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Fundo de População

das Nações Unidas

Este livro priorizou aspectos teórico-metodológicos relevantes


para a compreensão das Migrações Sul-Sul, com ênfase no
contexto brasileiro e latino-americano. Possibilitou ampliar
FOTO CAPA:
horizontes interdisciplinares, com a participação de especialistas Copa dos Refugiados, 2014
Marília Calegari Quinaglia
de diferentes áreas do conhecimento e instituições acadêmicas. Observatório das Migrações em São Paulo
Fundo de População
das Nações Unidas

Este livro priorizou aspectos teórico-metodológicos relevantes


para a compreensão das Migrações Sul-Sul, com ênfase no
contexto brasileiro e latino-americano. Possibilitou ampliar
FOTO CAPA:
horizontes interdisciplinares, com a participação de especialistas Copa dos Refugiados, 2014
Marília Calegari Quinaglia
de diferentes áreas do conhecimento e instituições acadêmicas. Observatório das Migrações em São Paulo
MIGRAÇÕES SUL-SUL
MIGRAÇÕES SUL-SUL

Rosana Baeninger
Lúcia Machado Bógus
Júlia Bertino Moreira
Luís Renato Vedovato
Duval Magalhães Fernandes
Marta Rovery de Souza
Cláudia Siqueira Baltar
Roberta Guimarães Peres
Tatiana Chang Waldman
Luís Felipe Aires Magalhães

organização
Universidade Estadual de Campinas
Núcleo de Estudos de População Elza Berquó (NEPO) - UNICAMP
Av. Albert Einstein, 1300 – CEP: 13081-970 – Campinas – SP – Brasil Fone: (19) 35215913
www.nepo.unicamp.br

Reitor
Marcelo Knobel
Coordenadora Geral da Universidade
Teresa Dib Zambon Atvars
Coordenadora de Centros e Núcleos Interdisciplinares de Pesquisa
Ana Carolina de Moura Delfim Maciel
Coordenador Núcleo de Estudos de População Elza Berquó
Alberto Augusto Eichman Jakob

Realização
Projeto Temático Observatório das Migrações em São Paulo
FAPESP – Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo
CNPq – Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico

Apoio: Fundo de População das Nações Unidas – UNFPA

Organização e Revisão Geral :Rosana Baeninger e Adriana Fernandes

Comitê de Publicação
Rosana Baeninger
Júlia Bertino Moreira
Luis Renato Vedovato
Marta Rovery Souza
Natália Belmonte Demétrio
Jóice de Oliveira Santos Domeniconi
Adriana Fernandes
Vinícius do Prado Monteiro

Ficha Catalográfica. Elaborada pela bibliotecária Adriana Fernandes


Migrações Sul-Sul / Rosana Baeninger; Lúcia Machado Bógus; Júlia Bertino Moreira;
Luís Renato Vedovato; Duval Fernandes; Marta Rovery de Souza; Cláudia Siqueira
Baltar; Roberta Guimarães Peres; Tatiana Chang Waldman; Luís Felipe Aires
Magalhães (Organizadores.). – Campinas, SP: Núcleo de Estudos de População ―Elza
Berquó‖ – Nepo/Unicamp, 2018 (2ª edição).
976 p.

ISBN 978-85-88258-46-4

1. Migração Internacional. 2. Migração. 3. Políticas migratórias. I. Baeninger,


Rosana. II. Bógus, Lúcia Machado. III. Moreira, IV. Júlia Bertino. IV. Vedovato,
Luís Renato. V. Fernandes, Duval Magalhães. VI. Souza, Marta Rovery de. VII.
Baltar, Cláudia Siqueira. VIII. Peres, Roberta Guimarães. IX. Waldman, Tatiana
Chang. X. Magalhães, Luís Felipe Aires. XI. Título.
CRB 6332
Índices para catálogo sistemático: Imigração internacional 304.83

Esta publicação contou também com o apoio do Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA).
As opiniões expressas nestes trabalhos são de única responsabilidade dos autores e não
representam, necessariamente, os pontos de vista do UNFPA.
MIGRAÇÕES SUL-SUL

NOVA LEI DE MIGRAÇÃO NO BRASIL:


