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PARA UMA HISTÓRIA DA MOBILIZAÇÃO NEGRA

NO BRASIL

ALBERTO, Paulina L.. Terms of Inclusion: Black Intellectuals in


Twentieth-Century Brazil. Chapel Hill: University of North Carolina
Press, 2011. 396p.

Paulina Alberto nos brinda com o ro, Guerreiro Ramos, Solano Trinda-
livro mais abrangente e completo pu- de, Clóvis Moura, Emanoel Araújo e
blicado até aqui sobre a mobilização tantos outros. Ao se limitar a tratar
da identidade negra no Brasil repu- apenas daqueles que se engajaram,
blicano, e sobre o modo como ativis- através de artigos na imprensa, ou li-
tas negros negociaram a inclusão da vros, seja no protesto, seja no movi-
raça na formação nacional, ou, dito mento social negro, Paulina pode
de outro modo, como o ativismo ne- frustrar a expectativa de muitos lei-
gro, através de seus intelectuais, pen- tores, posto que não faz um trabalho
sou a inclusão dos negros na nação de história das ideias ou de um cam-
brasileira ao longo do último século. po disciplinar. Devido ao seu largo
As suas fontes principais são os jor- escopo temporal e à requerida erudi-
nais e panfletos publicados na im- ção para cobri-lo, Paulina fez esco-
prensa alternativa negra, entrevistas lhas metodológicas e de perspectivas.
com lideranças ainda vivas, os pou- Não há erros factuais graves, mas há
cos arquivos policiais existentes, e problemas de enquadramento, pro-
uma releitura seleta da historiografia, cessos mal esclarecidos – como, por
da sociologia e da antropologia so- exemplo, a industrialização da Bahia
bre os negros no Brasil. nos anos 1960 e 1970 –, e, principal-
Obviamente, elogios precisam ser mente, um uso seletivo da bibliogra-
matizados para evitar o tom de cele- fia existente (deixa de lado escritos
bração. Começo pelo subtítulo do li- em francês e grande número de teses
vro, que pode sugerir que Paulina tra- e dissertações brasileiras), que utili-
taria dos grandes intelectuais negros za os cânones dos estudos de relações
brasileiros, tais como Manoel Querino, raciais brasileiras, mas privilegia a
Evaristo de Morais, Edison Carnei- literatura em inglês. Apenas um

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exemplo: Nelson do Valle Silva es- fia brasileira já deixa entrever, entre-
creveu em 1981 um artigo seminal tanto, a importância que teve o mo-
sobre as 135 cores encontradas pela vimento abolicionista, cujo epicentro
PNAD de 1976, mas seu argumento deu-se no Rio de Janeiro, para toda a
– a concentração da frequência das mobilização e o protesto negro pos-
135 cores em seis ou sete designações terior, tanto em termos de temas,
– é referido a um autor mais recente quanto de enquadramentos discursi-
de língua inglesa.1 vos. Alguns deslizes, como não per-
No entanto, é preciso reiterar, o ceber que o culto às letras e os deba-
livro é um grande esforço, em geral tes gramaticais faziam parte do coti-
muito bem sucedido, de síntese e de diano da República, não sendo parti-
interpretação histórica. Vamos aos culares aos meios negros, existem na
detalhes. interpretação de Alberto. No entan-
Depois de uma breve “Introdu- to, duas novidades devem ser
ção”, Paulina organiza o livro, cro- realçadas: a primeira é que, para a
nologicamente, em seis capítulos – autora, a coincidência entre o desa-
‘Estrangeiros” (1890-1925), “Frater- parecimento da autodesignação “clas-
nidade” (1925-1929), “Nacionais” se dos homens de cor” e sua substi-
(1930-1945), “Democracia” (1945- tuição pelo termo “raça negra” deve-
1950), “Diferença” (1950-1964) e se a que tais intelectuais já não que-
“Descolonização” (1964-1985), rem apenas falar para si mesmos
acrescentando, ao final deles, um epí- (classe média de cor), mas se tornar
logo para tratar da situação corrente. líderes de um grupo social (a raça
A história que Alberto conta co- negra). De fato, ficam claras tanto a
meça em São Paulo, no início do sé- distinção social daqueles que fazem
culo XX, com a substituição maciça tal imprensa (chamada geralmente de
da força de trabalho negra pelos imi- classe média negra), quanto a circu-
grantes europeus e a proliferação da lação dos jornais restrita a este meio.
imprensa étnica. Os negros tornam- Mas como a designação de “classe”,
se estrangeiros em sua própria terra. bastante generalizada, não se restrin-
Nesta datação, a autora segue as pe- gia à imprensa negra, talvez se trate
gadas de quantos a precederam, in- de dois processos coincidentes – o
clusive os intelectuais orgânicos do uso generalizado do termo ‘classe” e
movimento negro. Hoje a historiogra- o elitismo da imprensa negra - indi-
retamente relacionados, sem causali-
dade entre eles. A novidade interpre-
1
Nelson do Valle Silva, “Cor e processo de tativa, entretanto, deve ser registra-
realização sócio-econômica”, Dados, n. 24 da. A segunda novidade é o destaque
(1981), pp. 391-409.

