Você está na página 1de 6

UNIDADE 1 – FERNANDO PESSOA

Soluções das Leitura de Texto

PÁG. 14
Esta breve atividade tem 2 objetivos:
1.º Promover um momento de interação regulada, que antecipe a prática do diálogo
argumentativo, mais adiante explorado, aplicado ao desenvolvimento do espírito crítico.
2.º Antecipar o contacto com o grande lema que está na origem da complexidade da obra de
Fernando Pessoa: Conhece-te a ti mesmo.

PÁG. 27
LEITURA DO TEXTO
1. A. V; B. F; C. F; D. V; E. F; F. V; G. V; H. F; I. V; J. V; K. F; L. F; M. V
1.1
B. O mundo ficcionado é «igual a este mas com outra gente».
C. Os amigos inventados não desapareceram − «ainda hoje, a perto de trinta anos de distância,
oiço, sinto, vejo. Repito: oiço, sinto, vejo… E tenho saudades deles»
E. Depois de escrever os poemas de Alberto Caeiro, Pessoa escreveu em seu próprio nome – «foi
a reação de Fernando Pessoa contra a sua inexistência como Alberto Caeiro.»
H. Álvaro de Campos foi criado em oposição a Ricardo Reis.
K. Escrever em nome de um ou de outro heterónimo é fruto de um impulso que difere de caso
para caso.
L. Bernardo Soares é um semi-heterónimo que, segundo Pessoa, tem semelhanças com Álvaro
de Campos e com o próprio Pessoa.

PÁG. 30
LEITURA DO TEXTO
2. 1. d.; 2. a.; 3. f.; 4. c.; 5. b.; 6. e.

PÁG. 35
LEITURA DO TEXTO
1. «O poeta é um fingidor» é a tese apresentada no poema. Significa esta afirmação que, no
poema, o poeta finge uma dor que não coincide com a dor sentida na realidade. Esta, ainda
que funcione como ponto de partida para a escrita, não é a dor escrita, que é uma invenção
(uma transfiguração) criada pela imaginação. É este o sentido da contradição presente nos vv.
3 e 4.
2. Os leitores, ao lerem o poema, sentem uma dor que não é a que o poeta sentiu, nem a que
ele escreveu, uma dor que lhes é alheia.
3. A última estrofe apresenta, metaforicamente, a relação entre a razão e o coração. O
coração é um comboio de corda, um brinquedo que se move regulado pelas calhas em que gira.
A razão é uma realidade à parte, mas simultaneamente estimulada (entretida) pelo coração.
4. Segundo o texto, a criação poética assenta no fingimento, na medida em que um poema
não traduz aquilo que o poeta sente, mas sim aquilo que imagina a partir do que anteriormente
sentiu. O poeta é, pois, um fingidor que escreve uma emoção fingida, pensada, por isso fruto
da razão e da imaginação e não a emoção sentida pelo coração, que chega ao poema
transfigurada pela imaginação. Quanto ao leitor, não sente nem a emoção vivida pelo poeta,
nem a emoção por ele imaginada no poema, mas apenas a que nele próprio é suscitada pelo
poema, e que é diferente da do poema. A poesia (a arte) é a intelectualização da emoção.
5. auto + psico + grafia
Tendo em conta o significado de cada elemento, autopsicografia remete para a análise dos
mecanismos psicológicos envolvidos na escrita.
6. Estrutura formal
Regularidade formal: 3 quadras de versos de redondilha maior, com o esquema rimático abab
(rima cruzada).

PÁG. 36
LEITURA DO TEXTO
1. Ao escrever, o poeta utiliza a imaginação e não o coração.
2. As emoções (sonhos, vivências, ausências, perdas) são semelhantes a um terraço que dá para
uma outra realidade mais bela, a realidade imaginada, a arte, com a sua dimensão estética.
3. «Essa coisa é que é linda.»
4. O poeta escreve distanciado do que sentiu anteriormente («escrevo em meio / do que não
está ao pé»), sem emoção («livre do meu enleio»).
5. O último verso é claramente irónico, uma espécie de piscadela de olho ao leitor que ao ler
os versos sentirá qualquer coisa de completamente diferente do que o poeta sentiu.
6. Estrutura formal
O poema apresenta uma grande regularidade formal: é constituído por três estrofes de cinco
versos de seis sílabas métricas, com o esquema rimático ababb ou seja, rima cruzada e
emparelhada.
7. Os poemas «Autopsicografia» e «Isto» têm como tema comum o fingimento artístico,
funcionando ambos como uma espécie de arte poética na qual o poeta expõe o seu conceito
de poesia como intelectualização da emoção.