AVANÇOS E DESAFIOS
Gláucia de Oliveira Assis223

A chegada ao Brasil, nas primeiras décadas do século XXI de


imigrantes haitianos, senegaleses, ganeses, e europeus fugindo da crise na
Europa, bem como, o aumento de pedidos de refúgio, colocaram na ordem do
dia, seja na política governamental, nos jornais, na televisão e nas produções
acadêmicas a questão da política migratória brasileira.
Estes ―novos imigrantes‖, se somaram a outros grupos imigrantes
presentes no país, desde os anos 1980, como os bolivianos e outros latino-
americanos que buscaram no país oportunidades, num contexto que, até 2014,
era de estabilidade econômica e política.
O Brasil vivia, nesse momento, uma visibilidade internacional positiva e
num cenário de políticas migratórias restritivas e de crise econômica mundial, o
país entra na rota das migrações contemporâneas. Ao chegarem ao país, os
imigrantes se depararam com uma legislação da década de 1980 – o Estatuto do
Estrangeiro (Lei 6.815, de 19.08.1980), aprovada nos anos finais da ditadura
militar, que ainda trazia na sua concepção uma perspectiva que tratava o
imigrante com desconfiança e não como sujeito de direitos. O imigrante é
percebido como o estranho, estrangeiro, aquele que não é natural do país e que,
portanto, poderia se constituir numa ameaça, devendo estar sob o olhar atento e
fiscalizador do Estado. O imigrante é tratado como aquele que está distante,
desconhecido, ―o outro‖, que ao se deslocar no espaço e chegar num outro
território é visto como estranho. O imigrante quando chega, pode estar de
passagem ou querer ficar, mas essa sua mobilidade, sua movimentação através
das fronteiras é olhada com desconfiança pelo Estado-Nação. Como bem
observa Seyferth:
O estrangeiro, em particular o imigrante que se estabelece num
outro país sujeito legislação específica, restritiva, e sem direitos
plenos de cidadania, por sua condição de estranho, diferente,
aparece muitas vezes associada a risco imponderável nos

223
Texto apresentado no II Fórum de Imigração e Refúgio em Campinas: a nova lei de migração,
agradeço ao convite de Rosana Baeninger e aos comentários e reflexões dos colegas participantes da mesa
Prof. Dr. Luís Renato Vedovato, Prof. Dr. Clodoaldo Silva Anunciação, Pe Dr. Paolo Parise e aos
comentários de Jana Macedo para essa versão final. Dedico este texto a Giralda Seyferth que nos deixou
em março de 2017. Fica aqui minha homenagem a uma grande intelectual e um grande ser humano, cujas
reflexões são pertinentes para compreendermos as disputas em torno da nova lei de migração e as
persistências de certas noções que aproximam o conceito de migrante ao conceito de estrangeiro. Dedico
também aos imigrantes de todos os tempos por sua coragem de partir e lutar no novo país por uma vida
melhor que implica na busca por políticas de acolhimento e acesso a cidadania.
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MIGRAÇÕES SUL-SUL

discursos políticos de apelo nacionalista (SEYFERTH, 2008, p.


1).
Os estrangeiros continuam, no tempo presente, a desafiar as políticas
públicas de acolhimento e as legislações que buscam tratar da mobilidade
humana através das fronteiras. Na grande imigração do século XIX para o
Brasil, Giralda Seyferth, demonstrou os significados de estrangeiros e
imigrantes se modificavam de acordo com os interesses políticos que definiam
os perfis de migrantes desejados, num contexto de formação do Estado-Nação.
As reflexões da autora, são um ponto de partida importante para
compreendermos como, contemporaneamente, as definições de imigrante, ainda
são alvo de disputa estabelecendo critérios de quem pode entrar, permanecer, ou
mesmo circular pelo território nacional.
Segundo dados da Policia Federal em dez anos o número de imigrantes
cresceu 160%224. A intensificação dos fluxos imigratórios para o Brasil tem
colocado para a sociedade civil e para o Estado a questão das políticas de
acolhimento e integração dos imigrantes, na ordem do dia a necessidade de
aprovação de uma nova lei migratória, que substituísse o Estatuto do
Estrangeiro, considerado por estudiosos, por associações que trabalhavam com
os imigrantes, e por agentes do Estado como uma lei autoritária e com uma
visão do migrante muito perpassada pela ideologia de segurança nacional.
Depois de 37 anos de vigência, com pequenas modificações e após
amplo debate na sociedade civil, nos movimentos sociais e nas organizações de
migrantes, de vários anteprojetos que foram encaminhados e não foram levados
a votação, uma Nova lei migratória foi aprovada, sobre pressão e tensão entre
os grupos de defesa dos imigrantes e aqueles que defendiam um proposta menos
aberta, ainda perpassada pelas ideologias de segurança nacional e da noção dos
riscos que a migração pode causar a nacionalidade.
A despeito dessa tensão, o presidente Michel Temer sancionou com 20
vetos a proposta, de autoria do senador Aloysio Nunes (PSDB-SP), que cria a
Nova Lei da Migração Lei 13.445/2017, foi aprovada de 24 de maio de 2017,
que revogou a anacrônica e ultrapassada legislação anterior - o Estatuto do
Estrangeiro (Lei n. 6.815/80) e a Lei n. 818/49 (que tratava da aquisição, perda e
reaquisição da nacionalidade brasileira).
A lei foi aprovada em meio a pressões contrárias tanto dentro do
governo, como na sociedade civil tendo, por um lado sido alvo de ataques
xenófobos e discriminatórios, e ao mesmo tempo sendo considerada um avanço
em termos de legislação por especialistas, imigrantes e sociedade civil. Na
imprensa circularam algumas imagens por ocasião da aprovação da lei
evidenciam essa tensão. Para a finalidade desse artigo selecionei três imagens
por ocasião da aprovação da lei.

