Você está na página 1de 308

PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULO

PUC-SP

Daniela Reis e Silva

EMDR como possibilidade de psicoterapia para o luto:


um estudo de caso instrumental coletivo

DOUTORADO EM PSICOLOGIA CLÍNICA

Tese apresentada à Banca Examinadora da


Pontifícia Universidade Católica de São
Paulo, como exigência para obtenção do
título de Doutora em Psicologia Cínica sob
a orientaçãoda Profa. Dra. Maria Helena
Pereira Franco.

São Paulo
2019
Silva, Daniela Reis e.

EMDR como possibilidade de psicoterapia para o luto: um


estudo de caso instrumental coletivo.

São Paulo: 2019, 308f.

Tese (Doutorado) – Pontifícia Universidade Católica de São Paulo

Área de concentração: Pós-Graduação em Psicologia Clínica

Orientadora: Profa. Dra. Maria Helena Pereira Franco

EMDR as a possibility for grief therapy: a collective instrumental


case study.

Palavras-chave: EMDR. Luto. Luto complicado. Estudo de caso


instrumental coletivo. Psicoterapia do luto.
Banca Examinadora

_________________________________________

_________________________________________

_________________________________________

_________________________________________

_________________________________________
Aos participantes desta pesquisa, pela confiança
em ingressar nesse processo, emprestando
suas histórias de transformação em meio ao
sofrimento, na esperança de que este trabalho
tenha contribuído para amenizar, mesmo que
parcialmente, sua dor. E apontar um caminho
adaptativo de conviver com a ausência e a
saudade.
A presente pesquisa foi realizada com o apoio do Conselho Nacional de
Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).
Código do projeto: 148437/2014-1.
AGRADECIMENTOS

À Carol, 43 páginas de agradecimento! E infinitos motivos para amar. Por ser a filha
multitarefa e parceira de todas as horas, em uma ligação indescritível, e por ser a
motivação para seguir caminhando em meio a inúmeros desafios ao longo da minha
vida pessoal, familiar e profissional.
A Arthur, alegria da família e exemplo de afetividade, fonte de inspiração e meu
pipoqueiro oficial durante as tardes de escrita, por todo o seu apoio e compreensão
ao longo dessa jornada.
A Edson, pelo companheirismo e pela parceria em todas as jornadas, sem medir
esforços para que eu pudesse realizar mais este desafio, em meio a ausência e a
muitas viagens, com toda o incentivo, o apoio e a compreensão possíveis.
Aos meus pais, Pádua e Olga (in memorian), minha base segura para explorar o
mundo, que garantiram a construção de sólidos e imprescindíveis pilares para eu me
tornar quem sou, pelo incentivo ao estudo, à ética e ao cuidado com o ser humano.
E que por meio de suas trajetórias me ensinaram a resiliência.
... Amo vocês!

À Maria Helena Pereira Franco, minha querida Lelê, com quem dei os primeiros
passos nessa longa jornada de cuidados com enlutados, e que desempenha vários
papeis em minha vida, por todo o incentivo, a parceria, o cuidado, a confiança, o
desafio, o acreditar, o incentivar, o apoio para aprofundar conhecimento e desbravar
“mares dantes nunca navegados” ao redor do mundo. Sua maestria como
orientadora foi parte fundamental desse processo.
À Rosane Mantilla de Souza, professora e parceira, por seus ensinamentos, apoio e
incentivo constantes, bem como pelas preciosas colaborações no exame de
qualificação que impulsionaram esta investigação.
À Rosa Maria Stefanini Macedo, por ter aberto às portas do Programa de Psicologia
Clínica da PUC-SP e por todas as contribuições ao meu trabalho em meio a muitos
encontros da ABRATEF.

À Tina Zampieri, que, em meio à comunidade do EMDR, fez fortalecer o espírito da


pesquisa e a certeza de que deveria continuar, passando a integrar a banca de
qualificação com inúmeras contribuições.

A Gabriella Costa Pessoa, Giovana Kreuz, Elisângela Paes Lemes, Sara Cianelli.
Vocês tornaram as constantes viagens de meu caminho acadêmico mais leves e
divertidas. Sem falar dos trabalhos, congressos, preocupações, apoio mútuo. Gabi,
sua linda, você é mais que filha. Amo muito!
A David Grand, que conectou minha janela da escrita em meio a bloqueios de minha
rede neuronal e com quem tive a agradável oportunidade de compartilhar meus
anseios no trabalho com enlutados sob a perspectiva dos processamentos de
memórias bloqueadas.
A Nancy Hogan, Roger Solomon, Therese Rando e Kenneth Doka, por todos os seus
estudos e publicações nas áreas de minha investigação, pela disponibilidade e
amabilidade com que me receberam para compartilhar seus conhecimentos e
esclarecer minhas dúvidas e pelo incentivo a seguir pelas veredas desse caminho
ainda pouco explorado.
A Esly Carvalho, André Monteiro, Silvia Guz e Jandira Rosa, treinadores de EMDR
no Brasil, pela convivência, pela aprendizagem, pelo respeito e pela amizade. E a
todos os Professores dos Cursos de Educação Continuada de EMDR no Brasil, com
quem sigo aprendendo.
À Esly... sob sua orientação fiz os primeiros movimentos bilaterais e dei os primeiros
passos de minha formação em EMDR e de Brainspotting. Com você, empaquei no
protocolo de luto, motivo principal para que este trabalho agora se concretize.
Agradeço a confiança e o incentivo ao longo desses anos, inclusive na reta final
desta pesquisa.
À Adri (Adriana Zanonato), mana que eu nunca tive! Tu me pegaste pelas mãos e
me introduziste ao EMDR com todo carinho, sempre me incentivando e acreditando
em mim, quando nem eu mesma acreditava. Ofereceste o que tens de mais
precioso: tua família. Prado, Dani e Nanda, a todos vocês, minha família gaúcha que
me acolheu nesses anos com todo amor e carinho.

À Juliana Bredemeier, queri, você foi fundamental em um dos momentos mais


difíceis de decisão, e sempre disponível e imprescindível nos momentos finais de
escrita, com comentários e incentivos que tornam a rotina acadêmica “menos difícil”.
À Maria Carmen Viana, “auxílio luxuoso”, grande incentivadora, amiga, sonhadora e
megaparceira.

À Gláucia Rezende Tavares, por me dar a mão para caminhar em meio aos desafios
de meu trabalho com enlutados, permitindo a criação do API/Vitória e do
API/Domingos Martins, com parceria, profissionalismo e maestria com as palavras
(amoooo), pelos projetos já realizados e os futuros.
À Livia Baumgarten Entringer, parceira de todas as horas, pelas múltiplas tarefas
que desempenha com competência e profissionalismo, possibilitando irmos sempre
além.
À Sirley, minha “cuidadora oficial”, por todo apoio nesse último ano de trabalho de
integração de memórias que nem eu sabia que existiam.
À Mari, para quem a palavra gratidão não basta, pois são vinte anos de trabalho
juntas, em uma convivência harmoniosa, que me permite ir alcançar novos objetivos,
fornecendo uma base segura de organização e cuidados gerais.
Ao Fernandes, meu amigo de todas as horas em São Paulo, cuja carinhosa presteza
tornou a distância Vitória-São Paulo mais curta, facilitando todas as minhas ações na
“selva de pedra” ao longo dos últimos treze anos.
Ao Thiago, “meu fantasminha camarada”, por toda disponibilidade e eficiência,
solucionando todos os meus problemas informáticos em todos os cantos do mundo,
acompanhando minhas “viagens”.

Aos meus clientes, pela paciência nessa temporada de ausência. Mas, para além
disso, pela confiança, pela parceria, por serem meu combustível para a constante
busca de mais conhecimento e, mais ainda, por me proporcionarem ser uma eterna
aprendiz.
A todos os participantes do API/Vitória e do API/Domingos Martins, que ao
compartilhar suas histórias de perdas criam uma verdadeira rede de apoio baseada
em respeito, solidariedade e compaixão.

Na reta final, anjos apareceram em minha vida, para que este trabalho tomasse
forma. À equipe de transcrição, que não mediu esforços para realizar essa tarefa
hercúlea: Carol, Edu, Gabi, Marcelha, Thais, Julia, Camilla, Denise, Graciele, Cintia.
E Paula, com sua cuidadosa revisão, observando todos os detalhes que a minha
obssessividade não permitiu organizar, dando forma e integrando a escrita.

A Psi Equipamentos, pela cessão da Barra de Luz para a realização desta pesquisa.

A todos aqueles que não foram citados, mas que fazem parte dessa caminhada de
forma direta ou indireta, com informações, conselhos, trocas profissionais, energias
positivas, orações e torcida para a finalização desse desafio, incluindo diversos
colegas de associações profissionais das quais participo: Associação de Terapia
Familiar do Espírito Santo, Associação Brasileira de Terapia Familiar, Associação
Brasileira de EMDR, Associação Brasileira de Brainspotting, Associação Brasileira
de Estudos e Prevenção de Suicídio, Associação Brasileira de Psiquiatria e
Neurologia Infantil e Profissões Afins/Capítulo ES, Association for Death
Educationand Counseling, International Working Groupon Death, Dying and
Bereavement.
Oração do Enfrentamento

Que eu tenha força para aceitar o que não tem mais volta
Que eu alcance serenidade para seguir o meu caminho
Que eu tenha garra para perseverar e fortalecer a fé
Que eu encontre apoio quando eu mais precisar

Que a revolta e a culpa torturantes se dissipem


Que os pensamentos e lembranças ruins desapareçam
Que a dor seja substituída pela saudade
Possibilitando o surgimento e o fortalecimento de boas lembranças

E a recordação de que sempre dei o meu melhor


Para que eu encontre a minha paz!

Para que fique em mim a certeza do amor que eu sei que sempre vai
existir
Pois, eu sei que vou te amar... por toda a minha vida!
(Amém)

(SILVA, 2016)
RESUMO

SILVA, Daniela Reis e. EMDR como possibilidade de psicoterapia para o luto: um estudo de caso
instrumental coletivo. 308f. Tese (Doutorado). Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. São
Paulo: 2019.

Esta pesquisa qualitativa, de caráter exploratório, configura-se como um estudo de caso instrumental
coletivo. Inicialmente foi realizado um consistente levantamento bibliográfico sobre a utilização do
EMDR com enlutados. Diante da necessidade de aprofundar o conhecimento a respeito do tema, a
pesquisa foi idealizada para colaborar para o conhecimento do uso do EMDR em situações de luto.
Seis participantes com idades entre 33 a 52 anos se voluntariaram a participar a partir de sua própria
percepção de que precisavam de ajuda em relação ao processo de luto por perda de ente querido há,
no mínimo, dois anos. A avaliação inicial foi realizada para verificar a pertinência de sua participação,
em observação aos cuidados clínicos do EMDR, bem como para estabelecer os objetivos do
processo psicoterápico e o levantamento dos alvos a serem trabalhados por meio do plano de
tratamento. Como instrumentos foram utilizados Avaliação Clínica Inicial (AI), Hogan Grief Reaction
Checklist (HGRC), Escala de Experiência de Dissociação – II (DES-II), Escala Beck de Depressão
(BDI), Plano de Tratamento (PTr), Protocolo Básico do EMDR, Prontuários, Avaliação Clínica Final
(AF), Diário de Campo e Caderno de Anotações Pessoais. Após a realização da avaliação inicial,
foram levantadas as queixas com foco no luto e para o estabelecimento de um PTr individual, cada
participante realizou entre 8 a 10 sessões e, após o encerramento da intervenção, passou pela
avaliação final. No primeiro movimento de análise, foram estudados os casos de forma individual. No
segundo movimento de análise, foi realizado o estudo do conjunto múltiplo de casos. As comparações
das avaliações proporcionadas pela aplicação do HGRC, DES-II e BDI apresentaram-se em
concordância com os resultados qualitativos observados em todos os participantes e na redução da
perturbação das memórias desadaptativas, a saber: redução ou remissão de diversos sintomas
físicos; alívio ao perceber a acomodação da memória trabalhada; surgimento de memórias positivas;
organização das memórias; construção de significado e/ou crescimento pessoal; equilíbrio entre a
orientação para a perda e a orientação para a restauração; surgimento de uma representação interna
indicando o desenvolvimento de um vínculo contínuo. Concluindo, o EMDR mostrou-se adequado
como intervenção psicoterápica para o trabalho com variações do luto complicado que compuseram
este estudo de caso instrumental coletivo. Assim, esta investigação tornou-se uma importante
colaboração para o conhecimento do uso do EMDR como intervenção psicoterápica com enlutados.

Palavras-chave: EMDR, luto, luto complicado, estudo de caso instrumental coletivo, psicoterapia do
luto.
ABSTRACT
SILVA, Daniela Reis e. EMDR as a possibility for grief therapy: a collective instrumental case study..
308f. Tese (Doutorado). Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. São Paulo: 2019.

This qualitative exploratory research is configured as a collective instrumental case study. A consistent
bibliographic review was conducted on the use of EMDR with bereaveds. Given the need to deepen
the knowledge about the subject, the research was designed to collaborate in the knowledge of the
use of EMDR in bereavement. Six participants aged 33 to 52 volunteered to participate from their own
perception that they needed help in the bereavement after the death of a loved one for at least two
years. The initial evaluation was performed to verify the pertinence of their participation, observing the
clinical care of the EMDR, as well as the objectives of the psychotherapeutic process and the survey
of the targets to be worked through the treatment plan. As instruments were used the Initial Clinical
Assessment (AI), Hogan Grief Reaction Checklist (HGRC), Dissociation Experience Scale – II (DES-
II), Beck Depression Scale (BDI), Treatment Plan (PTr), Basic Protocol EMDR, Clinical Records, Final
Clinical Assessment (FA), Field Diary and Personal Notes. After the initial evaluation, complaints were
raised with a grief focus for the establishment of an individual PTr. Each participant performed
between 8 to 10 sessions, and after the end of the intervention had their final evaluation. In the first
analysis, the cases were studied individually. In the second analysis, a multiple case study was
performed. The comparisons of the assessments provided by the application of HGRC, DES-II and
BDI were in agreement with the qualitative results observed in all the participants, in the reduction of
the disadaptive memory disturbance, namely: reduction or remission of several physical symptoms;
relief when perceiving the accommodation of the worked memory; emergence of positive memories;
organization of memories building meaning and/or personal growth; balance between loss orientation
and restoration orientation; the emergence of an internal representation indicating the development of
a continuous link. In conclusion, EMDR proved to be adequate as a psychotherapeutic intervention for
working with variations of complicated grief that composed this collective instrumental case study.
Thus, this research has become an important collaboration for the knowledge of the use of EMDR as
an intervention with the bereaved.

Keywords: EMDR, bereavment, complicated grief, collective instrumental case study, grief
psychotherapy.
LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS

ADEC – Association for Death Education and Counseling (Associação para Educação
para Morte e Aconselhamento)
AF – Avaliação Clínica Final
AI – Avaliação Clínica Inicial
API – Apoio a Perdas (Ir)reparáveis
BDI – Beck Depression Inventory (Escala Beck de Depressão)
CFP – Conselho Federal de Psicologia
CL – Crença Limitante
CM-PTSD - Escala para Transtorno de Estresse Pós-Traumático
CMC – Conjunto de Múltiplos Casos
CN – Crença Negativa
CNPq – Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico
CP – Crença Positiva
DES-II – Dissociative Experience Scale-II (Escala de Experiências de Dissociação-II)
E – Emoção
EMDR – Eye Movement Desensitization and Reprocessing (Reprocessamento e
Desensibilitação por meio de Movimentos Oculares)
GM – Guided Mourning
HADS - Hospital Anxiety and Depression Scale (Escala Hospitalar de Ansiedade e
Depressão)
HGRC – Hogan Grief Reactions Checklist (Lista de Reações de Luto de Hogan)
I – Imagem
ICES – Imagem, Cognição, Emoção, Sensação
ICG – Inventory of Complicated Grief (Inventário de Luto Complicado)
IES – Impact of Events Scale (Escala de Impacto de Eventos)
IES-R - Impact of Events Scale-Revised (Escala Revisada de Impacto de Eventos)
ISTSS – International Society for Traumatic Stress Studies (Sociedade Internacional
para Estudos de Estresse Traumático)
ITG – Inventory of Traumatic Grief (Inventário de Luto Traumático)
LELu – Laboratório de Estudos e Intervenções sobre o Luto da PUC-SP
LT – Lugar Tranquilo/Seguro
MB – Movimento bilateral
MB’s – Movimentos bilaterais
PAI – Processamento Adaptativo de Informação
PTr – Plano de Tratamento
PUC-SP – Pontifícia Universidade Católica de São Paulo
REM – Rapid Eye Movements (Movimentos Oculares Rápidos)
S – Sensação Física/Corporal
SCS-SF – Self-Compassion Scale – Short Form (Inventário de Traço de Ansiedade)
STAI – State-Trait Anxiety Inventory (Form Y) (Inventário de Traço-Estado de
Ansiedade)
SUDS – Subjective Unity Disturbance Scale (Escala de Perturbação)
“t” – Pequeno trauma
T – Grande trauma
TAC – Tactile and Audio Scan (Aparelho Tátil e Auditivo para Estimulação Bilateral)
TC – Terapia Cognitiva
TCCI – Terapia Cognitivo Comportamental Integrada
TEPT – Transtorno de Estresse Pós-Traumático
TRIG – Texas Revised Inventory (Inventário Revisado Texas)
TIR – Traumatic Incident Resolution (Resolução de Incidente Traumático)
VoC – Validity of Cognition Scale (Escala de Validação Cognitiva)
LISTA DE QUADROS

Quadro 1 – Resultados da Revisão Sistemática de Literatura em 2014 ...... 58


Quadro 2 – Dados demográficos dos participantes .......................................... 104
219
Quadro 3 – Contextualização da perda ........................................................ 105
Quadro 4 – Plano de Tratamento P1 ............................................................ 125
Quadro 5 – Plano de Tratamento Inicial P2 .................................................. 137
Quadro 6 – Plano de Tratamento Desdobramentos I P2 .............................. 139
Quadro 7 – P2 Plano de Tratamento Desdobramentos II P2 ....................... 143
Quadro 8 – Plano de Tratamento P3 ............................................................ 162
Quadro 9 – Plano de Tratamento Desdobramentos P3 ................................ 168
Quadro 10 – Plano de Tratamento P4 .......................................................... 177
Quadro 11 – Plano de Tratamento Desdobramentos P4 .............................. 179
Quadro 12 – Plano de Tratamento Desdobramentos II P4 ........................... 181
Quadro 13 – Plano de Tratamento P5 .......................................................... 190
Quadro 14 – Plano de Tratamento P6 .......................................................... 203
Quadro 15 – Contextualização da Perda ...................................................... 218
Quadro 16 – Informações de Recomendações aos Ps ao término da
intervenção ................................................................................................... 224
Quadro 17 – Participação no API/Vitória ...................................................... 230
LISTA DE FIGURAS

Figura 1 – Desenho Gráfico do Estudo de Caso Instrumental Coletivo ..... 95


Figura 2 – Elemento Participantes do Desenho Gráfico do Estudo de Caso
Instrumental Coletivo .................................................................................... 121
Figura 3 – Elemento Sequência de Ações do Desenho Gráfico do Estudo
de Caso Instrumental Coletivo .................................................................... 122
Figura 4 – Elemento de Análise do Conjunto de Caso Instrumental
Coletivo ......................................................................................................... 218
LISTA DE IMAGENS

Imagem 1 – Epígrafe .................................................................................. 8


Imagem 2 – Aparelho de estimulação visual .............................................. 109
Imagem 3 – Aparelho de estimulação tátil e auditiva ................................. 110
Imagem 4 – Desenho de P2 representando o tratamento ............................ 147
LISTA DE GRÁFICOS

Gráfico 1 – Conjunto dos Estudos de Caso – Número de Sessões ................ 222


Gráfico 2 – Conjunto de Estudos de Caso – Registro do Grau de Satisfação
com os Resultados do EMDR como Abordagem Psicoterápica para o Luto 224
Gráfico 3 – Conjunto de Estudos de Caso – Registro do Medidas de
Perturbação (SUDS), para a queixa Inicial estabelecido .............................. 226
Gráfico 4 – Conjunto de Estudos de Caso – Alvos Relacionados ao Luto do
Plano de Tratamento Todos os Participantes – AI/AF .................................. 227
Gráfico 5 – Conjunto de Estudos de Caso – Registros de Medidas de
DES-II Todos os Participantes – AI/AF ......................................................... 228
Gráfico 6 – Conjunto de Estudos de Caso – Registros de Medidas de BDI
Todos os Participantes – AI/AF .................................................................... 228
SUMÁRIO

INTRODUÇÃO .............................................................................................. 21
1 LUTO ......................................................................................................... 27
1.1 CONCEITO DE LUTO ............................................................................ 28
1.2 CONSIDERAÇÕES ACERCA DAS COMPLICAÇÕES DO LUTO ......... 31
1.3 ASSISTÊNCIA AO LUTO ....................................................................... 38
2. EMDR ....................................................................................................... 42
2.1 A HISTÓRIA DO EMDR .......................................................................... 43
2.2 AFINAL, O QUE É O EMDR? ................................................................. 47
2.3 A PRÁTICA DO EMDR ........................................................................... 50
3. EMDR E LUTO ......................................................................................... 56
3.1 REVISÃO SISTEMÁTICA DA LITERATURA – PRIMEIROS PASSOS .. 57
3.2 PEÇAS DE UM QUEBRA-CABEÇAS ..................................................... 59
3.3 PESQUISAS ........................................................................................... 69
3.4 EXEMPLOS DE CASOS CLÍNICOS ....................................................... 77
3.5 NÚMERO DE SESSÕES E TEMPO DE DURAÇÃO .............................. 79
3.6 QUANDO COMEÇAR ............................................................................. 81
3.7 PROTOCOLO DE LUTO EM EMDR ...................................................... 82
3.8 SUMARIZANDO AS INFORMAÇÕES .................................................... 85
4. OBJETIVOS ............................................................................................. 89
4.1 OBJETIVO GERAL ................................................................................. 90
4.2 OBJETIVOS ESPECÍFICOS ................................................................... 90
5. MÉTODO .................................................................................................. 91
5.1 TIPO DE PESQUISA .............................................................................. 92
5.2 INSTRUMENTOS ................................................................................... 96
5.3 LOCAL .................................................................................................... 101
5.4 PARTICIPANTES ................................................................................... 101
5.5 PROCEDIMENTOS ................................................................................ 105
5.5.1 Coleta de material .............................................................................. 110
5.5.2 Análise de material ............................................................................ 111
5.6 CUIDADOS ÉTICOS ............................................................................... 116
6 CONFLITO DE INTERESSE ..................................................................... 118
7 APRESENTAÇÃO DOS CASOS CLÍNICOS ............................................ 120
7.1 PARTICIPANTE 1 ................................................................................... 123
7.1.1 Relato do caso ................................................................................... 123
7.1.2 P6 e o EMDR ....................................................................................... 125
7.1.3 Sessões .............................................................................................. 125
7.1.4 Avaliação final ................................................................................... 130
7.2 PARTICIPANTE 2 ................................................................................... 133
7.2.1 Relato do caso ................................................................................... 134
7.2.2 P2 e o EMDR ....................................................................................... 137
7.2.3 Avaliação final ................................................................................... 148
7.3 PARTICIPANTE 3 ................................................................................... 155
7.3.1 Relato do caso ................................................................................... 155
7.3.2 P3 e o EMDR ....................................................................................... 162
7.3.3 Avaliação final ................................................................................... 168
7.4 PARTICIPANTE 4 ................................................................................... 174
7.4.1 Relato do caso ................................................................................... 174
7.4.2 P4 e o EMDR ....................................................................................... 177
7.4.3 Avaliação final ................................................................................... 181
7.5 PARTICIPANTE 5 .................................................................................. 185
7.5.1 Relato do caso ................................................................................... 185
7.5.2 P5 e o EMDR ....................................................................................... 190
7.5.3 Avaliação final ................................................................................... 194
7.6 PARTICIPANTE 6 .................................................................................. 198
7.6.1 Relato do caso ................................................................................... 198
7.6.2 P6 e o EMDR ....................................................................................... 203
7.6.3 Avaliação final ................................................................................... 210
7.7 ANÁLISE DO CONJUNTO DE MÚLTIPLOS CASOS ............................ 217
7.7.1 Participação na pesquisa .................................................................. 229
7.7.2 Situações de confronto com instituições de saúde e de
segurança .................................................................................................... 231
7.7.3 Disparadores ...................................................................................... 231
7.7.4 Temas em comum .............................................................................. 232
7.7.5 Atravessando a tempestade ............................................................. 233
7.7.6 O que recomenda para quem for se submeter ao EMDR ............... 233
7.7.7 A pesquisadora .................................................................................. 234
8 DISCUSSÃO .............................................................................................. 238
8.1 LUTO + TRAUMA = LUTO TRAUMÁTICO? ........................................... 241
8.2 REFLEXÕES ACERCA DO LUTO TRAUMÁTICO COMO 244
CATEGORIA
8.3 INTEGRIDADE DO TRATAMENTO PSICOTERÁPICO ......................... 250
8.4 AVALIAÇÃO DA PESQUISA .................................................................. 253
CONSIDERAÇÕES FINAIS ......................................................................... 259
REFERÊNCIAS ............................................................................................ 264
ANEXO A – Termo de Consentimento de Utilização de Dados ................... 281
APÊNDICE A – Avaliação Clínica Inicial ...................................................... 282
APÊNDICE B – Avaliação Clínica Final ....................................................... 285
APÊNDICE C – Termo de consentimento livre e esclarecido – TCLE ......... 286
APÊNDICE D – Carta-convite ....................................................................... 288
APÊNDICE E – Informações sobre EMDR ................................................... 289
APÊNDICE F – Fluxograma para encaminhamentos ................................... 290
APÊNDICE G – Notificação para encaminhamentos necessários ............... 291
APÊNDICE H – Notas sobre a leitura do relato do estudo de caso ............. 292
APÊNDICE I – P1 Sessões de EMDR – P1 ................................................. 293
APÊNDICE J – Gráficos Comparativos dos Instrumentos Aplicados em AI
e AF de P1 .................................................................................................... 294
APÊNDICE K – P2: sessões de EMDR ........................................................ 295
APÊNDICE L – Gráficos Comparativos dos Instrumentos Aplicados em AI
e AF de P2 .................................................................................................... 298
APÊNDICE M – Sessões de EMDR P3 ........................................................ 299
APÊNDICE N – Gráficos Comparativos dos Instrumentos Aplicados em AI
e AF de P3 .................................................................................................... 300
APÊNDICE O – Sessões de EMDR P4 ........................................................ 301
APÊNDICE P – Gráficos Comparativos dos Instrumentos Aplicados em AI
e AF de P4 .................................................................................................... 302
APÊNDICE Q – Sessões de EMDR P5 ........................................................ 302

APÊNDICE R – Gráficos Comparativos dos Instrumentos Aplicados em AI


e AF de P5 .................................................................................................... 305
APÊNDICE S – Sessões de EMDR P6 ........................................................ 306
APÊNDICE T – Gráficos Comparativos dos Instrumentos Aplicados em AI
e AF de P6 .................................................................................................... 308
INTRODUÇÃO
22

INTRODUÇÃO

Eventos estressores e seus efeitos emocionais e comportamentais nos seres


humanos têm sido objeto de intensa investigação científica, de acordo com a
Associação Americana de Psiquiatria (APA, 2004). A morte de alguém querido,
embora intrinsecamente entrelaçada na natureza humana (MORIN, 1997), é
considerada um dos eventos estressores mais significativos e provocadores de
mudanças no indivíduo, na família e em sua comunidade, com reflexos na sociedade
e na cultura (PARKES, 1998, 2009).
Profissionais e pesquisadores de diversas áreas (PARKES, 1998, 2009, 2011;
RANDO, 1993; WORDEN, 2013; FRANCO, 2010, 2016), em especial da medicina e
da psicologia, têm reconhecido o impacto do luto na saúde física e emocional nos
seres humanos que, segundo Rando (2016), sofre influências multidimensionais tais
como: circunstâncias da morte, fatores psicológicos e fisiológicos, fatores sociais e
culturais passados e presentes. Este impacto também tem efeitos na família, na
comunidade e na sociedade, indicando a necessidade de envolver diferentes
disciplinas para um cuidado integral ao enlutado.
Lidar com a vulnerabilidade de pessoas enlutadas sempre foi preocupação
desta pesquisadora (SILVA, 2009; SILVA, 2010), e aumenta a responsabilidade
desta na hora de desenhar esta investigação. Neimeyer (2015) reforça que mesmo
diante dos esforços para apoiar os enlutados que sofrem com a intensa e disruptiva
mudança em sua vida após uma perda significativa, muitas práticas não têm sido
compartilhadas entre os profissionais de maneira formal, o que destaca a
necessidade de se ampliar as pesquisas a respeito da eficácia de diversas
abordagens psicoterápicas e de apoio, que tem sido praticadas, realidade
experienciada no Brasil. Neimeyer (2015) afirma ainda que grande parte dos
pesquisadores dá mais ênfase ao impacto do luto do que ao estudo documentado de
procedimentos terapêuticos para aliviá-lo, com parca descrição e documentação de
métodos da psicoterapia do luto.
A partir de 2004, com o primeiro treinamento em português no Brasil (EMDR
TREINAMENTO & CONSULTORIA, 2016), o Eye Movement Desensitization and
Reprocessing (EMDR) passou a ser uma das abordagens psicoterápicas
emergentes para situações traumáticas, cuja tradução autorizada para o português é
23

Dessensibilização e Reprocessamento por Movimentos Oculares (SHAPIRO, 2007).


Essa abordagem foi criada nos Estados Unidos em 1987 por Francine Shapiro em
sua busca por proporcionar a melhora da saúde mental de seus clientes, tendo
como base uma difícil experiência pessoal. Shapiro (2007) relata que esta
abordagem surgiu a partir de sua própria observação clínica, com a contribuição de
terapeutas treinados por ela e, por conseguinte, com o desenvolvimento de estudos
científicos sobre processamento de informações, tendo crescido consideravelmente
em todo o mundo.
O EMDR tem como base um formato singular da prática diagnóstica e
terapêutica. Consiste em uma avaliação criteriosa do problema apresentado por um
indivíduo que busca ajuda psicoterápica por meio da construção de um plano de
tratamento sob medida. Esse plano inclui alvos que serão abordados por meio de
um protocolo de oito fases a partir do qual se torna possível tratar as experiências
com base em três etapas: passado, presente e futuro (SHAPIRO, 2007).
As estimulações bilaterais que são utilizadas no EMDR permitem o
reprocessamento de uma ou mais memórias armazenadas de maneira não
adaptativa. Para Shapiro (2007), o EMDR possibilita a conexão neurofisiológica
entre várias partes do cérebro e do corpo humano, integrando todos os elementos
da memória. Esse processo permite que a pessoa mude a forma como percebe o
que aconteceu, como também seu próprio papel naquela situação crítica.
Por ser a psicoterapia do luto um importante campo de trabalho desta
pesquisadora, diversos questionamentos a respeito do uso do EMDR com pessoas
enlutadas foram surgindo em sua prática cuidadosa e em seus estudos
aprofundados, desde sua própria formação como terapeuta de EMDR, entre eles:
como e em que circunstâncias o EMDR tem sido usado em situações de luto,
incluindo o tempo decorrente da perda? Existem indicações ou contraindicações
para o uso do EMDR durante o processo de luto? Quais decisões clínicas devem
pautar o uso do EMDR com enlutados? A busca dessas respostas e novas
perguntas reverberaram na elaboração deste trabalho em curso, prontamente
acolhido pela orientadora, com o objetivo de colaborar para o conhecimento do uso
do EMDR em situações de luto.
Embora seja indicado para o tratamento do luto a partir do Nível 1 do
Treinamento Básico (EMDR INSTITUTE, 2015), em função das novas contribuições
24

no campo do luto e seus desdobramentos, ainda não há consistência científica para


a sua utilização, gerando diferentes opiniões em relação à aplicação do protocolo
básico, ou de protocolos específicos, em situações de luto. Esta afirmação está
baseada no escasso material encontrado na revisão sistemática de literatura
realizada em 2014, 2017 e 2018, para compor o referencial teórico desta pesquisa,
cujo objetivo era determinar o escopo inicial da pretendida investigação por parte
desta pesquisadora.
A escassez do material encontrado torna urgente pesquisar as aplicações
desta nova abordagem com enlutados, de maneira a proporcionar reflexões sobre
quando, como e com quem aplicá-la, a partir de conhecimentos sólidos a respeito do
luto.
A pergunta de Franco (2010), ressoa na motivação de realizar esta pesquisa,
pois “[...] diz respeito às razões para o estudo do luto, que vão da necessidade de
construir conhecimento com base no que se sabe sobre ele, considerando os
desafios que emergem nesse campo, até a preocupação com aquele que poderá se
beneficiar dele” (p. 18). É justo o caminho do futuro apontado por essa autora, que
intensifica o desejo de aprofundar o conhecimento sobre a assistência aos
enlutados, e proporcionar a aplicação dos resultados desta pesquisa na formação de
profissionais. Isso possibilitará também a chamada educação sobre a morte, não só
daqueles que atuam diretamente com o luto, pois ampliará o conhecimento
produzido para a sociedade em geral. Os questionamentos gerados nessa
investigação serão sempre pautados pela ética, que para Franco (2010), é
imprescindível em pesquisas e intervenções com enlutados.
O EMDR é uma abordagem nova e em franco desenvolvimento, e são poucos
resultados encontrados a respeito de EMDR e luto, pois a maior parte dos clínicos
que o utiliza não tem o hábito de publicar. Assim, o referencial teórico desta pesquisa
será constituído de três grandes temas: Luto, EMDR e EMDR e Luto. Essa escolha
permite a continuidade dos estudos desta pesquisadora na área da assistência ao
luto em indivíduos e suas famílias (SILVA, 2005, 2008a, 2008b, 2009, 2012, 2015,
2016).
Portanto, nesse trabalho apresenta-se, no Capítulo 1, a fundamentação
teórica a respeito de luto, apresentando a visão da pesquisadora a respeito de
conceituações contemporâneas e sobre a assistência psicológica aos enlutados. No
25

Capítulo 2, será apresentado o EMDR, sua conceituação histórica, sua prática


clínica e suas possibilidades de aplicação. No Capítulo 3, apresentar-se-á o
entrelaçamento do trabalho do EMDR em situações de luto, tendo como ponto de
partida a revisão sistemática da literatura, realizada em 2014, refeita em 2017 e
2018, para buscar e analisar o material publicado já disponível. O levantamento a
respeito do uso do EMDR com enlutados foi determinante para a elaboração dos
Objetivos, constantes do Capítulo 4, e do Método, apresentado no Capítulo 5. A
seguir , a Apresentação e Análise dos Estudos de Casos , que correspondem ao
primeiro movimento de análise dos dados no Capítulo 7, serão sequenciadas pelo
segundo movimento de análise . No Capítulo 8, a Discussão , finalizando com as
Considerações Finais.
Aplicar uma abordagem psicoterápica com enlutados requer a consciência a
respeito de sua possível fragilidade e vulnerabilidade e, por conseguinte, é
fundamental o conhecimento a respeito do luto e sua complexidade. A psicoterapia
precisa ser construída a partir da demanda inicial, com uma detalhada avaliação,
para ir ao encontro do que o paciente precisa, e não do “que o psicoterapeuta
propõe ou compreende como saudável” (FRANCO, POLIDO, 2014, p. 42). Esta
consciência tem como base o estudo exaustivo do trabalho de Stroebe et al (2001,
2008a), obras consistentes que oferecem uma visão ampliada sobre a pesquisa
sobre luto em sua relação com a prática, identificando trabalhos atualizados nesta
área, discutindo e debatendo as controvérsias existentes e propondo novas
pesquisas sobre esse tema.
Parkes (2011) considera que existem significativas diferenças culturais no
enfrentamento do luto, e a perda de alguém significativo é a que apresenta maior
estresse. No entanto, a maior parte das pessoas vivencia este processo sem tanto
sofrimento físico ou psíquico, dependendo da vulnerabilidade e do mundo
encontrado, fundamentando a observação de Silva (2009) de que nem todos os
enlutados precisarão receber tratamento. Torna-se imprescindível, portanto, dar voz
aos enlutados em sua necessidade de cuidados em uma construção responsável da
assistência.
Cabe aqui ressaltar que a pesquisadora possui a titulação de Terapeuta
Certificada, Supervisora e Facilitadora em EMDR, possibilitando um cuidado maior
em relação à condução da pesquisa sobre a abordagem psicoterápica em questão.
26

Também possui a titulação de Pesquisadora, Clínica e Professora em Tanatologia


pela ADEC (Fellow in Thanatology – Association for Death Education and
Counseling), sendo integrante do Laboratório de Estudos e Intervenções sobre o
Luto (LELu) da PUC-SP, o que proporciona também o conhecimento adequado em
relação ao luto, seguindo as recomendações de Worden (2013) de que profissionais
que utilizem a psicoterapia do luto recebam treinamento adequado.
LUTO
28

1 LUTO

1.1 CONCEITO DE LUTO

No Brasil, tem sido observado o crescimento na atuação do psicólogo em


situações de perda e luto, como exposto no trabalho de Silva (2010), por meio de
pesquisas, publicações e intervenções
É preciso discutir quais as dimensões de cuidado que um enlutado requer,
pois, em função do processo de patologização da morte discutido por Morin (1997),
é possível também dizer que houve a patologização do luto. Essa patologização tem
raízes em discussões acirradas sobre o caráter normal e patológico do processo de
morrer, sendo a maior função da ciência, em especial da Medicina, a cura de
desordens e doenças (MORIN, 1977).
Essa vertente do positivismo da ciência médica é observável no grande
empenho de estudiosos em categorizar o normal e o patológico do luto, como
ressaltam Parkes (1998), Rando (1993), Stroebe et al. (2008b) e Worden (2013).
Esses autores criticam o excesso de tentativas de classificação do luto e a forte
tendência de afirmar que ele próprio também passaria pelo processo de cura. Isso
parece estar ligado ao fato de que os primeiros estudos sobreluto tiveram como
base modelos médicos, que serviram como ponto de partida para diagnosticá-lo e
tratá-lo, sem considerar outros fatores, trazendo um alto risco para a medicalização
do luto (PARKES, 2011).
As questões de apego (BOWLBY, 1997) são preponderantes para a
compreensão do luto, complementadas no trabalho de Parkes (2009), que aponta a
correlação de transtornos psiquiátricos e os tipos de apego. Mas é também
fundamental considerar o amplo contexto que envolve os caminhos percorridos no
processo de luto (SILVA, 2009). E, embora as dificuldades apresentadas pela
humanidade em lidar com as perdas pareça universal, existem diferenças culturais
significativas no percurso do luto (PARKES, 2011; SILVA, 2014).
Franco (2010) afirma que os principais pesquisadores do luto estão de acordo
em relação à sua existência como reação advinda de uma perda, mas apresentam
divergências entre as variações das reações emergentes, propondo diversas
nomenclaturas, como será visto adiante no referencial teórico desta pesquisa.
29

Antes de abordar o conceito como tal, é necessário apresentar uma questão


de tradução do termo “luto”, que também pode ter contribuído para as distorções em
relação à sua compreensão no Brasil, pois tomamos como base os trabalhos
publicados primariamente em língua inglesa. De acordo com Stroebe et al. (2008b) e
Worden (2013), há, em inglês, três termos distintos: (a) bereavement, empregado
para mencionar uma situação objetiva de alguém que tenha sofrido uma ou mais
perdas significativa são longo do ciclo vital, associada com grande sofrimento para a
maior parte das pessoas; (b) grief, termo empregado para se referir às reações
emocionais advindas de uma perda que podem se manifestar em variados aspectos
psicológicos (cognitivos, sociais e comportamentais) e físicos (fisiológicos e
somáticos); (c) mourning, que se refere à apresentação pública da perda,
expressões ou atos sociais moldados por crenças e práticas de uma sociedade ou
cultura, sendo importante diferenciá-lo do termo anterior. Ciente das diferenças, é
fundamental informar que estes se influenciam mutuamente. Além disso, grief e
mourning são apresentados como termos similares e intercambiáveis no campo
psicanalítico (STROEBE et al., 2008b), o que pode gerar ainda mais confusão. Isso
ocorre, em especial, porque em língua portuguesa todos os três termos são
traduzidos por um único: luto, o que pode ter influenciado algumas das distorções
em relação ao conhecimento do luto no Brasil.
Dessa maneira, para fins de organização de conceitos, neste trabalho, utilizar-
se-á processo de luto como equivalente ao termo bereavement, e enlutados como
equivalente ao termo bereaved. Para falar sobre grief, será utilizada a locução
“reações de luto”, sempre levando em consideração o contexto relacionado à perda.
As críticas feitas por Neimeyer (1998) em uma importante revisão de literatura
a respeito dos estudos iniciais do processo de luto parecem condensar as principais
dificuldades aqui apresentadas: a insistência de enquadrar o processo de luto em
fases ou estágios, sem considerar significados e ações construídos pelos enlutados;
a ênfase do luto como processo individual, sem levar em consideração o contexto; e,
por fim, o objetivo da tarefa psíquica da resolução do luto é se desvincular de quem
morreu, abrindo caminhos para novos relacionamentos. A ausência de disciplinas
sobre a morte e o morrer em cursos de graduação das profissões relacionadas à
saúde colabora para que os profissionais não saibam o que fazer diante do
sofrimento humano. Existe um grande risco de uma intervenção realizada de forma
30

inadequada possa ter efeitos devastadores no percurso dos enlutados (SILVA,


2010).
Essa discussão é crucial quando o foco é a assistência ao luto. No Brasil, há
a “psicologização do luto”, que faz com que a própria sociedade e, por conseguinte,
os profissionais de assistência distorçam a necessidade de cuidados com os
enlutados,como já havia sido apontado por Rangel (2008) e confirmado por Silva
(2009). Bromberg (2000) traz importante reflexão a respeito do aumento da rapidez
dos rituais funerários no Brasil nos últimos anos. Este pode ser um fator dificultador
para o luto, na medida em que aumenta as chances de a despedida não acontecer
de uma forma adequada. Silva (2016) pondera que a expressão social do luto, por
meio da tristeza e compartilhamento de sua dor, tem sido impedida, e isso pode
trazer consequências para o apoio oferecido e percebido.
Na percepção desta pesquisadora, no Brasil, as distorções em relação ao
conhecimento do luto ainda são observáveis com frequência não só na população
em geral, mas também entre os profissionais de assistência, grande parte pela visão
reducionista da interpretação extremamente popular do trabalho de Kübler-Ross
(1969) a respeito do morrer. Franco (2016) ressalta que é inegável a contribuição do
trabalho dessa autora por ter dado destaque à voz dos pacientes em processo de
morte e à função primordial dos profissionais de ouvi-la. Acrescenta, ainda, que a
realidade multicultural do viver, do morrer e da morte é a proposta da Tanatologia
contemporânea, em uma conjunção de saberes e práticas, concluindo que “cuidar
de pessoas à morte e enlutadas, dentro da diversidade cultural, nos proporciona o
grande privilégio de aprender com elas” (FRANCO, 2016, p. 318)
Cabe aqui definir o conceito de luto no qual se baseia este trabalho. Esta
definição abrange uma compilação de ideias significativas e complementares de
alguns autores (SHAPIRO, 1994; BOWLBY, 1997; WALSH; MCGOLDRICK, 1998;
PARKES 1998, 2009, 2011; SILVA, 2009; 2014, 2015, 2016; WORDEN, 2013;
FRANCO 2016), que juntos representam a compreensão desta pesquisadora a
respeito deste tema, condensada no trabalho apresentado por Silva (2010), a saber:
luto é uma resposta ao rompimento de um vínculo significativo para o indivíduo,
constituindo-se em uma resposta após uma perda simbólica ou concreta que
envolve uma gradual transição de ajustamento a uma alteração significativa do
mundo e apresenta infinitas variações de respostas culturais, familiares e individuais.
É imprescindível, portanto, levar em consideração o caráter relacional do luto, bem
31

como observar os efeitos do luto em toda a família, gerando uma necessidade de


uma nova organização familiar, entrelaçando o processo individual com o processo
familiar.
Parkes (2011) referindo-se a pesquisas recentes, afirma que que luto é uma
experiência dolorosa da qual a maior parte das pessoas irá se recuperar com ajuda
mínima. Segundo o autor, fatores que influenciam de forma negativa no curso do luto
são características do apego do enlutado e circunstâncias da morte, enquanto o
apoio social, crenças religiosas e espirituais, e rituais podem influenciar o luto de
forma positiva. Também influenciam o curso do luto: características psicossociais
únicas a cada perda, tais como dificuldades de apego assinalados pela ausência da
pessoa que morreu e a luta para manter o vínculo com sua memória, entre outros
(NEIMEYER ; HOGAN , 2001 ). Rando et al. (2012 ) mencionam também outras
influências que concernem ao próprio enlutado , como a relação perdida , as
circunstâncias da perda, variáveis sociais e fatores físicos.

1.2 CONSIDERAÇÕES ACERCA DAS COMPLICAÇÕES DO LUTO

Segundo Worden (2013), a diversidade de termos empregados para


classificar o luto pode dificultar o trabalho de uma pesquisa. Assim, e expressão “luto
complicado” proposta apor Rando (1993) é a escolhida por esta pesquisadora por
possibilitar considerar o processo de luto a partir da influência de diversos fatores,
bem como avaliar as reações a uma perda de acordo com o contexto e as
circunstâncias nos quais ela ocorreu . Tem como referência o tempo decorrido da
perda e a existência de um comprometimento em aspectos que considera
preponderantes no processo de luto (RANDO , 1993 ), bem como aspectos
idiossincráticos do enlutado e seu funcionamento (RANDO, 2016).
Stroebe et al. (2008b) apresentam uma adequada discussão sobre luto
normal e o luto complicado, considerando uma importante definição que está de
acordo com a proposta por Rando (1993), aprofundando este conceito. Para esses
autores, as reações de luto se apresentam como uma síndrome emocional
complexa, que engloba mudanças permanentes e diferenças culturais e diferem
nesses dois conceitos importantes mencionados acima.
As reações de luto normal após uma perda recaem em normas esperadas
culturalmente de acordo com suas circunstâncias e suas implicações, bem como
32

fatores de risco, condições de comorbidade e outros elementos associados


(RANDO, 2013). Essas normas dizem respeito ao tempo decorrido desde a perda
e/ou à intensidade dessas reações, que Stroebe et al. chamam de sintomas (2008b),
mas não significa que sejam patológicos.
Para Rando (2013), é possível considerar dois critérios para identificação de
sintomas provenientes do luto, a saber, terem surgido ou piorado significativamente
após a perda e estarem associado a algum compromisso, distorção ou falha em um
dos processos de luto. Para avaliar o comprometimento do processo de luto, pode-
se utilizar as tarefas propostas por Worden (2013), os processos dos “Rs” da própria
Rando (1993) ou de qualquer outro autor com quem se tenha familiaridade.
Worden (2013) postula quatro tarefas do luto, a saber: aceitar a realidade da
perda; processar a dor do luto; ajustar-se ao mundo sem a pessoa querida, tarefa
essa que envolve ajustes internos, externos e espirituais; e encontrar uma conexão
duradoura enquanto segue uma nova vida.
Para Rando (1993, 2013, 2016), os objetivos do processo do luto são: a)
desfazer laços psicológicos originais para uma mudança na relação de forma a se
tornar possível amar mesmo na ausência; b) adaptar-se à perda em relação ao
mundo presumido e à própria identidade, ambos impactados pela perda; c) aprender
a viver no mundo sem a pessoa amada. De forma breve, o modelo apresentado por
Rando (1993) envolve os processos dos “6 Rs”: reconhecer a perda, reagir à
separação, recordar e reexperimentar o morto e a relação, abandonar os antigos
apegos em relação a quem morreu e ao mundo presumido, reajustar de forma a se
adaptar ao novo mundo sem se esquecer do anterior e, por fim, reinvestir. Dessa
forma, considera que a existência do luto complicado quando há dificuldades ou
fracassos em, pelo menos, um dos “Rs” 1. Contudo, considera ser importante
observar o tempo decorrente da perda, bem como outros fatores que podem
influenciar na experiência e na resposta do luto, como circunstância da perda,
conflitos anteriores com quem morreu, entre outros.
Aqui cabe mencionar a grande atenção que se tem dado à inclusão de um
diagnóstico relacionado ao luto na área de psiquiatria, especialmente no DSM-5 e no
CID-11, e de como ele deveria ser. Duas propostas apresentadas por Horowitz et al.
(1997) e Prigerson et al. (1999) foram consideradas. Esse segundo grupo de

1
Em inglês, todas as afirmações começam com a letra “R”.
33

pesquisadores foi escolhido, e o termo inserido no DSM-5 foi Persistent Complex


Bereavement Disorder [Transtorno de Luto Complexo Persistente] (APA, 2013) e, no
CID-11, Prolonged Grief Disorder [Transtorno de Luto Prolongado] (WHO,
2018). Para os interessados em conhecer essas atualizações , sugere -se consultar
as fontes citadas, pois ao mencionar esse panorama mundial de discussão, pretende
- se apenas indicar sua existência , sem adentrar no mérito de cada uma das
vertentes , o que fugiria do propósito deste trabalho . Ressalta -se o perigo de
considerar esse diagnóstico como a única forma de luto complicado , que não foi a
intenção dos autores ao desenvolver esse estudo (RANDO , 2016 ). Por isso a
preferência em acatar a proposta de Rando (1993, 2013, 2016) naquilo que se refere
a uma definição mais abrangente a respeito do luto complicado.
Apresenta-se, pois, o apelo de Rando et al. (2012) aos envolvidos nessas
discussões e inclusões para ampliar a compreensão do luto, que é também
relacionado a outros tipos de perda que não somente aquela por morte. Os autores
reafirmam que luto complicado é um assunto complexo e que o diagnóstico inserido
é apenas uma síndrome de suas diferentes formas. Assim, recomendam pesquisas
para a futura inclusão de outras formas, tais como: luto adiado, luto inibido, luto
distorcido, luto traumático, entre outros. Para eles, existe uma ampla variedade de
sintomas e questões entre o luto normal e o luto complicado que merecem atenção
clínica.
As reações de luto complicado também estão sujeitas à variação cultural e
são de difícil diferenciação no que tange outros transtornos relacionados, como
transtorno depressivo, transtorno ansioso ou transtorno de estresse pós-traumático
(TEPT), ainda sem acordo em relação aos critérios diagnósticos e diferenciais,
apesar dos esforços dos pesquisadores na contemporaneidade. Então, Stroebe et.
al (2008 b) apresentam a proposta de considerar os papéis de funcionamento e
desempenho para a definição desta categoria conceitual : desvio significativo da
norma cultural em relação à duração e à intensidade de sintomas específicos ou
gerais do luto e o nível de desajustamento social e/ou ocupacional em outras áreas
importantes de funcionamento . Essa definição se aproxima com a apresentada pela
pesquisadora em outras ocasiões (SILVA, 2008b, 2009), considerando questões da
disfuncionalidade do luto e foram de extrema valia ao longo desta pesquisa.
Rando (2016a) propõe um interessante modelo visual que contempla diversos
fatores para a compreensão de seu conceito de luto complicado e permite observá-
34

lo de forma operacional. A partir de uma perda, respostas e questões individuais que


são influenciadas por teorias explanatórias e fatores multidimensionais
(circunstâncias da morte, fatores psicológicos, fatores sociais e culturais e fatores
fisiológicos de saúde) geram formas de enfrentamento com duas funções principais:
de evitação e de conexão. Todos esses elementos determinarão se o luto correrá
sem complicações ou apresentará uma de suas quatro formas: sintomas, síndromes,
transtornos mentais ou físicos e morte. Dessa maneira, tem-se a oportunidade de
operacionalizar a definição de luto complicado em suas diferentes formas e funções
em um novo e compreensivo modelo conceitual. Não foi possível obter permissão
para a reprodução desse modelo neste trabalho, por estar em fase de publicação
oficial.
Nessa compreensão global do luto complicado, considera-se fundamental
apresentar três importantes ideias contemporâneas acerca do processo de luto.
Vínculos contínuos (KLASS et al., 1993), o Modelo Dual do Processo de Luto
(STROEBE; SCHUT, 1999) e a Construção de Significados (NEIMEYER, 2001).
O trabalho de Klass et al. (1999) se tornou conhecido e aceito quase por
unanimidade entre os clínicos e pesquisadores da área do luto, ao abordar o
conceito de “vínculos contínuos”. Nessa vertente, os autores afirmam que a
imposição da desvinculação em relação ao morto, tal como preconizada nos estudos
iniciais a respeito dos desdobramentos do luto, foi substituída pela percepção de que
o enlutado transforma o relacionamento com quem morreu no sentido de uma
continuidade, mantendo um vínculo ativo e contínuo por toda a vida. Algumas
manifestações podem ocorrer por meio de sonhos, cheiros, sensação de presença,
conversas, entre inúmeras outras. Essa continuidade pode ser observada como um
desenvolvimento de uma nova relação, na qual se observa a construção de uma
representação interna do ente querido, em substituição à presença física, em um
laço de afeto e de memórias.
Stroebe e Schut (1999) desenvolveram o Modelo Dual do Processo do Luto
como uma possibilidade de melhor descrever a diversidade das experiências
estressantes em meio ao processo de luto. Baseando-se na impossibilidade de focar
nas experiências de perda e de reorganização ao mesmo tempo, observam uma
oscilação entre as duas dimensões, que possui uma função regulatória adaptativa,
considerada uma forma de enfrentamento saudável do luto. Essas duas dimensões
foram cunhadas como orientação para a perda e orientação para a restauração, cuja
35

flexibilidade garantem um ponto de equilíbrio em meio ao processo de luto. Dessa


forma, os autores indicam que os problemas advêm quando um enlutado pende para
uma das duas orientações, ou seja, fica voltado para a perda ou orientado para a
restauração.
Embora vários autores tenham mencionado a Construção de Significados
como um importante aspecto ao longo do processo do luto, tais como Walsh e
McGoldrick (1998), Nadeau (1998), Mazorra (2009), Parkes (2009), o trabalho de
Neimeyer (1998) acabou se tornando referência sobre esse assunto. A construção
de significados apresenta dois construtos principais, que são fazer sentido na perda
e achar benefício a partir dela, e está associada à diminuição das complicações do
luto. Para Nadeau (1998), constituir significado permite construir uma explicação
para o que aconteceu, possibilitando a construção de novas visões de mundo.
Assim, esse aspecto do luto se tornou um importante fator de adaptação à perda.
Manter o vínculo com a pessoa amada, equilibrar a orientação para a perda e
para a restauração, bem como construir significados após uma perda, são
elementos que favorecem o crescimento pessoal, tal como definido por Calhoun e
Tedeschi (2004), que possibilita o enlutado a construir um sentido na vida e se
reconciliar com ele. O conceito de crescimento pessoal também tem recebido
destaque entre os clínicos e os pesquisadores dessa área.
Alguns fatores que podem trazer complicações em relação ao luto são as
características da perda, com destaque para o inesperado de situações violentas e
traumáticas, se a morte ocorreu após longo período de adoecimento, se está
relacionada à perda de um filho e se há a percepção do enlutado de que ela poderia
ter sido evitada (RANDO, 1993, 2013, 2016; WORDEN, 2013).
O crescimento no número de mortes violentas e mortes em massa traz um
aumento na demanda por cuidados e no desencadeamento de transtornos
psiquiátricos a partir do trauma. Por conseguinte, deve-se considerar a discussão
concomitante ao aumento da demanda, sobre “... se o transtorno de estresse pós-
traumático, pela perda inesperada e violenta, assim como o luto complicado
necessariamente serão traumáticos” (FRANCO, 2010, p. 19-20).
Independentemente do modelo teórico adotado a respeito do luto, da
intervenção recebida, do tempo decorrido da perda ou mesmo do curso do processo
de luto vivenciado de forma única, pode ser benéfico para o enlutado compreender a
resolução do luto como a possibilidade de vivenciar um ponto de equilíbrio. Para
36

Neimeyer e Cacciatore (2016), esse equilíbrio deve envolver a aceitação de uma


nova realidade e dos novos propósitos de vida, com a sensação de algum
crescimento por meio da escuridão do luto, como uma transição no
desenvolvimento.
Esses dois autores apresentaram recentemente a perspectiva do luto como
um processo de desenvolvimento, bem como uma transição psicossocial e até
mesmo espiritual (NEIMEYER; CACCIATORE, 2016). Portanto, consideram que uma
perda exige um ajustamento que inicialmente se apresenta tumultuado, como um
luto agudo, até um período de relativa estabilidade. Essa perspectiva é observada
na prática clínica e no grupo de apoio que compõe a realidade desta pesquisadora,
bem como atende à perspectiva do paradigma sistêmico ao qual está vinculada
(SILVA, 2016, 2008a, 2008b, 2009, 2014, 2015).
Dessa forma, o luto não deve ser reduzido a sintomas psicológicos,
diagnósticos psiquiátricos ou papéis sociais determinados pela cultura –ou, ainda, à
transição entre fases ou estágios, que leva em consideração apenas aspectos de
funcionamento psicológico individual. Esse modelo desenvolvimental de luto
(NEIMEYER; CACCIATORE, 2016) possibilita observar diferentes aspectos do
processo de luto e, portanto, as diversas demandas que podem surgir a partir dos
desafios ou crises que a perda dispara, fornecendo importantes contribuições para a
avaliação e para a prática clínica com enlutados, que serão objeto de estudo desta
pesquisa.
De acordo com Mazorra (2009), é fundamental distinguir as reações
esperadas diante de uma perda daquelas associadas às complicações do luto, de
forma que se possa identificar as pessoas que têm potencial risco para desenvolver
luto complicado e promover a assistência adequada. Vários autores (PARKES. 1998;
RANDO, 1993; SILVA, 2009; PARKES, 2009; WORDEN, 2013; STROEBE et al,
2008b; FRANCO, 2016) ponderam que a linha entre o luto considerado normal e o
complicado seja tênue, havendo necessidade de avaliação adequada que leva em
consideração a intensidade e a duração das reações de luto. Afinal, o luto é tão
devastador que algumas pessoas podem percebê-lo como doença (PARKES, 2011).
Neimeyer e Cacciatore (2016) propõem que os maiores desafios estão
relacionados a crises de isolamento, insegurança e falta de sentido. O primeiro é
uma característica do que seria um período de luto inicial, relacionado às primeiras
semanas após a perda e envolvendo reações imediatas; o segundo, vinculado ao
37

luto intermediário, é relativo aos meses seguintes à perda, em que o enlutado está
desafiado a reconstruir sua própria vida; e por último, aquele relacionado a anos
após a perda, o luto posterior, caracterizado por ações de reorientação.
Este pode ser o foco a guiar uma abordagem psicoterapêutica, revelando a
importância de uma adequada avaliação da demanda do enlutado que busca ajuda;
em especial por trazer à luz a compreensão de que o modelo apresentado por esses
autores têm como base outras capacidades desenvolvimentais, cujos resultados
aparecem de forma gradual e incerta em um determinado período de tempo,
facilitados por um sistema psicossocial que dá apoio às suas aquisições
(NEIMEYER; CACCIATORE, 2016), isentando-se de rótulos ou padrões pré-
determinados.
Desta feita, qualquer avaliação com vistas à organização de uma intervenção,
deve levar em consideração os desafios desencadeados com a perda, de acordo
com a perturbação percebida pelo próprio enlutado, que pode impedir o movimento
espontâneo de desenvolvimento e trazer complicações ao processo, segundo
Neimeyer e Cacciatore (2016). De acordo com esses autores, essas complicações
podem acontecer por transações problemáticas no ou entre qualquer um dos níveis
do sistema epigenético.
Como já indicado em outros trabalhos desta pesquisadora (SILVA, 2008a,
2008b, 2009, 2010), há a concordância com a afirmação de Parkes (1998),
corroborada por Franco (2016), de que a maior parte dos enlutados será capaz de
estabelecer um funcionamento adequado após a perda nos múltiplos aspectos de
sua vida individual, familiar, social e espiritual.
Shear, Boelen e Neimeyer (2011) trazem à tona a observação de que a maior
parte dos enlutados consegue integrar as reações agudas de luto em suas vidas
diárias ao longo do processo e apenas cerca de 10% dos enlutados desenvolvem
luto complicado. Esses enlutados lutam sem sucesso para reconstruir uma vida sem
a pessoa que morreu, com sintomas tais como sentimento persistente de intensa
busca ou preocupação excessiva com a pessoa amada, choque, incredulidade e
raiva em relação à morte. Podem apresentar dificuldade de cuidar de ou confiar em
outras pessoas, e também demonstrar comportamentos de evitação em relação à
morte ou para se sentir mais próximo de quem se foi, além de aspectos da
ruminação. Esses autores, em sua compilação sobre o tratamento do luto
complicado, afirmam ainda que seus fatores de risco estão associados à
38

vulnerabilidade psicológica, às circunstâncias da perda e ao contexto da morte. Para


eles, o luto complicado faz com que o enlutado perceba a morte como se fosse algo
que tivesse acontecido recentemente, mesmo após muitos anos, indicando um
bloqueio da transição esperada em todo processo.

