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Como uma teologia ruim prejudica as missões

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March 30, 2017

“O que é uma igreja?”

Essa era a pergunta que mais temia. Eu tinha 28 anos e havia sido promovido de líder
de equipe de missões para diretor regional. Estava sentado em nossa reunião mensal de
líderes, com outros 10 líderes de equipe representando mais de 80 missionários de
tempo integral apoiados, que serviam na janela 10/40.[1] Nossas discussões deveriam
ser motivadoras e encorajadoras, e muitas vezes eram. Falavámos sobre a estratégia de
evangelização e dar frutos, sobre discípulos em crescimento e o potencial de
multiplicação no futuro. Mas, então, alguém faz AQUELA pergunta, ou uma
semelhante. A nossa meta é plantar igrejas? Nós estávamos fazendo isso? E, a
propósito, concordamos mesmo sobre o que é uma igreja? O que faz uma igreja ser uma
igreja?

Eu temi a pergunta porque não sabia a resposta. Pior, sabia por repetidas discussões
infrutíferas que ninguém na sala sabia a resposta. Não sabíamos como definir uma
igreja, muito menos uma igreja boa ou saudável. Qual era a diferença entre uma igreja e
um encontro de 25 estudantes em um campus universitário? Havíamos começado
muitos destes. Qual era a diferença entre uma igreja e 30 profissionais de negócios
reunidos para um estudo bíblico regular?

Essa não era apenas uma questão acadêmica para nós. Pela graça de Deus, tínhamos
testemunhado que Deus estava produzindo frutos maravilhosos através dos nossos
trabalhos. Então, enquanto realizávamos essas discussões, sabíamos que crentes se
reuniriam naquela mesma semana. Essas reuniões eram repletas de pessoas que
havíamos discipulado, muitas das quais esperavam em nós por direção. Rapidamente,
as pessoas descobriram que não tínhamos muito a oferecer.

A mesma história em todos os lugares


Desde meus dezenove anos, quando entrei pela primeira vez no campo missionário, eu
vi e ouvi a mesma história sendo repetida entre organizações e regiões. Muitas vezes os
missionários ocidentais não têm muito a dizer sobre a igreja, pelo menos não com
clareza bíblica. Entre os evangélicos, felizmente, o evangelho em geral permanece claro,
a inerrância da Escritura é comumente afirmada e a importância da teologia é
normalmente reconhecida. Mas, e quanto à igreja?

Pergunte a alguns missionários que você conhece se eles conseguem explicar como o seu
trabalho se relaciona com a tarefa de plantar igrejas, e você terá menos respostas do
que espera. Pergunte-lhes como eles definem a igreja e como é uma igreja saudável, e
você terá menos respostas ainda.

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A realidade é que quando você envia missionários, os apóia e faz parceria com outros
para apoiá-los, você está exportando uma doutrina da igreja. Ao longo dos anos, concluí
que muitas vezes estamos exportando uma eclesiologia ruim.

E os resultados no campo missionário podem ser trágicos.

Como chegamos a esse ponto?


Provavelmente, há muitas coisas que contribuem para o problema. Sugiro três.

1. Igrejas que enviam, muitas vezes, consideram as missões como algo que podem
terceirizar para outros.

Os líderes da igreja são capazes o bastante para lidar com as questões internas da sua
própria igreja; logo, supervisionar e mobilizar missionários amiúde vezes parece estar
além da sua capacidade ou experiência.

Certamente é verdade que buscar agências missionárias para atender a essas


necessidades tem muitos benefícios. Mas o problema com isso é que as igrejas muitas
vezes superestimam o que uma agência de envio de missionários pode fazer. Por
exemplo, nenhum processo de candidatura pode substituir a avaliação do dom e a
qualificação de uma pessoa através do seu envolvimento regular na vida de uma igreja
local. Esse tipo de investigação deve começar no início do processo, e não ser uma lista
de verificação rápida quando um formulário de referência da igreja for repentinamente
necessário.

2. Agências de envio messionário são terceirizadas, mas não têm clareza quanto à
doutrina da igreja.

As agências de envio são criadas com uma determinada ênfase ministerial, ou criam
uma enquanto se desenvolvem. Algumas decidem se concentrar no evangelismo entre
um determinado segmento da população, como estudantes ou profissionais de negócios.
Outros grupos enfatizam a formação de líderes em um determinado currículo teológico.
Outros ainda se concentram em plantar novas igrejas em uma determinada região ou
em meio a um povo específico.

O que parece raro nesses cenários é que a agência avalie adequadamente o “sucesso”
considerando a longo prazo o quão saudáveis serão as igrejas que plantaram. Como um
líder de nível médio na minha agência de envio, lembro-me da luta de viver entre a
tensão de metas organizacionais mensuráveis ​​(quantos grupos novos você começou?) e
o desejo de que nosso trabalho fosse viável a longo prazo. Minhas tentativas de ter
conversas sobre o quão saudável era o nosso trabalho à parte de números absolutos não
iam muito longe.

