras, você vai
realmente passar uma semana aqui e fica difícil você chegar num consenso porque é uma coisa
bem diversificada.

O SR. ANDRÉ RODOLFO LIMA (ISA) – Eu senti, posso estar equivocado, até porque a leitura
minha foi rápida do texto todo, mas que essa condicionante ou referência que é a palavra que,
eu acho, seria a mais adequada para evitar essa coisa estanque, ela está muito presa a uma
necessidade que todos nós temos de fazer a separação clara da RDS com a ResEx. E eu acho
que a separação clara entre RDS e ResEx não é, necessariamente, pela prática, pela atividade
que a população residente faz. Eu vejo que tem uma questão que está muito clara que é a
questão fundiária que vai bater, lá na frente, na oportunidade de criação da reserva, é uma
delas, mas tem uma outra que é interessante que vocês colocam no texto que é a seguinte, a
RDS tem um componente de preservação na natureza que é ao mesmo tempo, mas não é no
mesmo lugar onde a população ocupa. Então, você, necessariamente, terá que ter zonas de
proteção integral. E numa outra região, desde que os impactos sejam aceitáveis e tal, você pode
ter populações com determinadas atividades predominantemente extrativistas. A diferença está
em que esta Unidade de Conservação, em alguns casos, não vai ser necessária a
desapropriação, em outros você vai ter a história da zona de proteção integral, quer dizer, você
tem uma distinção em relação à ResEx que não é, necessariamente, em função do sujeito nem
de sua prática, mas questões objetivas. Então, eu acho, sinceramente, que isso é uma
referência, mas não deve ser uma condicionante.

O SR. FERNANDO VASCONCELOS DE ARAÚJO (WWF-Brasil) - Vamos passar para o critério


terceiro, referência. “Referências para criação. Grau mínimo de organização sócio-produtiva,
mesmo que informal, das comunidades moradoras, o qual permita sua efetiva participação nas
práticas de gestão desta categoria de gestão de Unidade de Conservação”.

O SR. MARCOS ROBERTO PINHEIRO (WWF -BRASIL) – Olha, não sou sociólogo, mas pelo
pouco que eu entendi na Amazônia, qualquer grupo tem um nível de organização, mesmo que
informal, mesmo que não tenha um presidente. Eu a acho essa referência é meio chover no
molhado.

O SR. FRANCISCO ADEMAR DA SILVA (Secretaria de Estado do Meio Ambiente e


Desenvolvimento Sustentável - SDS/AM)) – Desculpa aqui a expressão grosseira, mas não
fede nem cheira. Deixa isso aí como está, mas esse negócio não vai atrapalhar em nada porque
quando o grupo se organiza para criar Unidade de Conservação, as comunidades, os caras não
têm juridicamente um estatuto, uma coisa assim, mas se reúnem, defendem o interesse deles.
Para mim isso não...

O SR. RENATO R. SALES – Deixa eu tentar defender o indefensável. (Risos) Existe sim
comunidades que moram em áreas que são definidas até por gestores ambientais, órgãos
executores do SNUC para virar uma Unidade de Conservação e que realmente não têm nenhum
tipo de organização. Existem conflitos seríssimos entre as famílias, não se consegue fazer
nenhum trabalho coletivo. Existem algumas comunidades caiçaras dessa forma. Enfim, eu já
participei de trabalhos de negociação com algumas comunidades, às vezes é um chefe de
família que quer a Unidade de Conservação e fala em nome de toda a comunidade, quando você
chega lá todo mundo está desunido, ninguém quer saber daquela história, existe uma vontade já
bastante clara de grande parte das famílias de ir embora, de sair daquela região. Enfim, quer
dizer, nesses casos, para mim, existe, claro, uma organização interna deles que permite até que
eles briguem entre eles, mas, para mim, não é um grau de organização, mesmo que informal,

181
que permita uma gestão das Unidades de Conservação. Às vezes é só porque ouviu falar que
parece que é bom ter uma RDS, “vamos ver se dá certo”, mas as pessoas já estão desistindo da
região. Não foi um ou dois casos, já vi vários casos assim.

O SR. FRANCISCO ADEMAR DA SILVA (Secretaria de Estado do Meio Ambiente e


Desenvolvimento Sustentável - SDS/AM)) – Estava entendendo outra coisa, desculpa Renato,
mas o que você falou agora, o que está escrito ali para criar teria que ter uma associação e não
um consenso, não uma...

O SR. RENATO R. SALES – Quando eu coloco “mesmo que informal”, não precisa ter uma
associação...

O SR. FRANCISCO ADEMAR DA SILVA (Secretaria de Estado do Meio Ambiente e


Desenvolvimento Sustentável - SDS/AM)) – Um é pescador, outro não é pescador, aí começa
a ter essa briga. Eu sei que isso existe em qualquer reserva, você não tem 100% de acerto entre
eles, toda reserva criada você tem 10 família, 15 que discordam e vão ficar discordando o resto
da vida, se nós colocarmos essas condicionantes, não vamos criar Unidades de Conservação.
Agora, acho que você pode até colocar como “maioria”, “organização que tenha controle da
maioria.

O SR. RENATO R. SALES – Só quero dizer que existem situações bastante críticas que levam a
uma total situação de conflito. Quando eu falo organização é uma certa coesão interna que
permita desenvolver trabalhos coletivos, que permita tomar decisões olhando na cara do outro.

A SRª. LÍGIA SIMONIAN (UFPA) – Só que isso muda, Renato. Você condicionar isso é que
minha preocupação porque isso é um processo, tu pode mudar para melhor. Eu acredito, eu sou
educadora, então eu acredito no potencial do ser humano, o grande problema é que não tem
havido educação. A RDS foi criada por Iratapuru não tinha uma pessoa, realmente alfabetizada
lá dentro, como é que tu discute sustentabilidade, políticas públicas, conservação da
biodiversidade com uma pessoa que não sabe escrever o nome? Aí fica difícil. Isso eu me
lembro que eu batia, até lá em Merlim num seminário com o Capi eu digo: “Enquanto não tiver
educação lá não tem jeito”. Eu acredito no potencial. Então, eu não gostaria de obstar, a priori,
mas tudo bem, é uma questão de entendimento. Eu gostaria de ter recebido esses documentos
antes, até porque o Henyo ali “professora Lígia”, não precisa me chamar de professora. Eu estou
aqui como uma colega, como uma companheira que está querendo ajudar dentro do possível.
Eu, de fato, mencionei a questão do tradicional, eu disse: “Pode ficar, tem que fazer a opção”. Eu
não disse que era para ser. A gente tem que ter o cuidado. Então, aqui é mais uma questão de
um cuidado porque você não pode prever que vai ser sempre para o mal, pode ser para o bem,
depende das condições que se oferecem. Agora, às vezes, concordo contigo, tem esses
conflitos, mas mesmo esses conflitos não quer dizer que não possa fazer, até porque, lá na
ResEx do Chapuri ficou claro, no início havia o acordo, havia o consenso e depois o que
aconteceu lá? Eu tenho acompanhado bem o processo, é difícil. Então, antes havia e depois não
houve, bom, e daí? Desmancha agora a ResEx ou tenta rediscutir a proposta e reencaminhar? É
uma questão, não é uma solução. É só questionamento.

O SR. CLÁUDIO C. MARETTI (WWF-Brasil) – Eu acho que exatamente esse espcao de


trabalhar com uma comunidade que não está super-bem-organizada, mas que é importante
fortalecer e cuja área é importante proteger do ponto de vista da natureza, é que eu acho que

182
devia deixar como um aberto. Essa diferença de ResEx eu acho que devia manter nesse caso.
Acho que é preciso organizar, mas não como pré-condição.

A SRª. RITA – Eu só queria comentar que acho que no processo da criação esses conflitos onde
parte das comunidades residentes estão favoráveis e contra, ficam evidentes nas consultas
públicas. Então, eu acho que a consulta pública seria o local, o momento para estar identificando
até que ponto esses conflitos podem inviabilizar a reserva. A gente tem alguns casos, eu sou
uma otimista por natureza. Então, eu acho que as Unidades de Conservação podem ser um
instrumento de fortalecimento dessas organizações. Nós temos tido alguns casos lá no
Amazonas que não existe nenhum nível de organização, Ademar mesmo e Raquel estão
trabalhando numa unidade que cada família morava a meio dia de viagem da próxima família. E,
no entanto, no processo de implementação dessa reserva, eles estão encontrando os meios
para discutir uma nova forma de organização. Se vai ser para o bem ou se vai ser para o mal,
nós vamos ver para frente, mas a verdade é que no momento da criação essa organização não
havia. E a outra coisa que eu acho importante, porque acho que toda essa discussão é
construída em cima de conceitos que são conceitos complexos que muitas vezes as pessoas
vão começar a entender os conceitos no processo da implementação. E aí eles podem estar
mudando seus posicionamentos porque na hora acharam que ia ser uma coisa e depois
descobre que é outra, que, na verdade, é a tragédia da nossa falha de conseguir passar esses
conceitos para a sociedade e a gente, nem nós aqui a gente tem o mesmo conceito. Então, eu
acho que nós temos que ter esse olhar de que são processos que estão sendo construídos e
que eles têm que ser adaptativos às condições. Então, eu tenho um pouquinho de medo desse
grau mínimo de organização sócio-produtiva porque acho que a unidade pode ser o elemento
catalisador da existência dessa organização.

O SR. HENYO BARRETO (IEB - Brasília) – Eu proponho, fraternalmente, viu Renato e Lucila, a
exclusão dessa referência, é a proposição fraterna, amistosa. Porque o que a gente tem, muitas
vezes, é essa projeção do modelo do associativismo para todas essas situações onde a gente
gostaria de atuar, nessa área de proteção da natureza, mas teve uma coisa que o Renato falou
que eu queria fazer referência a um debate relativamente contemporâneo, não é o meu caso,
não sou estudioso disso, a literatura contemporânea que está discutindo o campesinato histórico
amazônico, as chamadas sociedades caboclas, que tem chamado a atenção, o Renato falou em
conflito entre famílias e alguns autores, e isso é desafiador do ponto de vista do planejamento
para qualquer coisa, não é só para conservação não, têm chamado a atenção para o fato de que
não necessariamente são as comunidades, tal como nós a concebemos de fora, mas as famílias,
e aí família no sentido lato do termo, tanto do ponto de vista de memória genealógica como de
extensão de laços os mais variados, que são as famílias que são as unidades não apenas de
produção, mas de mobilização política e articulação. Então, é natural haver conflitos entre
famílias, na medida em que elas projetam futuros e horizontes diferentes para si. Então, em
virtude disso e considerando que, num certo sentido, esse condicionante pode ser interpretado,
como interpretou o colega Ademar, como um truísmo, todo e qualquer grupo tem um nível básico
e mínimo de organização sócio-produtiva, ainda que informal, é que eu gostaria que ficasse
registrado apenas, não faço disso um cavalo de batalha, a sugestão da supressão da referência,
fraternalmente.

O SR. RENATO R. SALES – Uma das razões para a gente ter colocado esse critério, seja lá o
que for, é o seguinte, alguns estados estão criando RDS ao invés de ResEx e a justificativa é
essa: “Ah, são populações não organizadas, são populações que não têm um grau de
organicidade para desenvolver as atividades, não tem um senso do coletivo”. Então, isso, na

183
cabeça desses gestores, desses executores do SNUC, não caracterizaria uma ResEx. ResEx
tem que ser uma coisa de populações organizadas, associações, cooperativas, etc. e tal. Então,
se não cabe como ResEx, vamos criar uma RDS, achando que é mais fácil. E no nosso
comentário desse ponto, desse critério a gente deixa claro que a gente acha que tanto para uma
quanto para outra tem que haver um espaço, um apoio, seja de parceiros, seja dos órgãos
executores para propiciar, dar oportunidade para que melhore as formas de organização da
produção. Só vou dar um exemplo bastante claro desse tipo de conflitos, você fala de conflito de
famílias. É fundamental, para mim, numa RDS que exista Planos de Manejo de Rendimentos
Sustentável de Espécies. Isso depende do que? De acordos de cavalheiros, acordos entre
famílias, acordos entre produtores. Eu participei de um caso de uma comunidade aonde eles
queriam fazer um manejo sustentável de ervas medicinais e daí houve todo o envolvimento de
universidades, pesquisadores e etc. e tal e foi discutido com eles como é que seria esse manejo.
Todo mundo concordou que seria tirar, de cada indivíduo da espécie, três galhos a cada semana
porque senão comprometeria a reprodução daquela espécie, etc. e tal. Para isso funcionar, todo
mundo tem que concordar. E o que aconteceu foi o seguinte, 10 famílias estavam fazendo o
plano de acordo com o que foi estabelecido, e era suficiente para conseguir um rendimento
bastante favorável, mas as outras famílias acharam que isso era uma idiotice muito grande. Iam
lá e raspavam tudo. Como é que você vai ter um plano de manejo num caso como esse? São
essas situações que a gente levou em consideração para colocar esse tipo de coisa. Mas
também não é nada fundamental. Só quero lembrar...

O SR. FRANCISCO ADEMAR DA SILVA (Secretaria de Estado do Meio Ambiente e


Desenvolvimento Sustentável - SDS/AM)) – Eu acho que está bom, está preocupado com
isso. Precisa mudar a redação. Para mim, a forma que está colocada aí caracteriza outra
informação, e o que você coloca eu acho legal, quer dizer, você criar uma RDS não é porque o
prefeito lá do município quer, não é porque o vereador quer, porque tem a família dele lá dentro,
mas é porque as populações estão de acordo. Eu acho que o que tem que melhorar aí é a
redação, dar entendimento. Eu estou de acordo, com a sua preocupação, eu comecei a
entender. Agora, eu acho que olhando assim a redação, ela não diz isso que nós estamos
discutindo aqui, me desculpa, mas parece que não diz isso. Aí você coloca uma questão clara
que às vezes cria porque alguém quer, mas a maioria do pessoal não quer. Acho que podia
pensar numa redação, eu não sou bom, mas alguém podia pensar uma redação para que
contemplasse a sua preocupação que acho que deve ser uma preocupação de todos nós, que,
para criar uma RDS, tem que ter uma concordância da maioria, não pode ser tudo, mas a
maioria que concorde que seja ali estabelecido uma Reserva de Desenvolvimento Sustentável.
Acho que isso também, para deixar solto, fica meio complicado porque aí cria, como você está
dizendo, o prefeito quer criar porque tem um amigo dele lá. A população fica sacrificada porque
tem outros critérios que vão estragar um pouco a pretensão de alguns que estão ali explorando
aquela área.

O SR. FERNANDO VASCONCELOS DE ARAÚJO (WWF-Brasil) – Fechamos nesse e


passamos para o item quatro. “Ocorrência de áreas representativas de ecossistemas com
satisfatória qualidade ambiental, não significativamente impactados pelas atividades
historicamente desenvolvidas e com possibilidade de recuperação de parte das áreas que se
apresentem degradadas”.

O SR. CLÁUDIO C. MARETTI (WWF-Brasil) – Isso tem uma questão conceitual que não tem
nada a ver com comunidade. Uma questão conceitual da área ecológica e eu não sou dessa
área, mas eu trabalho com proteção da natureza há mais de 20 anos. Eu acho que o que tem
que presidir a definição de áreas para proteção da natureza não pode ser exclusiva e, às vezes,

184
nem prioritariamente o grau de conservação dessa área. Quer dizer, uma área que está intocada
protege, a área que já foi degradada, não protege. O que tem que presidir são critérios
ecológicos que passam hoje pela discussão de representatividade da biodiversidade, mas que
devem passar também pela funcionalidade ecológica e outros valores, inclusive sociais que é
mais complicado discutir. Então, eu não me lembro de que isso está claramente explícito no
SNUC, mas é uma discussão recorrente pelos técnicos da área, é uma tradição que pelo menos
nos meus 25 anos de profissão eu tenho enfrentado sistematicamente em todo lugar que eu
trabalho, no Brasil, na América Latina, em Galápagos, na África, fora, em lugares que eu já visitei
no mundo afora, e não tem consistência científica do ponto de vista ecológico, das ciências
biológicas. É uma coisa simplesmente reativa, “a gente tem que segurar o que tem” e aí não se
faz. Essa coisa reativa é importante, nós temos que segurar o que tem, mas ela não é o único
critério, não se faz uma análise da importância de cada área. Na Amazônia, cada vez mais a
gente tem que fazer isso. O programa APA passou por uma revisão de meio termo agora e esse
é um dos critérios que nós estamos colocando como principais. Nós não vamos conseguir
proteger tudo. Como é que a gente escolhe, inclusive tem que proteger áreas que já estão mais
degradadas, como as regiões de Mato Grosso e até, eventualmente, do Maranhão, para não
falar no sul do Pará, com certeza. Então, os critérios de importância ecológica são fundamentais,
senão você não cria. Uma Unidade de Conservação não pode ter um objetivo meramente social,
pode ser, ao mesmo tempo de, embora não entendo muito essa separação especial que você
fala, mas tem que ser proteção da natureza ao mesmo tempo que desenvolvimento das
comunidades e etc. Mas o principal, não pode existir uma Unidade de Conservação sem a área
ter uma importância ecológica. Agora, não dá para definir importância ecológica só ou
exclusivamente como grau de conservação, menor degradação.

A SRª. LUCILA PINSARD VINNA (Consultora) – Ao invés de grau de conservação, colocar


alguma coisa como importância ecológica.

A SRª. SÔNIA MARIA PEREIRA WIEDMANN (IBAMA) – Só para reforçar isso que o CLÁUDIO
Maretti acabou de dizer, na discussão da Medida Provisória do Código Florestal, Área de
Preservação Permanente, a grande discussão foi isso, era uma área vegetada ou uma área sem
vegetação? A simples localização dela já caracterizava como APP, não é isso? Agora, o que eu
queria comentar é o seguinte, acho que não podemos perder de vista o diferencial da RDS para
Reserva Extrativista. Eu estou tentando fazer uma comparação, até agora a gente ainda não viu
um requisito, uma condicionante que realmente fizesse a diferenciação. Talvez fosse aqui a hora
da gente pensar nisso, ocorrência de áreas, como é que ficou agora? Representativas de
ecossistemas, alguma coisa que desse para a gente o diferencial da Reserva Extrativista porque
eu acho que a gente vai ter que fazer isso em determinado momento. Era só isso que eu queria
lembrar.

O SR. RENATO R. SALES – Só tentando, não é justificar, mas tentando contextualizar um


pouco esse critério. Tem existido, eu morei dois anos no Rio Grande do Norte e deu para
perceber assim, tem existido algumas demandas para criação de RDS única e exclusivamente
para proteção de grupos sociais em áreas altamente degradadas, antropizadas. Então, o que eu
e Lucila estávamos querendo dizer com isso é que a área tem que ter uma justificativa ecológica
para virar uma RDS. Você não pode transformar um bairro urbano, mesmo que seja de
pescadores, numa RDS porque é um bairro com rua, com todos os problemas urbanos e etc.
Então, era só um lembrete que é uma Unidade de Conservação, tem como principal objetivo a
conservação, a manutenção da biodiversidade e, portanto, tem que ter, enfim, uma relevância,
como o CLÁUDIO está colocando agora, ecológica, inclusive a gente fala que as áreas podem
ser recuperadas, mas existe algum caso que é irreversível. Então, é para tentar tirar um pouco

185
dessa idéia de uma grande pastagem pode virar uma RDS, que um bairro urbano ou da periferia
pode virar uma RDS. E outra coisa que está embutido nesse critério é o seguinte, o que se fala é
que as populações locais ou tradicionais têm que viver da exploração do espaço e dos recursos
naturais. Se essa área estiver muito degradada, ela não vai conseguir viver desses espaços e
dos recursos naturais. Então, tem que ter uma qualidade ambiental que inclusive garanta a
manutenção dessas famílias que vão explorar os recursos. Enfim, o contexto foi esse.