224
Clara Velasco e Flávia Mantovani.
Disponível em: <http://g1.globo.com/mundo/noticia/2016/06/em-10-anos-numero-de-imigrantes-
aumenta-160-no-brasil-diz-pf.html>.
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MIGRAÇÕES SUL-SUL

A primeira imagem pode ser vista na matéria ―Manifestantes protestam


em SP contra nova lei de migração‖225 que aborda o terceiro protesto ocorrido na
Avenida contra a Nova Lei de Imigração. Na imagem homens brancos, alguns
vestidos de verde e amarelo, bandeiras do Brasil e segurando uma faixa com os
dizeres ―não a nova lei de migração o protesto, que apesar de não ter tido muita
participação, teve certa visibilidade na grande imprensa. Era a terceira passeata
organizada pelo movimento Direita São Paulo que pedia que o presidente
Michel Temer que vetasse a nova lei de migração. Os manifestantes
consideravam que a nova lei deixava nossas fronteiras muito abertas a
estrangeiros, o que colocaria em risco nossa soberania nacional. O que chama
atenção na primeira imagem é a noção de que os imigrantes são representados
como ameaça e frases como ―Não à islamização do Brasil‖, ou ―voltem para sua
casa‖. Tais comentários expressam sentimentos de xenofobia e preconceito com
os imigrantes, notadamente, os imigrantes e refugiados que recentemente
chegaram ao Brasil
As duas outras fotos evidenciam algumas faces das migrações recentes:
a primeira, estampa a matéria ―Com sanção da legislação, visão quanto aos
estrangeiros residentes no Brasil passa a ser mais humanista‖ mostra imigrantes,
com pastas de documentos que remetem à chegada de haitianos e outros
imigrantes em várias cidades do país desembarcando numa rodoviária, muitos
deles identificados como haitianos nas legendas e outros apenas na legenda de
imigrantes e refugiados. A segunda mostra mulheres e crianças, numa atividade
de integração cultural. Ambas as matérias sugerem o Brasil como um lugar de
acolhimento de fluxos recentes.
FOTO 1 – Protesto contra a nova Lei de Migração, que trata da entrada de estrangeiros no
Brasil, organizada pelo grupo Direita Paulista, na Avenida Paulista, em São Paulo (SP) –
16/05/2017

Fonte: Fotos de Cris Faga. Fox Press Photo/Folhapress.

225
Sessão Brasil/Mundo. Disponível em: <http://veja.abril.com.br/mundo/manifestantes-protestam-em-sp-
contra-nova-lei-de-migracao/#>. Acesso em: 30 ago. 2017.

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MIGRAÇÕES SUL-SUL

FOTO 2 – Nova lei de migração amplia direitos dos estrangeiros

Fonte: Foto de Marcello Casal Jr. Jornal do Comércio/JC226.

FOTO 3 – Encontro ―Crianças sem Fronteiras‖, que reuniu imigrantes e refugiados


para um dia de lazer e confraternização em Brasília, em março

Fonte: Foto de Marcelo Camargo. Agência Brasil227.

Essas imagens, que fizeram a chamada das matérias sobre a aprovação


da Nova lei migratória, sugerem que a manifestação ocorrida na Paulista fosse
contra alguns desses imigrantes, pois retratam imigrantes trabalhadores,
mulheres e crianças, são imigrantes negros, suas roupas e os locais onde são
fotografados sugerem migrantes em busca de trabalho e refúgio. As duas
imagens também nos remetem às diferenças entre os fluxos migratórios que
chegaram ao Brasil, majoritariamente no final do século XIX e início do século
XX, e os imigrantes que chegaram ao país no primeiro decênio do século XXI.
Enquanto aqueles eram, em sua maioria brancos e vindos da Europa (os
considerados amarelos só viriam no início do século XX, como foi o caso dos
japoneses no Brasil), os migrantes recentes são em sua maioria não brancos
vindos do considerado sul global.
Essas duas imagens nos ajudam a compreender porque a Nova lei de
Migração foi aprovada num contexto de pressão de dois grupos distintos: as

226
Jornal do Comércio.
Disponível em: <https://jcrs.uol.com.br/_conteudo/2017/05/cadernos/jornal_da_lei/562156-nova-lei-de-
migracao-amplia-direitos-de-estrangeiros-no-pais.html>. Acesso em: 30 ago. 2017.
227
Disponível em: <https://www.brasildefato.com.br/2017/05/25/nova-lei-de-migracao-e-sancionada-mas-
vetos-derrubam-anistia-e-outros-19-pontos>. Acesso em: 30 ago. 2017.
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MIGRAÇÕES SUL-SUL

entidades e organizações em defesa dos imigrantes que buscavam aprovar uma


lei migratória que compreendesse a migração a partir da perspectiva dos direitos
humanos e os órgãos de segurança, a Policia Federal e mesmo um movimento
como o Direita São Paulo228 que defendiam uma visão mais securitária das
migrações.
Esta comunicação traz algumas reflexões iniciais sobre os impactos da
Nova lei de migração e dos seus vetos no cotidiano de imigrantes e refugiados
no Brasil contemporâneo. Para tanto organizo a apresentação em dois pontos:
.Destacar o contexto no qual foi aprovada a nova lei de estrangeiros, as pressões
que sofreu, entre a securitização e a compreensão da migração como direito
humano.
.Analisar os avanços presentes na legislação, os impactos dos vetos presidenciais
e as lutas pela regulamentação.

Mas, porque era necessária uma nova lei de migração?