1.3 ASSISTÊNCIA AO LUTO

Worden (2013) afirma que, por um lado, as pessoas que se submetem a


tratamento para situações de luto podem procurar um serviço especializado
autorreferindo o sofrimento em relação à perda. Por outro, segundo ele, algumas
pessoas que buscam ajuda psicoterápica não percebem a correlação entre uma
perda e o início de sintomas. Assim, buscam um profissional para o alívio desses
sintomas. A correlação só será observada pelo próprio profissional ou pelo paciente
no período de avaliação ou no decorrer do próprio tratamento.
É por isso que qualquer assistência ao luto precisa ser pensada a partir das
questões culturais que envolvem a pessoa enlutada, incluindo reflexões do que é
considerado normal e esperado como reação a uma perda significativa. Para Franco
(2016), ser sensível culturalmente significa um olhar ampliado para além das
questões comumente observadas, para as diferenças de cada família, de cada
região de um país e até mesmo para questões de gênero. E, por que não dizer, da
própria pessoa que irá prestar a assistência.
Esse aspecto também deve ser levado em consideração quando se organiza
uma intervenção, seja individual, familiar ou comunitária, pois, como afirma Worden
(2013), existem pessoas que tendem à adaptação após uma perda, não
necessitando de qualquer tipo de intervenção, dependendo de múltiplos fatores de
risco e de proteção, tanto individuais quanto sociais, em um amplo contexto. Essa
afirmação também é corroborada por Stroebe et al (2008b) e por Gamino e Ritter
(2009, 2011) quando reiteram a informação de que a maior parte dos enlutados
atravessará um intenso período de sofrimento e alguma disfunção, mas conseguirão
ultrapassar esses momentos sem qualquer indicação profissional.
Para Schut et al. (2010), o termo intervenção em luto é muito amplo e
abrange a ajuda oferecida por familiares, amigos e vizinhos após a perda de alguém
amado. Por isso consideram importante distinguir esse apoio informal como apoio
social. Seguindo adiante na discussão da intervenção em situações de luto,
39

portanto, apresentamos uma importante distinção sobre a prática profissional com


enlutados.
Worden (2013), em suas grandes contribuições para o campo do trabalho
com enlutados, apresentou uma distinção entre aconselhamento de luto e
psicoterapia de luto. A primeira se refere à facilitação por meio do aconselhamento
do processo do luto normal ou não complicado para aliviar o sofrimento ou ajudar os
indivíduos e suas famílias a se ajustar bem em um período adequado. A segunda
consiste em técnicas especializadas de intervenção que guiam as reações de luto
complicado até um processo de enfrentamento normal. Na prática, afirma que é
difícil distinguir entre os dois.
São várias as possibilidades de intervenção em situações de luto, tanto para o
aconselhamento como para a psicoterapia de luto, tais como apresentadas por
Neimeyer em duas de suas obras (2012, 2016), apenas para citar como exemplos.
São apresentados o enquadramento do trabalho, a modulação das emoções, o
trabalho corporal, as transformações do comportamento, reestruturação da
cognição, o endereçamento das resistências, a construção de significados, a
reescrita de narrativas de vida, o emprego das artes, a renovação dos laços, os
rituais, o trabalho em grupos, para citar alguns. Nessa compilação, também há
menção a técnicas específicas, inclusive o EMDR (KOSMINSKI; MCDEVITT, 2012).
Refletindo a respeito da distinção entre aconselhamento e psicoterapia do
luto, podemos deduzir que esta segunda deve ser aplicada apenas para aqueles
indivíduos identificados como portadores de luto complicado.
Para Cordioli (2018), a psicoterapia pode ser considerada um método de
tratamento interpessoal que tem como objetivo a intervenção em problemas
emocionais, cognitivos ou comportamentais. Deve ser realizada por um profissional
treinado para atuar em relação a princípios psicológicos. Por meio de uma atividade
colaborativa, a pessoa busca ajuda para cuidar desde queixas simples a transtornos
mentais complexos. Cordioli (2008) e Leonardi e Meyer (2015) consideram a
avaliação inicial como processo primordial em uma psicoterapia. Segundo eles, é
essa avaliação que permitirá a escolha da intervenção de acordo com o quadro
clínico apresentado, a partir da própria experiência e formação do profissional. Para
que uma psicoterapia seja efetiva, é fundamental que seja um processo
individualizado, de acordo com a decisão clínica do profissional e baseada em três
40

componentes: evidências de pesquisa, repertório do profissional e idiossincrasias do


cliente (LEONARDI; MEYER, 2015).
Considerando as questões cruciais acima destacadas, que permitem
estabelecer a psicoterapia como uma das formas de assistência ao luto, será
apresentado o enquadramento do trabalho de Worden (2013) como referência de
uma psicoterapia breve voltada para questões de luto.
Alguns aspectos das recomendações de Worden (2013) para o
estabelecimento da psicoterapia de luto indicam a necessidade de uma avaliação
criteriosa, identificando o que impede a resolução dos conflitos de separação e a
adaptação à perda, de acordo com os critérios por ele apresentados para a
resolução das tarefas de seu modelo. Nesta avaliação inicial, ele inclui a importância
do rastreamento de comorbidades para melhor segurança do cliente, que podem
interferir no processo de psicoterapia, em especial se esta se pretende a ser breve.
Caso sejam identificados outros problemas adjacentes, deve-se endereçar o
paciente aos cuidados necessários, incluindo o encaminhamento a profissionais de
psiquiatria.
Para Worden (2013), é imprescindível o desenvolvimento de uma aliança
terapêutica entre profissional e paciente, incluindo um contrato inicial no qual é
explicado ao paciente o objetivo da terapia e o foco nas questões relacionadas à
perda. Ele recomenda que o período estipulado seja de 8 a 10 sessões, geralmente
semanais, nas quais serão explorados a perda e o sofrimento presentes. Embora
apresente algumas experiências positivas de psicoterapia em grupo, grande parte de
seu trabalho se concentra em estruturar atendimentos individuais, abrangendo,
eventualmente, a família.
Tendo como paradigma a complexidade do processo de luto (SILVA, 2009),
que envolve aspectos biológicos, psicológicos, sociais e culturais, tem-se a certeza
de que existem mais variações de experiências de luto em sua forma e
apresentação do que a mera tentativa de categorizar fases, etapas e sintomas pode
prever.
Essa é também uma observação de Neimeyer e Cacciatore (2016), quando
abordam a realidade não linear do luto no contexto clínico, afirmando que as
variações são a regra, e não a exceção. Deve ser então tarefa de uma adequada
intervenção terapêutica, avaliar as dificuldades em um processo de luto, a partir de
41

um contexto ampliado que possa cuidar dos impasses que surgem em seu
desenvolvimento adaptativo.
É pertinente trazer à tona a discussão sobre como avaliar as reações
advindas de uma perda não só na vida cotidiana, mas no âmbito de pesquisas sobre
luto, pois nem sempre os instrumentos são capazes de capturar as nuances das
respostas relacionadas ao luto (NEIMEYER; HOGAN; LAURIE, 2008). O quanto os
instrumentos de avaliação indicam dos recursos dos enlutados para os profissionais
que lidam com essa realidade? Como as escalas medem os resultados mais
significativos das práticas psicoterápicas e provam sua eficácia? Retomaremos este
tema ao tratar do método.
Para fins da proposta desta pesquisa, será apresentado o enquadramento do
trabalho de Worden (2013) como referência de uma psicoterapia breve voltada para
questões de luto. Alguns aspectos das recomendações de Worden (2013) para o
estabelecimento da psicoterapia de luto indica a necessidade de uma avaliação
criteriosa identificando o que impede a resolução dos conflitos de separação e a
adaptação à perda, de acordo com os critérios por ele apresentados para a
resolução das tarefas de seu modelo. Em sua avaliação inicial, inclui a importância
do rastreamento de comorbidades para melhor segurança do cliente, que pode
interferir no processo de uma psicoterapia, em especial se ela se pretende a ser
breve. Caso sejam identificados outros problemas adjacentes, endereçar aos
cuidados necessários, incluindo o encaminhamento a profissionais de psiquiatria.
A ideia da psicoterapia breve para o tratamento de luto também é considerada
por Parkes (1998) ao fazer uma compilação de trabalhos que utilizam esse viés. Ele
considera uma fonte importante de recurso que pode ter estratégias amplas de
maneira a adaptar-se às necessidades de cada enlutado. Parkes (1998) ressalta que
o luto é considerado uma crise, momento que requer uma abordagem psicoterápica
mais ativa e adaptativa, com foco nos objetivos estabelecidos e em um tempo
delimitado.
EMDR
43

2. EMDR

2.1 A HISTÓRIA DO EMDR

A abordagem psicoterápica do EMDR foi inicialmente desenvolvida por


Francine Shapiro (SHAPIRO; FORREST, 1997; SHAPIRO, 2007, 2015, 2018a) como
um protocolo psicoterápico para lidar com memórias traumáticas. Ao longo dos anos,
desenvolveu terminologia própria, bem como compilou um arcabouço de conceitos e
protocolos diversos, em uma complexidade ímpar. Por isso alguns termos serão
apenas citados, mas não explicados, de maneira a não fugir do escopo deste
trabalho.
Para Shapiro (2007), nos primórdios do EMDR, inicialmente intitulado apenas
EMD, portanto, sem o elemento do reprocessamento, os movimentos oculares eram
aparentemente a parte mais importante do método promovendo a dessensibilização.
Ao longo do desenvolvimento dessa nova abordagem, por meio de pesquisas e
aperfeiçoamento clínico, foi incluído o elemento do processamento de memória e
aprendizagem, e adicionada a letra R no nome.
Contudo, o nome EMDR pode limitar a compreensão e a aplicação dessa
abordagem nos dias atuais, pois outros estímulos também são utilizados. Assim,
Shapiro (2007) considerou renomeá-la de Terapia de Reprocessamento,
nomenclatura mais próxima do que representa hoje, “uma nova forma de pensar a
patologia e o tratamento terapêutico” (p. 15), mas decidiu manter o nome e a
abreviatura originais por seu valor histórico. Como complementa Guz (2017), a sigla
foi importante para a consolidação e o reconhecimento internacional dessa
abordagem. Atualmente, para além de uma técnica ou uma ferramenta
psicoterápica, tem sido considerada como uma abordagem integrativa, que pode
também ser incorporada a outros paradigmas psicoterápicos (SHAPIRO, 2002,
2007)
Luber (2009) impressiona-se com o desenvolvimento do EMDR como um
modelo de tratamento psicológico desde seus primórdios, que foi pesquisado
exaustivamente e registrado como efetivo no tratamento do trauma, por diversas
instituições internacionais. Dentre essas, podemos destacar que o EMDR foi
45

trauma, o modelo de Processamento Adaptativo de Informação (PAI), a estabilização


do cliente, a metodologia básica e mecanismos de ação do EMDR e a conceituação
dos casos, bem como as melhores práticas em populações diversas, incluindo
protocolos especiais (EMDR INSTITUTE, 2017). No Brasil, apenas psicólogos,
psiquiatras ou médicos com formação comprovada em psicoterapia podem se tornar
terapeutas de EMDR.
Embora a formação básica seja um bom começo, o profissional que se dedica
ao trabalho com EMDR precisa ir além na aquisição de conhecimento, habilidades e
manejo clínico por meio de cursos de educação continuada. Como exemplos dos
temas de aprimoramento já existentes no Brasil, citam-se: EMDR com crianças,
Estados de Ego, Transmissão Transgeracional de Traumas, EMDR e Pesquisa, EMDR
com Famílias, EMDR com Casais, Apego, Trauma e EMDR, Entrelaçamentos
Terapêuticos em EMDR, EMDR para Compulsões e Adições e EMDR em Traumas
Complexos, entre outros (EMDR BRASIL, 2019).
Por meio de interlocução com esta pesquisadora, em 2011, o CRP-16/Espírito
Santo solicitou ao Conselho Federal de Psicologia (CFP) um posicionamento em
relação ao EMDR. Apenas em 2012, durante uma Assembleia de Políticas da
Administração e das Finanças (APAF), houve um posicionamento formal, por meio de
Nota Técnica, para esclarecer a posição do Sistema Conselhos sobre o EMDR. Nessa
nota, o CFP esclarece que o EMDR é uma técnica reconhecida em âmbito
internacional, e ressalta que reconhecer práticas não é atribuição do Sistema
Conselhos, o que deve acontecer por intermédio do desenvolvimento de pesquisas e
prática clínica (CFP, 2013). Finaliza esse documento informando que o EMDR é uma
técnica complementar à atividade do profissional de psicologia, cuja prática deve estar
de acordo com o Código de Ética.
O treinamento básico em EMDR já tem sido divulgado por alguns Conselhos
Regionais de Psicologia em território brasileiro, tais como CRP-01/Distrito Federal,
CRP/02/Pernambuco, CRP-04/Minas Gerais, CRP-06/São Paulo, CRP-08/Paraná,
CRP-16/Espírito Santo.
Existem tantas pesquisas publicadas a respeito das aplicações do EMDR em
diversas populações, patologias e sintomas diversos, que seria injusto citar apenas
algumas. Brunnet et al (2014) informam que os estudos em todo o mundo têm
crescido a cada ano. Desse modo, citá-las parcialmente representaria apenas uma
fração desse complexo universo. Braga, Provin e Alves (2019) registram que
44

recomendado para tratamento de vítimas de terrorismo pelo Israeli Council for


Mental Health (BLEICH ; KOTLER ; KUTZ ; SHALEV ; 2002 ). Ao lado da Terapia
Cognitivo Comportamental , foi indicado como tratamento de escolha para Transtorno
de Estresse Pós-Traumático (TEPT) em adultos, pelo Northern Ireland Department of
Health , Social Services and Public Safety (CREST , 2003 ), pelo Dutch National
Steering Committee Guidelines Mental Health Care (HUTS CHEMAEKERS ,2003 ) e
pelo National Institute for Clinical Excellence (NICE, 2005). A International Society for
Traumatic Stress Studies (ISTSS ) recomendou o EMDR como um tratamento
apoiado empiricamente para o tratamento de TEPT (FOA et al., 2009 ). Em recente
publicação , a ISTSS apresentou o EMDR como um tratamento psicológico fortemente
recomendado para o tratamento de TEPT com adultos , adolescentes e crianças .
Enquanto intervenção psicossocial precoce , o EMDR em sessão única foi recomendado
como intervenção com emergente evidência , e também em múltiplas sessões com
recomendação standard, ambos para os três primeiros meses após a ocorrência de um
evento traumático (ISTSS, 2018).
Tendo sido referendada como abordagem baseada em evidências científicas
para o tratamento de TEPT, segundo o Registro Nacional de Programas e Práticas
baseadas em evidências dos Estados Unidos (NREPP, 2010), o EMDR recebeu
recomendação da Organização Mundial da Saúde (WHO, 2013) e da Associação
Norte-Americana de Psiquiatria (APA, 2004).
Desde 1999, o Treinamento Básico em EMDR é oferecido no Brasil, tornando-
se cada vez mais conhecido em território nacional, com um crescente interesse por
parte de profissionais e de clientes (EMDR TREINAMENTO E CONSULTORIA,
2016). A formação de novos profissionais possibilitou a criação da Associação
Brasileira de EMDR em 2008, cujo empenho para divulgar e consolidar a abordagem
permitiu a organização do Congresso Brasileiro de EMDR, que em sua quarta
edição, em 2017, na cidade de São Paulo, contou com quase 300 profissionais e
estudantes e com a apresentação de inúmeros trabalhos e lançamento de livros. Os
Congressos Brasileiros de EMDR representam a oportunidade de congregar a
comunidade de EMDR em torno do que tem sido feito em território nacional, em
termos de prática, teoria, pesquisa e supervisão, fortalecendo essa abordagem cada
vez mais.
O treinamento básico em EMDR consiste em, no mínimo, 40 horas de
teoria/prática e 10 horas de supervisão de casos. São abordados conceitos básicos de
46

algumas dessas referências podem ser identificadas em publicações de Shapiro


(2007, 2018a), bem como nas de Luber (2009, 2016) e de Guz (2017).
Inicialmente utilizado para tratamento de sintomas de Transtorno de Estresse
Pós-Traumático (TEPT), a partir de defensores dessa abordagem, o EMDR teve sua
utilização ampliada para diversas outras indicações e intervenções (LUBER, 2009).
Algumas das aplicações com resultados terapêuticos positivos em uma variedade de
situações, tais como: veteranos de guerra com sequelas de TEPT; pessoas com
trauma agudo e TEPT; pessoas portadoras de fobias, transtornos de pânico e
transtornos de ansiedade generalizada; vítimas de crime, violência sexual ou
desastres naturais ou provocados pelo homem; situações de perda e luto;
trabalhadores da área de segurança ou saúde com sintomas advindos de trauma;
pessoas com sintomas somáticos ou somatoformes tais como migrâneas, dor
crônica, dor no membro fantasma, eczema crônico, problemas gastrointestinais,
entre outros; transtornos dissociativos; dependência química e outras compulsões;
entre outros. Ansiedade de performance ou desempenho, bem como situações
difíceis na escola ou no trabalho, podem também ser alvos de tratamento 2.
Apesar de grande parte das publicações de artigos sobre EMDR estar
disponível na Biblioteca Francine Shapiro, algumas outras publicações significativas
podem já ser encontradas fora deste ambiente virtual, como por exemplo, os
trabalhos de Tarquinio (2009), McGuire, Lee e Drummond (2014), Coubard (2016), e
até mesmo no Brasil: Zanonato e Carvalho (2009); Brunnet et al. (2014); Braga,
Provin e Alves (2019). Existem diversos livros publicados no Brasil sobre o EMDR
(SHAPIRO, 2007; LESCANO, 2007; ZAMPIERI, 2010; GOMEZ, 2012; GRAND,
2013; BERGMAN, 2014; CROITORU, 2014; GOMEZ, 2014; MANFIELD, 2014;
SHAPIRO, 2016), bem como publicações de autores nacionais (TOLEDO; SHIASHI,
2019; CARVALHO, 2013; LOPES; CARVALHO; BARBOSA, 2014; CARVALHO,
2015; CARVALHO, 2016; SALOMONI, 2017; PONTES, 2017; CARVALHO, 2017;
ZAMPIERI, 2017; PONTES, 2019). Algumas compilações de trabalhos de autores
brasileiros apresentam parte do que tem sido realizado no Brasil com relatos de
casos e experiências da prática profissional (MONTEIRO, 2012; MONTEIRO, 2015;
SOBREIRA, 2017).

2
Para acesso a grande parte dessas referências, consultar a Biblioteca Francine Shapiro,
localizada em ambiente virtual: https://emdria.omeka.net/.
47

A publicação de pesquisas no Brasil sobre o uso do EMDR ainda é escassa,


informação confirmada por uma revisão sistemática publicada por Brunnet et al.
(2014). No entanto, é possível mencionar duas teses de doutorado (BRUCK, 2007;
RABONI, 2010; MOTTA, 2017), pesquisas em andamento (GUIMARÃES;
CASTELLO; SOBREIRA, 2018; STIPP, 2018; MESQUITA, 2018), a publicação de
Zampieri e Tognola (2018) e a apresentação de pesquisas indicando bons resultados
do uso do EMDR para diferentes demandas durantes as edições dos Congressos de
EMDR (CASTELLO, 2012; ZAMPIERI, 2012; PANGEIRO et al., 2012; RODRIGUES,
2012; SOUZA, 2012; ZAMPIERI; ZAMPIERI; ZAMPIERI, 2012; ZAMPIER;
ZAMPIERI; GODOY; ZAMPIERI, 2018). Observa-se ainda o início de pesquisas com
imagens eletromagnéticas que comprovam como o EMDR modifica o funcionamento
do cérebro. Apresenta-se também a pesquisa realizada em território nacional por
Carvalho et al. (no prelo), já encerrada e em fase de publicação. Há, portanto, muito
caminho a ser percorrido.

2.2 AFINAL, O QUE É O EMDR?

O EMDR caracteriza-se como um método clínico, tal como o conceito


explicitado por Rudge (2012), sendo, ao mesmo tempo, um tratamento e um sistema
de investigação, visando a diminuir o sofrimento psíquico. Assim, o EMDR construiu
suas bases em uma forma clínica na escuta e na atenção do que é singular da
prática diagnóstica e terapêutica e, segundo Shapiro (2002), incorpora princípios,
protocolos e procedimentos. Pode ainda ser definido como uma forma de
intervenção e, também, um modo, em constante evolução, de compreender e
conceituar um caso clínico (SHAPIRO, 2002, 2007).
Para Guz (2017), o EMDR está apoiado em bases neurocientíficas para o
trabalho com experiências traumáticas. Em sua amplitude, pode ser formulado como
uma psicoterapia breve focada em situações pontuais, para traumas únicos, ou
tomar uma forma mais abrangente, ao considerar problemas desenvolvimentais por
histórico de traumas precoces, que interferem na esfera individual ou relacional de
uma pessoa.
Ao longo do ciclo de vida de alguém, a partir de sua convivência com sua
família de origem, sua família constituída, seu círculo social, atividades de vida
cotidiana e até mesmo na escola ou no trabalho, experiências podem ser
48

vivenciadas como positivas ou negativas, e armazenadas como memórias, positivas


ou negativas (SHAPIRO, 2015).
Assim, para Shapiro (2015), desde a mais tenra idade, cada experiência
vivenciada por um indivíduo é parte de um quebra-cabeças que forma o mundo
interior e determina as reações em relação às experiências posteriores. Todas essas
peças são armazenadas fisicamente nos neurônios, redes de células cerebrais, que
constroem a forma como vemos o mundo e como reagimos a eles. Para essa
autora, as memórias armazenadas de forma apropriada constituem a base para a
felicidade e para a saúde mental. Contudo, os sintomas são originários desse
sistema de memória, mesmo que não consciente, pela existência de memórias não
processadas (SHAPIRO, 2015).
Lang (1979) completa que esse sistema de memória possui uma estrutura de
informação que inclui diversos elementos interligados (entradas sensoriais,
cognição, emoções, reações psicofisiológicas, comportamentos). E, segundo ele,
quando a memória perturbadora vem à tona, acaba por ativar respostas fisiológicas
tais como as vivenciadas no momento da experiência difícil.
Shapiro (2002, 2007, 2015) propõe como guia para o EMDR o modelo de
Processamento Adaptativo de Informação (PAI), que pressupõe que o sistema
fisiológico do cérebro seja capaz de processar as experiências em um caminho de
saúde e equilíbrio, salvo se houver bloqueio ou trauma contínuo. Caso essas
memórias permaneçam sem processamento, congeladas de forma paralisante,
fornecem a base para reações disfuncionais (SHAPIRO, 2002, 2007, 2015).
Portanto, o EMDR tem como foco essas memórias não processadas que contêm
imagens, pensamentos, emoções e sensações físicas que provocam reações que
podem se tornar crônicas.
Essas memórias não armazenadas de forma correta fazem com que a pessoa
fique presa em uma interpretação particular da realidade, que faz com que interaja
com a situação presente a partir das memórias perturbadoras anteriores (SHAPIRO,
2002, 2007, 2015). Sendo assim, a pessoa reage de forma disfuncional em
situações do presente por conta de eventos anteriores que ficaram codificados
fisiologicamente.
Para Shapiro (2015), essas memórias podem estar relacionadas a um
acontecimento único, também conhecido como trauma grave (T), ou a experiências
que podem ser classificadas como pequenos traumas (t), os quais, isoladamente ou
49

em seu conjunto, podem acarretar memórias não adaptativas (SHAPIRO,


FORREST, 1997; SHAPIRO, 2002, 2007). Eventualmente, o fato perturbador é algo
que não aconteceu, por exemplo, em situações de negligência, quando a criança
deveria ter sido protegida (SHAPIRO, 2015).
Contudo, para Shapiro (2002), não há clareza sobre as razões de indivíduos
responderem de forma diferente a eventos semelhantes e a melhor definição de
trauma é: qualquer evento que deixe efeitos negativos, não importando a
intensidade ou duração do evento ou dos efeitos. Para ela, a pressão da interação
bioquímica entre natureza, nutrição e meio ambiente, que impede o processamento
de informação alterando a percepção do indivíduo por décadas, requer mais
investigação.
O EMDR tem como base o pressuposto de que a pessoa se prende a uma
memória traumática porque a própria natureza do trauma sobrecarrega o cérebro,
que não consegue processar esta informação de maneira adaptativa. Esta forma de
responder ao trauma é considerada uma resposta desadaptativa, alvo do tratamento
EMDR (SHAPIRO, 2007).
Assim, a partir do PAI e dos procedimentos estabelecidos para o EMDR, a
memória disfuncional é acionada e, com todos os seus elementos acionados, o uso
dos movimentos bilaterias (MB’s) ajudam o cérebro a digerir essas memórias
negativas, conscientes ou não, até sua armazenagem adaptativa (SHAPIRO, 2007,
2015). Os MB’s utilizados no EMDR podem ser visuais, auditivos e táteis.
Os procedimentos facilitam o acesso à rede de memórias e promovem
revelações, conexões e mudanças, bem como permitem que padrões negativos de
se comportar ou de reagir possam ser rompidos (SHAPIRO, 2015). Dessa forma,
permitem a integração de novas informações, levando a um crescimento psíquico
em direção a um novo senso de identidade, para além da redução dos sintomas.
Além disso, proporcionam uma mudança em como a pessoa percebe o evento,
assim como seu próprio papel no evento (SHAPIRO, 2002, 2015).
Para Braga, Provin e Alves (2019), portanto, o objetivo do EMDR é reativar o
PAI de maneira a processar a memória disfuncional, proporcionando a conexão com
redes adaptativas de memória. E, dessa forma, a principal função do terapeuta é
permitir que o cliente acesse o caminho do PAI (BRAGA; PROVIN; ALVES; 2019).
De acordo com Shapiro (2002, 2007) e Solomon e Shapiro (2008), é durante
o reprocessamento que estas conexões neurofisiológicas são retomadas,
50

possibilitando a reativação funcional da memória e dessensibilizando as situações


negativas armazenadas junto às crenças negativas que as sustentam. Este
reprocessamento da memória possibilita o surgimento de crenças e sensações
positivas, considerados recursos positivos tanto neurofisiológicos quanto
psicológicos do paciente.
Essas ferramentas fundamentais para o enfrentamento de futuras situações
de vulnerabilidade emocional e corporal parecem ressoar com o trabalho de
Solomon e Shapiro (2008) sobre o mecanismo de reconsolidação da memória.
Dessa maneira, o cliente reagirá de forma diferente às situações semelhantes, que
antes lhe disparavam uma série de reações perturbadoras e pensamentos negativos
sobre si mesmo.
Por ser um processo complexo e com muitas variáveis, ainda não há a
explicação de porque o EMDR funciona e, segundo Shapiro (2015) várias pesquisas
estão em andamento. Segundo ela, uma das explicações possíveis é de que os
movimentos bilaterais (MB’s) utilizados parecem estimular o mesmo tipo de
conexões biológicas observadas durante o período do sono que apresenta
movimentos rápidos dos olhos (REM), período em que o processamento das
memórias acontece de forma adaptativa (SHAPIRO 2007, 2015).

2.3 A PRÁTICA DO EMDR

O EMDR pode ser usado em qualquer etapa do ciclo vital (SHAPIRO, 2007,
2015, 2018; GOMEZ, 2012, 2014) e aplicado de forma individual (SHAPIRO, 2007,
2015 , 2018 ) com casais (ZANONATO ; CARVALHO , 2009 ; SALOMONI , 2017 ;
ZAMPIERI , 2012 ), com famílias (ZANONATO ; CARVALHO , 2009 ; SHAPIRO ;
KASLOW ; MAXFIELD , 2016 ) e em grupos (ARTIGAS et al., 2014 ; JARERO ;
ARTIGAS , 2014b). Pode haver indicações para seu uso logo após a ocorrência de
uma situação crítica, como uma intervenção precoce, com a utilização de protocolo
de evento recente (SHAPIRO , 2007 ), ou ainda de protocolos apresentado , por
exemplo , por Jarero e Uribe (2014 ), Jarero e Artigas (2014 a), Luber (2014 ) entre
outros.
A indicação massiva e consistente em relação ao uso do EMDR é em relação
ao tratamento de TEPT, conforme mencionado no início desse capítulo e
corroborado por Braga, Provin e Alves (2019). Esses autores ressaltam que não
51

existem estudos em quantidades significativas para garantir a efetividade do uso do


EMDR em diferentes condições clínicas. Ao mesmo tempo, não localizaram na
literatura científica contraindicações a respeito do EMDR, mas referiram que a
prática clínica indica limitações com clientes resistentes e que há especulação de
que o uso de benzodiazepínicos interfere no processamento de memórias.
De acordo com o EMDR Institute (2017), algumas condições de saúde,
incluindo epilepsia, labirintite, dor nos olhos e trauma físico na cabeça requerem
maiores cuidados e precisas habilidades terapêuticas. É recomendável que se
consulte o médico assistente para juntos definirem a prontidão para o tratamento, e
quais cuidados precisam ser tomados, como, por exemplo, não usar os MB’s visuais.
A mesma recomendação deve ser seguida no caso de gestantes ou pessoas em uso
de medicação psiquiátrica.
A abordagem do EMDR prevê a realização de uma avaliação criteriosa do
problema apresentado por um indivíduo que busca ajuda psicoterápica e da
consequente elaboração de um plano de tratamento individual (PTr), de acordo com
o pedido de ajuda. Este plano consiste no cuidadoso estabelecimento de alvos,
baseados nas redes de memória das situações traumáticas, e no conhecimento
apropriado dos protocolos, levando em consideração também a estrutura do
paciente. Exige também o estabelecimento de um confortável relacionamento
terapêutico (SHAPIRO, 2007).
Seria restringir a abrangência do EMDR a visão simplista de que ele foi
talhado para apenas reduzir sintomas, o que pode até ocorrer quando há o
processamento de memórias disfuncionais. O objetivo é abordar o cliente como um
todo, em busca de um tratamento abrangente de acordo com o planejado. Assim é
possível favorecer o funcionamento global do cliente nos aspectos individuais,
familiares e sociais, de forma a experimentar afetos e emoções, inclusive a
possibilidade de vivenciar vinculações saudáveis.
O protocolo básico é formulado com três etapas – passado, presente e futuro
– que se interconectam nesse plano de tratamento, a partir do PAI, e dependem de
uma boa avaliação clínica compreendendo o cliente como um todo. No passado, o
terapeuta busca identificar as redes de experiências que contribuem para a
disfunção a ser trabalhada, elencando-as por ordem cronológica de ocorrência,
podendo também determinar a primeira, a pior e a última experiências a serem
processadas. No presente, o PTr inclui os chamados disparadores, ou gatilhos,
52

situações ou pessoas que reativam aquela memória não adaptativa, provocando


algum grau de perturbação. A avaliação do futuro inclui habilidades e recursos que
precisam ser incorporados. Como afirma Guz (2017), o EMDR prepara o cliente para
os desafios em potencial, cuidando de possíveis ansiedades antecipatórias, e
colabora para identificar aprendizagens necessárias para respostas adaptativas.
O processamento durante a utilização do EMDR requer que o cliente mantenha a
atenção dual, observando simultaneamente o presente e o passado, motivo pelo
qual é importante incluir a avaliação de presença de dissociação na história
preliminar. Independente do quadro clínico apresentado, não são solicitados os
detalhes da memória perturbadora, e ela é enquadrada a partir dos elementos
primordiais do EMDR, que fazem parte do ICES.
Para um melhor aproveitamento do PAI, o EMDR Institute (2017) recomenda
manter o cliente em um moderado nível de estresse emocional, de forma a modular
o processo. Também conhecida como janela de tolerância (SIEGEL, 1999), essa é
uma zona de ativação ideal das emoções na qual um indivíduo consegue receber,
processar e integrar novas informações (GUZ, 2017).
Isso significa manter um nível ideal de emoção e manter o processamento
acontecendo, a partir de estratégias diversas, como variação dos MB’s ou nas
medidas de SUDS, uso de metáforas, entre outros. Ou ainda o entrelaçamento
cognitivo e o trabalho com crenças limitantes, bastante úteis em situações em que o
processamento é interrompido (SHAPIRO, 2007, 2018a).
A seguir, serão apresentadas as oito fases do protocolo básico, conforme
Shapiro (2007):
Fase 1. História Clínica – Essa fase tem como objetivo conhecer o problema
apresentado, colhendo informações sobre a história do cliente de forma a rastrear
sua prontidão para se beneficiar dessa psicoterapia, bem como identificar os alvos a
serem trabalhados. Nesse período também são avaliadas as estratégias de
enfrentamento do cliente, por meio de seus recursos, suas experiências positivas e
sua rede de apoio. Nessa etapa, apresentam-se os elementos do EMDR e obtém-se
o consentimento do cliente. É também o momento de estabelecer os objetivos da
psicoterapia, por meio da construção do PTr.
Fase 2. Preparação – Objetiva preparar o cliente para que ele processe as
memórias perturbadoras, de maneira a oferecer segurança e estabelecer uma boa
relação terapêutica. Essa etapa também visa o treino em habilidades de
53

enfrentamento e técnicas de autocontrole, para que o cliente se mantenha na janela


de tolerância ótima para um processamento efetivo das memórias. Técnicas como
Lugar Tranquilo, de respiração e imagem guiada são algumas das que podem ser
utilizadas, dentre muitas outras que podem vir do repertório do próprio profissional,
de abordagens anteriores.
Fase 3. Avaliação – A partir do PTr, terapeuta e cliente identificarão o primeiro
alvo a ser trabalhado envolvendo os diferentes elementos da memória. Então,
estabelecem-se os componentes específicos do alvo, a saber, Imagem (I), Crença
Negativa (CN), Crença Positiva (CP), a validade dessa CP por meio da Escala de
Validação da Cognição (Validity of Cognition Scale – VoC), Emoção (E), a avaliação
do desconforto pela Escala de Unidades Subjetivas de Perturbação (Subjective
Units of Disturbance Scale – SUDS) e a Sensação Física (SF). Por convenção, o
conjunto desses componentes é também conhecido por uma sigla, ICES, que
representa os elementos imagem, crença, emoção e sensação corporal. É
importante destacar que o SUDS mede a perturbação em uma escala de 0 a 10,
onde 0 é nenhuma perturbação e 10 a máxima perturbação que se possa imaginar.
O VoC mede a validade da CP em uma escala de 1 a 7, onde 1 representa
completamente verdadeira e 7 representa completamente falsa.
Fase 4. Dessensibilização – Aqui os MB’s são utilizados para o
processamento do alvo escolhido. Observa-se possíveis mudanças na rede de
memórias, até que a perturbação alcance o SUDS zero, o que pode acontecer em
uma única sessão ou várias sessões.
Fase 5. Instalação – Voltando à CP escolhida, avalia-se sua adequação,
vinculando-a à memória que está sendo trabalhada. Mantêm-se os MB’s na mesma
quantidade/intensidade/velocidade anterior, até alcançar-se o VoC 7.
Fase 6. Escaneamento Corporal – ao acessar a memória e à CP, solicita-se
ao cliente que escaneie o corpo em busca de perturbação. Caso haja perturbação,
os MB’s são retomados até não haver mais sensações físicas que perturbem.
Fase 7. Fechamento – Aqui é possível observar se a sessão foi completa ou
incompleta. Considera-se sessão completa aquela que chegou à fase 6
satisfatoriamente, para então se passar para a fase seguinte, quando a anterior for
encerrada. Independente do resultado, é o momento de se certificar da estabilidade
do cliente, utilizando alguns dos elementos já estabelecidos na fase 2. Relembrando
o PAI, o cliente deve ser informado de que elementos da rede de memória podem
54

continuar emergindo entre as sessões, recebendo instruções sobre o que fazer. O


cliente é incentivado a manter anotações a respeito de experiências positivas e
negativas que surgirem até a próxima sessão.
Fase 8 – Reavaliação. Essa fase acontece na sessão seguinte para avaliar o
que aconteceu desde a sessão anterior, se surgiram novas memórias ou se foram
observadas mudanças. O alvo trabalhado na sessão anterior é reavaliado, sendo
medido o SUDS. Caso ainda apresente perturbação, volta-se à fase 4 de
reprocessamento. Caso o alvo tenha sido processado, passa-se ao processamento
de novo alvo, ou reafirmação dos resultados alcançados, de acordo com o PTr.
A partir do PAI promovido pelo EMDR, observa-se a dessensibilização,
mensurável pela redução da perturbação (SUDS), surgimento de insights e
mudanças nas respostas físicas e emocionais, novas aprendizagem possíveis
dentro do contexto atual, além do crescimento pessoal e do desenvolvimento da
resiliência (SHAPIRO, 2015; EMDR INSTITUTE, 2017).
O risco do que pode acontecer ao se acessar essas memórias perturbadoras,
é a maior justificativa para que apenas profissionais licenciados e treinados
conduzam tratamentos de EMDR. O treinamento básico fornece ao terapeuta
iniciante informações sobre onde focalizar a atenção e como proceder caso o
processamento seja bloqueado ou caso surja material por demais perturbador
(SHAPIRO, 2015; EMDR INSTITUTE, 2017).
Portanto, o terapeuta EMDR deve estar preparado para receber desde
queixas relacionadas a evento único como a um TEPT Complexo, oriundo de
múltiplos eventos traumáticos na vida do cliente, com sinais severos de problemas
dissociativos e/ou de personalidade. É necessário conhecimento aprofundado de
psicopatologia, bem como formação profissional contínua, para que a intervenção
seja desenhada de acordo com cada cliente.
A partir da teoria do apego (BOWLBY, 1997), a qualidade das relações
humanas que transmitem segurança podem afetar o desenvolvimento de um
indivíduo. E caso existam situações críticas vivenciadas na mais tenra idade, essas
memórias remanescentes não processadas podem gerar graves sintomas.
Dificuldades de apego moldam a forma de um indivíduo interagir com o mundo.
Assim como as psicoterapias baseadas no apego, que lançam luz para as relações
precoces, o EMDR coloca suas lentes no passado de maneira a organizar o
presente e possibilitar uma liberdade futura. O PAI propõe que essas experiências
55

mal armazenadas é que são disparadas nas relações do presente, como se


estivessem acontecendo novamente, fazendo emergir emoções e até sensações
físicas. Esse processo não permite controle por parte de quem sofre algo dessa
natureza, permanecendo, por vezes, fora da consciência (SHAPIRO, 2002).
Situações complexas disfuncionais como a mencionada acima podem estar
na base de transtornos de personalidade ou de quadros dissociativos. Crianças com
múltiplos traumas crescem sem confiar em si mesmas ou no outro, e podem também
não confiar em suas próprias percepções, apresentando dificuldade nas relações
com o mundo externo. De acordo com Shapiro (2002), clientes com histórico de
abuso e negligência têm recursos internos ou experiências positivas insuficientes
para transformar suas experiências negativas, motivo pelo qual requerem cuidados
adicionais e, provavelmente, receberão tratamentos prolongados com EMDR.
Braga, Provin e Alves (2019), apresentando a prática clínica com EMDR,
informam que uma sessão de EMDR não difere de outras práticas psicoterápicas, e
tem a duração média de 60 minutos. No entanto, a depender da forma do
processamento do cliente e da disponibilidade do terapeuta, pode chegar a 120
minutos.
De acordo com Shapiro (2002, 2007), foram incorporados o desenvolvimento
de recursos e a instalação de procedimentos que possam determinar se o cliente
tem força de ego e resiliência para adentrar no processamento. Caso seja
observado que isso ainda não acontece, a fase 2 pode durar meses ou anos até que
o cliente esteja pronto para ser submetido ao EMDR. Nessa etapa a relação
terapêutica deve ser aprofundada para que o cliente tenha segurança suficiente para
enfrentar aspectos dolorosos de sua vida.
O tempo de tratamento e o número de sessões é variável e depende da
avaliação inicial e do PTr , da gravidade dos sintomas e da estrutura do cliente ,
podendo ser utilizado em uma sessão única ou por anos. Desta maneira, conclui-se
que o EMDR é uma abordagem que deve ser utilizada sob medida para cada cliente.
EMDR E LUTO
57

3. EMDR E LUTO

3.1 REVISÃO SISTEMÁTICA DA LITERATURA – PRIMEIROS PASSOS

A construção da fundamentação teórica deste capítulo teve início durante uma


das disciplinas do doutorado em Psicologia Clínica da PUC-SP, com o desafio de
realizar uma revisão sistemática da literatura em meios eletrônicos sobre o tema
investigado.
A revisão inicial foi realizada em 2014 na Biblioteca Virtual de Saúde (BVS) –
Biblioteca Regional de Medicina (BIREME), que engloba os seguintes bancos de
dados: MEDLINE, LILACS, IBECS, Biblioteca Cochrane e SciELO.
Como critérios de inclusão, foram selecionados artigos empíricos e teóricos,
estudos de casos, opiniões e comentários, dissertações e teses em inglês,
português e espanhol, durante os meses de setembro a novembro de 2014. Os
descritores incialmente utilizados na busca foram: EMDR and grief, EMDR and
bereavement, EMDR and duelo, EMDR and luto, EMDR and loss, EMDR and perda,
EMDR and perdida. Após a busca inicial, foram excluídos os artigos repetidos em
outro idioma ou que constavam em outra base de dados. Quatro artigos foram
selecionados para leitura do resumo e, em seguida, para leitura na íntegra, e apenas
dois puderam ser aproveitados. Os dois artigos excluídos mencionavam o luto de
maneira superficial, apenas indicando sua existência, sem, contudo, falar sobre
intervenção no luto. Além disso, tinham como foco principal o tratamento do trauma.
Assim, apenas os artigos de Sprang (2001) e Solomon e Rando (2007)
permaneceram para utilização posterior.
O pequeno resultado se torno um motivo para seguir a sugestão de Creswell
(2010) de expandir a busca procurando por artigos com alguma similaridade ao tema
proposto, a partir de termos citados nos artigos avaliados. Então, os seguintes
descritores adicionais foram incluídos em nova busca: EMDR and Transtornos
Dissociativos , EMDR and Transtornos de Apego , EMDR and Novas Abordagens ,
Terapias de Reprocessamento and Luto , também em inglês e espanhol . Foram
selecionados sete artigos para leitura do resumo , mas todos foram identificados
como não sendo correlacionados ao tema pesquisado , motivo pelo qual não
restaram artigos para leitura integral . O processo da revisão sistemática de 2014
pode ser conferido na Tabela 1.
58

Quadro1 – Resultados da Revisão Sistemática de Literatura em 2014.


Fonte: Silva e Franco (2015, 2016)

Esses resultados foram apresentados por Silva e Franco (2016) junto com
uma nova revisão de literatura, realizada em 2017, utilizando os mesmos critérios e
procedimentos, com resultados semelhantes. Nessa segunda revisão, os mesmos
dois artigos seguiram como únicas referências (SPRANG, 2001; SOLOMON;
RANDO, 2007). O estudo preliminar realizado explicita a escassez de artigos
científicos que abordem com profundidade o uso do EMDR em situações de luto.
Ao longo do tempo remanescente até o encerramento desta investigação,
ampliar a busca em outras fontes eletrônicas e impressas (CRESWELL, 2010)
revelou-se como estratégia mais eficaz. Nessa perspectiva, foram consultadas as
referências bibliográficas do Treinamento Básico de EMDR (EMDR INSTITUTE,
2015, 2017), e da Biblioteca Francine Shapiro (HENSLEY, 2018). Também foram
realizadas frequentes buscas não sistemáticas nas bases eletrônicas Journal of
Medical Association (JAMA), PubMed e Google Scholar, sempre usando os mesmos
descritores . A busca também se deu por meio das referências citadas no material
encontrado , incluindo alguns capítulos de livro. O resultado dessa busca será
apresentado no conjunto desse capítulo.
59

3.2 PEÇAS DE UM QUEBRA-CABEÇAS

Shapiro (2007) enfatiza a importância de desenvolvimento de novas


pesquisas, incluindo a integração do EMDR a conhecimentos aceitos por diferentes
especialidades clínicas, em busca da consolidação de sua aplicação em caráter
científico, colaborando paraa diminuição do sofrimento humano e acrescentando
mais informações ao conhecimento.
Em um sensível texto, Shapiro e Forrest (1997) afirmam que uma pessoa
traumatizada pelo luto não pode receber o diagnóstico de TEPT, salvo se a morte
tiver sido violenta ou não esperada. Segundo eles, “em face de tamanha tristeza,
rótulos diagnósticos não têm qualquer sentido” (SHAPIRO; FORREST, 1997, p. 148
– tradução nossa).
O texto deles abre uma questão relevante, que é a da nomenclatura em
relação ao luto. Parte dessa discussão já foi realizada no capítulo anterior. Mas é
preciso retomá-la. Shapiro e Forrest (1997) empregam o termo “luto não resolvido”
(unresolved grief) e, em seguida, “luto não complicado” (uncomplicated grief), ambos
em tradução livre. Afinal, de que luto estamos falando quando se trata do EMDR
relacionado ao luto?
Ao confrontar os diversos textos que compõem este estudo, observou-se o
comentário de Worden (2013), mencionado anteriormente, a respeito da diversidade
de termos empregados para classificar o luto. Basta observar nas publicações... luto
normal (MURRAY, 2012), luto não resolvido (SOLOMON; RANDO, 1997), luto
prolongado (SOLOMON; RANDO, 1997) luto excessivo (SHAPIRO, 2007;
SOLOMON; RANDO, 1997; LUBER, 2009, 2012; SHAPIRO, 2018), luto traumático
(SOLOMON; RANDO, 2007; TARQUINIO et al., 2008).
Luto complicado aparece também no trabalho de Solomon e Rando (2007), e
na atualização de Shapiro (2018), mas esta autora, em seguida, volta a utilizar
novamente o termo luto excessivo. Van Denderen et al. (2018) utilizam o termo luto
complicado de Prigerson et al. (1995), enquanto Sprang (2001) tem como referência
o termo luto complicado, tal como postulado por Rando (1993). Esse último termo foi
o escolhido por esta pesquisadora como mais adequado em relação à integração de
seu conhecimento de luto.
Traçar uma profunda discussão a respeito dessas terminologias seria tentar
colocar ordem na panaceia de classificações e nomenclaturas, o que não é o
60

propósito desse trabalho. Seria preciso entender qual o arcabouço teórico e de onde
vem a terminologia que cada autor emprega, informações que não constam nas
publicações, com exceção de duas (SPRANG, 2001; VAN DENDEREM et al., 2018),
cujos autores foram cuidadosos ao registrar esse “pequeno detalhe”.
Para Shapiro (2007), a perda pode ser uma experiência traumática, sendo
que o sofrimento desencadeado por ela tem intensidade e duração variáveis. Ainda
segundo ela, as pessoas podem superar sozinhas o pesar produzido por uma perda
em um processo de ajustamento. Os casos por ela apresentados são relatados em
fragmentos e com poucos detalhes, não informando, por exemplo, o tempo decorrido
desde a perda. Há, porém, destaque para a informação/afirmação de que o EMDR
não dissolve as emoções adequadas do luto, mas colabora para que o enlutado
caminhe em direção à aceitação da perda, removendo obstáculos. Sua
recomendação é de que o EMDR possa ser utilizado a qualquer momento do
processo de luto de acordo com o julgamento do clínico.
Solomon e Rando (1997), desbravadores clínicos e principais autores na
abordagem de EMDR em situações de luto, nessa primeira de muitas publicações,
afirmam que o EMDR pode ser utilizado em reações de luto no que tange ao trauma
relacionado à perda. Com o propósito de resolver questões de responsabilidade,
segurança e controle, mencionam a importância do tempo para o processo do luto.
Sugerem que o EMDR seja utilizado no tratamento do que chamaram de “luto não
resolvido” (SOLOMON; RANDO; 1997, p. 231), relatando sua aplicação em alguns
exemplos clínicos. Nesse mesmo artigo, utilizam o termo luto excessivo, tal como
Shapiro (2007), o qual pode durar por décadas.
Solomon e Rando (2007) afirmam que, embora a perda de um ente querido
seja algo comum à existência humana, provoca sofrimento com efeitos na mente e
no corpo, podendo ser uma experiência traumática. Além disso, traumas
considerados grandes (testemunhar a morte de alguém) ou pequenos (ter uma
pequena discussão logo antes da morte) podem povoar a mente de um enlutado,
impedindo o acesso a memórias positivas, fator que pode complicar o processo de
luto (RANDO, 1993). Para eles, o EMDR pode ser usado para trabalhar qualquer
situação perturbadora que tenha impacto no indivíduo, mesmo que não atenda aos
critérios do que é considerado cientificamente uma situação traumática, podendo
incluir o que seria considerado como uma reação normal diante de uma perda.
Solomon e Rando (2016a) completam mais adiante que o EMDR deve ter como foco
61

o enfrentamento das reações agudas de luto e questões relacionadas ao processo


de luto.
Para Shapiro e Forrest (1997), as imagens relacionadas ao momento crítico
tendem a desaparecer com o tempo, mas quando o processo paralisa, por algum
motivo, o EMDR pode ser utilizado. Esses autores consideram que uma situação
particularmente difícil que surge como demanda do trabalho com o enlutado é a
culpa, que pode advir de coisas difíceis que foram feitas ou de coisas que não foram
feitas, os conhecidos “ses” (SILVA, 2009): “se eu tivesse feito isso, se eu tivesse feito
aquilo...” Alguns enlutados também podem se sentir responsáveis pelo que
aconteceu e sem rumo após terem tido seu senso de controle rompido (SHAPIRO;
FORREST, 1997).
Shapiro e Forrest (1997) citam também o trauma vicariante, como possível
demanda para o trabalho com EMDR. Os autores explicam que esse fenômeno
acontece com pessoas que não estavam presentes na hora da morte, mas que
ouviram falar dela e acabam afetadas de forma intensa, imaginando a cena
perturbadora, com pensamentos e imagens recorrentes. Outro aspecto possível de
ser trabalhado com o EMDR, segundo eles, é a situação de alguém que se sente
invadido de medo em relação à sua segurança pessoal ou, ainda, do medo de
receber algo ou demonstrar para o outro as suas necessidades
Solomon (2012) apresenta mais um aspecto que pode ser trabalhado com
EMDR: o rompimento do mundo presumido, conceito explorado por Parkes (1971,
2009), Rando (1993). Esse conceito envolve todos elementos que fazem interpretar
o mundo com base nas experiências anteriores, de uma outra maneira de
compreender. Dito de uma outra maneira, é o que Vasconcellos (2002) apresentou
como paradigma, ou seja, a forma de ver o mundo. Para aqueles que percebiam um
mundo justo, previsível e controlável, um evento que contradiz isso, como a perda
de alguém querido, pode ser traumático. Nesse processo, podem surgir diferentes
CNs. Além disso, se o enlutado possuir uma história com traumas precoces, o
mundo presumido dele, já estabelecido, cheio de CNs, acabará por ruir, podendo
trazer quadros dissociativos.
Shapiro e Forrest (1997) citam Rando (1993), que descreve um modelo de
três estágios para ser usado em situações de luto a fim de lidar com eventuais
bloqueios ou complicações. O primeiro estágio é lidar com a morte, o segundo,
aceitar a morte, e o terceiro, integrar a ausência da pessoa no futuro. Todos os
62

trabalhos subsequentes de Solomon e Rando identificados nesta pesquisa


mencionaram esses três desafios que o enlutado tem pela frente (1997, 2007, 2012,
2016a, 2016b).
Embora Solomon e Rando (1997, 2007, 2012, 2016a, 2016b) não tenham
desenvolvido pesquisa sobre este tema, sua ampla experiência clínica confirma que
a aplicação do modelo de oito fases do EMDR em situações de luto pode trazer
benefícios clínicos substanciais após uma perda. Em todas as publicações, esses
autores mencionam casos clínicos como forma de ilustrar o uso do EMDR em suas
diversas fases. Desde então, recomendam que o clínico comece a usar o EMDR a
qualquer momento para proporcionar alívio para o cliente, sem se questionarem por
quanto tempo o sofrimento deve acontecer. O “pequeno detalhe” que passa quase
desapercebido é em relação ao tempo e ao ritmo para o uso do EMDR com
enlutados. Estes devem ser sempre determinados por meio de avaliação adequada
das necessidades do cliente e da situação na qual está envolvido.
Em uma dessas publicações mencionadas, estes autores (SOLOMON;
RANDO, 2007) indicam que a morte de alguém amado, onipresente ao longo de
toda a vida, não deixa de ser angustiante, ou mesmo traumática, concordando com
a ideia de Parkes (2011) apresentada no capítulo anterior. Nesse artigo, apresentam
uma outra linguagem mais alinhada com os paradigmas contemporâneos do luto, a
partir de uma compreensão conceitual a respeito do luto vinda do trabalho de Rando
(1993), ao indicar o EMDR para o tratamento de luto complicado.
Desta feita, Solomon e Rando (2007) observam as grandes consequências
psicológicas, comportamentais, sociais e físicas em diferentes e complementares
esferas da vida de um enlutado. De forma a provocar reflexões, ponderam que há
uma tendência a não fazer interferências no processo de luto sem que seja
necessário. Por conseguinte, relatam que as avaliações de processos de luto têm
sido cada vez mais frequentes. Consideram, portanto, que existem poucas situações
em que o uso de técnicas específicas para aliviar a dor, reduzir a disfuncionalidade,
trabalhar com os conflitos e promover a adaptação que devam ser utilizadas.
Começam aqui a indicar o caminho de se aprofundar no conhecimento a respeito do
luto.
Como demonstração do constante aprimoramento, Solomon e Rando (2007)
propõem, aparentemente pela primeira vez, usar o “modelo dos 6 Rs” de Rando
(1993), enquadramento da autora para o tratamento do luto complicado, de forma a
63

facilitar a avaliação e a intervenção, bem como o monitoramento dos resultados. O


modelo dos 6 “Rs” os acompanha em todas as publicações posteriores (SOLOMON;
RANDO, 2007, 2012, 2016a, 2016b; SOLOMON, 2018).
Solomon e Rando (2007, 2016a) prosseguem afirmando que o objetivo de
enquadrar o EMDR nos “Rs” é o mesmo: processar memórias armazenadas de
maneira disfuncional e obstáculos ao acesso de memórias agradáveis em meio a
reações de arrependimento, tristeza e culpa, que podem resultar em memórias
intrusivas e pesadelos. Assim como preconiza o trabalho do EMDR, pode-se
processar as emoções adjacentes, disparadores no presente que interferem no
processo de luto, desenvolver recursos e projeção de futuro. Nesse trabalho, os
autores dão maior ênfase à importância de se avaliar o quão preparado o cliente
está para ser submetido ao EMDR, bem como de se fornecer a preparação
adequada, tal qual o recomendado por Shapiro (2007), e anunciam que o EMDR se
adequa ao tratamento do luto traumático, que depende de circunstâncias da morte.
Rando (1993) diferencia reações de luto e processo de luto, termos já
apresentados no primeiro capítulo “Luto”, e usa o termo mourning, de forma
sinônima ao que foi estabelecido para o uso neste trabalho como “processo de luto”
(bereavement). O processo de luto envolve a reorientação e a adaptação à ausência
em relação ao mundo interno, com representações internas, e ao mundo externo.
Solomon e Rando (2012), além de mencionar vários casos clínicos ao
descrever cada fase do protocolo de EMDR, chamam a atenção para a importância
de manter a atenção dual com os clientes enlutados. O que significa manter um pé
no presente, enquanto observa o passado. Caso o cliente não consiga manter a
atenção dual, é imprescindível ensiná-lo técnicas de autocontrole e habilidades de
relaxamento, bem como incrementar a estabilidade e aumentar a fonte de recursos e
de controle.
Neste artigo também é destaque a projeção do futuro, que permite que o
cliente imagine quais serão os desafios e processe qualquer tensão, resistência ou
bloqueio presente em relação ao mundo sem seu ente querido (SOLOMON;
RANDO, 2007).
Em recente publicação, Solomon e Rando (2016a) aprofundam o trabalho da
abordagem em EMDR em situações de luto, ressaltando que o processo de luto
envolve não só as reações advindas da perda, mas também seu enfrentamento ativo
por meio de reajustamento pessoal necessário ao mundo sem o morto, acomodar a
64

perda e seguir de forma saudável no novo mundo, corroborando afirmações de


trabalho sobre EMDR e luto citados anteriormente (SOLOMON; RANDO, 1997,
2007, 2012).
Retomando o trabalho de Solomon e Rando (1997, 2007, 2012, 2016a, 2018),
há a referência ao PAI, com destaque à informação de que a perturbação em relação
à perda é o resultado de informação armazenada disfuncionalmente, seja por
memórias relacionadas à perda em si ou por emoções disparadas de forma
esporádica ou contínua ao longo do processo de adaptação, como angústia, dor,
medo, culpa, entre outros.
Os autores afirmam também que o cliente deve possuir a habilidade de se
autorregular, estar presente mesmo com emoções e pensamentos perturbadores,
bem como ter uma situação psicossocial estável interna e externamente. O clínico,
por sua vez, precisa saber integrar o EMDR em enquadramento terapêutico por
meio de estabilização apropriada, de educação psicossocial relacionada à perda e
de dinâmicas relacionadas às reações de luto e ao processo de luto (SOLOMON,
RANDO, 2012).
Por conseguinte, os enlutados podem apresentar diversos aspectos de
memória disfuncional: imagens, pensamentos, crenças, emoções, sensações e
percepções. Estas memórias podem interferir no acesso às redes de memórias
positivas. Solomon e Rando (2007) prosseguem dizendo que o EMDR pode facilitar
a assimilação dessa experiência assim como o processamento de emoções e
pensamentos necessários para o luto saudável; além de poder tratar o luto
complicado, conforme já ponderaram em publicação anterior). As memórias positivas
que surgem com o EMDR desempenham papel vital na acomodação da perda e
ligam o mundo com e sem a pessoa que morreu, construindo tijolos de uma
representação interior adaptativa (SOLOMON; RANDO, 2016a).
Solomon e Rando (2016a) propõem que na sessão inicial sejam discutidos os
motivos que trazem o enlutado à terapia em uma criteriosa avaliação. Recomendam
que o cliente esteja em condições de perceber o impacto da perda (quando o
entorpecimento houver se dissipado), de estar presente com suas emoções e
dearticular e refletir sobre o impacto da perda, tendo em foco a frase “devagar e
sempre” (p. 234 – tradução nossa). Indicam começar pela memória/assunto mais
perturbador, dominante ou intrusivo e afirmam que, habitualmente, esse é o
momento em que a pessoa toma conhecimento da morte, momento esse circundado
65

por choque e descrença; também lembram que a resposta do cliente ao


processamento e o que dali surge são o que vai determinar o próximo passo da
terapia. Dessa maneira, a sequência de alvos é determinada pelo progresso dos
processos “Rs”.
Os autores destacam a importância de se ater a problemas relacionados ao
apego, de forma a serem cuidados apropriadamente (SOLOMON; RANDO, 2016a).
Além desse tema, podem haver questões relacionadas ao trauma, conflitos com o
ente querido logo antes da perda ou em passado remoto, funcionamento atual e
passado não saudável que pode apresentar agravamento após a perda. Esses
problemas exigem uma avaliação inicial na fase 1 para a identificação de questões
pessoais, de problemas anteriores, de habilidades de enfrentamento e de memórias
relevantes que precisam ser cuidadas, uma vez que a maior parte das pessoas que
busca tratamento tem outros problemas pessoais que se agravam a partir de uma
perda significativa, necessitando lidar com esses problemas, primeiro.
Na publicação, Solomon e Rando (2016a) propõem ao profissional conhecer o
contexto da perda por meio da investigação das circunstâncias da morte, a natureza
da perda e o significado para o cliente, as reações de outras pessoas na vida do
enlutado, história anterior de perdas, assuntos do presente e outras dificuldades
anteriores à perda. Ressaltam a importância de conhecer a história de apego com a
pessoa que morreu e possíveis assuntos não resolvidos e/ou conflitos, bem como
eventuais perdas secundárias. Esses aspectos colaboram para a ideia de o clínico
ser prudente na fase 2, observando a prontidão do cliente para o início do uso do
EMDR, a estabilização e a instalação de recursos (podendo incluir estratégias de
autorregulação e treinamento de habilidades), e a inserção de educação
psicossocial a respeito do processo de luto e suas reações.
O PTr requer o uso da sequência de alvos das memórias e dos disparadores
para avançar nas fases 3 a 7. Os autores referendam o estabelecimento desses
alvos baseado no enquadramento conceitual de Rando (1993) e lembram que as
crenças e negativas estabelecidas nessas etapas podem estar relacionadas à
responsabilidade e/ou culpa, segurança, controle, podendo ainda mesmo, não haver
qualquer crença. Todavia, Solomon e Rando (2016a) indicam o uso do protocolo
básico para o processamento dos alvos estabelecidos. A reavaliação prevista na
fase 8 é o que determinará o curso do PTr e, por conseguinte, da sessão, o que
reforça a complexidade da abordagem EMDR.
66

Pontos positivos já elencados por Solomon e Rando (1997) indicam que o


EMDR é uma abordagem altamente interativa e individualizada de acordo com cada
cliente, envolvendo diversas medidas, ou seja, o movimento bilateral é apenas
pequena parte do processo. Permite, portanto, avaliação constante dos efeitos do
processo psicoterápico ao longo de cada fase, trazendo maior segurança para o
manejo clínico. É fundamental que o profissional tenha o conhecimento sólido e
habilidades clínicas para a adequada utilização do EMDR, com capacidade para
estabelecer rapport, eliciar uma completa história clínica, dar assistência ao cliente
para acessar memórias traumáticas e inclui o conhecimento de dinâmicas de
personalidade e psicopatologia para identificar as crenças e questões autorreferidas
por trás dos sintomas apresentados. Aqui é fundamental acrescentar o
conhecimento a respeito do processo de luto e suas reações para o uso apropriado
do EMDR em situações de luto.
Solomon e Rando (2016a, 2016b) sistematizaram um roteiro que pode ser
bem útil para o trabalho com enlutados, pois descreve cada passo da avaliação com
foco no luto e sugere como montar o PTr, para cada elemento dos 6 “Rs”. No
entanto, utilizá-lo na íntegra pode ser um equívoco e se tornar exaustivo para
ambos, terapeuta e cliente. Uma possível forma de utilização é identificar em qual
dos “Rs” o cliente apresenta dificuldades e só então avançar nas perguntas
específicas do tratamento para aquele “R” específico. Após esses passos iniciais,
prossegue-se com o uso do protocolo básico, com as oito fases, em todas as etapas
de presente, passado e futuro.
A pesquisadora recomenda que os clínicos que desejarem seguir as
recomendações de Solomon e Rando (2016a) aprofundem o estudo do trabalho de
Rando (1993) para se tornarem familiarizados com o modelo proposto para o
enquadramento do processo de luto. A preocupação se deve ao risco de engessar a
prática clínica ao seguir à risca o roteiro sugerido por Solomon e Rando (2016b),
tirando a flexibilidade e a interação do processo psicoterápico. É preciso ter a
clareza de que o roteiro oferecido por eles é uma ótima oportunidade de exploração
do tema da perda, e que o PTr deve ser estabelecido de forma única, de acordo com
a demanda do cliente.
Kosminski e McDevitt (2012) afirmam, a partir de sua prática profissional, que
o EMDR pode ser usado para o tratamento de trauma agudo e prolongado, quando
o alívio experimentado pelo cliente funciona para fortalecer o vínculo terapêutico e
67

facilitar o trabalho . Na publicação de Neimeyer (2012 ) a respeito de diferentes


técnicas para a psicoterapia do luto , os autores referidos acima descrevem para
quais clientes o uso do EMDR é apropriado : em situações de luto que envolvam
traumas relacionados à perda ainda não elaborados , trauma relacional precoce ,
culpa incessante , raiva ou outra emoção que comprometa o desdobramento do
processo de luto (KOSMINSKI; MCDEVITT, 2012).
Para eles também, o EMDR pode ser usado em situações em que o trabalho
com o luto parece estar paralisado, nos momentos em que o cliente parece estar
travado em sua própria experiência ou crença, contaminando o próprio terapeuta
com sentimentos relacionados à impotência. O uso de EMDR facilita a resolução do
trauma relacionado à perda e permite o acesso a memórias positivas que ficaram
bloqueadas pelo trauma, dissolvendo as emoções não adaptativas inerentes a ele. O
EMDR não apaga o evento da memória, mas faz com que a pessoa se lembre do
que aconteceu sem a parte negativa que a assolava. Pode ser usado para
ruminação constante, ou seja, pensar constantemente a respeito do morto ou sobre
a morte e, com isso, ajudar na resolução do trauma e colaborar para um luto
saudável (KOSMINSKI; MCDEVITT, 2012).
Solomon e Rando (1997) ilustram as ideias de Kosminski e McDevitt (2012)
com a apresentação de um caso clínico em que sentimento de culpa, pesadelos e
imagens intrusivas indicavam a presença de um luto prolongado de uma jovem após
a morte de sua irmã mais nova em um acidente de carro. Os sintomas apresentados
eram compatíveis com depressão moderada e ansiedade. Sua forma de
enfrentamento foi evitar pensamentos e lembranças em relação à situação
traumática, com indícios de dissociação no momento do acidente. Além disso,
apresentava generalização do medo de perder outras pessoas queridas, afetando
sobremaneira suas relações afetivas. Em uma sessão de duas horas de duração, as
imagens vívidas do acidente se dissiparam, bem como a culpa, criando um
distanciamento do acidente, que alcançou o patamar de uma memória no passado.
Os autores destacam o potencial de generalização dos efeitos do tratamento para
outros sintomas relacionados, cuja remissão total foi registrada.
Solomon (2018), em mais uma publicação, retoma o tema do tratamento de
EMDR em situações de luto, atualizando a contribuição com relação ao seu
conhecimento. Acrescenta aos já mencionados processos dos6 “Rs” a teoria do
apego como forma de compreender o processo de luto e o processo de como uma
68

perda pode disparar reações semelhantes a experiências do enlutado quando ainda


criança, diante do afastamento da figura de apego. Solomon (2018), inova com a
proposta de observar, a partir do trabalho de Kosminski e Jordan (2016),como o
estilo de apego apresenta o Modelo Dual do Processo de Luto que se refere à
oscilação entre orientação para a perda e orientação para a restauração como
forma do enfrentamento saudável do luto, bem como a teoria dos Vínculos
Contínuos que apresenta o desenvolvimento de uma nova relação com quem
morreu, em um laço de afeto e de memórias que duram a vida inteira.
Essas contribuições, segundo o autor, auxiliam na conceituação do caso e a
organização do PTr, por conseguinte, na seleção das memórias disfuncionais que
podem estar como raízes das complicações do luto. No artigo, Solomon (2018)
menciona que, na medida em que o EMDR desbloqueia as memórias promovendo a
reconexão da rede neuronal, o surgimento das memórias positivas em relação a
quem morreu – fato recorrente em todos os trabalhos citados neste capítulo –
promovem a conexão com o ente querido, fazendo parte da adaptação saudável do
processo de luto. Para Klass et al. (1996), a partir de sua teoria dos Vínculos
Contínuos, no momento em que o enlutado consegue internalizar a representação
interna da pessoa amada, a proximidade passa a poder substituir, então, a
proximidade física. Solomon (2018) afirma que as memórias positivas que surgem
com o EMDR são os “tijolos dessa representação interna” (tradução nossa).
A partir desses acréscimos, e adaptando o trabalho de Rando (1993) e
Kosminsky e Jordan (2016), para a fase 1 do EMDR, Solomon (2018) sugere uma
investigação que inclua não só elementos do cliente e do contexto de sua perda,
mas também elementos que possam ser a base de uma relação terapêutica segura.
Na fase 2, caso seja observado que o cliente tende a se manter na orientação para a
perda, recomenda a realização de intervenções que possam colaborar nesses
aspectos, como regulação da emoção e estratégias de enfrentamento da vida diária.
Recomenda também psicoeducação e estratégias de enlutamento para os recém-
enlutados, que podem sofrer com o desconhecimento de reações intensas nunca
antes experimentadas (SOLOMON, 2018).
A realização de psicoeducação com enlutados parece ter se tornado tema
recorrente em seu trabalho (SOLOMON; RANDO, 2007; SOLOMON; RANDO,
2016a, 2016b), inclusive abordando sintomas de luto complicado.
69

Quando menciona que os aspectos relacionados à perda em si sejam


trabalhados em primeiro lugar (SOLOMON, 2018), é possível inferir que este seja o
PTr. Para Solomon (2018), essa escolha só não se justificará caso esses aspectos
intensificarem o sofrimento em demasia. Para essas ocasiões, a recomendação de
Solomon (2018) é a de trabalhar primeiro com questões do passado e ter em mente
que passado e presente estarão sempre intercalados no trabalho de luto.
Ao falar sobre o trabalho da psicoterapia de luto, Worden (2013) menciona o
EMDR como abordagem útil para o tratamento de imagens negativas permitindo que
o paciente possa lembrar da pessoa que morreu de forma positiva e confortável. Em
especial para perdas violentas, quando os aspectos do trauma se tornam
perturbadores com a presença de sentimentos negativos e estressantes. Não
menciona, porém, o uso do EMDR para outras situações como o trabalho com a
raiva, a culpa, o desamparo e outros afetos negativos que possam surgir. Mas
reforça o benefício da utilização de monitoramento de perturbação utilizada no
EMDR, quando de sua utilização para fins de psicoterapia de luto. Assim,
recomenda o uso do SUDS, que mede a perturbação de 0 a 10, em que 0 é
nenhuma perturbação e 10 a máxima perturbação que a pessoa possa
experimentar. Esta escala permite mensurar a percepção do grau de desconforto, o
que possibilita o seguimento do protocolo, seu redirecionamento quando necessário,
bem como avaliar os avanços na psicoterapia e a conclusão do PTr.