PÁGS. 37-38
LEITURA DO TEXTO
1. A primeira parte corresponde às três primeiras quadras, cujo foco é a ceifeira; a segunda
parte corresponde às três últimas quadras, cujo foco é o sujeito poético.
2. O canto da ceifeira brota de uma voz simultaneamente alegre e triste, é suave e musical
como um canto de ave.
A metáfora «Ondula» e a comparação entre a voz e o «canto de ave» são particularmente
expressivas na caracterização da suave musicalidade; a antítese «alegra e entristece» evidencia
o contraste dos efeitos da perceção do canto pelo sujeito, cuja consciência capta a tristeza que
subjaz à alegria da ceifeira.
3.1 O adjetivo «pobre», anteposto ao nome «ceifeira», expressa a apreciação subjetiva que o
sujeito poético faz da mulher − «pobre», porque não sabe. Se o mesmo adjetivo estivesse
colocado depois do nome, indicaria a condição social da ceifeira.
3.2 Deixa-o alegre e triste.
3.3 A ceifeira canta «sem razão» (sem pensar). Ao contrário, o sujeito, que sente tristeza e
alegria ao ouvir o canto, pensa no que sente, não consegue sentir sem pensar. Nele, a sensação
converte-se em pensamento, intelectualiza-se.
3.4 O sujeito poético gostaria de ser a ceifeira com a sua «alegre inconsciência», gostaria de
sentir sem pensar, mas gostaria, simultaneamente, de ser ele mesmo, ter a consciência de ser
inconsciente. O que o sujeito poético deseja é não sofrer da dor de pensar, unir o sentir ao
pensar.
4. Ciente da dor de pensar, é com tristeza e desolação que o sujeito poético afirma a
consciência do peso da ciência, da lucidez, do pensamento, que impede que a vida, tão breve,
seja vivida inconsciente e alegremente.
5. O sujeito poético deseja libertar-se da dor de pensar e deixar-se invadir e guiar pelas
sensações despertadas pela Natureza − o céu, o campo − e pela canção da ceifeira. Este desejo
de sentir equivale ao desejo de não pensar.
6. Flexão verbal – na primeira parte (est. 1, 2, 3) é utilizado, na 3.ª pessoa, quase
exclusivamente o presente do indicativo que presentifica o confronto entre o poeta e a
ceifeira; na segunda parte (est. 4, 5, 6) é utilizado sobretudo o imperativo, que traduz o
apelo/desejo do poeta de ser como a ceifeira; o gerúndio (Julgando-se, pensando, levando-
me) está também presente, atribuindo um aspeto durativo à ação.
Pontuação – as frases imperativas, que exprimem apelo/desejo, são exclamativas, cheias de
intensidade emotiva.
7. Comparação de poemas
O tema é o mesmo em ambos os poemas − a dor de pensar provocada pela intelectualização do
sentir, que anula esse sentir. O poeta gostaria de ser como a ceifeira, ter a sua alegre
inconsciência, mas, ao mesmo tempo, saber que era possuidor dessa inconsciência. Do mesmo
modo, gostaria de ser como o gato que apenas sente («sentes só o que sentes») e, por isso, é
feliz («És feliz porque és assim»), enquanto o poeta pensa («vejo-me e estou sem mim, /
conheço-me e não sou eu.»).