A lei 6.815/1980, é considerada uma lei de cunho autoritário e nela está
presente a lógica da segurança nacional, não contemplando dessa forma uma
perspectiva de direitos humanos, seja de imigrantes estrangeiros no Brasil, seja
de emigrantes brasileiros no exterior (PÓVOA NETO; SPRANDEL, 2010;
REIS, 2011). É, portanto, uma lei anacrônica, defasada, e que necessita
urgentemente de um novo estatuto do estrangeiro, conforme tem sido apontado
por vários estudiosos e um conjunto de entidades, associações e grupos que
trabalham com migrantes. Vejamos detidamente alguns elementos deste
autoritarismo presente nesta lei: já em seu artigo 2º, a lei estabelece que ―na
aplicação desta Lei atender-se-á precipuamente à segurança nacional, à
organização institucional, aos interesses políticos, socioeconômicos e culturais
do Brasil, bem assim à defesa do trabalhador nacional‖ (OBMIGRA, 2014).
Percebe-se, neste trecho, a submissão da política imigratória a, por um lado, uma
razão de Estado, precisamente uma razão de segurança nacional e institucional
de Estado, sob o qual o imigrante é avaliado como um sujeito passível de
controle e vigilância, e, por outro lado, a uma razão de nacional-
desenvolvimentismo, como atesta o parágrafo único do artigo 16º: ―a imigração
objetivará, primordialmente, propiciar mão-de-obra especializada aos vários
setores da economia nacional, visando à Política Nacional de Desenvolvimento
em todos os aspectos e, em especial, ao aumento da produtividade, à assimilação
de tecnologia e à captação de recursos para setores especìficos‖ (OBMIGRA,

228
O movimento Direita São Paulo, foi criado em novembro de 2014 para realizar protestos contra a
então presidente Dilma Rousseff, chamava-se Agenda de Protestos. A partir de março de 2016, passaram
a se chamar Direita Paulistana saindo das páginas da internet para criar um movimento com mobilizações
na rua. Em julho, do mesmo ano, mudaram novamente de novem passando a se denominar Direita São
Paulo, com o objetivo de expandir núcleos pelo Estado. Se definem como uma organização civil que
defende valores conservadores de direita. Informação disponível em:
<https://www.facebook.com/pg/direitasaopaulo/>. Acesso em: 02 set. 2017.
613
MIGRAÇÕES SUL-SUL

2014). Dessa forma, como observaram Rodrigues e Pereira (2017, p. ) a lei


encontrava-se em descompasso tanto com os avanços relativos a proteção dos
direitos humanos (presentes nos tratados internacionais que o Estado brasileiro
tem ratificado e internalizado) e dos direitos fundamentais (previstos na
Constituição de 1988).
Durante três décadas, a política imigratória brasileira emitia um
conjunto muito restrito de vistos (são eles: de trânsito, de turista, temporário,
permanente, de cortesia, oficial e diplomático), não permitindo com isto a
possibilidade de imigrantes advindos de conjunturas de guerra, de desastre
ambiental e de perseguições obterem visto. E neste sentido esta legislação
choca-se frontalmente com a defesa dos direitos humanos do sujeito migrante.
Segundo Rosana Reis (2011):
A principal crítica das organizações que defendem os interesses
dos imigrantes no Brasil diz respeito ao fato de que muitas das
disposições presentes na lei de 1980 estão em flagrante
descompasso com as disposições relativas ao respeito dos direitos
humanos presentes na Constituição de 1988 (ACNUR et al.,
2007). A inconsistência da legislação de 1980 é apontada como
um ponto fraco das demandas do Estado brasileiro para tratar a
questão dos emigrantes brasileiros em negociações e fóruns
bilaterais e multilaterais (REIS, 2011, p. 13).

Segundo Milanesi (2007) o Estatuto do Estrangeiro não estava


amparado em ordenamentos internacionais fundamentados na perspectiva da
dignidade humana e entrava em conflito com a Constituição Federal em seu
artigo 5º que afirma: ―Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer
natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no país, a
inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à
propriedade‖ [...].
Ao defender uma nova lei de migração Melanesi (2007) destaca a
necessidade de uma lei que não considere o imigrante um estrangeiro, um
estranho, mas que aborde a mobilidade humana dentro da perspectiva dos
direitos humanos. Partindo desses princípios a nova lei teria que ser de migração
e não de estrangeiro e incorporar também os brasileiros vivendo no exterior.
Essa é uma mudança muito importante que se afeta a compreensão da migração,
do ir e vir dos migrantes, pois estabelece a migração como um direito humano.
As mobilizações em torno da atualização da legislação migratória
brasileira remontam ao começo da década de 1990. O Brasil desde meados do
século XX voltou a receber uma parcela considerável de imigrantes
internacionais e, mesmo com o aumento expressivo de imigrantes e também de
refugiados, mantinha uma lei migratória considerada um ―entulho autoritário‖.
Esta lei dificultava a regularização migratória, o acesso dos imigrantes a
direitos, pois seus dispositivos tratavam a migração como um problema a ser
contido ou regulado pelo Estado. Ao defender a necessidade de uma nova
legislação migratória, o que se buscava era um novo marco jurídico para
614
MIGRAÇÕES SUL-SUL

compreensão da migração, que revertesse essa lógica autoritária, presente no


estatuto do estrangeiro, que começa pelo abandono do termo estrangeiro e da
adoção da tipologia migrante, conforme observaram Morais et al.:
Ao estabelecer uma tipologia jurìdica do ―migrante‖, o
anteprojeto abandona o conceito de ―estrangeiro‖ (do latim
extraneus, com sentido comum de alheio, esquivo, estranho ou
impróprio, não apenas de conotação pejorativa em nossa cultura,
mas também juridicamente consagrado na lei vigente como um
sujeito de segunda classe, privado, sem justificação plausível num
regime democrática de parcela significativa dos direitos atribuídos
aos nacionais (MORAIS et al., 2014, p. 2).