3.3 PESQUISAS

A maior parte das investigações publicadas sobre EMDR e luto são ensaios
clínicos randomizados para avaliar sua eficácia, em comparação (SPRANG, 2001;
MEYSNER ; COTTER ; LEE, 2016 ; COTTER ; MEYSNER ; LEE, 2017 ) ou em
combinação (MOROZOW , 2014 ; LEFERINK et al., 2017 ; VAN DENDEREN et al.,
2018) com outras abordagens psicoterápicas, em sua maior parte, Terapia Cognitivo
Comportamental (TCC ). Entretanto , foi possível localizar um estudo exploratório
(TARQUINIO et al., 2009 ) e um trabalho de Traumatic Incident Resolution (TIR) com
EMDR para trabalhar com situações traumáticas, inclusive com enlutados (DESCILO ,
1999 ). Duas revisões sistemáticas de literatura foram também relacionadas por
levantarem questões fundamentais ao paradigma da assistência ao luto e ao
trauma , a partir do uso do EMDR (EHNTOHLT ; YULE, 2006;PFEFFERBAUM et al.
2014).
70

Uma outra pesquisa também selecionada aborda a eficácia dos movimentos


oculares (HORNSVELD et al., 2010), tema de interesse do EMDR, ao se tratar sobre
a avaliação dessa intervenção com enlutados . Para fins de organização do material
selecionado , esses estudos serão apresentados por ordem cronológica de
publicação.
O primeiro trabalho publicado se refere ao caminho utilizado por Descilo
(1999) para mostrar o TIR e o EMDR como duas ferramentas efetivas para alívio dos
sintomas relacionados ao trauma em diferentes populações, inclusive com o luto.
Segundo a autora, o TIR é um procedimento de imagens cognitivas guiadas
baseadas nos procedimentos dos primórdios da dessensibilização cognitiva. O
estudo apresenta como avaliar o cliente nas duas abordagens, aspectos do manejo,
evidências de eficácia e exemplifica com um caso clínico. A autora apresenta uma
interessante abordagem das regras da Traumatologia Clínica que guiam os cuidados
com clientes traumatizados. Além disso, proporciona um roteiro para treinamento de
Habilidades de Comunicação e Traumatologia Clínica, que pode até ser bem útil
para clínicos em treinamento para o uso do EMDR.
Sprang (2001) conduziu o que parece ter sido a primeira pesquisa sobre a
aplicação do EMDR ao luto, comparando EMDR e Guided Mourning (Luto Guiado,
tradução nossa – GM) para o tratamento de luto complicado. Cinquenta participantes
divididos em dois grupos foram avaliados em relação a sintomas psicossociais e
comportamentais relacionados à perda, antes de iniciar e ao finalizar o tratamento, e
em um período de nove meses após o término da intervenção. Não há informação
em relação ao tempo passado entre a perda e a pesquisa. Os participantes eram
enlutados por morte de natureza traumática com mais de dezoito anos de idade.
Foram utilizados os seguintes instrumentos nas avaliações inicial e final, além
de nove meses após o encerramento do tratamento: CM-PTSD para medida de
TEPT, Texas Revised Inventory (TRIG), Escala de Impacto de Eventos (Impact of
Events Scale – IES), State – Trait Anxiety Inventory (Form Y) (STATE) e ISE para
avaliar autoestima.3 A fidelidade do tratamento foi garantida por medidas de um
protocolo específico (SPRANG, 2001).
Os dados das medidas comportamentais revelaram achados similares para os
dois grupos de participantes. Entretanto, quatro das cinco medidas psicossociais, a

3
O significado das palavras cujas iniciais compõem a sigla não foi informado pelos autores.
71

saber, estado de ansiedade, escala de impacto de evento, índice de autoestima e


TEPT apresentaram diferenças significativas entre os tratamentos aplicados, com o
grupo de EMDR tendo redução significativa nos sintomas de TEPT (SPRANG,
2001).
Em relação à comparação dos resultados do TRIG, na avaliação do processo
de luto, não foram observadas diferenças entre os dois grupos de tratamento, EMDR
e GM. Sprang (2001) conclui que o benefício do EMDR para os enlutados recai na
redução da sintomatologia do estresse traumático. A emergência de memórias
positivas aconteceu apenas com o EMDR, indicando a eficácia dessa abordagem
psicoterápica no tratamento de memórias traumáticas que interferem no processo de
luto.
Observa-se algumas interessantes colocações nesse estudo (SPRANG,
2001). Para ele, qualquer abordagem psicoterápica é mais efetiva quando são
estabelecidos alvos dos problemas do processo de luto que funcionam como
barreiras para o seu percurso saudável. Considera que o foco inicial deve ser no
tratamento da sintomatologia do trauma de forma a permitir que o luto siga seu curso
e afirma que muitos enlutados sofreram traumas em diferentes momentos de suas
vidas. Conclui que o EMDR pode ajudar nas interferências que o trauma faz para
que o luto siga seu curso normal. Sprang (2001) utiliza o conceito de luto
complicado, tal como postulado por Rando (1993) e considera que não há um tempo
adequado antes de iniciar o EMDR com enlutados.
De maneira a testar o uso do EMDR como parte do cuidado com luto
traumático, um estudo exploratório foi realizado por Tarquinio et al. (2008). Oito
participantes foram selecionados entre familiares das vítimas de uma colisão de trem
na França, maiores de dezoito anos, cinco a sete meses após o acidente. Como
critério de exclusão, não seriam aceitos participantes que tivessem antecedentes
psiquiátricos, incluindo depressão e ansiedade. Foram realizadas cinco avaliações,
antes do tratamento, após seis sessões, ao fim do tratamento e, após três e doze
meses do encerramento dos atendimentos. Segundo os autores, os resultados
indicam a efetividade da abordagem do EMDR para o tratamento do luto traumático,
com redução dos índices de depressão, ansiedade, luto e SUDS que permaneceram
estáveis, pelo menos, por um ano.
Os instrumentos de avaliação, excetuando-se as medidas de SUDS ao longo
das sessões, ficaram a cargo de outros profissionais que não os clínicos
72

responsáveis pela aplicação do EMDR. Os instrumentos utilizados foram Hospital


Anxiety and Depression Scale (HADS), Inventory of Traumatic Grief (ITG – Inventário
de Luto Traumático) e as medidas de SUDS. Esse parece ser o primeiro estudo que
considera o SUDS como um instrumento à parte, que também auxilia na avaliação
da conduta do terapeuta.
O EMDR aparece na revisão de literatura realizada por Ehntohlt e Yule (2006)
a respeito das dificuldades relacionadas à saúde mental em crianças e adolescentes
refugiados, que também aborda fatores de risco e proteção, bem como intervenções
efetivas para reduzir os efeitos do TEPT. Os autores impressionados com os
resultados do único estudo encontrado confirmando a redução dos sintomas de
TEPT veem com ressalvas o fato de esse não ter contado com um grupo-controle e
de ter utilizado uma amostra reduzida (ORAS; CANCELA DE ESPELETA; EHMAD,
2004 apud EHNTOHLT; HUPE, 2006). Embora Ehntolt e Yule (2006) tenham se
preocupado com o luto traumático nessa população, não foram localizados artigos
sobre intervenções para a assistência ao luto, indicando um excelente campo de
pesquisa.
Hornsveld et al. (2010), embora não tenham pesquisado o EMDR como
intervenção, realizaram um ensaio clínico randomizado avaliando a eficácia dos
movimentos oculares para reduzir a emoção de memórias relacionadas à morte de
um ente querido. Essa pesquisa compara o ato de lembrar de uma memória
negativa relacionada à perda em um grupo de sessenta participantes divididos em
três grupos, um grupo controle, um com música relaxante e um com movimentos
dos olhos. Os resultados indicaram uma redução significativa na emoção e na
concentração em relação à memória perturbadora no grupo que utilizou os
movimentos oculares. Esse achado é um suporte para os movimentos oculares
bilaterais utilizados em EMDR para o trabalho com memórias relacionadas à perda.
Outra revisão sistemática de literatura foi realizada com vistas a avaliar
intervenções de saúde mental em crianças sobreviventes de desastres
(PFEFFERBAUM et al., 2014). Os autores informam que o ensaio clínico
randomizado é o método mais utilizado entre os pesquisadores como forma de
estabelecer evidências para as intervenções para trauma. Embora a maior parte dos
estudos avalie o emprego da TCC sozinha, combinada ou comparada com outra
abordagem, dois estudos foram localizados a respeito do EMDR (CHEMBO et al,
2002 apud PFEFFERBAUM et al., 2014; FERNANDEZ, 2007, PFEFFERBAUM et
73

al., 2014), mas não estavam relacionados ao luto. Apenas um estudo se referia à
intervenção do luto (BROWN et al. apud PFEFFERBAUM et al., 2014), o que indica
que as reações e o processo de luto não parecem perpassar as pesquisas
relacionadas ao TEPT em crianças vítimas de desastres, mesmo muitas delas tendo
perdido entes queridos.
Visando a avaliar a efetividade do uso do EMDR comparado à TCC Integrada
(TCCI), Morozow (2014) realizou um ensaio clínico randomizado com 19
participantes que se identificaram como tendo dificuldades com o luto. Cada grupo
recebeu sete semanas de terapia. Como instrumentos foram utilizados o IES, o
Inventory of Complicated Grief (Inventário para Luto Complicado – ICG). Resultados
indicam melhoras nos dois grupos, pelas medidas do IES e do ICG. A qualidade de
vida aumentou apenas no grupo da TCCI. Em avaliação de follow-up, apenas IES
permaneceu com mudanças significativas. Morozow (2014) conclui que os
resultados preliminares corroboram o uso do EMDR com enlutados.
Meysner, Cotter e Lee (2016) publicaram um ensaio clínico randomizado
avaliando a eficácia do EMDR no luto, em comparação com TCCI. Dezenove
participantes foram alocados randomicamente nas condições de tratamento em dois
grupos distintos. Cada participante ficou em lista de espera por sete semanas,
recebendo a seguir sete semanas de terapia, de acordo com o grupo no qual foi
alocado. Os instrumentos utilizados foram a IES, a Dissociative Experiences Scale-II
(Escala de Experiências Dissociativas-II– DES-II), a Dissociative Disorders Interview
Schedule (Entrevista para Desordens Dissociativas), a ICG, Depression Anxiety
Stress Scales (Escalas de Estresse, Depressão e Ansiedade – DASS), a Quality of
Life Scale (Escala de Qualidade de Vida – QOLS) e uma Entrevista de Follow-Up.
Em relação ao EMDR, foi utilizado o protocolo de Luber (2012).
Os resultados não apresentaram alteração significativa em qualquer medida
no período de lista de espera e nem em medidas de qualidade de vida para ambas
as abordagens. Por outro lado, após o período de tratamento houve melhora para os
dois grupos nas medidas de luto, nos sintomas de trauma e na perturbação, sem
revelar diferença quantitativa significativa entre as duas abordagens. Os autores
apontam várias vantagens que confirmam a pesquisa como sólida, tais como
randomização da condição de tratamento, múltiplos terapeutas, avaliação formal da
fidelidade do tratamento e avaliação pré e pós-tratamento por pesquisadores cegos.
Ambas as abordagens demonstraram ser eficazes com redução das medidas de
74

trauma e sintomatologia do luto, e os participantes que apresentaram maiores


índices de perturbação e menores índices de funcionamento na avaliação inicial
foram os mais beneficiados com as intervenções (MEYSNER, LEE, COTTER, 2016).
Para Meysner, Cotter e Lee (2016), o EMDR pode ser considerado tão efetivo
quanto outras intervenções para o luto.
Ainda sobre a pesquisa de Meysner, Cotter e Lee (2016), houve variação em
relação ao tempo decorrido da perda – entre seis meses a cinco anos e meio – sem
que tivessem sido estabelecidos critérios rigorosos de exclusão ou de inclusão,
exceto as contradições para o uso do EMDR, como epilepsia e uso de
benzodiazepínicos. Assim foram aceitos como participantes quaisquer indivíduos
que quisessem se beneficiar de terapia para o tratamento de luto. Os procedimentos
de recrutamento dos participantes, bem como informação qualitativa do processo
psicoterápico e da relação entre terapeuta e participante estão relatados na
publicação dos resultados de um segundo estudo advindo deste (COTTER,
MEYSNER, LEE, 2017).
Nesse novo estudo, Cotter, Meysner e Lee (2017) investigaram em caráter
exploratório as experiências de enlutados com as duas abordagens psicoterápicas
recebidas na investigação antecedente, a saber, TCCI e EMDR. Os dezenove
participantes alocados randomicamente em dois grupos, duas semanas após o
término da psicoterapia, foram avaliados em uma entrevista com um pesquisador
adicional, diferente dos que conduziram o processo psicoterápico. O instrumento de
avaliação usado foi uma entrevista semiestruturada, que foi transcrita e passou por
uma análise temática.
Como resultados, as duas abordagens proporcionaram o desenvolvimento de
treze temas, categorizados em cinco grandes categorias: insights, mudança positiva
de emoções, aumento de atividade, melhora na autoconfiança e melhor relação
mental com quem morreu, autoconfiança e níveis de atividades. A investigação
apresenta um achado único em relação a ambas abordagens. Os participantes
submetidos à TCCI relataram a aquisição de ferramentas de regulação emocional, e
a mudança de estar em um estado contínuo de luto pela sensação de que estão em
nova etapa de suas vidas. Por outro lado, os participantes submetidos ao EMDR
relataram que as memórias perturbadoras estavam menos claras e se tornaram
mais distantes ao longo do tratamento (COTTER, MEYSNER, LEE, 2017).
75

Mais um ensaio clínico randomizado multicêntrico, mesmo que ainda não


apresente os resultados por estar em andamento, sobressai-se pelo cuidado no
planejamento do estudo (LENFERINK et al., 2017). Os participantes serão
recrutados entre os familiares, colegas ou amigos de pessoas que morreram um
acidente aéreo de 2014, que apresentam níveis clínicos significativos de luto
prolongado, TEPT e/ou depressão. Neste estudo, haverá a combinação do emprego
de Terapia Cognitiva (TC) e EMDR com um grupo de tratamento e um grupo controle
de lista de espera. Os autores ressaltam que almejam desenvolver tratamento cujos
alvos são questões relacionadas ao luto e ao trauma, e examinar os mecanismos de
ação da combinação das abordagens psicoterápicas. Como critérios de exclusão,
postulam a presença de transtorno de qualquer substância química, de psicose, de
dificuldade mental ou de alto risco de suicídio. Os participantes também não
poderiam estar em qualquer outro tipo de tratamento psicossocial.
Os instrumentos de avaliação serão o Traumatic Grief Inventory Self Report
version (TGI-SR) para os registros relacionados ao luto, PTSD Checklist for DSM-5
(PCL-5) que avalia o TEPT, Quick Inventory of Depressive Symptomatology (QIDS-
SR) para o rastreamento da depressão. Como forma de avaliar os mecanismos de
mudanças proporcionados pelo tratamento, serão utilizados Experienced Unrealness
Scale, Grief Cognitions Questionnaire (GCQ), Depressiveand Anxious Avoidance in
Prolonged Grief Questionnaire (DAAPGQ), Trauma Memory Questionaire (TMQ).
Utilizarão ainda Brief Traumatic Grief Questionnaire (B-TG) e um questionário para
levantamento de características sociodemográficas (LENFERINK et al., 2017).
Van Denderen et al. (2018) realizaram um ensaio clínico randomizado para
avaliar a efetividade de um tratamento combinado entre TCC e EMDR para
enlutados por homicídio de nacionalidade holandesa, cuja perda tivesse acontecido
há, no mínimo, seis meses. Como requisito para inclusão, os participantes devem
ser maiores de idade. Nessa investigação, compararam mudanças nos sintomas de
luto complicado e de TEPT entre o grupo controle e o grupo de intervenção. Como
critérios de exclusão, estabeleceram: a) assassinato não intencional; b) assassinato
em contexto de violência pública; c) ter sido condenado por homicídio; d) apresentar
problemas psicológicos que pudesse, interferir na participação do tratamento.
Foram recrutados 365 participantes e, após rigorosa avaliação, 85 iniciaram o
tratamento. Destes, apenas 57 o completaram (VAN DENDEREN et al., 2018). A
motivação de deixar o tratamento, o que ocorreu entre as sessões de 1 a 8, foi perda
76

de motivação, tratamento não atendeu as expectativas do cliente, ocupação com


eventos da vida não relacionadas ao tratamento.
Os autores escolheram usar um protocolo de EMDR holandês, que referem a
De Jongh e Broenke (2003 apud VAN DENDEREN et al., 2018) com MB’s visuais.
Como instrumentos, foram utilizados Questionário de Dados Demográficos, ICG, IES
e Moderador Potencial de Variáveis, o qual buscava examinar o efeito da ordem do
tratamento (TCC seguido de EMDR e EMDR seguido de TCC), gênero dos
participantes e estratégia de recrutamento. A fidelidade da pesquisa foi garantida
com o acesso aos prontuários dos participantes por parte do pesquisador/supervisor
(VAN DENDEREN et al., 2018).
Van Denderan et al. (2018) apresentam os seguintes resultados: a eficácia do
tratamento na redução de sintomas de TEPT e luto complicado em relação ao grupo-
controle; esses efeitos não variaram em relação ao gênero do participante,
estratégia de recrutamento e tempo decorrente da perda; a redução de luto
complicado e TEPT foi similar, sendo que os sintomas de TEPT se mantiveram na
mesma medida após seis meses, enquanto os escores do ICG aumentaram após
esse período, embora não de forma clinicamente significativa. Consideram que a
combinação das modalidades possa não ser efetiva para mudanças a longo prazo
ou, talvez, que o tempo de tratamento não foi o bastante para provocar essas
mudanças. Para esses autores, o EMDR dessensibiliza as memórias traumáticas
que bloquearam as memórias positivas.
Os dois estudos realizados com a combinação de TCC e EMDR (LENFERINK
et al., 2017; DENDEREN et al., 2018) afirmam que o tratamento combinado entre
EMDR e TCC é de grande valia em situações de entrelaçamento entre luto e trauma,
independentemente do temo decorrido da perda.
As pesquisas de campo foram realizadas com um terapeuta de EMDR
(MOZOROW, 2014), dois terapeutas de EMDR (MEYSNER; COTTER; LEE, 2016;
COTTER; MEYSNER; LEE, 2017) e vinte e seis terapeutas de EMDR (DENDEREN
et al, 2018) indicando que múltiplas configurações podem ser planejadas. As
informações das outras pesquisas a respeito do número de terapeutas de EMDR
não foram localizadas.
77

3.4 EXEMPLOS DE CASOS CLÍNICOS

Nas publicações localizadas, observa-se um grande número de relatos de


caso (SHAPIRO; FORREST, 1997; SOLOMON; RANDO, 1997, 2007, 2012, 2016a;
KNOX, 2002; KOSMINSKI; MCDEVITT, 2012; MURRAY, 2012; BEAUMONT;
MARTIN, 2013; SOLOMON, 2018). Alguns desses casos clínicos serão brevemente
apresentados a título de ilustração do que está sendo descrito neste capítulo de
forma a dar um pequeno indicativo da variedade de situações que envolvem os
enlutados que buscam ajuda profissional.

Knox (2002) apresenta um caso fictício de forma a demonstrar como a


abordagem do EMDR poderia ser efetiva no trabalho com luto, em especial, em
situações como o ataque terrorista ao World Trade Center. A apresentação se refere
à história de um rapaz de 21 anos enfrentando o desaparecimento de um tio por
ocasião do ataque. Relutante em buscar ajuda, e apresentando reações de TEPT,
sua preocupação era com o desempenho acadêmico e não se permitia abordar o
tema do luto. A autora segue na suposição do que deveria acontecer em cada etapa
do protocolo do EMDR, desde os cuidados que o terapeuta deve teraté o
estabelecimento do alvo inicial relacionado a imagens e pesadelos com o tio e a
sequência de fases do tratamento até a resolução do luto.

Murray (2012) apresenta, em uma releitura do trabalho de Sprang (2001),


uma interessante aplicação de sua prática em três relatos de caso. Dessa forma, a
autora confirma que o reviver intrusivo de sintomas, a ausência de memórias
positivas, em conjunto com os negócios inacabados relacionados a quem morreu
são os sintomas mais perturbadores para clientes enlutados. Sendo assim, propõe o
uso precoce do EMDR com enlutados, destacando que o tratamento não remove o
luto normal, mas deve ser focado nos sintomas de TEPT, incluindo memórias,
imagens, conversas e pesadelos que interferem no processo de luto adaptativo. Ao
relatar sua própria experiência no atendimento de três casos clínicos de mulheres
enlutadas, apresenta importantes nuances de cuidados ao iniciar o uso do EMDR.

No primeiro caso apresentado (MURRAY, 2012), uma mulher que perdeu um


filho por suicídio busca psicoterapia após três meses de sua perda, e a autora utiliza
78

quatro sessões de avaliação, planejamento do tratamento, estabilização e instalação


de recursos. Com três sessões para trabalhar o alvo estabelecido como o momento
quando a mãe soube da perda, houve redução completa da perturbação e o
surgimento de memórias positivas sobre o filho, completando-se o protocolo básico.

No segundo caso apresentado, Murray (2012) se refere auma cliente já em


tratamento que perdeu a mãe após uma longa doença e retornou para a psicoterapia
duas semanas após sua perda, quando então a terapeuta utilizou o protocolo de
eventos recentes, e toda a perturbação adjacente (intrusões, pesadelos e outros
sintomas) foi dissolvida em três sessões.

A terceira experiência de Murray (2012) envolve uma cliente que voltou para a
psicoterapia após dez anos da perda de seu filho recém-nascido apresentando um
diagnóstico atual de câncer de mama. Ao processar o câncer, a experiência da
perda do filho foi relembrada ao associar as cicatrizes de ambas as cirurgias
(mastectomia e cesárea). Foram necessários meses de aplicação de EMDR em
relação ao câncer até ser possível o reprocessamento da memória específica da
perda em apenas duas sessões, liberando não só memórias positivas, mas o
processo de maternagem.

Beaumont e Martin (2013) apresentam um estudo de caso utilizando o


Treinamento de Mente Compassiva (Compation Mind Training – CMT – tradução
nossa) como um recurso de entrelaçamento cognitivo durante as sessões de EMDR.
De fato, o tratamento iniciou com TCC e CMT por quatro sessões sem muitos
resultados. Embora o cliente tenha procurado tratamento para resolver uma fobia de
assinar o próprio nome, iniciada após um acidente automobilístico, o EMDR revelou
que esse sintoma estava relacionado com a morte precoce de sua irmã e
sentimentos de vergonha e luto. Foram utilizados instrumentos de avaliação de
HADS, Impact of Events Scale-Revised (IES-R), Self-Compassion Scale – Short
Form (SCS-SF) e DES-II, antes, durante e no final do tratamento, bem como em
sessão de follow-up nove meses após o encerramento da terapia.

Os autores enfatizam a importância da utilização do PTr a partir da


modelagem da terapia de forma a atender às necessidades do cliente. Incentivam
também o uso de medidas para avaliar a efetividade das intervenções. Para
Beaumont e Martin (2013), a comparação entre duas abordagens foi possível
considerando que o TCC, primeiro tratamento oferecido, não foi bem-sucedido,
79

revelando, com isso, ter sido o EMDR mais efetivo. As memórias traumáticas
relacionadas à morte da irmã foram integradas com outras informações adaptativas
e houve remissão dos sintomas. Consideram que relatos de caso como esses,
apresentados com consistência, também provém contribuições a respeito de
intervenções, não só os estudos de caso randomizado.

Usta, Abamor e Yasar (2016) relatam um caso clínico com uso de apenas
duas sessões em uma paciente com diagnóstico de Transtorno de Luto Prolongado,
após testemunhar a morte da irmã em um acidente de carro, e sintomas de dores de
estômago, ansiedade e evitação social, além de culpa. Segundo os autores, os
instrumentos de avaliação para ansiedade, depressão e TEPT, revelaram redução
nos escores e os sintomas inicialmente apresentados desapareceram.

3.5 NÚMERO DE SESSÕES E TEMPO DE DURAÇÃO

Foi observada uma variedade no número de sessões utilizadas em cada


publicação, o que indica que não há uma regra em relação a esse item importante
quando pensamos em oferecer assistência a enlutados. Como está sendo visto ao
longo deste capítulo, é importante que o clínico desenvolva habilidades de avaliação
para desenvolver a psicoterapia “feita sob medida para o cliente”. Essa medida
depende de uma variedade de fatores cuidadosamente descritos anteriormente.
Novamente a título de ilustração, alguns exemplos serão apresentados.
Solomon e Rando (1997) relatam um caso clínico em que apenas uma sessão
de duas horas foi suficiente para processar a culpa que uma mulher adulta sentia
pela morte da irmã. Usta, Abamor e Yasar (2016), por exemplo, relatam um caso
clínico com uso de apenas duas sessões.
Solomon e Rando (2007) relatam um caso de uma mãe que perdeu o bebê
em um ataque terrorista que recebeu tratamento com EMDR dois meses após a
perda, tendo sido utilizadas duas sessões para tratar da imagem vicariante (formada
com o relato do que aconteceu com o corpo do filho), que impedia seu processo de
despedida. Quatro meses depois, essa cliente voltou ao tratamento para trabalhar a
raiva focada em quem provocou a explosão. Segundo relato dos autores, esta
segunda etapa durou um ano e meio.
80

Murray (2012) relata um caso de uma nova cliente enlutada por suicídio, que
o procurou três meses após a perda. Foram utilizadas sete sessões, quatro de
avaliação/preparação, correspondentes às fases 1 e 2 do EMDR, e três de
processamento. Para outro caso, de uma paciente que já atendia, usou apenas três
sessões para processar a morte da mãe, tendo iniciado o trabalho duas semanas
após a perda. Há a informação de que cada sessão contava com duração de 90
minutos.
Outro caso relatado por Solomon e Rando (2007) refere-se a uma mulher cujo
marido morreu em acidente automobilístico, que procurou a psicoterapia dois meses
após a perda. Duas sessões de avaliação foram sucedidas por três meses de
sessões semanais que a ajudaram a lidar com as imagens do acidente.
Onze meses após perder o filho assassinado, um homem foi avaliado em três
encontros e submetido a nove sessões de EMDR (SOLOMON; RANDO, 2017).
Foram trabalhados como alvos o momento em que recebeu a notícia, cenas dos
rituais funerários, imagens vicariantes relacionadas ao que o filho poderia ter sentido
quando foi morto e culpa.
Um outro caso clínico apresentado por Solomon e Rando (2007) conta a
busca de ajuda psicoterápica de um homem dois anos após a morte de sua esposa
por câncer. Após três sessões de avaliação, três sessões de EMDR foram
realizadas. O alvo inicial foi o momento em que a esposa morreu.
Tarquinio et al (2006) estabeleceram entre três e quatro encontros de
avaliação com fins de anamnese e estabelecimento de um vínculo terapêutico de
confiança. Os tratamentos tiveram duração entre oito a quinze sessões.
Meysner, Cotter e Lee (2016), no que tange o EMDR, informam a realização
de sete sessões no total, sendo que, nas sessões 5 e 6, estabeleceram como foco a
projeção de futuro em marcos significativos como aniversários e outras datas
comemorativas, de maneira a fortalecer a crença de que o participante poderia
enfrentar estes momentos difíceis sem a pessoa amada. A sétima e última sessão
focava na conclusão do tratamento, no planejamento de desafios futuros, como um
novo relacionamento e o encerramento da relação terapêutica.
Leferink et al (2017) e van Denderen et al (2018), autores de pesquisas,
fazem referência ao uso de oito sessões para o uso de EMDR em situações de luto,
com resultados considerados satisfatórios.
81

Beaumont e Martin (2013) relatam um caso em que oito sessões foram


suficientes para eliminar a fobia de um cliente para assinar o próprio nome, que
estava relacionada ao processo de luto pela perda da irmã décadas antes do
tratamento.
Nas pesquisas de Tarquinio et al (2006), Meysner, Cotter e Lee (2016) e
Cotter, Meysner e Lee (2017), as sessões de EMDR tiveram 90 minutos de duração.
Nas outras pesquisas mencionadas, a informação sobre o tempo de duração das
sessões não foi localizada.
Sprang (2001) não menciona o tempo decorrente da perda em sua pesquisa.
Mosorow, Meysner, Cotter e Lee (2016) e Cotter, Meysner e Lee (2017), Denderen et
al. (2018) estabeleceram o mínimo de seis meses após a perda como critério de
inclusão. Nas outras pesquisas apresentadas, a informação a respeito do tempo
decorrente da perda não foi localizada.

3.6 QUANDO COMEÇAR

Solomon e Rando (2007), assim como Murray (2012), ressaltam uma


preocupação que vai ao encontro do que pensa esta pesquisadora naquilo que se
refere à investigação em curso, ao recomendarem cuidado no uso precoce do
EMDR, logo após uma perda, quando o enlutado pode estar em estado dominante
de entorpecimento, negação ou dissociação. Ressaltam que existem defesas
psicológicas que precisam ser respeitadas e não processadas. Iniciar uma
intervenção precoce pode estimular emoções excessivas que o enlutado pode não
estar preparado para enfrentar. Nesse período, indicam primeiros socorros
psicológicos, apoio, amigos, família e “chá com bolinhos”, em vez de uma
psicoterapia intervencionista. Recomendam, portanto, usar o EMDR quando o
impacto emocional começar a ser sentido, quando o cliente estiver dentro da janela
de tolerância de afeto, estabilizado interna e externamente.
Shapiro (2018) menciona em suas atualizações sobre o protocolo para luto
que o clínico deve ser livre para usar o EMDR a qualquer momento com enlutados, e
ressalta que nenhuma abordagem psicoterápica pode predizer, com certeza, qual o
melhor tempo de recuperação para o cliente. Segue dizendo que o clínico também
não consegue ter a dimensão da dor que o cliente está sentindo.
82

Para ela, estabelecer qualquer tempo arbitrário antes de iniciar o


processamento pode ser até considerado “antiético do ponto de vista da validade
ecológica do processo de autocura do cliente” (SHAPIRO, 2018, p. 234 – tradução
nossa). Conclui que se a emoção sentida e sua intensidade for apropriada para o
enlutado, ela permanecerá apesar do EMDR, assim como em qualquer outra
população clínica.
Contudo, Shapiro (2018) pondera que imediatamente após a morte de alguém
querido, a pessoa pode vivenciar inicialmente um intenso choque acompanhado de
entorpecimento, que a protege de vivenciar a dor emocional. Menciona o trabalho de
Solomon e Rando (2007) de que os primeiros socorros psicológicos devem ser
oferecidos. No momento em que esse impacto emocional tenha cedido, Shapiro
(2018) considera que não existem motivos para esperar o início do EMDR, desde
que o cliente consiga manter a atenção dual e a habilidade de estar presente com
sua dor.
Murray (2012), apesar de reconhecer o valor de intervenções precoces com
EMDR em situações de luto, recomenda prudência para o início do
reprocessamento, pois no início de sua aplicação pode haver um aumento
significativo dos sintomas e das reações desagradáveis; motivo pelo qual Murray
(2012) recomenda o uso de recursos e sua instalação, além de outras intervenções
durante a fase 2 do protocolo básico na preparação para o reprocessamento de
memórias relacionadas a uma perda.
Shapiro (2007) menciona, ainda, a importância da flexibilidade do tempo
disponível e necessário para o tratamento, pois, mesmo havendo um trauma único
identificado, não é possível saber a quais alvos remotos ele está vinculado. Ao
processar memórias mais recentes, portanto,é possível que memórias de fragilidade
extrema envolvendo situações adversas na infância sejam eliciadas, motivo pelo
qual o terapeuta de EMDR deve ser cauteloso a cada passo de forma a garantir a
segurança do cliente.

3.7 PROTOCOLO DE LUTO EM EMDR

Considera-se de extrema valia destacar que, durante anos, tem sido


propagada a existência de um protocolo de luto em meio à formação básica de
EMDR (EMDR INSTITUTE, 2015), também referido em alguns outros trabalhos
83

(SHAPIRO, 2007, 2018; LUBER, 2009, 2012; SOLOMON; RANDO, 2016a, 2016b),
em algumas traduções para o português, chamado de protocolo para pesar
excessivo ou luto excessivo.4
O treinamento básico de EMDR no Brasil apresenta o protocolo de luto como
um protocolo especial inicialmente apresentado no nível 1 da formação, pelo menos
até o ano de 2015 (EMDR INSTITUTE, 2015, p. 106). Na apresentação deste
protocolo, não há clareza de como utilizar o EMDR em situações de luto.
O principal objetivo de sua utilização, de acordo com Luber (2009) e Shapiro
(2018), é proporcionar ao cliente a aceitação da perda e pensar em aspectos da vida
com seu ente querido com uma ampla gama de experiências e sentimentos positivos
compartilhados com ele (SHAPIRO, 2007, 2018; LUBER, 2009, 2012). Dessa forma,
o trabalho do EMDR com enlutados não elimina as emoções saudáveis e
apropriadas advindas desta perda, incluindo o pesar, e permite aos clientes
experimentar o processo de luto com uma sensação de paz interior (SHAPIRO,
2007; LUBER, 2009, 2012).
Shapiro (2007, 2018) menciona que o protocolo de pesar excessivo é
recomendado para quando há a presença de sofrimento, comportamento de
denegrir-se e falta de esperança de que as coisas possam se reorganizar algum
tempo após a perda de um ente querido.
Como possíveis alvos a serem reprocessados, Shapiro (2018) acrescenta
dois novos itens à lista anterior (SHAPIRO, 2007) e descreve todos de forma mais
compreensível:

1. O momento de realização da perda, que geralmente é o momento em que


o enlutado recebeu a notícia da morte. Mas pode circundar momentos
anteriores.
2. Outros acontecimentos reais, incluindo o sofrimento ou a morte de seu
ente querido, ou outros eventos perturbadores que acontecem após a
perda.
3. Imagens intrusivas, inclusive imagens vicariantes.
4. Imagens de pesadelos.
5. Disparadores no presente.

4
Para questões de tradução, consultar capítulo anterior.
84

6. Questões de responsabilidade pessoal, mortalidade ou perdas anteriores


não elaboradas.
7. O Abraço de Borboleta.

Complementa, informando que caso surja sentimentos de culpa relacionados


a ter sido duro e cruel com quem morreu, também deve ser tomado como alvo
(SHAPIRO, 2018). Nesse sentido, Shapiro (2018) propõe que os clientes sejam
questionados em relação a possíveis perturbações no período entre as sessões,
particularmente pensamentos sobre ferimentos pessoais, mortalidade de outros
integrantes da família. Caso algum elemento seja identificado, segundo ela, deverá
ser apropriadamente transformado em alvo.
Luber (2009, 2012) e Shapiro (2018) afirmam que o referido protocolo é
similar ao protocolo básico utilizado para tratamento do trauma. E ao ter a
possibilidade de examinar com afinco todas essas publicações, o que se observa
não é um protocolo novo ou distinto do protocolo básico.
O grande destaque é a realização de uma criteriosa avaliação das reações do
processo de luto, como propôs Luber (2009), de forma a organizar um PTr baseado
em alvos adequados à história clínica do enlutado. O que permitirá que o EMDR
atue no processamento das memórias disfuncionais, com a utilização do protocolo
básico, proporcionando alívio de algumas das diversas e possíveis reações ao luto.
De forma mais clara, o trabalho apresentado por Luber (2009, 2012), que tem
como base o protocolo para luto excessivo apresentado pela própria Shapiro (2007,
2018) facilita a compreensão de que ele em si não é um protocolo específico para
luto. Mas o protocolo básico com foco em alvos relacionados à perda, observando
memórias do passado, disparadores do presente e projeção do futuro. Para todos os
momentos de identificação dos alvos, recomenda perguntas específicas. No entanto,
após a identificação dos alvos, todos eles recebem a indicação de serem
trabalhados com o protocolo básico de EMDR (LUBER 2009).
Para Luber (2009, 2012), as memórias do passado envolvem os momentos
adjacentes à morte, incluindo o sofrimento do ente querido até o momento da morte,
imagens intrusivas e pesadelos. Em relação aos disparadores, Luber (2012, 2018)
sugere trabalhar o que quer que o cliente perceba como gatilho para sofrimento e
questões relacionadas à responsabilidade, mortalidade ou perdas anteriores não
resolvidas. Assim, propõe perguntar ao cliente algo como “Que situações, eventos
85

ou estímulos você observa como disparadores?” Cada incidente relatado deve ser
considerado um alvo a ser trabalho. Ao completar cada um desses alvos, recomenda
perguntar se restam outros alvos.
Para verificar questões relacionadas a responsabilidade, mortalidade ou
perdas não anteriores, Luber (2012) sugere a utilização da Técnica de Flutuar para o
Passado e/ou Escaneamento Emocional (SHAPIRO, 2007, 2018). Todas as
questões sobre esses temas devem ser trabalhadas antes de ir para a próxima
etapa, que seria a verificação do futuro. Contudo, de acordo com Luber (2012), no
protocolo para luto excessivo estabelecido por Shapiro (2007), não há menção de
como executar essa tarefa em termos da criação de uma projeção, como é previsto
no protocolo básico. Mas subentende-se que é desejável completar todo o ciclo
previsto. A questão da projeção do futuro no referido protocolo de luto não é
mencionada na atualização de seu “livro base” (SHAPIRO, 2018).
Solomon e Rando (2007) e Solomon (2018) também mencionam a utilidade
de usar a técnica da flutuação para localizar memórias alimentadoras de
perturbação com memórias ou a representação interna de quem morreu.
Experimentar, pois, ansiedade, conflito, depressão, raiva ou culpa quando dessas
lembranças, pode ser indicativo de luto complicado. Isso reforça a importância de
uma boa história clínica.

3.8 SUMARIZANDO AS INFORMAÇÕES

Embora a revisão sistemática inicial não tenha rendido tantos achados, a


persistência e a determinação dessa pesquisadora trouxeram à tona diversos
registros do uso do EMDR em situações de luto ao longo dos anos, sob a forma de
artigos e capítulos de livro. Sendo assim, é possível afirmar o interesse crescente no
tema e alguns avanços no sentido de clarear quais as contribuições do trabalho do
EMDR com enlutados. Por falta de informações adequadas para referenciar os
trabalhos sob a forma de comunicação oral que foram encontrados nesse processo
de busca, eles não foram inseridos. Ademais, as informações encontradas no
material disponível dessas apresentações (slides e/ou resumos) não acrescentariam
novos elementos ao que aqui foi registrado.
Curiosamente, existem referências a respeito do uso do EMDR em situações
de luto não muito tempo depois de o EMDR ter sido descoberto (SOLOMON,
86

RANDO, 1997; DESCILO, 1999) que, talvez por estarem localizadas em publicações
relacionadas à Traumatologia do Luto (FIGLEY, 1997, 1999), tenham permanecido
desconhecidas em meio aos terapeutas de EMDR.
A experiência clínica da pesquisadora encontrou eco nos trabalhos aqui
apresentados, ressaltando a importância de seguir com essa investigação. Com
consistente experiência na utilização do EMDR com enlutados, Murray (2012)
considera o EMDR uma elegante intervenção após uma perda. E se torna
importante oferecer a quem sofre a perda de um ente querido a possibilidade de
escolher sentir alívio em relação a qualquer elemento que bloqueie ou perturbe o
processo de luto.
Há uma grande concentração de publicações de artigos no Journal of EMDR
Research and Practice que suscita algumas questões: existe uma barreira da
comunidade científica em relação ao EMDR? Será que o método utilizado em EMDR
apresenta dificuldade de passar pelo escrutínio rigoroso da ciência tradicional? Ou o
fato de apenas profissionais treinados em EMDR poderem utilizar a abordagem
psicoterápica limita o campo de pesquisa na medida em que a maior parte dos
profissionais está mais envolvida na área clínica do que na de pesquisa?
Realidade que tem mudado com um perceptível aumento de interesse a esse
respeito em todo o mundo em função do recente aumento de referências
encontradas em diversas fontes. Embora a grande referência de publicações sobre
EMDR continue sendo o Journal of EMDR Research and Practice, materiais já
podem ser encontrados em publicações por diferentes fontes, como Research on
Social Work Practice, Brief Treatment Crisis and Intervention, European Journal of
Psychotraumatology, L’Evolution Psychiatriche, Revué Européenne de Psychologie
Apliquée, Clinical Neuropsychiatry, Anadolu Psikiyatri Derg, Clinical Psychology &
Psychoterapy, Journal of Child Psychology and Psychiatry, Disaster Health,
European Journal of Psychotraumatology.
Mesmo que o material consultado não ofereça respostas a todas as questões
relacionadas ao uso do EMDR com enlutados, como, por exemplo, quão cedo deve
ser seu início ou se existem (e quais são) as contraindicações de seu uso nessa
população, existem vários indicativos de que o EMDR traz o equilíbrio necessário
para que o processo de luto siga seu curso.
Referendando a expectativa de Silva e Franco (2015, 2016), espera-se que
novos estudos sejam iniciados de forma a incrementar a relação recursiva entre
87

pesquisa, teoria e prática clínica para a intervenção com EMDR nessa referida
população. Os estudos devem incluir a interface do luto complicado com o trauma,
incluindo as reações observadas no TEPT. Bem como a influência da teoria do
apego no desenvolvimento dessas duas complicações após uma perda. O que
permitirá intervenções cada vez mais eficazes.
Já existem evidências da eficácia do EMDR em sua aplicação em situações
de luto (SPRANG, 2001; TARQUINIO et al., 2008; MEYSNER; COTTER; LEE, 2016,
LENFERINK et al., 2017; VAN DENDEREN et al., 2017), e de achados qualitativos
na experiência de ser tratado com o EMDR (COTTER; MEYSNER; LEE, 2017). Além
de incontáveis relatos clínicos de enlutados que tiveram a oportunidade de seguir o
curso de seu processo de luto de forma equilibrada e serena.
Para o momento, considera-se que o tratamento do EMDR não se dá em
relação ao processo de luto, mas às reações de luto, em especial àquelas
consideradas disfuncionais, provocadas por reações ao trauma, no aspecto do PAI,
como descrito anteriormente. É importante lembrar que as reações à perda são
esperadas e não lineares, o que pode confundir o clínico ou o pesquisador em
relação ao que tratar do luto. Afinal, existe, de fato, um grande sofrimento após uma
perda de um ente querido.
Há uma unanimidade entre todos os autores aqui citados nesta pesquisa
bibliográfica de que o EMDR não suprime as emoções esperadas e saudáveis
adequadas que surgem após uma perda. Também há consenso de que o EMDR
possibilita o processamento de memórias, de acordo com o modelo PAI, de forma a
processar aspectos congelados ou bloqueados de uma experiência disruptiva de
perda ou de traumas anteriores associados a ela. É preciso proporcionar ao cliente
um caminho seguro em meio ao sofrimento para possibilitar o surgimento de
memórias e emoções positivas relacionadas à pessoa que morreu, de forma a
favorecer o surgimento de uma representação interna dessa pessoa para o
enlutado, transformando a relação interrompida por vínculos contínuos.
Assim, pode-se afirmar que o EMDR permite ao enlutado vivenciar o período
de ajustamento de uma forma mais suave. Sumarizando nas palavras de Solomon e
Rando (2007), facilita a cura adaptativa e a resolução de padrões que são inatos aos
seres humanos, possibilitando o que alguns enlutados consideram um “bom luto”: a
habilidade de lembrar e pensar sobre quem morreu com emoções positivas, e isso
torna mais fácil a adaptação à perda.
88

Recomenda-se um conhecimento adequado em relação ao luto que possa


guiar de forma apropriada qualquer investigação ou intervenção com essa
população vulnerável. Recomendações também referendadas por Solomon e Rando
(2012), e Solomon (2018).
É desejável, portanto, que clínicos e pesquisadores tomem consciência da
importância do treinamento continuado e da supervisão para a aquisição e o
aprimoramento de habilidades e competência.
Pelo aqui exposto, concluindo, o EMDR pode apresentar as condições
indicadas por Worden (2013) para ser utilizado com enlutados, tomando-se os
devidos cuidados necessários no uso de abordagens próprias ao luto, bem como ao
próprio EMDR.
OBJETIVOS
90

4. OBJETIVOS

4.1 OBJETIVO GERAL

o Colaborar para o conhecimento do uso do EMDR em situações de luto.

4.2 OBJETIVOS ESPECÍFICOS

o Compreender o processo psicoterápico do EMDR com pacientes


enlutados por morte de ente querido.
o Contribuir para a avaliação e a prática clínica com enlutados na
utilização do EMDR.
MÉTODO
92

5. MÉTODO

5.1 TIPO DE PESQUISA

Esta é uma pesquisa de natureza qualitativa de caráter exploratório


(CRESWELL, 2010), definição que é endossada pela afirmação de Berthoud (2000)
e por Stake (2010) de que o encontro entre pesquisador e pesquisado promove uma
investigação única e contextualizada. Essa afirmação encontra-se em acordo com o
paradigma sistêmico utilizado em pesquisa qualitativa (MACEDO; KUBLIKOWSKI,
2004), que também permeia o trabalho desta pesquisadora, como apresentado em
trabalhos anteriores (SILVA, 2005, 2008a, 2008b, 2009, 2010, 2014, 2015, 2016).

Elegeu-se o estudo de caso instrumental coletivo (STAKE, 1994) não


simplesmente como uma escolha metodológica, como afirma Stake (1994, 2006),
mas como objeto de interesse da investigação em curso. Instrumental, pois a
pesquisa possibilita o conhecimento referente à utilização do EMDR em situações de
luto, incluindo aspectos da teoria e da prática. Coletivo, por se propor a estudar mais
de um caso, cada qual observado de forma individual, bem como entre eles, em um
conjunto, com suas semelhanças e diferenças. Essas escolhas foram
fundamentadas no objetivo principal deste trabalho, como será visto a seguir.

Alves-Mazzotti (2006), entre outros autores (BAXTER; JACK, 2008; PERES;


SANTOS, 2005; STAKE, 1994, 2005, 2006), valoriza o estudo de caso, aceito na
comunidade científica, como investigação de uma unidade específica a partir de um
contexto, o que proporciona uma visão holística do fenômeno em estudo. Segundo
Stake (1994), o estudo de caso é recomendado quando se tem interesse em
aprender com o caso em si, considerando-o um sistema integrado. E complementa
afirmando que o caso é tanto o processo como o produto da aprendizagem

Em sua complexidade, a partir de um contexto (BAXTER; JACK, 2008), o


estudo de caso é também um valioso recurso tanto para a execução de uma
pesquisa científica quanto para o desenvolvimento de práticas em Psicologia. Se
bem conduzido, é tão válido e fidedigno quanto outras estratégias metodológicas
(PERES; SANTOS, 2005). Baxter e Jack (2008) colaboram com a informação de que
93

é um método valioso para desenvolver teoria, avaliar programas e desenvolver


intervenções.

Segundo Stake (1994), o estudo de caso coletivo pode ser traduzido como
estudo instrumental estendido a vários casos, como em uma coleção que pode, ou
não, apresentar características em comum. O autor abordou exaustivamente a
análise de múltiplos estudos de caso em uma de suas obras (STAKE, 2006). Após
leitura de parte da obra de Stake (1994, 2005, 2006 e 2010), esta pesquisadora
tomou como semelhantes os termos por ele utilizados que podem se intercambiar na
presente investigação: estudo de caso coletivo, estudo de caso instrumental e
múltiplos estudos de caso.

Para Alves-Mazzotti (2006) e Stake (1994), o estudo de caso instrumental


pode facilitar a compreensão de um contexto mais amplo, e a utilização de mais
casos possibilita melhor compreensão ou até melhor teorização do fenômeno
estudado. Stake (2006) relata que esse desenho metodológico permite a construção
de um enquadramento sobre o tema de forma contínua, na medida em que o estudo
se desenvolve.

O delineamento escolhido possibilita dar voz aos enlutados com a escuta e a


prática qualificadas, com o objetivo de possibilitar a construção de um percurso
psicoterápico adequado. Contribuindo, portanto, para o conhecimento a respeito do
uso do EMDR em situações de luto, incluindo temas como a avaliação e a prática
clínica.

Para que os objetivos desta pesquisa fossem alcançados, houve a


necessidade de avaliar tanto o processo de luto em si quanto o desenvolvimento e
os resultados do processo psicoterápico, bem como levar em consideração fatores
de risco e de proteção dos enlutados postulados por Neimeyer e Hogan (2012). Em
função de seu caráter qualitativo e exploratório, os eventuais resultados numéricos
advindos das avaliações e do referido processo não possuem o objetivo de
generalização e foram avaliados à luz de um contexto qualitativo.

Assim sendo, foi investigada a utilização da abordagem psicoterápica do


EMDR como tratamento para a categoria geral do luto, tal como se apresenta na
prática clínica, quando um enlutado busca tratamento. O encaminhamento para a
pesquisa foi baseado na percepção do próprio enlutado de que precisava de ajuda
94

profissional, como será visto a seguir, na seção sobre os participantes e os


procedimentos.

Não houve restrição ao tipo de luto por meio de classificações prévias tais
como luto complicado, luto traumático, luto adiado, luto inibido, luto prolongado,
entre tantas outras. Não houve restrição ao grau de relacionamento em relação à
pessoa que morreu. Também não houve restrição de sintomas, levando em
consideração o conceito de luto complicado tal como abordado no início deste
trabalho, tendo como base o modelo desenvolvimental de luto (NEIMEYER;
CACCIATORE, 2016).

Assim, o percurso metodológico esteve o mais próximo possível da realidade


clínica do atendimento psicoterápico com enlutados. A dinâmica
pesquisador/pesquisado foi observada considerando a melhor conduta para cada
participante de acordo com evidências de pesquisa, com o repertório da
pesquisadora como clínica, com o conhecimento sobre o processo de luto, com
diretrizes do EMDR como abordagem psicoterápica, e com idiossincrasias do
participante. Desta feita, ficou em evidência o caráter qualitativo das avaliações,
intervenções, análise e discussão.

O método foi delineado seguindo alguns cuidados sobre a integridade da


intervenção planejada, mais comumente conhecida no meio da comunidade médica
pelo conceito de fidelidade (SANETTI; KRATOCHWILL, 2014), para que ela fosse
implementada de forma a se adequar ao que se propôs. Esse tema será discutido na
discussão dos dados, de forma a considerar o que foi desenvolvido ao longo desta
investigação.

Para facilitar a compreensão do exposto acima, apresenta-se a seguir uma


forma gráfica (Figura 1) que representa o desenho metodológico acima comentado.
Construído a partir de sugestões observadas no trabalho de Stake (2006, 2010),
deve ser imaginado de forma dinâmica em constante movimento entre seus diversos
elementos.
95

Figura 1– Desenho Gráfico do Estudo de Caso Instrumental Coletivo


Fonte: Autora

A partir do paradigma sistêmico, a pesquisa foi desenvolvida com base na


prática clínica da pesquisadora e na fundamentação teórica por ela organizada no
escopo deste trabalho. Esse primeiro nível, representado pelo segundo círculo de
fora para dentro, dá consistência ao objeto da pesquisa, que é colaborar para o
conhecimento do uso do EMDR em situações de luto, como representado no
círculo mais interno do gráfico. Os múltiplos casos estudados estão representados
no círculo fatiado em diversas cores, cada um representando um dos participantes
da pesquisa. A estrutura da utilização da abordagem psicoterápica do EMDR com
cada participante segue os passos dos círculos adjacentes ao círculo menor central
(EMDR e luto), a saber, avaliação inicial, uso de instrumentos, que inclui o próprio
plano de tratamento seguido, as sessões de EMDR e a avaliação final. O estudo de
cada caso de forma individual proporcionou o estudo do conjunto dos seis casos, o
resultado deste estudo gerou conhecimento, apresentado sob a forma narrativa ao
final do processo.
A partir do desenho gráfico acima (Figura 1), é possível observar a
complexidade e a dinamicidade do estudo de caso instrumental. Esta, por sua vez, é
tão intensa, que Stake (2005) propõe que o método-tema seja abordado no relato
96

final ou, ainda, em apêndice. Contudo, por questões de formalidade junto à


Universidade e ao Comitê de Ética em Pesquisa (CEP), aos quais esta pesquisa foi
submetida, a opção foi de mantê-lo nessa ordem.