O SR. LUIZ CARLOS PINAGÉ (FUNBIO) – Só um encaminhamento. O item cinco contempla


muita coisa do que está sendo falado. Podia até fundir os dois, o quatro e o cinco.

O SR. HENYO BARRETO (IEB - Brasília) – Eu já fui contemplado parcialmente nas


intervenções, principalmente essa última do Pinagé, acho que falar em termos de
representatividade da biodiversidade, funções ecossistêmicas relativamente mantidas é
interessante. Agora, eu queria levantar um pequeno tom dissonante com relação ao comentário
e é claro com a leitura que cada um fazemos sobre a história dessas categorias de áreas
protegidas, de como, por exemplo, no caso das reservas extrativistas, o que, no meu
entendimento, era uma categoria para viabilizar um certo modelo de Reforma Agrária para uma
situação muito específica, foi convertido numa Unidade de Conservação. Então, a minha
polêmica é quando, no comentário ao condicionante quatro e também no comentário ao
condicionante cinco se enfatiza como objetivo principal. Quando o André, se eu entendo bem a
colocação dele, ao mesmo tempo ou simultaneamente, eu diria que existem objetivos principais,
no plural, simultâneos que são esses aqui, que os itens quatro e cinco discutem, mas também
sim as situações referidas à reprodução social desses grupos. Quando a gente está falando em
importância ecológica, a primeira pergunta que a gente faz é: “É importante para quem?” E, uma
segunda pergunta que é importante: “A que escala bioespacial?” Porque um ambiente, ao
nossos olhos, degradado e a escala da representatividade ecossistêmica do País pouco
significativa, pode ter um enorme valor histórico, cultural e simbólico para uma população
específica e aí você entra numa discussão. Então, claro que os exemplos que o Renato levantou
são limites, um bairro urbano, uma fazenda, mas você pode imaginar áreas ambientalmente
comprometidas que, para um determinado grupo social, tem um valor ecológico no sentido
denso, ou seja, da sua integração, do seu acoplamento estrutural com aquela parcela da
biosfera que eles ocupam que, não necessariamente, tem as virtudes que nós gostaríamos que
ela tivesse, mas que, para aquele grupo, tem sim, e ele pode, através do tal abaixo assinado, se
comprometendo com uma série de coisas, reivindicar uma Reserva de Desenvolvimento
Sustentável, se comprometendo inclusive com recuperação de parcelas das áreas que ele
reconhece que estejam degradadas. Então, eu queria chamar a atenção para isso para que ao
definir esse referente, integrando o referente quatro com o cinco, nós não percamos de vista que
esses, para mim, são objetivos principais, no plural, e simultâneos, ou seja, coetâneos e que vão
junto. Essa é a minha leitura dessa categoria.

O SR. FRANCISCO ADEMAR DA SILVA (Secretaria de Estado do Meio Ambiente e


Desenvolvimento Sustentável - SDS/AM)) – Acho que, olhando por esse lado, eu discordo até
determinado ponto. Eu acho que Renato fez uma leitura que está um pouco na minha visão. Eu
acho que a Reserva de Desenvolvimento Sustentável, nós estamos discutindo aqui o que vai
caber dentro desse pote, nesse saco. Estamos jogando tudo na conta do pessoal que defende a
Reserva de Desenvolvimento Sustentável. Então, é para diferenciar da RESEX ou do parque. Eu
acho que o papel e a diferenciação já estão bem definidos no próprio SNUC, para mim está bem
definido, o que acho que Renato fez uma leitura que é interessante olhar e prestar muito bem a
atenção. Quando você tem uma população vivendo num determinado ambiente e essa
população, a gente cria uma reserva que eles caçam em todo lugar, não tem lugar para os

186
bichos se esconderem, eles pescam em todos os lados, não tem um lugar onde o bicho possa se
reproduzir. Então, é uma reserva que praticamente não se desenvolve, não é sustentável. Então,
pensar também o tamanho dessa questão. E a outra coisa é com relação à questão da
significância dessa área. Ela tem que ter uma significância para quem mora lá, para quem tem
alguma serventia dentro dessa área. Então, aí entrou na questão legal. Por que eu tenho que
entender dessa forma? Então, eu pego e imagino que nós, fazendo essa leitura de Reserva de
Desenvolvimento Sustentável e respondendo essas perguntas que foram feitas para nós
mesmos, a gente já começa a ver a diferença. Aí nós vamos colocar: “área de amortecimento”,
cabia aí, talvez, que “a Reserva de Desenvolvimento Sustentável, obrigatoriamente, terá que ter
uma área de “X”% com proteção integral” e já está dito. Pode ser, será que é essa a
diferenciação? Não sei, essas coisas que a gente está procurando para diferenciar, mas eu acho
que é interessante que a gente compreenda que a Reserva de Desenvolvimento Sustentável
está dentro de uma caixa que está entre parque e entre Reserva Extrativista e acho que o que
nós estamos queremos botar para ela, tipo assim, uma pastagem. Quando é que uma pastagem
vai ser sustentável? Vai demorar anos e anos. Imagine que nós vamos ter que plantar um monte
de planta para poder voltar a ser uma área de uso sustentável nessa região. Então, eu acho que
o Renato falou essa questão que eu estou de acordo, e ele faz um monte de interrogação para
nós mesmos responder. Vamos ver até que ponto isso é condicionante para a criação de uma
reserva.

O SR. CLÁUDIO C. MARETTI (WWF-Brasil) - Vou me permitir fazer um debatezinho aqui,


rápido. Eu não sou estudioso do assunto das origens, mas sou estudioso pós-processo inicial,
inclusive ainda na época da gente tentar colocar em evidência Chico Mendes e salvá-lo do
assassinato. Óbvio que a coisa veio de uma origem basicamente do conflito social e com raízes
trabalhistas, tanto que era expressão do PT na região e etc., naquela época, aquele lado mais
sindical do PT e tal. Mas se propôs uma aliança. Esse movimento social que tinha bases
sindicais e que se confrontava e que usava inclusive instrumento da luta sindical para se
confrontar com os fazendeiros ou com os que derrubavam a mata, propôs uma aliança com o
movimento ecológico. Essa aliança que leva, por fim, à transformação de ResEx numa Unidade
de Conservação. E essa aliança foi proposta por eles não de forma inocente, mas de forma
muito bem calculada porque havia o interesse próprio e a aliança permitia projetar essa luta num
nível maior, como de fato aconteceu. Tanto aconteceu que do ponto de vista de cá, olhando de
quem estava do lado de cá, foi em função dessa luta e da infeliz morte dele, que, por exemplo,
os movimentos de Unidades de Conservação mundial começou a considerar a possibilidade de
ter uma sexta categoria na classificação internacional e essa consideração se deu exatamente
em Caracas, em 1992, com o Congresso Mundial na época chamava Parques Nacionais e
Outras Áreas Protegidas. E depois isso se oficializou numa assembléia da UCN em Buenos
Aires, ou seja, a influência de tudo acontecendo na América do Sul. Então, esse contexto da
aliança também é histórico. E acho que o que está acontecendo hoje é que eu acho RDS uma
coisa fundamental da gente discutir, mas RESEX muito mais importante. A RDS é estratégica no
seguinte sentido, é uma coisa mal definida, mas RESEX tem história, RESEX tem movimento
social e hoje nós estamos no risco de justamente perder esse conceito que foi gerado na medida
que a gente vai, às vezes, para o embate político que leva a coisa do: “Não, eu sou seringueiro,
eu sei o que faço”; “Eu sou movimento organizado, ninguém aqui tasca”. Então, essa aliança
está correndo o risco de dançar e aí acho que dança a lógica justamente dessa linda fusão de
que não é preciso separar sociedade de natureza. E, aproveitando esse ensejo, queria
concordar integralmente com a outra parte que você falou, o que a gente tinha que proteger nas
Unidades de Conservação, o que a gente tem que proteger, e não tinha, é a natureza e a
natureza não somente vista do ponto de vista da ciência biológica. Então, me corrijo, me
penitencio e concordo plenamente com você. O que a gente tem que proteger como objetivo do

187
Sistema de Unidades de Conservação é a natureza vista inclusive sob ótica da diversidade
cultural. Diferentes formas de ver a natureza e valorar é que têm que estar incorporadas porque
se eu acho que aquele monte é importante ou aquele rio tem uma função na minha reprodução
sociocultural, ele tem tanto valor quanto uma análise de que a ictiofarma dali é diferenciada ou
endêmica. Obrigado.

O SR. HENYO BARRETO (IEB - Brasília) – Era só para dizer o seguinte, concordo, acho que é
uma aliança, alianças se renovam, se repactuam, porque são históricas, e elas se ampliam.
Nesse sentido, eu acho que a gente tem que olhar para um outro órgão federal que vai ter uma
parcela, está tendo uma parcela de responsabilidade muito importante e pode vir a ter mais,
dependendo das alianças, com manutenção de cobertura florestal e, portanto, potencial de
manutenção da biodiversidade, que é o INCRA. Eu acho que a gente tem que começar a pensar
em novos aliados.
A SRª. LÍGIA SIMONIAN (UFPA) – Só queria enfatizar essa questão das áreas degradadas
porque grande parte das Unidades de Conservação estão com problemas sérios nesse sentido e
não só RDSs, mas outras unidades e eu acho que Iratapuru é um pouco aparte porque está
relativamente bem conservada e, mesmo assim, para nossa surpresa, as áreas de ocupação são
significativas dentro da reserva. Nós conseguimos algumas fotos do RADAN ainda que deixam
bem claras. Hoje, claro, a imagem de satélite naquela região é pura nuvem, quase não se pode
utilizar, às vezes cria problema, uma falsa visão de que ali é tudo floresta, tem áreas de
campinas grandes lá dentro que era de criação de gado dos primeiros ocupantes da região.
Então, eu acho que essa é uma questão. Acabo de vir do Parque da Serra das Andorinhas e da
APA, está completamente queimada. Então, são questões que têm sítios arqueológicos e
paisagísticos, como cachoeiras e etc., que é uma questão urgente de se repensar, o que fazer
nessa área. Então, esse foi um ponto que foi levantado. Eu queria juntar, rapidamente, com a
questão do búfalo. O búfalo também tem uma história de lutas na Amazônia. No baixo
Amazonas, há pouco tempo, os pescadores, principalmente o pessoal das áreas de reserva de
lago, se contrapuseram à EMBRAPA, inclusive chamaram as autoridades federais lá e pediram
para que sustasse o processo de expansão porque o búfalo é um destruidor dos criatórios de
peixe. Não sou contra se alguém quiser criar, mas que tenha um estudo, que aa ciência
acompanhe esse processo para que não ocorra o que está ocorrendo no baixo Amazonas, que é
um problema sério, temos uma disputa grande com a EMBRAPA, nós na Adunaia com a
EMBrAPA, porque a EMBRAPA defende, levou até para RESEX lá de Rondônia, levou, sem
estudo prévio nenhum. Esse que é o problema, não é a criação em si, mas o fato de você não ter
um acompanhamento de pesquisas científicas e tudo para, se for o caso, viabilizar isso. E
também pelos conflitos que o búfalo está criando, já é histórico, mas hoje aparece mais na
RESEX de Soure que é um caso seríssimo aparte que também o IBAMA não tem enfrentado a
questão fundiária lá e da destruição dos recursos naturais. Bom, tem mais coisa, mas depois a
gente vai retomando.

O SR. MARCOS ROBERTO PINHEIRO (WWF-Brasil) – A minha sugestão é que o ponto quatro
e cinco sejam os primeiros e não estar no meio, sejam as duas primeiras referências.

O SR. FERNANDO VASCONCELOS DE ARAÚJO (WWF-Brasil) – Passamos para o cinco


agora, oficialmente, ou está esgotado? O que vocês acham? O cinco diz o seguinte: “Existência
de área com importância ecológica e ocorrência de biodiversidade significativa para preservação,
com possibilidade de sua demarcação como zona de proteção integral”. Tem alguns aspectos
aqui sobre ocorrência de biodiversidade que foram tratados aqui. Agora, a segunda sentença
não. Está aberto o debate.

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O SR. CLÁUDIO C. MARETTI (WWF-Brasil) - Zona de produção integral faz parte da lei. Então,
não tem opção. Eu acho que todo o debate que a gente fez sobre a importância ecológica vale
aí.

O SR. FERNANDO VASCONCELOS DE ARAÚJO (WWF-Brasil) – Item seis. “Realização de


consultas públicas para a criação de RDS específicas para os usuários residentes no interior ou
entorno imediato, da área a ser protegida, assim como consultas públicas mais amplas,
envolvendo todos os segmentos interessados, notadamente os órgãos públicos responsáveis
pelas estruturas e serviços sociais. Para ambos os casos as consultas públicas devem se
constituir em processos (levantamento de informações, esclarecimento sobre as causas e
conseqüências, estabelecimento de vias de comunicação e negociação, diminuição de conflitos
de interesses)”.

O SR. HENYO BARRETO (IEB - Brasília) – Porque a Doutora Sônia levantou uma questão, na
hora que estava no debate que é importante, ela fez uma distinção entre consulta e audiência,
fazendo a diferenciação em termos de que as audiências estão previstas como parte do
processo de licenciamento, disposições normativas, ligadas à avaliação de impacto ambiental,
ao passo que como em tese a criação de uma RDS é uma iniciativa do bem, de proteção, o
aspecto consultivo não implicava uma interferência no processo de criação. Eu acho que aí tem
um nó importante, tem uma discussão, não sei se o André vai querer levantar essas filigranas
conceituais entre anuência, consentimento, consulta que é uma discussão que perpassa toda a
questão ligada a acesso a conhecimento tradicional associado à biodiversidade, mas que vai
rebater nesse tipo de questão. Eu acho que o que é importante talvez não definir aqui, não sei se
no decreto de regulamentação, mas se essas consultas são consultas só.

A SRª. RAQUEL CARVALHO DE LIMA (Conservação Internacional) - Só porque ali as


consultas públicas devem se constituir em processos. Na verdade, esse levantamento de
informações, esclarecimentos, etc. e etc. eu entendo que é um processo anterior à consulta que
é a formatação do estudo de criação. Então, eu acho que na verdade, a formatação do estudo de
criação é uma coisa e a consulta seria outra.

O SR. FRANCISCO ADEMAR DA SILVA (Secretaria de Estado do Meio Ambiente e


Desenvolvimento Sustentável - SDS/AM)) - Vou atualizar a senhora das coisas. A leitura que a
gente fez, inclusive fizemos uma reunião em Brasília, acho que 2 dias, acho que foi MMA,
CLÁUDIO Maretti acho que participou daquela primeira reunião, aonde se discutia sobre
consultas públicas. Então, foi publicado até um material e tal. Há muita interpretação, mas fica
mais para o pessoal que entende da questão jurídica, da lei. Mas o que a gente tem adotado, e
que tem se pensado, os procedimentos. Na medida que você vai conversando com as
comunidades, a comunidade pede uma criação, você chega lá, começa a conversar com a
comunidade, explica para ela que aquela categoria é assim, que aquela outra é tal, vai se
construindo um processo de consulta, de análise. Depois, faz reuniões com as prefeituras que o
município está envolvido, explica para o prefeito que vai haver uma criação de uma reserva, se
ele está de acordo e aí as reuniões e mais reuniões que vão construindo esse processo que eu
acho que é isso que eu o Renato e o pessoal construíram aí. Aí estou de acordo. O que acho
que a senhora poderia nos ajudar aqui é na questão de separar o que é consulta e audiência,
porque o que acontece? Nós fazemos uma reunião, no caso nós, do Estado do Amazonas, nós
fazemos todo esse procedimento, mas a gente fecha esse procedimento para fazer a publicação
com a reunião. Convoca todas as partes interessadas 30, 40 dias antes, e comunica que tal
lugar vai ter uma reunião para discutir a criação dessa unidade. E quando é chamado todo
mundo, se abre uma conversa de um dia ou dois dias, dependendo do assunto que se vai rolar e

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ali é apenas para esclarecer aonde está, limite, qual é o nome da reserva, se é nome em
homenagem a um ou a outro, se vai se discutir qual é a categoria e tal. É para todo mundo tirar
dúvida, é feito isso. São os procedimentos que se fazem no Estado da Amazonas e eu acho que
está um pouco dentro disso que vocês colocaram aí. Eu não estou nem discordando, estou
apenas fazendo um relato do que vocês fizeram aí é o que a gente está construindo no Estado
do Amazonas, aprendendo muito, levando muita trombada, mas até agora nós temos feito isso.
Não sei se esse procedimento precisa ser feita uma correção, e a senhora podia nos ajudar
porque nós vamos ter uma consulta semana que vem lá no Juruá.

A SRª. SÔNIA MARIA PEREIRA WIEDMANN (IBAMA) - Eu acho que está perfeitamente
correto, concordo perfeitamente com o que está escrito aí. O que eu tinha falado de manhã é
para a gente tomar cuidado porque muita gente fala que na criação de Unidade de Conservação
tem audiência pública, não é audiência, é consulta pública, com objetivo consultivo, da
construção de um procedimento que também não é um evento, é um procedimento, um
processo. E a diferença é que na audiência pública ela se dá para empreendimentos que têm
significativo impacto ambiental e essa audiência pode inclusive invalidar o empreendimento. Não
é o caso da consulta pública, como o próprio nome indica, ela é consultiva e está dentro
exatamente disso que está aí. Quer dizer, o procedimento, a construção de um processo, está
perfeito, ficou claro?