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dado, em sua leitura, à “fraternidade” onalização de suas linguagens e eti-
enquanto tema discursivo para mobi- quetas – intricada rede de sentidos em
lização e resistência. Este tema não que o tratamento deferencial, a arro-
fora realçado em interpretações an- gância e as hierarquias de cor se per-
teriores e, embora Paulina não esta- petuaram. A mobilização negra, ela
beleça elos com o movimento aboli- mesma, patinou e escorregou entre
cionista, claramente está dada para os saudades monárquicas e promessas
historiadores mais uma pista de con- de uma solidariedade social que in-
tinuidade entre o antes e o pós-Abo- cluísse os milhões de descendentes de
lição. indígenas e de africanos subalterni-
Justamente o capítulo “Fraterni- zados. A leitura desse capítulo foi,
dade” foi o que me conquistou por para mim, definitiva para consolidar
primeiro. Talvez porque, recentemen- tal interpretação.
te, tenha vindo da releitura do perío- Em “Nacionais”, o terceiro capí-
do abolicionista o saque para condu- tulo, a interpretação da autora, entre-
zir minhas próprias reflexões. Deta- tanto, passa por tensão extrema. Pau-
lho o argumento: a República no Bra- lina salienta, com razão, que o dis-
sil não equacionou satisfatoriamente curso nacionalista trazido pela revo-
as aspirações de igualdade do seu lução de 1930 e pelo Estado Novo
ideário, substituindo-as pela promes- representou mudança radical no
sa de fraternidade social que deveria modo como a inclusão social dos ne-
acompanhar a liberdade e integrida- gros passou a ser negociada, e que,
de pessoais dos ex-escravos e dos de fato, os negros começaram, a par-
negros. Mas, mesmo esse ideal aca- tir daí, a integrar um mercado de tra-
bou encapsulado por atores conser- balho livre, mas parcialmente reser-
vadores e autoritários, dando margem vado para os brasileiros Ademais, in-
a reações populares e frustrando pro- corporaram a sua cultura, ainda que
fundamente os republicanos negros. de forma amestiçada, ao imaginário
A Abolição garantiu, em 1888, depois nacional. O objetivo do capítulo, en-
de anos de lutas, a liberdade pessoal tretanto, é contrapor duas formas de
a todos os africanos e seus descen- resistência negra ao projeto de nação
dentes, mas a República de 1889 mestiça do Estado Novo, cujo epicen-
claudicou até mesmo para institucio- tro se encontrava no Rio de Janeiro,
nalizar a fraternidade racial que ha- a capital da República: a resistência
via sido um dos motes da retórica do pela cultura, na Bahia, com o reco-
movimento abolicionista. Mergulha- nhecimento semioficial do candom-
mos, assim, como nação, nas trevas blé, e pela política, em São Paulo,
da desigualdade racial e da instituci- com a organização da Frente Negra.