5.2 INSTRUMENTOS

Uma das estratégias para dar credibilidade aos resultados de estudos de


caso, de acordo com Baxter e Jack (2008), é o uso de uma variedade de
instrumentos como se fossem peças de um quebra-cabeças, de tal maneira que
cada uma dessas peças contribua para a compreensão do fenômeno como um todo.
Paralelamente, Cunha (2016) afirma que o uso associado de mais de um
instrumento fornece elementos fundamentais para a avaliação clínica de maneira a
proporcionar uma adequada intervenção terapêutica.
Assim, em função da possível vulnerabilidade dos participantes e de forma a
lhes garantir o cuidado, bem como proporcionar elementos que possam contribuir
para o estudo instrumental de caso coletivo, optou-se por utilizar os seguintes
instrumentos nesta pesquisa.

a) Avaliação Clínica Inicial


b) Escala Beck de Depressão (BDI)
c) Hogan Grief Reaction Checklist (HGRC)
d) Escala de Experiências de Dissociação (DES-II)
e) Plano de Tratamento
f) Protocolo Básico de EMDR
g) Prontuários
h) Avaliação Clínica Final
i) Diário de Campo
j) Caderno de Anotações Pessoais

A Avaliação Clínica Inicial (AI) (APÊNDICE A) teve o intuito de verificar os


critérios de inclusão e exclusão que são encontrados na seção “Participante”.
Adaptada por esta pesquisadora para o propósito desta pesquisa e a partir da
História Clínica Preliminar do Treinamento Básico de EMDR (EMDR INSTITUTE,
2017), ela é autoaplicável, com perguntas fechadas e abertas. Esta avaliação
97

também teve como propósito estabelecer uma aliança terapêutica e permitir


conhecer a história de perdas, a relação com o morto, a história da morte, e o curso
do luto de cada participante.
Como forma de avaliar possíveis transtornos psiquiátricos, bem como
elementos de risco que atendam aos critérios de exclusão, a Escala Beck de
Depressão (BDI) foi aplicada em sua versão brasileira, traduzida, adaptada e
padronizada por NCS Pearson, Inc. (CUNHA, 2016) 5. Esse instrumento se tornou um
dos mais confiáveis para avaliar a variedade de sintomas depressivos em diversas
faixas de idade de populações clínicas e não clínicas (BECK; STEER; BROWN,
2014). Por ser o transtorno depressivo um possível elemento presente no luto
complicado e este, por sua vez, um fator de risco para comportamento suicida
(SILVA, 2009), sua escolha é uma segurança adicional aos participantes.
A maior parte dos pesquisadores no campo do luto confia nas medidas
genéricas de sintomas psiquiátricos, em oposição às escalas criadas sob medida
para avaliação do luto (NEIMEYER; HOGAN, 2012). Contudo, apenas a aplicação
da BDI não é suficiente para o propósito desta pesquisa. Embora apresente
informações que dizem respeito a grupos psiquiátricos, não oferece respostas
específicas sobre luto. Não inclui respostas psicossociais únicas a cada perda, tais
como dificuldades de apego assinalados pela ausência da pessoa que morreu e luta
para manter o vínculo com sua memória, entre outros (NEIMEYER; HOGAN, 2001).
Outrossim, de acordo com Neimeyer e Hogan (2012), a avaliação
proporcionada pelos instrumentos citados anteriormente não colabora para a
compreensão de reações secundárias à perda e, por conseguinte, do próprio evento
deflagrador. Relembrando, portanto, os questionamentos de Neimeyer, Hogan e
Laurie (2008), é imprescindível escolher também um instrumento adequado que
possa indicar resultados qualitativos de uma prática psicoterápica voltada para
enlutados.
Elegeu-se o Hogan Grief Reaction Checklist (HGRC) como instrumento para a
avaliação clínica de elementos fundamentais relacionados ao processo de luto
(NEIMEYER; HOGAN, 2001; NEIMEYER; HOGAN; LAURIE, 2008). O HGRC é
considerado um instrumento adequado para esse propósito, uma vez que avalia
5
Com a pesquisa já em andamento e os primeiros BDIs aplicados, a pesquisadora tomou
conhecimento de que esse instrumento havia sido considerado desfavorável pelo CFP, mas
devidamente autorizado a ser utilizado em pesquisas. A versão utilizada atualmente é o BDI-II.
98

respostas adaptativas ou não adaptativas específicas do luto (NEIMEYER; HOGAN,


2001).
O HGRC apresenta bons critérios de confiança e confiabilidade, estando em
processo de validação no Brasil no Laboratório de Estudos e Intervenções em Luto
da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (LELu/PUC-SP). Desenvolvido
com base em dados empíricos obtidos com adultos enlutados por morte de um ente
querido por diferentes causas, utiliza seis fatores para a análise da trajetória e da
natureza multidimensional do processo de luto: desespero, comportamento de
pânico, culpa e raiva, desapego (indiferença/desinteresse), desorganização e
crescimento pessoal (HOGAN; GREENFIELD; SCHIMIDT, 2001; NEIMEYER;
HOGAN; LAURIE, 2008).
De acordo com Hogan, Greenfield e Schimidt (2001), o HGRC revela achados
psicométricos substantivos sobre luto traumático, luto antecipatório, bem como nas
mudanças do esquema pessoal do enlutado, além de seu crescimento pessoal e
existencial. Por esses motivos mostra-se um instrumento adequado para a avaliação
qualitativa dos objetivos propostos nessa pesquisa.
Com o intuito de avaliar a adequação da aplicação do EMDR aos
participantes, foi adicionado um dos instrumentos habituais utilizados na avaliação
padrão do Treinamento Básico de EMDR (EMDRIA, 2016), a Dissociation
Experience Scale II, (DES-II), em português, Escala de Avaliação de Dissociação
(CARLSON; PUTNAM, 1993). Essa escala avalia a presença de possíveis aspectos
dissociativos que requerem maiores cuidados de preparação do cliente antes do
início da utilização do EMDR, além de indicar a presença de TEPT e outras
dificuldades cognitivas. O instrumento possui a adaptação transcultural para o
português realizada por Fiszman et al (2004), apresentando consistência interna
satisfatória, segundo Maraldi e Zangari (2016).
De acordo com o planejamento da pesquisa, caso o possível participante
apresentasse algum dos critérios de exclusão, seria comunicado para os devidos
cuidados e encaminhamentos. Em caso de alta pontuação no BDI e/ou presença de
comportamento suicida, seria encaminhado imediatamente para o tratamento
correspondente, de acordo com o fluxograma apresentado no Apêndice F, seguido
de preenchimento da notificação para encaminhamento (APÊNDICE G).
O Plano de Tratamento (PTr) tem como objetivo orientar a ordem do trabalho
a ser realizado com cada participante (SHAPIRO, 2007; EMDR, 2017) a partir da
99

demanda inicial relacionada ao luto. Apresenta elementos do Presente, do Passado


e do Futuro, respectivamente, Disparadores, História e Desempenho, de maneira a
elencar os alvos/eventos-chave a serem trabalhados com EMDR. Ele é a espinha
dorsal para que a sequência do tratamento aconteça, a partir da queixa inicial, e
permite a avaliação dos possíveis resultados, devendo ser elaborado
cuidadosamente.
O Protocolo Básico de EMDR foi estabelecido como a base das sessões de
EMDR, tal como preconizado pelo Treinamento Básico em EMDR (SHAPIRO, 2007;
EMDR, 2017). Por meio dele, foram realizados os reprocessamentos dos eventos,
de acordo com o PTr estabelecido para cada participante. Apresenta medidas como
SUDS e VoC (SHAPIRO, 2007; EMDR, 2017), elementos importantes para a análise
dos dados, bem como permite a observação de suas 8 fases sequenciais, portanto,
os procedimentos de cada sessão. O avanço a cada fase indica a resolução dos
alvos estabelecidos em uma coreografia entre pesquisadora e participante, para que
a sequência do tratamento possa avançar.
O registro documental referente a prestação de atendimentos psicológicos é
obrigatório por determinação do CFP (2009), sob a forma de Prontuário. Para além
da exigência do órgão responsável pela fiscalização do trabalho do profissional de
Psicologia, o registro de informações no Prontuário foi de suma relevância para essa
investigação. Nele, foram registradas as informações obtidas na interface com cada
participante, registrando o processo psicoterápico do início ao fim, incluindo
avaliações, objetivos do trabalho, evolução das sessões, observações e impressões
da pesquisadora sobre o processo em curso. Também foram registrados
comportamentos apresentados e eventuais mudanças, expressões faciais, medidas
das escalas usadas, sequência dos alvos trabalhados, sequência das séries de
movimentos bilaterais (MBs), relatos a respeito do processo, entre outros elementos
cruciais para o desenvolvimento e acompanhamento dessa abordagem
psicoterápica. É importante instrumento para a realização da psicoterapia EMDR de
forma individualizada para cada participante, de acordo com a demanda inicialmente
apresentada. Desta feita, esse instrumento tornou-se importante fonte documental
para consultas durante a elaboração desse trabalho.
A Avaliação Clínica Final (AF) (APÊNDICE B), foi criada como forma de seguir
a sugestão de Shear, Boelen, Neimeyer (2011) de revisar o encerramento do
processo psicoterápico e o desenvolvimento de planos para o futuro, verificando,
100

inclusive, a necessidade de continuidade desse processo. Inclui também a sugestão


de Worden (2013) de avaliar o processo em relação a três aspectos: mudanças na
experiência subjetiva, nos comportamentos e alívio dos sintomas.
Além disso, esse instrumento tem também como objetivo avaliar os alvos
iniciais estabelecidos no PTr, de forma a verificar o quanto cada um está ou não
resolvido. Por isso, nessa entrevista, foi incluída a revisão dos alvos, trabalhados ou
não durante as sessões de EMDR e a respectiva medida do SUDS, seguindo os
parâmetros do trabalho com EMDR. Dessa forma, foi possível verificar os benefícios,
as críticas e as dificuldades encontradas pelo próprio participante ao ser submetido
a essa abordagem psicoterápica.
Durante toda a pesquisa, foram registradas informações em Diário de Campo,
tal como sugerido por Minayo (2010), que funcionaram como memórias que
poderiam contribuir para o desenvolvimento da pesquisa, em especial, para a
análise dos dados. Baxter e Jack (2008) e Stake (2010) recomendam o uso desse
instrumento para registrar o que acontece com o pensamento do pesquisador, desde
informações de contato ou referências bibliográficas a observações, referências e
reflexões pessoais.
O Diário de Campo ressalta a característica do pesquisador como participante
por meio de sua observação e de reflexões a partir da interação com a pesquisa
(CRESWELL, 2010). As anotações foram realizadas em um arquivo à parte e são
complementares ao registro nos prontuários, nos quais também foram registradas
conversas informais, mensagens ou recados ao longo de toda a investigação,
cabendo à pesquisadora a liberdade para registrar também impressões pessoais
sobre o processo psicoterapêutico, dúvidas, indagações com foco em seu objeto de
estudo (MINAYO, 2010).
Em função de o processamento do EMDR ser contínuo mesmo após o
término de uma sessão, foi estabelecido o uso do Caderno de Anotações Pessoais,
para que cada participante pudesse registrar por escrito os acontecimentos entre as
sessões, caso assim o desejassem. O registro não era obrigatório. Cada participante
recebeu uma caderneta padronizada, junto com a orientação de nela registrar
sonhos, pesadelos, insights, mudanças de comportamento, disparadores e tudo o
mais que pudesse surgir entre as sessões, de acordo com a orientação do
Treinamento Básico (EMDR INSTITUTE, 2017).
101

A variedade de instrumentos pode ser um risco mediante a quantidade de


informações geradas, de acordo com Stake (2006). Contudo, esse risco pode ser
minimizado por intermédio da organização de todo o material coletado, segundo ele,
contribuindo para a compreensão do caso como um todo ou do conjunto de casos a
partir do relato final da pesquisa. Tal organização seguiu o Desenho Gráfico do
Estudo de Caso Instrumental Coletivo, ora apresentado.

5.3 LOCAL

O local da pesquisa foi o consultório privado da pesquisadora, em Vitória-ES,


de fácil acesso na cidade. A escolha se deu pela conveniência para a pesquisa, por
ser local totalmente adaptado e preparado para a prática psicoterápica, favorecendo
um ambiente agradável, seguro, acusticamente isolado e confortável para os
participantes. Além disso, proporcionava a privacidade e a ausência de interferência
externa, com ar-condicionado, além de outras condições adequadas para a
realização das gravações em áudio e vídeo.

5.4 PARTICIPANTES

Após a aprovação deste projeto pelo Comitê de Ética, os participantes foram


recrutados entre os integrantes do grupo de apoio a enlutados Apoio a Perdas
Irreparáveis da cidade de Vitória/Espírito Santo (API/Vitória), identificado como único
serviço de referência para enlutados disponível em todo estado do Espírito Santo.
O convite foi direcionado a enlutados que perderam uma pessoa significativa
há no mínimo dois anos, período em que Neimeyer e Cacciatore (2012) consideram
já haver uma estabilidade no processo de luto. Poderiam ser de qualquer sexo, com
idade entre 18 e 65 anos, portanto, na fase adulta.
Foram definidos como critérios de inclusão: ter idade entre 18 a 65 anos; ter
sofrido uma perda por morte há mais de dois anos, sem restrição de causa ou de
grau de parentesco; estar enfrentando dificuldades por seu processo de luto por
autorrelato; falar e compreender bem o português, para que seja possível a
utilização de instrumentos autoaplicáveis; anuir com o Termo de Consentimento
Livre e Esclarecido (TCLE) tal como estabelecido no projeto, aprovado pelo CEP sob
o número 2.572.702. (APÊNDICE C).
102

Já como critérios de exclusão: apresentar transtorno depressivo ou


comportamento suicida; apresentar dissociação ou transtorno psiquiátrico grave não
estabilizado e/ou possuir critérios diagnósticos para transtorno afetivo bipolar,
esquizofrenia ou transtorno psicótico, conforme história clínica colhida na Avaliação
Clínica Inicial e nos instrumentos; ter doença médica grave ou instável, incluindo
derrame, convulsões ou doenças cardíacas não estabilizadas; ser portador de
epilepsia; ter história de lesão cerebral traumática moderada ou grave; no caso de
mulheres, estar gestante; ter participado de processo psicoterapêutico nos últimos
seis meses ou já ter se submetido à psicoterapia com uso de EMDR em qualquer
tempo; ter participado, estar em participação ativa ou ter agendamento futuro em um
tratamento formal para adição, conforme autorrelato; ter sofrido alteração na
medicação psicotrópica no mês anterior ou estar em uso terapêutico de
benzodiazepínico em dose maior do que 40 mg de Diazepam no momento do
tratamento.
Todas essas exclusões se fazem necessárias por serem condições clínicas
que requerem cuidados adicionais para a aplicação do EMDR, desviando-se do
escopo desta pesquisa, por exemplo, uso de protocolos específicos. Além disso,
seguem as recomendações de Worden (2013), mencionadas na parte teórica inicial,
de rastreamento de comorbidades para maior segurança do participante, em
especial em psicoterapias breves. Prosseguindo com as ideias de Worden (2013)
para o desenvolvimento de uma psicoterapia do luto, que visam a que o paciente
não esteja pior do que quando chegou para o tratamento, considera-se, ainda, que
muitos enlutados podem reprimir afetos relacionados à perda os quais podem eclodir
durante qualquer tratamento.
Por conseguinte, os critérios de exclusão foram avaliados pelos instrumentos
AI, BDI e DES-II, apresentados em seção anterior. De acordo com o planejamento
inicial da pesquisa, caso houvesse alguma situação de exclusão, foram
estabelecidos o fluxograma de encaminhamento (APÊNDICE F) e a notificação para
encaminhamentos necessários (APÊNDICE G).
Fleming (2012), ao discutir a intervenção em enlutados que experimentam
sintomas relacionados a um trauma, corrobora o cuidado da escolha dos
participantes, afirmando que o risco de suicídio ou condições severas de
comorbidade psiquiátrica devem ser cuidados em primeiro lugar. Para que sejam
identificados, recomenda o uso de avaliação psicométrica. Complementando a
103

justificativa para critérios de exclusão tão amplos, Kosminsky e McDevitt (2012), em


seu trabalho sobre o uso do EMDR em situações de luto, reiteram que o EMDR é
tolerável para a maior parte dos clientes, mas que há que se ter cautela se houver
presença ou história de problemas cardíacos, convulsões ou derrames, quando o
médico assistente deve ser consultado. Estes indicam o suporte adequado para
pessoas que apresentam adição antes de serem submetidas ao EMDR, além de
recomendar que os clientes que experimentam dissociação sejam tratados apenas
por profissionais que utilizam o EMDR e que sejam experientes com esse tipo de
população. Worden (2013) também já mencionava os cuidados acima adotados para
o desenvolvimento de uma adequada psicoterapia de luto.
No desenho metodológico inicial, pretendia-se a presença de três
participantes em função da viabilidade e da conveniência, além de esse ser o
número de participantes utilizado de acordo com pesquisa sobre número de estudos
de caso realizada na base de dados da Universidade Federal do Rio Grande do Sul
e da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (MAZORRA, 2009; CARDINALLI,
2011; COLOSSI, FALCKE, 2013; MARTINS, FRIZZO, DIEHL, 2014; JAGER, DIAS,
2015; HISPAGNOL, 2017). Esta pesquisa observou a existência do estudo de caso
como método empregado em investigações qualitativas e foi encontrada uma
variação entre um e 130 casos avaliados , com justificativas diversas , encontrando
uma maior ocorrência na escolha de três estudos de caso.
Contudo, ao aprofundar o conhecimento no estudo de casos múltiplos, ou
estudo de caso coletivo, definiu-se por seguir as indicações de Stake (2006) de ter
entre quatro a dez casos para aumentar os benefícios desse tipo de estudo. Os
procedimentos para o convite aos participantes, bem como sua seleção, serão
descritos a seguir quando se abordará os procedimentos desta investigação.
Como afirma Stake (2006), embora haja uma seleção prévia de critérios de
estudo, e, portanto, escolha dos casos, por vezes, são os casos que selecionam o
pesquisador, de forma a aumentar a compreensão em relação ao fenômeno
estudado. Dessa feita, após o convite, onze integrantes do API/Vitória contataram a
pesquisadora, a partir de sua percepção de que precisariam de ajuda para enfrentar
seu processo de luto.
Ao final, a pesquisa recebeu seis participantes com idade variando entre 33
e52 anos, com apenas um participante de sexo masculino, sendo os demais do sexo
feminino, com variação de religião, estado civil, renda familiar, grau de instrução e
104

profissão (ver Quadro 2). Cinco participantes trouxeram como demanda uma perda
única, e um participante trouxe três perdas como demanda inicial. As relações de
parentesco dos participantes variaram de genitor, filho e irmão. A idade da pessoa
que morreu variou de 41 semanas de gestação a 39 anos de idade. As causas da
morte foram autorrelatadas como suicídio, doença e negligência, com o tempo de
luto variando entre 2 anos e 28 anos e 3 meses. Para melhor visualização das
informações demográficas, ver quadros 2 e 3.

Quadro 2 – Dados demográficos dos participantes


Fonte: Autora
105

Quadro 3 – Contextualização da perda


Fonte: Autora

5.5 PROCEDIMENTOS

O convite foi feito aos participantes do API/Vitória por meio de encontro


presencial durante duas das reuniões mensais e por intermédio de envio de e-mail
para a lista de endereços dos participantes cadastrados, bem como de um grupo de
WhatsApp. Nessas ocasiões, apresentou-se a Carta Convite (APÊNDICE D), de
acordo com o TCLE (APÊNDICE C).
O API é uma rede voluntária de apoio a enlutados iniciada em Belo Horizonte,
em 1998, por Gláucia e Eduardo Tavares, após a perda de uma filha em acidente
automobilístico (TAVARES, 2005; TAVARES; TAVARES, 2016). O API/Vitória foi
fundado em 2005 por iniciativa desta pesquisadora, em apoio ao luto de Alzira e
Paulo Davel após a perda de sua única filha (SILVA, 2016) e, atualmente, é o único
serviço conhecido de cuidados a enlutados no Espírito Santo. Ao longo desses anos,
o grupo capixaba reúne-se mensalmente no acolhimento a enlutados por diversos
tipos de perda, sem restrição ao grau de relacionamento, a crenças filosóficas,
políticas ou religiosas. Nessas reuniões presenciais, os participantes são convidados
106

a compartilhar suas experiências, em um espaço aberto para a expressão dos mais


variados sentimentos e emoções, de modo a proporcionar uma linha de cuidado com
o enlutado, visando o compartilhar. Nesses encontros também são realizados
orientações e encaminhamentos relacionados ao processo de luto, quando
necessário, pela pessoa responsável pela coordenação da reunião.
O encontro dos “amigos que eu gostaria de nunca ter conhecido”, como os
integrantes do grupo se intitulam, é apresentado por Silva (2016,p. 233) e marcado
como “uma rede solidária de apoio tecida de forma lenta, mas sólida” em torno do
luto. Além dos encontros presenciais, os participantes têm a oportunidade de
participar do grupo de WhatsApp, responsável por troca de mensagens e apoio mais
frequente, para além das reuniões. A participação nas reuniões não é obrigatória,
mesma regra que vale para o grupo do WhatsApp, sendo a frequência dos
participantes de uma ampla variação, desde uma única participação, a participações
mensais/anuais ou, ainda, esporádicas. Também são realizados encontros
científicos, palestras, reportagens, dentre uma série de outras atividades nas quais o
tema do cuidado com o enlutado fica evidente.
O encaminhamento para a pesquisa, por conseguinte, teve como base a
percepção do próprio enlutado integrante do API/Vitória de que precisava de ajuda
profissional, uma vez que o convite foi enviado a todos os integrantes cadastrados.
Essa escolha determinou que chegassem os casos que pudessem oportunizar a
melhor forma de aprendizagem, que vieram a formar o conjunto de casos múltiplos,
como primeiro critério proposto para o estudo do tema inicialmente definido (STAKE,
1994).
A partir do convite inicial, quatro pessoas manifestaram interesse em
participar da pesquisa, por mensagem de WhatsApp e via e-mail, mas observaram
estar fora dos critérios de inclusão, seja por motivo de idade ou de tempo decorrente
da perda. Duas fizeram contato telefônico, pedindo ajuda, mas também não
atendiam aos critérios de inclusão, de acordo com o critério de tempo. Após contato
da pesquisadora com todos, quando indagou de forma adequada sobre a demanda
de cuidados, apenas dois deles foram encaminhados para atendimento psicológico
entre profissionais, apoiadores do API/Vitória, que compõe sua rede de
encaminhamentos. Uma outra integrante do API/Vitória confundiu-se em relação ao
critério de inclusão e, mesmo após esclarecimentos, não retomou o contato para
agendamento presencial, inclusive por estar atarefada com atividades acadêmicas.
107

Outros seis integrantes do API/Vitória que atendiam aos critérios de inclusão e


que manifestaram interesse em participar, tiveram encontros presenciais agendados
para a apresentação do projeto, quando receberam informações sobre os objetivos e
propósitos da investigação em curso. O EMDR também foi apresentado formalmente
via documento próprio (APÊNDICE E), bem como por explicação verbal da própria
pesquisadora a respeito de seu funcionamento, seus potenciais benefícios e riscos,
de acordo com as características individuais, sociais, econômicas e culturais. Logo
após, cada participante recebeu o TCLE, que permite o encerramento da
participação, a qualquer momento do processo, tomando conhecimento de seu
conteúdo e dando seu aceite formal.
Em seguida, iniciou-se o processo de avaliação, tal como previsto no projeto
aprovado, com flexibilidade para se adequar às necessidades de cada participante.
Em continuidade, foram aplicados os instrumentos relacionados ao rastreamento
dos critérios de exclusão, a saber, AI, BDI e DES, para só depois ser aplicado o
HGCR. O período de avaliação apresentou variação de um a dois encontros,
conforme será relatado no estudo de cada caso, e observou o rastreamento da
pertinência da participação na pesquisa com o mínimo de risco programado de cada
participante.
Nenhum dos seis participantes preencheu critérios de exclusão, motivo pelo
qual todos esses foram aceitos na pesquisa. Consequentemente, o fluxograma de
cuidados estabelecido, bem como a notificação para encaminhamentos necessários
(APÊNDICES F e G, respectivamente), em caso de não participação em qualquer
momento da pesquisa após o encontro presencial, não foram utilizados.
Para fins de organização das informações, o critério utilizado para a
numeração dos participantes foi a data de assinatura do TCLE, pois mesmo o
contato inicial tendo sido feito no mesmo período, o encontro presencial para
avaliação foi postergado com P4 e P5, por motivos que serão abordados
posteriormente.
Encerrado o período avaliativo, foi estabelecido um PTr para cada participante
estabelecendo os alvos a serem trabalhados nas sessões de EMDR, tendo sido
utilizados prioritariamente o protocolo básico de EMDR, em um processo
psicoterápico feito sob medida.
A previsão inicial era de ocorrerem 8 a 10 sessões semanais, tal como
recomendado por Worden (2013), de acordo com o objetivo estabelecido a partir das
108

queixas (demanda) relacionadas à perda, coletadas no período de avaliação e


contempladas no PTr.
Em função de cada participante ter seu próprio percurso individual nesse
processo psicoterápico, variações infindáveis foram observadas e são impossíveis
de serem relatadas como procedimentos padronizados. Decorrente das
especificidades de cada caso, por exemplo, houve uma variação no número de
sessões de EMDR, entre 8a 10 sessões.
Portanto, ao final do número de no máximo 10 sessões de EMDR, foi
realizado um encontro presencial de finalização da pesquisa e, por conseguinte,
desse processo psicoterápico. Seguindo o roteiro da entrevista semiestruturada
construída para esse fim, à AF (APÊNDICE B), adicionou-se uma nova aplicação
dos instrumentos BDI, DES-II e HGRC, para que os resultados fossem integrados ao
material de análise. A ordem de aplicação dos instrumentos dependeu dos
resultados e do ritmo de cada participante, tendo sido incluídos alguns
procedimentos do próprio EMDR para a finalização desse processo
psicoterapêutico, de acordo com o PTr de cada um. A inclusão teve por objetivo a
consolidação dos resultados psicoterápicos alcançados.
Os prontuários foram elaborados registrando-se cada etapa do processo
psicoterápico, desde o momento inicial do primeiro contato, bem como os
instrumentos de avaliação inicial e final devidamente preenchidos, sendo as sessões
de EMDR registradas por escrito de acordo com o PTr. Foram registradas
observações e impressões da pesquisadora, bem como dúvidas, raciocínios clínicos,
próximos passos, entre outros itens que compõem o trabalho do EMDR com
enlutados. Nos registros escritos de cada prontuário, constaram todas as anotações
de acordo com o protocolo de EMDR em suas diversas fases, os movimentos
bilaterais (MB’s), bem como as escalas de medidas utilizadas em cada fase para
avaliar a evolução do tratamento para cada sessão, como é habitual nessa
abordagem psicoterápica.
Para fins de esclarecimento, durante as sessões de EMDR, durante a
estimulação bilateral, foram utilizados equipamentos específicos para esse fim, de
forma a garantir uma maior padronização dos MB’s. Os equipamentos utilizados são
os mesmos da prática profissional da pesquisadora e selecionados por oferecerem
maior número de funções e praticidade.
109

Para a estimulação visual, foi utilizado como instrumento a Barra de Luz 6.


Esse equipamento é produzido no Brasil e substitui a ação humana dos MB’s
visuais. Como facilidades, possui controle remoto, contador de MB’s e regulação de
velocidade lenta e rápida, atendendo às necessidades da pesquisadora. A imagem
desse equipamento pode ser conferida abaixo.

Imagem 2 – Aparelho de estimulação visual


Fonte: site da empresa

Para a estimulação bilateral tátil e/ou auditiva foi utilizado o equipamento


AdvancedTac/AudioScan, de propriedade da pesquisadora, fabricado pela empresa
americana Neuro Tek Corporation. Ele apresenta como vantagem a utilização
separada ou em conjunto dos MB’s táteis e/ou auditivos, com variedade de
intensidade, velocidade, volume e tons, diferentemente dos modelos similares
nacionais, que apenas possibilitam o uso de MB’s táteis. Possibilita também a
reposição dos pulses e o uso de qualquer fone de ouvido. A imagem desse
equipamento pode ser conferida abaixo.

6
O referido equipamento foi cedido pela empresa Equipamentos Psi para fins de utilização
nesta pesquisa.
110

Imagem 3 – Aparelho de estimulação tátil e auditiva


Fonte: site da empresa

5.5.1 Coleta de material

Os itens de a) a j) dos instrumentos produziram registros escritos.


As AIs e as AFs, bem como todas as sessões foram gravadas em áudio MP3
para registro em voz do material coletado, uma vez que as anotações da
pesquisadora nos prontuários não corresponderiam ao registro fidedigno de todos os
encontros, em todos os detalhes.
Foram registrados um total de 71 encontros presenciais com os seis
participantes. Todas as sessões foram transcritas de forma literal para que
pudessem servir de consulta e conferência das informações registradas pela
pesquisadora, bem como material de ilustração da análise realizada. Nas
transcrições, foram registrados os diversos graus de entonação da voz, expressão
das emoções (tais como choro ou riso), diferentes ritmos de respiração, pausas ou
silêncios, entre outros elementos do discurso. Todos os nomes e outros dados que
pudessem identificar o participante foram substituídos para garantir o anonimato.
Apenas as sessões de psicoterapia utilizando o EMDR foram também
filmadas para garantir fidedignidade de registro em relação à entonação de voz,
expressões faciais e outros sinais físicos do participante de fundamental importância
durante o processamento. Esse registro foi auxiliar na análise do material coletado.
O registro duplo em áudio e vídeo, que pareceu exagerado no início da
investigação, mostrou-se bastante útil. Garantiu o backup de dados, por ocasião de
problemas técnicos observados após os encontros presenciais. Por exemplo,
quando um áudio de P2 não foi registrado, foi possível fazer a transcrição da sessão
111

por intermédio da gravação em vídeo; bem como em alguns momentos da


transcrição, em que o áudio estava inaudível, foi possível resgatar o diálogo por
meio do registro em vídeo; ou, ainda, quando algumas das sessões em vídeo foram
gravadas sem o registro do som, foi possível recuperá-lo por meio da gravação em
áudio.

5.5.2 Análise de material

A proposta de análise do material coletado é de fazer de uma forma


compreensível, de forma que essa investigação possa ser replicada, seguindo
sugestão de Stake (2005) e considerando alguns dos elementos relacionados à
integridade do tratamento psicológico (SANETTI; KRATICHWILL, 2014).
A análise qualitativa tem como base a literatura pesquisada de forma a
estabelecer uma relação entre o conteúdo expresso no conjunto de informações
obtidas de cada participante, a experiência da pesquisadora e suas observações na
interação com essas informações, bem como com o material publicado por
pesquisadores ou profissionais que trabalham com o tema investigado. Como nos
ensina Stake (2000), esse tipo de análise qualitativa permite a apreensão do
fenômeno a partir de seu contexto.
Mais do que uma receita pronta, o sistema de análise qualitativa proposto por
Stake (2005, 2010) serviu como um suporte para a realização da análise de todo o
material obtido ao longo dessa investigação, realizada em duas etapas que serão
chamados movimentos de análise. A análise de todo o material obtido foi organizada
em torno do Desenho Gráfico do Estudo de Caso Instrumental Coletivo, figura 1, que
permite examinar os diferentes casos e o conjunto deles, como uma instância única,
nomeada por Stake (2005) de the quintain. Como não foi encontrada
correspondência desse termo na língua portuguesa, optamos por usar a expressão
“conjunto de estudos de caso” ou “conjunto de múltiplos casos”.
Seguindo a sugestão de Stake (1994, 2005, 2006, 2010), no primeiro
movimento de análise, optou-se por apresentar cada estudo de caso
individualmente, de forma a organizar os dados de cada participante e contar a vida
única de cada um. Segundo esse autor, os dados devem ser analisados de forma a
compreender o caso como um todo, não como as muitas partes do caso (STAKE,
2006).
112

Voltando a observar o referido desenho gráfico, destaca-se individualmente,


no primeiro movimento de análise, cada fatia do círculo colorido, representado cada
participante e levando em consideração a “flor” que é formada no centro do círculo.
Desta feita, cada caso foi relatado de forma cronológica e narrativa em
relação aos acontecimentos do processo psicoterápico registrado das mais
variadas formas, como forma de explicitá-lo e às suas vicissitudes. Peres e Santos
(2005) argumentam que o pesquisador pode incluir novos elementos no estudo e
recomendam não deixar a análise para o final da coleta de material. Isso é o que foi
feito nesta pesquisa, pois foram realizadas avaliações a cada sessão para
direcionar o processo psicoterápico.
Assim, cada caso foi apresentado com informações do participante, seguidas
da história clínica baseada na história de perda e luto, foco dessa pesquisa. Essa
história clínica corresponde à Fase 1 do tratamento com EMDR, acrescida de
informações relevantes colhidas durante a AI. A seguir, foi apresentado o PTr e a
sequência das sessões realizadas, com o registro de se a sessão foi completa ou
incompleta e o sequenciamento das fases de 2 a 8, seguindo o padrão do Manual
Clínico e de Capacitação em EMDR (EMDR INSTITUTE, 2017).
Durante o processo psicoterápico, seguiu-se a recomendação de Peres e
Santos (2005), para executar recortes e focalizar aspectos de maior relevância para
a organização dos dados obtidos durante as sessões, de acordo com a própria
estrutura do PTr (ANEXO A). Para Alves-Mazzotti (2006), a utilização de múltiplas
fontes de informações é o que possibilita uma visão holística do fenômeno estudado.
Os dados numéricos registrados pelos instrumentos, bem como os obtidos a
cada sessão por meio do registro do SUDS e do VoC (SHAPIRO, 2007; EMDR
INSTITUTE, 2017), foram também tomados como elementos de observação de
cada caso individualmente. Em seguida, serão apresentadas as informações
obtidas na avaliação final por AF, bem como os resultados comparativos dos
instrumentos utilizados nessas duas etapas avaliativas. Essa comparação objetiva
observar possíveis mudanças. A ênfase, porém, será dada às informações
qualitativas obtidas durante o processo psicoterápico com EMDR e ao seu final.
Quando necessário, foram acrescidas informações do Diário de Campo da
pesquisadora e do Caderno de Anotações Pessoais, assim como material advindo
de contatos por meio do WhatsApp entre pesquisadora e alguns dos participantes.
113

Algumas ilustrações das análises realizadas foram obtidas a partir do material de


áudio transcrito.
Como moldura para a análise, foram observados o próprio processo
psicoterápico, bem como as mudanças de experiência subjetiva, mudanças de
comportamento e/ou alívio de sintomas, incluindo os físicos. Também foram
observados informações qualitativas constantes e os pontos críticos encontrados
em todos os registros, em especial, nos de cada AF.
As perguntas realizadas no processo avaliativo indicam a interação da
pesquisadora com os pesquisados e se basearam em sua bagagem experiencial e
nos pressupostos que orientam sua própria forma de abordar o tema proposto
(MACEDO; KUBLIKOWSKI; SANTOS; 2004). As conversações e interações entre
pesquisadora e pesquisados também foram interpretados em significados a cada
encontro e coconstruídos.
Dessa forma, foi possível a existência de um movimento constante, segundo
Stake (2000), entre as questões propostas para a realidade, da realidade para a
literatura, desta para os dados, até que se atingissem pontos de uma
compreensível organização.
A intenção é de que o foco no estudo de cada caso oportunizasse a
observação de características específicas ao examinar a unicidade, a
complexidade e a interação com condições prévias e presentes (STAKE, 2006).
Segundo Stake (2005), o pesquisador deve manter as informações em mente em
uma dança de aproximação e distanciamento de cada caso. Portanto, ao final de
cada estudo de caso individual, seguindo as instruções e o modelo desse autor nas
folhas de trabalho para a análise do estudo de caso instrumental (STAKE, 2006),
foram registradas as principais informações que colaborariam para a compreensão
do conjunto dos múltiplos casos estudados. O modelo desse registro, totalmente
adaptado por esta pesquisadora para a presente investigação, encontra-se no
Apêndice H, intitulado “Notas sobre a leitura do relato de caso”. Um processo
subjetivo que tem como base sua experiência prévia e o senso do que vale a pena
ser destacado.
O segundo movimento de análise se inicia a partir da revisão dos casos,
propõe a observação dos temas em comum entre eles, mas também o que tem
particular em cada um deles. O objetivo é obter a narrativa do conjunto dos casos
múltiplos, compreendendo que o todo é maior do que a soma das partes (STAKE,
114

2006), tal como preconiza o paradigma sistêmico (VASCONCELLOS, 2002). Para


Stake (2006), esse todo é apreendido pela revisão dos casos, de onde são
retirados os temas e as questões, para que possam ser formadas as suposições
sobre o conjunto, compreendido um todo em seu contexto.
O conceito do conjunto dos casos estudados (STAKE, 2006) pode parecer
um pouco confuso em uma primeira leitura. Contudo, essa confusão parece
decorrer da complexidade da análise do material obtido. Após o estudo de cada
caso, Stake (2006) apresenta alguns passos adicionais que incluem folhas de
trabalho, que, além de facilitar a sequência da análise do conjunto, funcionam
como modelos de enquadramento para a compreensão desse conjunto.
Dessa maneira, o foco final do presente estudo é o conjunto formado por
todos os casos apresentados individualmente e, segundo Stake (2006), cada caso
precisa ser compreendido em profundidade, para só então dar atenção ao
conjunto. Questões que atravessam os casos contribuem para a compreensão do
todo, na observação do que é diferente e do que é similar a respeito de cada caso.
Nesse processo, observou-se mais a forma como os problemas foram
manejados, do que a eficiência ou a produtividade dos resultados. O que Stake
(2006) considera como conjunto possui vida própria, e o estudo instrumental
coletivo é a observação dessa vida em situações múltiplas. Por conseguinte, esse
conjunto foi descrito subjetivamente e interpretado a partir do paradigma sistêmico
e da fundamentação teórica (ver segundo círculo de fora para dentro do desenho
gráfico). No segundo movimento de análise, não há o objetivo de comparar os
casos entre si, mesmo quando isso é inevitável por parte do leitor (STAKE, 2006),
mas de compreender o seu conjunto.
O enquadramento da análise do material do conjunto de casos estudados
nesse segundo movimento foi sendo desenvolvido e completado na medida em
que o estudo progredia e as relações entre os diferentes elementos emergiram na
análise dos dados (STAKE, 2006).
Para Stake (2000), é fundamental em um estudo de caso instrumental
indicar reflexões de pesquisadores e teóricos relativas aos casos estudados,
questões críticas conhecidas que permitam o exame das complexidades de cada
caso para uma compreensão sistêmica. Berthoud (2000) também afirma que
“pesquisador e objeto pesquisado, em muitos momentos, durante o processo da
pesquisa, confundem-se e influenciam-se mutuamente na dinâmica dialética de
115

conhecer e se dar a conhecer [...]” (p. 106). Sendo assim, a relação terapêutica
estabelecida também foi considerada na análise dos resultados.
A análise das informações obtidas ao longo dessa investigação em cada
uma de suas etapas seguiu também o paradigma sistêmico, tal como proposto por
Macedo, Kublikowski e Santos (2004). Segundo essas autoras, o paradigma
sistêmico permite observar a experiência por meio da complexidade,
intersubjetividade e imprevisibilidade. Coadunam com a proposta de Stake (2006)
da investigação de caso coletivo, ou de múltiplos casos, para que os estudos de
caso sejam observados em seu contexto individual e no contexto ampliado ao final.
Dessa forma, a pesquisadora deu seu próprio significado nos movimentos da
análise dos dados com o objetivo de transformá-la em narrativa desse conjunto de
casos selecionados para essa investigação. Sem qualquer pretensão de considerá-
la correta ou verdadeira, mas como compreensão do fenômeno investigado.
Embora Stake (2006) não recomende a transcrição como parte fundamental
para a análise de casos múltiplos, optou-se por transcrever todos os 71 encontros
presenciais realizados durante essa investigação. De acordo com Macedo,
Kublikowski e Santos (2004), a transcrição colabora no processo de clarificação
dos dados obtidos, e esse material foi consultado de forma eventual, não como
objeto de análise em si. Essa consulta visou a reproduzir a fala literal do
participante ou da pesquisadora, na análise dos casos individuais ou no conjunto
deles.
Para a análise do material que compõe o conjunto dos casos estudados,
houve a busca de temas principais e a consequente formulação de afirmações que
podem indicar a particular importância desse estudo, segundo Stake (2006). Ao
final do segundo movimento de análise, foi possível construir uma narrativa a
respeito desse estudo de caso instrumental coletivo, que indicou o que se
aprendeu nesse percurso e corresponde ao capítulo de Discussão deste trabalho.
Ao final, organizou-se os dados analisados em uma espécie de síntese
interativa do que foi feito para apresentar algumas das respostas e destacar quais
considerações podem ser traçadas com alguma confiança, além daquilo que mais
precisa ser estudado. Mesmo quando um estudo é bem-feito, as perguntas da
pesquisa não serão respondidas em sua totalidade (STAKE, 2006) e novas
questões vão aparecer.
116

5.6 CUIDADOS ÉTICOS

Em função de enlutados apresentarem vulnerabilidade, como afirma Franco


(2010), este estudo seguiu estritamente as exigências éticas de pesquisa
envolvendo seres humanos. O projeto de pesquisa após ser submetido ao Comitê
de Ética e Pesquisa da PUC-SP foi aprovado pela Plataforma Brasil, sob o número
do parecer 257702, de acordo com o registro CAAE 85379318.0.0000.5482.
Tais princípios éticos estão baseados nas Resoluções 466/12 e 510/16 do
Conselho Nacional de Saúde do Ministério da Saúde (MS, 2012, 2016). Também
estão de acordo com as exigências do Código de Ética do Conselho Federal de
Psicologia (CFP, 2005), garantindo-se o sigilo em relação aos dados de cada
participante, inclusive no que tange o uso de imagem e voz. Em função do tema
pesquisado com os participantes estar relacionado a conteúdo que envolve
sofrimento, esta pesquisa foi avaliada como tendo risco mínimo.
Além disso, todos os cuidados necessários foram implementados para não
fomentar a maleficência da pesquisa. A pesquisadora se comprometeu a prestar
toda e qualquer assistência que se fizesse necessária no decorrer da investigação,
sem custo para o participante. Ao encerramento de cada processo psicoterápico foi
realizada avaliação sobre a necessidade de sua continuação, tendo sido realizados
todos os encaminhamentos necessários.
Considera-se que o conhecimento produzido por meio desta pesquisa implica
potencial benefício para o uso do EMDR como abordagem psicoterapêutica em
situações de luto, tanto para os pacientes quanto para a comunidade profissional de
EMDR e de luto, no Brasil e no mundo. No entanto, a pesquisa poderia desencadear
reações significativas nos participantes em função de acessar memórias difíceis em
relação a uma perda. Esse risco foi minimizado em função de a pesquisa envolver
uma psicoterapia específica para cuidar desse tipo de memória, com comprovação
de seus efeitos benéficos na redução ou completa extinção dos aspectos não
adaptativos de uma memória traumática, com resultados significativos de redução
de sofrimento. Além disso, a ampla e robusta formação da pesquisadora possibilitou
o manejo de situações de maior vulnerabilidade que surgiram durante o processo
psicoterapêutico, com habilidades adequadas para o manejo clínico das mesmas.
As decisões tomadas nesta pesquisa se apoiam em Beck e Konnert (2007),
que investigaram os efeitos da participação de enlutados em pesquisas que
117

abordam suas experiências. Esses autores concluem que estas apresentam efeitos
benéficos mais significativos do que os riscos potenciais, desde que respeitados os
princípios e cuidados adequados em relação à ética da pesquisa. Esses efeitos
benéficos também puderam ser observados por Silva (2009) e Pessoa (2017),
mesmo com as dificuldades encontradas para o recrutamento dos participantes.
Por ocasião da avaliação final da pesquisa, os participantes que tiveram
indicação técnica de continuidade do processo psicoterápico relacionado ao luto,
bem como aqueles que manifestaram vontade de continuar o trabalho com outros
objetivos, receberam encaminhamento para atendimento por profissionais treinados
e habilitados que compõem a rede de trabalho da pesquisadora, de forma gratuita,
pelo período de um ano, em periodicidade semanal.
CONFLITO DE INTERESSE
119

6 CONFLITO DE INTERESSE

A pesquisadora registra conflito de interesse por ser psicoterapeuta de EMDR


praticante, dedicada à formação e ao treinamento de profissionais nesta área.
Também declara conflito de interesse por ser coordenadora do API/Vitória, onde os
participantes serão recrutados. Contudo, essa atividade não interferiu nos resultados
da pesquisa, pois o grupo não tem caráter psicoterápico, sendo uma rede de apoio
ao luto, o que facilita o acesso aos dados e às informações necessárias para o
convite dos possíveis participantes. Para tornar este processo mais transparente,
tomou-se o cuidado de solicitar a autorização para o acesso e a utilização dos dados
dos participantes à coordenadora nacional do API, Gláucia Rezende Tavares
(ANEXO A).
APRESENTAÇÃO
DOS CASOS CLÍNICOS
121

7 APRESENTAÇÃO DOS CASOS CLÍNICOS

De acordo com o planejamento metodológico, cada caso será apresentado


individualmente, de acordo com o Desenho Gráfico do Estudo de Caso Instrumental
Coletivo apresentado no capítulo sobre o Método. Todos os casos serão
destrinchados a seguir. Assim, cada fatia do círculo deste desenho gráfico,
representadas na imagem abaixo (Figura 2), será apresentada na sequência de P1 a
P6, como parte do planejamento metodológico.

Figura 2 – Elemento Participantes do Desenho Gráfico


do Estudo de Caso Instrumental Coletivo
Fonte: Autora

A seguir serão apresentados a sequência de ações, que corresponde à “flor”


que compõe o desenho gráfico (Figura 1– Desenho Gráfico do Estudo de Caso
Instrumental Coletivo), imaginando-a girar para cada caso. Isso quer dizer que, após
consentir em participar da pesquisa, cada participante passou pela Avaliação Inicial,
na qual foram usados os Instrumentos para avaliar possíveis critérios de exclusão,
bem como subsidiar o estabelecimento dos objetivos do tratamento com EMDR para
a elaboração do PTr. Seguindo a sequência das “pétalas da flor” da Figura 1, que
representam a estrutura do tratamento, foram realizadas entre 8 e 10 sessões de
122

EMDR com cada participante e, uma vez encerrado o processo, foi realizada a
Avaliação Final.

Figura 3 – Elemento Sequência de Ações do Desenho Gráfico


do Estudo de Caso Instrumental Coletivo
Fonte: Autora

Cada caso tem uma mesma sequência de apresentação, iniciando-se com o


Relato de Caso, o participante e o EMDR, para encerrar com a Avaliação Final. Na
sequência, registram-se algumas informações acerca do participante, a demanda
inicial, as principais informações coletadas no período de avaliação inicial, o PTr, um
breve relato das sessões e as observações registradas no período de avaliação ao
final do processo psicoterápico.
Com objetivo de dar maior fluidez ao estudo de cada caso, as informações
relacionadas ao uso de EMDR, incluindo a sequência das sessões, aquilo que foi
trabalhado em cada uma, informações como ICES, SUDS, VoC, assim como todos
os elementos pertinentes, em um formato conhecido dos terapeutas de EMDR,
estão compilados em apêndices referidos em cada caso.
Por ser um estudo de caso clínico, sem o objetivo de comparação
quantitativa, os registros das informações obtidas nos instrumentos aplicados nas
avaliações inicial e final estão compilados também no formato de um arquivo à parte,
no qual o leitor poderá avaliar eventuais mudanças. Esses resultados referem-se à
aplicação do HGRC, BDI, DES-II. Essas informações estão disponíveis nos
123

apêndices criados para esse fim, cujas referências estão inseridas em cada estudo
de caso.

7.1 PARTICIPANTE 1

7.1.1 Relato do caso

P1, 52 anos, divorciado, microempreendedor, com pós-graduação, procurou


ajuda pela morte do único filho aos 19 anos por suicídio por arma de fogo em 2016.
Segundo ele, o filho não deu quaisquer sinais de que estava em sofrimento.
Participou de uma única reunião do API no final do mesmo ano de sua perda,
relatando que essa não foi uma boa experiência, pois ouviu muitos outros relatos
tristes. No entanto, continua participando do grupo do WhatsApp, observando os
comentários, e foi por meio dele que tomou conhecimento da pesquisa.
Na AI não apresentou quaisquer contraindicações que o excluíssem da
pesquisa. Pelo contrário, chamou a atenção a normalidade de suas respostas. Em
todo esse instrumento, relatou apenas o surgimento de dores de cabeça após a
morte do filho e a presença de sonhos. Muitos sonhos e pensamentos
persistentes/obsessivos/intrusivos, difíceis de se livrar e relacionados aos
pensamentos constantes em relação ao filho.
Segundo ele, o objetivo de ter decidido ingressar na pesquisa é se livrar da
dor, bem como compensar a oportunidade de ter ido à reunião do API. Refere-se
também a esquecer um pouco da situação, pois tem pensamentos recorrentes da
hora em que acorda à hora em que dorme. O principal é a saudade.
Nascido em Portugal, foi criado no Rio de Janeiro com os pais, onde se
casou. Viveu em outros países e voltou para o Rio, mas, não tendo se acostumado
mais a viver lá, mudou-se para Vitória há dezoito anos. Um dos maiores motivadores
era porque o Rio de Janeiro era uma cidade muito violenta e queria um lugar mais
tranquilo para criar o filho, que tinha dois anos de idade quanto se mudaram para cá.
O divórcio aconteceu quando o filho tinha entre dois e três anos e afirma que
depois desse período perdeu contato com a mãe dele e acredita até que ela nem
saiba da morte do filho. Contou com o apoio da própria mãe para criar o filho.
“Não percebi que isso ia acontecer, então, a culpa é constante.”
124

Relata que, quando tinha onze anos de idade, viu uma pessoa assassinada e
que não esqueceu do fato até hoje. Contudo, na avaliação de alvos do passado,
nega qualquer perturbação em relação a essa memória.
No início do processo de luto, sentia remorso por estar se divertindo. Traz
coisas positivas, mas não muda o resultado. Em relação a isso, refere “pô, eu tô de
luto, eu não tenho de ficar me divertindo. Eu sentia muito essa... essa... essa
angústia, né?”
Quando indagado a respeito de como ficou com o processo de avaliação,
relata que saiu do consultório mais triste, com mais lembranças.
Como estratégias que funcionam para lidar com situações difíceis, relata que
costuma pensar antes de agir e que exerce o controle de suas emoções. Essa
informação pode ser retratada pelos resultados de DES-II e BDI.
Durante o período de avaliação, demostrou autocontrole emocional,
informação também observada pelo HGRC, no qual a subescala de Desorganização
não o representa praticamente em nada, apenas com um item assinalado, referente
à memória, aparentemente, nada significativo. O item que mais chama atenção na
subescala de Desespero é o fato de ele se sentir incapaz de enfrentar essa
experiência, ao mesmo tempo em que indica um Crescimento Pessoal não muito
representativo. Também chama a atenção o escore de DES-II, de tão baixo que é,
indicando que está no presente, aqui e agora.
Como qualidades que o ajudam a lidar com a raiva, informa ser calmo e
ponderado. Refere receber apoio da mãe, da namorada e dos irmãos.
Como estratégias que funcionam para lidar com situações difíceis, informa
pensar antes de agir e controlar as emoções. Como qualidade que ajuda a lidar com
a raiva, informa ser calmo e ponderado. Pessoas que lhe dão apoio nos momentos
difíceis, mãe, namorada, irmãos.
O procedimento de apresentação da pesquisa, concordância e assinatura do
TCLE, bem como avaliação inicial com todos os instrumentos previstos no método
foram realizados em dois encontros presenciais, seguidos de 10 sessões de EMDR.
O PTr foi construído na sessão 1, oportunidade em que foi realizada a instalação do
Lugar Tranquilo (LT) e dado início do trabalho de processamento do primeiro alvo.
Os três alvos identificados foram trabalhados nas sessões de 1 a 7, sendo que na
sessão 8 foi realizada a projeção de futuro e a instalação dos resultados da terapia
por meio de um desenho, que se seguiu da AF.
125

7.1.2 P6 e o EMDR

Durante a fase de preparação, conseguiu fazer a instalação do lugar tranquilo


de forma satisfatória. Produziu saudosismo e relaxamento. A metáfora escolhida foi
TV e os MB’s foram os táteis, seguidos dos visuais.

Quadro 4 – Plano de Tratamento P1


Fonte: Autor

7.1.3 Sessões

Sessão 1

Como foi o primeiro participante, a decisão tomada relaciona-se à utilização


dos MB’s visuais. Traz uma sensação maior de controle para a pesquisadora em
relação ao que está acontecendo, bem como permite conhecer mais a fundo a
experiência do participante em relação ao processamento.
Relatos entre a série de movimentos alternam de pensamento concentrado na
memória disfuncional no fato a não se concentrar, o que faz parecer que ele está se
adaptando ao processamento. Entre uma das séries de MB’s, mencionou que “talvez
126

eu pudesse ter conversado com ele, embora ele fosse muito fechado. Deveria ter
obrigado”. Apresentou relaxamento ao final da sessão.
Último SUDS medido 9. Chegou em 8. Ao final da sessão, mencionou
relaxamento.
Sessão incompleta.

Sessão 2

Relata ter saído mais triste do último encontro e que não sonhou ao longo da
semana, “sempre fica mexendo num assunto que realmente me é doloroso”,
segundo P1. Retomando o processamento, recorda-se de que ninguém percebeu
que havia alguma coisa errada. Entre uma das séries, disse: “É... ah, eu... acho
assim, me surgiu... Um pouco mais forte, é, um sentimento até meio que ele foi até
meio ingrato”,com o desejo de que fosse tudo diferente.
Em seguida, relata que surgiram algumas outras recordações do período final,
da vida dele, de quando ele era criança, e um pouquinho mais da vida adulta.
Refere-se à dificuldade de acessar essas memórias, chegando a verbalizar que
prefere não tê-las. Lembra do sofrimento que foi causado em todo mundo, em
especial na mãe.

É muito difícil lembrar...É...Vou te falar que é muito doloroso. (voz chorosa).


[...]Não tem memória...Agradável. Tem situações boas, claro, lógico, mas,
não é agradável lembrar, porque... (voz chorosa). [...] Porque tem a perda.

Segundo P1, não consegue sentir esses momentos como positivos em função
da perda. Mas chega ao final da sessão com um pouco mais de tranquilidade e sem
a sensação física na garganta, embora cansado.
Menciona, com pesar na voz, que o filho é um projeto de vida que foi
abandonado.

Sessão 3

Na reavaliação, informa que sonhou com ele naquele dia e depois, que
acordou um pouco emocionado e está bem doído como antes. A ambivalência entre
a presença e a ausência se faz marcante.
127

É que fica uma briga entre o consciente e o subconsciente. O consciente


sabe que não tá mais ali, mas o subconsciente vê ele, como se tivesse
mesmo... Como se realmente, ele tivesse ali. Então, fica aquela briga, e eu
acabo acordando, porque acho que fica brigando.

Relata a imagem de quando o encontrou, “sinto até cheiro de sangue”. Não


consegue concentrar tanto na imagem e o processamento foi para o hospital,
indicando que este está acontecendo. Daí veio uma sequência de desastres. Relata
que a parte mais difícil do hospital foi quando me chamaram para doar os órgãos.
Dores físicas surgem, no ombro e na garganta, saindo do pensamento, procurando
outras coisas. Relata uma acomodação do sentimento, vindo a seguir para o dia a
dia. A imagem está lá, quieta. Menciona que parece ter uma proibição de sentir as
coisas, inclusive, de ter alívio.
Entre esta e a próxima sessão, a pesquisadora ponderou usar o
entrelaçamento cognitivo, mas ele só deve ser usado quando o processo está
paralisado, o que não era o caso. Muita dificuldade pela dor e de testemunhar esse
sofrimento.

Sessão 4

Relata ter saído na última sessão muito mexido e teve sonhos brincava: “eu,
ele e minha mãe, brincadeira boba, aí acabei acordando depois. Percebe o coração
disparado quando viu um garoto na rua ‘igualzinho ao filho’”. Pensamentos
recorrentes continuam, pois a lembrança dele é constante.
Ao retomar o processamento, o pensamento fica solto, e menciona que o que
sente não é no corpo. “Não é dor física, é dor mental”. Em algum momento
expressa, que

me sinto culpado, mas... É, mas não tão culpado. Porque eu não sabia, foi
uma, como é que vou te falar... Foi uma surpresa. [...] Porque se eu tivesse
oportunidade, eu teria feito, com certeza, alguma coisa, mas, eu não tive
oportunidade.

E relata que a culpa “limita a minha alegria”. Ao final, apresenta SUDS6, sinal de que
o processamento de fato está caminhando.
128

Sessão 5

Na semana passada,

Acho que foi a primeira vez que consegui chegar no carro, sem... Sem parar
pra respirar um pouco. [...], respirar um pouco que eu digo, é chorar mesmo
tá? (riso).”

Outra coisa também, um pensamento que tem me surgido... De forma


recorrente, eu não acho que seja muito agradável, não gosto muito,
mas...Eu tô achando assim, é mô culpado de tudo mesmo, foi o [filho]
mesmo. [...]Ele era o único que podia impedir.

Antes de retomar o processamento, P1relata que “no dia a dia tá menos


barulhento”. Retomando o processamento, as memórias o levaram de volta “ao que
ele fez, ao hospital, ao necrotério.”

Sessão 6

Na última sessão, refere-se ter sido muito difícil, tendo ficado sonolento em
demasia. Relata ter tido uma semana tranquila, mas com SUDS residual 9,5,
embora relate que “talvez eu não lembre tão frequente... e quando eu lembro, eu
não fico tão agarrado aquele... no pensamento. Diz que no último sábado foi a um
evento e até se divertiu “um pouquinho!”

Dra. [T], eu nunca tive expectativa de que ah, resolvi o meu problema. [...] É
por toda a vida. Era só uma, é qualquer alívio, qualquer coisa eu possa
dizer, poxa melhorou um pouco… Pra mim tá excelente. [visivelmente uma
crença limitante].

Ao longo do processamento, foi sentindo um pouco mais de calma, com o


pensamento solto.

Sessão 7

Relata ter experimentado uma semana tranquila, referindo-se à penúltima


como muito difícil, tendo demorado um pouco a se estabilizar. O que hoje mais o
perturba é a ausência. E expressa que,
129

Eu não, até não penso muito mais sobre o...Aquele momento do, da
chegada em casa, em ter encontrado a situação. O que me...Perturba mais
é o, a saudade, é o dia a dia, é eu ir numa festa e ele não tá junto... O
encontro não tá, e no restaurante não.

Eu, ele era um menino normal... Eu tenho foto dele, uma hora vou trazer pra
você, se vai ver um menino normal.

Me incomoda. Não ter percebido, talvez não ter conversado um pouco mais,
não ter insistido em conversar, não ter assim, eu falava com ele, eu
conversava, mas ele “não, tá tudo bem, tá tudo tranquilo.” A frase dele, “não,
tá tudo tranquilo pai”. Então, eu, quando ele tava assim meio triste, eu
achava que era problemas é...Dá adolescência, relativos a adolescência,
crescimento, é, normal né, todo mundo tem

Sessão 8

Na sessão 8, menciona a passagem de Finados, sempre uma data


complicada. Segundo ele, tem “percebido uma mudança lenta, tão suave que não
consegue dimensionar”, e considera que o momento em que chegou em casa “está
pacificado, tá resolvido”.
Nessa viagem ao Rio, visitou o cemitério, o qual frequenta de seis em seis
meses. Considera ir lá em Finados foi um ritual, um momento de juntar a família.
Em algum momento da sessão, P1 pergunta: “Deixa eu te perguntar uma
coisa: sempre que você lidou com pessoas que… tentaram com suicídio, elas
sabem o que tão fazendo ou não?” e conversa um pouco sobre o assunto antes de
retomar o processamento, comentando que a memória está em um nível bem mais
suportável, SUDS5. Ao final da sessão, lembra-se de uma frase “Que a dor é
proporcional ao amor que a gente tinha pela pessoa [voz chorosa]”. Mesmo assim,
diz sair tranquilo da sessão.

Sessão 9

Relata que a semana foi “dentro da normalidade” e segundo ele,

Eu acho que assim, tá melhorando. É, já, já... Foi mais difícil, é... Acho que
eu tô me acostumando mais a viver com essa situação”. [...] Eu consigo não
ficar tão focado naquela, na angustia da perda, eu consigo é... É, desviar os
pensamentos para outros assuntos.
130

Observa que tem ficado mais paciente no dia a dia, inclusive para escutar
problema dos outros.
Embora o SUDS tenha sido o mesmo nas últimas sessões, é evidente que
mudanças continuam acontecendo. Durante o processamento dessa sessão,
observa sentimentos conflitantes de “raiva, tristeza, peso de não ter feito nada, de
não ter conseguido evitar”. Sempre com a presença da ausência.

É... É muito difícil, aceitar. Aceitar não, tem de aceitar, né. Mas, é muito
difícil conviver com essa situação. Então, é difícil pra mim, não ter
alternativa.

Na última sessão menciona que a semana foi tranquila e que está lembrando
um pouco menos do filho. Em contrapartida, já está preocupado com o Natal, data
difícil para ele.
Ao longo da semana foi em um aniversário e foi abordado por um conhecido. !
fiquei surpreso dele falar, porque normalmente as pessoas não falam.
A sequência de MB’s prossegue e, em um entrelaçamento terapêutico,
quando é perguntado [e o que você precisa para aprender a conviver com isso?] “ A
esperança. Estar aqui já é um passo!”
O processamento segue P1 até se acalmar.

7.1.4 Avaliação Final

Embora não tenha sido possível avançar no plano de tratamento deste


participante, tendo permanecido as 10 sessões na mesma memória-alvo, relativa ao
momento em que ele encontrou o corpo do filho, foram constatadas mudanças
qualitativas significativas. Ele mesmo observou que foi diminuindo o uso de lenço de
papel, que, em ritual próprio, colocava no bolso após o uso. Disse, de forma bem-
humorada, ter se surpreendido quando em casa não encontrou nada para jogar fora.
Em sua avaliação, informou que sempre foi cético em relação à psicologia,
por desconhecimento, e que se surpreendeu com os resultados. Após a quinta ou
sexta sessão, conseguiu ver resultados mais claros, considerando-se bem satisfeito
com o processo psicoterapêutico.
131

Em relação ao filho, observa que passou a dividir a culpa com ele e aprender
a conviver, que foi uma escolha dele e que fez o melhor que pode. Assim, precisa
levar a vida da melhor forma para si mesmo.
Como alguns exemplos de mudanças observadas, ter conseguido conversar
com a irmã sobre a morte do filho foi bastante significativo para ele, mesmo tendo a
clareza de preferir não fazê-lo por perceber que causa muito sofrimento para ela.
Nessa avaliação, constatou que tem sonhado menos do que antes, o que lhe
dá um grande alívio. Mesmo quando tinha sonhos bons com o filho, acordava
bastante emocionado em função da ausência. Também percebeu que tem dormido
melhor.
Percebe que, em sua vida diária, as lembranças estão mais afastadas,
mesmo que ainda não por todo o tempo, referindo-se à redução do desespero que
sentia. De acordo com suas palavras, passou a sentir “a dor domada!” Com isso,
consegue se divertir mais em eventos sociais, momentos em que se percebia
“bastante deprimido”.
Também na esfera social observou uma mudança da aspereza que
desenvolveu logo após a morte do filho, quando ficou impaciente para ouvir outras
pessoas, observando-se agora mais calmo e de forma mais sociável.
Claramente, ainda há questões para serem trabalhadas, e a recomendação
da pesquisadora é que ele dê seguimento ao tratamento. Ele concorda com essa
recomendação, afirmando que o principal para ele é trabalhar ainda com a saudade
e a ausência que o atormentam diariamente. Contudo, naturalmente, explana que
precisa de um tempo para ver o que se consolidou dessas mudanças.
Na avaliação final, foram observadas redução de perturbação em relação aos
pensamentos recorrentes (SUDS 7) e no alvo de não ter percebido alguma coisa de
errado (SUDS 6). Em relação ao momento em que encontrou o filho, relata SUDS 5,
informando que “está beeeem mais leve”. Mantém perturbação máxima para as
outras memórias levantadas, com exceção das mortes que testemunhou na infância,
que permaneceram com SUDS 0, deixando claro que não são memórias
alimentadoras.
P1 encontrou uma forma bastante peculiar de avaliar os resultados de seu
processo psicoterápico: o número de papéis que levava no bolso para casa após
cada sessão. Uma forma prática e objetiva de relatar sua percepção de melhora.
132

Pode ser que focar na questão da saudade traga-lhe resultados ainda


melhores.
Ao mesmo tempo em que as dificuldades remanescentes apresentadas por
ele estiveram relacionadas à ausência, alvo que se manteve no mesmo nível de
perturbação do início do tratamento, trabalhar com a memória mais difícil, e sem
dúvida alguma traumática, possibilitou inúmeras mudanças qualitativas em sua vida;
mudanças observadas também nos registros dos instrumentos, conforme o
Apêndice I.
Ao revisar as sessões, observa-se que houve uma concentração da SF
descrita como “nó na garganta”, em contraste com uma sensação generalizada
descrita na Sessão 1 de EMDR.
Para ele, o maior desconforto, além da ausência,

eu sempre saí daqui muito cansado. Principalmente, no início. Eu não sei se


é por causa da terapia, ou por causa do assunto, mas realmente causa...
[...] Sono e vontade de ir pra casa dormir. Não sei se acontece com todo
mundo (risos), mas comigo acontece.

