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UNIVERSIDADE ESTADUAL DE SANTA CRUZ

Pesquisa apresentada pelos discentes


Clécia Azevedo, Daniel Medina, Leila
Carolina Sacramento e Marta Elma
Carvalho, como avaliação parcial da
disciplina Cultura Brasileira e Produto
Cultural, ministrada pelo Professor Dr.
Fernando José Oliveira de Reis, no I
semestre da Pós-Graduação em Gestão
Cultural.

Ilhéus – Bahia
Outubro de 2020
1. A NATUREZA DO PRODUTO CULTURAL

A tradicional Festa de Iemanjá, realizada há pelo menos noventa e cinco


anos, é uma manifestação popular celebrada por uma comunidade de
pescadores do Bairro Rio Vermelho, em Salvador. Originalmente, a celebração
de Iemanjá descende da vivência dos cidadãos africanos que se estabeleceram
na cidade e utilizavam a pesca artesanal como meio de sobrevivência. Em 2019,
ela teve sua dimensão como bem simbólico ratificada, após a obtenção do
registro de Patrimônio Imaterial Municipal, conforme consta no dossiê
apresentado pela Secretaria de Municipal de Cultura e Turismo (SECULT 2019).
A manifestação representa a associação entre questões como cultura
popular, religião, território, identidade e festejo. De acordo com a pesquisa
apontada pelo IBGE (2018), a cidade de Salvador é a cidade com maior número
de negros do Brasil. O contexto histórico de ocupação e formação do município,
baseado na exploração de mão de obra escrava negra oriunda, em sua maioria,
do continente africano, contribuiu para sua atual configuração sociorracial.
Além do aspecto de miscigenação dos povos, Salvador ocupa no cenário
nacional importante relevância cultural, artística e turística, que é, inclusive,
reconhecida mundialmente. Mas também, a população baiana adquire
notoriedade quanto ao discurso de afirmação e aceitação da identidade de sua
população negra. Por isso, em face dessas relações humanas, sociais e
populares, a Festa de Iemanjá desempenha destacado papel na cultura baiana.
Nesse sentido, a Festa de Iemanjá se caracteriza por sua relação entre a
comunidade local e o culto de suas crenças religiosas. Mais do que isso, através
do festejo popular são reafirmados a noção de pertencimento ao território, de
construção de identidade e unidade coletiva e de perpetuação da memória.
Entretanto, seu aspecto de expressão puramente popular adquire o status
de produto cultural brasileiro, quando, dela se apropriam os produtores culturais,
a indústria do turismo, a indústria audiovisual, entre outros, como estratégia para
obtenção de recursos financeiros, e consequentemente, de valor lucrativo. Por
isso, a festa se tornou fonte para o desenvolvimento de produtos literários,
teatrais, plásticos, musicais e audiovisuais.
2. A CARACTERIZAÇÃO