PÁG. 40
LEITURA DO TEXTO
1. Poderemos considerar que o poema se organiza em três partes, correspondendo a primeira
às duas primeiras estrofes, a segunda à terceira estrofe e a terceira à quarta estrofe.
2. Na primeira parte, o sujeito poético apresenta a hipótese de ser possível a concretização do
sonho.
2.1 A formulação da hipótese socorre-se de diversos processos linguísticos. Destacam-se as
orações condicionais («se é sonho, se realidade / Se uma mistura...»), a utilização repetida
do advérbio de dúvida talvez, o uso do conjuntivo (deem).
2.2 O poema inicia-se com a 1.ª pessoa do singular, que traduz a reflexão pessoal, mas, ainda
na primeira estrofe, o sujeito poético passa a utilizar a 1.ª pessoa do plural, que generaliza o
âmbito da reflexão àqueles que sonham, sem deixar o sujeito de estar implicado nessa
categoria. Contudo, esta 1.ª pessoa do plural marca a passagem para a reflexão filosófica,
passagem que é evidenciada pelo uso da 3.ª pessoa em expressões como essa terra se pode ter,
Só de pensá-la cansou pensar, Sente-se o frio de haver luar. No final do poema, retoma-se o
uso da 1.ª pessoa do plural, generalizador e aglutinador de sujeito poético + homens: «Que o
bem nos entra no coração. / É em nós que é tudo)».
2.3 A ilha é a representação do sonho. Ligada a esta representação está a ideia de felicidade,
de paraíso alcançado, na terra de suavidade, com palmares, áleas, sombra e sossego, onde a
vida é jovem e o amor sorri.
3. A conjunção coordenativa adversativa «Mas».
3.1 A hipótese de realização do sonho é agora anulada, já que, uma vez realizado, o sonho
deixa de o ser, logo, a concretização é falsa.
4.1 Não é com sonhos longínquos, nem com objetivos distantes que a felicidade se encontra,
pois aquilo que procuramos está dentro de nós mesmos.
4.2 «É em nós que é tudo». Por um lado, esta afirmação sintetiza uma das principais linhas de
pensamento da poética de Fernando Pessoa ortónimo, na medida em que coloca na primeira
linha do ser a procura de si mesmo. No entanto, também a procura do que está para além, a
distância, o longe, é tema fundamental nesta poesia.
5. O sonho era a distância, o ali, aquela terra, essa terra; uma vez atingido é a realidade, nesta
terra, onde o mal não cessa, não dura o bem.
5.1 O sujeito poético começou por colocar como possibilidade a realização do sonho; depois
anula essa hipótese, considerando que, uma vez realizado, o sonho deixa de o ser; finalmente,
conclui que não é necessário fugir para o sonho, porque aquilo que procuramos está dentro de
nós mesmos. No entanto, à boa maneira de Pessoa, no fim do poema, retoma a ideia inicial,
reafirmando a supremacia do sonho sobre a realidade: «É ali, ali, / Que a vida é jovem e o amor
sorri».
6. O tema central do poema é o binómio sonho/realidade.
7. A regularidade métrica (versos de 9 sílabas), a rima, as repetições, as aliterações, a
interrogação são os processos que mais contribuem para a musicalidade do poema.

PÁG. 41
LEITURA DO TEXTO
1. A afirmação «Contemplo o que não vejo», aparentemente contraditória, significa que o
sujeito poético vê o que está para além da realidade.
2. «muro» − metáfora da fronteira entre realidade e sonho; fronteira que estabelece os limites
do eu.
3. «Tudo é do outro lado».
4. Desde o 1.º verso que realidade e sonho se confundem. Na 3.ª estrofe, ao afirmar «Tudo é
do outro lado, / No que há e no que penso», o sujeito poético reafirma essa confusão, pois
transfere a realidade (o que há) para o lugar do sonho (o outro lado). Na última estrofe, a
confusão é explícita, quando o poeta afirma «Confunde-se o que existe / Com o que durmo e
sou», acrescentando-se, assim, a confusão entre o mundo exterior (o que existe) e o mundo
interior (o que sou), que é, afinal, a confusão entre a sua individualidade e a realidade.
5. Talvez a contradição final não possa ser explicada, mas é também possível que o sujeito
tente exprimir, através dela, a sua incapacidade de sentir (porque a imaginação se sobrepõe à
sensação/ emoção), ao mesmo tempo que afirma a sua angústia.

PÁG. 43
LEITURA DO TEXTO
1. D.
2. A.
3. C.
4. C.
5. B.
6. B.
7. C.
8.1 Antecedente do pronome ele: «o texto».
8.2 Oração coordenada adversativa: «mas a peça só ficaria a perder com a sua mudança».
Oração subordinada adverbial temporal: quando ele é tão rico em sonoridades e recursos
estilísticos.
8.3 Respetivamente, complemento do nome e predicativo do sujeito.