O SR. ANDRÉ RODOLFO LIMA (ISA) – Ficou claro, mas não quer dizer que não seja
controversa. Não é uma questão de filigrana, mas é porque audiência na verdade, é uma
espécie do gênero consulta. Você faz consulta por diferentes formas, uma delas é audiência e eu
acho que audiência é importante para a criação de uma RDS, com as ressalvas que foram
colocadas pelo Paulo Oliveira de manhã, eu queria ouvir melhor os argumentos dele para dizer o
porquê isso não foi resolvido no âmbito do CNPT, mas eu acho que a audiência pública é
importante para a criação de RDS, pelos motivos colocados aqui pelo Renato e pela Lucila. Vou
chegar na questão da controvérsia jurídica em relação ao nome “audiência”, mas as populações
vão se obrigar com o compromisso em relação a essa unidade. Esta unidade, teoricamente, está
sendo criada para beneficiar essa população. Então, eu acho que a audiência é uma das
formalidades que têm que acontecer. Aí é uma questão de entendimento pessoal meu, eu não
entendo que audiência seja uma prerrogativa do processo de licenciamento ambiental. Audiência
de licenciamento ambiental é audiência de licenciamento ambiental e está regulada pela
resolução do CONAMA, ponto e vírgula. Audiência no âmbito do processo de consulta pública
para a criação de uma Unidade de Conservação não é a audiência de processo de licenciamento
ambiental, não vejo nenhum problema em relação a isso e, ainda que fosse, a audiência de
licenciamento ambiental não é deliberativa também, a única diferença é que tem uma
regulamento, uma regra, tem que ser 45 dias de antecedência e tal, formalidades que não
necessariamente têm que acontecer para a criação de uma Unidade de Conservação. Então, se
é para evitar o problema, que se pense num outro nome, mas a presença física da equipe que
está fazendo os estudos, a apresentação, o rito, um ritual da comunidade, inclusive debatendo
entre si junto com o órgão, eu acho que é importante isso, porque existe a tática do dividir para
governar e eu acho que audiência é importante até para evitar esse tipo de coisa. Bom, essa é
uma questão e eu queria ir além, veja bem, a lei do SNUC diz o seguinte, “na criação de estação
ecológica e reserva biológica, não é obrigatória a consulta”, mas ela pode acontecer, não é isso?
Isso significa que inclusive o decreto que as regulamenta pode dizer que poderá haver consultas
públicas. O que eu quero dizer com isso? Eu quero dizer, portanto, que é possível que a
regulamentação preveja outros elementos que não necessariamente estão explícitos na lei para
a questão da consulta. E onde eu quero chegar? Eu quero chegar na seguinte questão, para
mim esse é um dos maiores absurdos da lei do SNUC, se prever a idéia de consulta pública e

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não se fala que um dos assuntos, o assunto talvez seja qual é a categoria pertinente. Mas veja
bem, é que se vai se criar ou não, já entra naquela história de acirrar o conflito aos limites, mas
também. Não existe uma audiência pública, ou uma consulta pública que se faça acerca de
criação de Unidade de Conservação que não se entre na discussão de qual a categoria mais
pertinente, principalmente se há uma categoria que envolve populações. Então, eu acho,
evidentemente que haverá coro contrário, mas que aqui nós temos que ousar e sugerir que as
consultas públicas sobre RDS envolvam a informação mais ampla possível sobre categorias
similares e que isso possa ser submetido à apreciação, e não é deliberação, que fique claro, da
população diretamente envolvida, afetada, beneficiada e etc.

O SR. RENATO R. SALES – Raquel, você falou que os estudos são realizados no processo de
criação, não no processo de consulta pública. Eu acho que consulta pública faz parte do
processo de criação, inclusive pegando um pouco...

A SRª. RAQUEL CARVALHO DE LIMA (Conservação Internacional) – Faz parte, mas só para
explicar melhor. O que acontece? Como, em geral, tem sido feito o processo no Estado do
Amazonas, você tem a realização dos estudos, isso inclui não só a parte dos inventários rápidos,
a parte de diagnóstico fundiário, um mapeamento institucional, enfim, documentos que embasem
e que direcionem, por exemplo, essa definição do que poderia ser a categoria e etc. Você tem aí
o processo de apresentação desses resultados que, no que tem sido feito, seria no momento da
consulta pública. E nesse intervalo de tempo entre você coletar essas informações e fazer essa
consulta pública, você tem um processo que chama de sensibilização que é divulgar essas
informações junto às comunidades e aí, no caso, a consulta pública seria um momento mais
amplo.

O SR. RENATO R. SALES – Entendo, e é nesse momento que você tem esse contato mais
direto, até trocando informações com a comunidade, que vão surgir lacunas de conhecimento
que você vai ter que complementar os estudos. É isso que a gente está querendo colocar aqui.
Então, esse levantamento de informações é um detalhamento sobre a questão fundiária que
você só vai conseguir na hora que se estiver discutindo de maneira um pouco mais efetiva com a
população, é um estudo sobre determinada espécie que se começou a perceber que está mais
ameaçada porque teve a informação dos moradores, enfim, esses estudos são complementares
aos estudos de criação. Só encerrando, concordo plenamente com o André que eu acho um
absurdo mesmo que não se discuta a categoria e até mesmo o fato de se criar ou não a unidade,
é uma visão um pouco mais radical do Henyo, mas concordo que deveria haver isso sim, sem
dúvida nenhuma. O motivo para ir isso, para a gente tentar fazer de maneira tão detalhada esse
critério é porque, volto a dizer, embora esteja sendo usado mais recorrentemente para proteção
integral, esse procedimento de você fazer uma reunião pública, duas reuniões públicas como se
fosse a consulta pública está se dando também no caso de ResEx e RDS.

A SRª. LUCILA PINSARD VINNA (Consultora) – Na verdade, nós estamos chamando consulta
pública todo esse processo de levantamento dos dados, de sensibilização. Quer dizer, não só o
momento da reunião, como geralmente é encarado.

O SR. HENYO BARRETO (IEB - Brasília) – Pedido de esclarecimento, se vocês entendem


também o item sete, que é a coisa do abaixo assinado com adesão de maioria simples dos
moradores maiores de idade e tal, como parte desse processo?

A SRª. LUCILA PINSARD VINNA (Consultora) - Sim.

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A SRª. SÔNIA MARIA PEREIRA WIEDMANN (IBAMA) – Só para dizer que não sei se seria
conveniente acrescentar aqui, por exemplo, a memória dessas consultas porque isso é que dá a
legalidade para elas. Por exemplo, as atas, as gravações, o registro fotográfico. Eu acho que
isso aí seria interessante de colocar já que nós estamos falando num processo que vai ter uma
legalidade. E essa materialização dele, nesse instrumentos todos que talvez, pelo menos o que a
gente tem feito é isso, procurar materializar ao máximo as consultas, através de registros, os
mais fiéis possíveis.

O SR. CLÁUDIO C. MARETTI (WWF-Brasil) – Dois comentários completamente distintos. Um é


que teoricamente, do ponto de vista político, eu sempre defendi consulta mais ampla, o processo
de construção, a negociação, comunicação no duplo sentido etc. e tal. Do ponto de vista prático,
a gente está próximo da gestão, muitas vezes a gente tem que ser rápido, porque senão o dano
pode ser significativo para os grupos sociais. Não sei, eu acho que entre o ideal e acho que
aquele evento que o Ademar se referiu, foi muito importante, foram três dias de debate, liderado
pelo Ministério e está publicado pelo Ministério, diretrizes para conselhos de gestão, mas,
sobretudo, a discussão mais de conselho de gestão e consulta pública, ali tem um monte de
diretrizes que podem ser aproveitadas como diretrizes. O que vai ser obrigatório fazer eu acho
que é uma outra questão porque aí tem os riscos também. Esse debate diminuiu com a alteração
do SNUC que incluiu a ALAP, a Área de Limitação Administrativa Provisória. Bom, esse é um
ponto. Segundo ponto é o seguinte, pelo que nós estamos falando, porque você teoricamente
tem um instrumento legal para interditar temporariamente a área enquanto você faz um processo
de negociação. Você congela antes da criação. Então, você tem tempo de fazer, teoricamente,
legalmente, você tem o tempo de fazer a negociação e não se submeter a haver o processo de
degradação enquanto está negociando. Bom, o outro ponto é o seguinte, se a consulta pública
vai discutir criação ou não e qual é a categoria, consulta pública não deve ser regulamentado
para cada categoria. O que diferencia claramente é o caso da ResEx, que obriga a manifestação
prévia. Então, eu acho que, na verdade, a gente pode discutir as diretrizes todas, mas o que a
gente tem que discutir aqui é se a gente acha que no caso da RDS também tem que ter uma
manifestação formal, escrita, prévia à criação ou se na RDS, pode ser um processo de consulta
pública como é esperado que ocorra no Parque Nacional, num monumento nacional, até numa
APA. Eu acho que é interessante, mas não devia ser obrigatório o abaixo assinado.

A SRª. LUCILA PINSARD VINNA (Consultora) – No item sete a gente discute exatamente isso.
CLÁUDIO, essa história de obrigatoriedade de abaixo assinado da RESEX caiu no SNUC.

O SR. RENATO R. SALES – Não só as comunidades, mas também os órgãos executores. Mas
isso fazia parte de uma portaria do IBAMA que não foi contemplado no SNUC, nem para RDS
nem para RESEX tem essa obrigatoriedade.

O SR. LUIZ CARLOS PINAGÉ (FUNBIO) – É só um testemunho de uma situação esdrúxula que
eu vi numa reunião do ARPA em Belém, CLÁUDIO estava lá, em que o Gatão, que não está aqui
presente, ponderou, oficialmente, colocou oficialmente que os processos de criação de ResEx na
Terra do Meio, principalmente, estavam atropelando os interesses das comunidades, não
estavam sendo consultadas, as lideranças estavam sendo postas em cheque e criaria
problemas. Então, se isso ficar em aberto, se o Estado vier e propor sem uma aprovação formal,
a gente pode criar esse tipo de situação, é bem interessante. Veja bem, O CNES, o Atanagildo
reclamando que estava muito açodado e sem base o processo de criação.

O SR. CLÁUDIO C. MARETTI (WWF-Brasil) - Nesse caso eu acho que é briga política entre
grupos.

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O SR. ANDRÉ RODOLFO LIMA (ISA) – Eu entendo essa preocupação em relação à
oportunidade e agilidade de criação de Unidade de Conservação e concordo com você que de
fato a referência, a oportunidade de consulta para categoria de Unidade de Conservação deveria
se ampliar para outras, mas eu acho que se houver oportunidade no âmbito de uma discussão
para RDS é importante que isso se explicite na regulamentação porque isso coloca para o
interessado, para a população beneficiária, um direito de que o Estado lhe forneça uma
informação completa. Quer dizer, eu fico imaginando aqui o seguinte: “Ou é RDS ou é nada, tá?”
“Como assim, nada? Nós só queremos criar RDS”. “Ou é RDS ou é nada”. “Como assim? Não
tem outra alternativa? Quais são as outras alternativas viáveis?” “É nada”. Eu acho que é por
isso que no caso da RDS, por ter um envolvimento direto maior da população, inclusive
obrigatório, essa discussão tem que ser feita.

O SR. RENATO R. SALES – Só concordando, Henyo, me desculpe, só concordando com o


André, nesse caso, especificamente, ainda é mais complicado porque tem ResEx e RDS. Em
alguns casos, o Ademar não está, mas poderia até confirmar, em alguns estados existe uma
disputa, até amigável, entre Governo e movimentos sociais para ver se cria uma ResEx ou uma
RDS porque um puxa... Entre Governo Federal e estadual e a população fica no meio dessa
disputa política entre os grupos e é fundamental que ela tenha conhecimento inclusive desses
interesses de cada uma das partes envolvidas.

O SR. HENYO BARRETO (IEB - Brasília) – Pegando esse gancho que o André deu, ou é RDS
ou é nada, você pode pensar no modelo polar, ou é isso ou aquilo, ou você pode pensar no
modelo do contínuo. Então, você tem a RDS aqui e você tem o nada aqui. Ou seja, entre o nada
e a RDS, você pode construir possibilidades, eu acho que é isso que o André está querendo
preservar na sugestão dele e, nesse sentido, eu endosso e não só endosso, por isso eu acho
que o nada tem que estar lá, por quê? Porque se houver uma sinalização clara, o Governo, o
gestor tem que analisar o ônus político e é muito importante para ele ter essa sinalização. Ainda
que ele decida atropelar, que é um direito que ele tem, como gestor, pela avaliação que ele tem,
inclusive do quadro, é muito importante ele ter uma sinalização clara dos ânimos, das volições,
dos interesses dos grupos que podem ser afetados por essa decisão.

O SR. FERNANDO VASCONCELOS DE ARAÚJO (WWF-Brasil) – Com isso a gente está


encerrando o item seis e passando para o item sete.

A SRª. SÔNIA MARIA PEREIRA WIEDMANN (IBAMA) – Foi elaborado uma cartilha do
IMAFLORA com o IBAMA, com a participação de outras organizações não governamentais
sobre a consulta pública porque não existe uma lei específica, mas essa cartilha dá um norte
para como a gente fazer da melhor forma e isso tudo que está sendo falado aqui são
procedimentos que são contidos nessa cartilha. Quer dizer, a consulta pública não é tão fechada,
não é tão autocrática assim. Tem essas interfaces todas. Seria interessante ter essa cartilha
para a gente trabalhar melhor depois na regulamentação disso.

O SR. FERNANDO VASCONCELOS DE ARAÚJO (WWF-Brasil) – Número sete.


Encaminhamento de abaixo assinado com a adesão de, pelo menos, a maioria simples dos
moradores maiores de idade da área do interior da futura RDS contendo: solicitação para a
criação da Unidade de Conservação, ciência sobre as causas e conseqüências relacionadas à
criação da reserva; comprometimento preliminar em assumir responsabilidades e compromissos
inerentes à gestão da área.

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A SRª. SÔNIA MARIA PEREIRA WIEDMANN (IBAMA) – Eu realmente acho que isso aí, o sete,
com todo respeito aos consultores, mas isso aí podia ser excluído porque não tem nenhum
amparo legal, nem social, acho que não tem porque manter isso aí, se não está escrito, não tem
uma previsão dessa obrigatoriedade em lugar nenhum da legislação. Nós não podemos criar
num decreto uma coisa que não tem lei nem Constituição que prevê isso aí.

O SR. RENATO R. SALES – Eu acho que não se trata de ler o comentário. Você chegou a ler o
comentário? A gente tem que pedir desculpas por não ter sido mandado antes para vocês, mas,
em todo caso... Isso está baseado nos procedimentos utilizados pelo CNPT antes do SNUC. Eu
acho que ter uma função, fazendo parte do processo, como ele colocou, fazendo parte do
processo, eu acho que RDS, também como tem gente morando dentro e como vai afetar, de
alguma forma, para melhor ou para pior a vida dessas pessoas, como a lei do SNUC fala que
essas populações se obrigam a defender, a conservar, a preservar a área, se obrigam, é
fundamental que essas populações se manifestem formalmente que estão interessadas na
criação da Unidade de Conservação. Existem vários exemplos de unidades que foram criadas ou
porque o processo de consulta pública foi feito de maneira muito rápida ou então porque as
pessoas não chegaram a entender mesmo do que se tratava e quando foi criada a unidade,
inclusive RESEX, foi o maior reboliço entre a população, foi a maior confusão porque quando se
dão conta do que se trata, quais são as conseqüências, quais são as responsabilidades que têm,
começa até a haver uma revolta, eles se acham ludibriados. Então, de alguma forma, para que
as normas específicas que vão constar no Pano de Manejo, que vão constar no Zoneamento, é
importante, para que elas sejam cumpridas, que já haja um comprometimento anterior,
preliminar, mas que já haja. E não acho, quer dizer, que em termos sociais isso não tem
validade, tem sim. Isso quer dizer que de alguma forma esse processo de consulta foi realizado,
as pessoas estão inteiradas do que se trata, porque foi criada, ou vai ser criada, quais as
conseqüências da criação, e possam dar uma resposta sim ao órgão gestor, dizendo: “A gente
está afim mesmo, a gente quer”.

O SR. ANDRÉ RODOLFO LIMA (ISA) – Eu estou entendendo perfeitamente a preocupação do


Renato e concordo com a sua preocupação, até porque na prática, se não houver uma
sinalização positiva, formal ou não, a RDS não vai operar como supostamente foi prevista. E
acho que esse tipo de requisito passa a ser até uma condicionante, esse tipo de requisito prévio
à criação da RESEX, não vejo, eu sei que a Doutora Sônia já se antecipou dizendo que não
poderia ser. Eu respeito, mas entendo diferente até porque na RESEX também foi instituído por
força de instrução normativa, por força de decreto e não por força de lei a necessidade do tal
abaixo assinado. Então, o problema não seria esse. O problema é que você vincular a criação de
uma RDS a essa formalidade você está, na verdade, dando o poder de decidir pela criação ou
não à população plenamente e você retirou do Estado o direito que ele tem, constitucional, de
criar a Unidade de Conservação, inclusive se a população não quiser, porque a população local
pode até não querer, a princípio. Mas é isso, é o que o Henyo colocou. O Estado tem o direito de
saber e a população tem o direito de ser ouvida, agora, não foi dada à população, não é o que
eu quero ou não, quer dizer, pela lei, não está dada à população o direito de vetar a criação de
Unidade de Conservação porque se fosse dado, a consulta seria deliberativa. Não precisa de
abaixo assinado, basta perguntar ou não. Se ela disser que não, não está criado. É uma maneira
diferente de você... Então, o que eu acho é que esse critério não é que não dá para estabelecer
por decreto, esse critério é um critério que contraria a estrutura jurídica de criação de Unidade de
Conservação tanto porque o Estado pode sim criar, eu não gosto disso, não sou favorável à
criação contra a população neste caso, mas eu acho que isso está na lei, o Estado pode criar e,
ao fazer isso, você criou, por decreto, um obstáculo para a criação de uma Unidade de
Conservação, contrariando a lei e até mesmo a Constituição. Não é porque você não pode

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estabelecer isso por decreto, é porque, por decreto, você está contrariando a lei e a constituição.
Então, seria desejável, mas, no mínimo, questionado juridicamente.

O SR. RENATO R. SALES – Então André, mas se as pessoas não querem morar numa Unidade
de Conservação, cabe ao Estado desapropriar. Mas daí, aquele modelo, você está partindo
daquele pressuposto de “parque com gente” que você não resolve muito bem as coisas e deixa
lá a população e acabou. Mas é complicado porque se é de uso sustentável, pressupõe que tem
população morando, que tem população que se interessa pela conservação, que interessa
continuar na área e melhorar a qualidade de vida. Como Isabel falou, então cria uma outra
Unidade de Conservação.

O SR. ANDRÉ RODOLFO LIMA (ISA) – Eu entendo que o Poder Público só poderia criar uma
Unidade de Conservação com a anuência da comunidade. Não sei se maioria simples, porque aí
depende de quem é o voto de minerva na história, eu concordo com isso, só acho que, do ponto
de vista jurídico, isso aí é questionável, do ponto de vista da estrutura, por vários fatores, o mais
óbvio deles é esse, a consulta não é deliberativa e, o fazer isso, você quebrou esse princípio,
você deu o poder deliberativo à comunidade, retirando do Estado.

A SRª. RAQUEL CARVALHO DE LIMA (Conservação Internacional) – Eu só queria falar duas


coisas, a primeira é a seguinte. O aceitar ou não aceitar a criação de uma Unidade de
Conservação por uma população que está num lugar depende muito do grau de informação que
ela tem a respeito dessa, do que vem a ser Unidade de Conservação. Então, na verdade, se
você não tem esse trabalho de informar as pessoas, sensibilizar, seja lá como você quiser
chamar, realmente você pode chegar num momento e submeter as pessoas a uma consulta, a
um abaixo assinado e as pessoas falarem: “Não, a gente é contra”, mas não necessariamente
porque as pessoas têm uma opinião formada, e sim porque elas têm uma experiência negativa e
isso ficou gravado e a gente tem vários exemplos desse tipo de situação.

O SR. RENATO R. SALES – Para responder rapidinho. O Henyo perguntou e eu respondi que
esse procedimento faria parte do processo de consulta pública. Ele estaria bastante relacionado
a essa prestação de informação, troca de informações, negociações e etc.