A transferência de tradições populares entre gerações permite a


construção da identidade cultural de um povo. Para a comunidade pesqueira do
Rio Vermelho, a passagem de conhecimento popular não se restringe apenas à
atividade de pesca, mas também, abrange os costumes que circundam a
preparação da Festa de Iemanjá.
Dona Janaína, Ynaê, Yá e Rainha de Aioká são outras referências
atribuídas à Iemanjá, uma orixá do candomblé, religião de matriz africana com
intensa prática no Brasil, em especial, na Bahia, surgida no período brasileiro de
escravidão, a partir da necessidade dos afrodescendentes de revisitarem seu
país de origem, a África (SANTOS, 2014).
O ponto de concentração da festa ocorre em uma praça local situada na
centralidade do bairro dos pescadores e no entorno da Igreja de Sant’anna do
Rio Vermelho. Por essa razão, ela adquire a denominação de “festa do largo”,
definição dada às comemorações realizadas em locais abertos da cidade de
Salvador.
Os pescadores buscam na comemoração uma forma de demonstração
de fé e devoção à rainha do mar, Iemanjá, divindade a qual eles recorrem para
proteção contra as imprevisibilidades e riscos marítimos que porventura possam
enfrentar.
Porém, a deusa também é o símbolo da fartura e prosperidade
proveniente do mar. Dessa forma, se reúnem para a celebração pescadores,
iniciantes e praticantes do candomblé e de outras religiões, além de curiosos que
comparecem com a finalidade de celebrar a orixá.
O fator principal que caracteriza a celebração é a oferta de presentes e
oferendas artesanais que são depositados nas águas do mar (ou rio) ao final do
cortejo. Na maioria dos casos, eles são confeccionados pela comunidade e
comercializados por meio das barracas montadas na região. Durante a festa,
formam-se filas para a entrega dos presentes na Casa de Iemanjá, um local
utilizado pelos pescadores para atender suas demandas de pesca, que se
transforma em palco principal da festa no dia da celebração.
Outro local reservado para acomodar os presentes é o “Barracão”,
infraestrutura de madeira coberta por palhas construída, anualmente, para a
festividade. No Barracão é também exposto o presente especial, mantido em
segredo dentro de um ornamento em formato de tartaruga, que é revelado
apenas no momento da oferta. Os presentes são inseridos em balaios, cestos
de palha adornados com as cores da orixá, ou seja, azul e branco.
Quanto à natureza dos presentes, são ofertados desde sabonetes,
espelhos, jóias, bijuterias, flores, desodorantes, cremes hidratantes a bonecas
com vestimentas de sereia. Evidencia-se, portanto, que os tipos de presentes
concedidos estão intimamente ligados à figura feminina associada a Iemanjá no
candomblé.
Se, por um lado, a Festa de Iemanjá compreende um valor simbólico
cultural, por outro, ela estabelece o valor de bem de consumo no mercado
econômico capitalista. A dualidade da festa se afirma quando a economia é
introduzida como um mecanismo de comercialização da cultura.
Então, a transformação da expressão cultural em produto cultural ocorre,
em primeira instância, através da mercantilização do espaço público urbano,
graças à venda de pontos estratégicos onde a festa se desenvolve, para
exposição visual de marcas e serviços, além da venda de bens de consumo dos
patrocinadores.
Todavia, a condição comercial da cultura se estende até mesmo aos
produtos religiosos, negociados por vendedores locais para aqueles que não
puderam providenciar o presente anteriormente. Dentre os produtos estão
apetrechos diversos, kits de balaios, flores, perfumes, ou, ainda, o tradicional
banho de folhas. Assim, infere-se como a religião assume o caráter de produto
de consumo.
Do mesmo modo, o aspecto mercadológico atrelado à visibilidade cultural
e social da Festa de Iemanjá, desencadeia, por sua vez, o turismo religioso,
caracterizado pelo deslocamento de pessoas por motivações religiosas ou para
participação em eventos de cunho religioso, como peregrinações, romarias,
espetáculos, entre outros. Nessa conjuntura, são realizadas performances
artístico-musicais, ritos e manifestações para a orixá Iemanjá, assim como,
atividades de samba de roda e capoeira, buscando atrair turistas para o consumo
da cultura popular representada pela festa.
Inclusive, em decorrência da influência que a celebração exerce nos
meios formais e informais da economia, a cidade é reorganizada, sobretudo,
para atender à rotas de circulação que facilitem a locomoção do público
participante e entrega dos presentes afirmando, de acordo com Santos (2005, p.
202, apud SANTANA, p. 50, 2014), “a publicização do candomblé no espaço
público para fins turísticos”.
Observa-se, pois, como o modelo econômico da sociedade
contemporânea confere uma abordagem de mercadoria em torno da cultura,
apropriando-se dela como um produto a ser comercializado. No caso da Festa
de Iemanjá, são várias as dimensões econômicas que ela apresenta, quando
sua qualidade de manifestação cultural é convertida em produto cultural do
mercado brasileiro.