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Acontece que reduzir tal período à onal. Aqui, portanto, uma história da
chave interpretativa da resistência resistência negra teria de ser comple-
negra obscurece exatamente o modo mentada por uma história das forma-
como os negros se tornam nacionais, ções regionais.
ou seja, através de movimentos regi- O capítulo 4, “Democracia”, tra-
onais de negociação. Esta é a princi- ta do surgimento da noção de demo-
pal característica da formação nacio- cracia racial no universo das ideias
nal brasileira, já salientada por políticas negras no pós-guerra. Aqui
Freyre: na interação de classe, raça e aparece uma virtude do método de
região, nenhum grupo – social, racial Alberto: a periodização em tempos
e regional – consegue supremacia in- curtos, às vezes cinco anos, permite-
conteste nesse período. Apenas o Es- lhe um acompanhamento mais cuida-
tado é nacional, pois faltam ainda doso das fontes. Paulina nos conven-
uma burguesia, um operariado, um ce de duas coisas: como a ideia de
campesinato, ou mesmo uma “raça” democracia racial é nova e mais ra-
que abrace todas as regiões do país. dical que a de fraternidade para a cau-
Os negros se formam como minoria sa da igualdade racial; e que os ati-
em São Paulo e no Sul; como mesti- vistas negros, na sua maioria, estavam
ços na maior parte do Brasil; e ape- mal aparelhados intelectualmente
nas na Bahia, em verdade, em Salva- para radicalizar esta noção como o
dor e seu Recôncavo, os negros for- fizeram, por exemplo, alguns soció-
neceram a matéria para a formação logos como Florestan Fernandes,
do alterego da negritude brasileira – Roger Bastide, ou Guerreiro Ramos.
único estado em que a cultura regio- As idas e vindas de muitos ativistas
nal pode ser definida, pelos outros e entre a versão conservadora de demo-
por si mesma, como negra, a cracia racial, como algo já realizado
contrapelo da sua designação mesti- no Brasil, e aquela mais progressis-
ça oficial. A força desse regionalis- ta, de um programa de igualdade de
mo impedirá à jusante que os traba- oportunidades para os negros, é um
lhadores negros e pardos que se des- dos pontos mais marcantes e inova-
locam do Nordeste para São Paulo, dores desse capítulo. Mas a autora
sejam ali absorvidos como negros, consegue também acompanhar, em
passando a ser simplesmente baianos. paralelo, o desenvolvimento da União
A formação racial negra terá de es- dos Homens de Cor e do Teatro Ex-
perar uma nova conjuntura de arru- perimental do Negro, no Rio de Ja-
mação do Estado nacional, a recons- neiro. Sinto falta, entretanto, de um
trução dos anos 1980, para ganhar enquadramento do teatro negro em
alguma força e formar o negro naci- mais longa duração, como fez

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Christine Douxami.2 As diferenças mirar a obra de Edison Carneiro,
políticas entre a vertente de ativistas Solano Trindade, Clóvis Moura, Joel
negros ligados ao TEN e aquela, li- Rufino e outros intelectuais negros
derada por Solano Trindade e articu- marxistas. Só assim poderia entender
lada ao PCB e a UNE, não são devi- o equilíbrio que eles encontraram
damente exploradas. para a tensão entre raça e classe. Te-
A análise do período seguinte, ria, também, forçosamente, de inves-
1950-1964, no capítulo “Diferença”, tigar o modo como a questão negra
se beneficia, de novo, do tempo cur- foi pautada pelo Partido Comunista
to para mostrar como acentuar a par- Brasileiro. Ainda que seja injusto di-
ticularidade da discriminação racial zer que a questão a que me referi não
em relação ao preconceito de classe esteja implícita nesse capítulo, para
foi a forma de resistência encontrada a autora, o conflito entre os paradig-
pela imprensa negra paulista desse mas de raça e classe não aparecem
período. No entanto, Paulina não des- como dilacerando, desde dentro, a
taca suficientemente a disputa, nos uniformidade do protesto negro. É
meios negros, entre a tradição de pro- nesse sentido que acho a polarização
testo racial e a emergente interpreta- que ela ressalta, entre pensadores ne-
ção marxista da história. A questão gros e a sociologia acadêmica, ape-
central a organizar o capítulo não é nas caudatária da questão maior – a
posta de modo claro, a saber: como a pretensão do marxismo de responder
mobilização racial perdeu importân- aos anseios de igualdade dos negros
cia histórica, sendo crescentemente por fora do regime capitalista, mas
subsumida pela mobilização de clas- por dentro dos meios negros.
se dos trabalhadores urbanos e cam- No restante desse capítulo, e to-
poneses, mantendo-se importante mando como palco a Bahia, Paulina
apenas entre os estratos negros mé- inteligentemente se devota a enten-
dios? Na minha opinião, Alberto te- der a construção das bases da dife-
ria que se afastar por um momento rença cultural, a partir dos terreiros e
das suas fontes e procurar outras – e de seus intelectuais, como Pierre
também se distanciar do objetivo de Verger e Vivaldo da Costa Lima, que
encontrar um fio intermitente de re- possibilitará, no período histórico
sistência na imprensa negra – para seguinte, a retomada do movimento
negro em bases autônomas, seja na
2
política, seja na cultura.
Christine Douxami, Le Théâtre Noir
brésilien: une affirmation militante de O último capítulo, “Descoloniza-
l’identité afro-brésilienne (Tese de Dou- ção”, explica ao leitor o nascimento
torado, École des Hautes Études en do movimento negro atual. Trata-se
Sciences Sociales, 2001)