A SRª. RAQUEL CARVALHO DE LIMA (Conservação Internacional) - É porque na verdade


eu acho que a gente está discutindo os temas e acho que os comentários não devem ser
encarados como uma crítica ao documento. Eu acho que a gente foi chamado para fazer várias
sugestões. A outra coisa que eu queria falar é que esse envolvimento e esse comprometimento
realmente são um processo que ocorre dentro de uma escala de tempo, não é em um ano, dois
anos, porque se você for imaginar, eu já fiz estudos de criação e trabalhei com criação de
Unidades de Conservação com pouco de tempo e até o primeiro contato com que vocês têm
com as pessoas, elas nem te conhecem, elas não sabem o que você está falando. As pessoas
que têm muita experiência, que já trabalham há anos, como o Marcos, sabem que você pode
chegar depois de cinco anos numa área e ter que começar o processo basicamente do zero, de
informar, de dizer o que é uma Unidade de Conservação, e isso, pelo menos eu encaro como
uma coisa normal. Para nós que convivemos com esses termos, com essa legislação, com esse
universo, é tudo muito simples, mas para a maioria das pessoas não é. Então, esse
comprometimento e envolvimento com certeza não vai acontecer no momento que se cria a
reserva. Pode acontecer, no caso das ResEx, quando você já tem um histórico de trabalho, por
exemplo CPT, CNS sim, mas na maior parte das áreas, onde você não tem essas entidades
atuando mais de perto, esse envolvimento só vai acontecer com o passar do tempo mesmo.

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A SRª. SÔNIA MARIA PEREIRA WIEDMANN (IBAMA) - Eu só queria dizer, enfatizar a
importância do registro, primeiro de tudo eu li rapidinho, acho extremamente relevante tudo o
que foi escrito aqui, como realmente a lei do SNUC, em algum lugar, ela enseja esse
comprometimento da população, mas eu não vejo isso, eu continuo insistindo naquilo que eu
falei, como uma condicionante para a criação, do ponto de vista legal. Nós não podemos inventar
isso porque não está na lei. Agora, daí eu enfatizar a importância do registro da consulta pública
onde, de alguma forma, isso vai estar escrito lá nos registros, nas atas, nas gravações, no
registro fotográfico e tudo. Porque realmente eu acho que isso aí é uma parte da consulta
pública e nessa cartilha fala muito disso, mas não como uma condicionante separada para a
criação.

O SR. CLÁUDIO C. MARETTI (WWF-Brasil) - Parte do que eu ia dizer está aí, eu acho que
diretrizes para a consulta pública qualquer categoria deveria ter consulta pública, inclusive as
que não são obrigatório por lei. Eu volto a defender que existem diretrizes já sugeridas nesses
dois documentos que foram aqui referidos, tem esse do IBAMA com o IMAZON e IMAFLORA,
tem o Ministério do Meio Ambiente, com o FUNBIO, WWF-Brasil, TNC e outros, são diretrizes
como o processo deve ser feito. Na medida que eu considero que tem que deixar o espaço
aberto para a RDS poder ser criada numa situação onde a comunidade não está super-
organizada, aí é onde eu acho que essa formalização fecharia esse espaço, na obrigatoriedade
do abaixo assinado.

O SR. HENYO BARRETO (IEB - Brasília) – Queria começar com o exemplo que o Pinagé deu e
polemizar fraternalmente com o Maretti, quando o Pinagé falou sobre a posição do Gatão lá
naquela reunião. A CPT é uma pastoral social da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, ela
não é movimento social. Pode parecer, aos nossos olhos, movimento social, ela pode recrutar
pessoas do movimento social para os seus quadros, mas ela é um instituto de promoção
humana e social, o companheiro Tarcísio está até em Brasília hoje, sabe da minha opinião a
respeito disso, mas não necessariamente se confunde com. É disputa entre grupos políticos?
Certamente é disputa entre grupos políticos, não tenho dúvida. Mas, de todo modo, eu acho que
no que concerne à observação do Gatão e a rebatimentos de modo como as coisas chegam ao
conhecimento de outras coisas, nós podemos interpretar que estamos vivendo um momento
bastante inusitado de criação de ResEx top down, ResEx com gente dentro, só para fazer uma
brincadeira porque mesmo no contexto de criação de algumas dessas ResEx, o processo foi,
digamos assim, para usar de um eufemismo, sinuoso, como os rios da Amazônia, meândricos. A
gente sabe, enfim, detalhes dessa história, mas isso tem a ver exatamente com essa questão
aqui. Quando eu tinha lido isso aqui, por isso que eu te perguntei aquilo, eu estava entendendo
que esse “abaixo assinado” seria a tradução de uma manifestação escrita, poderia não ser um
abaixado assinado, mas uma manifestação escrita, expressamente manifestada dos usuários
com relação a isso. Então, se for esse o entendimento, tudo bem. Agora, acho que todos aquela
solicitação para criação, ciência das causa e conseqüências, está me parecendo, André, me
corrija se eu estiver errado, as disposições do CONEP, Conselho Nacional de Ética de Pesquisa,
sobre consentimento prévio e informado. Se o cara diz que você pode fazer pesquisa, que tem
conseqüência dos riscos a que ele está submetido com o desenvolvimento da pesquisa, etc. e
tal. Eu não sei se chegar a esse nível de detalhamento, eu acho que se a gente pudesse dizer
que é uma manifestação escrita, manifestação expressa por escrito, ainda que de forma geral,
interessante e acho muito difícil, considerando a complexidade dos cenários locais, imaginar que
a gente vai ter condições de calcular o que seria uma maioria simples dos moradores maiores de
idade da área do interior da futura RDS, até porque você tem, do ponto de vista etário, você tem
chefes de família com filhos que “não são maiores de idade”, pelos critérios formais. Então, tem
uma série de questões que eu acho... Se a gente conseguisse traduzir isso em termos mais

196
gerais, uma manifestação expressa por escrito, resultante do processo de audiência pública
como diretriz pro órgão gestor, tudo bem. Agora, com esse nível de detalhamento eu acho
complexo.

A SRª. LÍGIA SIMONIAN (UFPA) – É mais ou menos nesse sentido e pensando um pouco o que
foi uma experiência que eu coordenei um processo de criação de uma ResEx e a questão da
qualidade da informação. A gente fala muito que a população tem que ter a informação. Eu acho
que a qualidade da informação, quem é que repassa essa informação. Tudo isso tem influência
no processo. Então, eu acho que isso aí é uma questão séria para a gente levar em
consideração. E a outra questão é, por exemplo, a própria comunidade pode tomar essa
decisão, se ela está relativamente bem informada, ela pode. No caso dessa ResEx, a
comunidade decidiu fazer o abaixo assinado, decidiu que quem tinha título de eleitor, os jovens
também podiam assinar porque a prefeitura é contra, a deputada estadual da região é irmã do
prefeito e é contra, os vereadores todos são contra, eles dizem: “Nós temos que dizer que nós
queremos”. Bom, depois houve também a questão dos outros órgãos, aquela discussão anterior,
governo do Estado e etc. No Pará isso é um caos, vocês sabem disso, não preciso dizer. O
Governo do Estado contra, a prefeitura contra, tem que ter uma contraposição, qual é a
contraposição? Se a comunidade está bem informada, ela pode. E para dizer que a gente
desenvolveu uma metodologia, utilizando várias experiências com relação à produção desse
material, desse processo de produção de informação para constituir o processo e que
oportunamente a gente pode até discutir, certamente não é perfeita, mas eu acho que a gente
avançou em muitos pontos para como fazer esse processo todo andar e não aceitando as
orientações dos alemães, daquela coisa rápida, participativa que realmente aquilo ali, para o
meu entendimento, é conversa para boi dormir. Eu não aceito aquilo, a gente fez pesquisa
básica na área socioeconômica, ecológica para subsidiar de modo mais concreto, não só a
comunidade, mas os demais envolvidos no processo.

O SR. FERNANDO VASCONCELOS DE ARAÚJO (WWF-Brasil) - Passamos para o item oito.


Delimitação da área, no processo de consulta pública, considerando para a zona de uso
antrópico, ou uso sustentável, (conforme a lei do SNUC) uma estimativa preliminar da proporção
entre o número de famílias usuárias e o espaço necessário para a sua reprodução sociocultural
e melhoria da qualidade de vida, assim como para viabilização da efetiva participação dos
usuários na gestão, administração, monitoramento, controle da Unidade de Conservação.

O SR. HENYO BARRETO (IEB - Brasília) – Eu queria ressaltar quatro pontos dessa referência
aqui que, juntos, fazem dela um baita de um desafio. O primeiro tem a ver com aquele primeiro
termo, “delimitação da área”. O segundo, que essa delimitação se dá no processo de consulta
pública. Terceiro, que ao se dar no processo de consulta pública, ela considera, aí vou ler
integral: “uma estimativa preliminar da proporção entre o número de famílias usuárias e o espaço
necessário para a sua reprodução sociocultural e melhoria da qualidade de e viabilização da
efetiva participação e tal”. E, por último, que isso se limita à zona de uso antrópico. Quer dizer,
como é que você vai fazer uma definição da área no processo de consulta pública, se, em tese,
essa zona de uso antrópico estaria previamente definida, e mais, que ela teria sido precedida de
uma estimativa que é muito similar, pelo menos no modo como está redigido aqui, não vou dizer
que ela é muito similar nos seus desdobramentos, não sei como isso se daria, tenho uma idéia
aproximada porque do modo como está fraseado lembra muito a definição de uma terra
tradicionalmente ocupada pelos índios no procedimento de identificação. O que se cobra em
termos muito gerais e truculentos, estou simplificando, mas o que se cobra num processo de
identificação de terra indígena é o que? É que o grupo técnico que vai lá identificar a área estime
o que seria uma base territorial de recursos naturais que assegurasse a reprodução física e

197
cultural, indefinidamente no tempo, daquele povo específico que ali habita, que ali reside, etc. e
tal, e que é preliminar inclusive porque vai para a FUNAI, a FUNAI devolve para p antropólogo
coordenador do GT, tem ida e volta e etc. Então, dá a entender que vai haver um procedimento
prévio de identificação de um espaço de vida qualquer, que é o espaço desse grupo aqui, desse
povo, que essa identificação está limitada a uma zona que não se sabe ainda qual é, porque a
área não foi delimitada, vai ser no processo de consulta pública. Então, do modo que está
fraseado, apresenta algumas ambigüidades. E eu acho que um modo, não o único, mas um
modo possível de começar a fazer uma adequação dessa ambigüidade é não considerar apenas
a zona de uso antrópico, é considerar a área potencial da RDS como um todo, por quê? Porque
você pode imaginar que a tal da zona de proteção integral resulte desse processo, assim como a
zona de uso antrópico. Não há como você dizer que vai, no processo de consulta pública,
delimitar a área, considerando a estimativa feita numa zona de uso antrópico que, a rigor, você
ainda não sabe qual é, como você também não sabe qual é a de proteção integral. Então, eu
queria salientar isso. Eu acho que tem uma coisa interessante, tem um enorme mercado de
trabalho aberto aqui para os antropólogos, para fazer estimativa de proporção entre usuários e
espaço para reprodução sociocultural, mas nem sei se é esse o caso, mas a turma do
geoprocessamento também, que tem trabalhado em parceria com gente, os engenheiros
agrimensores, mas eu queria expressar isso, não sei muito como traduzir, mas acho interessante
a idéia da delimitação da área surgir do processo de consulta pública. Agora, colocar a zona de
uso antrópico e a perspectiva quase de uma identificação de um território cultural nesse contexto
complexifica bastante o processo.

A SRª. ISABEL SOUSA (Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamiraua) – A minha


preocupação é a mesma do Henyo que delimitar essa área nesse processo de consulta pública
eu acho que não dá para fazer isso. Tenho experiência lá de Mamiraua que a área foi pensada e
quando foi decretada, o Governo decretou uma área bem maior e começaram os trabalhos de
mapeamento do uso tradicional e daí é que saiu qual é a área de uso sustentável e qual é a área
de preservação. Então, é uma etapa posterior que não dá para ser feita nesse processo de
consulta pública, requer estudos antropológicos, socioeconômicos, pesquisas que demoram um
tempo, que nesse processo de consulta pública não vai dar para fazer isso.

O SR. CLÁUDIO C. MARETTI (WWF-Brasil) – Então, primeiro, a gente tem que registrar e dar
como de barato, mas acho que vale a pena registrar que nem sempre se considera, por isso que
vale a pena registrar, que a gente está falando de uma área de uso mais amplo das
comunidades locais, que não é só área de moradia, não é só área de uso visível, que é
agricultura, mas que está falando também da área de extrativismo eventual, da área de
importância para a reprodução sociocultural. De certa forma, juridicamente tem o Benati
defendendo a chamada “posse agroecológica”, coisa do tipo, mas o fundamental, na verdade,
acho que é essa lógica da reprodução social, do grupo social que acho que isso tem que ser
registrado. Se você vai incluir dentro de uma Unidade de Conservação que o objetivo é proteção
da natureza, definida de várias formas, ao mesmo tempo que melhoria de qualidade de vida e
etc., essa lógica tem que estar registrada aí, mesmo que todos nós estejamos de acordo porque
não é isso que normalmente acontece. Eu queria puxar uma discussão que, para mim, é muito
importante para o futuro, a partir do debate que a gente teve antes. Qual é o modelo de RDS que
a gente está discutindo? Que foi o debate do fim da manhã. Se a gente parte daquela história de
que é uma espécie de reserva de uso múltiplo, um mosaico dentro de uma unidade só, são duas
unidades, aí a preocupação de que na área de uso sustentável também esteja garantida a
sustentabilidade ecológica, que é mais do que a sustentabilidade do uso. Bom, isso fica
minimizado pelas próprias considerações que o Henyo já fez, mas eu fiz questão de falar,
primeiro, para registrar o primeiro ponto e, segundo, a conseqüência disso que é o debate da

198
ResEx de novo. Eu temo pelo futuro das ResEx, e aquela história das alianças porque as ResEx
estão se transformando cada vez mais e mais somente num instrumento de resolução do
problema fundiário, perdendo a lógica do conceito proveniente da aliança. Então, a aliança tem
que ser repactuada, como você disse, no sentido de que dentro da ResEx tem que estar
entendido não só a sustentabilidade da atividade econômica, mas a sustentabilidade ecológica
daquela área, com outros parâmetros que não da sustentabilidade ecológica de uma área
intocada, mas essa discussão é importante, ou seja, a sustentabilidade ecológica de uma área
não é igual à sustentabilidade do uso, nós estamos falando de algo mais e acho que isso aí vale
a pena usar o caso desse debate, se isso tem que estar na área de uso sustentável, ou se a
zona de proteção integral da RDS supriria isso. Obrigado.

O SR. RENATO R. SALES – Henyo e Isabel, com relação à essa delimitação preliminar no
processo de consulta pública, de uma área que considere essa relação... Mas é no processo de
consulta pública. Então, envolve pesquisas muito aprofundadas, nem antropólogo, nem de
geoprocessamento, nem nada disso. Eu entendo consulta pública, principalmente para RDS,
como um fórum onde as informações das populações têm que ser levadas em consideração de
maneira bastante efetiva. Então, essa delimitação é pura informação dos moradores com algum
apoio, alguma ajuda de mapas, de cartas que possam ser utilizados, mas isso eu estou
confiando na declaração, na informação das populações. Então, não se trata de fazer estudo
como a FUNAI faz. Eu participei do processo de criação de uma Reserva Extrativista, que essa
delimitação de área foi feita assim mesmo, “que áreas que vocês usam hoje?” É claro que isso
demora um mês, mas pode ser feito nesse processo de consulta pública, “que áreas vocês
acham que vocês vão precisar futuramente, se aumentar o número de famílias?” “Se forem fazer
a criação de ostras ou outro recurso, que áreas vocês vão precisar?” “Que áreas vocês acham
que dá para fiscalizar, porque não adianta colocar a esteira de criação de ostras num lugar se
vocês não fiscalizam”. Enfim, são informações que você tira desta negociação, dessa troca de
informações com a população, é uma coisa rápida. Posteriormente você vai delimitar com mais
calma, etc. e tal. E a principal preocupação desse critério é porque o Estado do Amazonas, por
exemplo, Raquel, você trabalha com os Cujubins. Com os Cujubins são 2 milhões de hectares
para 67 famílias. Hoje está definido no SNUC que são essas famílias as responsáveis pela
proteção, pela defesa dessa área. Para mim é um absurdo. Como é que você pode imputar essa
responsabilidade para 67 famílias para cuidar de 2 milhões de hectares? Então, esse critério
aqui quer levar um pouco em consideração isso. E quando foi colocada essa questão da
delimitação da área, essa questão de participação dos usuários, administração, monitoramento,
fiscalização, aí é da Unidade de Conservação como um todo, não é só da zona de
amortecimento. Daí em seguida nós estamos sugerindo que essa fiscalização seja dos órgãos
competentes, dos agentes públicos e não dos moradores. A área de uso antrópico pode até ser
uma co-gestão na fiscalização, mas essa área de proteção total, você não pode imputar essa
responsabilidade aos moradores, às famílias.

A SRª. RAQUEL CARVALHO DE LIMA (Conservação Internacional) – Sobre os Cujubim,


acho que não é o momento, é outra situação, mas o que eu queria dizer é o seguinte, existem
sim ferramentas que podem ser usadas dentro de um tempo relativamente curto de atividades de
campo para se delimitar áreas de usos de comunidades, isso não é nada dramático, você tem o
mapeamento de uso dos recursos, você pode aliar a essas informações de mapeamento de uso
dos recursos, mapeamento de áreas de uso, com dados de densidade demográfica e você pode,
eu não trabalho com isso, mas eu sei que existem modelos onde você, aliando essas
informações, tem condição de estimar qual seria a área daqui a vinte, trinta anos, projetar isso
para o futuro. Então, não vejo nenhum tipo de drama nisso, na verdade. Agora, só fazendo mais
um comentário, eu acho que o que está criando talvez um pouco de confusão é que, eu volto a

199
lembrar, o estudo de criação é uma coisa, o processo de consulta é outra. Realmente, se você
usa o termo “consulta pública”, na cabeça da maior parte das pessoas vai vir uma atividade de
três dias. Mas o estudo de criação, você pode ter um tempo longo, um tempo de campo de 20
dias, 30 dias. Então, talvez fosse interessante para ficar um pouco mais claro.

O SR. RENATO R. SALES – Então, Raquel, quando a gente discutiu consulta pública a gente
reforçou muito esse conceito que consulta é um processo, a doutora Sônia falou de
procedimento, mas, enfim, é um tempo. Que na RDS Ponta do Tubarão, que eu acompanhei
esse processo, foram cinco anos que eles consideram de consulta pública. Aí é que está, as
pessoas que confundem consulta pública como audiências, reuniões públicas e outras formas de
oitiva. Na verdade, não está definido, conceitualmente, no SNUC o que é essa consulta pública.
Fala que as populações têm que ser consultadas, informadas, etc. e tal, a respeito de alguns
aspectos, mas só. E o CLÁUDIO estava citando uma publicação do Ministério do Meio Ambiente
com apoio do WWF, FUNBIO, etc. e tal, que foi resultado de uma oficina, e a conclusão que se
chegou nessa oficina que consulta pública é o processo, longo, inclusive se for necessário de ser
longo, ainda mais nesses casos onde você tem possíveis beneficiários diretos, que é a RESEX,
é a RDS e APA.

O SR. FERNANDO VASCONCELOS DE ARAÚJO (WWF-Brasil) – Ao contrário da consulta


pública, a audiência pública está regulamentada pelo CONAMA.