3. A PERIODIZAÇÃO

A cidade de Salvador agrega um cenário religioso e cultural de riqueza


singular. No calendário de festas populares baianas, a data de dois de fevereiro
possui destaque significativo para diversas localidades do território.
Principalmente, para aquelas situadas próximas aos mares, rios e lagos. Isso
porque, ela simboliza o dia em que é celebrada a Festa de Iemanjá, a rainha do
mar. Entretanto, embora o dois de fevereiro represente o marco principal para
celebração da orixá, a oferta de presentes para Iemanjá não se limita a esse
momento.
De acordo com o conhecimento popular, o festejo tem origem em 1923,
ano em que a oferta de peixes da comunidade de pescadores do Bairro Rio
Vermelho foi reduzida. Por isso, eles suplicaram ajuda à deusa, e dedicaram
presentes como símbolo de devoção.
É importante destacar, porém, que a natureza imprecisa do conhecimento
popular, submetem a data e a razão para o início do festejo como informações
divergentes entre os autores.
Se, antes a iniciativa era constituída por um grupo de pescadores e dos
seus familiares, que passou a atrair a participação dos moradores do bairro, e
em seguida, da população de Salvador, hoje, a festa integra a presença de
pessoas oriundas de outros estados e países (SANTOS, 2014).
Entretanto, para os pescadores do Rio Vermelho, além do dia dois de
fevereiro, outra data atinge importância para celebração, o dia de São Pedro,
realizado em 29 de junho, no qual se comemora também o dia do pescador. Mas,
a diferença entre essas datas é proporção da dimensão cultural e econômica
que se dá entre um festejo e o outro.
Dada as particularidades simbólicas que caracterizam o tradicionalismo
religioso da Festa de Iemanjá, passadas de geração a geração, para reafirmar o
compromisso popular com a celebração, essa manifestação cultural alcançou,
atualmente, maior respaldo frente a outras festividades populares da
comunidade do Rio Vermelho.
Assim, todo dia dois de fevereiro é reservado para a celebração de
Iemanjá cuja oficialização se dá pelo lançamento de fogos de artifício, por volta
das 4h da manhã. Alguns participantes preferem entregar a oferta do presente
ao longo do dia, outros, já no início, formam filas para o depósito das oferendas
na Casa de Iemanjá. O ponto alto da festa é a saída dos barcos para a entrega
do presente especial à Iemanjá. Dessa forma, realiza-se o cortejo final com a
oferenda principal às 16h, quando os pescadores se unem e vão para o alto mar.
Contudo, no Bairro do Rio Vermelho, após esse horário, é dada continuidade à
festa e seu fim ocorre somente na madrugada do dia três.
Apesar de tradicional, a data dois de fevereiro não é a única destinada
aos festejos e oferendas à Iemanjá. Na cidade de Salvador e em seu entorno,
“entre o último dia de dezembro e fins de fevereiro, celebra-se de um modo
especial o Presente da Mãe d’Água em diferentes lugares da Bahia” (SECULT,
2019). Ainda que, por diversos motivos, sejam oferecidos presentes em
diferentes épocas ao longo do ano, são os grandes presentes do período
mencionado, que possuem maior relevância para a comunidade do candomblé.

4. O PÚBLICO-ALVO

A Festa de Iemanjá abrange todos os públicos, sem distinção de idade, raça


e até mesmo religião. O público-alvo da festa integra desde de simpatizantes,
turistas, curiosos, admiradores, fiéis a devotos. Também ocupam espaço
especial na cadeia de participantes, os pagadores de promessas que vão
homenagear a Rainha do Mar, levando as oferendas como forma de gratidão
pelas “graças” alcançadas.
São centenas de pessoas que vivem na própria capital baiana, além daqueles
oriundos de outros estados, que buscam prestigiar a orixá na festa considerada
Patrimônio Histórico de Salvador.