Em relação aos gráficos comparativos das avaliações iniciais de P1, podem


ser consultados no Apêndice J.
Embora não atendesse a qualquer critério de depressão, o resultado de BDI
final foi três vezes menor do que o inicial, sendo que o resultado do DES-II atingiu
níveis mínimos, que podem ser desconsiderados.
Em relação ao HGRC, na subescala de Desespero, os itens “eu tenho pouco
controle sobre a minha tristeza”, em nível de que o descreve pouco bem, e “sofro
com a minha solidão”, em nível de descrevê-lo bem, permaneceram inalterados.
“Parece que estou em choque”; “Eu sinto um peso no meu coração”; “Acredito que
nunca mais vou ser feliz de novo”; “Tenho dificuldade em aceitar a permanência da
morte”, “Sinto-me sem esperança em diferentes níveis iniciais”, todos eles passaram
a não representá-lo. Trata-se de um bom indicativo do surgimento da esperança,
confirmado pela redução da afirmação. Houve redução significativa do sofrimento
relacionado à morte do filho, embora ainda não tenha “zerado” e mesmo diminuindo
um pouquinho que seja, ainda chora com frequência.
Na subescala Desinteresse/Indiferença, a afirmação que ele evita carinho já
foi mais verdadeira no início, passando para o nível de descrevê-lo apenas um
133

pouco bem. Todas os outros itens que ainda indicavam um certo desinteresse
chegaram nos níveis de inexistência do comportamento, o que indica uma grande
melhora/mudança.
Em relação à subescala de Comportamento de Pânico, esta também
apresentou diminuição da representatividade da maior parte dos itens que a
representam. Sentir-se abalado deu uma reduzida, mas o descreve razoavelmente
bem, ainda refere preocupação excessiva e cansaço frequente. Os outros itens
relacionados à taquicardia tensão muscular de dores de cabeça, medo e susto
deixaram de existir.
A subescala de Culpa e Raiva apresenta ainda apenas amargura e mágoa em
níveis que o descrevem pouco bem, e pelo que foi registrado, a raiva não estava
presente no momento da avaliação.
A subescala de Desorganização, não o descreve em nada atualmente.
Em relação ao Crescimento Pessoal, considera-se uma pessoa tolerante
consigo mesmo e que perdoa facilmente, nos mesmos níveis iniciais de descrevê-lo
razoavelmente bem. Atualmente, apresenta uma vida com mais perspectivas agora,
com mais esperança no futuro e com mais dias bons do que ruins, em níveis quase
máximos, representando uma mudança visível em relação à avaliação inicial. Com
menor intensidade, sente-se como uma pessoa melhor, bem como se preocupa com
os outros.
A partir dessas informações coletadas, é possível afirmar que, em termos
qualitativos, o EMDR levou a P1 uma série de mudanças em seu comportamento,
inclusive físicas, com um bom crescimento pessoal. Contudo, o sofrimento em
relação à ausência deve ser melhor investigado.

7.2 PARTICIPANTE 2

7.2.1 Relato do caso

P2, 38 anos, viúva, ensino superior completo, tem duas filhas de seu
casamento com o marido que morreu por suicídio em 2012 por precipitação de lugar
elevado. P2 participa das reuniões do API desde então, com frequência intermitente
ao longo desses anos. Sua experiência com psicoterapia se deu logo após a perda,
quando buscou auxílio profissional para enfrentar as dificuldades apresentadas na
134

ocasião. Foi um processo curto, que envolveu a família, a saber, as filhas, a sogra e
a cunhada, possibilitando a reorganização familiar naquela ocasião. Razões
financeiras e sobrecarga de trabalho acabaram impedindo-a de seguir esse cuidado
consigo mesma. Ao longo desses mais de seis anos, pediu ajuda esporádica para si
mesma ou para as filhas, sem continuidade no processo psicoterápico pessoal.
Recentemente, retomou o atendimento das filhas com uma das profissionais da
equipe do API/Vitória, para conversar sobre o suicídio com elas, em especial, com a
mais velha. Aos 17 anos, ela agora se prepara para o vestibular. A filha mais nova,
de 10 anos, estuda e, recentemente, iniciou a terapia a pedido dela mesma para
tratar da morte do pai, após ter descoberto que ele morreu por suicídio.
Antes do primeiro encontro presencial, enviou mensagem via WhatsApp sobre
nova colocação profissional, pedindo que mudássemos o horário. Chega muito feliz
com essa conquista, esperada há muitos anos, que representa uma mudança
salarial e uma melhoria no estresse de trabalho. A única dificuldade é que vai ter que
viajar em breve e ficou combinado de fazer ajustes no horário para garantir os
atendimentos semanais.
P2 apresenta três perdas em diferentes etapas do seu ciclo vital, a mãe por
motivos de doença, há mais de 32 anos, o marido por suicídio há seis anos e meio,
e o pai por longo processo de adoecimento há dois anos e meio. Durante a
avaliação, chegou a minimizar seu sofrimento dizendo que acha que não precisa de
ajuda, dizendo querer deixar a vaga para quem precisasse mais do que ela.
Registrou por meio do instrumento AI o que gostaria de trabalhar na
psicoterapia com EMDR, em relação ao luto:

Acredito que o que me traz aqui não é somente a ajuda para aceitar a perda
do meu marido, mas o que esse conjunto de perdas reflete na minha vida. A
perda de minha mãe há mais de 30 anos me deixa insegura, a do meu
marido me fez ‘gente’ provedora e a do meu pai... foi onde eu senti mais
solidão.

Ao ser questionada o que a motivou a procurar ajuda psicoterápica


relacionada ao luto nesse momento da vida, em especial em meio às mudanças
positivas em sua vida profissional, P2 fala de sua motivação em relação a cada uma
delas. Em relação à morte da mãe quando era ainda muito pequena diz ter gerado
“[…] muita da minha insegurança, ansiedade [...] de não ter um porto seguro em
135

casa. Nunca tive.” Em relação à do marido, acredita que já o perdoou, dando a


entender que hoje não é um de seus maiores problemas, em especial, por sentir que
essa perda a fez crescer como pessoa, mãe e profissional. Em relação ao pai, relata
ter sido “...a hora em que senti mais solidão. Tipo assim, ‘caramba, minha mãe não
tá aqui, meu marido não tá aqui, meu pai não tá aqui, e agora?’” Nesse momento,
lembra-se de que próximo à perda do pai, perdeu também um tio. Por isso reafirmou
que seu problema atual em relação ao luto é o conjunto das mortes.
Durante a AI, P2 menciona ter apresentado pensamentos suicidas logo após
a morte de seu marido e relata que os seus maiores problemas surgiram depois
dessa perda, a saber: sobrepeso, excesso de atividades físicas, ansiedade
excessiva e insônia. Nessa ocasião, informa que faz uso de bebida alcóolica de
forma esporádica nos fins de semana. Como estratégias que a ajudam a lidar com
situações de estresse, informa que há variação entre excesso de comida ou de
atividades físicas, dependendo do momento.

[...] desconto tudo na comida, se eu fico nervosa, começo a transpirar, me


dá fome, eu pego um doce [...].

[...] à noite... começo a planejar um monte de coisas que às vezes eu não


vou conseguir fazer.

[...] principalmente depois que [marido] morreu... que eu não sou mesma
pessoa! Assim, eu não me vejo diferente... é... não me acho feia, não é nada
disso não. Mas eu, eu não consigo reconhecer os traços de mim... de... sete
anos atrás.

Ao final do preenchimento da AI, revela um de seus principais disparadores–


se sentir sozinha – ao ter que responder a informação a respeito do contato de
emergência, dizendo de forma bastante emocionada “[choro] eu tenho pavor,
assim... [pausa]. Nunca sei quem colocar aqui! [...] sempre me incomoda, porque eu
sempre acho que eu tô sozinha”. Esse sentimento de solidão é reiterado quando fala
sobre suas três irmãs, com as quais sente que tem um contato superficial:“...todo
mundo fala, as quatro irmãs... serve pra nada! [...] pra que serve? Pra tirar foto, botar
no Facebook e falar que tudo é lindo?” e cantarola um trecho da música de Cazuza
“a solidão é pretensão de quem fica escondido fazendo fita”. Em algum momento,
menciona que essa solidão surgiu após a morte do pai, considerando um sentimento
136

curioso, uma vez que o pai nunca foi protetor, próximo ou exemplo de
comportamento. “Pelo contrário, eu é que tinha que tomar conta dele”.
Um outro disparador mencionado por P2 foi a respeito de uma situação
atípica que vivenciou quando há pouco tempo foi a um banco e precisou apresentar
uma certidão de óbito do marido, documento esse que não foi recebido, provocando
uma reação desproporcional de choro, que a deixou estarrecida e sem entender o
que se passou. Sua reflexão trouxe a seguinte fala:

Aí fiquei pensando, não sei se é porque era a certidão de [marido] aí mexe


aquilo tudo de novo, eu fico pensando muito se ele tivesse aqui, né, seria
tão bom... [...] eu tô muito feliz, mas eu tô também com essa saudade
assim, que se ele tivesse aqui ia ser bem mais legal.

Ao preencher os instrumentos que faltavam para a avaliação, a emoção foi


tomando conta de P2 ao perceber o quanto está com “os nervos à flor da pele”,
ansiedade intensa e dificuldades de memória e atenção. Atribui esse comportamento
às muitas madrugadas de trabalho. Afirmou que sua percepção é de que isso
acontece há dois ou três anos, relatando não se sentir a mesma pessoa desde
então, tendo, inclusive, afetado seu trabalho. Lembrou que “papai morreu e não
pude me despedir dele”, deixando clara a conexão dessa perda com o início esse
segundo conjunto de sintomas relatados.
Segundo ela, as qualidades que a ajudam a lidar com a raiva são resiliência e
aceitação, e conta com sua sogra como grande apoiadora nos momentos difíceis.
Também menciona sua fé como importante fonte de recurso.
Conforme o identificado nesse período de avaliação, P2 relata três perdas
para serem trabalhadas, identificadas com as seguintes perturbações:
Morte do pai (2015) – SUDS 8
Morte do marido (2012) – SUDS 4
Morte da mãe (1986) – SUDS 6
O procedimento de apresentação da pesquisa e da concordância, a
assinatura do TCLE, bem como avaliação inicial com todos os instrumentos
previstos no método foram realizados em dois encontros presenciais, seguidos de 8
sessões de EMDR. O PTr foi construído na sessão 1, oportunidade em que foi
realizada a instalação do Lugar Tranquilo (LT) e dado início do trabalho de
processamento do primeiro alvo. Os três alvos identificados foram trabalhados nas
137

sessões de 1 a 7, sendo que na sessão 8 foi realizada a projeção de futuro e a


instalação dos resultados da terapia por meio de um desenho, que se seguiu da AF.

7.2.2 P2 e o EMDR

O número de perdas apresentadas e a mobilização que cada uma poderia


despertar no momento de construção de um PTr integral de todas elas, dado o
número limitado de sessões para a realização dessa investigação, pareceu prudente
à pesquisadora que elaborasse um plano passo a passo, para cada um dos alvos.
Mesmo levando em consideração que o PTr envolve as três perdas, esse
procedimento evitaria o levantamento de possíveis memórias disfuncionais e
perturbadoras que não pudessem ser endereçadas durante o tratamento no curto
período de tempo disponível, trazendo riscos para P2.
Assim, foi dado início às sessões de processamento, na sessão 1,
começando pela construção do PTr, relacionado à morte do pai, conforme pode ser
conferido no Quadro 5 abaixo. Ressalta-se que em comum acordo com a
pesquisadora, P2 escolheu trabalhar na ordem de perturbação com que percebia
cada morte, começando da maior perturbação para a menor.

Quadro 5 – Plano de Tratamento Inicial P2


Fonte: Autora
138

P2 não apresentou dificuldades para a instalação do Lugar Tranquilo/Seguro


(LT).
Ao iniciar o trabalho relacionado à morte do pai, P2 declara uma grande
cobrança porque estava trabalhando e não estava com ele no momento em que
morreu. Ao montar o ICES, P2 observa uma elevação do SUDS e uma intensa
reação corporal, sentindo o corpo tremer, “...esse bolo assim [...] no peito, parece
que tá, que tem alguma coisa presa”. Ao longo das séries de MB’s relata várias
imagens do pai em outras situações da vida, inclusive de quando P2 era criança, às
quais atribui afetos negativos, como se justificassem sua ausência. Também
menciona como justificativa todo o esforço que fez em torno da doença do pai e de
cuidar dele. Reconhece que o pai também deve ter tido dificuldades por ter ficado
viúvo, sem nenhum tipo de estrutura, e em uma cascata de flashes de memórias foi
observando o cessar das sensações corporais desagradáveis e a certeza de que fiz
o melhor que pude.

Dentro até da consideração e dedicação que ele tinha mesmo, com a gente,
comigo, eu acho até que assim eu fiz mais do que, assim uma pessoa com
o mesmo tratamento que teve dele faria. Eu nunca tinha pensado por esse
lado.

Ao final dessa sessão, observa com surpresa a ausência de perturbação ao


falar do pai, situação que antes lhe causava bastante desconforto, e completa com
uma certa incredulidade: “Nossa eu tô mais leve, não tem como eu ter pensado em
papai em tudo que a gente viveu e eu ter ficado mais leve [...]. E eu achava que não
tinha nada pra trabalhar [risos].”
Na sessão seguinte, relata ter se sentido muito bem após a sessão anterior,
rindo à toa e, nos momentos ao longo da semana em que lembrou do pai, percebeu-
se sem cobrança. Observou também que está um pouco mais “egoísta”, fazendo as
coisas mais voltadas para si, sem tanta preocupação com o outro. P2 nega qualquer
perturbação residual em relação à memória trabalhada, ao alvo da morte do pai, aos
disparadores e à projeção de futuro;
Portanto, após o encerramento do trabalho do primeiro dos alvos, com
apenas uma memória relacionada à morte do pai, sem outros alvos adicionais, foi
elaborado um desdobramento do plano inicial, com foco no segundo alvo, com duas
memórias-chave iniciais, acrescidas de mais uma ao final do processamento da
139

primeira, escolhida por P2 como a pior, de acordo com a Quadro 6. P2 escolheu


trabalhar primeiro a morte da mãe, mesmo tendo percebido um aumento da
perturbação em relação ao marido, avaliada na sessão 2, com SUDS 8, dizendo
“[…] acho que não quero mexer nele agora”.

Quadro 6 – Plano de Tratamento Desdobramentos II P2


Fonte: Autora

Em relação à morte da mãe, relata que o que mais a incomoda é não saber
ser mãe. P2 tinha apenas cinco anos quando a mãe morreu. Relata também que
não tem muitas memórias em relação a isso, com primeiro destaque ao comentário
de uma de suas tias, quando a viu se aproximar do caixão sorrindo “‘ah, ela riu
quando viu a mãe no caixão’... Como se eu tivesse rindo daquela situação brincando
ali”, fala indignada.
Uma outra situação que lembra é a maneira como soube a notícia da morte
da mãe. O pai contou para as irmã se ela percebeu que havia algo errado por ver
todo mundo chorar, quando então uma de suas irmãs mais velhas contou para ela.
Então, “ninguém me contou, eu descobri ali no meio da choradeira”. P2 não
participou dos rituais funerários, ficou na casa de uma amiga e, quando voltou para
casa, vivenciou muitas situações difíceis, incluindo o pai em outro relacionamento já
nos primeiros momentos do luto. Relata ter sofrido violência física por parte do pai
por ser uma “criança arteira”.
140

No momento de enquadrar a memória de acordo com o protocolo de EMDR,


relata um desconforto físico diferente às sensações físicas relacionadas à morte do
pai, referindo pressão na cabeça/na testa, associada à tristeza. Desde a primeira
sequência de MBs surgiram outras memórias na cadeia associativa relacionadas a
ter se sentido jogada de um lado para o outro, sem um lugar próprio, chegando à
conclusão de que essas experiências a tornaram insensível, refletindo no
relacionamento com as filhas: “[...] e aí isso me traz muito o meu relacionamento
com as meninas, né, de ter passado por tudo isso [...]”
Percebeu que naquela época não era insensível e que vivia um alto grau de
sofrimento, pois o pai logo casou novamente, período em que enfrentou vários
problemas com a madrasta. Morou com a avó por um tempo, e só depois foi morar
com todos os integrantes da família, incluindo essa nova mulher do pai. P2 tinha que
obedecer regras diferentes das de suas irmãs, sendo obrigada a dormir mais cedo,
quando ficava do quarto ouvindo todos conversarem, sentindo-se excluída. Nesse
período, pensava em como fugir desse sofrimento. Relata como se tornou
obediente, sem questionar e sem falar o que pensava, o que acredita que pode ter
colaborado para que ninguém soubesse o que se passava com ela.
Em uma das memórias emergentes do processamento, relatou uma complexa
relação com a comida na casa do pai.

[...] ela tinha uma geladeira no quarto dela, então a gente não podia pegar
nada que tinha lá. Papai comprava qualquer coisa pra gente... dentro do
quarto dela só ficavam as coisas gostosas que criança quer comer e quem
tivesse com ela, fazendo as coisas pra ela no quarto deles... enfim... papai
trabalhava muito e não via esse tipo de coisa. E, e, e isso é acho que foi
me... me congelando mesmo (choro).

Ao final, a perturbação cessou e as palavras sou capaz se tornaram bastante


verdadeiras, em uma espécie de retrospectiva relâmpago em uma das sequências
de MB’s com a mesma alegria observada ao final da sessão anterior. P2 menciona
também uma mudança em relação a conseguir expressar suas vontades nos últimos
tempos, após o primeiro processamento e, além de capaz, sentindo-se
“vitoriosa”[sic].
141

Porque de tanta coisa que eu vivi lá no passado aí fui, casei com [marido] a
gente tinha uma vida bacana, uma família bacana, mas aí aconteceu o que
aconteceu, eu fui lá no chão de novo, hoje eu tô, minhas filhas bacana, a
gente tá morando no apartamento, então assim, é claro que eu sou capaz,
não tem como não...

No intervalo desde a última sessão, na sessão 3, P2constata ter ficado brava


consigo mesma por ter sido boba, ao fazer tudo para agradar os outros, tendo
explodido inclusive com o namorado ao longo dos últimos dias. Traz uma
observação interessante de que não consegue mais beber, tendo um limite físico,
quando antes ficava até o final de qualquer festa. Observou ao longo desse intervalo
algumas imagens da mãe e se viu afirmando “sou capaz”, “tenho coragem”. Veio
também uma memória positiva com a mãe, o que chamou de “memória 1”.Essa
memória positiva surgiu com muita riqueza de detalhes, em cores vívidas:

[...] eu sentada no colo eu peguei um daqueles prato Duralex, daquele ver...


abóbora! Aí eu falei assim, ‘mãe é verdade que esse prato não quebra?’. Aí
ela falou assim ‘não sei, vamos ver? ’E tá! [imita o barulho do prato caindo
no chão] no chão, e o prato não quebrou, aí ela falou, ‘tá aí então, não
quebra’.

Apesar de negar qualquer perturbação em relação à memória trabalhada na


sessão passada, P2 relata um extremo desconforto que não sabia de onde era.
Enquanto, em algum momento, comenta que acabou indo parar no lugar onde o
corpo do marido fora encontrado por pescadores, o que a deixou bastante
perturbada. Mas relata que o mal-estar que estava sentido naquele momento não
estava relacionado a ter estado nessa praia ou em relação à morte do pai, dando a
entender que seria algo relacionado à morte da mãe. Após alguns momentos de
conversa, conseguiu-se chegar em mais uma memória-alvo, relacionada ao fato de
ela se sentir excluída na casa do pai, onde morava com ele, a madrasta e as irmãs.
Memória que já tinha surgido durante o último processamento, tendo passado
novamente pela falta de lugar que sentia, mesmo quando morou na casa da avó por
algum tempo, quando se acomodava entre três almofadas para dormir à noite.
Memórias que lhe parecem ser muito dolorosas.
Com a memória-alvo identificada, iniciou-se mais um ciclo de processamento
no qual P2 fez uma ligação do sentimento de solidão que essa lembrança lhe trazia
em relação a como se sentia após a morte do pai, ficando intensas ao final da
142

sessão a CP posso me defender e, junto a ela, a CP sou capaz. Ao final, parece ter
aceitado o que vivenciou, chegando a brincar com o tema “aceita, que dói menos?”
Encerrando a sessão 3, percebeu a mesma sensação da praia, para a qual recebeu
reforço com MB’s lentos.
No início da sessão 4, P2 relata que ficou bem, sem pensar muito no assunto,
também por ter viajado a trabalho, em lugar novo, com tarefas novas. Observa uma
mudança em relação às irmãs, passando a ver a situação com “outros olhos” (sic),
pois quando recebe notícias delas, não está “mais humana, mais calorosa” (sic),
mas já não sente raiva. Sem qualquer perturbação residual em relação à situação
trabalhada, ou em relação à morte da mãe, relatou não perceber nada a ser
trabalhado. Contudo, teve um insight em relação à compulsão alimentar,
relacionando-a à restrição que passava na casa do pai, mencionando “o frigobar da
madrasta”: “Eu não sei se tá atrelado ao fato do que me incomodava muito
[ênfase]era a gente ter essa limitação dentro de casa, né, de limitação não financeira
de não poder ter, mas de não poder ter acesso”.
Com isso, começou a compreender os momentos em que teve vontade de
comer por impulso e não por fome, conseguindo se controlar ao longo da última
semana. Acredita também que pode ser em função do processo vivenciado na
psicoterapia, por perceber que tem se observado mais. Inclusive, reitera que “eu
nunca mais fiquei de fogo de beber, de nada. É uma tarde de vinho, é uma
cervejinha... Aí... eu não quero mais não”.
Em relação ao que nomeou de compulsão alimentar, relata que passou a
acontecer após a morte do marido. Acatou a sugestão de observar esse
comportamento e passar para o próximo tema, uma vez que, segundo ela, não
percebe mais nada para trabalhar em relação à morte da mãe. Assim, focando na
terceira perda, surgiu o desdobramento do PTr para esse alvo, inicialmente
identificado com o de menor SUDS, segundo P2, como sendo aparentemente a de
menor relevância. Verifica-se um maior número de memórias perturbadoras
identificadas, no PTr, em comparação aos outros alvos, como pode ser conferido na
Figura 4. Nesta figura, o PTr desse alvo é apresentado completo, com todas as
memórias relacionadas a esse tema que surgiram nas sessões em que foi
trabalhado. A mobilização apresentada por P2 ao falar sobre a morte do marido, não
permitiu avaliar a projeção do futuro do PTr.
143

Quadro 7 – Plano de Tratamento Desdobramentos II P2


Fonte: Autora

O trabalho com a primeira memória relatada por P2, elegida a ser trabalhada,
mostrou-se bastante difícil em função da intensidade das reações, bem diferentes
das que tinham surgido nas sessões anteriores. Emocionada desde que começou a
falar do assunto, P2 pareceu ter sido inundada pelas memórias relacionadas à perda
do marido, às quais ela mesma mencionou estarem vindo em flashes, após ter sido
indagada sobre qual era a primeira, a pior e a última.
De fato, é difícil até mensurar a intensidade de cada uma, pois pareciam estar
interligadas, como em um filme, mesmo após seis anos e meio. Dois aspectos
merecem destaque, a saber: a forma como recebeu a notícia por meio de um policial
que estava com seu marido, e como foi acolhida no Instituto Médico Legal onde foi
reconhecer o corpo dele, logo em seguida. Esses fatos parecem ter sido
determinantes de uma situação compatível com uma espécie de choque/trauma, que
permaneceu com intensidade máxima até o início do processamento. Detalhes que
só um sobrevivente sabe o que significam. Por cuidados com P2 e toda sua família,
em especial as filhas, os detalhes que surgiram durante esse trabalho não serão
aqui expostos.
Em meio a um choro intenso, foi necessário mudar para a estimulação tátil,
para que o processamento não fosse interrompido, pois as imagens vinham com
144

violência nos estímulos visuais, segundo ela, que em algum momento sentiu como
se não estivesse em seu próprio corpo. Além de muito sono, o que poderia ser um
sinal de dissociação. Passando por questionar os motivos, e lembrar da vida que
tinham, observa a diferença em relação ao trabalho com outras perdas, quando
conseguia encontrar uma explicação. Ao finalizar a sessão, encontrava-se mais
calma, embora um pouco zonza, com a certeza de que a cabeça continuava
processando, e preferiu encerrar utilizando o LT.
Ao voltar na semana seguinte, chega com 30 minutos de atraso e relata que
saiu da sessão anterior muito angustiada e ainda chorou muito, com reações físicas
como em espasmos que as pessoas têm durante o sono. Ao longo da semana,
sonhou muito, o que não é habitual. E, como diz, “não foi sonho, foi pesadelo” com o
marido falando com ela e com a imagem identificada na sessão anterior. P2 disse
que nunca sonha, mas nessa semana “foi punk” (sic). Além de muitas memórias
daquela época, com as meninas ainda pequenas.
Questionada sobre mudanças ao longo da semana, responde que em relação
às irmãs percebeu uma mudança muito grande, sem nenhum mal-estar. Mas, em
relação ao marido, o que percebeu foi ter conseguido identificar o local no corpo.

E aí... diferente de todas as outras, né?... meu pai, aquela angústia no peito,
minha mãe é a cabeça. Dele não! Eu sinto... eu falo agora... eu posso sentir
é tipo uma facada no coração. Assim, meu coração dói... mas não é o
pesado de angústia.

Nesse período, percebeu muitas lembranças da casa e das filhas pequenas,


além de terem surgido duas memórias anteriores ao suicídio do marido, conforme
identificadas no PTr. Com foco na emoção e na sensação corporal, o SUDS residual
foi processado, tendo redução gradativa até chegar a 0, mantendo a mesma CP
posso lidar com isso. P2 relata que no processo sentiu bastante sono e que acabava
focando na dor, mesmo quando alguns flashes das cenas vinham na cabeça.
Ao final da sessão “confessa” que teve vontade de desistir, mencionando a
intensidade de sua experiência na sessão anterior, oportunidade em que a
pesquisadora explica a respeito da memória, inclusive reiterando para avisar no dia
seguinte como ficará. Sempre que for necessário, informa ela, a sessão poderá ser
antecipada.
145

Na sessão 7, P2 chega mais animada, relatando ter saído bem da última


sessão e que o processamento continuou um pouco. Passou uma semana
trabalhando fora de casa e conseguiu controlar a alimentação assim como iniciar um
processo de emagrecimento, mesmo que ainda não tenha iniciado atividades físicas.
Nesse período, P2 concluiu que “a vida pode seguir e a gente ficar bem, assim”.
Ao longo da semana, sentiu-se mais leve e quando “[...] tentava pensar no
assunto, eu num... eu num pensava. Eu... eu pensava em outra coisa”, afirmando
que a memória nem voltou nesse período. Contudo, teve uma percepção especial
em relação ao marido:

Todo mundo quando morre vira santo. Né, então... era tudo maravilhoso,
tudo no passado é maravilhoso. E aí eu comecei a me lembrar de coisas
que... num novo relacionamento novo eu não quero pra mim... que eram
coisas que aconteciam no dia a dia, coisas que eu deixei, por ser muito
nova e ele também...

Com perturbação residual apenas no corpo, relata um processamento


diferente, sem imagens, apenas com a sensação corporal que vai cedendo pouco a
pouco, “como uma bexiga de ar, as coisas vão saindo” (sic). As imagens da foto
dele, a memória do dia anterior e quando ele acordou vieram, e ao focar em cada
uma aparecia um “choquinho e aí... processava e saía [...] elas apareceram pra sei
lá.... acho que pra fechar logo esse ciclo”.
Ao seguir com o protocolo, houve mudança de CP quando afirma “...que
posso lidar com isso é muito... é... é... pra ser uma palavra positiva... não sei... ela
não teria nem que ser... ela ter que ser normal, né?” escolhendo mereço viver para
finalizar o processamento desse alvo. Ao final de tudo, percebe um “calor de fora
para dentro” (sic) como se tivesse realizado atividade física, provocando bem-estar
físico.
Em seu retorno, P2 relata que passou a fazer testes consigo mesma para
verificar onde ainda sentiria alguma perturbação, pensando nas memórias
trabalhadas até conseguir falar de forma serena para uma colega de trabalho o que
havia acontecido com seu marido. Nesse processo, passou todos acontecimentos
em ordem cronológica e percebeu que ainda faltava trabalhar a memória
146

perturbadora de contar para as filhas o que tinha acontecido com o pai delas, que se
tornou o alvo da Sessão 7.
Contar para as filhas, ainda mais por ser suicídio, foi muito difícil para P2, e
para cada uma houve uma especificidade em função das diferentes idades. Durante
o processamento, percebe que “mais vitimizo as meninas do que elas mesmas [...]
Fico pensando nas conquistas delas, nas coisas que elas...elas fazem, como elas se
comportam... Isso tá mais em mim do que nelas...” (sic). Surgiram memórias de
momentos juntas, fazendo coisas, da confiança da filha 1 em P2, na presença
constante na vida das duas, do seu próprio jeito. Ao final do processamento,
sentindo aquele calor relatado na sessão anterior, conclui que “não sou uma mãe
perfeita, mas sou uma boa mãe! (risos)”.
E embora não tenha havido uma projeção do futuro no PTr em relação à
morte do marido, ao final desse atendimento, revelou-se o mesmo relacionado à
morte da mãe, ser uma boa mãe.
Ao retornar para a sessão 8, P2 relata que saiu da última sessão se sentindo
“[…] a melhor mãe do mundo” (sic), e investigando o que mais restava para trabalhar
dos temas e alvos identificados pelo PTr, ela e a pesquisadora surpreenderam-se
com a ausência de perturbação total para os três alvos inicialmente identificados.
Assim sendo, a AF foi realizada nesse encontro com a reavaliação de todos
os alvos do PTr, incluindo a projeção do futuro. Por ser esse um procedimento
clínico, o pesquisador deve estar atento às oportunidades de melhor prática com o
participante.
Dessa forma, como finalização das sessões, foi pedido que P2 fizesse um
desenho que representasse todo o bem-estar por ela relatado em meio às
mudanças ao longo do tratamento. Após realizar a projeção de futuro em forma de
vídeo, nenhuma perturbação foi relatada, apenas a preocupação corriqueira de uma
mãe dedicada. “Eu vejo aquelas coisas de mãe, que não sabe o que o filho vai ser
quando crescer” (sic). Na conversa, foi possível constatar a quantidade de CPs que
surgiram por entre os processamentos. Então, a pesquisadora solicitou a P2 que
fizesse um desenho que representasse tudo o que foi trabalhado em relação ao luto.
147

Figura 4 – Desenho de P2 representando o tratamento


Fonte: P2

Em relação ao desenho, relata:

Eu vejo assim... vou explicando, eu vejo esse trabalho, esse luto, e como
que eu tô hoje... Como as coisas voltaram a clarear a minha vida. Assim, o
mar... Porque aqui é o mar (risos)... O mar é o meu lugar de conforto.

E o sol é bem, é de indicar luz assim... Indicar como é que tava escuro,
como que as coisas estavam negras e como as cosias ficaram mais claras.

E a cruz aqui né, eu acho que até antes de começar aqui... Deus sempre
olhou por mim. E considerou tudo pra que esse tratamento tivesse sido na
hora mais especial, mais propícia que tivesse que ser. Porque eu acho que
um conjunto de coisas aconteceram pra esse tratamento acontecer nesse
momento.

Nesse momento, a pesquisadora solicita que se recorde de todas as CPs e


pergunta se surge mais alguma, ao que P2 responde... “elas estão comigo”. Fiz o
melhor que pude, sou capaz, posso me defender, posso lidar com isso, posso
confiar nas minhas decisões, sou uma boa mãe foram reforçadas com MB’s lentos e
poucas séries. Esse procedimento adotado é uma forma de reforçar e instalar o
aprendizado de todo o processo, em conjunto com uma sensação corporal positiva
com a qual já havia chegado na sessão e que a tem acompanhado nos últimos dias.

Estou muito forte tentando buscar o que eu era antes[...] Não sei se chega a
ser uma palavra positiva, mas essa pessoa aqui que eu vejo no espelho,
que eu não me reconhecia como eu... Eu não preciso ser assim e eu posso
ser eu de novo.[...] quando eu penso naquela luz que taí... ela tá agora... ela
tá aqui dentro [...]. Aquela sensação boa ficou melhor ainda, parece que tem
uma camada da minha pele assim...
148

7.2.3 Avaliação Final

A pergunta na AI “será que eu tô usando o espaço de alguém que pode usar


melhor do que eu?”, no sentido de minimizar o sofrimento pelas perdas, quando
duvida se tem algo do luto pra trabalhar, reflete uma das preocupações dos
profissionais que estudam as modalidades do luto complicado e os programas de
assistência, como Rando (2013, 2016). Mas como fazer diferente, tendo que dar
conta da vida como ela teve que fazer? Sem queixas intensas de forma aparente, é
um bom exemplo das muitas variações do luto complicado que podem assolar um
enlutado: “Porque... eu não sou aquela pessoa que fica chorando o tempo todo, pela
falta da minha mãe ou do pai ou de [marido], eu não fico eu não fico... chorando o
tempo todo por causa deles, eu não fico pensando”.
Seu desenvolvimento foi impactado pela perda precoce da mãe, sofreu
inúmeras dificuldades em meio à adaptação familiar, tendo crescido com um intenso
sofrimento de exclusão e solidão. Essas dificuldades fizeram com que P2 crescesse
insegura e sem confiar em suas capacidades, com dificuldades de demonstrar suas
próprias emoções e de dizer não. A morte do marido por suicídio deixou marcas
traumáticas em sua memória, reveladas ao longo do tratamento com EMDR, com
diversos comportamentos disfuncionais no seu rastro. Com a morte do pai, o
sentimento de solidão aumentou, tendo também aumentado os problemas de sono,
concentração e memória.
Ao preencher as avaliações formais, espontaneamente comenta “quanta
diferença, preencher isso no início, preencher isso agora...” e brinca que em uma
das avaliações, o BDI, não tem respostas que se adéquem a como ela está se
sentindo naquele momento.

Você sente falta aqui... Cadê o totalmente feliz? [...] Não estou totalmente
desanimado para o futuro... Cadê o estou animado pro meu futuro? [...]
Essa do prazer... Tem tanto prazer em tudo como antes? Sim. Eu não tinha
prazer pra fazer as coisas [...] Eu tenho um prazer maior que antes. [...]
Posso trabalhar tanto quando antes? Que nada, agora só quero mandar...
Achei ótimo esse negócio de mandar... Não quero trabalhar tanto quanto
antes.

Essa impressão destacada por P2 pode também ser conferida nos registros
dos instrumentos, como pode ser visto nos gráficos disponíveis nos Apêndice J.
149

Na avaliação inicial do BDI, não há registro de depressão. Contudo, após a


aplicação do EMDR com foco nas três perdas vivenciadas por P2, observa-se uma
redução importante nesse registro, bem próximo do 0, sendo compatível com todas
as mudanças relatadas em termos de tristeza, autoconfiança e determinação, bem
como a leveza por ela experimentada.
Além disso, esse resultado é compatível com a mudança na avaliação do
HGRC na escala de desespero, nos itens de “não tenho esperança, eu tenho pouco
controle sobre a minha tristeza e choro com frequência”. Esse último item foi o único
dessa escala em que se manteve com a descrição “descreve-me um pouco bem”.
Os outros dois foram para o nível de “não me descreve em nada”, confirmando a
redução dos índices de tristeza avaliados no BDI.
Houve também redução nos índices do DES-II que são compatíveis com as
melhoras referencias na área de memória e de concentração, que costumam ser
afetadas após um trauma.
Reduções essas também observadas nos registros de HGRC na escala de
comportamento de pânico que avalia sintomas físicos relacionados ao luto. Dessa
maneira, pode-se afirmar que a redução dos itens dessa escala indicam a redução
da reação ao trauma. No gráfico, é possível conferir a redução de eu me preocupo
excessivamente, às vezes meu coração bate mais forte do que o normal,
frequentemente tenho dores de cabeça, frequentemente tenho tensão muscular, eu
me sinto abalado, frequentemente me sinto com medo, tenho falta de ar, estou
frequentemente cansada, eu me assusto facilmente. Com exceção da primeira e da
última afirmação que ainda mantém, para P2, o sentimento de descreve-me um
pouco bem, todas as demais alcançaram o nível de não me descreve em nada.
As variações na escala de desorganização também são compatíveis com os
registros observados nos resultados do DES-II, com uma diminuição no escore final,
bem como são descritas por P2, espontaneamente na AF.
Assim, outros itens do HGRC assinalados em relação ao Comportamento de
Pânico, eu esqueço coisas facilmente..., tenho dificuldade de lembrar do passado,
tenho dificuldade em aprender coisas novas, tenho dificuldades com pensamentos
abstratos, que inicialmente variavam de descrevê-la muito bem a descrevê-la pouco
bem, chegaram ao nível de não descrevê-la em nada. Portanto, esses fenômenos
pararam de acontecer. A dificuldade de concentração permanece, mas em um nível
mais baixo.
150

É possível conferir essas informações ao observar que P2 mencionou


espontaneamente na AF que a memória melhorou muito: “De esquecer as coisas, de
me perder no meio de alguma coisa, de tá no carro e não saber pra onde tá indo, de
não lembrar de onde tá vindo... Não senti mais nada disso. Desde que a gente
começou, nunca mais senti.”
Também se referiu a melhoras no sono, indo dormir mais cedo, tendo
percebido sonhar em algumas noites, de forma normal, como não acontecia antes.
Observou também estar chegando a viver em “um ritmo de vida de gente normal” e
mudanças nas sensações físicas, que antes nem percebia vivenciar: “Tá muito
melhor. Tá muito melhor, de não ser... de não ter sempre aquela dor no peito, aquela
dor na cabeça, aquela pressão que a gente não sabe de onde é. E eu... E eu não
senti mais.”
Quanto à escala de Desinteresse e Indiferença do HGRC, a maior variação foi
a preocupação de se sentir inútil, que foi do máximo de identificação, para nenhuma
identificação dessa realidade. Os demais itens, estou confuso em relação a quem eu
sou, perdi minha confiança, sinto-me incapaz de enfrentar essa experiência e sinto
como se não me conhecesse, percepções que P2 tinha, mas não com tanta
intensidade, todas essas passaram a não descrevê-la em nada após o tratamento.
Uma interessante observação no item eu evito carinho: P2 registrou na AF que evita
carinho. É provável que essa percepção tenha surgido a partir do trabalho em
relação à memória da morte da mãe, quando ficou claro que P2 passou a não
expressar as emoções, bem como pelas consequências da dinâmica familiar, pela
falta de segurança que o pai lhe transmitia e as dificuldades com a madrasta. Para
maiores considerações, seria interessante ter mais elementos para investigar P2 em
relação ao seu padrão de apego.
Para o tema Culpa e Raiva, também avaliado pelo HGRC, observa-se no
gráfico pertinente ao tema que pouco a representava na avaliação inicial, passando
a não representá-la em nada após a finalização das sessões.
Em relação ao Crescimento Pessoal, o HGRC, várias mudanças foram
observadas, com exceção dos itens eu aprendi a enfrentar melhor a vida e estou
tendo mais dias bons do que ruins, com os quais P2 já apresentava o nível máximo
de concordância.
P2 relaciona essa atual visão de si mesma de forma diferente também como
crescimento pessoal, “acho que todo mundo, assim, fica maduro...”, deduzindo que
151

outras pessoas também passem por esse movimento de crescer a partir de uma
perda. Dessa forma, credita o próprio crescimento ao excesso de tarefas e
responsabilidades com o qual se sentiu obrigada a cumprir, uma vez que ele é quem
cuidava de tudo, inclusive dela. “Então eu, eu, eu me... (pausa) eu renasci, né, da
perda dele. Eu pude saber quem eu era. Eu fui trabalhar, eu fui estudar, eu posso
cuidar as minhas filhas.”
Segundo P2, “[...] Eu acredito que isso foi necessário para eu me tornar como
que eu tô hoje. Eu não tô infeliz comigo. Minha casa tá bacana [...]. Então, de um
ano pra cá as coisas parecem que estão, tão... no lugar, né?” Essa fala indica que
várias adaptações já aconteceram no curso de sua vida em relação à perda, o que
também faz com que duvide de sua real necessidade de terapia, chegando a
minimizar seu sofrimento.
Por outro lado, o HGRC indica que nos itens tenho mais compaixão pelos
outros, sou uma pessoa que perdoa facilmente, sou mais tolerante com os outros
apresentaram um decréscimo em relação a como ela se via, ao que pode ser
atribuído pelas mudanças que P2 percebeu em relação a ser mais segura de si, não
precisar mais agradar o outro.
P2, na AF, relata uma mudança na vida pessoal, indireta e espontânea, ou
seja, que não foi alvo do tratamento, referindo-se ao fato de aprender a dizer não, a
partir da incorporação das CPs eu posso lidar com isso e eu sou capaz,
abandonando anos de submissão em seus relacionamentos afetivos e em seu
ambiente de trabalho, aprendendo a “confiar nessa pessoa que eu sou” (sic): “É uma
autoconfiança que eu não tinha, embora eu corresse atrás de tudo, fosse
determinada aquela coisa toda, mesma coisa você ser determinado e estudar pra
fazer uma coisa, outra coisa é aquilo vir de dentro.”
Outra mudança indireta e espontânea que P2 atribui à vida social e que surgiu
após a primeira sessão de EMDR, está relacionada a se relacionar com o mundo de
uma forma diferente, respeitando os próprios limites físico, o que também afetou
positivamente a relação com as filhas. P2 relata uma grande mudança na dinâmica
familiar entre ela e as duas filhas, com mais diálogo e companheirismo.
Ainda na escala de Crescimento Pessoal do HGRC ao final do tratamento,
assinala que a afirmação de que a perda não é importante, não a descreve em nada,
revelando a total consciência adquirida em relação a todas as perdas.
152

A aprendizagem que P2 apresentou por meio da psicoterapia com EMDR foi a


de identificar gatilhos no seu dia a dia, tendo incluído alguns dos termos em seu
vocabulário, como gatilho (disparador), que observava por meio de testes que fazia
por iniciativa própria para avaliar sua evolução. E também pode se refletir nas
seguintes falas:

Ah, fiquei emocionada, chorei no carro, a [filha 1] indo fazer prova, mas não
foi nada de gatilho...

vamos ver se eu tô sentindo alguma coisa mesmo.

as coisas foram... é clareando mesmo... as sensações eu aprendi muito, eu


aprendi que o meu corpo dá sinais das coisas, porque eu não percebia. [...]
isso eu aprendi no tratamento. E aí aprendi até pro meu dia a dia, de falar
“isso aqui tá doendo aqui, isso tá doendo”.

É bem possível que a memória trabalhada em relação à morte da mãe, em


que P2 foi julgada por expressar algo inerente a uma criança de cinco anos,
provocou um bloqueio em relação a expressão de emoções e sentimentos genuínos,
impedindo-a de exercer seu papel maternal com naturalidade, bem como com outros
relacionamentos afetivos, por exemplo, com o próprio marido. Além de se referir a
não ter um exemplo de mãe para seguir. Contudo, ao longo das sessões em que
esse tema foi trabalhado, surgiu uma lembrança de sua mãe que se tornou a
lembrança-chave de sua vida, em um símbolo de cuidado, afeto e muito amor. O que
ela batizou de “Memória1”. A CN sou insensível contaminou as outras áreas da vida
junto com outras tantas, como não sou suficientemente boa, não posso falhar....
P2 afirma que o limite no uso de bebida alcoólica também colaborou para
essa mudança na família, pois tem se percebido mais presente na vida das filhas.
Com a certeza de que “dentro do conhecimento que eu tenho, dos recursos que eu
tenho, tudo o que eu posso, eu sei que eu sou uma boa mãe”, e antes se sentia
devedora, como se nunca o que fizesse fosse bom o suficiente. P2 consegue ter
certeza de que sabe tomar boas decisões.
Em relação à organização das memórias percebe o surgimento de memórias
positivas em relação às três perdas:
153

o meu pai ficou uma lembrança no lugar que ele devia estar.

Engraçado, eles se tornaram umas lembranças boas, eu tenho aquela


última lembrança da minha mãe, lá no sofá e tudo [referindo-se à “Memória
1”].

Fiquei pensando no nosso dia a dia, como elas me amam, como elas tão do
meu lado... como a gente sempre faz tudo pra tá junto... é... como às vezes
a gente pinta um negócio diferente do jeito que realmente é...

Uma fala de P2 que representa parte de seu movimento de organização de


memórias, bem como um exemplo do que pode ocorrer durante um processamento,
pode ser conferida por meio desse registro:

Nesse último processamento, eu acho que eu fiz uma retrospectiva, assim...


desde a primeira sessão e das imagens ruim... e... aliado a... a esse
sentimento físico, ao coração e as emoções com... não sei... minha cabeça
foi voltando em tudo isso... né... nesse resumo.

Em relação ao suicídio do marido, que inicialmente achava não a perturbar


tanto, nessa conversa final, acabou considerando o quanto o assunto mexia em
todos os aspectos, sem que ela percebesse: “[…] era uma coisa que rodeava minha
cabeça todas as semanas, pelo menos uma vez por semana passava alguma coisa
daquela ali.”
No início da avaliação, P2 parecia já ter elaborado em grande parte a perda
do marido, inclusive com a construção de significado positivo em meio a tragédia
pessoal e familiar que vivenciou, como declarou durante AI: “eu acho que eu já
entendi [ênfase] que eu precisava virar alguém.”
O trabalho com as memórias relacionadas à perda do marido, porém, foram
distintas das outras, e visivelmente mais dolorosas, indicando um conteúdo
traumático. Contudo, P2 relata:

[...] aquilo ali foi um divisor de águas completamente na minha vida, claro
que da minha mãe foi um pouco menos, do meu pai foi um pouco menos.
Assim, não menosprezando a importância dos outros. Mas aquele
sofrimento, aquilo que eu senti aqui, de doer muito e do meu corpo sair, de
eu sentir muito sono e de eu ver eu me vendo… Foi muito forte aquilo ali.
Foi... Eu falo que foi transformador aquela semana ruim, com aqueles
pesadelos, aquela coisa toda.
154

É bem provável que pela intensidade das reações que essas memórias
provocavam em P2, ela tenha passado todos esses anos minimizando esse
sofrimento; ou, mesmo, que essas tenham sido memórias armazenadas
disfuncionalmente, a ponto de precisar esquecer dela para sobreviver. Segundo ela,
“eu acho que até inconscientemente eu deixei aquilo por último, embora eu achava
que o meu pai era o mais difícil, mas talvez eu deixei por último por causa disso,
sem saber. E aquilo foi muito difícil”.
A mudança foi tão grande em relação a essas lembranças que P2 foi capaz,
inclusive, de mexer em várias recordações junto com as filhas, sem sentir
perturbação:

E eu ainda falei, esse negócio vai mexer comigo... Não chorei, não senti
aperto, não senti uma coisa ruim [...] “meu Deus, o que será que pode me
perturbar ainda disso?”[pensava enquanto manuseava fotos antigas], mas
eu não consegui achar alguma coisa que pudesse me perturbar.

Tendo observado diversas mudanças diretas e indiretas, como cada uma das
mortes afetou a sua vida, relatadas aqui em ordem cronológica.

Em relação a minha mãe, a perda dela foi tudo o que desencadeou depois,
aquela... aquela falta de ter mãe pra me ensinar.

O meu pai, além do luto, era uma relação que vinha antes do luto por causa
da minha mãe [...], a morte dele mais me fazia sofrer pelo que eu não tinha
feito por ele do que a morte em si.

Entendendo o que tinha feito, o que podia fazer com ele, pra ele, né, dentro
de todas as limitações que eu tinha na época, eu sei que eu fiz [...]. E era
aquilo que mais me doía quando pensava nele, a culpa.

P2 considera a leveza como a principal mudança relacionada ao conjunto de


perdas, sensação que adquiriu ao longo de sua participação na pesquisa:

a maior mudança que eu percebi nos três... Acho que os três ainda
afetavam alguma coisa no meu dia-a-dia. E essa minha... eu me sentia
pesada, eu me sentia triste, eu me sentia... é... que as coisas não iam dar
certo. Eu me sentia coitada também.

como é que eu tô mais leve, acho que é o maior ganho, essa claridade na
minha vida e essa leveza...
155

E, para ela: “É... ter mudado de trabalho, associado ao tratamento, eu acho


que foi... assim... um gol pra... pra eu ficar melhor.”
Não resta dúvidas dos benefícios experimentados por P2 ao longo dessa
experiência. Basta ver as mudanças nos registros entre as avaliações inicial e final
dos instrumentos, bem como nas mudanças qualitativas, desde o primeiro
processamento. A diminuição do uso do álcool, o emagrecimento, a redução da
ansiedade, a regularização do sono e da alimentação, a melhora dos problemas de
memória e atenção, as mudanças em sua vida social e familiar refletem suas
conquistas. Aprendendo a dizer não, a tomar suas próprias decisões e conviver em
família, principalmente, sentindo-se realizada como uma boa mãe para suas filhas.

Então eu fui... é... tomando consciência... da minha vida, eu pude florescer.

[...] sou muito grata a Deus mesmo por tudo que aconteceu, que eu
consegui virar gente, né[...] demorou um pouco, mas estou saindo do outro
lado.

7.3 PARTICIPANTE 3

7.3.1 Relato do Caso

P3, 40 anos, casada, fez faculdade de administração com pós-graduação em


logística e atualmente trabalha como artesã. Enfrenta o luto pela morte de sua única
filha, ocorrida dois anos e seis meses antes da avaliação inicial.
Nascida em outro estado, veio para o Espírito Santo aos 19 anos, para morar
na casa de uma tia de tronco materno, mãe do marido, sendo P3 e marido primos de
primeiro grau.
Com experiência anterior de participar em pesquisa, menciona claramente
sua vontade em ajudar o outro e ser ajudada ao responder ao convite de
participação.
Na avaliação inicial, comenta sobre não saber exatamente o que se passa
com ela no presente momento, indicando estar vivendo uma confusão em relação a
seus sentimentos. Passado, presente e futuro se misturam em seu relato. Mas já no
início observa que não esquece a data da morte da filha, indicando a importância do
evento em sua vida. “Engraçado a gente não esquecer da data, né?”
156

Antes de a filha nascer, tinha um sonho. Hoje alega não ter perspectiva. A
filha nasceu com uma síndrome genética rara – apenas duas crianças identificadas
no mundo – mas P3 nunca se lamentou do fato. Acredita que talvez por ter
consciência de que isso pudesse acontecer. Mas sente culpa por não ter conseguido
mantê-la saudável, relatando um processo intenso e cansativo de cuidados, em
especial em seus últimos seis meses de vida. Esse processo de cuidados levou P3a
uma exaustão tal, que a fez sentir um grau de alívio quando a filha morreu,
sentimento esse também alimentador de sua culpa.
“Quando ela nasceu, eu já passei a viver só para ela, sem saber o amanhã,
então você já não tem uma perspectiva do que é daqui a vinte e quatro horas, né?”
Conta que sua filha era ativa e saudável, dentro das limitações. Não usava
aparelhos, apenas a sonda. “A criança sai, anda, andava com a garrafinha direto
pendurada não estava nem aí”

Quando [apelido de filha] nasceu eu nunca lamentei, nunca. Eu abracei a


causa, deixei minha vida. Nunca, de coração. E não foi por não querer falar,
foi por não sentir necessidade de lamentar ela ser como era, né? Só que
uma das coisas que eu lembro que eu falava assim “não tem problema ela
ser especial, mas não podia ser um problema mais leve que não levaria a
óbito, né?”

Os últimos meses de vida foram particularmente difíceis, pois sabia que ela
estava enfraquecendo, e queria fazer algo diferente, mas ao mesmo tempo não
sentia apoio. “Porque criança especial para médico tinha que estar morto! eu ouvi
isso de uma pediatra da domiciliar... ‘que o Brasil só está criando um bando de
neuropata por causas dessas...’”. Essa falta de apoio profissional percebida em uma
situação em que foi necessária uma intervenção cirúrgica em sua filha, bem como
nos momentos finais da internação dela, quando tinha que sair “esperneando,
procurando um, procurando outro, procurando um, procurando outro, até achar
alguém que me desse apoio e tentasse alguma coisa”.
O relato dessa via crucis da última semana de vida da filha que martirizava a
mãe ao lembrar do sofrimento da filha torna difícil até encontrar quais os piores
momentos para estruturação do PTr, pois todos aparecem como piores... “‘Ai, filha,
você está sofrendo tanto agora né. Se você tiver um lugar melhor e quiser ir, pode ir’.
Eu não aguentava mais, só a gente esperneando para tudo quanto é lado, sendo a
mãe chata, porque vigia, briga, busca, quer o melhor.” A falta de atenção que lhe foi
157

dada por parte da equipe médica em relação aos procedimentos de


antibioticoterapia prescritos pela médica assistente da criança, bem como seu
anseio como mãe foram marcantes: “‘...quem estudou foi a gente, a gente sabe o
que está fazendo’. E você vendo, conhecendo a sua filha, e sabendo que não era
aquilo”. Sem mencionar a observação do agravamento do quadro de sua filha,
alertando a equipe constantemente quando “na véspera da minha filha morrer eu
falei para a pediatra ‘se vocês não fizerem alguma coisa a minha filha vai morrer’”.
Realidade dura. E como não ser traumática?
Aos cinco anos e meio, em meio a um difícil período de hospitalização, a
criança morreu dentro da UTI de um hospital particular.
Nesse período de hospitalização, P3 teve apenas o apoio do marido, pois sua
mãe, que tinha ficado uma longa temporada para ajudar no cuidado da neta, tinha
voltado para sua cidade dia aproximadamente vinte dias antes da menina morrer.
Em relação à perda, relata que o alívio que sentiu inicialmente trazia também
uma liberdade, pois chegou à conclusão de que foi o melhor para a filha. Considera
que os momentos iniciais do processo do luto foram muito tranquilos. Mas percebe
que, com o passar do tempo, houve uma grande piora em seu estado geral.
Atualmente pensa que preferia que a filha estivesse aqui de qualquer jeito, mesmo
em uma situação pior. “Sempre falei com Deus que se fosse pra deixar ela numa
condição pior do que aquela que ela já tinha que ele podia colher- que eu não
achava justo [...] Só que eu não achava justo, falava que não aceitava ela mais
debilitada”.
Contudo, tem sentido muita falta dela. Em busca de respostas, questiona-se
agora se sua piora está relacionada ao fato de ter deixado de fazer algumas coisas,
como ir no cemitério diariamente. Atualmente só vai visitar a sepultura de sua filha
uma vez a cada mês: “talvez por isso eu sinta essa necessidade de tê-la, de não ter
acontecido o que aconteceu”. Acredita que a falta de atividades a impede de ter
aquela paz que tinha. “Engraçado que o tempo vai passando, ao invés da gente
melhorar, vai piorando... eu pelo menos tenho sentido isso.”

Eu não sei se é culpa porque no início eu falei assim... até por isso eu tive
um luto mais tranquilo, porque o que eu pude eu fiz por ela, o que estava no
nosso alcance foi feito, o que eu pude deixar da minha vida pra ela por ela,
o que a gente pode buscar de alguma coisa que desse resultado e reverter
o quadro dela... Nunca tinha carregado culpa, apesar de sempre carregar
aquele peso de que não tinha feito o suficiente. Hoje já é o contrário, já é se
158

sentir culpada realmente – às vezes até de achar que tudo, às vezes


algumas coisas que eu possa ter feito que levou e culminou a piora.

Pondera que talvez seja “...frustração que eu devia ter tido lá atrás está
batendo agora”.
Com tristeza, compartilha os pensamentos recorrentes que a levam à culpa,
“...a culpa foi minha em que deixei acontecer, a sensação de que o que eu queria,
ah! Você queria que sua filha morresse?”. Culpa essa que se ramifica para a forma
de ter vivenciado seu luto, “...a forma que eu lidei com a morte dela na época que foi
muito tranquila pra mim, só eu sei o que eu passei por dentro, mas não houve
aquele desespero”. O que traz atualmente uma cobrança enorme, tendo sido
invadida pelos “ses”.

[...] nunca tinha carregado culpa, apesar de sempre carregar aquele peso de
que não tinha feito o suficiente, hoje já é o contrário, já é se sentir culpada
realmente [...] às vezes algumas coisas que eu possa ter feito que levou e
culminou a piora.

Observa pensamentos intrusivos/obsessivos/persistentes em busca de


encontrar um sentido real para viver. Esses pensamentos diários também estão
relacionados à culpa, “...a culpa foi minha em que deixei acontecer, a sensação de
que o que eu queria...”, como se tivesse desejado à morte da filha.
Porém, P3 não consegue identificar quando começou a perceber a falta de
paz, deduzindo que foi a partir de janeiro desse ano, após ter passado uma
temporada na terra natal, de onde não queria ter voltado.
Relata que foi um processo gradativo de mudança, e “só foi acontecendo,
porque no início, você tem assim... No início você tem mais pessoas perto, também
tudo, com o tempo você vai ficando sozinha mesmo, não adianta, a gente vai ficando
sozinha com o luto da gente”, referindo-se à falta de apoio percebido. “...como se
nunca mais pudesse falar no nome da pessoa ou na situação – e para mim é normal
falar dela, das lembranças dela” e percebe que passou a se policiar para não falar
da filha, por sentir que constrange as pessoas ao redor. Esse processo faz com que
se sinta sozinha em seu luto, uma vez que também não conversa sobre a filha com
o marido, por saber que ele também sofre, “...se a gente ficar martelando nessa
história pelo resto da vida como é que vai viver né?”
159

[...] eu sei que ele sofre também por tudo que aconteceu, ele era muito
apegado, a gente evita ficar falando sobre até para evitar, né, porque se a
gente ficar martelando nessa história pelo resto da vida como é que vai
viver, né?

Essa impossibilidade de falar da filha a afeta sobremaneira, pois sente que as


pessoas se sentem constrangidas em ouvir seu relato. “Aí a gente começa a tentar
se policiar, para não falar, para não passar de doido. Aí fica doida de verdade, aí
acaba ficando doida de verdade”.
A continuidade da vida no futuro ainda é uma incógnita, não consegue
encontrar satisfação pessoal e se sente pressionada para ter mais filhos, pelo
marido e pela família. Tem a sensação de que, se tiver outro filho, ele vai morrer de
novo. Aliás, segundo ela, sua sensação é de que a morte está sempre às espreitas.
Esse é um aspecto de destaque em seu comportamento, pois tem medo
também de perder o marido e outras pessoas. Segundo P3, “a morte parece que
está às espreitas”. Essa preocupação parece ter piorado após a descoberta de que
o marido é portador de diabetes, o que fez com que ela intensificasse seus cuidados
com ele.
Percebe que passou a viver as mortes de outras pessoas de uma forma
complexa, impactando-a diretamente e amplificando a experiência do momento a
partir das experiências que vivenciou nos momentos finais de sua filha.

Nossa, para mim é como se eu tivesse enterrando a minha filha de novo. Aí


eu falei assim “gente, será que cada um que morrer na minha vida eu vou
ter que viver isso, como se eu tivesse enterrando a minha filha de novo,
esse sofrimento?”

No primeiro encontro, menciona um vínculo afetivo com uma menina que


mora em um abrigo, também portadora de uma síndrome, indicando sentimentos
paradoxais em relação à ela, que incluem a possibilidade de ela morrer sob seus
cuidados. Além disso, percebe uma pressão social para adotá-la, mas relata achar
que não vai saber cuidar, ter “...aquele travamento de que eu não vou saber cuidar,
de que eu vou perder, ainda mais ela sendo especial”.
P3 já trabalhou em empresa, com muita responsabilidade, viagens
constantes, carga horária desgastante mas parou de trabalhar para cuidar da filha.
Voltou a trabalhar na mesma empresa, mas não se adaptou ao ambiente de
estresse e competição, e decidiu se dedicar ao artesanato, itens de festas infantis.
160

Quando saiu da terra natal foi por ter o propósito de não se tornar dona de casa com
a casa cheia de filhos, que percebe ser sua presente condição, fazendo com que se
sinta inútil e fracassada. Mesmo tendo sua atividade atual, com a qual sente prazer,
“hoje o que eu sou é dona de casa mesmo, apesar de eu ter meu trabalho ali, mas
nos últimos anos é dona de casa mesmo”, em franca referência aos cuidados com a
filha.