Tal perspectiva de pensar no migrante e não mais no estrangeiro,


concepção presente na legislação brasileira de 1980 evidencia uma visão da
migração como problema e do estrangeiro como alguém a ser aculturado pelo
Estado Nacional. Giralda Seyferth faz uma análise muito interessante sobre os
termos que historicamente aparecem nas legislações para denominar o migrante
demonstrando como esses termos carregam representações e acerca desse
―outro‖ e como modificaram-se ao longo do tempo.
Conforme observa Seyferth (2014, p. 4):
O estrangeiro, ou alienígena, em particular o imigrante que se
estabelece num outro país sujeito à legislação específica,
restritiva, e sem direitos plenos de cidadania, por sua condição de
estranho diferente, perturba a unidade da nação porque introduz,
no mínimo, a diferença cultural ou étnica, algo quase intolerável
para o nacionalismo.

Giralda Seyferth, não estava falando do Estatuto do Estrangeiro,


aprovado na década de 1980, mas das regulamentações da imigração no século
XIX. No entanto, chama a atenção para a permanência no Estatuto de uma visão
de estrangeiro como ameaça. Recordo aqui a persistência da noção de
estrangeiro nas regulamentações sobre a migração no Brasil, noção que a nova
lei de migração procurou ressignificar para a concepção de migrante como
sujeito de direitos. Por isso o longo percurso do projeto de lei e também o debate
em torno de sua aprovação.
A demanda de uma nova de lei de migração, que já se constituía num
clamor de grupos de imigrantes e de organizações da sociedade civil em defesa
dos imigrantes, se torna mais evidente com o crescimento significativo de
imigrantes que chegaram ao pais entre 2005 e 2015. Se em 2006 tínhamos cerca
de 45.124 imigrantes registrados na Policia Federal, em 2015 esse número era de
117.745 mil.
Num cenário internacional de crise econômica, que ainda não tinha
atingido tão fortemente o Brasil, e do fechamento de fronteiras de destinos
tradicionais dos imigrantes haitianos e africanos, como os EUA, o Canadá e a
França, o Brasil se tornou um dos destinos de migrantes internacionais

615
MIGRAÇÕES SUL-SUL

(PATARRA, 2012; FERNANDES; MELANESI; FARIAS, 2011,


MAGALHÃES, 2014; ASSIS; MAGALHAES, 2016).
Conforme observa Patarra (2012):
O crescimento e a estabilidade econômica do Brasil têm atraído
imigrantes de todo mundo. Em 2011, o Ministério da Justiça
registrou 1,466 milhão de estrangeiros regulares vivendo no país.
Em 2010, eram 961 mil. Esse contexto demanda que órgãos
governamentais e entidades que lidam com o tema trabalhem na
elaboração e implementação de ações visando à proteção dos
direitos fundamentais aos migrantes, com vistas à integração
social (PATARRA, 2012, p. 7).

Esse crescimento foi acompanhado por notícias de jornais, muitas delas


de caráter xenófobo e racista, com as manchetes como: ―invasão de haitianos‖,
manchetes que a partir de 2010 demonstravam por um lado a situação dramática
na qual chegavam os haitianos ao pais e que por outro reforçavam estereótipos
em relação aos imigrantes que em 2011, referindo-se aos imigrantes que
começaram a chegar pelo Norte do país. Silva; Magalhães e Assis (2016)
demonstram analisando a cobertura jornalística sobre a chegada dos haitianos
que as matérias publicadas nos jornais de grande circulação reforçam a
criminalização das migrações a percepção da migração como um problema e por
consequência a subalternização do migrante na sociedade de acolhimento o que
traz consequências na forma como a opinião pública percebe a migração e tem
também consequências políticas e econômicas para os migrantes.
Os haitianos começaram a chegar ao Brasil em setembro de 2010, nas
cidades fronteiriças de Tabatinga e Brasiléia, e logo se converteram em um
―problema‖ que suscitou uma Resolução Normativa Especìfica do CNIg –
Conselho Nacional de Imigração, que, pela primeira vez, desde a Segunda
Guerra Mundial, estabeleceu cotas para a entrada de uma nacionalidade no pais.
Foi a publicação dessa Resolução Normativa229 que instituiu o ―visto
humanitário‖ e que regula a entrada de haitianos no paìs, ao passo que tem
levantado questões significativas sobre a política migratória brasileira. Esta
Resolução, permitiu que os imigrantes haitianos que chegavam ao Brasil passam
a receber visto humanitário permanente com prazo de 5 anos.
Da mesma forma, na esteira da chegada dos haitianos outros grupos de
imigrantes começaram a chegar, os chamados imigrantes da Copa _ os
senegaleses e ganeses – muitos que entraram com solicitação de refúgio,
buscando encontrar uma alternativa para entrada e permanência no pais. Há que
se ressaltar que a lei de refúgio do Brasil é mais moderna e atualizada que o
Estatuto do estrangeiro e que muitos imigrantes começaram se amparar na lei de
refúgio para conseguir entrar no pais. Além desses os refugiados sírios, com o
agravamento da crise na região começaram a chegar no pais.