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de leitura bastante interessante de di- minação racial, de Carlos Hasenbalg,
versas fontes, depoimentos de ativis- dará continuidade. Essas foram fon-
tas, originais ou já publicadas, dife- tes de pensamento que vieram de fora
rentes jornais negros no Rio, São Pau- do meio negro, embora intimamente
lo e Salvador, arquivos do DOPS, ligadas às suas lideranças.
entre outros. O que mais me chamou Os desafios enfrentados por Pau-
a atenção foi a interpretação bastante lina não foram de pequena monta: evi-
original que Paulina faz do SIMBA, tar que a periodização e a cronologia
grupo negro ativista carioca, e sua aprisionassem a compreensão do de-
ênfase na força que tiveram os movi- senvolvimento das ideias e dos temas
mentos de libertação e o marxismo utilizados na mobilização negra. A
africanos nos rumos dos movimentos melhor solução seria talvez conside-
negros brasileiros. Ficou para mim rar as ideias e os temas como forman-
evidente que a influência, ainda que do um repertório constantemente ma-
tardia, de Franz Fanon sobre o pen- nipulado e ressignificado, evitando a
samento negro brasileiro deu-se pela armadilha de datar seu surgimento.
via africana. Menos original é sua lei- Nesse caso, como faz falta, insisto, o
tura do que se passa na Bahia, nada estudo do movimento abolicionista!
acrescentando ao que foi reconstruído Mas o maior desafio foi evitar a im-
por Antonio Risério, por exemplo. Já pressão falsa de que houve um
em São Paulo, a herança dos movi- acúmulo gradual de força ao longo dos
mentos negros é muito bem salienta- anos, subestimando os impasses ideo-
da. Paulina Alberto está correta em lógicos (de classe, de raça e de região)
enfatizar o cultivo da herança de e políticos (as alianças e os recursos
mobilização paulistana, quase sem que as possibilitam), que fizeram o
rupturas. Faltou, entretanto, dar o movimento negro brasileiro, no curso
devido destaque à Integração do ne- do século XX, fosse soçobrar, ou
gro na sociedade de classes. O livro soerguer-se em certos momentos, sem
de Florestan, ao reconstruir todo o nunca andar em linha reta. Um enfo-
passado de mobilização negra em São que propriamente sociológico que in-
Paulo e articulá-lo ao desenvolvimen- dague sobre a economia do movimento
to capitalista da cidade e da nação, negro, e seus recursos não apenas te-
serviu de guia para a retomada do máticos, mas também logísticos e fi-
movimento, em bases socialistas, pe- nanceiros, ainda me parece adequado
las velhas e pelas novas gerações, para complementar a perspectiva da
suplantando, finalmente, as fissuras “resistência”.
entre marxismo e protesto negro. Enfim, ganha o leitor uma análi-
Algo a que Desigualdades e discri- se minuciosa da imprensa negra bra-

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sileira do período republicano; leva, tativos em que Paulina Alberto se
com ela, uma síntese muito bem feita enreda nos obrigam a refletir e rea-
das interpretações das relações raci- brir nossas agendas de pesquisa. Tudo
ais no Brasil e da mobilização negra. isso torna Terms of Inclusion uma lei-
Melhor ainda: os impasses interpre- tura obrigatória.
Antonio Sérgio Alfredo Guimarães
Universidade de São Paulo

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