5. A REALIZAÇÃO E PROMOÇÃO (QUEM?)

Tradicionalmente, a festa de Iemanjá teve início com um grupo de 25


pescadores que ofereciam presentes à Rainha do Mar na intenção de que a
divindade retribuísse os agrados com a fartura dos peixes. Na década de 1950,
o nome da comemoração entre os pescadores passou a ser Festa de Iemanjá.
Contudo, já que o “Dois de fevereiro” era empregado pela Prefeitura nas peças
de divulgação físicas e digitais, a adoção oficial do título “Festa de Iemanjá”
apenas foi realizada em 2019, mediante o Termo de Ajustamento de Conduta
(TAC), estabelecido com o Ministério Público estadual. A celebração é uma das
principais manifestações com origem nas religiões de matrizes africanas em
Salvador.
A Festa recebe apoio municipal e de órgãos que defendem as manifestações
culturais com o objetivo de perpetuar as várias gerações. De forma direta e indireta
há também uma colaboração de pessoas que voluntariamente se engajam para
que esse evento aconteça. Portanto, a festa é realizada pela Colônia de
Pescadores, em parceria com os órgãos públicos e Sociedade Civil, na Casa de
Iemanjá e no Mercado do Peso.

6. OS FATORES MOTIVADORES

Os festejos do dia dois de fevereiro estão associados a duas comunidades


tradicionais de Salvador, as comunidades de pescadores e os Terreiros de matriz
africana.
A festa de Iemanjá se caracteriza por ser a única festa pública de grande
dimensão dedicada exclusivamente a um orixá no Brasil. Isso porque, em geral
as festividades religiosas envolvem tanto a celebração do culto a determinado
orixá como também a celebração de algum santo católico.
No entanto, o dois de fevereiro se consagrou como o dia de celebrar a
Rainha do Mar. É o dia inteiro dedicado a entrega de oferendas e agrados pelos
pescadores do Rio Vermelho.
Marcados pelo legado da Diáspora Africana todos que tiram seu sustento
das águas sagradas do mar, como também devotos, presenteiam a deusa, para
receber e retribuir as graças recebidas.
Além de ofertar balaios enfeitados, flores, presentes e perfumes, os fiéis
aproveitam para deixar seus pedidos por uma boa pesca, mar calmo e fartura,
entre outros.

7. A PRODUÇÃO CULTURAL

A Festa de Iemanjá é uma celebração tipicamente popular organizado


pela comunidade. Contudo, os festejos à Rainha do Mar vêm tomando grandes
proporções, o que tem acarretado em mudanças no subsídio, provocando um
olhar diferenciado em relação aos patrocinadores.
Dessa forma, todo ano uma comissão é escolhida entre os pescadores
coordenadores da festa, para elaborarem um projeto orçamentário, que é
encaminhado à prefeitura em busca de subsídios, para a compra de balaios,
fogos e diesel, para os barcos responsáveis por levarem as oferendas e os fiéis.
Com base em dados recolhidos de uma matéria do Bahia Notícias no ano
de 2013, a prefeitura de Salvador investiu R$ 11 mil. Já no ano de 2014 esse
valor chegou a R$ 110 mil.
Ainda segundo o Bahia Notícias, esse valor é passado por subvenção -
modalidade de transferência de recursos financeiros públicos - para a Colônia
de Pesca Z-1.
Os integrantes da comissão organizadora da festa têm até três meses,
depois da festividade, para fazer a prestação de contas ao órgão público, com a
apresentação de um relatório de custo acompanhado de notas fiscais.
Além do apoio público, a festa de Iemanjá conta com doações de
empresas e apoio financeiro de figuras políticas.
Em contrapartida à manifestação cultural do festejo, temos a privatização
e comercialização da festividade.
O lado “profano” da festa, facilita as “parcerias público-privadas”,
desencadeando um intenso investimento por parte de patrocinadores, que a
exemplo das cervejarias, conquistam o monopólio absoluto de todo o circuito da
festa.
Outra fonte de comercialização da festa decorre da exploração do turismo.
Segundo dados da Secretaria de Cultura e Turismo da Bahia, a festa de Iemanjá
movimenta por ano uma média de 500 mil pessoas na orla do bairro do Rio
Vermelho, sendo considerada como a terceira maior manifestação religiosa do
estado.