O SR. HENYO BARRETO (IEB - Brasília) – Acolhendo o teu esclarecimento, acho que a
redação, qualquer que venha a ser, deveria precisar quem é o sujeito desse zoneamento e
dessa estimativa preliminar que vai ser feita aí dentro porque eu concordo com a ponderação
que a Raquel falou. Você pode imaginar que uma consulta pública seja o permanente processo
de criação até que se chegue a um acordo entre as partes envolvidas e etc., mas de todo modo,
como se fala de delimitação do processo considerando uma zona, qualquer que seja, a partir de
uma estimativa preliminar, falta definir quem são os sujeitos dessa estimativa e desse
zoneamento que vão estar em jogo no processo da consulta. Quando você explica, fica claro que
vocês tinham em mente quando redigiram, mas quando a gente lê, quer dizer, quem
efetivamente é o sujeito desses dois movimentos que estão sinalizados aí o zoneamento e a
estimativa preliminar de área necessária para reprodução sociocultural.

O SR. FERNANDO VASCONCELOS DE ARAÚJO (WWF-Brasil) – Acredito que, pela falta de


inscrições, passamos para o último item desse bloco que é o item nove. “Nos casos em que as
famílias residentes na área alvo de proteção apresentem as características descritas na
condicionante número 1, detenham títulos de propriedade das terras, demandem a criação de
uma Reserva de Uso Sustentável e não queiram ter suas áreas desapropriadas, deverá
prevalecer a categoria RDS, em detrimento de RESEX, mesmo que as atividades
tradicionalmente desenvolvidas sejam conceituadas como predominantemente extrativistas”.

O SR. CLÁUDIO C. MARETTI (WWF-Brasil) – Acho que aí é o momento da gente expressar o


debate todo da questão fundiária, não é exatamente o enunciado que está aí, mas o que está
expresso aí é a questão domínio público ou não, etc., etc., que foi todo o debate que a gente
vem fazendo. Eu não sou especialista do Direito, muito menos operador, que dirá jurista, etc.,
etc., etc. Mas eu leio aquilo, leio, releio, e trileio, olho e fal: “É de domínio público, ponto, isso que
vale”. A gente viu que tem várias interpretações divergentes. O próprio André, que infelizmente
não está aqui de novo, o próprio André trouxe várias hipóteses de interpretação, uma delas,
inclusive a possibilidade mais assustadora de todas que é ter áreas de propriedades privada
ilhadas no meio de uma Unidade de Conservação, assustadoras porque isso não serve para

200
ninguém, imagino, nem para quem vai ficar ilhado, nem para a comunidade, nem para o objetivo
de proteção. Então, eu acho que do pouco que eu consigo entender dos processos, a lei não
manda só para gente, a gente tem que construir as leis, a gente tem que influenciar e aí tem
aquelas palavras mágicas, a gente tem o poder da observação técnica do especialista, seja em
grupos sociais, nas ciências sociais, seja nas ciências ecológicas ou na gestão da conservação.
Então, do ponto de vista dos especialistas de conservação, eu acho que a gente tem que negar
categoricamente a possibilidade apontada de ter uma área privada, ilhada no meio de uma RDS.
Eu acho, aí já não sei se posso ter tão fático, mas eu acho que tem que ser de domínio público e
parece que quando eu fui almoçar a Sônia defendeu isso também e ela também, infelizmente,
não está aqui agora de novo, mas vocês ouviram, eu não. Esse é o entendimento que eu tenho.
Quando diz “quando necessário”, para mim que não sou da lei, eu entendo que é quando
necessário se uma propriedade privada estiver lá dentro. Está a propriedade privada lá dentro, é
necessário desapropriar. Para mim eu comparo o texto da lei, no caso da RDS, com os outros.
Se ele é diferente, não é tão explícito como Parque Nacional, Reserva Biológica e etc., ele
também é diferente e não é nada comparável, com você apontou, André apontou, com
Monumento Nacional e outros, Refúgio de Vida Silvestre e tal. Agora, se a minha interpretação
legal não vale, de que é domínio público e ponto, aí eu acho que a saída e aí é uma visão
estratégica e aí eu acho que também, de novo, pela minha leitura técnica, tem amparo no
documento legal, pela leitura técnica, tem amparo no documento legal e tem amparo na política,
na proposta de conservação, na proposta técnica de conservação da área, é a restrição para a
comunidade local. Só poderia permanecer no caso de ser comunidade local e não a
interpretação que tem sido dada que você pode ter lá dentro fazendas e etc. Por isso é que eu
defendi, inclusive, lá atrás, na questão conceitual, o termo “comunidade” porque não é o cara
local, mas é o cara que vive numa comunidade, aí abre toda uma discussão, ia ter muito mais
gente especialista aqui que eu para me contestar sobre isso. Mas, de qualquer forma, eu acho
que tem que estar na teia do interesse daquele grupo social local que não é só subsistência, que
não é só extrativismo, mas eu acho que tem essas características de relativa pequena produção
e etc. sem que a gente imponha barreiras rígidas a isso. Então, essa são as considerações que
eu faria em relação à questão da titularidade do qual decorre esse condicionante. Agora, com
relação ao fato de quem está de acordo faz assim, quem não está de acordo, de outro jeito, não
tenho nenhuma contestação a isso, mas a minha contestação é anterior.

O SR. FRANCISCO ADEMAR DA SILVA (Secretaria de Estado do Meio Ambiente e


Desenvolvimento Sustentável - SDS/AM)) – Eu vou ter que sair agora, por conta do horário.
Esse ponto para mim tem uma importância muito maior, quase, que os outros. Eu acho que o
CLÁUDIO estava falando uma coisa que precisamos um pouco entender, vamos dizer que o
indivíduo não mora em comunidade. Tem muitas, por exemplo, se você pegar a história das
reservas, você vai ver que tem 6, 7, 15 famílias que moram isoladas na beira do rio. Então, é um
indivíduo, ele ficaria excluído desse processo. Por isso que eu fico meio preocupado em
concordar com essa idéia sua. Eu sei que você está colocando isso, mas num outro sentido, mas
se você coloca, a lei vai ter que olhar também por isso. Então eu acho que se você achar que é
só a comunidade, esses indivíduos, que são pessoas que estão lá, ribeirinhos, estão numa
situação completamente diferente, não é isso que você está falando, você está falando de outra
coisa. Com relação a essa questão de domínio público, eu concordo que seja domínio público,
mas eu acho que precisa arrumar ali e aí eu queria ver o pessoal que é da área arrumar, porque
se deixar da forma que está o SNUC, nunca, nunca vai ser obedecido. Aí todo mundo vai ter um
cara que tem uma área grande, uma fazenda, cria uma unidade e ele fica lá dentro, ele fica lá
dentro porque não está apurrinhando a paciência do cara, não está enchendo o saco, mas ele
fica lá dentro, protegido. Então, eu acho que deveria melhorar essa redação e fazer como as
outras categorias, ou seja, “só é permitida a propriedade particular se for morador ou se for

201
comunitário”, arranjar um termo que diga que só é permitido com essas condições e não com as
condições que estão lá porque aí você deixa uma abertura muito grande e vai caber
interpretação de várias e várias pessoas e aí não dá em lugar nenhum. Ao invés de melhorar a
situação vai complicando, e é o que está acontecendo hoje nas RDSs. Tem um bom sentido e aí
é que os governadores, muita gente, os prefeitos estão apitando para criar essas reservas
porque fica de paz e amor com todo mundo e fez a parte dele, viu Maretti? Me desculpa, mas
parece que é essa a interpretação, ou seja, eu quero criar 1 milhão de hectares a 4 milhões, eu
crio, mas só por criar, mas com um monte de propriedade lá dentro. Eu acho que a tem que era
gente tem que ter mais responsabilidade, nós que eu digo é o governo que tem que ter mais
responsabilidade a optar pela RDS porque a RDS, me parece tem que criar numa condição
assim: “Ah, RDS, cria aí, porque não precisa desapropriar ninguém, deixa como está”. Eu acho
que a gente tem que chamar mais uma responsabilidade porque RDS é uma categoria que
precisa ter um pouco de consideração nesse aspecto fundiário. Era essa a minha contribuição e
eu queria aproveitar para agradecer e pedir desculpas por não ir até o final do debate que eu
achei super-interessante a nossa discussão até aqui. Espero que a gente consiga ter outros
momentos para a gente definir isso porque é legal a gente poder participar, contribuir nesse
aspecto. Tem muita discordância internamente entre nós.

O SR. HENYO BARRETO (IEB - Brasília) – Esse foi o que eu mais gostei de todos, porque
falou em famílias residentes, eu acho que esse é um....

O SR. FERNANDO VASCONCELOS DE ARAÚJO (WWF-Brasil) – Henyo, só uma questão de


ordem. Ademar, eu consulto também Lucila e CLÁUDIO, nós temos um bloco de 8
condicionantes no próximo bloco e, pelo horário de vôo e necessidade de ausência das pessoas,
a gente não vai conseguir esgotar isso. Então, a gente tem duas opções. Vou falar a segunda
que é mandar por e-mail esse bloco para que a gente possa agregar os comentários, a vivência
e experiência de vocês que é o que a gente está procurando aqui oficina. E a proposta número
um, pelos acenos de cabeça eu não vou falar a número um. Então, a gente prossegue e finaliza
pelo menos esse bloco.

O SR. CLÁUDIO C. MARETTI (WWF-Brasil) – Eu acho que vale a pena mandar para todo
mundo, quem tiver contribuição eu acho que é bem-vinda e a gente tenta fazer o processo de
respeitar isso aí, mas acho que não impede que quem estiver, continue no debate, nem que a
gente fale: “Quem tem comentário sobre alguma diretriz?” Eu pelo menos posso ficar aqui mais
umas seis horas.

O SR. FERNANDO VASCONCELOS DE ARAÚJO (WWF-Brasil) – Pó chefe, essa era a


proposta número 1. Henyo, desculpando os apartes de encaminhamento...

O SR. HENYO BARRETO (IEB - Brasília) – Sem problema. É muito interessante, como é que a
gente interpreta. Foi sintomático que o último item que o Renato e a Lucila apresentaram ele vai
recuperando elementos de outros. Se alguém tinha alguma preocupação com a distinção entre
ResEx e RDS, pelo menos o entendimento do Renato e da Lucila sobre essa distinção se
caracteriza exatamente nesse último quando recupera alguns elementos anteriores. Então, eu
gosto da idéia de famílias residentes ou usuárias da área alvo da proteção, aí vocês recuperam
aquelas características que estão lá no item um, mas não estão só no item um, estão no dois e
no três, acumula em cima de uma caracterização, ainda que geral, das famílias que ocupam
essas áreas, detém o título de propriedade de terra, e aí, de novo, vem a tal da famosa distinção
em relação a ResEx, tem demanda social pela criação da reserva e não querem ter suas áreas
desapropriadas, que é um outro negócio interessante porque essa, não sei em outros biomas e

202
tal, mas em vários lugares da Amazônia é isso que ocorre. Nesse sentido, se eu tivesse uma
proposta para fazer aí é que a gente não limitasse, porque isso é uma limitação, a títulos de
propriedade de terra porque títulos de propriedade de terra poucos vão ter, mas muitos vão ter o
que? Seus lotes cadastrados no INCRA e pagam ITR. Ainda não tem LDO nem tem titulação,
mas ele tem a expectativa de um dia ter, se vai ter ou não isso é uma outra discussão porque o
processo de titulação em algumas áreas da Amazônia é complicado, mas ele tem o lote dele
registrado, ele pagar ITR. Eu acho que isso contempla situações interessantes. Eu até tinha uma
pergunta depois para fazer para o Pool sobre essa história da RESEX, lá na margem em
esquerda do Nini, porque há, havia quando eu fiz pesquisa lá há uns seis, sete anos atrás,
pessoas que tinham, pagavam ITR regularmente e tinham expectativa de um dia ver essa
situação traduzida numa LDO, numa Licença de Ocupação e, depois, no título definitivo. Eu acho
que se tem uma coisa que é esse elemento de distinção da RDS tem a ver exatamente com
essa questão, ela se dá ou ela pode se dar, é uma coisa potencial, em contextos onde você tem
exatamente essas situações híbridas de apossamento, de apossamento puro e simples, sem
reconhecimento, de apossamento com registro do lote e pagamento do ITR, de gente que tem
licença de ocupação e, eventualmente, de potenciais proprietários. Não vejo em que medida isso
é necessariamente excludente com a situação de domínio público porque o uso que se faz
daquele espaço específico do lote, da posse, pode ser tão coerente, condizente, harmonizado e
adequado com os objetivos gerais da RDS que o Poder Público não precisa se onerar em fazer a
desapropriação. O que importa é que, no meu entendimento, de fato o detentor da posse está
efetivamente colaborando com os objetivos da RDS. Eu gostei bastante desse e fique registrado,
a título de sugestão, para considerações posteriores, que eu seria mais elástico, não limitaria a
título de propriedade, eu falaria também em imóveis registrados no Cadastro de Imóvel Rural do
INCRA.

O SR. RENATO R. SALES – Então, o CLÁUDIO fez aquele comentário, enfim, uma das
questões mais polêmicas, entrevistando por volta de 52 pessoas, foi essa questão do domínio
nas RDS. Retomando o que o Mercadante falou hoje de manhã, ele estava falando: “O que nós
vamos fazer? A gente vai recuperar o conceito original que foi discutido no SNUC ou nós vamos
levar em consideração o que está sendo efetivamente praticado com relação a RDS pelos
órgãos executores? A gente vai juntar as duas coisas? O que a gente vai fazer?” É uma tentativa
de chegar nesse modelo novamente, o novo modelo de RDS. O que nos leva a fazer uma
proposta dessa é o seguinte, é uma realidade. No Estado do Amazonas as reservas estão sendo
criadas justamente em situações onde se encontra propriedades privadas porque o Estado ou
não tem recurso para fazer a desapropriação ou não tem vontade política. No Rio Grande do
Norte aconteceu a mesma coisa. O CNPT que de alguma forma vai participar desse processo de
regulamentação e é o órgão responsável pelas RESEX e RDSs federais, está usando esse
critério. Essa RDS criada em Marajó foi em função disso. Na prática está acontecendo isso. É
claro que essa interpretação do artigo, dizendo “quando forem necessárias as desapropriações”,
vai render muito pano para manga, mas eu acho que, nesses casos, onde haja uma
reivindicação para a criação de Unidade de Conservação pelas próprias famílias, elas tenham
como comprovar essa dominialidade, elas desenvolvem atividades não muito impactantes, etc. e
tal, é como a Lucila fala, porque o Estado vai desapropriar para depois dar concessão real de
uso? Sendo que em alguns desses casos eles brigaram tanto, a vida inteira para conseguir um
documento comprovando a posse, que eles não vão querer isso, e você perde a oportunidade de
criar uma Unidade de Conservação.

O SR. JESSEJAMES COSTA (Secretaria de Estado de Meio Ambiente – SEMA) – Eu vejo


com ressalva essa questão de titularidade e domínio de terra porque isso, na prática, a gente
sabe que o capital é muito forte e quem garante que essas famílias vão suportar o peso do

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capital? Nós já temos propostas lá de deputados e outras pessoas lá no estado de extrair
madeira lá da RDS. A gente sabe que a lei não permite, a própria lei de criação não permite, mas
se alguém tem um título e o capital vai e compra aquele título lá dentro daquela área, quem
impede que ele pode vender ou não? E essa pessoa que entra lá começa a fazer coisas que não
está condizente com a preservação. Então, eu acho uma brecha muito grande essa questão de
propriedade numa RDS.

O SR. ANDRÉ RODOLFO LIMA (ISA) – Eu acho que essa questão está, evidentemente,
relacionada com essa referência aí. Teoricamente é muito simples resolver, não é uma aparente,
é uma contradição, basta dizer no decreto que só não será necessária a desapropriação nas
seguintes hipóteses, A, B, C, e D, ponto. Essa contradição da lei se resolve assim. O que o
legislador quis dizer com “quando necessário”? Bom, a gente não sabe. Então, a gente diz: “Só
não será necessária a desapropriação na seguinte hipótese, quando a população beneficiária
detiver título ou documentos análogos referentes ao domínio”, ponto. Está resolvido. O
Presidente da República assina o decreto e está resolvida a questão. O que se deve avaliar, e aí
não sou eu que vou fazer, pelo menos nesse momento, posso até estudar casos e oferecer o
leque de análise e tal, é a seguinte, se fala que, e é assim, Amazônia não é um vazio
populacional, muito menos um mar homogêneo fundiário. Então, isso pode ser, na verdade, um
grande obstáculo efetivo para a criação de Unidades de Conservação, essa é a primeira
questão. Considerando isso, é possível você compatibilizar preservação de grandes áreas com
pequenas ocupações que não necessariamente são de baixo impacto local, pode ser de alto
impacto local, por exemplo, uma atividade de mineração. Ela, naquele local restrito, é de alto
impacto, mas no contexto da RDS como um todo, para a preservação do ecossistema abrangido
pela RDS não é impactante. É possível se admitir essa hipótese? Não estou avaliando o mérito
dela, se é positivo ou não do ponto de vista econômico, ecológico, estou dizendo: é possível se
pensar isso, isso pode ser uma oportunidade? Se positivo, então, eventualmente, ou quando
necessário, tem que abranger outras hipóteses que não apenas a hipótese de população
diretamente beneficiária a ser titular de domínio da área e a lei, eu acredito que mais por uma
impropriedade, por uma impropriedade da lei... Bom, seguindo o raciocínio aqui, a lei permite
esse tipo de interpretação, do ponto de vista sistêmico, interpretação sistêmica. Se esse foi a
motivação, aquilo que o Maurício disse aqui, ele participa de processos legislativos. O que leva
uma redação da lei, não é necessariamente o que vai ser determinante e a implementação dela
no futuro. A verdade é que a lei permite esse tipo de interpretação, é possível, na leitura da lei,
se interpretar que você tem a possibilidade de ter propriedade dentro da reserva que não sejam
contabilizadas como Reserva de Desenvolvimento Sustentável. Não sei se é o pior dos mundos,
não sei, depende muito do que a gente vai discutir ao conceito efetivo de Reserva de
Desenvolvimento Sustentável que vai nortear a estrutura como um todo. Agora, isso se resolve
de uma maneira muito simples, só não será necessária aí lista de quais são as hipóteses.

A SRª. LÍGIA SIMONIAN (UFPA) – Bom, eu acho um problema, não estou segura ainda, mas eu
acho um problema essa questão da presença de propriedade dentro das RDS, vou dizer porque.
Não conheço nenhum caso em que haja esse tipo de conflito ou no entorno ou mesmo dentro
que tenha havido parceria. Os conflitos são sistemáticos, agora, tem um caso lá na RESEX de
Soure que chegou a fazer, colocou até uma escada para a população subir porque ela não
permite porteira. Então, ela negou o acesso e está dentro da reserva. Um governador, claro que
não quer mexer com os fazendeiros e por isso todos esses arranjos. É uma questão muito de
disparidade quanto à questão do poder e eu não vejo, olha, se alguém souber aonde tem uma
situação que isso é viável e está sendo viável, me diga porque eu quero ir lá ver. E vou de norte
a sul e conheço quase de palmo a palmo a Amazônia. Eu continuo indo a campo. Então, eu
conheço a realidade de lá. Quer dizer, no Pará vocês sabem de toda a questão da escravidão

204
ainda presente. Então, essa relação do proprietário é muito dramática na Amazônia. Eu acho
que esse é um problema sério, também com relação à essa questão da própria, dessas
mudanças que estão havendo na lei florestal, isso aí vai ser outro problema porque na FLONA
de Tapajós que diz manejo sustentável, não tem porque eu já fui no quintal dele, tem na fachada,
mas no quintal não está, enquanto que o próprio IBAMA, através do Pró-Várzea está
financiando, que contradição é essa. Você devassa a madeira branca e a comunidade está
assim, sem poder nenhum. Então, essa coisa das relações de poder em âmbito local, não é a
nossa relação de poder aqui, nos escritórios, é muito diferente. Eu vejo isso aí como uma
ameaça grande, se é para fazer isso, isso aí é APA, me digam se não é uma APA? E toda a
jurisprudência, isso aqui é uma APA, não é uma RDS.