229
Resolução Normativa n. 97 de 12 de janeiro de 2012 que dispõe sobre a concessão de visto
permanente, previsto no artigo 16 da lei n. 6815 de 19 de agosto de 1980, aos nacionais do Haiti.
616
MIGRAÇÕES SUL-SUL

Nesse contexto, os movimentos de migração e refúgio se cruzam


porque, muitas vezes, a solicitação de refúgio não é concedida ou reconhecida,
como agora acompanhamos as manchetes sobre o grande número de
venezuelanos que tem chegado ao Brasil fugindo da crise econômica e política
naquele pais.
Todos esses novos movimentos de migração e também de pedidos de
refúgio230, evidenciaram a necessidade de uma nova legislação que pudesse
conferir aos migrantes direitos básicos capazes de lhes possibilitar uma condição
de vida mais digna e o acesso a direitos fundamentais garantindo o respeito e a
promoção dos direitos humanos dos migrantes.

A aprovação da nova Lei, entre conquistas e limites


O processo de construção de uma nova lei de migração foi um percurso
longo, outros projetos tramitaram antes da PLS 288/2013. Conforme observa
Oliveira (2017) nesse cenário de intensificação dos fluxos e de discussões acerca
das migrações tramitaram diferentes propostas de leis e normatizações havia
além do projeto MJ /SNJ e do Projeto de Lei apresentado pelo CNIg, surgiram
no PLS n. 288/2013 e no Projeto de Lei n. 5.565/2009, que tramitavam no
Congresso Nacional. Segundo Oliveira (2017), compartilhando das observações
também realizadas por Sprandel (2012), esse projeto de lei, embora apresentasse
alguns avanços, mantinha a política migratória no Brasil baseada num enfoque
instrumental das migrações interacionais.
Um amplo movimento social ocorreu em torno da nova lei migratória
que contou com apoio do Ministério da Justiça, na constituição de uma comissão
em 2013 para a elaboração de um projeto constitui uma comissão de
especialistas que de junho de 2013 a maio de 2014 essa comissão se reuniu com
representantes de órgãos do governo e instituições internacionais, parlamentares,
especialistas e acadêmicos convidados. Além disso foram realizadas duas
audiências públicas com ampla participação da sociedade civil através de
entidades sociais, ongs, associações de migrantes. Uma primeira versão desse
projeto, foi elaborada por uma comissão que reunião representantes do governo
e instituições internacionais, parlamentares, especialistas e acadêmicos
convidados. Foram promovidas audiências públicas com participação de
entidades sociais e da cidadania. As reuniões foram realizadas em diversas
cidades do Brasil para discutir o anteprojeto.
Uma primeira versão desse anteprojeto foi elaborada e discutida de
maneira ampla envolvendo, entidades públicas e sociais, migrantes e

230
A condição de refugiado e assegurada por legislação especifica, Lei 6474, de 22/07/1997), que
reconhece direitos e deveres estabelecidos por convenções internacionais assinadas pelo governo
brasileiro, assegurando refúgio aos indivíduos perseguidos por fundamentados motivos de raça, religião,
nacionalidade, grupo social ou opiniões políticas e que se encontram fora do seu país de nacionalidade ou
não podem ou não querem para ele regressar.
617
MIGRAÇÕES SUL-SUL

especialista. Nesse projeto também foram considerados as discussões e


recomendações encaminhadas pelo COMIGRAR – conferência Nacional sobre
Migrações e Refugio, ocorrida entre 30 de maio e 1º de junho em São Paulo.
Nesse novo anteprojeto, o Brasil passou a abordar a migração a partir da
perspectiva dos Direitos humanos.
O Projeto de Lei do Senado (PLS 288/2013) que é encaminhado para
substituir o Estatuto do Estrangeiro (Lei 6815/1980) contempla vários pontos
desse amplo debate realizado. A proposta já havia sido aprovada em 2015 pela
Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional (CRE) que passou a
tramitar na Câmara dos Deputados sobre projeto sobre Projeto de Lei (PL) n.
2.516/2015. Em dezembro de 2016, um substitutivo da Câmara dos Deputados
n. 7 (SCD 7/2016) de autoria do senador licenciado Aloysio Nunes Ferreira
(PSDB-SP) foi encaminhado, aprovado e retornou para a análise do Senado.
O texto que saiu do anteprojeto foi substituído pelo projeto de lei
enviado pelo senador Aloisio Senador Aloysio Nunes (PSDB-SP), atualmente
ministro das Relações Exteriores, propõe a Lei de Migração para substituir as
duas legislações anteriores (Lei n. 6.815/80) e a Lei n. 818/49). Quando o
projeto de lei chegou ao Senado para votação, havia uma conjuntura política
nacional de grave crise política e econômica, bem como uma conjuntura
internacional de maior securitização, em função da crise dos refugiados e do
medo do terror. O momento de aprovação da lei, enfrentou ainda situações de
xenofobia ocorrendo no país, contra imigrantes e refugiados, pressões que
buscavam conter os avanços propostos pela nova lei.
Uma parcela dos senadores, particularmente a conhecida bancada da
bala, considerava a nova lei da forma como estava, contribuiria para a
diminuição o controle migratório e a vigilância das fronteiras, abrind brechas,
por exemplo, para o ingresso de traficantes e terroristas.
A crítica a esse argumento, colocada pelos defensores da nova lei
afirmam é que:
Embora muitos governos relacionem o aumento da criminalidade
com o incremento da migração, não há evidências desse tipo de
relação. Dados do Ministério da Justiça de dezembro de 2014
demostram que o número de prisões de pessoas de outras
nacionalidades vem caindo nos últimos anos e continua sendo
desprezível se comparado com o total de migrantes regulares no
país (uma proporção de 0,2%, segundo dados de 2015 da Polícia
Federal). Políticas migratórias e de segurança pública têm suas
especificidades e devem ser tratadas separadamente. (DELFIM,
2017, s.p).