E depois que ela faleceu, que eu achava “agora eu tenho como correr atrás
e ver alguma coisa”, foi cada dia mais se fechando, se fechando, se
fechando, sem muita perspectiva. [...] A última vez que eu me lembro que eu
ainda estava me sentindo inteira foi o ano passado, de lá pra cá eu tenho...

Mesmo continuando perfeccionista, relata uma baixa de energia significativa


nos últimos tempos, que vem mudando aos poucos, pois “já não tenho mais aquela
vontade, aquela garra de fazer nada [...], não é preguiça.”
O marido está desempregado desde o início do ano, e após ter comprado
alguns equipamentos, ambos têm trabalhado juntos cotidianamente. P3 relata ter
uma relação difícil com marido, a quem direciona os ataques de nervoso, que foram
avaliados por um dos instrumentos. Segundo ela, o problema não é o casamento em
si, que está bom. Claramente é o impacto da perda sendo reverberado na relação
conjugal, como relatado por Silva (2009). Mas a fase atual inclui a cobrança por
terem outro filho.
Ao mesmo tempo em que acha que o nervoso vem da sensação de se sentir
inútil e não valorizada, deve estar correlacionada ao fato de sentir que “não fui feita
para ser dona de casa e hoje o que eu sou é dona de casa, apesar de eu ter meu
trabalho ali, mas nos últimos anos é dona de casa mesmo”. P3 relaciona esse
desconforto também ao perceber “aquela sensação de ainda não estar no meu
lugar, mas isso eu tenho pra todo lado que eu vou”.
Para P3, “É mais relacionamento mesmo, depois que a gente perdeu a
[apelido de filha] essas coisas, às vezes perturba, você tenta você ama, mas às
vezes você tem a impressão que quer explodir.”
Após o primeiro encontro da avaliação, P3 chorou três dias por qualquer
coisa, ao mesmo tempo em que sentia alívio por ter conversado, mesmo ainda
mantendo os pensamentos direcionados à filha. Inclusive menciona ter tido um
pesadelo com ela, quando “tentava chegar até ela e não conseguia chegar, não
161

deixavam, me impediam de chegar até ela [...] tentando pegar, tentando abraçar e as
pessoas não deixavam”. Esse pesadelo pode ser a porta de entrada para memórias
não armazenadas de forma adequada, pois P3 relata que, após a morte da filha, só
teve outros dois sonhos com ela, ambos positivos.
Menciona ter tido pensamento suicida na época de faculdade, quando não
estava muito bem na relação afetiva com o marido. Desde a morte de sua filha nega
pensamentos suicidas embora mencione mais de uma vez a vontade de se reunir a
ela. Em uma clara oscilação entre os pensamentos, P3 relata que “seria tão mais
fácil se eu morresse, se eu fosse logo para o outro lado, que assim eu matava
saudade, acabava com esse sofrimento desse mundo, aí na hora que você vê a
morte de perto você já não quer mais morrer, esses pensamentos que vão e vêm.”
Ao mesmo tempo em que vem o pensamento oposto: “ah, Deus, não me deixa
morrer jovem, não, eu queria viver pelo menos até os meus sessenta anos, queria
ver o que é ser idosa”.
Essa sensação de que a saída é a morte, P3 relata como estando associada
à sensação de não pertencer, item da AI, atribuindo à falta de sentido. Essa “vontade
de sumir” ainda é frequente, mas não sabe se é em relação ao luto ou se às
dificuldades no casamento, sendo bem possível uma associação de ambos os
fatores.
Ao preencher os instrumentos, observa que está com um importante
problema de memória e concentração, mencionando que chega a esquecer o que
vai falar.
Em relação à imagem corporal não observa nenhuma distorção, embora sua
mãe diga que ela esteja gorda. Acredita que é por sempre ter sido magra e ter
engordado bastante nos últimos anos. Desde o nascimento da filha, relata ter
engordado uns dez quilos e, após sua morte, outros dez.
Afirma que utiliza a fuga como estratégia de enfrentar situações difíceis ou de
estresse, e que a qualidade que a ajuda a lidar com a raiva é a paciência. Como
pessoas de apoio, menciona o marido e uma das irmãs, referindo-se a eles como os
mais próximos. P3 afirma que não tem experiências anteriores com psicoterapia.
Com P3, no primeiro encontro presencial foi realizado o procedimento de
apresentação da pesquisa, concordância e assinatura do TCLE, bem como a
avaliação inicial com aplicação de AI. No segundo encontro de avaliação foram
aplicados o BDI, o DES-II e o HGRC, tendo sido estabelecido também o PTr. No
162

total, foram realizadas 10 sessões de EMDR. Após a última sessão de EMDR, como
procedimento estabelecido, foi realizada a avaliação final com P3.

7.3.2 P3 e o EMDR

P3 não apresentou dificuldades na instalação do Lugar Tranquilo.


Durante a construção do PTr de P3 ainda na fase de avaliação inicial foram
estabelecidos os alvos de acordo com o Quadro 7, estabelecendo-se a culpa como
primeiro alvo a ser trabalhado.

Quadro 8 – Plano de Tratamento P3


Fonte: Autora

Na sessão 1 para a montagem do ICES, enquadramento da memória a ser


trabalhada, P3 conversa bastante sobre aqueles momentos difíceis vivenciados por
ela junto à filha, tendo delimitado a última semana como ponto crítico. Para ela, o
mais difícil foi “já desejar que acontecesse como forma de descanso pra nós todos”,
segundo ela, “chegar num ponto de achar melhor parar de lutar e correr igual a uma
louca”. Nesse momento refere-se à segunda-feira anterior ao óbito, quando ainda
estavam em casa, com memórias muito vívidas.
O processamento até SUDS zero se deu em poucas séries de MB’s. Relata a
percepção de vários detalhes dessas memórias, mas bem rapidamente começaram
a vir memórias boas daqueles momentos, como “já conseguiu ver coisa boa até!
163

Carinha... abracei mais... deitei do lado”. Contudo, sua sensação de inúmeras falhas
permaneceram intensas, pensando que poderia ter feito muitas coisas diferentes,
duvidando de suas escolhas, em especial aos tratamentos que impôs à filha. Mas
conseguiu ficar tranquila com esse alvo, alcançando o que se chama de sessão
completa, passando pelas fases 3 a 7 do processamento.
Na sessão 2, menciona ter se sentido um pouco mais calma, sem outras
mudanças, mas sem perceber memórias espontâneas em relaçã o à filha.“...vinha
exatamente a cena lá das paradas cardíacas, do velório, da hora do enterro. Vinha
tudo na cabeça né. E essa semana eu não tive esses insights não, ficou bem focado
mesmo no dia a dia.”
Ainda com SUDS residual, o processamento é retomado, surgindo raiva e os
momentos finais no quarto da UTI, entre as reanimações e as visitas. No intervalo
até a sessão 3, observa que ficou mais nervosa, com choro fácil e mais ansiosa,
percebendo que o trabalho do EMDR está mexendo com o conteúdo interno.
Percebe-se mais raivosa, “brava com tudo e com todos”. Relata que teve a filha de
uma amiga internada ao longo dessa semana em uma UTI também, e tocar nesse
assunto deixou-a perturbada. Lembra que, no dia em que saiu da última sessão,
passou em frente à maternidade onde a filha nasceu e lembrou de várias situações
de memória relacionadas a atividades com a filha. Ou seja, observou vários
disparadores.
Menciona também a raiva que sente do hospital onde a filha sempre era
internada e onde morreu, trazendo a memória relacionada à mudança de protocolo
de antibióticos. Atribui o sentido de falta de cuidado e de desrespeito pelo
conhecimento que tinha de sua filha, percebendo descaso por parte da equipe
médica. “E minha única resposta foi: a senhora pode ter estudado, mas quem
conhece minha filha sou eu”, o que gerou uma confusão entre os integrantes da
equipe. Resumindo os muitos detalhes, foi chamada para uma conversa no dia
seguinte, na qual chamaram sua atenção por estar questionando os procedimentos,
para depois a médica dizer “a sua filha está lá dentro, pois teve três paradas
cardíacas e eu não sei realmente o que está acontecendo, mas pela minha
experiência que eu tenho, ela não vai resistir”.
Provavelmente essas memórias apareceram na cadeia associativa da
memória inicial, gerando alto desconforto, motivo pelo qual o processamento foi
retomado. Ao final, relata uma ardência no peito, informando que irá no cardiologista.
164

Seguindo com os MB’s... “Passou. Interessante.” E relata que essa ardência


aumentou quando estava chegando no consultório.
Menciona também o aparecimento de lembranças boas relacionadas à filha,
inclusive da fluidez da comunicação entre elas, demonstrando um vínculo forte e
muitos cuidados com ela.

Só aumenta a saudade né? Gostoso de novo. De como ela se fazia


entender... pensa a bichinha conseguia se comunicar só com gestinhos.
Conhecia já. Sabia até quando ela estava de caquinha. O jeitinho que ela se
mexia era diferente. Isso é legal né? Sorrisinho de agradecimento, sempre
que fazia alguma coisa que ela... tipo, tá com calor... e você entendia e
conseguia refrescar, aquele sorriso de “ahhh que coisa boa que você me
entendeu”.

Na sessão 4, menciona ter tido pensamentos, mas nenhum que a


perturbasse, e que “vi muitas falhas, mas elas não me acusaram”.

Eu fiquei mais anestesiada, essa semana, me senti mais ou menos igual na


fase que ela faleceu, fiquei assim um tempão, sem saber o que sentia, não
sentia nem angústia, nem desespero. Era aquela sensação fria, parada,
anestesiada.

Segundo ela, essa fase de anestesia durou aproximadamente 40 dias após a


perda da filha, ocasião em que não sabia o que sentia. Mas a semelhança é pela
ausência de desespero, também vivida naquele período. Refere não ter sentido
perturbação ao longo da semana. “Estou com essa sensação de que estou mais
tranquila, que nada abala, nem as lembranças, do que foi, de como foi, do que
falaram, não abala mais.” Mesmo os pensamentos de que poderia ter feito algumas
coisas diferentes não causam desconforto. Também não sentiu dor de cabeça.
As memórias relacionadas ao hospital não estão perturbando tanto, por ter
corrido muito atrás, mesmo as coisas não acontecendo, e relata que conseguiu
voltar a ver borboletas, que para P3 tem um sentido de conexão com a filha.
Em novo rastreamento, a memória a ser trabalhada foi escolhida como o
último momento em que percebeu a filha viva, sorrindo. Só de enquadrar a memória
por meio do ICES a cabeça de P3 voltou a doer. No processamento, memórias com
a criança do abrigo, com velório e enterro, e também as “coisinhas do dia a dia, das
bobeirinhas, das carinhas e bocas”. Destaque especial para a lembrança da única
165

vez que a filha emitiu um som, em um passeio de família. Assim, P3 encerra essa
sessão com uma CP fui uma boa mãe totalmente verdadeira.
Já sem os flashbacks recorrentes e sem angústia, com dor de cabeça bem
reduzida, conta que não sente mais a ardência no peito. “Então, tenho ficado bem.
Não tenho mais aquelas... doideiras na cabeça não. Eu lembro dela e tudo, lembro
de alguns episódios, mas nada que me deixe perturbada.”
Inclusive foi capaz de estar com uma das profissionais que cuidou da filha,
que precisou colocar uma sonda, e achou que iria entrar em desespero ao vê-la. Ao
contrário, “estive com ela, vi o ferimento, ajudei no curativo, porque eu fui junto pra
ajudar”.
Relata sonhos tumultuados, sem pé nem cabeça, mas sem qualquer
perturbação. E, nessa semana em especial, houve uma noite que dormiu doze horas
seguidas, algo incomum.
A ideia era trabalhar com o alvo o dia anterior quando, segundo P3, a filha
teve a “melhora da morte”, no mesmo dia em que houve o problema com a médica,
quando eles mudaram o protocolo e a forma de lidarem com a situação, “passando a
culpa pra mim”. Contudo, a memória escolhida para trabalhar foi diretamente com a
filha na UTI, ajudando em alguns procedimentos com ela, e durante o
processamento.

Só a canseira que eu fiquei. E eu querendo ficar acordada pra poder fazer


alguma coisa diferente. Mesmo assim eu dormi. E quando eu acordei ela já
tava já... já tava já mal e me pediram pra sair, porque aí tinham que entubar
ela.

Outras lembranças surgiram em turbilhão, destravando o pensamento de que


foi o melhor, uma vez que ela ficaria cheia de aparelhos e raiva de ter que se
consolar, “que foi o melhor, porque a vida inteira eles são taxados como especiais. A
condição é essa, não tem o que fazer.” Segundo ela, toda a luta de cinco anos com
ela, por ela ser especial, e agora deve ficar “esperando a hora de [ela] morrer”.
Aparece também uma outra fala da médica, de que não era isso que ela
queria, mas a cabeça tem dificuldade de aceitar. Nesse momento observa um alívio
na dor de cabeça até finalizar como sessão completa.
Na sessão 6 menciona o retorno do medo de tudo, a dor no peito bem
pequena por um dia e mais pensamentos, que atribui à ociosidade no trabalho.
166

Relata ter recebido um comunicado do cemitério para retirar as coisas da sepultura


(cata-vento, borboleta, muitas flores) e conseguiu contornar, sem ter ficado
perturbada.
O trabalho realizado com a lembrança da fala da médica representava a
forma como a filha foi tratada no hospital, em especial por terem tentado jogar a
culpa em P3. Novamente as cenas “ficaram martelando”. E, observando essas
lembranças, veio o pensamento do porquê não ficou em casa. Assim, teria evitado
todo o sofrimento da filha naqueles últimos momentos, com seis paradas cardíacas
e seis reanimações. Ao final, as palavras fiz o melhor que eu pude se fortaleceram.
Após uma semana “sem muito drama”, mais uma sessão foi necessária para
finalizar o trabalho com essa memória, processando a raiva, dando oportunidade de
trabalhar mais um alvo que pode ser trabalhado, a filha entubada. Com a maior
perturbação de todos as memórias, esse processamento surge como uma
negociação por estar muito difícil ver a filha sofrer daquela maneira. “Só consegue
vim na cabeça, não é um desejo do que aconteceu, mas uma sensação de que eu
não queria que fosse pior do que está.”
Sempre acreditei que ela fosse superar todos os “probleminhas de saúde”,
mas estava visivelmente insuportável ver sua filha sofrer.

Eu sempre acredito que fui uma boa mãe, apesar de algumas coisas
cutucarem para não. Tem hora que me vem assim... Não fui uma vez só.
Que foi meio uma negociação de espíritos que aconteceu. Porque eu não
falei nada, eu elevei o pensamento com aquele sentimento, até quando? Já
deu! Não pode piorar mais que isso. […]Aí, as vezes eu tenho essa
sensação que foi uma despedida, assim...É, pra você tá difícil, realmente,
então, deixa ir.

Nesse momento, P3 percebe a emoção daquela segunda-feira, “a última vez


que ela acordou em casa... aí, vai lembrando dos detalhes [...] A bichinha sorria o
tempo inteiro, mesmo internada. Só sorriso. Só saudade mesmo que fica.”
A semana subsequente foi tranquila, mas teve um episódio de dor disparada
pela ligação de uma amiga, contando os problemas da filha que também é especial,
fazendo com que se lembrasse do que viveu e associando ao trabalho que tem sido
feito com o EMDR.
Mais uma cena da filha na UTI é trabalhada, e P3 percebe uma mudança no
padrão do processamento por não conseguir focar nas memórias perturbadoras. “Só
167

consigo pensar em alma, algo mais espiritual. [...] Só consigo pensar na alma. Não
consigo pensar no corpo. É por isso que eu acho que... que eu não foquei tanto lá.
Só me vem na cabeça a alma e o espírito, só. Não o físico”. Em seguida vem um
pensamento de que “já tinha acabado”. Focando em eu posso seguir, P3 se
tranquiliza.
No próximo encontro, sessão 9, P3 relata ter passado uma semana tranquila,
estar se sentindo muito bem, tendo conseguido mexer em fotos antigas de todas as
fases da filha, sem questionamentos, sem perturbação, sem flashbacks. Apenas
com a saudade.
O alvo para essa sessão foi relacionado aos rituais funerários. Mencionando
um cuidado com o qual não estava acostumada, ainda no hospital, pediram “Vou
pedir licença pra senhora, que esse momento é muito difícil pra família”. Em uma
das cadeias que surgiram, veio a sensação de que “eu ia ter ela sempre pertinho de
mim, independente de ela tá aqui viva, em carne ou espírito, ela ia tá sempre
pertinho”.
Ao longo da semana, percebe-se mais irritada, com vontade novamente de
sumir, e, na conversa, revela que foi contatada pela psicóloga do abrigo, que
ofereceu a adoção da criança de lá, sobre quem sempre comenta. E “abri a boca e
chorava no meio da sala de psicologia da doutora”.

Uai, gente, como que eles vão... mesmo que eu quisesse adoção, como que
eles vão me liberar uma criança, eu com o psicológico todo abalado assim
por causa dos cuidados e tudo mais com a [apelido da filha]. E isso ainda
mexe comigo, assim de eu pensar no futuro né, responsabilidade de cuidar
de uma vida, independente se essa vida está saudável ou não.

Nessa última sessão, relata que, em relação à filha, não é “nada que me
maltrata tanto igual maltratava, mas quando eu penso nela eu sinto, claro, eu sinto
saudade, normalmente, se fala muito, eu acabo chorando, não tem jeito”. Então, o
alvo foi o disparador de outras crianças, e a cena escolhida para o trabalho foi a da
sogra (que também é sua tia) acamada há muito tempo. Essa memória foi finalizada
com a CP sou realista, confiante em sua decisão de não adotar a criança, por
motivos racionais, inclusive relacionados a dinheiro.
Ao final de 10 sessões, pode-se juntar os desdobramentos das memórias-
chave registradas no Quadro 9.
168

Quadro 9 – Plano de Tratamento Desdobramentos P3


Fonte: Autora

7.3.3 Avaliação final

Embora P3 tenha mencionado alguns itens durante o período de avaliação


inicial que acabaram sendo incorporados ao respectivo PTr, reavaliando todo o
processo psicoterápico e as memórias processadas, fica óbvio que as memórias
pertubadoras estavam todas relacionadas ao período circundante à morte de sua
filha. Os alvos que foram identificados na queixa inicial podem ser agora
identificados como sentimentos e emoções advindos desse período crítico
vivenciado. Em especial, à semana que antecedeu a morte. Isso traz a reflexão
sobre importância dos cuidados ofertados pelas equipes de saúde nas situações
críticas, assunto que será retomado mais adiante.
Um desses alvos é a síndrome da coitadinha, compreendida posteriormente
como a sensação de nada mais fazia sentido.
No momento da avaliação final, P3 percebe que foi relatando as mudanças
gradativamente a cada sessão, informando que começou a sentir diferença já nas
primeiras sessões, em relação ao agir e ao reagir em algumas situações,
conseguindo lidar com elas de forma não mais traumatizante. Além disso, ao
preencher os documentos de avaliação, comenta como está totalmente diferente,
169

tecendo o seguinte comentário: “Nossa! Eu estou bem demais, estou me


surpreendendo”. Durante esse momento também foi registrado o emagrecimento ao
longo do processo psicoterápico, com menos seis quilos em relação a seu peso
original.
Os resultados comparativos de BDI e DES-II são extremamente significativos
para P3 e compatíveis com as mudanças apresentadas ao fim do tratamento,
indicando um alívio geral dos sintomas. Mesmo que ela não apresentasse um
quadro depressivo no início da investigação, a redução nos escores do BDI indicam
a redução da tristeza. Todos os resultados de P3 estão compilados em gráficos
apresentados no Apêndice N para melhor visualização.
A redução observada no DES-II, por sua vez, é compatível com as mudanças
relatadas em relação a memória e atenção. Em um dos itens do questionário, relata
“esse quatorze aqui, de viver intensamente como se estivesse lá, não tem
acontecido mais”.
Ao comparar os registros do HGRC nas avaliações inicial e final,
impressionam as alterações que indicam mudanças em todas as áreas da vida de
P3 quanto ao luto, sejam na experiência, nos comportamentos, ou no alívio dos
sintomas.
Comentado cada subescala do HGRC, no quesito desespero, os itens
assinalados no início, a saber “não tenho esperanças”, “eu tenho pouco controle
sobre a minha tristeza”, “parece que estou em choque”, “eu acredito que eu devia ter
morrido e ela vivido”, “acredito que nunca mais vou ser feliz de novo”, “eu sofro
muito pensando em sua morte”, “choro com frequência”, que a descreviam
razoavelmente, passaram a não descrevê-la em nada. A afirmação “parece que
estou em choque” é compatível com a hipótese levantada de que, após um período
decorrente de seu luto, as manifestações iniciais do choque foram por ela
percebidas, com todas as reações das memórias que não foram adaptadas. As
afirmações “eu sinto um peso no meu coração”, que indica também um sintoma
físico, e “sinto-me sem esperança”, por ela indicadas como as que melhor a
descreviam, foram completamente modificadas, e seu registro após o tratamento é
de que não a descreviam em nada. A conclusão é de que não existem mais registros
do desespero em P3.
170

Na subescala de desinteresse/indiferença, “eu me preocupo quando me sinto


inútil”, “sinto como se não me conhecesse”, afirmações de maior representação
antes do uso do EMDR, representam bem como P3 se sentia em relação à falta de
atividades após a morte de sua filha, sem saber que rumo tomar na vida profissional
e na pessoal, com inúmeras dúvidas que a assolavam, como foi visto inicialmente.
Também ficou claro, durante a apresentação, que ela não havia se adaptado aos
novos papéis deflagrados com a ausência da filha e a necessidade de se adequar a
ela. Essa dificuldade também está associada à afirmação “estou confuso(a) sobre
quem sou eu”, que inicialmente sentia que a descrevia bem. As afirmações “perdi
minha confiança”, “sinto-me incapaz de enfrentar esta experiência” e “tenho medo de
perder o controle” pareciam estar relacionadas à intensidade das reações, inclusive
físicas, que sentia. A culpa incessante também inicialmente a descrevia bem. Por
fim, nesta subescala, “sinto-me desapegado dos outros”, afirmação que poderia
estar atrelada até mesmo ao medo de perder alguém novamente por algo que
fizesse de errado. Todas as afirmações dessa escala foram assinaladas como não a
descrevendo em nada ao final do tratamento, registro de suas mudanças.
Em relação ao comportamento de pânico, compatível com os sintomas físicos
que podem advir de uma situação traumática, apresentava, na avaliação inicial, de
forma integral as seguintes afirmações: “às vezes meu coração bate mais forte do
que o normal”, “frequentemente tenho tensão muscular”, “eu tenho ataques de
pânico por nada”, “estou frequentemente cansada”. Como a descrevendo bem,
assinalou as afirmações “frequentemente tenho dores de cabeça” e “frequentemente
me sinto com medo”. Além disso, “eu me sinto abalado” e “tenho falta de ar” a
descreviam bem. P3 ainda apresentava preocupação excessiva, queimação no
estômago, tontura e dores nas costas. À avaliação final, P3 assinalou estar
completamente livre de todos esses sintomas.
A respeito dessas reações, P3 faz um interessante depoimento:

Porque antes dava realmente uma resposta no corpo que era incrível, subia,
descia, dava peso na cabeça, parecia que tinha uma tonelada e nos
finalmente mesmo, nos últimos três, quatro sessões, eu já nem sentia mais
dor de cabeça, peso na cabeça, nada. [...] E assim, no dia a dia, também
aquela dor no peito constante eu já não sinto mais, porque era constante,
ela era vinte e quatro horas, de manhã de tarde de noite aquela ardência,
aquela dor no peito.
171

Além disso, as mudanças em relação à dor de cabeça foram significativas


para ela. “Aquela questão da cabeça pesando, pesando, a sensação que eu tinha
era que a minha cabeça estava uma melancia de enorme, de pesada. E, aos poucos
[...], você ia sentindo aquele alívio na cabeça.”
Na subescala de desorganização, também houve mudança em todos os itens
observados por ela antes do tratamento: dificuldade de concentração e dificuldade
com pensamentos abstratos nos níveis mais altos do HGRC, dificuldade de lembrar
de novas informações, com grande representação, seguida de dificuldades de
lembrar de coisas do passado, com menor intensidade. Todos esses itens estavam
ausentes da avaliação final.
Em relação à culpa e à raiva, inicialmente, mágoa e vingança a descreviam
muito bem, seguidas de amargura, sentimentos hostis e, com pouca intensidade,
manifestava raiva. Apenas a raiva se manteve no mesmo nível de descrevê-la pouco
bem. Os demais não foram registrados.
Por fim, a subescala de crescimento pessoal também apresentou alterações
visíveis, variando de uma vida sem perspectiva e sem esperança no futuro, com
nenhuma tolerância consigo mesma, alcançando níveis máximos na avaliação final.
Algumas afirmações que já a descreviam razoavelmente bem, como “eu aprendi a
enfrentar melhor a vida”, “eu me sinto como se fosse uma pessoa melhor”, “tenho
mais compaixão pelos outros”, “estou mais forte devido ao luto que passei”, “sou
mais tolerante com os outros”, “estou tendo mais dias bons do que ruins”, “eu me
preocupo mais com os outros” alcançaram também os níveis máximos da subescala
de crescimento pessoal. Apenas o item relacionado ao perdão se manteve sem
alteração, continuando no patamar de descrevê-la razoavelmente bem. E o item da
falta de importância da perda em sua vida passou a não descrevê-la em nada, o que
permite a interpretação de que ela acomodou a perda de uma forma mais adequada,
provavelmente a partir da clareza que surgiu, ao longo do tratamento, sobre o
aspecto traumático da perda.
Uma das mudanças observadas por P3 está relacionada a não se incomodar
mais com postagens nas redes sociais relacionadas à filha ou a outras lembranças.

E me incomodava, doía, me fazia chorar, e essa semana mesmo foram


duas repostagens que alguém fez, e, para mim, foi algo até bacana, foi uma
lembrança bonita, foi um momento de lembrar coisas boas que aconteceu e
não de se amargurar pelo que aconteceu, né?
172

Só de ver uma imagem dela, já me transtornava, já me deixava mal, já me


fazia chorar, já mudava todo o meu dia, já me estressava porque quando
você está com a cabeça cheia e tudo ao lado parece que te explode. E isso
também melhorou bastante.

Relata também que os pensamentos considerados improdutivos de relacionados a


não ter perspectiva de futuro começaram a se modificar.

E hoje a gente já consegue ter uma perspectiva, uma visão de futuro,


desejos de coisas futuras que eu já não tinha mais, né? Pensar em algo
diferente para mim, querer voltar a ser tudo o que um dia eu realmente fui e
não simplesmente um reflexo daquele trauma que eu passei né. Que era o
que estava sendo quando eu me inscrevi e pedi socorro, estava sendo
assim, minha vida toda girava em volta de ai porque eu tive que passar por
tudo isso, ai que perdeu o sentido de tudo, ai que frustração por isso.

Não vou falar que eu vou saltar de alegria por causa do que aconteceu,
porque eu acho que isso nunca vai acontecer, mas que eu lido de maneira
extraordinariamente diferente [...] até os sintomas que eu sentia aqui
durante o processo foi deixando de existir.

Parece também haver uma aprendizagem em relação ao processamento de


memórias, quando P3 menciona o que acontecia com os disparadores.

[...] sintomas que eram totalmente, você via que era por causa de algo que
você ouviu ou por causa de algo que você viu e o seu corpo respondia
automaticamente. E... e eu não tenho mais esses sintomas.

A percepção que o participante teve da correlação entre as memórias não


adaptativas, os sintomas e as reações apresentadas, podem ser conferidas em “...eu
estava vivendo muito presa as coisas ruins que aconteceu e isso estava frustrando”.
Isso inclui as dificuldades de se adaptar à sua vida sem a filha, pois não mais
precisando cuidar dela diuturnamente, sentia que sua vida havia perdido a função.
Em relação aos benefícios percebidos, P3 se manifesta: “hoje eu me sinto
mais capaz, mais fortalecida para isso, com certeza. Foi uma ajuda e tanto, valeu a
pena pedir socorro”.
P3 hoje se percebe capaz de conviver com a morte da filha, sem ter vontade
de desistir do mundo. Segundo ela, “desistir não é só tirar a própria vida, desistir é
se acomodar, e era o que estava acontecendo comigo”. Comisso, a vontade de se
173

desenvolver reapareceu, acompanhada de pensamentos bons, de futuro, de querer,


“de vida mesmo”.
Outra mudança significativa para ela é a decisão pessoal de não querer ter
mais filhos ou assumir aquela menina do abrigo, a quem pretende apadrinhar. Essa
decisão está pautada em uma avaliação racional a respeito de sua vida atual e a
opção de não querer novamente abrir mão de si mesma para cuidar do outro. Com
tranquilidade afirma que fez tudo pela filha, até além do que acha possível para um
ser humano, e que não tem mais porque se culpar. Que é lícito também se
preocupar com o sofrimento da filha.

Não é só o fato de você privar da sua vida profissional, física, não é só esse
fato. É o fato do ser humano que está ali do outro lado também, né? Então,
assim, tudo isso foi se encaixando na minha cabeça e vendo que é algo que
é um sentimento meu e não tem porque eu me culpar por causa disso.

Ao falar sobre essa criança, com quem tem um bom vínculo, pergunta a opinião da
pesquisadora sobre se para ela, menina, é bom manter visitação. Devolvendo a
questão, esclarece-se de que P3 aprendeu a cuidar de si mesma e respeitar seus
limites. Com isso, P3 afirma “é ser egoísta também pensar em mim” e traz um trecho
de Padre Fábio de Melo:
A gente pode pensar na gente em primeiro lugar, até para receber o amor
de Deus a gente tem que antes se amar, né? Antes querer se cuidar e não
pensar só no que está ao lado, no que os outros vão pensar.

Nesse momento, P3 percebe algumas mudanças em sua relação com o


marido, com quem tem divergência de gostos e ritmos, pois passou a sair e fazer
coisas de que gosta, em uma maior adaptação social, alegando “eu estou sabendo
lidar com isso”. Mesmo ainda com estresse no relacionamento, atribuído aos vinte e
quatro anos de convivência e a todas as dificuldades enfrentadas, “enquanto o amor
for maior do que essa intolerância a todos os anseios que eu tenho pra uma vida, a
gente está ali firme”. Afirmação feita com clareza e sem dúvidas.
E, com bom humor, considera outra mudança afetiva em relação ao marido...

Eu tenho uma responsabilidade eterna com essa pessoa. A gente teve uma
filha, uma filha que está enterrada. E isso pesa também... pesava, né? Hoje
eu sei que não é isso. Hoje eu sei que, apesar de todos os problemas,
realmente é você amar e querer estar junto, né, apesar de todas as
174

dificuldades. Eu acho que eu estou normal, doutora, mas o laudo é da


senhora!

Menciona a vivacidade das memórias e as mudanças experimentadas com o


processamento.

“...tinha momentos que parecia que eu estava ao vivo lá acho que até a
minha cara mostrava né, queria assistir o vídeo de novo para poder ver,
porque tinha momentos que você tinha a sensação de que você estava lá,
que isso aqui tinha virado um centro de UTI.”

“Não vou falar que eu vou saltar de alegria por causa do que aconteceu,
porque eu acho que isso nunca vai acontecer, mas que eu lido de maneira
extraordinariamente diferente.”

Atualmente P3 refere-se a uma saudade consciente de que os traumas


passaram, uma saudade minimizada, considerando a perspectiva do PTr em relação
ao futuro, que era justamente que essas memórias difíceis ficassem no passado.
Segundo ela, “ver o futuro baseado no que eu já não quero é um bom pensamento”.
Não há dúvidas, portanto, das mudanças proporcionadas pelo EMDR para o
processo de luto de P3, com visíveis mudanças na experiência subjetiva, nos
comportamentos e na redução dos sintomas. Mantendo com sua filha, a maior
mudança de todas, a possibilidade de sentir uma saudade genuína: “Me fez lembrar,
me fez lembrar com carinho, me fez lembrar dos detalhes dela, me fez nossa como
ela era bonita, gente, me fez ter saudade. Com certeza, isso eu vou ter o resto da
vida.”
O EMDR, para P3, possibilitou surgir, em meio ao horror das memórias da
última semana de vida da filha, a frase que coroa sua memória: “você foi e sempre
será o anjo de nossas vidas”.

7.4 PARTICIPANTE 4

7.4.1 Relato do Caso

P4, com 34 anos, casada, agnóstica, exercendo a atividade de representante


comercial da qual está gozando de licença maternidade, após o nascimento do
segundo filho dois meses antes de se oferecer para participar da pesquisa, enfrenta
175

o luto pela perda de seu primogênito em função de negligência. Ela estava na 41ª
semana quando o bebê parou de mexer e foi obrigada a se submeter a um parto
cesáreo, que se tornou um de seus piores pesadelos. A perda ocorreu exatos dois
anos antes do início de sua participação na pesquisa.
Ao chegar para o primeiro encontro, traz o bebê praticamente recém-nascido
e surpreende a pesquisadora. O bebê nasceu na semana em que iria participar de
sua segunda reunião no API/Vitória, onde foi em busca de auxílio para enfrentar o
luto por seu primeiro filho.
Seu pedido de ajuda nesse processo é para aprender a conviver com o luto.
“Eu não tenho como deixá-lo, né? O luto eu acho que é para vida toda”. Nesse
sentido, tem afirmações muito fortes, como “A morte é o fim!.... A morte é o fim da
vida dele como se fosse o fim da minha vida. Então ela não é uma vírgula. É um
ponto final!”
Após o nascimento do segundo filho, abriu uma ambivalência, por antes ter
todo o tempo do mundo para vivenciar esse luto.

Agora o tempo tá, tá, tá sendo preenchido, né?... tem as necessidades dele,
né? Eu não consigo pensar 24 horas como eu pensava antes. De... quase
nem dormir pensando, né? Então agora [...] a vida e a morte tão convivendo
ali, né?

Contudo, relata que o luto diminuiu após o nascimento. Segundo ela, não teve
gestação e “conheci [filho 2] no dia que ele nasceu [...] não me sentia grávida, minha
barriga só tava grande. Minha gravidez foi fisiológica, não foi psicológica”.
Atualmente sente falta da rede de apoio que existia nos primeiros momentos
do luto, em especial porque após nascimento do [filho 2] as pessoas começaram a
cobrar atitudes, o que a fez afastar-se de todo mundo. O único que respeitava seu
ritmo era o marido.
Fez uns dez meses de psicoterapia convencional (da fala), que foi
abandonando até parar de vez.

Quando eu fui para a terapia, eu achava que havia um caminho, e que eu


não sabia qual caminho que era. Que havia uma saída. Eu fui com esse,
com essa... com esse intuito. E aí, eu acho que a gente trabalhou... tudo
que podia ter trabalhado, e quando foi chegando próximo a um ano eu
cheguei à conclusão de que não, não tinha mais nada para fazer. Não... Era
176

aquilo o luto e não tem caminho! (ênfase) Era o ponto final mesmo. Então
daí eu desisti.

Nesse momento, queria ser melhor para o filho recém-chegado, mais inteira,
porém duvida se irá conseguir.
Relata ter muitos pensamentos recorrentes relacionados ao que aconteceu,
que acontecem diariamente como que em flashbacks e repetecos na cabeça.
Apresenta pesadelos frequentes e dificuldades com o sono. Relata ter tido
pensamentos suicidas, apresenta nervoso/ataques de fúria, dificuldades para sair de
casa e se vê diferente no espelho.
A perda do primogênito deixou-a em uma situação de impotência, e chegou a
abandonar o trabalho. Logo no início do luto, os pensamentos suicidas se
manifestaram. Fez tratamento psiquiátrico para depressão com uso de medicação,
tendo passado por vários médicos.
Embora a chegada do segundo filho tenha tornado a vida mais fácil, as datas
comemorativas a deixam muito para baixo. “Uma angústia! Uma angústia! Uma
angustia! Uma raiva! Vontade de... sabe? Vontade de... Chorar, de gritar, de
desabafar, e tendo de conter tudo isso [...] uma clausura dentro do próprio corpo”.
Informa que, após o luto, passou a fugir de todas as situações difíceis ou de
estresse. Relata não saber como lidar com a raiva, contudo imagina que pode ser
com a explosividade. Conta apenas com o marido como apoio nas horas difíceis.
O procedimento de apresentação da pesquisa, concordância e assinatura do
TCLE, bem como a avaliação inicial com todos os instrumentos previstos no método,
foram realizados em dois encontros presenciais, seguidos de 9 sessões de EMDR.
O PTr, construído durante a AI, pode ser identificado logo abaixo no Gráfico. Foram
realizadas 9 sessões de EMDR, seguidas de uma avaliação final. Toda a sequência
das sessões de EMDR podem ser acompanhadas no apêndice XXX
177

7.4.2 P4 e o EMDR

Quadro 10 – Plano de Tratamento P4


Fonte: Autora

A instalação do Lugar Tranquilo foi difícil, tendo sido necessário acrescentar


alguns outros recursos de regulação emocional, incluindo o Abraço de Borboleta.
O primeiro alvo a ser trabalho foi justamente a reprise, ou flahsbacks
constantes, em uma sessão de processamento intenso, surge o LT, alternado com
parte do cemitério, o dia em que tiraram fotos da barriga na praia e diálogo sobre o
que era culpa da médica e o que era culpa dela mesma. Alternando intensidades de
dores de cabeça, finaliza a sessão de forma estável.
A sessão seguinte traz o relato de angústia, tristeza e choro constantes, e o
LT apresenta agora um mar revolto. Até o [filho 2] está agitado. Com SUDS residual
de 8, segue o processamento, de onde chega o dia “em que ele partiu”, “o vazio que
foi”, a busca de sentido, solidão, falta de interesse nas coisas. Acha que não vai dar
conta do segundo filho e, ao falar isso, observa o tremor nas pernas. Várias
memórias chegam, bem como a descrença, “acho que nunca vou melhorar”.
Na sessão 3, observa piora, sentindo-se em ebulição e chorando muito, e
percebe em pequenas coisas que está desestabilizada. Durante a sequência desse
processamento surgem sintomas físicos junto à sensação de impotência com a
afirmação de que “queria ficar louca”. Ao final da sessão, relata redução dos
178

sintomas físicos e a percepção de estar bem. Por segurança e precaução, solicitei


que ela procurasse o psiquiatra que estava na retaguarda caso algo assim surgisse.
Contudo, na sessão seguinte, apresenta grande piora após “um pouquinho
melhor, mas foi só um pouco e só!” Foi ao psiquiatra, que prescreveu medicação
para depressão, diagnóstico dado por ele. P4 iniciou o tratamento imediatamente.
Segundo ela, ao longo da semana, a falta de controle ficou mais intensa. Em uma
sessão de reenquadramento para definir novos rumos de intervenção, são
observadas outras crises concomitantes. P4 deve voltar a trabalhar nos próximos
dois meses e ainda não se sente preparada, mas o marido está desempregado há
algum tempo e então ela não terá outra opção.
Outro fator “gatilho” é a presença da mãe com câncer. Segundo P4, não
consegue acompanhar a mãe nos tratamentos, o que faz com que se sinta
sobrecarregada ao mesmo tempo que desamparada. A última crise da mãe
corresponde ao período em que P4 apresentou a piora de todo o quadro.
Em relação à infância, tem muitas lembranças positivas, mas também muitas
situações críticas vivenciadas com seus pais. O pai tinha quadro depressivo e com
frequência dizia que a culpa de algo que desse errado era de P4. Sempre muito
nervoso, o pai xingava muito. Com 17 anos, P4 teve uma crise depressiva quando
saiu de casa para estudar, ocasião em que fez apenas tratamento medicamentoso.
Todas essas memórias estavam associadas ao sentimento de desamparo, muito
semelhante ao que tem vivenciado na medida em que sua mãe não pode ampará-la
por estar enfrentando ela própria uma situação bem difícil. Mesmo com as
dificuldades do pai, relata que era muito próxima dele, e que suas piores dificuldades
com ambos começaram no período de sua adolescência.
Toda a família de tronco materno tem histórico de câncer e, por conseguinte,
de muitas perdas. Mas ainda é muito unida, tendo tido afastamento maior após a
morte de sua avó materna.
Conheceu o marido na faculdade, e mantiveram um relacionamento por dez
anos antes de casarem. Pensava,

E eu ficava com muito medo de ter um filho logo, porque nossa família
nenhuma é daqui. Nem a minha nem a dele. Então eu pensava assim: e se
precisasse e viesse uma criança que tem alguma necessidade... como que
a gente, né, sem uma estrutura mínima a gente vai conseguir, passar por
essa... Então eu tinha essa preocupação.
179

Após a morte do filho não se sentiu apoiada, e cada um tinha uma teoria para
explicar o que tinha acontecido.

Eu acho que foi negligência da médica, foi negligência nossa. E que podia
ter sido diferente. E eles achavam não, que não podia ser diferente [...]
Porque eu tive sintomas de que ele tava com insuficiência placentária. E eu
fui lá e ela desdenhou. Então ela falou que eu tava muito nervosa. E eu
achei que fosse, porque eu tava mesmo. Tava envolvida com um monte de
coisa.
39 e seis, [nome diminutivo de T]! Ele começou, ele parou de mexer com 39
e quatro. E eu fui na médica com 39 e cinco. Ele tava vivo. Ela escutou o
coração dele. (silêncio) e aí 39 e seis eu fui fazer o exame. Podia... Se eu
tivesse feito no dia que saí do consultório, talvez a gente conseguiria...

Não percebe qualquer possibilidade de apoio com outras pessoas e não


conversa com o marido para não deixar ele mal. Assim, retoma como chegou até
aqui. “Se pudesse ficava deitada”. De posse de todas essas novas informações, um
PTr é construído um PTr expandido a partir dos objetivos originais, conforme o visto
no quadro.

Quadro 11 – Plano de Tratamento Desdobramentos I P4


Fonte: Autora

Na sessão seguinte, veio com o [filho 2] e uma nova babá, demosntrando


uma interação com ele diferente do que foi observado no encontro inicial. Com a
terapuetia ciente de todas as dificulades, um novo plano de ação é colocado em
180

prática por meio de um PTr voltado para o desenvolvimento de recursos no gráfico


abaixo. Foram aplicados o Procolo de Pilares da Vida (EMDR INSTITUTE, 2017),
exercício do container e novamente exercícios de respiração. Todos com difícil
acesso, mas com perseverança, os resultados começaram a ser observados. Após
esses cuidados, é estabelecida uma atividade de processamento da crença limitante
por meio da qual ela acredita que não vai melhorar.
Por meio de um desenho onde se posiciona deitada, estabelece como CN
sou esquisita.

P4 – Me lembrei de uma situação... uma colega sua, uma psicóloga, no


caso do [filho 1] ainda que... não lembro o que aconteceu, se ela me
perguntou alguma coisa, e se ela esperava que a resposta seria… fosse
boa e foi ruim, ou ao contrário! E ela virou e: você é esquisita! [risos]
Lembrei exatamente disso!

Na continuidade do processamento, a respiração começou a melhorar, em


meio a pensamentos como “me sinto uma deficiente”, “não vou conseguir aprender a
viver sem ele”. Ao final da sessão, estava aparentemente mais tranquila.
Nas últimas duas sessões, o processamento desse mesmo alvo foi seguido
por redução gradativa da perturbação, enquanto P5 vai circulando entre memórias
de morte e de vida. Seu estado geral começa a melhorar.
Uma das coisas muito difíceis que surgiram, é que o único lugar onde P5
levou o [filho 1] foi o cemitério, e que uma de suas dificuldades é que não
apresentava memórias dele vivo. No entanto, ao final dessa última sessão, após um
entrelaçamento terapêutico questionando sobre memórias de quando ele ainda
estava na barriga, P5 menciona.

P4 – Uns quinze dias antes dele nascer, eu cismei que eu precisava


comprar uma roupa bem bonita, pro primeiro dia, para o dia que ele
nascesse [...] Tinha comprado pra ele sair da maternidade [...] A primeira
roupa dele. [...] Fui e comprei (quase inaudível). Uma roupa bem bonita pra
ele. [...] Foi a única roupa que ele usou...
T – Você tá com essa imagem?
P4 – Uhum.
T – E é uma imagem... de carinho com [filho 1], né? Que mostra toda a sua
preocupação, de fazer o seu melhor pra ele. Tudo bem se a gente encerrar
aqui com essa imagem?
181

Quadro 12 – Plano de Tratamento Desdobramentos II P4


Fonte: Autora

O fato de P4 não ter memórias com o filho, pois quando o pegou no colo ele
já estava sem vida, pode ser um fator complicador para o luto.
Além disso, outras crises concomitantes estavam acontecendo: o nascimento
de seu segundo filho obrigou-a a deixar seu próprio processo de luto para cuidar da
nova vida, movimento que traz enorme ambivalência, pois, ao mesmo tempo em que
cuida do novo rebento, imagina as oportunidades que perdeu, por não ter podido
maternar o primeiro filho. Segundo P4, ela mesma o levou nos braços para a
sepultura, o que é uma memória muito dolorosa.

7.4.3 Avaliação final

Em relação aos resultados do HGRC, Os gráficos (APÊNDICE P) indicam que


a mudança mais fácil de ser observada encontra-se relacionada à subescala do
Comportamento de Pânico, embora exista um movimento em todas elas, mesmo
que pequeno. Em trabalhos com enlutados, o objetivo principal é dar os primeiros
pequenos passos em direção à adaptação à perda, ainda que seja um longo
caminho, como parece ser para P4.
182

Apresentando os dados das subescalas, na relacionada ao Desespero, três


subitens ainda preocupam e podem ser também remanescentes do quadro
depressivo observado durante essa intervenção. Então, as afirmações,
“eu acredito que eu deveria ter morrido e ele vivido”, “eu sofro muito pensando
em sua morte” e “tenho dificuldade em aceitar a permanência da morte” apresentam-
se em sua máxima representação. A afirmação “não tenho esperanças” aumentou
bem pouco, mas pode também ser resquício do quadro depressivo. O item “quero
morrer para ficar com ele” não tem relevância no momento, o que tranquiliza em
relação à ideação suicida, mas não minimiza a importância de rastrear os riscos de
suicídio em todos os encontros. Esse cuidado é presente em função da preocupação
da pesquisadora em relação a esse risco e foi redobrado quando P1 apresentou
sintomas compatíveis com depressão. Os outros itens apresentados, “eu me
preocupo excessivamente”, “Parece que estou em choque”, “Eu sinto um peso no
meu coração”, “Acredito que nunca mais vou ser feliz de novo”, “Sinto como se
estivesse sonâmbula”, “Sinto-me sem esperança”, “Choro com frequência”, “Sofro
com a minha solidão” apresentaram alguma redução, o que permite afirmar que a
intervenção está no caminho de atingir seu objetivo de favorecer a adaptação após a
morte de um ente querido.
Em relação à subescala Desinteresse/Indiferença, quatro de suas afirmações
mantiveram-se inalteradas, em nível máximo de representatividade, a saber, “Estou
confuso(a) com quem sou eu”, “perdi minha confiança”, “Sinto-me desapegado dos
outros”, “Sinto como se não me conhecesse”. Talvez a crise de isolamento social
seja seu cartão de visitas, observado aqui neste gráfico. A grande mudança é que
ela passou a se sentir mais capaz de enfrentar essa experiência. Uma mudança em
menor grau, mas de grande importância em função de seu quadro geral, é a
afirmação de se preocupar quando se sente inútil, indicando um movimento inicial
para a orientação à restauração. Os demais itens apresentaram discreta redução.
Quanto ao comportamento de pânico, duas afirmações permaneceram
inalteradas, “Às vezes meu coração bate mais forte que o normal” e “eu me assusto
facilmente”, que acrescidas da informação “Eu me preocupo excessivamente” e de
ter medo frequente, permite inferir que há ainda muito incômodo no sentido de P4
ficar ainda sobressaltada, mesmo com as outras reações físicas tendo diminuído,
com destaque para o desaparecimento da dor nas costas. Além disso, reduziram-se
os ataques de pânico e os outros sintomas físicos.
183

No que diz respeito à desorganização, à dificuldade de concentração, de


aprender coisas novas, dificuldade em relação a pensamentos abstratos, bem como
dificuldade em lembrar-se de novas informações, permanecem em seu nível máximo
na avaliação final. Pode ser um sinal de que seu cérebro ainda esteja
sobrecarregado com as memórias disfuncionais, pois as outras afirmações, embora
menos verdadeiras, ainda se fazem representar.
Na subescala Culpa/Raiva, a presença de sentimentos hostis permanece
inalterada. Observa-se redução de “culpar os outros” de descrevendo-a muito bem,
para descrevendo-a pouco bem, isso permite afirmar que parte de sua culpa está
sendo digerida. A amargura, a mágoa, vingança e raiva parecem ter começado a se
dissolver.
Por fim, a observação em relação ao Crescimento Pessoal é de que houve
melhora em aprender a enfrentar a vida, em relação à avaliação anterior. Em
contrapartida, a afirmação a respeito de se sentir mais forte com o luto que passou,
decresceu a ponto de não descrevê-la, “ser tolerante consigo” e “perdoar facilmente”
mantiveram-se no mesmo patamar, e P4 apresenta mais compaixão e tolerância em
relação aos outros, tendo discreta melhora em relação a ter esperança para o futuro.
Houve também redução na escala de DES-II, mas que não se coaduna com a
questão de memória e concentração apresentada no Hogan. Então não há certeza
do que isso representa.
Em relação ao BDI, sem depressão identificada no início da intervenção, após
a terceira sessão, apresentou reações exacerbadas.
Por constatar que P4 apresentava história clínica com tratamento para
depressão após a morte do filho, a pesquisadora optou pelo caminho da prudência,
encaminhando-a a um psiquiatra para a realização de diagnóstico diferencial, de
forma a auxiliá-la na decisão em relação à conduta para a continuidade do
tratamento. Confirmado o diagnóstico por parte do psiquiatra e dado início ao
tratamento medicamentoso, na sessão seguinte, a decisão tomada era de não
realizar nenhum processamento, até para tentar coletar mais informações que
pudessem respaldar as próximas decisões clínicas. Como este procedimento não
estava dentro do planejamento metodológico, assim como não havia a previsão do
fluxo da pesquisa apresentado no Apêndice VI para exclusão do participante por
motivos de mudança do quadro apresentado, isso exigiu uma flexibilidade da
184

pesquisadora visando o melhor interesse da participante, pensando no seu bem-


estar. Como ela se sentiria se fosse excluída da pesquisa? Não seria uma forma de
perder o resto de esperança que ainda apresentava? Essa suspeita foi confirmada
em seguida, quando, em algum momento, ela mencionou que o tratamento era a
última esperança. Caso ela fosse dispensada, até reiniciar todos os procedimentos
com outro profissional, haveria um risco alto.
Em uma de suas falas durante a avaliação inicial, quando perguntada se tinha
mais alguma dúvida em relação ao EMDR, responde: “Não. Eu confio 100% em
você.”
A AF aconteceu logo depois do Natal, e P4 surpreendeu-se por ter ficado bem
nesse período.

Tentei colocar na minha cabeça que era um dia comum, e a gente era só
uma reunião de família como tantas outras que a gente, né, poderia fazer
durante o ano. E tentei trabalhar dessa forma, mais um dia comum. É só
uma reunião de família, que vai passar.

As lembranças... é como se elas tivessem vindo numa caixinha assim, cheia


de slides de fotos, mas aí ela viesse pra abrir... e aí ela ficava ali. Eu não
forçava, né, deixava... (pausa) as coisas, tentei não forçar né?

P4 relata perceber uma reestruturação geral em sua vida.

Eu cheguei completamente tomada por tudo que tinha acontecido, né? E... a
questão do [filho 2], por exemplo, a presença dele me representava mais a
falta do [filho 1] do que a presença dele. Agora, as coisas já, eu já consigo
olhar pra ele como pra ele mesmo e não vendo a falta do irmão, a ausência
do irmão. Então, teve essa inversão aí que nem eu tinha me dado conta
na... Agora fica, tá ficando mais claro a cada dia como que foram esses
cinco meses aí né, da chegada dele.

Uma das dificuldades percebidas por ela é que não tem memórias em relação
ao [filho 1] fora da barriga. Não teve a oportunidade de ser feliz com ele, tendo sido
tudo muito devastador.
Em relação às memórias perturbadoras, informa que elas vêm, mas... “não tá
causando aquele estrago todo que fazia. Então, é como se tivesse, como se eu
tivesse agora a possibilidade de deixar ali, de não deixar... É como se eu visse lá de
longe, né?”
185

Percebe também mudanças em relação ao [filho 2], conseguindo estabelecer


um vínculo, cantando para ele, construindo uma história junto com ele. Por outro
lado, ainda não conseguiu exercitar a vida social, mesmo quanto faz algumas
tentativas. Nem o trabalho a motiva, mas pensa em voltar a trabalhar pelo filho, a
quem está relacionado, por enquanto, todo o prazer de fazer coisas. Observa uma
melhora na prostração e no cansaço, pois atualmente seu sono está regularizado.
Nota também um maior controle na utilização dos recursos da respiração,
observando-se mais equilibrada de forma geral. Também não tem sentido a
dormência no braço.
Com redução nos níveis de perturbação em relação aos alvos trabalhados, ao
final da avaliação, P4 recebe a recomendação de seguir com ambos os tratamentos:
o psicológico e o psiquiátrico. E finaliza com a afirmação:

Enfim, comecei de uns dias pra cá a experimentar umas coisas que eu


achei que nem... que eu achei que fosse impossível. Mas enfim, espero que
seja né.... quem sabe esse 5 que era a minha [risos].

7.5 PARTICIPANTE 5

7.5.1 Relato do caso

P5, 33 anos, noiva no início do tratamento, espírita, fisioterapeuta trabalhando


com programa de emagrecimento. Decide participar da pesquisa para enfrentar de
forma mais tranquila a perda do irmão de 37 anos por suicídio, por enforcamento, há
dois anos e sete meses antes do período da avaliação.
Uma das primeiras a responder ao convite para participar da pesquisa, em
função da dificuldade de agendas, demorou um pouco mais para marcar o primeiro
encontro presencial, deixando claro, desde o primeiro contato, seu desejo de que
sua irmã se tornasse uma participante. Sua preocupação se dá por ter sido a irmã a
encontrar a cena do suicídio, e P5 se coloca no lugar dela para tentar dimensionar o
sofrimento, inclusive em relação aos disparadores. Como moram no mesmo prédio,
todos os dias ela faz “exatamente o mesmo trajeto que fez quando o encontrou.
Imagina a dor?”
186

Com isso, afirma que se não tiver a vaga, que cede a sua para a irmã. Desde
o início, a interferência entre a possível participação da irmã recebeu os devidos
limites para que não houvesse problemas de qualquer espécie.
Após a morte do irmão, participou de um processo de aconselhamento
familiar junto com os pais e a irmã, iniciando, em seguida, um processo
psicoterápico com uma das psicólogas do API/Vitória. Relata ter ido ao psiquiatra
após a morte do irmão, mas a medicação prescrita foi a mesma do neurologista,
para tratar transtornos graves de sono, pois sofre de insônia desde criança. Há
poucos meses, realizou um trabalho de coaching com objetivos profissionais.
Depois de começar um tratamento para a tireoide, relata que se sente “outra
pessoa. Consigo acordar, consigo fazer atividade, consigo pensar melhor, a tireoide
acho que não tava muito deixando eu ficar muito concentrada. E a paz de ter uma
pessoa tranquila do meu lado”, referindo-se ao noivo.
Para ela, o problema do sono faz parte dos pensamentos
persistentes/obsessivos/intrusivos, “tipo eu sou assim, eu nasci assim, eu tenho
esse problema desde sempre, eu não vou mudar”, afirmando a importância de
compreender sua própria participação para obter uma possível melhora nesse
quesito.
Considera que está na melhor fase da vida e que só falta a presença do
irmão, concluindo que “isso aí também não tem jeito”, e o objetivo da terapia é
“consertar aquilo que a gente acha que ainda está ruim, né?”
Relata que há aproximadamente dez meses estava muito confusa, sem saber
aonde ir, já que,além de vivenciar o luto em casa junto à sua família e ter ao seu
lado uma pessoa que não lhe ajudava em nada, referindo-se ao ex-namorado,
vivenciou uma crise adicional relacionada ao aspecto financeiro/profissional.
Atualmente, considera-se mais calma e até tem fumado pouco.
Em relação às cenas difíceis que ficam voltando, o que a incomoda é
justamente não tê-lo visto, pois “por muito tempo eu quis dividir a dor com ela, não
me deixaram ir lá, lá na casa dele, onde ele estava ainda”,algo que a martiriza até o
presente momento. Porém, essa não é a única memória que a incomoda,

os dois dias que a gente ficou aguardando a liberação do corpo, o próprio


velório dele, o velório dele foi péssimo, óbvio, né, que velório que seria bom,
né? Mas eu vendo a [cunhada] ali em cima dele, né, me dava uma raiva, me
dava vontade de socar a cara dela na parede.
187

Por ocasião da visita ao psiquiatra, informa que conseguiu levar a irmã e o pai
para consulta com o mesmo profissional, o que indica preocupação com ambos, à
semelhança do incentivo à irmã para participar deste trabalho, o que, segundo ela,
oferece tratamento gratuito, um grande motivador.
Ao chegar atrasada para o primeiro encontro, já mostrava uma de suas
“marcas registradas”, pois não conseguiu chegar no horário nenhuma vez. Como
aparente displicência, encerrou o tratamento dizendo que este era um problema real
em sua vida, para o qual precisava de ajuda e que não está relacionado à morte do
irmão. Esses atrasos foram dificultadores ao longo do processo.
Após a apresentação da pesquisa, já relata espontaneamente grande parte
do seu problema quando se refere a ter sonhado com irmão.

Cara, você soube que eu tava vindo, eu sonhei com ele? Tinha um tempão
que eu não sonhava com ele, um tempão. [...] Mas eu falava para ele que
eu ia apagar, ia voltar no tempo pra mudar o que ele tinha feito. Aí ele falava
que me amava, né?

Acredita que um grande motivador para sua decisão de participar é a


proximidade de seu casamento, pois toda vez que lembra disso também lembra que
o irmão não estará lá. Isso a motivou a fazer uma “solicitação formal da cadeira
vazia, vai ter que ter”, como forma de ter a presença dele. Considera que um dos
motivos de sua tristeza é em função de o noivo ser tudo o que o irmão sempre
sonhou para ela. Por isso pede ajuda para lidar melhor com a saudade, aceitar a
escolha dele e lembrar mais das cenas felizes que passaram a integrar o PTr
apresentado no Quadro 13.
Em relação ao casamento que acontecerá ao longo do período programado
para as sessões da intervenção, há a discussão dos prós e dos contras, e P5
decidiu tentar se beneficiar do EMDR. Afirma que “não quero ficar toda borrada no
dia do meu casamento. Chorando, porque ele não tá aí”, lançando um grande
desafio para ela mesma e para a investigadora.

E ele não está aqui. Dói pra caramba [choro]. [Silêncio] Eu não sei o que eu
gostaria de representar nele, dele. Eu sei que eu não quero passar um dia
feliz sem que ele... não sei nem se é querer que as pessoas saibam que ele
está ali.[...] Porque é difícil, porque parece que todo mundo vai esquecer ele
um dia, a gente não vai, né [voz embargada].
188

Acredita que nesse momento “é a grande questão que fica martelando aqui
na minha cabeça”, sua ausência no casamento, pois considera que ele estaria muito
feliz.

Eu sinto falha, talvez ele poderia ter conversado. Mas daí era escolha dele
não conversar antes. Mas eu podia ter ligado pra ele, ou batido lá na porta
dele, mesmo que ele fosse me dar uma... Porque quando ele queria se
isolar, a gente também ficava com medo de ir atrás.

Com uma característica peculiar, P5 lê os questionários em voz alta e


responde para si mesma, o que vai contribuindo para um número maior de
informações.
Relata que sempre foi católica, mas que, em dado momento de sua vida,
deparou-se com o espiritismo após a perda do irmão, considerando-se, atualmente,
mais espírita do que católica, que pode ser representado pela fala:

Então quando uma coisa está perturbando a cabeça, hoje eu vejo muito o
lado espiritual, então quando eu deixo sensações ou cosias ruins se
aproximarem eu sinto que tenho mais pesadelos. Ou então quando estou
passando por algum problema aquilo ali leva mais para a minha mente.

A questão do espiritismo também influencia no curso do seu luto:

O que que ele deve tá passando do outro lado pra poder ficar bem [...] ele tá
vivo, em algum lugar ele tá vivo. Mas eu faço as orações pra que ele não
sofra tanto do lado de lá, porque ele é um suicida, né?

Ele provavelmente não tava forte, não tava bem acompanhado, tinha ali as
coisas dele. Eu acredito num mundo espiritual que ele chamou pra perto
dele, não tô falando que tinha capeta nem nada lá, mas que às vezes ele
não tem a percepção do que é, do que é obsessor.

Ao longo da avaliação menciona um terrível disparador de suas memórias


não processadas quando foi ver um filme no cinema que apresentou um homem
muito parecido com o irmão pensando em se enforcar, o que provocou uma semana
péssima, inclusive tendo aumentado o consumo de cigarro. Também relata que,

Essa semana foi mais difícil, acordo várias horas mais cedo que eu
costumava e não consigo voltar a dormir. Eu tive pesadelo, sonhei com ele,
189

eu acordava, mas também...Eu me sinto triste, eu tô sempre triste e não


consigo sair disso, eu estou tão triste e infeliz que não consigo suportar, eu
me sinto triste, esta última semana eu me senti triste.