8. OS REGISTROS

a. IMAGÉTICOS
Source: Fotos realizadas pelo fotógrafo Daniel Medina na Festa de Iemanjá 2018, em Salvador - Bahia.
Cópia e/ou reprodução, proibida sem devida autorização do autor.
b. AUDIOVISUAIS:

I. Reportagem/VT. Fonte: Governo do Estado da Bahia


https://www.youtube.com/watchv=6wnZrhPvqMk&ab_channel=MiroNewtonFilms

II. Documentário Musical “Voz de Preto”. Fonte: Canal Preto (youtube):


https://www.youtube.com/watch?v=1YkEPzGqFE4&ab_channel=CanalPreto

III. Documentário “Festa de Iemanjá” (realizado em conjunto com a


FENACAB, UNESCO e KABOPROFILMS. (Rio Vermelho- SSA). Fonte:
Canal Bani Silva Prado (youtube):
https://www.youtube.com/watchv=gKZfunLED18&ab_channel=BaniSilvaPrado
IV. Telenovela “Porto dos Milagres”. Produzida e exibida pela Rede Globo de
5 de fevereiro a 29 de setembro de 2001.

V. Filme “O Escolhido de Iemanjá” (1980)


VI. Filme “As noites de Iemanjá” (1971)

VII. Videoclipe “Iemanjá”. Trabalho musical composto por Pris Mariano e


Rodrigo Di Castro. Canal Rosa Amarela (youtube).
https://www.youtube.com/watch?v=KZOyLPXBJVg&ab_channel=RosaAmarela

c. REGISTROS MUSICAIS

I. Caminhos do Mar. Intérprete: Gal Costa, Letra de Dorival Caymmi.


https://www.youtube.com/watch?v=i662uQiXN4A&ab_channel=EduCyrRafael

II. Canto de Iemanjá. Composição: VInicius de Moraes e Baden Powell.


https://www.letras.mus.br/vinicius-de-moraes/86527/
III. Rosas para Iemanjá. Composição e Interpretação: Oxum Pandá.
https://www.letras.mus.br/oxum-panda/1411676/

IV. Ponto “Iemanjá”. Composição e Interpretação: Umbanda.


https://www.letras.mus.br/umbanda/914438/

d. REGISTROS LITERÁRIOS

I. Livro: Iemanjá, a deusa do mar

II. Livro: Iemanjá Odò Iyá


9. ESTRATÉGIAS MERCADOLÓGICAS DOS PRODUTORES, A
DISTRIBUIÇÃO E VENDA DE QUOTAS DE PATROCÍNIO, ATRAÇÃO
DO PÚBLICO-ALVO, APOIO DE EDITAIS.