A Nova Lei da Migração, Lei 13.445/2017, rompe com o paradigma da


Segurança Nacional presente no Estatuto do Estrangeiro, representando um
avanço em relação a regulamentação anterior, pois abandonou o viés autoritário
presente na legislação anterior. No entanto, embora a perspectiva de
compreender a migração como direito humano esteja presente no projeto e
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MIGRAÇÕES SUL-SUL

represente um grande avanço, pois saiu a categoria de estrangeiro e passa a se


considerar o migrante um sujeito de direitos, tal como o cidadão nacional, o
projeto de lei foi aprovado com 20 vetos. Iniciarei falando das importantes
conquistas que representam modificações na legislação em relação a lei anterior
e que tratam o migrante de maneira mais acolhedora na sociedade de imigração.
São as principais conquistas da nova lei:
.A abordagem da migração a partir da noção de direitos humanos, a não
criminalização das migrações e o combate a xenofobia;
.A nova lei facilitou o processo de obtenção de documentos para legalizar a
permanência do imigrante no Brasil, bem como o acesso ao mercado de trabalho
regular e serviços públicos;
.Os imigrantes não podem mais ser presos por estarem de modo irregular no
país;
.Permite aos imigrantes que se manifestem politicamente, para fins pacíficos,
associando-se a reuniões políticas e sindicatos;
.Como se trata de uma lei de migração a lei aborda também os brasileiros que
vivem no exterior, essa é uma conquista importante para os brasileiros que
vivem fora do pais;
.A nova lei é muito clara no repudio expresso à discriminação e a xenofobia;
.A política de vistos humanitários foi institucionalizada, dessa forma se
consolida o visto humanitário (diferente de refúgio), que atualmente só é dado
de forma extraordinária, a haitianos e venezuelanos.

Os principais vetos foram:

.Artigo 1º o conceito de ―migrante‖. A lei sancionada conta apenas com as


definições de ―imigrante‖, ―emigrante‖, ―residente fronteiriço‖, ―visitante‖ e
―apátrida. Esse veto incide justamente no conceito que a comissão que começou
a trabalhar na nova lei procurou marcar ao trazer a noção de migrante para
substituir a noção de estrangeiro permitindo um conceito mais amplo de
mobilidade. O veto expressa a persistência em querer situar o migrante mais
próximo do estranho e do estrangeiro, do que a percepção do mesmo como um
sujeito em mobilidade no mundo contemporâneo.

.Com relação ao artigo 1º, foi vetado ainda o § 2º que garantia o direito aos
povos originários e das populações tradicionais o direito de livre circulação em
terras tradicionalmente ocupadas. Esse era um ponto importante no
reconhecimento dos direitos de livre circulação das populações indígenas, pois
demarcava o reconhecimento de que os povos indígenas, que vivem nas regiões
de fronteira antes da chegada do homem branco, devem ter o direito de circular
no território garantir sua subsistência. O veto expressa a não compreensão do
modo de vida das populações indígenas e a persistência da lógica da segurança
nacional e da tutela dessas populações. O veto também é contrário ao

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MIGRAÇÕES SUL-SUL

estabelecido na constituição brasileira artigo 231 que trata dos direitos dos
povos indígenas e as normas internacionais que estabelecem e regulam a livre
circulação de populações tradicionais através das fronteiras.

.Parágrafos §§ 2 o e 3 o do art. 4 o e alìnea d do inciso II do art. 30 ―§ 2 o Ao


imigrante é permitido exercer cargo, emprego e função pública, conforme
definido em edital, excetuados aqueles reservados para brasileiro nato, nos
termos da Constituição Federal. O veto ao direito dos migrantes de exercer
cargo, emprego ou função pública. Nesse artigo, embora tenha sido reconhecido
o direito de associação e de filiação sindical, o que é uma conquista importante
para os migrantes, não foi permitido o exercício de cargo ou função pública o
que é considerada uma restrição ao acesso a cidadania para os imigrantes.
.Parágrafo único do art. 37 e inciso IV do art. 40 ―Parágrafo único. A concessão
de visto ou de autorização de residência para fins de reunião familiar poderá ser
estendida, por meio de ato fundamentado, a outras hipóteses de parentesco,
dependência afetiva e fatores de sociabilidade‖ veto a extensão da autorização
de residência a pessoas sem vínculo familiar direto. Esse veto é considerado um
retrocesso, pois não considera arranjos familiares contemporâneos, que envolve
laços de afeto entre pessoas com longa convivência familiar, fora dos conceitos
mais tradicionais de família.