Ainda no processo de avaliação, percebe que se sente uma pessoa melhor


por ter aprendido a enfrentar mais a vida. Percebe também que tem mais
“compaixão pelos outros que passam por essa situação de luto porque antes eu não
tinha me visto no lugar deles”, considerando-se mais forte em função do luto.
Como qualidades que a ajudam a lidar com a raiva, percebe-se paciente e
compreensiva, e como estratégias de enfrentamento de situações difíceis e
estressantes relata que “respiro fundo, oro, choro, mas não me desespero”. Se a
raiva ajuda a lidar com situações difíceis, então também é um bom mecanismo de
enfrentar o luto: “Tipo, dá uma raiva às vezes ter ido desse jeito”, embora não seja
possível observar como.
Seus pais, sua irmã e seu noivo são as pessoas que lhe dão apoio nos
momentos difíceis. Em algum momento da avaliação, menciona que tem muitas
lembranças relacionadas à infância. “Algumas coisas eu revivo bastante, como as
coisas do meu pai, quando ele bebia, eu lembro perfeitamente, como se eu tivesse
vendo aquilo ali.”
Embora se perceba calma, relata um terrível episódio que teve com a irmã
quando “sentei porrada nela, quebrei a unha [...] coisa de irmão, né? Não vou me
julgar por isso”. Menciona que o gatilho para a briga foi algo relacionado ao irmão.
O procedimento de apresentação da pesquisa, concordância e assinatura do
TCLE, bem como avaliação inicial com todos os instrumentos previstos no método
foram realizados dois encontros presenciais, seguidos de 8 sessões de EMDR. O
PTr foi construído durante a sessão 1 de EMDR, oportunidade em que foi realizada a
instalação do Lugar Tranquilo e dado início do trabalho de processamento do
primeiro alvo. Os três alvos identificados foram trabalhados nas sessões de 1 a 8,
No último encontro foi realizada a AF.
190

7.5.2 P5 e o EMDR

Quadro 10 – Plano de Tratamento P5


Fonte: Autora

Escolhendo como alvo inicial de trabalho o fato de ter recebido a notícia


dentro do carro em frente ao local de trabalho, e reclamando que a forma como esta
foi dada não foi adequada, já no momento do ICES menciona sentir culpa e tristeza,
embora o que a mobiliza mais é a saudade. Na medida em que as séries de MB’s
acontecem, gradativamente P5 percebe uma redução da perturbação, como se a
cena estivesse indo para mais longe. Apresenta uma reação de sono que se torna
frequente em todas as sessões de EMDR, precisando, inclusive, a pedido dela
alterar os estímulos visuais para os auditivos em sessão posterior. Segundo ela,
fechar os olhos lhe permitia observar mais imagens. A seguir, surgiu uma imagem
nítida de “ele sorrindo para mim”, a qual acredita ter sido a última imagem que eu
tenho dele. Começa a pensar que não poderia ter feito nada, afinal, “Como eu ia
fazer algo se ele não deixou?” “Ele não deixava ninguém se aproximar”. Em uma
próxima sequência, percebe que talvez tenha se sentido culpada em função de o
irmão ter sido sempre protetor com ela e ter acontecido sua morte fez com que se
sentisse decepcionada consigo mesma. Surge um pensamento forte de que “ele só
queria se livrar da dor”.
Na sessão 2, relata ter passado a semana com muita vontade de fumar.
Informa que enfrentou uma situação difícil em relação à uma postagem da cunhada
191

que a fez se sentir mal, fazendo com que sentisse muita raiva dela. Nesses
momentos, fez uso de elementos do LT, como a palavra calma. Retomando o
processamento da sessão incompleta, P5 diz que para que a CP fique totalmente
positiva, falta aceitar a escolha dele. Em seguida relata lembranças de coisas boas
intercaladas com o que aconteceu com o irmão, com os detalhes que imagina, pois
não presenciou a cena.
Na sessão 3, relata ter ficado muito bem após o último processamento e
passa a falar do casamento que aconteceu no último fim de semana de forma
antecipada, pois o que estava programado era o casamento no civil. O importante é
que durante a cerimônia programada de improviso, percebeu a presença do irmão.

Senti que ele tava lá, que eu tava fazendo a coisa certa. Teve respostas de
um monte de gente pra lá de espiritualizada, que tinha mais um monte de
gente ali. É engraçado quando é ecumênico, né? Resposta de evangélico
que vê, resposta de espírita que vê, que sente.

Antes da cerimônia fez um ritual próprio em homenagem a ele:

Botei um vestido, uma flor no cabelo, que inclusive comprei na porta do


cemitério, fui, levei e levei pro irmão, conversei com ele, não vou em
cemitério. Fui lá e falei, ó, comprei aqui a florzinha pra você, mas tô levando
pro sítio, vou arrancar a flor, botar na cabeça. [gargalhada] E você… ela é
sua, mas vou levar.

Ao longo da semana, lembrou o tempo todo da palavra calma, instalada junto


com o LT.
Ao avaliar o que foi trabalhado, relata que sabe “que não sou culpada. Mas
[pausa], eu não sei se eu fiz o melhor que eu pude [voz embargada]. Porque, muito
jovem... queria bagunça. E ele se incomodava muito com isso”.
Na retomada do processamento, o mesmo padrão se repete ao ser invadida
pelo sono. Mas o processamento prosseguiu, pois relata:

Aquele foi o primeiro impacto. Eu não consigo mais pensar nele como algo
perturbador, tanto quanto era antes. Mas agora é como se eu sentisse a
necessidade de ir para os próximos eventos. Como se eu tivesse fazendo
uma história na minha mente, quando eu paro pra pensar nisso, né?

Na sessão seguinte, com um intervalo um pouco maior em função da lua-de-


mel, relata a experiência do casamento e a viagem.
192

Eu não estou sentindo a dor. É como se eu tivesse é aceitado, algo que eu


não posso fazer nada, não posso mudar. Não sei, é estranho. E eu sei que a
frase é real. [...] fiz tudo o que eu podia. Eu fiz tudo o que eu podia ter feito,
eu sei disso.

Inicia-se o processamento dos rituais funerários e, de forma verborrágica,


refere-se à cunhada novamente e em todo o mal-estar provocado ao longo dos anos
de convivência. Contudo, foca na imagem do irmão no caixão para que novo
processamento ocorra. Lembranças da carta que recebeu de um médium, sonhos
com ele nos quais se sentia culpada, os quais, segundo ela, eram pesadelos. Na
medida em que o processamento seguia, a saudade aumentava. Mas, novamente,
experimenta “pescadas” de sonolência e fica falando para si mesma calma, tendo
ficado, de fato mais calma. “Sinto nitidamente que tá fazendo alguma coisa lá
dentro”; e conclui:

sinto que o que você tá fazendo aqui tá mexendo em várias coisas. Mas por
um lado bom.

[...] é como se eu tivesse folheando um livro. Acho até a história que você
me falou no começo, do trem passando ou da televisão, parece real assim,
como um livro. Aí a gente passou por algumas páginas e aquelas páginas ali
tão lá grudadinhas. Tipo, tá tudo bem. As próximas páginas que eu vejo são
a minha irmã [silêncio]. Porque eu não sei se hoje assim, a minha mãe e o
meu pai parecem estar superbem, superbem na medida do possível, né?
Mas a irmã, não.

Ao longo do processamento, relata que

a irmã já tinha os problemas dela antes de o irmão se matar. E parece que


piorou.

Não sei, tô variando... entre pensar nela [bocejo], que me perturba menos
do que pensar que um dia eu vou encontrar a [cunhada], perturbação
daquela física. Mas quando eu penso nela na situação difícil, preparando o
velório, né, que ela foi, ter que resolver tudo sozinha, né? Ela tava
catatônica assim. E aí eu não sei o que pensar mais.

Na sessão 6, a perturbação está com força total em relação à cunhada e o


processamento é retomado. Vêm imagens das quais P5 não consegue se lembrar;
após nova série de MB’s, surge a fala das pessoas de que ela não é uma boa
pessoa [a cunhada]. A seguir, surge um medo de encontrá-la, com medo da própria
193

reação. Só de pensar nela, a perturbação aumenta, algo que consegue interromper


para o encerramento dessa sessão.
Na sessão 7, a partir de uma metáfora que ouviu na reunião do API/Vitória,
percebe que a perturbação em relação à cunhada diminuiu. A cada sequência, relata
um porção de situações relacionadas ao ex-namorado e sua possível influência em
relação ao seu irmão, pelo fato de o irmão já estar deprimido. E surgem várias cenas
do relacionamento com esse ex-namorado de situações muito difíceis que viveu,
alternando com a perturbação relacionada à cunhada.
Em meio a um turbilhão de lembranças, surge a pergunta: “será que poderia
ter sido evitado mesmo ou ninguém teve culpa? [...] Será que alguém poderia ter
evitado... [...] Alguma coisa que a gente pudesse ter mudado. [...]Ou ninguém teve
culpa mesmo?”
Na sessão 8, no momento de reavaliar,

Pensar em encontrar com ela, ainda me incomoda. Mas com relação ao


meu irmão, estava até conversando isso com a [irmã] ontem. Não vou falar
que é magiquinha, mas faz efeito, as coisas estão diferentes, eu me sinto
diferente. Não... Eu sei que eu fiz tudo o que podia, a frase é 100%
verdadeira.

Uma outra mudança que observou ao longo da semana, mas que não sabe
se está relacionada ao trabalho do EMDR, é que junto do marido decidiu ser mãe.
Segundo ela, surgiu a vontade de formar uma família. Ao mesmo tempo em que “era
um real problema o [irmão] não estar aqui e não fazer parte de tudo isso, mas que
escolha eu tenho?”
Em relação ao irmão, informa que a perturbação permanece em 0, com a
certeza de que fez o melhor que pode. Em relação à cunhada, o único incômodo
remanescente está relacionado à possibilidade de encontrar com ela.
Já quanto à irmã, não sente mais qualquer incômodo por estar vendo-a bem .

Eu convivo com ela. Coisas novas estão acontecendo pra ela também, mas
eu vejo que ela também está olhando pra ela, decidindo também coisas
novas. Porque antes eu achava que talvez ela não fosse superar isso.
Vendo ela hoje, positiva. Com os problemas dela, como todo mundo tem,
mas ela também está bem melhor. Então, isso não está me machucando
mais, porque eu sei que ela vai superar.
194

Restando a perturbação com a cunhada, P5 segue a proposta da atividade de


projeção do futuro que lhe traz duas saídas para o encontro, ser boazinha de forma
sarcástica ou a indiferença, e escolhe essa segunda saída. Seguindo o
processamento P5, entra em um estado de sonolência e consegue completar a
sessão sem qualquer perturbação.

7.5.3 Avaliação final

P5 chegou ao período final da pesquisa tendo cumprido 8 sessões de EMDR,


apesar de seus atrasos, e tendo clareza de que essa falta de organização não é algo
saudável em sua vida, colocando-se o propósito de modificar esse comportamento.
O intervalo de uma semana em função da viagem após o casamento não
pareceu atrapalhar o ritmo do PTr. Pelo contrário, é possível afirmar, por meio do
testemunho de P5, que foi uma decisão acertada trabalhar as memórias
relacionadas ao irmão, pois lhe permitiu vivenciar o casamento de forma leve, com a
certeza de sua presença em meio à ausência. Alguns relatos sobre esse tema
puderam ser conferidos anteriormente.
P5 chega ao final de sua participação nesta pesquisa com todos os alvos do
PTr com SUDS – 0, incluindo a projeção do futuro. As modificações do
comportamento são visíveis nessa etapa, bem como a redução dos pensamentos
recorrentes de lembranças que não haviam sido processadas. Algumas mudanças
subjetivas também foram observadas, da mesma maneira que a redução nos
sintomas físicos. Essas mudanças são compatíveis com as diferenças que podem
ser conferidas nos gráficos comparativos dos instrumentos aplicados, encontrados
no Apêndice J, durante as avaliações inicial e de encerramento dessa investigação.
Os escores de BDI e DES-II, que inicialmente se propunham apenas a
observar os critérios de exclusão no período de recrutamento de participantes,
sofreram alterações com redução em ambos instrumentos. Essas variações para
menor indicam a diminuição da tristeza, assim como a redução de sintomas
compatíveis com o TEPT, avaliados por DES-II.
No que se refere ao HGRC, as variações podem ser observadas nos próprios
gráficos. De forma geral, P5 apenas assinalou quatro dos doze itens da subescala
de Desespero, o que talvez possa corroborar a impressão por ela passada na etapa
avaliativa inicial de que estava vivenciando o melhor momento da vida, inclusive no
195

quesito de tranquilidade. Assim, o item de maior intensidade nessa subescala é


“tenho dificuldade em aceitar a permanência da morte”, indicando ter conseguido
uma discreta melhora nesse sentido. Houve também a redução do choro frequente
para um nível que a descreve razoavelmente bem. A maior alteração foi no item “eu
sofro muito pensando em sua morte”, que inicialmente a descrevia bem, passando a
não descrevê-la em nada, o que corresponde à cessação da perturbação
relacionada às memórias disfuncionais iniciais. Por fim, o que já não tinha uma
representação grande, “eu tenho pouco controle sobre a minha tristeza”, foi reduzida
a nenhuma representatividade em sua vida no momento dessa avaliação. Os
demais itens dessa escala permaneceram sem qualquer significado para P5.
Em relação à subescala Comportamento de Pânico, as afirmações “eu me
sinto abalado” e “frequentemente me sinto com medo” passaram de descrevê-la
bem, para nenhuma representação, o que também aconteceu com a afirmação “eu
me assusto frequentemente”. Em menor intensidade na avaliação inicial, mas um
pouco frequente, “eu me preocupo excessivamente” e “tenho dores nas constas com
frequência”, também passaram a não descrevê-la em nada, indicando que estava
livre. Apenas “às vezes meu coração bate mais forte do que o normal” e “estou
frequentemente cansado” não sofreram alterações, mantendo-se em um baixo nível
de não descrevê-la bem. A afirmação “sinto-me doente com frequência” teve um
pequeno aumento em sua representatividade; contudo, não é possível afirmar de
onde essa resposta vem.
Nada subescala Desinteresse e Indiferença, já com baixos indicativos na
primeira avaliação, o item “eu evito carinho” deixou de descrevê-la um pouco bem
para nada, e o item “sinto-me desapegado dos outros” decresceu em um patamar
das afirmações, passando a descrevê-la pouco bem.
De acordo com a conversa final com P5, a subescala Desorganização, de
fato, sofreu poucas alterações, indicando que ainda há muito o que ser trabalhado, o
que é compatível com a própria percepção desta participante. Os itens “eu esqueço
coisas facilmente, como números de telefone, endereços” e “tenho dificuldade de
lembrar coisas do passado” reduziram em um patamar, tendo como referência a
avaliação inicial, passando a descrevê-la bem e não descrevê-la em nada,
respectivamente. “Eu tenho dificuldade de concentração”, “eu tenho dificuldade com
pensamentos abstratos” e “tenho dificuldade em me lembrar-me novas informações”
permaneceram inalterados. O que chama a atenção é o discreto aumento da
196

representatividade da afirmação “tenho dificuldade de aprender coisas novas”,


passando a descrevê-la razoavelmente bem”. Para interpretar esses resultados, P5
deveria ser consultada, pois não há explicações aparentes nas informações
coletadas no momento de AF.
Na subescala Culpa e Raiva, com poucas afirmações na primeira avaliação,
apenas para os itens “sinto-me magoado”, “tenho sentimentos hostis” e “fico com
raiva frequentemente”, descrevendo-a pouco bem, passou a não descrevê-la em
absoluto.
Na subescala Crescimento Pessoal, seis dos itens já estavam na mais alta
representatividade, na qual permaneceram. São eles: itens 2, 12, 19, 24, 45 e 50.
Compatíveis com o que P5 relata desde o início da pesquisa, esses itens
alcançaram nível máximo no sentido de descrevê-la, demonstrando de fato que
aprendeu o exercício do perdão, sentindo-se uma pessoa melhor. Esses itens são
“eu me sinto como se fosse uma pessoa melhor”, “sou uma pessoa que perdoa
facilmente” e “sou mais tolerante com os outros”, com alguns exemplos durante os
encontros. Na contramão, passou a ser um pouco menos tolerante consigo mesma,
talvez por estar se observando mais, em especial nos comportamentos que
considera inadequados, como atrasos e desorganização, ao mesmo tempo em que
passou a se preocupar um pouco menos com os outros. Esse último item pode ser
reflexo de estar mais tranquila em relação à irmã, sem ter que se preocupar tanto
com ela, como quando chegou para a avaliação inicial.
A percepção de P5 em relação às próprias mudanças refletem em vários
aspectos da vida dela, pois relata, em importante depoimento que,

Eu não tô sofrendo. Eu acho que depois que a gente conversou, eu nunca


mais chorei... de... dor. Eu sinto a saudade, óbvio! Eu sinto falta dele, mas é
como se essas gavetas tivessem real… mente... é, no lugar delas assim! Eu
vejo que eu fiz tudo que eu podia. É real. Eu realmente fiz tudo que eu
podia... (respiração profunda). É... Acho que a gente cresce na dor. A dor foi,
foi válida.

Percebe que fala do irmão com mais naturalidade, inferindo que fez nessas
oito sessões o que foi feito em dois anos, ou seja, “o que a gente cresceu em dois
anos equivaleu a essas sessões”.
No último dia em que completou mais um mês da morte do irmão, dia que
corresponde a essa última vez, foi bem diferente, sem qualquer dor.
197

Em meio a gargalhadas, diz que ainda sente dor de estômago ao lembrar da


cunhada, mas que se sente preparada para encontrá-la. Nesse momento, lembra da
última reunião do API/Vitória, quando a coordenadora nacional usou uma bela
metáfora para representar os piores medos. Essa metáfora foi incorporada por P5
para tratar desse tema que ainda lhe desperta sentimentos negativos, mas de forma
bem controlada. Embora considere a cunha insignificante, afirma que “talvez ela é a
única perspectiva de socar alguém. Tipo, descontar a raiva? Talvez um pouquinho a
raiva dele?” (primeira vez que menciona esse sentimento em relação ao irmão).

Não preciso aceitar também, como... um santo. Que ele decidiu aquilo ali
[...] eu sei que é uma doença, eu sei... eu consigo ter empatia pelas pessoas
que eu nunca [ênfase]tinha pensando em relação ao suicídio, à depressão,
à doença, até meu trabalho[suspiro].Eu, antes, como terapeuta, eu não... ia
indicar... é, não... reconheceria um suicida como uma pessoa com
depressão. Então mudou também a minha forma de ver a vida.

Percebe mudanças em outros elementos de rever a notícia, como o fato de


ex-namorado ter dado a notícia “daquele jeito”, em frente à clínica. Isso, segundo
ela, também mudou. Assim, não consegue mais pensar na situação como ruim,
observando apenas o presente e sentindo a falta dele, conseguindo “entender que a
presença dele não vai morrer”.
Atribui essa construção de um novo conceito sobre a presença do irmão à sua
participação na referida reunião do grupo de apoio, que indica a importância de
participar de momentos como esses para o enfrentamento do luto.

Porque naquela reunião... duas coisas... fixaram na minha cabeça depois


das sessões daqui. O monstro, que eu criei em relação à [cunhada], que
podia estar bem maior do que é real, te falar. Não tenho que me preocupar
com ela. E... [pausa] a presença!

Entender que a presença dele não vai desaparecer também foi importante
para o marido, uma vez que ele não sabia lidar com a falta que ela sente do irmão.
Um outro fator interessante abordado nesse último encontro foi o fato de ter
recebido a notícia, que depois soube que era falsa, da morte do irmão quinze anos
antes. Para P5, aquele foi o momento da real despedida, o que faz com que não
sinta agora qualquer perturbação em relação a esse acontecimento, passando a
nutrir um sentimento de gratidão por ter tido essa experiência.
198

Disse a ele o quanto eu amava. Ele ficou... me... me acalentou. Sentei no


colo dele. Falou “calma [apelido de P5] eu não morri, eu tô aqui”. Eu falei... e
eu falei pra ele que aquela era a pior dor que eu havia sentido até aquele
momento na minha vida, que era como se tivesse arrancado um pedaço do
meu coração. [...] Ele sempre soube o quanto a gente se amava... e ama,
né?

Em relação à preocupação com a irmã, percebe que não precisava mesmo ter
dividido essa luta e fica extremamente gratificada, porque ela está muito consciente,
“acordada para a vida”
Percebe mudança física em relação às memórias trabalhadas, porque agora,
“quando eu falo dele, não... não vem aquela coisa... entalada”. Atualmente,
consegue falar dele sem chorar. E, com isso, até a oração para o irmão mudou, pois
antes

o rezar pra ele era com muita dor, sabe?” Tipo, era como se eu tivesse que
rezar pra ele, pra ele sair de algum lugar ou estar em algum lugar como
suicida, sei lá... e doía. Hoje quando eu faço oração pra ele eu tenho mais,
mais calma. [...] Eu só sinto saudade. Mas eu não sinto mais dor.

Segundo P5, agora precisa trabalhar a organização pessoal por considerar


que não consegue fazer gestão do próprio tempo e para parar de fumar, o que deixa
para ela a recomendação de retornar para a psicoterapia quando tiver vontade e
pronta para essas mudanças essenciais.
Considera que as mudanças aconteceram em muito pouco tempo e que outro
benefício é sentir-se “mais adulta hoje. Mais mulher. Eu acho que fez total parte do
processo, assim”.

7.6 PARTICIPANTE 6

7.6.1 Relato do caso

P6 tem 41 anos, casada, evangélica, arquiteta, e tem uma filha de quatro


anos. Seu irmão morreu por suicídio aos 37 anos, há dois anos e sete meses, por
enforcamento. P6 foi quem o encontrou e tem vivenciado uma série de dificuldades
desde então.
199

Na ocasião da morte do irmão, ela e a família receberam aconselhamento em


sessões de família e foram encaminhados para o API/Vitória. Ao final do período de
aconselhamento, recebeu indicação de seguir em psicoterapia individual, mas não o
fez. Há aproximadamente um ano e meio, procurou um psiquiatra que também lhe
indicou psicoterapia. Usou medicação por quatro meses e, mesmo percebendo
melhoras, interrompeu o tratamento.
A busca pelo tratamento medicamentoso se deu “[...] porque estava sem
condição, meu marido não sabia o que fazer comigo.... Estava muito difícil. É uma
tristeza, uma tristeza [ênfase] muito grande, muito grande”.
Tomou conhecimento da pesquisa por intermédio da irmã, grande entusiasta
do EMDR, com o objetivo de “organizar imagens negativas, pois eu o encontrei”. O
processo decisório de se permitir ser ajudada teve grande influência dessa irmã,
pois segundo P6, sente que tem uma “certa dificuldade em olhar para si mesma”.

[...] porque parece que quando eu vou tirar um tempo pra mim, parece que
estou fazendo alguma coisa errada pra mim. É um negócio incrível isso.
Mas, a [irmã] conversou comigo, até choramos juntas, eu falei assim: “Por
que não fazer?”

Ao chegar para o primeiro encontro de avaliação, em um dia chuvoso,


P6,ainda na sala de espera, menciona o cheiro da grama em função da chuva e
espontaneamente relata uma situação de violência sexual que vivenciou ainda
quando criança. “Nossa, e pra muita gente é um cheiro gostoso. Pra mim é uma
catinga, pra mim é uma catinga”. A investigadora aproveita o exemplo fornecido por
ela para explicar sobre o armazenamento de memórias e o trabalho do EMDR.
Demonstrando total compreensão, P6 relata um disparador importante que
vivencia com muita intensidade e alguma frequência, que é abrir a porta da
garagem, tendo o último episódio acontecido há um mês,.

E... normal... estou chegando com a minha bolsa, tal, normal. A [filha] lá em
casa com a minha mãe lá em cima, minha mãe estava dando janta para a
[filha], quando eu abri a porta do portão, me veio a cena aí eu tive que...
[choro] [...] Parece que você sai daquilo ali e você vê tudo, por isso, até a
roupa que eu tava, eu lembro de tudo, sabe? [...] Dos mínimos detalhes. [...]
as imagens elas vêm, vêm! Mas é a sensação que... que incomoda, né?”
200

Em forma de horror, P6 tomou conhecimento da morte do irmão e


imediatamente soube o que era. Motivo pelo qual decidiu aceitar ajuda nesse
momento de sua vida, compreendendo ser essa abordagem, por intermédio de sua
irmã, uma importante fonte de cuidado.
P6 informa que durante investigação de dores de cabeça frequentes e
intensas, durante a realização de exames, há duas semanas, descobriu um tumor
benigno no hipotálamo. “Eu acho que o psicológico mexe com muitas coisas, não é?
[...] Vários problemas de pele que também foram tratados, mas é tudo, tudo, tudo
pelo que passou, pelo que eu passei, né?” Todos os médicos consultados foram
unânimes em afirmar que as dores de cabeça e a falta de ar são psicológicas.
As dores de cabeça já são antigas companheiras, mas pioraram muito “e
aumentaram depois do que aconteceu com o [irmão]. E aí quando vem forte, dói até
aqui assim. Dói tudo, dói tudo, o pescoço, dói tudo”. Essa dor intensa aparece a
cada duas ou três semanas, no máximo. Em conjunto com os sintomas físicos,
apresenta muita dificuldade de sair, com vontade apenas de ficar em casa sentada,
quieta.
Sofre com ansiedade excessiva e relata ataques de fúria que “faz eu lembrar
do [irmão]”. Segundo ela, os ataques de fúria estiveram focalizados com a irmã, logo
após a perda de ambas, pois a casa vivia cheia, e P6 se sentia invadida, “a [irmã]
ficava na minha orelha, todo mundo ficava na minha orelha”.
Teve pensamentos suicidas logo no início de seu processo de luto, por um
período longo, segundo ela, de aproximadamente três meses. Sentia uma
ambivalência de ter o pensamento, ao mesmo tempo em que sentia que não poderia
tê-lo ou fazê-lo, em função de tudo o que a família passou. A partir desse momento,
passou a sentir uma tristeza muito grande, a grande responsável por não permitir
que saia de casa. “Ah, a vida é ruim”; “Viver não é fácil”. Tanto é que tem aí uma
pergunta: “pra sair de casa? Gente, pra sair de casa é uma luta!” Atrelado a isso,
houve ganho de peso, o que também se tornou um impeditivo.
Segundo P6, o que a ajudou a sair do estado crítico em que se encontrava foi
o marido ter ido morar fora do Brasil há quatro meses. Isso a obrigou a se
movimentar em torno das tarefas da casa e com a filha. Em relação a ele, menciona
várias dificuldades que também habitam seus pensamentos, em função de ter se
sentido enganada por ele. Além disso, relata que o marido não a apoiou no período
inicial do luto, e a obrigou a fazer coisas que não queria, como tirar a foto do irmão
201

da bíblia, não respeitando o seu tempo. Com problemas invertidos, atualmente P6


se sente sobrecarregada com a questão financeira da família, sendo proativa em
relação a isso. Contudo, percebe uma mudança nos últimos tempos, fazendo com
que se sinta mais acolhida.
Em relação ao casamento, relata uma situação difícil, em função de
problemas financeiros do marido, bem como atitudes dele que P6 percebe como
falta de companheirismo.
Por ocasião do preenchimento de AI, P6 menciona ter trauma em função do
que testemunhou, que atribui a serem lembranças somáticas e pensamentos
recorrentes. Ao pensar sobre esses dois sintomas acaba se lembrando também que,
aos oito anos de idade, um cachorro a derrubou, ocasião em que sangrou muito e
levou dez pontos na testa, fato do qual não se lembrava.
Alguns dos disparadores identificados é chegar no portão e passar por uma
avenida próxima ao Instituto Médico Legal, e comenta que foi muito pesado fazer
tudo sozinha. Sua sobrecarga era maior, porque pretendia poupar toda a família
desses detalhes, motivo pelo qual não comenta sobre isso com nenhum deles, e
cuidou de cada detalhe. Em relação a essas duas situações, afirma que a deixam
triste, “... não pelo que eu vi em si. Mas pela, pelo que tá acontecendo. Não
aconteceu. Continua acontecendo”. Além disso, encontrar pessoas com
semelhanças ao irmão faz com que dispare em P6 um comportamento de busca.
P6 apresenta pesadelos, com água, sangue, carne, incluindo o que denomina
de “pesadelos premonitórios”.

[...] igual na semana em que aconteceu tudo o que aconteceu com ele, a
gente sonhou que a gente tava cortando carne, aquele sangue pingando,
sabe? Então, às vezes eu tenho sonho, como se fosse um aviso, entende?
Uma conexão que eu não sei te explicar.

Um detalhe interessante que ela destaca é que sonha com o irmão só da


cintura para baixo.
Ela e o marido são evangélicos, e a fé parece exercer um importante papel na
vida de P6. Inclusive tem o hábito de conversar com Deus e fazer alguns
combinados. “‘Ai Senhor, não deixa acontecer nada de ruim não ’Porque a gente tem
um acordo aqui em casa, tem que viver 30 anos no mínimo cada um. [risos].”
202

Desde o início, deixa transparecer que exerce a função de filha parental e


cuidadora dos pais, sendo posicionada em meio às dificuldades conjugais, como
confidentes de ambos. “Porque vem tudo assim: Caramba! Eu tô, nós estamos
passando por tudo isso”, de forma sempre a querer minimizar o sofrimento dos pais
em especial. Apresenta alguns conflitos com a irmã, situação que tem mudado nos
últimos tempos, pois a tem percebido mais calma e mais leve. Toda a família
apresenta expectativas em relação à participação dela nesse processo, o que
parece ser pelo grau de sofrimento por ela apresentado.

Nossa! E aí minha mãe quando a gente chega em um lugar que, as vezes tem um
rapaz pra recepcionar, ou sei lá, parecido... ela já [suspiro] respira e olha pra mim.
Eu só abraço, entendeu? Eu abraço, beijo. Falo: “parecido, né, mãe?” Tipo assim,
eu falo, né: “parecido, né, mãe?” E aí ela: “Nossa... Muito parecido!”

Essa avaliação inicial trouxe vários elementos importantes para o


estabelecimento do PTr ao mesmo tempo em que percebeu o quanto que já
avançou em seu processo de luto. O fundamental para ela é: “Eu queria ver [os
disparadores] e não ficar assim”.
O mal-estar com disparadores é tamanho, que acabou interrompendo uma
pós-graduação após um professor ter exibido um filme em sala de aula com cenas
de um enforcamento.
Ao final da avaliação, menciona algo relacionado a barulhos altos que a
incomodam sobremaneira, o qual apelidou de “tric-tric”.

papai no telefone, televisão, criança do meu lado, agarrada e tal e eu tendo que
responder cliente, aquela confusão. Aí, porque assim, eu até falei com a minha
filha ontem: “Filha, a mamãe vai chegar em casa, vai desligar o telefone, eu
preciso de um tempo”, eu não tenho tido tempo assim, um tempo, né? Eu
preciso... eu não sei o que fazer, mas eu já durmo cansada, acordo cansada. E...
essa questão, quando eu falei com meu pai: “Nossa filha, o que você tem?” Aí eu
falei: “ai pai, tô cansada”. Mas às vezes não é que eu estou cansada. Eu tô
agoniada com aquela barulheira , com aquela televisão, ele no Whats no celular
dele, minha mãe no celular dela, aquela confusão. Ai, aquilo ali me irrita.

Em função de P6 ter se apresentado para participar já com um prazo mais


exíguo para seu encerramento, em comum acordo, o procedimento de apresentação
da pesquisa, a concordância com o TCLE e sua assinatura, bem como avaliação
inicial com todos os instrumentos previstos no método, foram realizados em um
203

encontro presencial. O segundo encontro de avaliação foi utilizado para esclarecer


perguntas remanescentes a respeito dos registros dos instrumentos, e já iniciar com
a elaboração do PTr e o EMDR propriamente dito. Assim, P6 teve um encontro
individual de avaliação inicial, seguido de 9 sessões de EMDR e uma avaliação ao
final do tratamento.
Como qualidades que ajudam a lidar com a raiva, considera pensar em quem
ama. Costuma lidar com situações difíceis ou estressantes por meio de isolamento e
respiração e, segundo ela, as pessoas que lhe dão apoio nos momentos difíceis são
a mãe, o pai, a filha e o marido.

7.6.2 P6 e o EMDR

Um aspecto interessante a ser observado é que P6 estabeleceu como alvo


apenas um e, em termos de memórias do passado, também apenas a cena principal
estava presente. Contudo, várias reações compatíveis com sintomas de trauma
apareceram como incômodo.

Quadro 14 – Plano de Tratamento P6


Fonte: Autora

Para dar início aos preparativos para o início do processamento, objetivou-se


a instalação do Lugar Tranquilo. A realização de tal tarefa se mostrou um pouco
difícil, pois aparece um sentimento de solidão. Em uma memória bem antiga, surge
204

o irmão e brincadeiras na infância, ambos brincando sem preocupação. E todo o


recurso instalado é a partir de sensações físicas agradáveis sentidas em seu corpo,
a partir de memórias com a família na praia, em especial o irmão.

é como se, é como se eu tô me vendo... nesse momento... é como se


estivesse atrás me vendo adulta, olhando para aquela cena. Sabe? Eu
criança, com ele, com minha mãe e com meu pai. Eu tô ali, olhando.

Sendo capaz de entrar em contato com essa memória e resgatando as


sensações agradáveis, P6 realiza vários exercícios de respiração e aprende o
Abraço de Borboleta. Essas atividades fizeram com que sentisse conexão em todo o
corpo, trazendo calma e tranquilidade.
Claramente, em alguns momentos, a ambivalência se fazia presente, pois,
afinal, essa memória trazia a tristeza de sua morte. Contudo, a conexão com o irmão
se sobressaiu, ficando bastante forte.
Relata sentir-se bem na sessão seguinte, conseguindo conversar com os pais
e falar da ideia de comprar uma churrasqueira, advinda da atividade de instalação
de recursos. Comenta que esse fato, fez com que pedisse ajuda para eles, mesmo
deixando clara a sua posição de cuidadora com preocupação intensa com eles.

Aprendi a pedir ajuda pra eles, exatamente. Porque assim, eu não gosto de
pedir nada pra ninguém, nada! Absolutamente nada!!![ênfase] Mas eu...
eu ... eu... eu pedi porque sei também que de alguma maneira vai ajudar a
eles.

No trabalho com o primeiro alvo, ter encontrado o irmão, chama atenção à CN


estabelecida de tenho que ser perfeita, indicando como é importante para ela
agradar a todos, com o foco em minimizar o sofrimento do outro. Isso se reflete em
todas as situações de proteção à cena, ao irmão e à família, nas memórias que se
seguem, alternando a garagem, o IML, o enterro, com muitos detalhes, em especial
a homenagem que os amigos de bicicleta fizeram.
Também relata memórias do dia anterior e da falta de paciência que ele
estava ao longo da última semana. Essas memórias vêm acompanhadas de choro
intenso. Todos os cuidados para finalizar os procedimentos a fim de não permitir o
sofrimento da família vieram entremeados com a reação bem intensa da mãe ao
receber a notícia.
205

Começaram a surgir outras memórias do irmão, de ele brincando com a filha


de P6 e relações de carinho como irmãos entre eles. Em algum momento, surge um
sonho que teve na noite anterior relacionado a acontecer alguma coisa ruim com ele.
E finaliza com uma memória dele ajudando a resolver um problema em sua casa.

porque eu fui lá na cena, depois é como se... eu tiro o pé de lá e... e... e


começa a vir outras coisas, sem eu buscar... começam a vir, lembranças
boas, assim, né? Coisas boas que eu nem lembrava, do dia da enchente e
tal.

No retorno à próxima sessão, P6 relata que viveu uma semana muito difícil,
tendo feito algumas anotações no caderno relacionadas a se sentir como se
estivesse lá mesmo, no momento.

A sensação... Eu tinha até... até que escrever, desse jeito aqui. A sensação como
se fosse no mês que aconteceu. A gente fica assim, dormente...

Parece que você fica meio lerdo, você fica esquisito demais. É muito estranho...

Teve várias crises de choro ao longo da semana, teve herpes e deixou “cair
uma tigela de feijão [ênfase], mas assim, explodiu o negócio”. Teve mau humor,
“meu semblante caiu completamente, mesmo eu me esforçando pra não deixar”, e
até o marido percebeu algo estranho. Além de observar reflexos na filha dela, pois a
percebeu mais triste também por tê-la visto chorar, bem como por estar longe do pai,
que está morando fora do Brasil há algum tempo.

Aí eu fiquei olhando “filha, o que que foi...” “mãe, estou vendo o tio [apelido
do irmão de P6], estou conversando com o tio que está no céu” eu falei “ah,
tá bom, minha filha, deixa a mamãe também ver”. Aí fiquei assim,
debruçada na janela com ela e tipo despistei, chamei a atenção pra outra
coisa, e saímos daquilo ali. Mas eu lembrei, como é que eu refleti a minha
tristeza [pigarro]... Refletiu diretamente nela...

Menciona tristeza no dia 24, data que antecede o dia da morte dele. E novas crises
de choro até o dia 28, quando então se percebeu melhor: “tive uma crise de choro
muito grande, minha filha me viu chorar e logo após ela, ela também chorou muito. A
minha tristeza, é como se esbarrou nela”.
206

Em um momento que foi abrir o tal portão, falou para si mesma: “‘você não
está naquele momento, você tá nesse momento agora, entrando no portão com seu
pai, sua filha, sua mãe e não é aquele momento.’ E aí eu me controlei e não chorei”.
Seguindo com o processamento da memória-chave, P6 percorre a cena, o
velório, o enterro, situações de tristeza da filha na mesma semana, voltando para as
cenas iniciais com muitos detalhes. Lembra-se de uma situação em que o irmão a
ajudou em meio a uma enchente em que sua casa foi afetada.
Devido à intensidade do processamento, utiliza-se a metáfora do trem.

Eu me vi, no vagão, do trem, olhando pela janela, mas eu não vejo imagens,
eu vejo só um clarão assim...

E nesse vagão que eu estou, tem meu marido, a minha enteada, a minha
filha. É como se ali fosse o mundo deles. Eles estão brincando, estão rindo
e eu tô ali, né? E no vagão da frente, tem o meu pai e minha mãe, sentados
de costas pra mim...

Percebe vontade de estar próxima do marido, como não tinha sentido até
então. Parece que começa a olhar para si mesma, deixando um pouco os pais de
lado. “Eles estavam ali, mas eu estava olhando o que estava sentindo”.
A seguir, vieram imagens dele sorrindo, brincando, com vontade de voltar no
tempo. Segundo ela, “a gente era feliz e não sabia”. Vontade mesmo era de voltar no
tempo e fazer diferente do que fez, mas ressalta que naquele momento não tinha
consciência.
Desse processamento, resultaram sonhos como flashes
Percebe que sofre com a pressão familiar. Tal fato ficou visível no casamento
da irmã, ao perceber que o pai não ficou bem, tendo chorado a noite inteira. “É como
se o luto que a gente passou naquele mês que aconteceu, parece que aconteceu
pra ele esse mês. Entendeu?” Foi no cemitério com a mãe e com o pai. “Eu fiquei
vigiando um vigiando um e outro e fiquei com muita falta de ar [risos]”.
Refere-se à dor de cabeça e percebe o disparador com os acontecimentos
familiares e a pressão que se põe de resolver tudo para eles, percebendo as
conexões entre seu mal-estar físico e a necessidade de cuidar.

Gente, é isso mesmo! Eu estava parecendo que eu tinha bebido. Parecia


que estava assim lerda, e uma dor na nuca. A dor na nuca era mais que a
dor da cabeça. Só que aí é tudo ligado assim...
207

Eu absorvo muito [ênfase] as coisas dos outros. É... me prejudico, me


prejudico... E tenho reparado, tenho entendido que essa falta de ar...

Novamente, teve a oportunidade de avaliar a situação do portão, percebendo


que “eu entrei lá no portão aquele dia e falei pra mim mesma, esse não é o
momento que você viveu aquele dia. Então eu, eu... eu tive uma... Eu entendi
[ênfase] e me dominei naquele momento.”
Em mais uma sessão de processamento da memória traumática, P6 percebe
que precisa continuar dando atenção para os pais. Vem o dia, mas sem desespero.
“Na verdade, não é uma... pertur... per-tur-ba-ção. Mas é a... é uma tristeza”. Com
mais detalhes para, em seguida, surgirem mais memórias positivas, em especial da
relação dos dois. Também se dá conta da compreensão do que o irmão sentia: “que
não era preguiça. Era um estado que você não suporta mais muita coisa. Hoje eu
entendo ele”, por achar que está nesse estado.
Aos poucos, a memória difícil vai cedendo: “É aquela, aquela situação, de
lembrar do dia, né? Eu tenho consciência que aquele dia, ele ficou pra trás. Ele
ficou pra trás, era aquele dia. Então, hoje, eu entro naquele portão, mas é um outro
dia né?
A conexão entre seu mal-estar físico e a preocupação com os pais fica clara
nessa sessão. “E quando eles começam a conversar... ó, só deu falar [indicando
falta de ar]. Eu fico falando ‘não, mãe, não fica pensando nisso’. Então, eu também
tenho que saber lidar com isso...”
Relatando o que aconteceu após a sessão 3, menciona uma reação imediata.

é como se tivesse um... um cão bravo na minha frente. E cada passo que eu
dava até o carro era como se eu... tava ficando forte, olha que engraçado!
[gargalhada]. E como se, eu tava enfrentando aquilo, entende? E cada
passo que eu dava eu...eu...eu botava ele pra... pra andar pra trás,
entendeu? Pra ele afastar de mim.

Ao longo da semana, teve sonhos e um episódio de dor de cabeça. E em uma


importante decisão, começou a fazer dieta. “Então eu ontem eu ‘para tudo, eu
preciso olhar pra mim’”. Assim, decidiu se cuidar.
Em relação ao irmão, conseguiu ver foto sem chorar, embora ainda perceba
uma tristeza.
208

Posteriormente ao processamento da mesma memória, surgem imagens da


esposa dele seguidas de memórias do dia do acontecido, com sequências de
situações de que não lembrava, parecendo que uma cadeia associativa fluida estava
se movimentando; finaliza a sessão com a CP eu aprendi com isso. Antes de
terminar, fez uma associação de memória do dia, em que percebeu que o irmão não
estava bem com a resolução de cuidar da saúde emocional da enteada “[...] não
posso maquiar uma situação e fazer de conta que tá tudo bem, porque se eu tivesse
esse entendimento que eu tenho hoje...” E ao final da sessão...

eu também não posso me culpar por isso. Aí sim, me dá um pouco de


tristeza pelo que aconteceu [pigarro], mas eu não tenho aquela dor dentro
de mim no sentido que eu tenho culpa. Hoje eu tenho consciência que, se
eu tivesse as informações que eu tenho hoje [ênfase], as coisas seriam
diferentes.

Na sessão 5, comenta no início um grave problema com uma cliente que


contornou com tranquilidade e firmeza. Menciona algumas anotações no Caderno de
Anotações Pessoais relacionadas a sonhos com pessoas que não vê há algum
tempo e outros com conteúdos diversos. Em um dos sonhos, alguém falava do
irmão. Relata ter tido dor de cabeça uma única vez na semana. Ao longo desta,
entrou duas vezes na garagem, quando lembrou, mas de forma bem controlada,
sem esperar que a perturbação surgisse. Não há perturbação em relação ao alvo
anterior.
Pelo PTr, não há outras memórias identificadas, o que tornou necessário uma
reavaliação do processo até aqui para o replanejamento, pois embora a memória-
chave esteja aparentemente solucionada, P6 ainda apresenta alguns sintomas. No
rastreamento de possibilidades, ela menciona o ritual funerário da cremação, o
sonho com ele da cintura para baixo e a saudade. Nesse momento, observa a
dificuldade de organização que tem e se manifesta no carro, na casa, e que acha
que é reflexo de tudo o que tem vivido. Esse problema de organização é anterior à
morte do irmão.
Em função de pesadelos de perseguição, avalia-se a memória do jardineiro,
que, segundo P6, apresenta SUDS 6. Nessa avaliação, ela é questionada em
relação ao que sente que ainda precisa trabalhar em relação ao luto, ao que ela
209

responde imediatamente: a tristeza e a saudade, embora com uma importante


mudança.

Mas olha que engraçado, eu choro hoje é pela ausência dele, pelas coisas
boas que eu lembro. Engraçado, eu não consigo chorar agora pelo dia mal.
Eu choro, agora, pela ausência dele, pela coisa boa que nos falta.

Na sessão 6, observa que no intervalo entre as sessões não apresentou falta


de ar ou dor de cabeça, bem como se percebe sem ansiedade. Além disso,
emagreceu três quilos. Revela situações em que defendeu seu direito de forma
tranquila e firme. “Então, eu consegui, eu estou conseguindo fazer as coisas.”
Escolhido o tema do ritual da cremação, por ser remanescente à morte do
irmão. “Não vou ver ele nunca mais. Como se fosse dessa porta para lá. Não vou
ver ele nunca mais. E vamos ter que lidar com isso daqui para cá.”
Ao estabelecer o ICES em relação à CN escolhida, deveria ter feito alguma
coisa, relata apenas tristeza e não culpa, “porque eu não tinha as informações. Eu
tenho que ter isso na minha mente, que eu não tinha as informações, hoje eu tenho”.
Ao tentar localizar a CP mais adequada, faz uma interessante observação em
relação às palavras escolhidas: sou forte, pois quem é forte “às vezes aceita coisas
que não quer. Na verdade, eu faço o melhor que eu posso dentro da minha
possibilidade”.
Na sequência de MB’s, surgiu que não tem mesmo como ter culpa, pois “nos
últimos dias ele estava se isolando. Não estava agressivo, estava zonzo, lento. O
tempo que eu tive foi muito curto para perceber”.

Ele estava de um jeito que ele não deixava ninguém se aproximar. Eu,
minha mãe, meu pai, a gente tinha medo de conversar com ele e
desapontar, desagradar de alguma maneira e ele ficar bravo. Porque antes
veio uma agressividade que vinha por muito tempo.

Mais uma vez, o processamento a leva a refletir sobre não precisar agradar
ninguém, relata um sonho com guarda-roupa bagunçado sendo arrumado e induz a
crer que as memórias estão sendo organizadas.
Por fim, o último processamento se dá com o foco da “crise de pânico”, onde
se vê no meio de muito barulho.
210

7.6.3 Avaliação final

P6 apresentou melhora significativa no decorrer das sessões de EMDR


compatíveis com os resultados apresentados nos registros dos instrumentos
aplicados por ocasião da avaliação de encerramento dos atendimentos. Esses
registros estão dimensionados sob a forma de gráficos no Apêndice J.
Inicialmente, P6 queixou-se de tristeza intensa, mesmo não atingindo os
critérios de BDI para o diagnóstico de transtorno depressivo. Após o encerramento
das sessões de EMDR, é possível observar a diminuição da pontuação nas 21
afirmações relacionadas à tristeza mensurável por esse instrumento, que coaduna
com as afirmações de P6 em relação à redução de sua tristeza.
O mesmo pode ser observável nos resultados do DES-II, que indicam que P6
está mais centrada no presente, sem tantos relatos de problemas de memória e
concentração, indicando um maior equilíbrio geral de si mesma.
Nos registros relativos ao HGRC, na subescala de desespero, por um lado,
apenas o item “eu tenho pouco controle sobre a minha tristeza” se manteve no
mesmo patamar, descrevendo P6 razoavelmente bem. Por outro lado, os itens
relacionados a pensamentos suicidas ou à reunião com o morto, mantiveram-se sem
descrevê-la em nada, o que corresponde ao seu autorrelato em AI e AF. Nesse
processo psicoterápico, parece ter aceitado um pouco mais a permanência da morte
que caiu do nível máximo de identificação, para descrevê-la razoavelmente bem. Eu
sofro muito pensando em sua morte e choro com frequência, tiveram uma redução
passando a descrevê-la pouco bem, em contrapartida ao que era antes. A crença de
que nunca mais seria feliz de novo, que a representava integralmente, reduziu até
não descrevê-la em nada, indicando a esperança de uma vida equilibrada, também
observável na mudança do item 47 e 1. O item “sofro com a minha solidão” a
descrevia razoavelmente bem e, em consonância com as demais mudanças, deixou
de representá-la. As mudanças em suas reações físicas são compatíveis com a
redução da afirmação “eu sinto um peso no meu coração”, a nível de não descrevê-
la bem. A sensação de estar sonâmbula não a representa em nada.
Já na subescala de Comportamento de Pânico e “me assusto facilmente”,
manteve-se inalterada, e o aumento da identificação com as afirmações “às vezes
meu coração bate mais forte do que o normal” e “eu tenho ataques de pânico por
nada” com um pequeno aumento, levam à hipótese de que esses comportamentos
211

de pânico possam estar correlacionados ao sintoma identificado no último encontro,


diferenciando o “tric-tric” inicial do susto que leva quando alguém a chama em voz
alta. Inicialmente, compreendia essa reação como sendo relacionada à morte do
irmão, do fato de ter recebido a notícia.
“Frequentemente tenho dores de cabeça” e “sinto meu estômago queimar”
aqui assinalados com frequência total no início do tratamento, reduziram apenas a
descrevê-la razoavelmente bem, enquanto que na avaliação por meio de perguntas,
P6 mencionou que não havia mais perturbação em relação às dores de cabeça. As
dores nas costas tiveram apenas uma pequena redução. As preocupações
excessivas e o cansaço permanente, bem como as tensões musculares que antes
foram registrados em nível máximo, reduziram apara descrevê-la bem, de forma
compatível com a avaliação verbal sobre esses dois problemas inicialmente
apresentados.
As afirmações “me sinto abalada” e “sinto-me doente com frequência” que
inicialmente a descreviam bem, passaram a não descrevê-la em nada, bem como os
sintomas de falta de ar e tontura desapareceram. “Frequentemente me sinto com
medo” passou a descrevê-la pouco bem, indicando também uma redução.
Passando para a subescala de Desinteresse/Indiferença, com exceção de “eu
evito carinho”, que se manteve sem representação de suas reações em ambos os
registros. As afirmações: “eu me preocupo quando me sinto inútil”, “tenho medo de
perder o controle” variaram de descrevê-la bem para descrevê-la pouco bem. Todas
as demais – desde descrevendo-a razoavelmente bem no caso de “sinto-me incapaz
de enfrentar esta experiência”, “sinto como se não me conhecesse” e descrevendo-a
bem, como “estou confusa sobre quem sou eu”, “perdi minha confiança” e “sinto-me
desapegado dos outros ”foram reduzidas ao patamar de não descrevê-la em nada.
Em relação à subescala de Desorganização do HGRC, apenas a afirmação
“tenho dificuldade de lembrar coisas do passado” permaneceu descrevendo-a pouco
bem. As demais todas apresentaram variações de redução dos registros. Assim,
todas as afirmações a seguir, como “tenho dificuldade em aprender coisas novas”,
que antes a representavam muito bem, sofreram alterações e passaram a descrevê-
la razoavelmente bem; “tenho dificuldade de concentração e dificuldade com
pensamentos abstratos”, passou a descrevê-la pouco bem; e, por fim, a afirmação
de que “realizar tarefas parece impossível”, não é mais a realidade de P6, que,
inclusive, tem se mostrado ativa em todas as esferas de sua vida. Por essa
212

subescala, houve pouca diferença em relação à melhora da memória, à semelhança


do item de sua dificuldade de lembrar de novas informações.
A seguir, avaliando os registros da subescala do HGRC de Culpa/Raiva, os
únicos itens que a descreviam bem, “tenho sentimentos hostis” e que a descrevia
pouco bem “sinto-me magoada”, passaram a não descrevê-la em nada. O que talvez
possa ser um indicativo de aceitação da perda.
Por fim, apenas o item “cheguei a um ponto que essa perda não é tão
importante para mim” não a representou em nenhuma das duas avaliações,
enquanto os itens “eu aprendi a enfrentar melhor a vida” e “sou uma pessoa que
perdoa facilmente” a representaram muito bem em ambas avaliações, na subescala
de Crescimento Pessoal do HGRC. A preocupação com os outros teve uma pequena
diminuição, bem como o item sobre compaixão pelos outros, redução corroborada
por suas ações de se colocar em primeiro lugar em diversas situações cotidianas.
O processamento de memórias trouxe a P6 o benefício de sentir -se uma
pessoa melhor , item que mais se desenvolveu nessa subescala . Os itens que
mencionam esperança também passaram a representá -la mais, de acordo com os
itens compatíveis na subescala de desespero , indicando a visão de novas
perspectivas de futuro. Percebe-se, ainda, mais forte em relação ao luto que passou,
mais tolerante consigo mesma e com os outros , todos em níveis máximos de
representação. E, por último, e em especial, reflete que está tendo mais dias bons do
que ruins em sua totalidade.
Algo novo parece ter surgido após a última sessão relacionada ao que chama
de crise de pânico, e P6 relata que tem tentado esconder isso das pessoas, mas é
um comportamento que já foi percebido por sua mãe.

Por exemplo, eu tô aqui... tô aqui fazendo alguma coisa aqui, estou distraída
daqui a pouco a pessoa fala assim “[P6], você podia...” quando a pessoa
fala isso... eu... eu gelo, eu gelo toda e assim... Que eu acho que a pessoa
vai falar algo ruim, entende? Aí eu falei “não mãe, não é nada, não.” “Nada
não? Não. Olha o seu estado”. Aí eu falei assim... eu falei “ai, mãe, pelo
amor de Deus, quando você for falar comigo...” aí eu conversei com ela
“quando você for falar comigo, você fala assim... você fala devagar,
entende? Mas, assim, quando você for falar comigo, não... não me assusta.”
Ela falou: “não, mas eu não te assustei, não falei nada demais”.

Indagada se esse tema estava relacionado ao alvo trabalhado na última


sessão, a respeito das vozes, P6 afirma que são duas coisas diferentes, na sua
213

percepção. Que inclusive, em relação às vozes, ao “tric-tric” teve um grande teste ao


viajar de carro para um outro estado, pois estavam...

Aí, papai falando alto, mamãe falando alto, som. Aí eu, de boa, fiquei...
Aquilo me incomoda, mas aquilo não me causa um... falei “gente, como eles
conseguem conversar alto, o som não abaixa e tipo o pau quebrando” e
eu... aquilo ali me... me incomoda, maaas não é aquele ‘tric-tric’, eu não
tenho ‘tric-tric’...

Ou seja, segundo ela, esse “tric-tric” não existe mais, mesmo não sendo uma
situação confortável, já consegue ficar bem nesse tipo de situação. Relata que essa
nova situação observada é como se alguém fosse dar uma notícia ruim.
Em uma retrospectiva espontânea de como chegou para os atendimentos,

muitas coisas aconteceram positivamente depois que eu iniciei com você.


Eu fiz uma retrospectiva de como eu vim [...]. Eu lembro até da expressão,
minha expressão... mesmo, me olhando no espelho, sabe? E... eu comecei
a olhar mais para mim, acabaram a falta de ar, acabou [ênfase]a falta de ar,
eu não tenho mais falta de ar.

Relata que a dor de cabeça só tem quando toma o remédio para o


“tumorzinho”, alegando que antes as dores de cabeça eram diárias. Também
aprendeu “[...] me aceitar mais... é... me ouvir mais, e não fazer mais nada forçado”,
negociando alternativas que se adequem à sua própria necessidade. Essa mudança
é observada por não sentir a obrigação de agradar as pessoas, o que a permite
sentir-se livre para agir como quiser.

Entendi que, primeiro eu preciso eu [ênfase] estar bem, para eu ajudar o


outro. Porque, antes, eu maquiava a situação pra deixar o outro bem, e
depois eu me regaçava. Agora não. Agora eu sei que eu preciso estar bem
primeiro para depois [ênfase] eu cuidar do outro.

Uma outra mudança observada é que passou a brincar mais com a filha, “a
olhar no olhinho dela mesmo, ver o que ela tá querendo expressar”. Além disso,
percebe-se ativa no trabalho, entregando diversas obras. Percebe, ainda, redução
na ansiedade, expressa de forma substancial no buraco da fome que “nada
tampava”. E essa ansiedade gerava... a falta de ar e essa comilança e... e agora
não, iniciou os cuidados em relação ao peso no programa de reeducação alimentar
tantas vezes oferecido por sua irmã.
214

Segundo ela,

Tudo parece que deu uma... tudo assim... cessou, se aprumou, né? O que
mais me incomodava, dor de cabeça, falta de ar e essa comilança, foi
embora... nossa, de 100%, meu Deus do céu, ficou 2% assim.... Um
negócio assim... Acabou! Não tenho mais aquilo. Muito... muito equilibrada
nisso.

A organização pessoal advinda da redução da ansiedade, que permitiu que


P6 já emagrecesse alguns quilos ao longo do período em que esteve em tratamento,
também foi percebida em outras esferas, no trabalho e em casa.

Igual, ficava na bancada um monte de parafernália, em cima, no escritório,


nãnãnã... Dei dez dias pra ela, aí falei: quer saber? Eu vou eu, quando ela
chegar vai ver a mudança. Ela está mantendo, tá mantendo. Mas para ela
foi assim... tava acostumada, tipo assim, a não tirar poeira, “deixa lá meio
bagunçado mesmo”.

Em relação às memórias perturbadoras por ter encontrado o irmão, “aquele


dia ficou pra trás”.

Aquele momento... de entrar na garagem, também, eu passei a entender


[ênfase] que aquele momento que eu estou entrando ali, não é [é] aquele
dia.

E quando eu lembro... e, na verdade, de um tempo pra cá, eu nem lembro


mais... do... do... do ato, do jeito... Tô lembrando agora, porque estou
falando com você, né?

Avaliando os disparadores, no dia da avaliação, viu um rapaz muito


semelhante ao irmão e ficou impactada. Contudo, ao contrário de suas reações
anteriores, em que era necessário parar o carro e chorar, apenas ficou remoendo um
pouco, mas saindo daquele momento.
Outra mudança é que começou a entender que cada um tem um tempo, e
que não há o que fazer por ser esse um momento da mãe. Uma mudança muito
importante pelo lugar que ocupa na família, de cuidadora, o que a obriga estar
sempre atenta e preocupada com os pais.

Então mamãe tem o tempo dela, de tristeza ela, não é o meu. [...] Ele era
filho dela, era meu irmão. Eu sou irmã! Então, não querendo falar qual a
215

maior tristeza. Mas ela tem o momento dela... [...] Então, não posso ficar
triste por ela, vou ficar ... vou ficar triste, alguns momentos pelo meu, né?

Estar mais tranquila em relação a tudo o que testemunhou, também permite


que P6 tenha uma atitude mais serena em relação à sua filha, aprendendo a lidar
com ela de forma mais adequada. Um exemplo é quando houve uma situação
familiar em que a percebeu-a chorando com saudade do tio.

Porque eu vi ela chorando, mas eu não chorei. Se fosse outra época, [som
de imitar choro], eu ia chorar junto, aí eu ia envolver a criança, já ia cair no
chão... [risos]. A gente ia rolar... as duas chorando.

P6 percebe uma grande mudança na organização consigo mesma.


Checando todos os alvos, queixas e reações apresentadas no início do
tratamento, P6 negou qualquer perturbação, salvo a situação recém-surgida de
achar que receberá notícia ruim.
Em relação aos pesadelos como disparadores, incomodam, mas não
paralisam: “Como eu tenho uma superstição que quando eu sonho com isso é que
alguém vai morrer... Deus me perdoe! Sabe assim?” E brinca com um acordo com
Deus em que ninguém de sua família pode morrer nos próximos trinta anos.

eu falei “ai, mãe, não gosto de sonhar essas coisas...” “minha filha, todo
mundo tem um tempo aqui, então... de repente, se a gente sonhar é um
aviso e tal...” ela fala assim... ela leva de boa. Aí falei “ah, mãe, é, tá bom,
só tem que repreender e pedir a Deus pra cuidar de tudo e pronto!” Então,
assim vou que... vou falar 0.

Segundo P6, ela sonhou umas três vezes com o irmão e, nessa AF, relata que
no sonho o viu de corpo inteiro, uma das conquistas mais comemoradas por ela.

Sonhei com o [irmão], mas é como se eu estivesse assim, aqui, como se


fosse essas paredes, mas como se fosse tipo um... um voil... E aí eu falava
alguma coisa, que eu queria alguma coisa, ele... ele tava lá conversando
comigo, mas assim ainda... entende?

E em relação ao sonho, ele parece ter vindo significar aqueles momentos


terríveis que ela vivenciou e que surgiam como se estivessem acontecendo
novamente.
216

Sou grata [ênfase]a Deus por isso. Tinha que ser eu, pra não... ter a cabeça
de não deixar ninguém ver, não deixar tirar foto, não entrar no portão [...]. E
aconteceu aqui [ênfase], acho que te falei isso, que veio como se fosse
aquele momento, assim, como se ele fosse... falando pra mim aqui
“obrigado, porque você teve esse cuidado comigo”, né?

Em relação ao irmão, percebe o quanto eram amigos e “que... dentro da...


dentro do possível”, como diz [P6], “é uma pessoa, né? Dentro de tudo o que eu vivi
até hoje, eu fiz o melhor pra... pra ele”.

Eu não tinha as informações, eu não posso me... Hoje eu sei que eu não
posso me culpar, porque eu não tinha as informações, eu não sabia o que
era depressão, eu não sabia o que que ele estava passando.

Então, eu não posso. Ele... ele nunca chegou pra mim e falou assim “irmã,
me ajuda aqui que eu tô...” uma vez ele virou pra mim, bateu numa mesa:
“você tem depressão”.

Aí eu olhei pra ele: “você está louco?”. Hoje eu saberia: “opa, ele tá falando
dele, não tá falando de mim, tá falando dele”. Entendeu?