PÁG. 45
LEITURA DO TEXTO
1.1 A criança.
1.2 O sujeito poético afirma que, para crescer e chegar ao presente («ser quem sou»), teve de
deixar para trás a criança que foi. No entanto, concluindo que no presente é nada, tem o desejo
impossível de regressar à infância e recuperar a criança deixada no caminho.
2. O sujeito poético exprime angústia e vazio interior, provocados pelo desconhecimento da
sua identidade («Já não sei de onde vim nem onde estou. / De o não saber, minha alma está
parada.»), ao mesmo tempo que reconhece a impossibilidade de um regresso à infância como
solução de reencontro de si mesmo («Quem errou / A vinda tem a regressão errada.»).
3. Perante a impossibilidade de regressar à infância, o sujeito poético resigna-se com a
possibilidade da memória («Um alto monte, de onde possa enfim / O que esqueci, olhando-o,
relembrar»), que lhe permita vislumbrar a criança que foi e encontrar em si um lampejo do que
foi.

PÁG. 47
LEITURA DO TEXTO
1. Colagem/Interseção
A colagem é utilizada no poema, cruzando e colando dois planos distintos que, intersecionando-
se, acabam por se misturar:
− o concerto no teatro, com o seu maestro, a que o poeta assiste;
− a memória da criança-poeta que joga à bola no quintal.
2. Progressão da colagem
− 1.ª estrofe: «a música rompe» e estimula a memória da infância: «Lembra-me a minha
infância, aquele dia». À infância corresponde o pretérito imperfeito.
− 2.ª estrofe: «Prossegue a música», mas a infância já não é apenas memória, invade o presente:
«e eis na minha infância / de repente entre mim e o maestro». À infância corresponde, agora,
e até ao fim do poema, o presente do indicativo.
− 3.ª a 6.ª estrofes: a infância presentificada confunde-se com a realidade presente do concerto
no teatro, o passado sobrepõe-se euforicamente ao presente, a imaginação-memória sobrepõe-
se à realidade.
− 7.ª estrofe: «a música cessa» e, lentamente, disforicamente, a infância desaparece: «A bola
rola pelo despenhadeiro dos meus sonhos interrompidos»; «Bola branca que lhe desaparece
pelas costas abaixo…».
3. Palavras coladas, mudadas
A colagem entre os dois planos passa pela colagem das palavras e expressões que ganham um
sentido completamente novo e inesperado, modernista (recordar, a este propósito, o texto da
pág. 16). Deste uso novo e transgressor das palavras resulta um texto que cria uma realidade
também nova e no qual poderão assinalar-se, pelo seu particular interesse, as metáforas, as
personificações, e a adjetivação.
4. Técnica modernista
Será interessante complementar a leitura deste poema com a observação de reproduções de
pintura modernista nas quais seja utilizada a técnica da colagem.

PÁG. 48
ORALIDADE
A nostalgia da infância é um dos temas fundamentais da obra de Fernando Pessoa ortónimo,
partilhado pelo heterónimo Álvaro de Campos (ver poema «Aniversário», pág. 64).
a. Para Pessoa, a infância é o passado irremediavelmente perdido, o tempo longínquo em que
era feliz sem saber que o era, o tempo em que apenas sentia, inconsciente daquilo que sentia,
sem pensar. Era o tempo em que ainda não procurava conhecer-se e, por isso, era um ser uno,
não fragmentado em diversos eus: «E eu era feliz? Não sei: / Fui-o outrora agora»; «Numa onda
de alegria que não foi de ninguém».
b. Em muitos poemas, o poeta exprime a memória dessa infância suscitada por um qualquer
estímulo – uma «velha música», um som («Quando as crianças brincam / E eu as oiço brincar»),
uma imagem, uma palavra −– para concluir amargamente que o rosto da criança que foi não se
ajusta ao seu rosto presente, não há coincidência entre o eu-outrora e o eu-agora.
Em Pessoa, a passagem da infância à idade adulta não é um processo evolutivo e tranquilamente
natural, é um processo de rutura, de corte, de morte. «A criança que fui vive ou morreu?»,
interroga-se lancinantemente o poeta que diz ainda: «Porque não há nenhuma semelhança /
Entre quem sou e fui?». Todo o poema «Porque esqueci quem fui quando criança?» exprime
essa estupefação perturbante de se sentir habitado por outro, diferente da criança que foi:
«Sou outro? Veio um outro em mim viver?».
c. Desta forma, o passado e o presente opõem-se, não se complementam. O passado é
infância, alegria, felicidade inconsciente; o presente é nostalgia, ânsia, desconhecimento de si
mesmo e do futuro: «Se quem fui é enigma / E quem serei visão, / Quem sou ao menos sinta /
Isto no coração.».