.§ 4 o do art. 113 ―§ 4 o São considerados grupos vulneráveis os solicitantes de


refúgio, os requerentes de visto humanitário, as vítimas de tráfico de pessoas, as
vítimas de trabalho escravo, os migrantes em cumprimento de pena ou que
respondem criminalmente em liberdade e os menores desacompanhados. ‖O
veto a esse artigo deixa desprotegidos justamente aqueles grupos que mais
necessitam de acolhida e proteção, tendo como justificativa uma visão
securitária da migração, pois argumenta-se que poderia abrir para entrada no
país de pessoas que respondem criminalmente.

.Artigo 118 – que tratava da anistia aos imigrantes que tivessem ingressado no
território nacional até julho de 2016. Esse veto é considerado uma atitude
antidemocrática, pois é um procedimento adotado com frequência no momento
de implantação de uma lei conceder anistia aqueles que já residiam no pais, para
possibilitar a regularização de imigrantes não documentados que já viviam no
país. Para tentar garantir a anistia aos Imigrantes que já residiam no pais quando
da aprovação da nova Lei, foi encaminhado o PL 7876/2017 foi apresentado no
último dia 13 de junho e tem como autor o deputado federal Orlando Silva (PC
do B-SP) – que propõe a anistia migrantes.

Apesar dos vetos, a nova Lei de Migração ainda é considerada uma


conquista dos movimentos sociais, dos migrantes e de entidades da sociedade
civil organizada por abolir o Estatuto do Estrangeiro e seu paradigma de ver
todo e qualquer não-brasileiro como uma ameaça à soberania nacional. E o que
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MIGRAÇÕES SUL-SUL

se espera agora é que a regulamentação reafirme as conquistas e não a torne a lei


mais restritiva, como temem alguns analistas.
Ao debater a nova Lei, no deve-se considerar a conjuntura nacional e
internacional, conforme observou Fabrício Toledo de Souza (Cáritas-Rio),
―apesar do discurso e dos princìpios que a fundamentam, a nova Lei será
interpretada em um contexto de maior restrição e regulamento dos fluxos
migratórios -majoritariamente mistos-, caracterizado por uma forte retórica
conservadora e um aumento da xenofobia, pelo menos em relação às suas
formas de expressão‖.
Dessa forma, observa-se, por exemplo, que a despeito do visto
humanitário estar previsto na nova lei, a tendência é da redução de sua
concessão. A fala de Romero Jucá "Eu defendi e continuo defendendo o
fechamento para os pedidos de refúgio"231, quando se refere a situação dos
venezuelanos e considera que eles não fazem jus aos vistos humanitários, é uma
sinalização de que, embora a lei tenha sido aprovada, a sua implementação e
interpretação estão relacionadas a conjuntura social e política.

Considerações Finais
Tem gente que chega e quer ficar
Tem gente a sorrir e a chorar
E assim chegar e partir...
(Encontros e Despedidas, Milton Nascimento/Fernando Brant)

Num mundo em movimento as leis migratórias desafiam a


governabilidade uma política que compreenda a migração a partir da percepção
que migrar é um direito humano, é uma sinalização de que pretendemos acolher
os migrantes o que coloca o Brasil numa posição importante num cenário
internacional de políticas tão restritivas. No entanto, o contexto político nos
causa preocupação e sinaliza para importância na regulamentação da lei de
garantir mais espaço para participação social e para as representações migrantes.
Zygmunt Bauman (1999) no seu sobre a globalização nos leva a refletir
sobre quem circula no mundo contemporâneo, ao dividir aqueles que se movem
através das fronteiras entre turistas e vagabundos nos demonstra quem pode
circular no mundo globalizado, evidenciando como os trabalhadores migrantes
são colocados, muitas vezes, nas categorias de vagabundos de migrantes não
desejados.
A nova lei migratória procurou retirar o ranço autoritário das legislações
anteriores, mas convive com as contradições e paradoxos de um pais que tem
um discurso de acolhimento aos imigrantes, mas ao mesmo tempo, continua
tratando certos grupos de migrantes na categoria de indesejados e cria
mecanismos que podem favorecer a migração qualificada produzindo

231
Romero Jucá propõe que o Brasil negue refúgios aos venezuelanos. Disponível em:
<http://www.gazetadopovo.com.br/mundo/romero-juca-propoe-que-brasil-negue-refugio-a-venezuelanos-
1z1ims2pagi0f3w9671wr70az>.
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MIGRAÇÕES SUL-SUL

seletividade migratória. Traduzir a nova lei para novas práticas de acolhimento


e diálogo intercultural com os migrantes contemporâneos permanece um desafio
a ser enfrentado, pois tem gente que chega e quer ficar ... e aqui construir uma
nova vida. Migrar, é um direito humano.

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