Devida à visibilidade adquirida ao longo dos anos, a Festa de Iemanjá


abrange a participação de um extenso público. A celebração atrai o interesse
dos turistas, devotos católicos e, principalmente, os denominados povos de
santos (Umbandistas e Candomblecistas). Em se tratando de uma festa com
base no sincretismo religioso, “fenômeno de absorção e de influências de um
sistema de crenças por outro” (SANTOS, 2014, p. 29), em que os orixás do
candomblé são transferidos para figuras de santos católicos, como ocorre
com as Santas Nossa Senhora da Conceição da Praia; Nossa Senhora das
Candeias, Nossa Senhora dos Navegantes, a festa apresenta um alto valor
para seus devotos.
Por essa razão, a manifestação cultural alcança uma dimensão comercial,
influenciando diretamente na economia local. De imediato, é possível
observar a mercantilização do espaço urbano, pois a Festa como expressão
cultural tem seu local de realização vendido para práticas comerciais de
venda e consumo de produtos e serviços, característica própria do modelo
econômico vigente, ou seja, o capitalista.
Assim, de acordo com a Secretaria Municipal de Desenvolvimento e
Urbanismo (Sedur), Secretaria de Ordem Pública (SEMOP) e Secretaria de
Saúde (SMS), a Prefeitura de Salvador dispõe valores e regras para
participação e credenciamento dos vendedores ambulantes. Os valores
variam de acordo com o produto a ser comercializado e a infraestrutura
utilizada para a comercialização. São distribuídas vagas limitadas - em 2019
foram 437 vagas – que se dividem entre vendedores com isopor, tabuleiro,
carrinho, donos de Food Trucks com até 5 metros de comprimento e as
famosas baianas. O cadastramento de ambulantes ocorre por via de
licenciamento no sistema de cadastramento de ambulantes da Prefeitura.
Porém, existem proibições quanto ao uso de carrinhos de mão, carros-
prancha, fogareiros, caixotes, churrasqueiras, ou emprego de bebidas pré-
preparadas artesanalmente. Essas imposições são emitidas pelos
organizadores e patrocinadores da festa.
Dentre as opções de produtos estão comidas diversas, inclusive as
típicas da Bahia, como o acarajé das baianas, mas também, os de origem
religiosa, que são o principal símbolo da festa. Sabendo da venda, boa parte
do público-alvo deixa para providenciar o presente de oferta à orixá no dia da
festa. Percebe-se, portanto, como a religião é convertida para a condição de
mercadoria.
Outra estratégia mercadológica dos patrocinadores é a venda de
patrocínio a uma empresa, geralmente, a uma marca de cerveja. Dessa
forma, os vendedores ambulantes que desejarem vender esse tipo de bebida,
deverão restringir a venda à marca patrocinadora da festa, sendo proibida a
comercialização de cerveja concorrente. Após a aprovação do licenciamento,
o licenciado recebe capacitação do patrocinador e poderá ter direito a um
isopor grande e pequeno.
Nesse caso, a empresa patrocinadora recebe o direito de exibição de sua
marca em pontos da festa e nos barcos dos pescadores dispostos na orla do
Rio Vermelho, vê-se, a apropriação da festa como estratégia de marketing
para as empresas. Como consequência, o tradicional azul e branco que
representa a orixá Iemanjá, é substituído pela identidade visual da marca
detentora do direito de patrocínio, conforme observamos na figura a seguir:

Fonte: SANTOS, 2014.