O SR. RENATO R. SALES – São família residentes, aqui não são grandes proprietários
fazendeiros. É claro que isso pode abrir um precedente, que no decreto se consegue segurar
isso, a partir da definição clara dos casos. Não trata-se de latifúndio. O condicionante número um
define aquelas coisas de população tradicional.

A SRª. SÔNIA MARIA PEREIRA WIEDMANN (IBAMA) – Eu acho que vivemos para ficar
abrindo precedente, quem vive, já estou na Amazônia há um bocado de tempo, todo mês estou
viajando para uma área e o que eu vejo lá é feio. De repente o cara lá diz que vai se integrar na
RDS.

O SR. RENATO R. SALES – Mas ele não se encaixa na...

O SR. ANDRÉ RODOLFO LIMA (ISA) – Se quem adquire a propriedade não é a população
beneficiária, é alguém de fora da comunidade, imediatamente caiu por terra o único pressuposto
de manutenção da propriedade que é a propriedade ser pertencente ao beneficiário direto da
Unidade de Conservação. Se ela vendeu, cai a exceção e volta a ser a regra de desapropriação.
Agora, só para concluir, já que me deram a oportunidade, veja bem, se é isso porque a lei
efetivamente permite a interpretação de que a propriedade privada é compatível com a figura da
RDS. Portanto, tem que ser muito explícito e tem que ser claramente definido.

O SR. CLÁUDIO C. MARETTI (WWF-Brasil) – Na verdade, já expressei tudo, não quero ficar
voltando, mas com relação à exclusão, a área... O que me impede de fazer um parque,
teoricamente pela lei, que é um queijo suíço? Posso fazer um parque desse tamanho, excluir um
monte de áreas privadas dentro dele. Do ponto de vista da gestão pode ser errado, mas
legalmente eu posso delimitar limites que tem buracos dentro. Eu posso fazer isso independente
de texto, de qualquer área que seja de domínio público pode ter buracos.

O SR. ANDRÉ RODOLFO LIMA (ISA) - Mas num argumento técnico com você eu posso dizer
que não tem fundamento técnico. Mas eu (...) mas a lei permite que eu faça isso e ponto. Ela
explicita.

O SR. JESSEJAMES COSTA (Secretaria de Estado de Meio Ambiente – SEMA) – Depois


que a lei descobre, o dano já está feito.

O SR. ANDRÉ RODOLFO LIMA (ISA) – Consta do livro Direito Ambiental de Áreas Protegidas
do Antônio Herman Benjamim, os procuradores do Estado um deles é José Eduardo Campos
Rodrigues e o outro é o Guilherme José de Figueiredo que é doutor em Direito Público, não é
interpretação do André Lima.

205
O SR. CLÁUDIO C. MARETTI (WWF-Brasil) – Ele terminou, você tem toda a razão, é domínio
público e ponto final.

O SR. ANDRÉ RODOLFO LIMA (ISA) – E esses dois doutrinadores e práticos da lei interpretam
dessa forma.

O SR. HENYO BARRETO (IEB - Brasília) – Eu gostei, não vou defender não, achei simpática,
eu acho que não percebo que ela abre um precedente que ela lastreia todos os elementos que já
se encontram ali, mas, aí é uma pergunta para o Renato e para a Lucila porque vem as diretrizes
e nas diretrizes para implantação, como corolários das referências para a criação há, pelo
menos, dois ou três itens, que é o item dois, sobre os TAC que interpelam diretamente essa
questão da existência de titulação, seja pela forma de Termo de Compromisso, seja pela forma
de manifestação expressa de desapropriação, seja pela questão do Conselho Deliberativo, pelo
menos nos itens 2, 3 e 4.

O SR. RENATO R. SALES - Isso é critério para criação, na implantação é que entra essa
questão de desapropriar as propriedades e estabelecer os Termos de Compromisso com as
famílias locais, as que têm documentos comprobatórios você faz um tipo de compromisso
específico para isso, você pode ficar renovando o prazo desse termo de compromisso, não sei
se isso tem valor legal e as outras você tem o instrumento específico no SNUC que fala que
quem mora em domínio público e tiver o compromisso (...) de RDS você faz um contrato de
concessão de uso e assina um Termo de Compromisso específico para essa questão.

O SR. HENYO BARRETO (IEB - Brasília) – Era um comentário. O outro, que tem a ver com os
desenhos, agora, é interessante perceber como o processo histórico produz isso. Seja por
intermédio dos esquemas de compensação ambiental, seja pelos esquemas de mitigação de
impactos tem a área da CVRD cercada de terras indígenas. Você vê, Balbina, que é um
estrupício sob qualquer ponto de vista fornecimento de energia, incapaz de fornecer energia para
Manaus não enfrentar blackout e aí você tem estação ecológica, tem a terra indígena tal. É muito
interessante, se por um lado, na hora de estabelecer unidade, nem sempre isso é levado em
consideração, o processo histórico leva em... E insustentáveis estarem literalmente encravadas
em áreas de grande favor ecológico, ambiental e de grupos humanos tradicionais. Só peguei a
Vale e Balbina para exemplificar, você tem essa situação, de um planejamento você preveja
isso. Só para polemizar um pouquinho.

A SRª. ISABEL SOUSA (Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamiraua) – Eu queria


falar um pouquinho de como é que a gente está interpretando essa coisa que deve ser
desapropriada, se necessário. A gente está discutindo isso com as comunidades e as famílias
que têm títulos de áreas principalmente dentro da reserva maná e as família têm documento
expedido pelo INCRA que paga o imposto tal e a gente está discutindo com elas o seguinte, se
necessário, é quando o uso daquela área está indo contra os objetivos da reserva. Então, eu
acho que isso precisa colocar na legislação porque o “se necessário” está muito...

O SR. ANDRÉ RODOLFO LIMA (ISA) - Independente da titularidade?

A SRª. ISABEL SOUSA (Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamiraua) – Não, ali


está no condicionante, só família que estão lá há bastante tempo, que desenvolve atividade. Se
entra em conflito com os objetivos da reserva, aí será desapropriado porque está indo de
encontro ao objetivo da reserva.

206
O SR. JESSEJAMES COSTA (Secretaria de Estado de Meio Ambiente – SEMA) – Depois de
criada uma reserva, para você desapropriar é muito complicado. A gente tem que ver o cenário
político.

A SRª. ISABEL SOUSA (Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamiraua) – E até hoje,


esse mês a gente vai fazer um levantamento fundiário com o INCRA porque tem muito essa
coisa, eu sou dono, mas os títulos são grilados mesmo e aí para a gente ver a validade disso
porque muitas vezes não tem nem validade. Se tu estiver de acordo com os objetivos da área.

O SR. JESSEJAMES COSTA (Secretaria de Estado de Meio Ambiente – SEMA) – Ou faz é


complicado demais, não faz, exatamente, isso aí é levar com a barriga. E cada cenário político
complica mais ainda.

A SRª. ISABEL SOUSA (Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamiraua) – Acho que


falta acrescentar ali, deve ser criada uma reserva, mas têm que obedecer as normas do Plano
de Manejo da unidade porque senão o cara começa a fazer tudo o que ele quer e aí o vizinho
acha que também pode, acha que pode fazer também tudo o que o outro está fazendo. A gente
tem problemas não só com essas pessoas, como também com vizinhos que está sendo criada
um bocado de área indígena, acham que pode fazer tudo.

O SR. JESSEJAMES COSTA (Secretaria de Estado de Meio Ambiente – SEMA) – E a gente


sabe que não resolve, às vezes nem se elabora o Plano de Manejo.

O SR. FERNANDO VASCONCELOS DE ARAÚJO (WWF-Brasil) – O encaminhamento é o


seguinte, como a gente tinha levantamento colocado aqui, então, a próxima parte já seria a
gestão e a criação a gente encerrou. Vamos estar mandando os documentos que estão contidos
nas pastas para todos os participantes da oficina e também esse quadro que vocês viram para
que vocês possam, talvez de uma forma, de algumas idéias, mandarem contribuições
principalmente para o segundo bloco para que a gente possa agregar isso e ter aí um
encaminhamento do cenário geral de pensamentos e ansiedades sobre o assunto. Consulto
também o CLÁUDIO, a gente chegou à finalização do primeiro bloco e o segundo bloco, dado os
horários de deslocamento das pessoas, a gente poderia estar mandando a tabela e os demais
materiais por e-mail para a gente receber consultas sobre isso.

O SR. JESSEJAMES COSTA (Secretaria de Estado de Meio Ambiente – SEMA) – CLÁUDIO,


nessa situação de nova, esses títulos de propriedade de terra. Deixava bem genérico e nós
estamos trabalhando no Estado o sistema estadual e lá a gente poderia fechar e não teria terra
titular de terra, porque se fechar a federal a gente não pode nem mexer na estadual.
O SR. CLÁUDIO C. MARETTI (WWF-Brasil) – Se a idéia é a gente encerrar por aqui, sobre
futuro. Antes de passar para isso, eu já queria aproveitar, à guisa de encerramento, pré-
encerrando, eu queria, sinceramente, parabenizar o Renato e a Lucila pelo trabalho que foi feito,
estava ali agradecendo ao André pelo parecer dele urgente, a jato, mas a documentação toda é
bastante... Agradecendo o André pelo parecer que ele expediu a jato, foi furando uma pessoa
depois da outra, foi pouquíssimo tempo, o que gerou problema de integração dos dois trabalhos.
Mas voltando ao que eu tinha falado antes, o número de entrevistas, a distribuição pelos tipos de
atores sociais, o volume de cada entrevista que foi produzido diretamente ou sob coordenação
do Renato e da Lucila é significativo e é um material rico para registro para quem quiser se
aprofundar no tema ou para gestão ambiental ou para atividades outras de conhecer os
processos. Só para vocês terem uma idéia, mas foi perguntado assim, a ONG está envolvida no
processo de criação ou não? A comunidade que está dentro, que está fora? A comunidade que é

207
a favor, a comunidade que é fora? Nossa intenção é produzir para disponibilizar isso tudo, mas é
claro que ele vai ter diferentes níveis de acabamento, de divulgação. Isso posto, provavelmente
a gente vai colocar isso pouco a pouco à disposição, uma publicação mais simples porque é uma
coisa para ser rápida, não adianta fazer luxo que perde o momento histórico, relatórios e tal, a
gente vai disponibilizar, mesmo em versão preliminar, qualquer uma das partes para qualquer
um que interessar e daí, o que a gente faz. O acordo que a gente tem aqui agora, uma revisão
do documento dele, em função do que foi debatido e ponto, o trabalho dele termina. A Lucila e o
Renato vão fazer uma síntese interpretada a transcrição do debate feito, das apresentações,
mas o que eles vão fazer é a questão do conteúdo, é ter um outro documento sintético que
revise os temas que eles colocaram ou que aponte outros ou que reescreva as propostas
intermediárias da gente distribuir essa tabela por e-mail, inclusive a gente poderia distribuir para
os convidados e não só para os presentes, mas o relatório deles não é uma proposta de
regulamentação no sentido legal. Nós vamos levantar, basicamente o que a gente está
esperando é basicamente algo como a gente discutiu no final da manhã e agora à tarde, ou seja,
quais são os pontos que têm que ser enfrentados? Vai ter soluções ou idéias que foram dadas
aqui, vai ter tendências maiores que as outras, mas um monte de coisa a gente saiu com
divergência inclusive essa da propriedade privada. Agora, eu não estou pensando que a gente
deva dar mais passo depois disso. Isso pronto, nós vamos entregar para os órgãos estaduais e
para o os órgãos federais, Ministério e IBAMA, e dizer, estamos à disposição para continuar
conversando. No caso específico que você pergunta, Jessé, expressar o que sai do evento,
inclusive alguma possibilidade de polêmica. Agora, a decisão do que vai sair da esfera federal
não cabe a nós, não cabe à essa reunião e provavelmente não vai seguir as recomendação
dessa reunião. O que a gente pode fazer, se o pessoal do IBAMA (...) e daí pensar num outro
passo. Especificamente com vocês, já tem um acordo, Amazonas está, a gente tem um acordo
formal já firmado com Amazonas, estão querendo discutir, estamos fechando um acordo com o
Pará, além do Governo Federal, nós podemos pensar em que nós vamos assinar
especificamente isso aí. Então, a partir do estudo que eu chamaria ainda técnico, embora eu
tenha considerações da área legal, a gente pode pensar em como formular uma proposta de
legislação, decreto para o caso do Amapá. Não posso me comprometer com o que vai sair na
área federal porque isso aqui é uma reunião de especialistas para oferecer esse produto técnico
para os órgãos tomarem as decisões.

O SR. HENYO BARRETO (IEB - Brasília) – Alguma coisa vai estar pronta para a reunião de dia
6?

O SR. CLÁUDIO C. MARETTI (WWF-Brasil) – Eu prometi mandar do jeito que estivesse, mas
eu não posso garantir que o relatório vai estar pronto, isso é um outro tempo. O que a gente com
certeza vai ter é o material que foi oferecido hoje, inclusive a Sônia ficou de me passar o material
dela e a gente vai ter, já no começo da próxima semana, a transcrição, sem revisão, e a
qualidade normalmente é boa. Mas aí tem que caçar as coisas entre centenas de páginas.

O SR. RENATO R. SALES – E a gente se compromete a... Mandar para colher mais opiniões.
Esse prazo a gente podia definir em 15 dias, ou uma semana.

O SR. CLÁUDIO C. MARETTI (WWF-Brasil) – O pessoal espera para última hora se coloca
muito tempo. Passa por uma semana, quem quiser contribuir (...) mais ampla possível.

O SR. FERNANDO VASCONCELOS DE ARAÚJO (WWF-Brasil) – A gente passa o e-mail já


orientando as pessoas que a gente gostaria de receber até a data tal.

208
O SR. CLÁUDIO C. MARETTI (WWF-Brasil) – Algumas pessoas, quase todas, receberam parte
do material, mas algumas não receberam o completo. Algumas não receberam porque não
checaram o e-mail, porque foi enviado só ontem, mas eu quero dizer o seguinte, vale a pena
enviar de novo, aí já pensando nos quatro documentos, e passar o material que foi oferecido
nessa reunião, os dois documentos, os relatórios, um deles que apareceu sem o nome. O do
André e a Sônia Mercadante e aí a tabela e dar um prazo de 10 dias para respostas. A partir daí,
volto a dizer, talvez na mensagem a gente pode comentar materiais preliminares para
interessados, mas sob uma conversa específica, começa a fazer antes de estar pronto. E aí,
obviamente, quando tiver o relatório no mínimo para vocês em versão digital, mas a idéia depois
é ter uma publicação simples, do tipo caderno, nada de um livro luxuoso. Em poucos meses,
mas vai levar um tempo, trabalho todo de fazer o relatório, edição gráfica, leva pelo menos uns
três meses. Algo mais, gente? Bom, então, eu queria renovar o agradecimento à presença de
vocês, independente da gente continuar esse debate de RDS, nós estamos abertos para
discussões, parcerias, volto a insistir, eu represento a WWF-Brasil aqui, mas o programa que eu
coordeno é o Programa de Áreas Protegidas para a área de Amazônia, mas a gente faz essa
visão extra para poder dar sustentabilidade e também, dessa forma, a gente pretende continuar
a discussão sobre RESEX. Talvez não complete porque é muito mais complicado, é muito mais
perigoso fazer com menos gente, mas o WWF-Brasil já está trabalhando e está trabalhando com
o Governo de Rondônia para as RESEX estaduais. A gente queria avançar pouco a pouco para
tentar ter uma visão geral. Também, se for possível, a UCN da qual o IBAMA é membro e várias
ONGs brasileiras são membros, ela é considerada assessora do Secretariado e ela pretende
fazer, no final de 2006, um debate sobre categorias. Então, a gente vai procurar fortalecer do
que a gente chama de categoria seis, a partir de uma visão brasileira. A gente vai tentar fazer um
debate, mas seguramente a gente estará levando essas discussões, pelo menos de RESEX e
RDS, mas nada de FLONA, para o UCN com a qual eu tenho trabalhado como voluntário. Então,
dito isso, volto a abrir, se tem mais alguma palavra. Senão, encerro.

A SRª. LUCILA PINSARD VINNA (Consultora) – A gente gostaria de agradecer o comentário


de todo mundo e a participação.

O SR. FERNANDO VASCONCELOS DE ARAÚJO (WWF-Brasil) - Esperamos vê-los em breve.

209
ANEXO II

ENTREVISTAS REALIZADAS

Relação das entrevistas com especialistas, Ongs, pesquisadores e gestores:

1) 10 entrevistas com especialistas e gestores:


3 ONGs Nacionais:
Adriana Ramos – Instituto Sócio Ambiental
Claudio Maretti – WWF - Brasil
Luis Carlos Pinagé – FUNBIO

2) 1 Organizaçâo de classe:
Atanagildo de Deus Matos – Secretário Executivo da Diretoria do Conselho Nacional dos
Seringueiros (CNS).

3) 2 Pesquisadores:
Mary Allegreti - Universidade da Florida
Antonio Carlos Diegues - Núcleo de Pesquisa sobre áreas Úmidas Brasileiras - NUPAUB/USP

4) 3 Órgãos Públicos Federais:


Paulo Oliveira – CNPT / IBAMA
Ronaldo Weigand – Programa Arpa / MMA
Leonardo Marques Pacheco – Coordenador do Centro Nacional de Desenvolvimento de
Populações Tradicionais (CNPT) – Gerência Executiva do IBAMA de Manaus / AM.

Abaixo, as entrevistas na integra.

210
ENTREVISTAS COM ORGANIZAÇÕES PÚBLICAS E DA SOCIEDADE CIVIL: ONGS
NACIONAIS

Entrevistado: Adriana Ramos


Data da entrevista: 8 de março de 2005
Local da entrevista: Brasília / Instituto Sócio Ambiental
Entrevistador: Lucila

Qual seu conhecimento sobre o histórico de inclusão da categoria RDS no SNUC?


A categoria RDS foi incluída no SNUC para ajeitar a situação de Mamirauá, que era uma estação
ecológica estadual, com população nativa , incluindo índios. Durante o processo de discussão da
RDS não houve manifestação das populações indígenas, por exemplo, porque eles teriam
benefício com o projeto de Mamirauá. A categoria RDS entrou para ajustar esta unidade.Não
dava para ser RESEX, naquele caso, porque era uma população de pescadores que não se
vêem como extrativistas. A RDS não foi demanda da população. A proposta da RDS veio de
encontro com idéia de uma categoria de manejo de uso sustentável mais flexível, mais aberta,
não atrelada à idéia de extrativismo e seringueiros.

Qual a prioridade de uma RDS: conservação ambiental ou fixação e desenvolvimento dos


moradores da área?
Sou socioambientalista. Os dois. O objetivo das RDS é compatibilizar a presença da população
local com a conservação da natureza

Porque ou em qual situação criar uma RDS é uma boa alternativa? Qual situação
ambiental leva à criação de uma RDS?
Quando a população residente faz uso racional dos recursos naturais. Quando há potencial de
conservação ambiental e atividades não impactantes. Pode também ser uma área degradada
com possibilidade de restauração. Não necessariamente tem que ser uma área conservada.
Pode aproveitar o potencial de regeneração em benefício da população.