3. Os próprios missionários não sabem qual é o seu objetivo.

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Diz o ditado: “Mire o nada e você sempre o alcançará”. Todos os missionários no campo
tentam fazer um bom trabalho. Eles compartilham a sua fé, buscam discipular novos
crentes e oram para que Deus abençoe a obra. Esse é um bom começo, mas não é o
mesmo que ter uma perspectiva clara de uma igreja plantada funcionando de forma
bíblica e obtendo os seus próprios recursos para o ministério. Eles não têm essa visão
porque não entendem o que a Palavra de Deus diz sobre a igreja local e o papel central
que ela desempenha no cumprimento da Grande Comissão.

O que pode ser feito?


O que você, como pastor, pode fazer para ajudar a exportar uma eclesiologia melhor?

1. Avalie de forma prática o seu programa de missões.

Como o pastor, você conhece a qualidade das pessoas que está enviando? Sabe o que
essas pessoas realmente estão fazendo no campo? Você pediu que elas descrevessem o
seu trabalho em detalhes? Fez do progresso do trabalho deles uma parte da vida de
oração da sua igreja? Seus líderes e membros investiram para ver a plantação de igrejas
saudáveis ​​por meio dos seus missionários?

2. Considere a primeira viagem missionária de Paulo como um modelo


para missões (Atos 13-14).

Concentre-se na qualidade dos missionários e não na quantidade. O Espírito fez com


que a igreja em Antioquia enviasse Paulo e Barnabé, dois dos seus melhores homens
(Atos 13.2)! Busque incentivar aqueles que já estão ministrando no contexto da sua
igreja a pensarem e a orarem sobre missões.

Faça do trabalho dos missionários uma parte central da vida de sua igreja. O envio de
Paulo e Barnabé foi um tempo de jejum e oração para toda a igreja (Atos 13.3). De modo
semelhante, considere como você pode orar por seus missionários mais consistente em
sua própria igreja. Use a sua oração pastoral e as reuniões de oração da igreja como
momentos para orar regularmente pelo trabalho dos missionários que você apóia e pela
evangelização de pessoas ao redor do mundo.

Incentive os seus missionários a manterem seus olhos na recompensa de plantar igrejas


saudáveis. Paulo e Barnabé não apenas pregavam ou somente discipulavam; eles
continuaram a visitar e pastorear até que fossem nomeados presbíteros em cada igreja
(Atos 14.23). De modo presumível, isso é o que a igreja de Antioquia esperava que eles
fizessem. Portanto, peça aos possíveis missionários que articulem um plano de
ministério que inclua plantar igrejas e pastoreá-las de modo que sejam saudáveis.

Peça aos missionários que se preparem para fazer um relatório completo à igreja. Paulo
e Barnabé reuniram a igreja e “relataram quantas coisas fizera Deus com eles” (Atos
14.27). Durante uma licença recente, fui solicitado pelos conselhos de presbíteros de
várias igrejas apoiadoras a fazer um relatório para eles. Eu amei! No íntimo, os
missionários desejam saber que as suas igrejas apoiadoras estão junto com eles em toda
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tarefa de plantar igrejas no exterior. Também amamos a responsabilidade de saber que
precisamos compartilhar mais do que apenas algumas fotos com pessoas nativas e
sorridentes.

3. Considere fazer mais com menos.

Finalmente, a exportação de eclesiologia ruim provém da ideia ocidental de que “mais”


necessariamente significa mais. Enviamos mais trabalhadores e pedimos a eles mais
resultados. Medimos nosso sucesso em termos de mais profissões de fé e mais igrejas
plantadas, sem perguntar sobre o quão saudáveis são os “convertidos” ou as “igrejas”.
Eu acho que nós inerentemente sabemos que muitos dos sistemas locais visam a
abrangência em vez da profundidade, mas não sabemos como muda-los.

Um começo simples seria, ao longo do tempo, passar a apoiar menos pessoas de uma
forma melhor. Dê mais dinheiro a menos missionários. Guarde algum dinheiro para
enviar regularmente um presbítero para visitar o trabalho desses missionários.
Possibilite que os missionários em licença passem mais tempo em sua igreja. Acima de
tudo, considere o trabalho deles como o seu trabalho. Faça de seu objetivo não apenas
liderar uma igreja saudável, mas ver igrejas saudáveis serem ​​plantadas em todos os
lugares para os quais você está enviando missionários.

#1: N.T.: O termo “janela 10/40” representa uma grande multidão de pessoas que ainda
são alvo de empreendimentos missionários do povo de Deus. Trata-se da área de maior
perseguição a cristãos, abrangendo 62 países, dentre eles: China, Índia, Indonésia,
Japão, Bangladesh, Paquistão, Turquia e Irã. Na “janela 10/40” vivem 97% das pessoas
menos evangelizadas do mundo. Estima-se que haja 1,6 bilhões de muçulmanos,
hindus e budistas vivendo nessa “janela” e em alguns países a igreja cristã tem sido
quase eliminada como resultado da opressão e perseguição islâmica.

Por: Mark Collins. © 9Marks. Website: 9marks.org. Traduzido com permissão.


Fonte: Your Bad Ecclesiology Is Hurting Us

Original: Como uma teologia ruim prejudica as missões . © Ministério Fiel.


Website: MinisterioFiel.com.br. Todos os direitos reservados. Tradução: Camila Rebeca
Teixeira. Revisão: William Teixeira.

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