Dada a amplitude, o prestígio e caráter popular do festejo, a Festa de
Iemanjá mobiliza grande parte de turistas, logo, o turismo religioso também
se constitui uma alternativa para garantia de lucro por parte de seus
organizadores. Assim, apresentações artísticas são produzidas para atração
e entretenimento do público. Elas reúnem performances de músicos,
capoeiristas, samba de roda, entre outras manifestações culturais.
O turismo religioso influencia até mesmo a criação de uma rota alternativa
que não prejudique a passagem do cortejo até a entrega dos presentes ao
mar, visando garantir a segurança do público e gerar uma boa imagem para
que os turistas retornem nos próximos anos. Por outro lado, a organização
urbana em torno da festa é pensada para manter a circulação do público de
forma permanente e duradoura. Até porque, é essa circulação que permite a
lucratividade das parcerias público-privadas envolvidas na execução da
festividade.
Por isso, a Prefeitura de Salvador, anualmente, destina verbas para a sua
estruturação. Segundo o Bahia Notícias, o valor que em 2011 havia sido 11
mil, aumentou dez vezes em 2014, somando 110 mil. Contudo, esse alto valor
resultou do acordo de exclusividade firmado entre empresas privadas e a
prefeitura da cidade, para o patrocínio de festas de grande porte como o
Réveillon, Carnaval e o 2 de fevereiro (como era nomeada antigamente a
Festa de Iemanjá).
No que concerne a essa parceria entre o poder público e a iniciativa
privada, é interessante observar que o apoio financeiro municipal da festa
ocorre através da modalidade definida como repasse de recursos a título de
subvenção social. Conforme descreve a ementa do Tribunal de Contas dos
Municípios do Estado da Bahia (2017, p.3), esse subsídio é uma
“suplementação aos recursos de origem privada aplicados na prestação de
serviços essenciais de assistência social, médica e educacional”. Os
recursos de subvenção social não se configuram, pois, como regra, eles são
apenas uma complementação da ação de iniciativa privada em assuntos
sociais.
Dessa forma, a Prefeitura repassa à Colônia de Pesca Z-1 a quantia
proveniente tanto dos patrocínios quanto dos recursos de subvenção, para
ações de reforma das estruturas locais. Outra destinação dada à verba seria,
por exemplo, o auxílio para o custeio da produção de balaios e do
abastecimento do combustível dos barcos, conforme pontuou o secretário de
Desenvolvimento, Turismo e Cultura, Guilherme Bellintani, em entrevista ao
Bahia Notícias em 2014. Também por fazer parte dos gastos da festa, a
decoração do local (postes e demais pontos) é subsidiada graças à
transferência de recursos. Anteriormente aos repasses, a festa era custeada
por cotização determinada pelos próprios pescadores.
Torna-se evidente como a manifestação está suscetível à perda de seus
traços de expressão popular, a partir do momento que dela se apropria a
indústria do comércio para atender padronizações específicas, retirando,
portanto, suas características singulares. Entretanto, compreendendo-se
também, a dimensão econômica sob a lógica de custos que uma festa de
grande porte demanda, é possível entender a necessidade das parcerias
público-privadas. Assim, a Festa de Iemanjá oferece um estudo rico e
complexo sobre os mecanismos empregados para conversão de uma
manifestação cultural em produto cultural do mercado brasileiro.
10. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BLASS, Leila Maria da Silva. Dois de fevereiro, Dia de Iemanjá, Dia de Festa
no Mar. 2007. 18f. Revista Nures nº 5 - Janeiro/Abril 2007. Núcleo de Estudos
Religião e Sociedade - Pontifícia Universidade Católica – SP 2004. Disponível
em: <https://www.pucsp.br/revistanures/revista5/nures5_leila.pdf> Acesso em:
06 out. 2020.

SANTOS, Juliie Souza de Santana. Manifestações Culturais em Salvador: um


estudo da Festa de Iemanjá numa perspectiva geográfica multidimensional.
2014. 75f. Monografia do curso de graduação em Geografia - Universidade
Federal da Bahia, Salvador, 2014.

SECULT, Secretaria Municipal de Cultura e Turismo. Dossiê para Registro do


Patrimônio Imaterial Festa de Iemanjá. Disponível em
<http://www.cultura.salvador.ba.gov.br/images/stories/Iemanja/fgm-pms-2019-
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TCM, Tribunal de Contas dos Municípios do Estado da Bahia. Ementa:


TransferênciA. Recursos Públicos. Entidades Privadas. Instituições
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SITE BAHIA NOTÍCIAS. IBGE: Salvador é a capital mais negra do Brasil.


Disponível em <https://bahiaeconomica.com.br/wp/2018/11/19/ibge-salvador-e-
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de ambulantes-para-festa-de-iemanja-comeca-nesta-quintafeira>. Acesso em:
12 out. 2020.
SITE BAHIA NOTÍCIAS: Verba para a organização da festa de Iemanjá
aumenta dez vezes. Disponível em <
https://www.bahianoticias.com.br/noticia/149811-verba-para-a-organizacao-da-
festa-de-iemanja-aumenta-dez-vezes.html>. Acesso em: 10 de out. 2020