Qual modo de ocupação humana leva à criação de uma RDS?


Quem cria a demanda para criação de uma RDS? Há necessidade de concordância formal
dos moradores / produtores da área?
Seria bom que houvesse um processo em que todos os interessados entrem em acordo, para
não haver conflito, numa área com perspectivas positivas. Em áreas críticas, sob ameaça, no
limite a criação pode ser do poder publico, que deve estabelecer mecanismos para adequar os
diferentes interesses. Os moradores tem direito ao uso sustentável da área, e deve haver um
acordo formal estabelecendo isto.

Quais as diferenças entre RDSs e RESEXs que determinam a escolha para criação de uma
ou outra?
Uma RDS é uma unidade de conservação com abertura para compatibilizar diferentes usos
tradicionais dos recursos naturais pelas populações locais. São uso de baixo impacto. A
diferença com a RESEX é a ausência da necessidade de demanda da população para criação
da RDS.

Que tipo de consulta pública deve ser feita antes da criação de uma RDS?
Para os moradores do interior da unidade de conservação, deve haver um processo
deliberativo. Para os de fora, consultivo. A consulta publica é o instrumento básico de decisão e
negociação do governo para gerencia conflitos.

211
As RDSs permitem áreas privadas em seu interior? Em caso afirmativo, quais vantagens
ou desvantagens dessa situação?
Pode ter área privada sim. Mas estas áreas devem estar de acordo com os objetivos da reserva,
sem prejuízo da implantação da unidade de conservação. A presença de propriedade privada
deve se submeter às regras de manejo da unidade. Uma RDS comporta atividades de turismo,
agrofloresta.

Uma RDS comporta médias e grandes propriedades?


O problema não é o tamanho da propriedade. È o tipo de uso. A RDS não comporta atividades
agropecuárias, mas sim agroflorestais, pequenas roças.

Uma RDS pode ter ocupantes recém-chegados à região?


Tradicionalidade não é temporal.

Que tipos de uso podem ocorrer em uma RDS? Pode haver atividades com maior
potencial impactante como carcinocultura, pecuária extensiva, mineração,
reflorestamento com exóticas ou turismo convencional?
O uso racional justifica a criação da área e se subordina ao manejo. O que importa é garantir um
tipo de uso que esteja no perfil, e nas condições para permanecer numa área de conservação

Como deve ser feita a gestão de uma RDS?


Gestão colegiada. E deve estar de acordo com o plano de manejo, que é o instrumento de
planejamento da área.

Como deve ser composto seu conselho gestor?


O conselho gestor deve ser composto por populações moradores do interior da unidade de
conservação, pelos órgãos públicos e populações de entorno que tenham relação com a área.

Quais os bons e maus exemplos de funcionamento de RDS?


Mamirauá não pode ser considerado um bom exemplo, pois teve aporte de recursos materiais e
humanos fora do padrão.

Existe alguma outra área protegida de seu conhecimento, enquadrada em outra categoria
do SNUC, que poderia ser mais eficaz se fosse transformada em RDS, ou o contrário?
Algumas situações no Amazonas, por exemplo Flonas com populações tradicionais, como a
Flona Tapajós. As RDS podem também ser soluções nos casos de presença de populações em
Parques Nacionais, ou qualquer área restritiva criada com população residente.

16. Na sua opinião, por que as RDS são mais criadas pelos governos estaduais do que
pelo governo federal?

Por conta da relação histórica do CNPT com o GTA e Conselho Nacional de seringueiros. As
pessoas à frente do CNPT eram ligadas com estes movimentos, seringueiros e a luta do Chico
Mendes. A formulação da idéia de RESEX foi uma questão política. A atual direção do CNPT
tem a perspectiva de ampliar o foco, flexibilizar, e trabalhar não só com as RESEX.

No Amazonas, a Conservation International apoiou o governo do estado em estratégias de


criação de unidades de conservação. O governo do estado aproveitou para criar RDS. A CI
apóia a criação de UCs estaduais. A RDS concilia a ocupação humana e as atividades

212
produtivas . Esta é a visão do governo do estado. No workshop de definição de prioridades de
conservação para o estado da Amazônia, em 2004, o secretario estadual de meio ambiente
declarou que eles avançaram com outras visões na área de conservação, mais ousadas, mais
abertas , com diferentes possibilidades de unidades de conservação. Por exemplo, onde há
demanda de fronteira agrícola, pode ser criada uma RDS agropecuária. Porque não criam APA?
O aumento da agropecuária desvirtua o objetivo primordial da unidade de conservação para
atender o interesse produtivo.

Não há clareza sobre as RDS e a regulamentação é ambigua. A visão é de que elas provocam
menos conflito, porque compatibiliza diferentes tipos de uso. O governo do estado do Amazonas
está cacifado como criador de unidade de conservação sem conflito com setor produtivo, e são
RDS que eles estão criando.

Entrevistado: Cláudio Maretti (coordenador do Programa de Áreas Protegidas da WWF)


Data da entrevista: março de 2005
Local da entrevista: Brasília / WWF
Entrevistador: Renato

Renato: Qual é o seu conhecimento sobre o histórico de inclusão da categoria RDS no


SNUC? Como você acompanhou e qual é a sua opinião a respeito?
Maretti: Eu acho que acompanhei, não 100%. E eu acho que essa história de RDS foi uma
solução de última hora para algumas pressões que até então eram separadas. Foi uma
discussão liderada pelo Diegues que dizia que, sobretudo para o litoral sudeste, as Resex eram
muito restritas porque só pensava no extrativismo e tinha obrigatoriedade de domínio público. E
fizeram a proposta da Reserva Ecológico-Cultural. Do outro lado tinha uma realidade que era
uma área super conhecida, que era Mamirauá, com liderança do Márcio Ayres,
internacionalmente conhecido, eu até fui parte de um grupo que recomendou alguns prêmios
internacionais pra ele. Mas a verdade é que Mamirauá tinha uma condição muito específica, que
era o apoio científico, sobretudo através do Cnpq, e muita grana internacional por causa das
conexões que ele tinha e de outros cientistas. E daí era uma Estação Ecológica que não poderia
funcionar como tal e ele inventou um novo nome, RDS, e não ficou definido o que seria. Várias
coisas avançaram e recuaram durante a discussão de dez anos com o SNUC, e no final, por
algum lobby bem feito, provavelmente pelo Márcio Ayres ou por alguém liderado por ele, se
conseguiu incluir essa categoria, mas não tinha uma proposta de definição muito clara. Misturou
essas duas propostas e...Essa é a minha informação. Então eu tenho a impressão que a
categoria tem um interesse de fazer algo mais flexível que Resex, e até o texto é relativamente
extenso de comparado ao de outras categorias, mas acabou ficando mal definido pois não era
uma categoria que tinha um acúmulo de discussão prévio. Então eu acho que foi um acordo de
última hora que precisa ser mais bem discutido, porque na cabeça das pessoas está mais claro,
e porque como pra qualquer outra categoria, precisa ter regulamentação.

Renato: Qual é a prioridade na RDS, conservação ambiental ou fixação ou


desenvolvimento de moradores na área?
Maretti: Eu acho que como toda a UC, o objetivo é a conservação da natureza. Pra ser UC esse
tem que ser o objetivo principal. Mas como eu milito muito ligado à IUCN e trabalhei e ajudei com
algumas dessas coisas, por exemplo faço parte de um grupo que discute as categorias de
gestão internacionais, eu defendo a posição de que só um grupo de objetivos é que define uma
categoria. Então se o objetivo de qualquer UC é a conservação da natureza, eu acho que tanto
RDS, Resex e Florestas e APAs o objetivo tem que ser conjunto. Conservação da natureza é

213
feita através de, ou por meio de, ou em conjugação com. Então eu acho que a separação em
duas coisas é uma dicotomia artificial. Na verdade a interpretação é que as duas coisas podem
conviver, mas se elas não tiverem como objetivo a conservação, elas não são UCs do SNUC. Ou
seja, desenvolvimento de comunidades, melhoria de qualidade de vida, fixação e etc, tudo isso
podem ser objetivos para outras atividades como planos de assentamento rural, agrícolas,
agroflorestais ou reforma agrária ecológica. E aí o objetivo de conservação da natureza é
claramente secundário. Importante como qualquer atividade econômica, mas isso não é uma
UC. Pra ser UC o objetivo de conservação da natureza tem que estar no primeiro nível. Mas para
essa categoria específica tem que estar junto com o desenvolvimento das comunidades locais.
Por outro lado, acho importante dizer que a prática de RDS baseada em Mamirauá ela não é
igual ao conceito de Resex. Eu acho que o conceito original de Resex, pelo menos como ele foi
aceito pelos ambientalistas e pelos representantes das comunidades locais embora não
necessariamente como ele foi reivindicado pelos sindicalistas, ele implica que você tem que
resolver a questão social como uma importância primeira da área. E para fazer isso você faz o
uso sustentável, mas eu acho que está no conceito de Resex a idéia de que você tem que ter
uma área que garanta a sustentabilidade ecológica da sua área de uso. Não só ter uso
sustentável de uma área, mas ter uma espécie de área de retaguarda dentro da Resex, e não
num mosaico ou em uma lógica de zoneamento maior que garanta a sustentabilidade ecológica.

Renato: E Mamirauá era muito mais preservacionista nesse ponto.


Maretti: No caso da RDS, baseado na prática de Mamirauá, eu acho que a lógica que liderou
eles na gestão prática era a lógica das reservas de uso múltiplo, onde você tem mais que um
objetivo. E eu sou coerente com a minha fala de que cada categoria só é definida por um
conjunto de objetivos, e se RDS e Resex têm objetivos de conservação e desenvolvimento das
comunidades, no caso da RDS pra mim é diferente. RDS é como se fossem duas coisas em uma
só. É uma área como se fosse Resex, com mais flexibilidade, e uma área com proteção integral
também dentro da mesma reserva. É uma idéia que foi, dentro da lógica do movimento
conservacionista, superarada como reserva de uso múltiplo pela noção de mosaico. Então o
conceito como se tratava RDS pra mim é como se fosse um mosaico dentro de uma unidade só.

Renato: Agora, onde dentro do SNUC é mencionada alguma coisa a respeito da necessidade de
se ter uma área de proteção integral dentro de uma RDS? Eu acho que não há. E onde diz que a
Resex não pode ter uma área de proteção integral?
Maretti: Também acho que não diz, mas o que eu estou dizendo é a prática que está sendo
aplicada hoje. A Resex, a área de proteção teria que estar diretamente relacionada a
sustentabilidade da área de uso. Não faz sentido ter dentro de uma Resex uma área de proteção
pela proteção, se não for do interesse da comunidade. Então no conceito de Resex, só é do
interesse da comunidade se é área de uso direto, ou se é área que garante esse uso ou se a
comunidade tem, por alguma razão cultural ou qualquer que seja, um interesse em proteger
aquela área dentro do seu sistema de uso. Pra RDS não. Pra RDS você tem uma lógica de
proteção independente da área de uso, por isso que eu falo de usos múltiplos. O que está
acontecendo nas Resex, é que essa lógica de sustentabilidade da área de uso de interesse
direto das comunidades, não está sendo bem trabalhada de forma que eles só estão pensando
na área de uso direto, e estão garantindo a sustentabilidade ecológica por uma área de proteção
integral ao lado, por um mosaico, etc. Se o conceito que eu entendo é correto, isso faz parte de
uma unidade. Porque a sustentabilidade ecológica faz parte da lógica de uma unidade, ainda
que a proteção geral só seja conseguida por um sistema, um mosaico. Na RDS não. A prática de
Mamirauá é a de que você protege uma área que não tem nada a ver com aquela área de uso, é
a Reserva de Uso Múltiplo. Isso é um mosaico dentro de uma unidade só, com dois conjuntos de
objetivos diferentes. Você pode até ter algum uso na área de proteção, mas é pra proteção. Você

214
pode até ter alguma proteção na área de uso, mas é pra uso. Seria como se fosse uma Resex
junto com uma Estação Ecológica ou Reserva Biológica. E eu acho até que Resex deveria ter
proteção integral para esse fim, ligado ao interesse de uso. Devia ter uma área de não uso, mas
ligada a esse fim direto do uso, e não por si só. E não em uma visão de equilíbrio ecológico
macro, mas em uma visão mais específica.

Renato: Por exemplo, para a reserva da Ponta do Tubarão não era prevista nenhuma área de
não uso, de proteção integral. Você acha que descaracterizaria essa reserva como RDS?
Maretti: Pela imagem que faz a prática de Mamirauá, acho que sim. Pela lei talvez não.

Renato: Não há nada que deixe descaracterizar...


Maretti: Mas aí a interpretação do SNUC tem que ser vista de várias formas. Acho que há pelo
menos três níveis que você tem que levar em conta.O primeiro é quais são os objetivos gerais do
SNUC. Pra que serve UC? Acho que o objetivo é conservação da natureza. Acho que aí que eu
diferencio entre uma RDS, Resex e etc de uma área de assentamento agroflorestal ou
agraoextrativista. O objetivo de conservação da natureza tem que estar no primeiro plano. E
também diferenciaria uma APA de uma área não APA, onde você tem que ter o mínimo de
gestão coletiva pra ter mais qualidade e proteção do que você teria no interesse geral. O
segundo é a descrição de cada categoria, em que você não pode entender RDS só pelo que
está no artigo RDS, mas...

Renato: Mesmo porque está prevista a regulamentação posterior....


Maretti: E o terceiro nível é esse, a regulamentação. E acho que você tem que entender esses
três níveis.

Renato: Por que e em qual situação criar uma RDS é uma boa alternativa? Isso de alguma
forma está repetindo a questão anterior, mas...Inclusive não pensando só nessa
contraposição com Resex, em que casos uma RDS seria uma alternativa mais viável para
conservação?
Maretti: Na minha opinião é difícil pensar RDS de forma abstrata, mas a situação em que ela
poderia caber é se a gente voltar pra definição de Resex mais restrita ao extrativismo. Essa
definição vem sendo aberta, incluindo aí o mínimo de agricultura de subsistência, que faz parte
da estratégia de sustentabilidade econômica das comunidades tradicionais que são extrativistas
ou que são agrícola-extrativistas, incluindo a possibilidade de coleta de recursos...

Renato: Você considera pesca uma atividade extrativista?


Maretti: Nessa definição sim. Você compararia a agricultura, criação de peixes e pesca ao
extrativismo florestal. Nessa condição, se a gente voltasse pra essa definição original de Resex
mais extrativista, ainda que com alguma coisa, mas muito restrita, uma RDS poderia ser uma
alternativa para locais onde o sistema de vida das comunidades é mais diverso, onde a pequena
agricultura é mais importante. Se a gente continuar abrindo Resex para incluir essa condição,
que é uma tendência, que eu não sou contra, então fica muito parecido. Então eu vejo duas
situações em que RDS seria interessante hoje. A primeira é essa, quando os sistemas de vida
da comunidade local é mais diverso e amplo e implica em mais uso agrícola e outros, mas ainda
assim cabe dentro do que a gente definiu antes, dentro do objetivo que a conservação da
natureza e desenvolvimento da comunidade andam juntos e não são contraditórios. Acho que
isso é possível. Então nesse caso, diferenciaria de Resex, mas é possível. O segundo caso é
quando a gente quiser uma reserva de uso múltiplo mesmo. Por qualquer motivo a gente não
quer um mosaico, porque a gente quer uma unidade político-administrativa para aquela área, e
que o mosaico ainda não se consolidou como alternativa, a gente ainda não tem bem claro e tal.

215
Eu vou dar o exemplo do caso da Terra do Meio. A Terra do Meio, nesses últimos tempos,
estava sendo ameaçada inclusive pelo rompimento da sua área em duas, por uma rodovia que
vinha de São Félix do Xingu e pretendia se ligar à BR 163. O grande objetivo de proteger a Terra
do Meio era criar um enorme corredor que unisse as terras indígenas do sul com as do norte e
uma área de proteção da natureza no meio. Se essa estrada acontecesse, grande parte desses
objetivos cairia por terra. Então você fazer um mosaico de unidades que teriam uma fragilidade
no meio, eu acho que nesse momento seria politicamente arriscado. Então essa é uma estação
ecológica que pra mim poderia ter sido claramente uma RDS se o termo já fosse uma coisa bem
consolidada, onde seria uma reserva de uso múltiplo, com grandes áreas de proteção e algumas
áreas de uso, mas uma área gerida como uma unidade política que não tenha a fragilidade que o
mosaico tem hoje. É assim que eu vejo. Agora, estou aberto a perceber, entender outras
potencialidades de uso para essa categoria. Mas eu só vejo essas duas.

Renato: O modo de ocupação humana que leva à criação de uma RDS tem que ser
baseado na ocorrência de comunidades que usam vários recursos, que desenvolvam
usos múltiplos, principalmente baseados na agricultura. É isso?
Maretti: É. Eu diria que tem que ter usos múltiplos e ser mais baseado na agricultura do que no
extrativismo, pra diferenciar da Resex, porque eu não consigo abstrair essa relação. Agora eu
queria mencionar duas coisas aqui. Eu não uso o termo tradicional, eu tenho dificuldade com
esse termo por dois motivos. Como o termo tradicional está ficando super rígido ou está ficando
consolidado e ele é condição para uma Resex, se a gente voltar lá pro conceito, uma Resex
seria criada numa área em que a população, chamada pela maioria de tradicional, já tem um uso
adaptado e isso deve ser protegido para o bem da comunidade e para a conservação da
natureza.

Renato: Só um parêntese: o Rueda, do CNPT, não condicionava a criação de uma Resex à


existência de população tradicional. Ele não concordava com essa amarração...
Maretti: Mas essa amarração está existindo, né?

Renato: Existe, mas não há conceituação consensual do que é tradicional.


Maretti: Mas já tem várias publicações acadêmicas ou feitas por intelectuais da área da
antropologia justificando a legitimação político e social do termo tradicional. Essas comunidades
estão buscando nesse movimento ambientalista uma legitimação pra defender os seus direitos
de comunidade.

Renato: Mas são variados os conceitos. É que nem desenvolvimento sustentável, tem mais de
duzentos conceitos.
Maretti: É verdade, mas eu acho que na prática está se consolidando o termo da seguinte
forma: tradicional é uma categoria que algumas comunidades passaram a usar e que outros
passaram a aplicar às comunidades pra legitimar alguns direitos das comunidades na medida
em que eles são menos agressivos ao ambiente. Não é tanto relacionado à história deles, e sim
ao dano ambiental que eles possam gerar. Então é uma espécie de meio termo entre posturas
radicais que reconhecem direitos de comunidade e posturas radicais ambientalistas que só
reconhecem o direito quando eles são ambientalmente bem-comportados. Eu acho que essa
postura intermediária está se consolidando como uma categoria sócio-política, e isso está em
escritos inclusive de Manuela Carneiro da Cunha, o que dá uma legitimidade acadêmica para
isso.

Renato: Então você acha que quanto menos impactante ao meio, mais tradicional é?

216
Maretti:Isso seria uma conseqüência do que eu falei e que eu não posso concordar, né? Mas o
que eu quero dizer é que aquelas que são muito impactantes ao meio não podem ser
consideradas tradicionais. Então tem que ter alguma coisa que fale sobre o tempo de residência
na área, mas ela é legitimada na medida em que a relação dela com o ambiente não é muito
impactante. Não é o bom selvagem, mas que é admissível um limite de alteração. Não é uma
relação direta de quanto mais harmônico, mais tradicional.

Renato: Uma comunidade mais ou menos isolada que apresenta uma densidade demográfica
baixa, que usa técnicas e apetrechos de agricultura ou extrativismo sem a capacidade de gerar
grandes transformações, então essa seria considerada tradicional. Dentro desse grupo, se
alguém faz um trato com uma indústria de cosméticos ou empreendimento similar, e começa a
fazer corte de madeira com moto-serra. Esse grupo deixa de ser tradicional? O grupo pode
deixar de ser tradicional de uma hora para outra? Um índio de Ray-ban não é mais índio?
Maretti: Eu acho que sim. Mas eu repito, isso não é a minha opinião, é o que eu estou vendo
acontecer. Eu usei isso justamente pra dar a minha opinião que é diferente. Eu acho que esse
último aspecto que você falou ainda não está consolidado. Mas acho que nas duas caricaturas
que você fez, a do índio e da moto-serra, sim. Existe um grupo que defende isso, só que esta
postura ainda não está consolidada. Existe um outro grupo que defende o direito à evolução e
modernização deles, mas que está trabalhando algo que ainda não é muito ofensivo, por
exemplo usar o trato pra tirar o óleo da copaíba. É algo que moderniza e que tem conhecimento,
então esse grupo do outro lado defende a entrada de conhecimento. Não só o respeito ao
conhecimento tradicional, mas a entrada de conhecimento científico para a melhoria da gestão.
Mas na hora que você colocar coisas com muita máquina, muita energia ou símbolos que
claramente não são tradicionais como o Ray-ban, tem grupos que já acham que não é mais
tradicional. E daí esse grupo diz o seguinte: se eles fazem isso, eles têm direitos igual aos outros
brasileiros. Então eles não teriam mais o direito de ter uma área só pra eles. Por que eles têm
direito de ter 50 milhões de hectares pra 10 pessoas quando o pobre, humano, camponês que
usa Ray-ban e moto-serra não tem.

Renato: Mas eu acho difícil acreditar (eu não conheço essa definição da Manuela), que ela
pense nesse sentido.
Maretti: Eu também acho, mas ela, pra não criar polêmica desnecessária, porque ela está
defendendo a construção dessa categoria sócio-política, ela está nesse grupo daqui que defende
uma modernização sem grande impacto, sem grandes coisas. Ou seja, entrada de novos
conhecimentos, melhoria dos meios de produção, mas procurando fugir um pouco da questão do
Ray-ban e da moto-serra. Às vezes a moto-serra é o mais indicado pra conseguir o manejo, mas
...Então o Luis Menezes é uma pessoa interessante pra você conversar sobre isso, porque ele
trabalha exatamente com isso. Manejo florestal comunitário, manejo pesqueiro comunitário,
melhoria do manejo, certificação do manejo, inclusive com exploração madeireira em Resex,
servindo a pólos madeireiros no Acre. Agora, a minha opinião....

Renato: Só pra não perder a oportunidade, você acha que na regulamentação de Resex, por
exemplo, vai ter que ter uma definição mais clara de tradicional?
Maretti: Eu acho que vai ter, não dá mais pra fugir. Porque os termos estão lá. Senão uma
definição de tradicional, uma definição de qual comunidade é aceita dentro do que está definido
como Resex. Aí é uma definição indireta. Na verdade acho que a gente também vai ter que ter
pra Flona e RDS e tal porque, ainda que em algumas situações o termo tradicional não está
explícito, mas a suposição do tradicional está lá porque está nos objetivos gerais do SNUC, está
em outros momentos do texto que fala das comunidades. Eu acho que a definição vai ser
necessária porque já está na lei, mas essa definição pode ser direta ou indireta.

217
Renato: Então na RDS haveria a possibilidade de se contemplar comunidades que não são
essas que hoje são conceituadas como tradicionais?
Maretti: Na minha opinião, sim. Eu usaria RDS pra fugir dessa coisa que está crescendo que é o
uso do termo tradicional e o entendimento do tradicional dessa forma que nós discutimos há
pouco. Então eu aproveitaria o fato de que isso está restringindo, pra RDS ampliar um pouco. E
aí eu acho que tem que ter algumas condições que a regulamentação de RDS vai ter que tratar.
Mas essas condições não seriam tão restritas a esse uso do termo tradicional e à construção
dessa definição por essa categoria sócio-política definida por alguns, dando mais flexibilidade,
por exemplo, pra gente que está menos tempo, pra gente que usa os recursos...

Renato: Você já tem esquematizado essas conceituações?


Maretti: A minha opinião sobre o que é tradicional eu já tenho escrito. Do como usar pra RDS,
não.

Renato: Do tradicional você citou a Manuela, enfim, você tem um...


Maretti: Acho que sim, fiz isso numa consultoria de uns dois anos atrás para comunidades
tradicionais de Mata Atlântica.

Renato: Porque hoje em dia Diegues, John Cordell e vários outros se recusam a querer definir
tradicional. E é uma vertente também.
Maretti: Eu acho que essa definição mais claramente defendida está naquele livro do ISA sobre
a Amazônia, relacionado ao workshop do Probio. Eu teria que verificar isso. Mas eu tenho
alguma coisa escrita sobre isso de um ano e meio atrás. O livro que o ISA lançou a semana
passada tem alguma coisa que eu escrevi sobre isso, mas é mais sobre a questão indígena.

Renato: Na Bahia tem uma série de comunidades que hoje são consideradas quilombolas e a
Aracruz, que disputa terras com elas, não admite a utilização do termo quilombola; eles falam
que são comunidades negras, porque se for usar o termo quilombola, tem que assumir os
direitos que essas comunidades têm perante a lei. A mesma coisa eles faziam com os índios,
que eram chamados de caboclos.
Maretti: E de certa forma essa discussão aconteceu na definição da comunidade quilombola,
depois da constituição foi definido que uma comunidade quilombola não era só um grupo de
foragidos, era um grupo de cultura afro-brasileira. Essa empresa está negando algo que já
aconteceu, está resistindo a uma discussão que já foi feita ...

Renato: Situação ambiental pra criar uma RDS. Você citou Terra do Meio, onde uma estrada
poderia dividir uma área...
Maretti: Se fosse um mosaico...O que está acontecendo hoje em Rondônia e Mato Grosso é
que as unidades estão sendo diminuídas, as estradas estão cruzando e há o risco de perder
unidades por causa das ameaças. Então, o que eu entendo que para uma área ter condição
ambiental para ser declarada uma RDS, primeiro, o óbvio, é ser uma área grande.

Renato: O que é uma área grande pra você?


Maretti: Depende de onde você está trabalhando. Uma área grande na Mata Atlântica é
diferente da Amazônia. Amazônia a gente pode falar em 300, 400 mil hectares pra cima. Pra
Mata Atlântica e pro Nordeste já é mais complicado...

Renato: Cujubim com 2,5 milhões de hectares é uma área razoável pra uma RDS?

218
Maretti: Eu acho enorme, acho que é mais do que devia. Acho que não é errado ser tão grande,
mas o problema é o seguinte, em comparação com o restante. Então pra mim um tamanho de
área para a Amazônia seria entre 300, 400 mil hectares a 1 milhão e 300 mil. Que você tenha
algumas área de uso da comunidade e algumas áreas sem uso. Na prática, em Mamirauá, teria
que ter uma área com uma área de uso e uma área sem uso, dentro de uma lógica que permita
que ela seja definida como uma unidade só. E aí o caso de Terra do Meio foi um exemplo de
ameaça. Uma outra situação, é onde exista essa comunidade que não seja exclusivamente
extrativista, incluindo a pesca, mas que ela tenha interesse e a visão de conservação da
natureza. Mas aí se aproximaria do conceito de Resex, onde a área de não uso seria para a
sustentação ecológica da área de uso. E daí ela seria uma unidade, com a diferença de que ela
não seria tão estritamente extrativista, incluindo aí a pesca. Se a gente for pra questão da IUCN,
ela discorda de reconhecer na qualidade ambiental motivo para a criação da unidade. Ela
entende que é só o objetivo da unidade é que vale. A qualidade é uma decorrência óbvia, mas
ela tem que ser monitorada em uma outra dimensão, que o monitoramento da efetividade da
gestão. Então você pode até criar uma RDS para recuperar aquele objetivo que a RDS teria. O
que eu queria comentar e que é o menos óbvio pra você é que a definição de áreas para a
criação de UCs não pode só seguir critérios científicos, biológicos, ou, até diria, ocidentais. Eu
acho que é a proteção da natureza, mas não é biodiversidade definida por biólogo formado em
faculdade tipicamente ocidental. Eu acho que a definição da importância da conservação da
natureza tem que passar pela diversidade cultural. Quando eu mencionei Resex, eu falei o que
define a sua unidade é o interesse da comunidade. Combinando área de uso direto, área de não
uso e outras áreas que eles tenham algum interesse. Qualquer interesse, inclusive cultural como,
por exemplo, de uma montanha mítica poderia ser motivo suficiente pra criar uma UC, desde que
o objetivo de conservação da natureza esteja diretamente associado. E se isso cai dentro do
grau de restrição, por mais que você fala a definição das categorias é só por objetivo, na prática
e no SNUC é óbvio que é grau de restrição ao uso. Se isso cai dentro dos objetivos e do grau de
gestão de RDS, então ele também merece. Então não é só pela qualidade da natureza....

Renato: Então deixa eu só entender, quando você fala que tem que haver uma pluralidade
cultural, e que não se pode ficar muito baseado nas especialidades acadêmicas ocidentais, isso
é só para as de uso sustentável ou para as de proteção integral também?
Maretti: Não, pra todas. Isso remete às duas justificativas que eu dei. Sendo lógico o que eu
falei antes, ou é uma reserva de uso múltiplo, ou é uma espécie de Resex com mais liberdade de
usos não extrativistas. Nesses dois casos, você perguntou qual é a qualidade ambiental pra uma
área ser considerada RDS, e eu falei isso e mais uma área de proteção de não uso com
qualidade de conservação. Isso mais a área relacionada ao uso direto da reserva. Quando você
define a importância daquela área para a conservação, porque não pode ser só a área de uso
senão vai ser um assentamento agroextrativista, essa importância não é só pra biodiversidade
ocidentalmente definida. A importância pra conservação da natureza, além da área de uso direto,
ela tem que ser definida por uma matriz cultural múltipla. Então a importância da proteção da
natureza é biodiversidade, é água, é locais de interesse sagrado, áreas de referência histórica,
etc. Portanto se ela se aplica a áreas de importância da natureza para uma Resex, uma RDS,
ela também se aplica pra uma Reserva Biológica, Estação Ecológica e Parque Nacional.
Teoricamente o Parque Nacional é o único que reconhece isso desde o início, mas de uma
forma enviesada isso não é explícito hoje e as pessoas esquecem. Um Parque Nacional foi
definido pra ser uma referência nacional, é um marco da nacionalidade. Claro, com toda visão
colonialista, e etc, porque define isso até no novo mundo pra conquistar e demarcar território,
mas ele é culturalmente definido. E pros outros casos não é tão claro assim. Mas um Parque
Nacional pra mim é muito mais culturalmente definido do que uma Resex. Mas na verdade todos
deveriam ser.

219
Renato: Agora, Parque Nacional você pode considerar como de interesse difuso para a
conservação. Então eu posso dar um exemplo hipotético: para o bem do patrimônio natural de
uma nação, haveria a necessidade de se conservar uma área, por exemplo, coberta com
araucárias, pois seria a única no país. Considerando a lógica atual dos gestores do SNUC, os
povos que estariam morando lá teriam que sair porque é necessário conservar essas araucárias.
Dessa forma, o Parque Nacional propicia também uma exclusão cultural, social local em nome
de uma coisa mais ampla, nacional.
Maretti: Eu concordo plenamente com você, mas isso tem a ver primeiro com o mau uso e
também com a seguinte questão: criar unidade de conservação na prática é muitas vezes
ampliar os conflitos. E a gente deveria usar pra diminuir os conflitos. Então também tem gente
que diz que quando você cria uma Resex, você está privilegiando aqueles que já moram e eu
que preciso retirar o meu recurso e que estou longe tenho o direito tolhido. Também esse conflito
pode existir nas áreas de uso sustentável. A história mostra que aconteceu muito mais do jeito
que você falou, mas no caso da Austrália o que está acontecendo é que eles estão conversando
com os aborígines e perguntando se eles querem criar um equivalente ao parque nacional dentro
da terra deles. Se eles quiserem, o governo dá apoio e vai ser uma área de conservação
indígena. E o que está acontecendo é que, em muitas das áreas, esse reconhecimento está
fortalecendo a sua questão cultural.

Renato: Mas eu tenho dúvidas também sobre isso. Você conhece muito bem a Reserva da
Biosfera do Arquipélago dos Bijagós. Eu tenho dúvidas se o reconhecimento por parte do estado
e da UNESCO das áreas sagradas , não irá enfraquecer o ordenamento territorial tradicional.
Isso era uma coisa que eu conversava com os agentes da Casa de Cultura da Reserva, e eles
também não tinham claro se isso não iria descaracterizar uma coisa que foi legítima para eles
durante séculos.
Maretti: E você identificou a postura de um grupo de Manjacos do norte da Guiné-Bissau que
dizia que eles protegiam algumas áreas tidas como sagradas e não admitiam que o governo
impusesse qualquer tipo de proteção oficial a essas áreas..... .Eu concordo com você, mas a
maioria das informações que eu recebo, as demandas que eu recebo vão no outro sentido. Vão
no sentido de que eles querem ver reconhecida “a nossa área porque a gente é mais fraco.
Quando as pessoas reconhecerem, gente pode continuar usando do jeito que a gente usa”. E
alguns dizem que tem que ser reconhecido porque “vocês precisam nos ajudar a proteger,
porque nós não estamos conseguindo mais”.

Renato: Quem cria a demanda de uma RDS? Você acha que tem que haver concordância
formal dos moradores?
Maretti: Sem dúvida nenhuma sim. O que eu não sei é se a gente tem que ficar preso a uma
definição formal, que é o caso da Resex, onde a comunidade tem que fazer a demanda primeiro.
Na prática o que a gente faz é estimular a comunidade da Resex a fazer a demanda. O que,
portanto, rompe com essa formalidade, essa burocracia da demanda vir deles, mas que, por
outro lado, não é ruim porque você se obriga a passar por eles, te obriga a fazer um movimento
que é positivo. Eu acho que quem vai ficar dentro da RDS obviamente tem que ser consultado,
clara e diretamente. Tenho dúvidas se o mecanismo é similar ao da Resex por esse motivo que
eu falei antes. Obviamente se a gente defende uma consulta pública para criação de qualquer
unidade de forma mais conseqüente e ampla, isso também teria que ser considerado até para
uma de proteção integral que ficasse na vizinhança. Mas no caso da RDS, teria que ter cláusulas
parecidas com as da Resex, e se eles não concordarem, tem que criar uma solução pra isso. Ou
tira essa área de dentro da RDS ou alguma outra coisa. Se a comunidade não concorda com a
criação de um parque, não necessariamente a conseqüência tem que ser a não criação de um

220
parque, porque afinal são vários interesses conflituosos que a conclusão do processo pode não
ser a demanda de todos. Eu acho que o Parque Nacional tem que ter expresso o seu processo
de criação e seus conflitos de interesse nacional (difuso ou não) e outros conflitos também.

Renato: De alguma forma você acha que depois desse incentivo dos órgãos executores
do SNUC, para que os moradores encaminhem uma demanda, você acha que tem que
haver um processo de encaminhamento formal da solicitação, como um abaixo-assinado,
por exemplo?
Maretti: Isso é que eu não sei. Porque de um lado burocrático e formal é bobo porque é
burocrático, e de outro te obriga a fazer um movimento. Então eu não tenho opinião formada
sobre isso.

Renato: Enveredando por esse lado mais formal, nas Resex você tem um documento que
comprova que as pessoas estão interessadas. Mesmo que, na prática, isso não queira dizer que
essas pessoas vão concordar com o plano de manejo e etc. Por outro lado você fica muito na
mão se não tem esse compromisso inicial. Há necessidade de se amarrar, de alguma forma, o
compromisso dos moradores de uma RDS também. Como eu vou retirar a concessão de uso de
um cara por ele não obedecer ao plano de manejo, se não tem uma assinatura dele dizendo que
ele concordava com RDS e tinha conhecimento das conseqüências da criação dessa unidade.
Maretti: Uma Resex depois de um abaixo-assinado precisa de consulta pública ou não? Se eu
estou na dúvida se precisa de um abaixo-assinado pra RDS, eu disse que tem que haver algum
tipo de consulta pública. Se você considerar se abaixo-assinado é consulta pública ou não, eu
digo que se na Resex eu não estou tratando, na RDS eu acho que não. Na situação atual,
mesmo que tiver um abaixo-assinado, tem que haver uma consulta pública.

Renato: Quando você fala que tem que haver uma consulta pública, você está repetindo esse
viés que os órgãos públicos adotam. É isto mesmo, apenas uma audiência pública?
Maretti: Talvez eu tenha feito isso inconscientemente e você tenha pego, mas não é essa a
minha intenção. Tem que haver um processo de consulta pública, e não uma consulta pública.

Renato: Porque na reserva do Mandira o processo de consulta pública começou com reuniões
pra explicar o que é uma Resex, quais eram as conseqüências positivas e negativas, direitos e
deveres, formas de gestão, que acabou acarretando um encaminhamento formal de solicitação.
E essa consulta pública continuou, depois desse encaminhamento formal das assinaturas,
discutindo e detalhando todos os aspectos necessários segundo a portaria que existia para a
criação de uma unidade como essa. O plano de manejo, o plano de utilização, as áreas comuns,
áreas de não uso etc. Esse pra mim também é um processo de consulta pública, que foi até
exagerado, porque não havia a premência para a criação da Resex, mas era informação básica
para que os moradores entendessem melhor e tomassem as decisões.
Maretti: Eu conheço pouco o processo, não conheço todos os detalhes, mas acho que nessa
realidade que a gente está discutindo hoje esse é um bom exemplo de consulta pública. Eu acho
que esse é o ideal, e você tem que ter esse espaço. O caso da Terra do Meio é um que eu
defendi algum nível de logística. Na verdade a gente ficou dois anos defendendo Terra do Meio,
inclusive com consultas públicas, porque foi feita toda a discussão da BR 163 na região em
várias reuniões. Então acho que isso também tem que ser considerado no processo, e não só a
reunião formal que aconteceu no final. Por outro lado a consulta feita só com uma reunião local,
não é só a opinião local que conta, e também um interesse mais geral...

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Renato: Que tipo de consulta pública deve ser feita para a criação de uma RDS?
Maretti: Acho que a consulta pública tem que ter o roteiro ideal, mas tem que dar espaço para
as emergências. O caso da Terra do Meio é típico onde algum grau de emergência tinha. Mas a
consulta pública ideal tem que ser um processo que dê pra comunidade entender o que é uma
UC, discutir com a comunidade quais são as categorias mais adequadas e dar tempo deles
fazerem o processo interno de discussão e darem a resposta. Mas que não consulte só o nível
local, acho que o interesse de criação de uma UC tem que respeitar o nível administrativo a que
ela está ligada. Se for o IBAMA, o MMA, é porque a área tem interesse nacional. Isso significa
que de alguma forma há outros interesses mais ou menos difusos que devem ser considerados
na escala correspondente. Entã