Ao final, mesmo não estando no PTr relacionado ao luto, P6 é questionada se


houve alguma mudança em relação ao jardineiro e percebe que tem lembrado
menos e, quando lembra, não tem acesso à fisionomia do indivíduo. Segundo ela,
essa lembrança, no momento da avaliação, não a estava perturbando. Perguntada
em relação ao corte na cabeça, ao sangramento, ocasião em que precisou levar
pontos, também não apresenta perturbação. Esse talvez seja um indicativo do
potencial de cura das redes neuronais quando há o trabalho direcionado em um
foco, mas que beneficia outras situações a ele interligadas.
Talvez o que P6 chame de pesadelos com carne e sangue estejam vinculadas
ao trauma que sofreu quando precisou levar dez pontos na testa. Outros temas
como o papel de cuidadora e a exigência de si mesma foram considerados como
possibilidades para o futuro, bem como o comportamento que passou a observar
após a última sessão de EMDR. Será algo relacionado ao luto ou à sua infância? Ou
talvez relacionado aos dois. Não há como responder isso agora.
Não restam dúvidas das grandes conquistas de P6 ao longo desse período de
trabalho de suas memórias perturbadoras. Embora aparentemente não haja mais
nada para trabalhar em relação ao luto, é preciso que ela se observe para ver como
seguirá daqui em diante.
217

Ao final dos atendimentos, sugere-se a P6 que observe seus comportamentos


e sintomas, para ver como eles reagirão. Além disso, fica aberta a opção de seguir
trabalhando outros temas não relacionados ao luto, como, por exemplo, as
dificuldades vivenciadas na infância que lhe trouxeram o rigor e a cobrança em
relação a si mesma. Talvez essa reação esteja associada ao momento em que a
mãe recebeu a notícia...
Dessa forma, fica estabelecido que há indicação de seguimento da
psicoterapia, aparentemente para outros alvos não relacionados ao luto.

7.7 ANÁLISE DO CONJUNTO DE MÚLTIPLOS CASOS

Nessa etapa, será realizada a análise do conjunto de múltiplos casos, a partir


das informações coletadas nos estudos de cada caso individualmente, seguindo as
sugestões de Stake (2006) adaptadas para essa investigação. Essa adaptação se
faz necessária por ser um estudo inédito, requerendo a flexibilidade da autora de
forma a congregar o maior número possível de informações.
Como forma de observar esse conjunto, as informações serão organizadas a
partir do enquadramento oferecido na Figura 4, de forma a obter uma narrativa
compreensível. Essa narrativa leva em consideração os elementos do círculo do
meio, a saber, a fundamentação teórica arregimentada ao longo deste trabalho, o
paradigma sistêmico e a prática clínica. Dessa maneira, será possível observar as
características específicas do conjunto revelando a unicidade, a complexidade e as
condições prévias e nele presentes, de acordo com o proposto por Stake (2006).
218

Conjunto
de múltiplos casos

Figura 4 – Elemento de Análise do Conjunto de Caso Instrumental Coletivo


Fonte: Autora

Embora o convite para a participação da pesquisa tenha sido enviado para


todos os participantes do API/Vitória, seis interessados foram selecionados no final
do processo de recrutamento para participar dessa investigação e passaram a
compor o conjunto estudado . Esse conjunto é único , e mesmo que o método seja
replicado em nova investigação, ele jamais será replicado.
A seguir , serão apresentados um quadro que fornece um panorama do
contexto de quem é cada participante deste conjunto e um outro com o histórico de
suas perdas. A disposição das informações nessa forma de apresentação facilita a
apreensão do todo do conjunto e também para avaliar quem estamos apresentando.
219

Quadro 15 – Contextualização da Perda


Fonte: Autora

Nesse CMC, temos seis participantes com perdas pelas mais diferentes
causas, com idades variando de 41 semanas de gestação a 39 anos de idade, com
diferentes graus de relacionamento. O tempo de perda varia de2 anos e 1 mês a 2
anos e 8 meses, uma coincidência importante, pois supostamente os enlutados
poderiam se encontrar nos mesmos movimentos em relação ao luto, oque não se
verifica na prática. P2 procura ajuda pela perda mais recente, de seu pai, mas no
decorrer da avaliação percebe que precisa de ajuda para aprender a lidar com todas
as perdas por ela vivenciadas. Então, as perdas anteriores chegam a um período
bem longo de 28 anos e 3 meses.
As causas da perda são motivos de atenção, pois, dos seis, quatro enfrentam
uma morte por suicídio, que pode acarretar uma série de situações especiais,
incluindo aspectos traumáticos. As perdas de P3 e P4 apresentam algumas
similaridades, entre elas, a percepção de ambas as mães, de que os filhos morreram
por descuido e negligência médica. Para mais informações, consultar os respectivos
estudos de caso.
220

Embora com tanta diversidade entre eles, os participantes vêm em busca de


ajuda para enfrentar seu processo de luto.
P5, por exemplo, relata que gostaria de “sentir saudade sem dor”, enquanto
P1 precisa aprender a lidar com a ausência em meio a uma dor intolerável. P6 pede
ajuda para organizar as memórias “daquele dia ruim”. O pedido de ajuda de P2 se
relaciona a aceitar o conjunto de perdas, enquanto P3 precisa se livrar da culpa. P4
menciona dificuldades na convivência com o luto

Quadro 2 – Dados demográficos dos participantes


Fonte: Autora

Com uma variação de idade entre 32 a 52 anos, os participantes estão em


uma mesma etapa do ciclo vital relacionada à vida adulta. Todos eles já casaram,
incluindo P5, indicada no gráfico como solteira, mas que recebeu os laços do
matrimônio durante a sua participação na pesquisa. Com exceção dela, todos já
possuem filhos.
Contando com certa estabilidade financeira e social, todos possuem curso
superior completo (dois deles, com pós-graduação), mesmo que não trabalhem em
sua área de formação. A colocação profissional só aparece como uma questão para
P3 e P4. P3, em função de sua falta de perspectiva de vida, após longo tempo de
dedicação exclusiva à sua filha portadora de necessidades especiais, apresentava
dificuldades com a perspectiva do futuro, uma vez que não conseguia se sentir bem
221

como dona de casa, ao mesmo tempo em que já não conseguia voltar para a
atividade profissional anterior.
Evitando controvérsias em relação a critérios diagnósticos para o luto 7, dois
focos podem ser observados neste conjunto:

a) Em relação ao modelo desenvolvimental do luto (NEIMEYER;


CACCIATORE, 2016): os participantes, pelo tempo decorrente da perda,
poderiam ser classificados como estando no período intermediário do luto,
em meio ao desafio de reconstruir a vida. Ao mesmo tempo, todos
apresentavam reações ainda no período do luto inicial, em especial no que
concerne aos sintomas físicos, compatíveis com reações ao trauma.
b) Embora esperado que o equilíbrio em relação ao luto aconteça entre dois
a três anos após a perda, e considerando que esse foi o período médio do
tempo decorrente da perda para todos os participantes (excetuando P2,
que, além da perda do pai nesse período de tempo, acumulava duas
outras perdas anteriores), todos os participantes se encaixavam na
definição de luto complicado de Rando (1993, 2013, 2016a). Dá-
seespecial destaque para o fato de apresentarem algum comprometimento
nas esferas física, pessoal, familiar, social, profissional e espiritual. Outra
forma de observar esse comprometimento seria usar os elementos dos
processos dos “6 Rs” (RANDO, 1993) ou as tarefas do Worden (2013).

Não foi necessário usar critérios diagnósticos para selecionar os participantes,


e o método de recrutamento utilizado permitiu que eles próprios identificassem a
necessidade de ajuda para trabalhar aspectos de seu luto. Essa forma de constituir
esse conjunto de múltiplos casos (CMC), permite chegar mais próximo à realidade
clínica, em detrimento das pesquisas em amplas populações, como vistas no
capítulo sobre EMDR e Luto.
Para Gamino e Ritter (2009), essa talvez seja a forma mais condizente com a
prática clínica diária com enlutados, quando eles são capazes de identificar se
precisam de ajuda e demonstrar interesse em procurar um profissional que trabalhe
com luto. Afinal, independentemente de critérios diagnósticos ou instrumentos de

7
Essa discussão pode ser conferida no Capítulo de Luto.
222

medida, a melhor avaliação é aquela que advém do próprio enlutado, o maior


conhecedor de sua realidade.
Talvez essa forma de recrutamento também auxilie na aderência ao
tratamento, item observado entre esses participantes que se mantiveram assíduos e,
para aqueles que enfrentavam alguma dificuldade em relação ao horário agendado,
faziam contato para remanejamento.
É bem provável que esses fatores tenham alguma influência em relação aos
resultados alcançados ao longo dessa investigação.
A seguir, no Gráfico1, um gráfico comparativo entre os participantes em
relação ao número de sessões de EMDR realizadas.

12

10
Número de Sessões

0
P1 P2 P3 P4 P5 P6
PARTICIPANTES

Gráfico 1 – Conjunto dos Estudos de Caso – Número de Sessões


Fonte: Autora

As variações entre o número das sessões realizadas apresentou mudanças


de acordo com o PTr individual , os resultados alcançados e a disponibilidade para
participação da pesquisa . Dessa forma , P1 e P3 receberam o número máximo de
sessões de EMDR estabelecidas na pesquisa . P2 e P5 receberam o número
mínimo, enquanto P4 e P6 receberam o número intermediário de sessões de EMDR
planejadas.
É preciso observar as diferentes justificativas para cada quantidade recebida
de sessões.
P1, embora não tenha chegado ao fim de seu PTr, alcançou o número
máximo de intervenções. E, mesmo observando algumas mudanças importantes em
relação ao seu processo de luto, finalizou a avaliação recebendo a recomendação
de seguir com o tratamento.
223

P2, em 8 sessões, conseguiu atingir todos os objetivos do PTr individual,


motivo pelo qual recebeu alta com a recomendação de observar os resultados e,
caso necessário, contactar a pesquisadora. No processo de P2 foi observada a
generalização dos efeitos do processamento em memórias que não chegaram a ser
processadas, mas que chegaram a SUDS 0.
P3, que recebeua intervenção em 10 sessões, alcançou todos os objetivos do
PTr, recebendo alta com a recomendação de observar os resultados e, caso
necessário, contactar a pesquisadora. No processo de P3, foi observada a
generalização dos efeitos do processamento em memórias que não chegaram a ser
processadas, mas que chegaram a SUDS 0.
P4, em decorrência de algumas viagens por motivos particulares não
previstas inicialmente, alcançou 9 sessões de processamento e, embora tenha
observado um equilíbrio, não chegou ao final do PTr por motivos discutidos no
estudo de caso individual. Recebeu a recomendação de seguir com a psicoterapia
do luto, bem como o tratamento psiquiátrico iniciado durante a intervenção.
P5 alcançou o número mínimo de sessões, 8, tendo finalizado o PTr, e não
identificou nenhuma outra queixa ou memória para ser trabalhada em relação ao
luto. Entretanto, solicita continuidade da psicoterapia para resolver questões de
organização e situações outras que vivencia desde a infância.
P6 encerrou o trabalho de luto em 9 sessões, concluindo todos os objetivos
do PTr individual. Por um comportamento que emergiu ao longo dos
processamentos, recebeu a recomendação de seguir com uma psicoterapia para
tratar o “susto com voz alta”. No processo de P6, foi observada a generalização dos
efeitos do processamento em memórias que não chegaram a ser processadas, mas
que chegaram a SUDS 0.
Para Shapiro (2002), é desnecessário mapear todas as memórias
disfuncionais, para que se tornem alvos do plano de tratamento. No conjunto de
casos estudados, isso ficou claro, bastando ter como focos os alvos relacionados ao
luto. Contudo, em outras situações, caso o enlutado tenha sofrido vários eventos
traumáticos separados e não similares, não é possível esperar generalização e cada
evento precisa ser trabalhado separadamente.
Para P2, no entanto, ao ter três perdas significativas, o trabalho realizado
permitiu observar a interligação entre as três, como, por exemplo, uma das
memórias trabalhadas em relação à morte do marido, que foi dar a notícia para as
224

filhas, tinha conexão direta com a memória da forma como ela soube da morte de
sua própria mãe. Ao final, todas as memórias não apresentavam qualquer
perturbação.
Efeitos positivos do tratamento são esperados mesmo quando apenas alguns
alvos são trabalhados (SHAPIRO, 2007).
Todos os processos de luto trabalhados com EMDR fizeram emergir algumas
memórias positivas em relação ao ente querido. Para P1, essas memórias são
percebidas como extremamente dolorosas, motivo pelo qual faz com que sofra mais,
pois percebe um aumento da dimensão da ausência.

Quadro 16 – Informações de Recomendações aos Ps ao término da intervenção


Fonte: Autora

O quadro a seguir apresenta o grau de satisfação em relação aos resultados


da intervenção realizada com o EMDR para as situações de luto apresentadas
durante a AF.
225

Grau de Satisfação com os Resultados do EMDR


12

10

8
Nível de Satisfação

0
P1 P2 P3 P4 P5 P6
PARTICIPANTES

Gráfico 2 – Conjunto de Estudos de Caso – Registro do Grau de Satisfação com os Resultados do


EMDR como Abordagem Psicoterápica para o Luto
Fonte: Autora

Há uma crítica a ser feita a esse registro, pois ela foi solicitada pela própria
pesquisadora, o que pode, indubitavelmente, alterar os resultados. O ideal é que
qualquer avaliação a respeito da satisfação com o resultado de uma intervenção
seja feito por um pesquisador independente para maior fidedignidade.
Embora este não seja um estudo quantitativo, todos esses gráficos foram
construídos para melhor sistematizar os elementos oriundos dos diversos
instrumentos de avaliação e facilitar a visualização dos mesmos. Todas as
informações devem ser interpretadas à luz de uma análise qualitativa, tal como
proposto no escopo desa investigação.
No quadro acima, apresentado estão dispostos lado a lado, todas as
queixas/demandas identificadas durante a avaliação inicial, por meio da medida
comum ao EMDR do SUDS, que registra o grau de perturbação de cada item em
uma escala de 0 a 10, onde 0 é nenhuma perturbação e 10 a máxima perturbação
que se pode imaginar. Todas essas barras aqui representadas, podem ser
encontradas nos PTrs individuais de cada participante.
226

Gráfico 3 – Conjunto de Estudos de Caso – Registro de Medidas de Perturbação (SUDS),


para a queixa Inicial estabelecido
Fonte: Autora

Surpreende a observação de que dos seis participantes, quatro tiveram todos


os objetivos estabelecidos alcançados, o que pode ser percebido na comparação
das barras azuis, que representam a perturbação avaliada por ocasião da AI, e as
laranjas, que registram as informações de AF. P2, P3, P5 e P6 tiveram suas queixas
“zeradas”.
Quanto a P1 e P4, os estudos de casos individuais apresentam as vicissitudes
de cada percurso da intervenção e o significado dos dados aqui registrados.
De forma breve, ambos apresentaram ao final da intervenção algumas
melhoras do quadro inicial relacionado ao luto. P1, ao registrar perturbação máxima,
indica o quanto a ausência do filho ainda o incomoda. O que não significa que o
processo de luto ficou estagnado. Basta observar o quadro seguinte, relacionado
aos alvos que compõe o PTr, que a redução do SUDS será notada. Ampliando a
discussão, para ele, apenas a dor intensa entremeada com a ausência e a saudade
permanece em nível máximo. Os pensamentos recorrentes e a culpa apresentam
decréscimo no grau de perturbação.
Em relação à P4, a pretensão de conviver de forma mais amena com o luto
obteve algum resultado, como pode ser observado no gráfico acima. Contudo, ao
observar os registros dos alvos, os pensamentos recorrentes alcançaram um alívio
suportável, enquanto a culpa permaneceu da mesma forma.
Com P4 ao longo dos processamentos, a mesma teve um quadro depressivo
desencadeado por múltiplos fatores e iniciou um tratamento psiquiátrico
227

concomitante. Nesse momento houve uma parada estratégica no trabalho com as


memórias e a história clínica de P4 foi aprofundada. Assim, um novo PTr foi
desenvolvido para que . Contudo, houve ainda uma terceira modificação para
adequar a intervenção à necessidade de instalar recursos para que fosse possível o
seguimento do trabalho dentro da janela de tolerância, além de terem sido
trabalhadas as CL.
Os outros participantes, P2, P3, P4 e P5, apresentaram redução drástica de
todos os alvos estabelecidos em cada PTr, de acordo com o gráfico abaixo.
Os participantes P1, P2, P3, P5, P6 foram rastreados apenas em relação ao
histórico de perda, para que esse fosse o foco, de acordo com a literatura
apresentada no capítulo de EMDR e luto.

Gráfico 4 – Conjunto de Estudos de Caso –Alvos Relacionados ao Luto do Plano de Tratamento


Todos os Participantes - AI/AF
Fonte: Autora

Embora esta não seja uma pesquisa quantitativa, a variedade de instrumentos


e o planejamento de sua utilização permitem que se observe por diferentes registros
os resultados alcançados, como, por exemplo, nos gráficos comparativos dos
escores de BDI, nos gráficos 5 e 6, ambos abaixo.
228

Gráfico 5 – Conjunto de Estudos de Caso –Registros de Medidas de DES-II


Todos os Participantes – AI/AF
Fonte: Autora

45
41
40

35

30
Registros Medidas BDI

28
25

20 AI
17 17 17 AF
15 13 SESSÃO 4
12 12
10

5 4 4 4
2 1
0
P1 P2 P3 P4 P5 P6
PARTICIPANTES

Gráfico 6 – Conjunto de Estudos de Caso - Registros de Medidas de BDI


Todos os Participantes – AI/AF
Fonte: Autora
229

Mudanças significativas foram observadas pela pesquisadora ao longo das


sessões de EMDR e confirmadas pelos participantes na Avaliação Final, e de acordo
com os gráficos apresentados acima, com mudanças que ocorreram nas áreas
pessoal, social, física.
Como diz P2 “Eu costumo dizer que foi como tirar com a mão” a facada do
coração”.
Aparentemente, no HGRC, as subescalas de Comportamento de Pânico e
Desespero parecem ter sido as com maiores variações. Embora todas as outras
tenham sido contempladas, em sua maioria para respostas mais adaptativas em
relação à perda.

7.7.1 Participação na pesquisa

Destaca-se o aspecto terapêutico, quando além dos resultados observados, a


pesquisa torna-se um importante espaço de escuta. P4, por exemplo, sequer tinha
noção do quanto suas perdas, em especial a do marido, influenciava a sua vida.
“aquela de [marido] doeu demais, eu nunca senti uma coisa daquela [...] Mas aquele
sofrimento, aquilo que eu senti aqui, de doer muito e do meu corpo sair, de eu sentir
muito sono e de eu ver eu me vendo... Foi muito forte aquilo ali”.
Franco, Tinoco e Mazorra (2017) também mencionam que o benefício de
participar de uma pesquisa suplanta a dor de entrar em contato com o sofrimento,
bem como na motivação encontrada por ajudar outras pessoas. Ideias também
encontradas no trabalho de Silva (2009) e de Pessoa (2017).

acabei sendo o grande beneficiado nessa situação e... me ajudou muito,


muito mesmo. [...] Eu penso que isso aqui foi o início de uma... recuperação.
(P1)

Eu me ofereci... porque traumatizada eu já sou de natureza, vivendo tudo o


que eu vivi, e de certa forma ajudar também... participar... sei lá! (P3)

objetivo de ter decidido ingressar na pesquisa é se livrar da dor, bem como


compensar a oportunidade de ter ido à reunião do API (P2)

Tá tudo, sonhei duas vezes com o [filho], sonhei com a gente aqui, que se
tava falando que… Já tinha 70% do teu estudo tava completo. Então...E que
a gente tava encerrando (P2)
230

Cada participante decidiu recrutar-se para participar por motivos diversos.


Entretanto, no decorrer do tratamento, algumas revelações foram feitas em relação à
dificuldade de pedir ajuda.
Já P3, por sua vez, já tinha experiência prévia com outra pesquisa, segundo
ela, também inovadora, que proporcionou benefícios para si e para sua filha para
obtenção do diagnóstico dela.
Três dos seis participantes haviam tido contato profissional com a
pesquisadora em seu consultório particular, por ocasião imediata da morte de seus
entes queridos, quando foi feito um trabalho de orientação familiar. Isso pode ter
afetado os resultados. É muito difícil por ser até então a única referência profissional
nesse tipo de atendimento. Mas também possibilitou o estabelecimento e o
fortalecimento do vínculo terapêutico de forma mais rápida. Além disso, todos os
participantes, com exceção de P4, já conheciam a pesquisadora por meio do
trabalho do API.
Abaixo, é possível conferir a participação de cada integrante em termos de
frequência e atividade. Ser passivo no grupo de WhatsApp significa não se
manifestar, apenas acompanhar as mensagens. A categoria esporádica se aplica
àqueles participantes que se manifestam no grupo de tempos em tempos e, por fim,
a categoria ativa corresponde àqueles que são frequentes nas postagens de
mensagens.

Quadro 17 – Participação no API/Vitória


Fonte: Autora
231

7.7.2 Situações de confronto com instituições de saúde e de segurança

Duas das participantes, P3 e P4, ambas mães que perderam filhos quando
estavam em cuidados médicos, carregavam marcas relacionadas à inadequação
dos cuidados por parte dos profissionais de assistência, em ambos os casos,
médicas que deixaram sequelas na vivência da morte de seus filhos.
P3 menciona, além das situações com a hospitalização da filha, o descaso
médico.
P2 menciona a dificuldade no IML, ambiente considerado insalubre, vindo de
lá a pior memória.
Além disso, P1, P2 e P6 relataram experiências difíceis em relação ao
Instituto Médico Legal, em especial, na hora do reconhecimento do corpo.
P6:“É, lá dentro! Você tem que entrar, você tem que ver a pessoa que você...
que você ama tá lá daquele jeito lá, né... eu sei que ele não está mais lá. Né?
Mas.... é o corpo que ele viveu que está ali, né?”

7.7.3 Disparadores

E também passei por isso, de um professor botar um filme, e que tinha um


negócio do cara se enforcar lá, de um caixão lá, não sei o que. Então assim,
isso é ruim pra caramba porque vem tudo na hora. Quando eu vejo alguém
parecido eu fico assim como eu estou agora, eu vim de lá até aqui
chorando, entendeu? (P5)

Eu não precisei, né, por enquanto. Mas eu aprendi uma coisa ótima pra
você viajar que é aquela parte assim “em caso de urgência contatar quem”
que eu chorava... já chorei pra preencher aquilo. E nas companhias aéreas
têm “não quero contatar ninguém, não contatar ninguém”. Você marca
aquilo ali e sai livra pra onde você quiser. Então, num, num... não... não...
não pensei, pulei essa de Porto Seguro, não precisei. Então, acho que mais
aquela época difícil de você precisar de um suporte. Então, não precisei. E
quando vi que tinha que colocar alguém, já botei “aquele não marcar
ninguém ali”. (P2)
232

7.7.4 Temas em comum

Neste CMC foram observados alguns temas recorrentes em todos os


participantes, como dificuldades apresentadas ou alvos estabelecidos: o momento
em que recebeu a notícia e os momentos imediatamente anteriores e posteriores,
dependendo do participante; a) a culpa presente em todo o processo, mesmo para
aqueles que não declararam essa emoção no PTr, e foi frequente a escolha de CN –
deveria terfeito alguma coisa ou sou culpado (a) para o trabalho com os alvos
definidos nos PTrs.; b) também foram observados pensamentos e comportamentos
relacionados à perda de sentido na vida e a dificuldade em encontrar um novo
caminho; c) presença de pensamentos recorrentes e/ou lembranças somáticas,
representando as memórias perturbadoras e as lembranças, como se o cérebro
tivesse tentando processar aquela situação difícil; d) reações físicas também
estiveram presentes no relato de todos os participantes; e) a forma como soube da
notícia e/ou tomou conhecimento do que aconteceu, como pedra fundamental de
todos os trabalhos, mesmo que não fosse a queixa e/ou alvo escolhidos, bem como
diferentes aspectos dos rituais funerários; f) pensamento suicida em diversos níveis,
em especial, no início do processo do luto, que é um fator a ser observado entre
enlutados, uma vez que o luto é um fator de risco para a ocorrência de suicídio; g)a
quantidade de sintomas que se iniciaram após a perda.
Neste CMC foram observados algumas consequências comuns aos
participantes do uso do PAI nas memórias disfuncionais relacionadas ao luto: a)
redução ou remissão de diversos sintomas físicos; b) surgimento de memórias
positivas; c) construção de significado e/ou crescimento pessoal; d) equilíbrio entre a
orientação para a perda e a orientação para a restauração; e) o surgimento de uma
representação interna indicando o desenvolvimento de um vínculo contínuo; f) alívio
ao perceber a acomodação da memória trabalhada; g) psicoeducação em relação ao
luto; h) a organização das memórias.
Alguns outros temas/aspectos surgiram com maior frequência: reações de
aniversário; aprender a lidar com a saudade; aprendizagem com o próprio EMDR,
incorporando alguns termos, fazendo testes de situações, aprendendo a observar o
próprio corpo e observando os gatilhos/disparadores
233

7.7.5 Atravessando a tempestade

Muitos enlutados podem reprimir afetos relacionados à perda, que podem


eclodir em qualquer tratamento (WORDEN, 2013), visto em P2, claramente, mas em
P3, P4, P5 e P6. P1 dizia que era como no dia a dia

[...] e quando você começa a trabalhar isso que é muito difícil... Eu sentia o
cérebro assim, porque normalmente quando fazia o processamento era
assim, uma fotografia, outra fotografia, que trazia, que trazia outra, que
trazia outra lembrança, que trazia outra lembrança, mas muito fotográfico...
mas nessa, parece que caiu tudo assim vum de uma vez só. As coisas não
foram tendo uma ordem... depois... depois que teve a ordem, mas naquele
primeiro momento, parece que.... sabe? Que você pegou o balde cheio de
papel e jogou tudo no chão? Essa foi a sensação que eu tive ali e que eu
não ia aguentar, era tanta coisa, que ficou ruim... mas depois que organizou
aquelas três... Eu nem sabia qual eram as três mais perturbadoras, aquelas
de [marido] e organizou a mim. (P2)

Difícil, foi quando trabalhei aquela lembrança de [marido] [...] Foi... foi. Mas
era... não no tratamento, mas era uma lembrança que eu tinha. E aí eu tive
que juntar força pra atravessar, e falar “eu vou” “não vou parar” “vou
continuar”, te liguei, tive pesadelo, um monte de coisa, falei “não, vou
continuar”.[...] Mas eu teria parado, eu quase parei, deu medo. Mas assim
“não pode parar, não pode parar. (P2)

Esse desconforto vale a pena pelo resultado [...] é um tratamento que causa
dor, mas que... que busca a cura. Então, essa parte é assim, cansativa [...]
mas você tem que piorar o que já tá ruim, pra depois melhorar. Vai ter que
mexer numa coisa que tá ruim, pra procurar ficar melhor depois.(P1)

7.7.6 O que recomenda para quem for se submeter ao EMDR

Com certeza, foi uma das melhores coisas que aconteceu na minha vida.
Depois de tudo o que eu passei, eu acho que... Eu costumo falar isso, que
eu agraço a Deus a tudo que eu passei, porque senão eu não ia me tornar
quem eu me tornei... Ela me trouxe uma organização das coisas... Em mim,
interior, uma organização interior, de motivação, de autoconhecimento, de
descobertas, que foram essenciais pra eu melhorar. E eu acho, agora não
só pra luto, que a gente fala do luto, mas a gente fala de várias outras
coisas aqui... E por isso eu indico, porque todo mundo tem alguma coisa
que perturba. Todo mundo tem alguma coisa que lembra, o coração não sei
o que, a cabeça não sei o que, assim... Tem uma reação física em relação a
isso, uma reação de perturbação. E foi isso que eu achei fantástico, que é
você tirar com a mão, sair daqui, na primeira consulta, sair daqui rindo na
234

rua como se fosse uma menina de 12 anos que deu o primeiro beijo. Das
coisas mudarem, de você mudar sua opinião sobre determinado assunto...
Não mudar de opinião, você ver que sua opinião estava errada, não é só
trocar, mas você ver que sua opinião estava errada, ver que o sentimento
estava errado daqui. Então, não tem como não ajudar, não tem como não
fazer né. Não só comigo. Mas todo mundo tem que fazer. (P2)

Então, quando você se entrega o resultado vem, você não precisa ficar
preocupado se o resultado vai vir, senão vai...Não, vai... vai que vai dar
certo. Se entrega que vai dar certo. Então assim, eu procurei fazer isso
todas as vezes, quando eu tô aqui, eu falo “tenho que aproveitar todos os
momentos, minutos que eu tô aqui”. Porque depois, lá fora eu não vou
conseguir fazer. Então, aqui é... a gente focar se tem alguma coisa
perturbando, prestar atenção, deixar processar e às vezes sair daqui com o
negócio processando na cabeça... [risos]

Então, no início eu senti bastante dificuldade em relação a me colocar no


local lá, do que aconteceu e realmente sentir. A minha mente no início ela
voava muito pela minha vida atual, que está acontecendo isso está
acontecendo aquilo, eu estou sem dinheiro, tem a Criança, tem isso. Então
assim no início, para mim entregar foi a partir da segunda sessão. E o que
eu indicaria era isso a pessoa realmente se desligar do que ela está vivendo
e focar no que a gente está trabalhando (P6)
Em sua opinião, recomendou o EMDR para outras pessoas, e aconselha a
ter força de vontade, porque é um processo às vezes difícil. (P2)

7.7.7 A pesquisadora

Embora exista uma necessidade de adequação ao método de estudo, o que


pode ser confundido com rigidez, a conduta do pesquisador em um trabalho desta
magnitude traz um pouco de angústia e muitas dúvidas em relação ao caminho
correto. Essa solidão só não foi pior, porque houve a possibilidade de conversar com
outros profissionais, realizar supervisão, bem como as próprias orientações.
Realizar esta pesquisa exigiu flexibilidade de horários, explicações adequadas
não só no TCLE, mas em todo o momento da pesquisa, recorrendo ao uso de
psicoeducação a respeito do luto, tempo extra (para os contatos telefônicos e via
WhatsApp) e disponibilidade de cuidado integral. Portanto, o relato desta pesquisa
235

espera oferecer a devida continência, a fim de contribuir para a integração das


experiências de cada etapa e de cada desafio.
Importante salientar toda a dificuldade com a tecnologia e o quanto isso pode
ter atrapalhado o andamento da pesquisa. Foram muitos equipamentos envolvidos e
muito volume de material coletado.
A obstinação em encontrar material que pudesse subsidiar o trabalho, pela
falta de referências que esmiuçassem o uso do EMDR com enlutados, privilegiar o
uso do protocolo básico, utilizar as crenças limitantes para vencer obstáculos
durante o processamento, refletir a cada atendimento, rever os PTrs, checar
constantemente. A utilização de outros recursos, como o desenho em substituição a
uma imagem de futuro (com P2), ou o trabalho com instalação de recursos (com P4)
por meio de diversas tentativas; a supervisão necessária para o trabalho com P1; o
uso de entrelaçamentos terapêuticos em alguns momentos do processamento; o
encaminhamento de P4 ao psiquiatra e a decisão de mantê-la na pesquisa, por
privilegiar o cuidado com ela em primeiro lugar, entre outras coisas, demonstram
toda a preocupação em adequar o EMDR a cada um dos enlutados. Talvez este seja
um dos elementos que colaboraram para os resultados alcançados, pois o
pesquisador é parte integrante da pesquisa, motivo pelo qual também faz parte do
CMC.
Em todos os momentos de dúvidas, foi privilegiada a atenção ao participante,
então, alguns materiais audiovisuais acabaram sendo perdidos, mesmo com toda a
preparação anterior, os testes e tudo de acordo com o planejado.
A decisão, por exemplo, de aceitar duas irmãs como participantes, uma vez
que não havia critérios que impedissem que isso acontecesse, e observando a
dinâmica relacional entre elas, talvez se tornasse um bom objeto de estudo, um
subconjunto dentro do CMC. Alguns aspectos foram observados. Mas é impossível,
com todo o material produzido, conseguir esgotar todas as observações em relação
aos diversos elementos apresentados.
Ao final desta análise, é possível concluir que, independentemente do autor
referência para avaliar as informações obtidas por meio desse conjunto de múltiplos
casos, os resultados são evidentes e puderam ser conferidos por diferentes
registros.
Neimeyer (2011) propõe uma sensível metáfora em relação à mudança de
modelos conceituais em relação ao luto, propondo que o modelo de enlutados como
236

seguidores de estágios/fases (stage followers) seja suplantado por sobreviventes


como diretores de palco/de cena (stage managers). Nessa útil metáfora, o enlutado,
de forma ativa, lançará mão de recursos para a performance da vida no rastro da
perda, tanto no fundo do palco de suas emoções, pensamentos, orações e ações
pessoais, quanto na frente do palco do mundo social.
A profissão de diretor de palco requer múltiplas habilidades e um complexo
manejo de diversas ações concomitantes, inclusive lidar com emergências. No
mundo do luto, indivíduos e famílias são convocados a exercer novos papéis em
meio a críticas circunstâncias, momentos em que precisam agir de forma
orquestrada uns com os outros. O objetivo de Neimeyer (2011) ao oferecer essa
metáfora é de apontar caminhos para que o enlutado seja visto como ativo em todo
o processo de desempenhar um novo papel, o qual ele não desejou. Essa nova
visão traz algumas implicações para os profissionais que trabalham com luto.
E é justamente essa posição de ação alcançada ao final da intervenção
aquela que pode ser observada em cada participante, que traz a dimensão do
intenso trabalho realizado para o estudo do conjunto de múltiplos casos do qual
fazem parte todos os participantes e também a pesquisadora, todos em papel ativo e
interativo. Ideia parcialmente representada pela Figura 4, uma vez que é estático.
Espera-se que a descrição deste CMC possibilite ao leitor a ideia do movimento, da
unicidade e da complexidade experimentada por todos os integrantes.
Os resultados observados no CMC permitem aferir que o conjunto de
instrumentos escolhidos foi adequado para avaliar o processo de luto e quais as
indicações terapêuticas precisas para o trabalho, cujo foco estava nas indicações
clínicas para a intervenção (FRANCO, 2016).
Mesmo os participantes que registraram na AI estarem passando por um bom
momento na vida, como alegaram P2 e P5 ao decidir ingressar nesta investigação,
alguns aspectos de suas memórias disfuncionais em relação às perdas drenavam
energia, trazendo comportamentos não desejados e sintomas intensos, fazendo com
que surgissem bloqueios em diversas esferas. Para os outros participantes, havia
uma falta de perspectiva na vida, falta de energia para a realização de ações,
isolamento social, entremeados de choque, culpa, pensamentos recorrentes e
sintomas intensos, sendo alguns dos temas em comum observados ao longo das
intervenções.
237

Gamino e Ritter (2009) propõem que os maiores desafios estão relacionados


a crises de isolamento, insegurança e falta de sentido. O primeiro, característica do
que seria um período de luto inicial, relacionado às primeiras semanas após a perda,
envolvendo reações imediatas, o segundo, vinculado ao luto intermediário relativo a
meses após a perda, em que o enlutado está desafiado a reconstruir sua própria
vida, e, por último, relacionado a anos após a perda, luto posterior, caracterizado por
ações de reorientação.
Contudo, a variedade de reações e sintomas impede de classificar cada participante
por esses período, pois todos eles já estariam no que Gamino e Ritter (2009) propõe como
luto posterior. O que se observa nesse CMC é uma verdadeira “montanha russa” com altos
e baixos e com todos esses desafios sendo alternados diuturnamente. Parece que todos
os participantes apresentavam crises de isolamento, insegurança e falta de sentido,
mesmo tendo a morte acontecido há mais de dois anos. Citando Neimeyer e Caciattore
(2016), a partir de seu modelo desenvolvimental do luto, o desconforto causado
pelas memórias adjacentes à perda e o papel que elas desempenham no curso do
luto parecem ser um dos aspectos sobre esse tema ainda pouco estudados
Então, pode-se pensar que as memórias não integradas na rede neuronal
conforme o pressuposto de Shapiro (2001, 2007, 2013, 2018) mantêm o enlutado
parcialmente nesse período de luto inicial, na medida em que revive imagens,
sentimentos, pensamentos e sensações físicas em maior ou menor grau. Mesmo
que o enlutado consiga seguir para outros desafios, como lidar com a insegurança e
a falta de sentido, parece que esse caminho não é linear e todos os desafios
acontecem ao mesmo tempo, sobrecarregando o enlutado em todas as suas áreas
de funcionamento.
Os resultados apresentados por meio do processamento das memórias
disfuncionais relacionadas ao luto podem trazer a reflexão de que esse trabalho
favorece a transição no desenvolvimento. Assim, não só as memórias são
armazenadas de maneira adequada, mas o desenvolvimento também é
desbloqueado, permitindo novas ações, emoções e pensamentos em meio à
harmonia neurofisiológica.
Luber (2012) considera que o EMDR é uma oportunidade de o enlutado
vivenciar o processo de luto de uma forma mais equilibrada, deixando claro que o
EMDR não tira as reações normais e apropriadas como a tristeza e, como ficou
visível a partir dos resultados desta pesquisa, a saudade.
DISCUSSÃO
239

8 DISCUSSÃO

Tendo como objetivo colaborar com o conhecimento do uso do EMDR em


situações de luto, essa investigação em todo o seu processo, desde sua
fundamentação teórica, com o garimpo de novas publicações a respeito do tema, até
seu encerramento, foi apontando caminhos possíveis para a consolidação dos
benefícios e dificuldades em relação ao tema proposto.
Vários estudos já indicam a eficácia do uso do EMDR com enlutados,
conforme citado em capítulo anterior e referendado no Apêndice A, mostrando
resultados semelhantes nos ensaios clínicos randomizados que compararam TCC e
EMDR (SPRANG, 2001; MEYSNER; COTTER;LEE, 2016; COTTER; MEYSNER;
LEE, 2017) ou apresentaram uma combinação de ambos (MOROZOW, 2014;
LEFERINK et al., 2017; VAN DENDEREN et al., 2018), sendo o TCC já consagrado
mundialmente como abordagem efetiva para enlutados. No estudo de Sprang
(2001), comparando EMDR e GM, o primeiro apresentou resultados superiores
como intervenção para os enlutados. No caso de estudos qualitativos, bem como
nas publicações com relatos de caso (SHAPIRO; FORREST, 1997; SOLOMON;
RANDO, 1997, 2007, 2012, 2016a; KNOX, 2002; KOSMINSKI; MCDEVITT, 2012;
MURRAY, 2012; BEAUMONT; MARTIN, 2013; SOLOMON, 2018), os resultados são
impressionantes. Em todas essas publicações, além da redução dos sintomas e/ou
reações do luto observadas, o EMDR possibilitou a emergência de memórias
positivas em relação a quem morreu, sendo aparentemente, uma característica
própria dessa abordagem.
Mesmo com várias publicações apresentando fragmentos de casos clínicos,
não foram localizados estudos que avaliassem o processo realizado com cada
cliente, o que parece ser um dos aspectos a serem destacados nesse trabalho em
curso. O desenho metodológico de estudo de casos instrumental coletivo mostrou-se
adequado aos propósitos desta pesquisa. Pode-se observar o passo a passo, desde
o momento da chegada, em especial à montagem do PTr e o percurso individual que
cada participante teve. Cada caso foi um caso. Embora com algumas semelhanças,
cada um teve um PTr único, com inúmeras variações.
Para proceder à discussão de todo o trabalho realizado, considera-se toda a
análise realizada em dois movimentos distintos, que possibilitou o aprofundamento
na compreensão a respeito do uso do EMDR por meio de cada estudo de caso
240

individual, bem como do estudo do conjunto de múltiplos casos. Todo esse percurso
instrumentaliza os terapeutas de EMDR e os terapeutas de luto na intersecção
dessas duas áreas, com importantes contribuições para a avaliação e a prática
clínica com enlutados.
Conclui-se, pela análise dos casos, individual e coletivamente, que o EMDR
como intervenção para o luto pode proporcionar diversos benefícios. O respaldo
dessa afirmação está no relato dos participantes em relação às mudanças
apresentadas em diversas esferas. Algumas observações em relação à
implementação dessa intervenção com enlutados serão feitas logo a seguir.
Retomando afirmações apresentadas no capítulo inicial, Gamino (2011)
retoma de forma atualizada um de seus trabalhos anteriores (GAMINO; RITTER,
2009) para abordar alguns dos aspectos pelos quais a maior parte das pessoas que
sofre uma perda consegue adaptar-se após perder alguém muito especial. Com
destaque à resiliência, explica que a maior parte dos enlutados encontra caminhos
próprios, e apenas 15% dos enlutados apresentam problemas em seu
funcionamento e precisam de ajuda. Bonnano (2009) afirma reiteradamente que
nem todos os enlutados terão um sofrimento prolongado ou terão que se submeter a
um tratamento para o luto.
Aqueles que encontram em seu percurso complicações no que se refere ao
processo de luto parecem se deparar com uma das duas funções do luto
complicado, tal como propõe Rando (2013, 2016): negar, reprimir ou evitar aspectos
da perda e dar-se conta da morte ou manter a forte conexão, sem mudanças.
A tentativa de diagnosticar diferentes patologias do luto durante gerações de
profissionais de diversas áreas acaba por levar à compreensão equivocada de que
há uma falha ou resistência do enlutado nessa tarefa de enfrentar a morte de
alguém querido (NEIMEYER, 2011).
De maneira clara, o EMDR apresenta uma nova forma de ver o sofrimento
mental, sob a perspectiva de memórias não processadas, tirando o peso do
indivíduo em sofrimento, ao apresentar a perspectiva do Processamento Adaptativo
de Informação. Essa perspectiva permite compreender que os eventuais
travamentos ocorrem no sistema nervoso. As memórias disfuncionais relacionadas
ao luto parecem circundar os momentos da morte, mas é provável que tenham
algumas bases em memórias precoces, em especial para os enlutados com
transtornos de apego (KOSMINSKI; JORDAN, 2016).
241

Na primeira função do luto complicado acima apontada por Rando (2013,


2016), parecem estar presentes nas disfunções apresentadas por todos os
participantes da pesquisa no início desta investigação. Após avaliar as mudanças de
comportamento geral nas experiências subjetivas relacionadas à perda, bem como
no alívio dos sintomas de cada participante, depois da intervenção direta nas
memórias disfuncionais, uma pergunta ecoa: qual o papel das lembranças não
armazenadas de forma adaptativa no luto complicado?
Worden (2016) menciona a existência de luto sem trauma, trauma sem luto e
luto traumático. Parece, então, razoável explorar um pouco a respeito desse tema.

8.1 LUTO + TRAUMA = LUTO TRAUMÁTICO?

Não é preciso passar por um grave trauma para apresentar sintomas por muito
tempo. Para Shapiro, “[...] se houver sintoma, há normalmente alguma experiência
que o tenha causado ou contribuído para seu surgimento” (2015, p. 11). Pode ser
algo simples e depende da atribuição do significado que se dá determinado evento.
Contudo, é sabido também que a sobrecarga do sistema nervoso central pode fazer
um indivíduo demorar para digerir um trauma por meio de reações automáticas de
luta, fuga ou congelamento.
Para Shapiro (2002), o desenvolvimento do EMDR teve como uma de suas
funções demonstrar a presença de TEPT nos problemas que permeiam a maior
parte das patologias psíquicas, lançando luz à discussão do impacto de um trauma
no ser humano.
De acordo com o DSM-5 (APA, 2013), a definição do TEPT inclui exposição a
ameaça ou ocorrência de morte, ferimento grave ou violência sexual, seja por
testemunhar, seja por experimentar um e/ou outro acontecimento. Alguns dos
sintomas compatíveis com TEPT são sintomas intrusivos, evitação a qualquer
estímulo relacionado ao trauma, alterações cognitivas ou de humor, estado de alerta
e sintomas reacionais. Os sintomas devem estar presentes após um mês do fato
traumático e atrapalhar o funcionamento geral em decorrência da perturbação
experimentada, e que não estejam relacionados a nenhuma outra condição médica.
Em relação a testemunhar um trauma, o DSM-5 (APA, 2013) também engloba
testemunhar a ocorrência de algo com outra pessoa, tomar conhecimento que um
familiar ou uma pessoa bem próxima foi morto ou gravemente machucado, e
242

relacionado à exposição de detalhes aversivos de eventos traumáticos por meio do


trabalho, por exemplo, conhecido como fadiga de compaixão (MARICH, 2014).
Mesmo um indivíduo não tendo testemunhado uma situação traumática, ele pode
desenvolver trauma vicariante. Situação esta que é frequente entre os enlutados,
como por exemplo, a experiência relatada por P5.
Marich (2014) ressalta as reações fisiológicas como lembretes do evento
traumático, com componentes somáticos tais como: dores gastrointestinais, dor no
peito, dor de cabeça, dores musculares, as quais estão claramente ligadas a
disparadores emocionais, conceito conhecido entre os terapeutas de EMDR.
Alguns dos comportamentos disfuncionais, segundo a autora, tais como
isolamento emocional ou físico, podendo chegar a comportamento de adição, seja
comportamental (jogo, trabalho, comida), seja as substâncias químicas (álcool e
drogas), dissociação, fuga de lugares e pessoas que ativam as reminiscências
(MARICH, 2014).
Contudo, nem todas as memórias negativas estão necessariamente ligadas a
um grande trauma (T), podendo advir de experiências cotidianas que a pessoa
experimenta. Existem os “pequenos traumas”, que Shapiro (2001, 2007, 2018)
nomeou de “t”, eventos de vida marcantes que podem ser difíceis de integrar na
experiência de vida maior. Situações como discriminação racial ou étnica, abuso
verbal, bullying, sobreviver ao divórcio, experimentar uma crise médica, abuso
espiritual, entre inúmeros outros eventos em que não há uma ameaça à vida, como
nos critérios estabelecidos para o TEPT, ainda que não se tratem de um “T”, podem
afetar a vida inquestionavelmente. São coisas da vida, e experimentar um trauma
não é patológico por si. O problema é quando eles não são resolvidos. Pessoas
com “ts” sem processamento, ou seja, com memórias não adaptativas, também
devem ter direito a tratamento. Afinal, podem ser tão significantes quanto um “T”.
Para Kosminski e Jordan (2016), história prévia de perdas traumáticas ou de outras
experiências traumatizantes são fatores de risco para o desenvolvimento de TEPT.
A alteração cognitiva e o humor associados ao evento traumático trazem uma
visão diferente do mundo e, como avaliação adequada, averiguar se há bloqueio ou
esquecimento de aspectos importantes do trauma, bem como a presença de
crenças negativas em relação a si mesmo, aos outros e ao mundo. Pode haver
culpa distorcida em relação a si mesmo ou ao trauma, estado emocional negativo
persistente, diminuição do interesse e/ou participação em atividades, sentimento de
243

desapego ou estranheza em relação a outras pessoas e inabilidade persistente de


experimentar emoções positivas. Dificuldade em ver o futuro, hipervigilância,
dificuldades de sono, comportamento de irritabilidade ou de agressividade,
problemas de concentração, comportamentos imprudentes ou autodestrutivos,
estado de alerta permanente. Não são esses exatamente as reações e os sintomas
apresentados pelos integrantes do conjunto de múltiplos casos?
O grande desafio é distinguir entre sintomas de luto na esfera física,
emocional, cognitiva, social e espiritual e os de TEPT, por haver uma estreita
similaridade entre eles. De acordo com Fleming (2012), é frequente que os
enlutados sofram com sintomas similares aos sintomas característicos do TEPT, tais
como sonhos, pesadelos e perturbação diante da exposição de lembranças do
trauma, evitação e entorpecimento emocional, bem como agitação que pode ser
observada por vigilância constante, dificuldades com o sono, irritabilidade e raiva,
dificuldades de concentração e sobressaltos.
Lindemann (1944) parece ter sido o primeiro pesquisador a apresentar as
reações de luto agudo, que apresenta sintomas fisiológicos e somáticos, que podem
aparecer imediatamente após uma perda ou pode aparecer mais tarde no processo
de luto. Destaca cinco pontos que com frequência sofrem alterações: perturbação
somática, preocupação com a imagem do morto, culpa, reações hostis e perda dos
padrões de conduta nos aspectos sociais. Um destaque que se sobressai são as
queixas de cansaço ou de peso, frequentes nos enlutados. Nessa época, o autor já
recomendava técnicas específicas para endereçar esse tipo de sintoma. Na leitura
de seu artigo, vários dessas reações e desses sintomas estavam presentes no
conjunto dos casos múltiplos estudados. Será que as memórias não processadas,
mesmo após dois anos decorrentes da perda, mantêm as reações de luto agudo
presentes, impedindo que a esta seja acomodada de forma apropriada?
Horowitz et al. (1997 ), na abordagem do luto traumático , definindo -o como
uma síndrome de resposta ao estresse bem similares aos sintomas do TEPT , tais
como descrença, raiva, choque, evitação, entorpecimento, sensação de futilidade em
relação ao futuro , fragmentado senso de segurança , confiança e controle .
Segundo eles , os critérios para identificar o luto traumático são : saudade ,
pensamentos intrusivos , comportamentos de esquiva , solidão e vazio , perda de
interesse em atividades pessoais, critérios similares aos notados por Parkes (1998).
244

8.2 REFLEXÕES ACERCA DO LUTO TRAUMÁTICO COMO CATEGORIA

Prigerson e Jacobs (2010 ) apresentam importante discussão sobre luto


traumático como uma entidade clínica distinta , abordando vantagens e
desvantagens no estabelecimento de critérios para isso. Para elas, luto traumático
não é isomórfico ao TEPT pela diferença de que o trauma do luto é resultado da
separação e causa mais sofrimento em virtude desta do que o resultado da
exposição a uma experiência horrível.
Ainda segundo as autoras, os sintomas de luto traumático se encaixam em
duas categorias: sofrimento pela separação e sintomas de perturbação traumática. A
primeira categoria se refere à preocupação com quem morreu, manifestando-se em
memórias perturbadoras sobre o morto, uma busca intensa por aquele que se foi,
saudade do ente querido e solidão após a perda. A segunda abrange sentir
descrença em relação à morte, falta de confiança, raiva e desapego em relação a
outras pessoas, o choque da perda e a experiência de sintomas somáticos do morto
(PRIGERSON E JACOBS, 2010).
Prigerson e Jacobs (2010) preferem a denominação “luto traumático” por
considerarem a palavra luto complicado abrangente demais. Privilegiam destacar o
trauma desse tipo de luto como sendo “trauma de separação”, lado a lado com o
sofrimento relacionado ao trauma, e distinguem as reações de luto normal das do
luto traumático.
Nesse conjunto de múltiplos casos apresentados anteriormente, com tantas
variações da forma da perda, grau de parentesco, idade de quem morreu, algumas
reflexões surgem em contrapartida ao trabalho apresentado por Prigerson e Jacobs
(2010).
Os autores mencionam que o principal comportamento no luto traumático é a
busca por lembranças de quem morreu ou, ainda, que a hipervigilância está
relacionada à busca de pistas de seu ente querido. Citam também um estudo em
que um exame de eletroencefalograma não detectou hiperatividade durante o sono
em participantes diagnosticados com luto traumático (MCDERMOTT et al., 1997,
apud PRIGERSON; JACOBS, 2010). No conjunto de participantes aqui apresentado,
de diversas origens em seus lutos e que vieram participar da pesquisa por
autorreferência, como estando com algum sofrimento em relação ao luto, todos eles
245

mencionam as circunstâncias da morte. Esse foi o principal alvo trabalhado, com


diferentes nuances, é claro.
Ao contrário do apresentado por Prigerson e Jacobs (2010), no caso dos
participantes desta pesquisa, as lembranças de seu ente querido lhes traziam mal-
estar justamente por estarem associadas aos momentos dolorosos por ele
vivenciados, parecendo bem mais compatíveis com um comportamento de evitação.
Talvez esse seja um dos motivos pelos quais a maior parte dos participantes
apresentasse dificuldades com a questão da ausência, pois não puderam ter as
memórias dolorosas adaptadas à rede neuronal, de forma que pudessem surgir as
lembranças positivas que permitem o surgimento de uma representação interna de
quem morreu, numa menção à continuidade do vínculo (KLASS et al., 1999),
amenizando, assim, a saudade.
Todos apresentaram alterações no sono, ansiedade e uma importante
intensidade nos sintomas físicos, como dor de cabeça e no peito/coração. O
“guarda-chuva” da terminologia de luto complicado (RANDO, 1993, 2013, 2016a)
ajuda nessas horas. Não resta dúvidas de que todos estavam sofrendo de luto
complicado e, quando examinados de perto, apresentaram diversas semelhanças e
diferenças. Dessa maneira, mesmo preferindo utilizar o termo “luto complicado” em
detrimento do termo “luto traumático”, é imprescindível levar em consideração os
aspectos traumáticos da perda.
O fato de Prigerson e Jacobs (2012) serem firmes ao apontar o caminho do
luto traumático por meio do trauma da separação parece ser apenas uma visão do
mesmo fenômeno ampliado, tal como postula Rando (2013, 2016a). Os resultados
apresentados ao longo desta investigação indicam muitas semelhanças com
sintomas do TEPT.
Claro que este estudo é limitado pelo número de participantes, e não se tem
aqui a pretensão de expandir os resultados no sentido de serem a verdade absoluta.
Ocorre que o EMDR parece ser uma luz em meio a essas discussões sobre luto
traumático . Para Prigerson e Jacobs (2010 ), ao avaliar os resultados de algumas
pesquisas , concluem que há diferenças entre a fisiologia do luto traumático e a da
depressão. Afirmam porém, que a diferença entre a fisiologia do luto traumático e do
TEPT ainda requer pesquisas para fazer afirmações com alguma clareza . Pelo
observado ao longo desta pesquisa, pelos resultados apresentados, tanto nos
246

estudos de caso únicos quanto no conjunto deles, é possível pensar o EMDR como
uma possível lente para a realização de investigações sobre essa correlação.
No entanto, as informações observadas no estudo dos múltiplos casos
apresentam uma consonância das memórias trabalhadas relacionadas às memórias
da experiência de horror para cada um de seus participantes. Mesmo em situações
em que o tema escolhido para trabalhar foi algo relacionado ao luto de forma
genérica, como, por exemplo, em “eu deveria ter percebido alguma coisa”, como
aconteceu com P1, no momento de montar o ICES da memória, o que surgiu foram
justamente as cenas dolorosas de encontrar o filho.
Para Fleming (2012), quando se trata de uma morte traumática, algumas
complicações adicionais podem aparecer. Para Worden (2013), algumas
características de morte traumática incluem alguns fatores como morte inesperada,
fora das etapas do ciclo vital, em especial a morte de um filho, mortes que envolvem
violência e mutilação, múltiplas mortes, mortes aleatórias ou mortes percebidas
como passíveis de prevenção.
Mas de que trauma estamos falando, afinal? O que realmente está por trás do
luto traumático? Em que proporção as circunstâncias da morte, independentemente
de ser considerada um trauma ou não, impactam o enlutado? Pois trauma é definido
individualmente. O que pode ser traumático para uma pessoa, pode não ser para
outra. E é sabido que quando várias pessoas vivenciam o mesmo trauma, elas terão
consequências em suas vidas e depende também da neurofisiologia e da adaptação
de memórias. Esse é um assunto que requer muito mais estudos.
Para Kosminski e Jordan (2016), mortes repentinas, não esperadas e
violentas, tais como suicídios, homicídios, acidentes e advindas de desastres
naturais, usualmente resultam em luto traumático. Mas, para esses autores,
dependendo da experiência do enlutado, outras perdas também podem ser
traumatizantes. Prosseguem afirmando que as respostas do luto traumático ocorrem
de maneira independente da relação com quem morreu.
Trabalhar com sobrevivente de uma perda traumática ou diante de alguma
comorbidade que pode complicar a adaptação à perda, requer do clínico prudência
para a realização de uma avaliação compreensiva da personalidade para obter o
diagnóstico mais preciso de forma a possibilitar estratégias de intervenção direta
(FLEMING, 2012).
247

No trabalho com enlutados traumatizados, caminhamos por duas avenidas ao


mesmo tempo, segundo Fleming (2012), a adaptação à perda e o trauma. Ele
recomenda que seja realizada ampla avaliação psicométrica, uma sólida relação
terapêutica e um treinamento adequado com níveis de habilidades para tratamento
do trauma.
Fleming (2012) recomenda o uso de ferramentas psicométricas para avaliar a
presença de sintomas de TEPT em meio ao luto. Segundo ele, a sobreposição de
um trauma no caminho de um enlutado é tão perturbador que ele pode evitar pensar
ou falar em quem morreu, o que pode impedir o aparecimento da tristeza e das
lembranças. Essa evitação é uma das funções do luto complicado, tal como
explicitados por Rando (2013, 2016a). Segundo o autor, quando existirem sintomas
de TEPT, estes devem ser tratados antes de ter como alvo o impacto da perda.
Embora não tenha sido designado um instrumento específico para a
mensuração da presença do TEPT em cada enlutado, tanto o DES-II quanto o
HGRC apresentam itens relacionados ao TEPT, permitindo observar decréscimo em
seus registros, antes e depois da intervenção programada. Esse decréscimo indica
que memórias traumáticas para aquele participante foram trabalhadas, resultando
em redução dos sintomas fisiológicos, como pode ser observado na análise dos
dados.
A segunda função do luto complicado, que é manter uma conexão inalterada
com quem morreu (RANDO, 2013, 2016a), parece ser lentamente dissolvida durante
os processamentos de EMDR. Ao permitir a reconexão com memórias positivas,
possibilita uma construção de uma outra dimensão relacional do enlutado com seu
ente querido, de forma a reduzir a distância física por meio de uma proximidade
emocional. Esse processo experimentado pelos participantes ao longo do trabalho
com as memórias também colocaram-nos no equilíbrio entre a orientação para a
perda e a orientação para a restauração, permitindo, ainda, uma construção de
novos significados adaptativos em relação à perda. De acordo com essas
abordagens correspondentes, citadas no Capítulo de Luto, são elementos que
proporcionam ao enlutado adaptar-se à perda de forma saudável.
Aqueles que encontram em seu percurso as complicações no luto parecem se
deparar com uma das duas funções do luto complicado, tal como propõe Rando
(2013, 2016): negar, reprimir ou evitar aspectos da perda e de dar-se conta da morte
ou manter a forte conexão sem mudanças.
248

O EMDR possibilita a conexão neurofisiológica entre várias partes do cérebro


e do corpo humano, integrando pensamentos, memória sensorial, emoções e
sensações físicas que são considerados elementos indissociáveis da memória. Para
Zampieri, “[...] pessoas com problemas pós-traumáticos poderão ter dificuldades
para realizar estas conexões.” (2010, p. 296).
Uma vez que as memórias apropriadas são acessadas e o sistema de
processamento é estimulado, as memórias não adaptativas são transformadas em
uma resolução adaptativa (SHAPIRO, 2001, 2007, 2018).
A prática do EMDR reconhece a ligação indissolúvel entre mente e corpo.
Desta feita, o cliente, guiado pelo terapeuta de EMDR, processa as memórias que
alimentam os sintomas/transtornos/patologias e incorporam à sua rede neuronal de
memória novos aprendizados, habilidades e perspectivas para seu futuro
(SHAPIRO, 2015).
Já existem estudos a respeito dos índices de funcionamento no luto, como a
revisão sistemática de literatura apresentada por Hall e Irwin (2010), de forma a
avaliar os impactos do luto no corpo, para além dos efeitos no bem-estar emocional
e no funcionamento social. Os estudos por eles levantados avaliam as medidas do
funcionamento neuroendócrino, da competência do sistema imunológico e do sono,
no que consideram uma desregulação fisiológica, e podem ser um bom caminho
para novas investigações a respeito dessa discussão a respeito do entrelaçamento
do luto e do trauma.
Como forma de apresentar um passo em direção ao futuro nessa discussão,
para Amen (2018), de forma geral, há um consenso a respeito da falta de certeza em
relação às causas de um transtorno psiquiátrico. Segundo ele, elas giram em torno
da combinação de fatores genéticos, química cerebral anormal, experiências
relacionadas à parentalidade tóxica ou experiências dolorosas na infância e padrões
negativos de pensamento. Esse autor reforça a importância dos estudos de
neuroimagem para conhecer o órgão mais complicado (AMEN, 2018) de todos: o
cérebro. Concordando com Amen (2018), seria interessante desenvolver estudos e
pesquisas de imagem com enlutados, as quais poderão lançar luz a respeito dos
efeitos de uma perda e seu impacto no indivíduo em diferentes aspectos de sua
vida, trazendo respostas sobre quais as áreas do cérebro são afetadas. Isso
colaboraria de forma determinante para a discussão a respeito do luto x trauma.
Para esse tipo de avaliação, a tomografia computadorizada SPECT é o instrumento
249

mais indicado para examinaras funções cerebrais que sempre precedem os


problemas estruturais nos estágios avançados das diversas doenças (AMEN, 2018).
Esse tipo de pesquisa complementaria os achados clínicos de pesquisas e
publicações nacionais e internacionais, e seria de grande valia nos trabalhos
envolvendo o EMDR.
Para finalizar esta etapa da discussão, far-se-á breve menção ao trabalho de
Kosminski e Jordan (2016)e a respeito das questões de apego para a psicoterapia
do luto, na inovação da intervenção apresentada por eles, cujo foco é o trabalho com
enlutados a partir de problemas crônicos de apego.
O trauma na infância tem um impacto profundo no funcionamento emocional,
comportamental, cognitivo, social e físico da criança. Verificam-se, nesta fase,
respostas mentais e físicas ao trauma, incluindo hipersensibilidade fisiológica e
dissociação. Uma vez que o cérebro em desenvolvimento organiza e interioriza nova
informação de forma idiossincrática, existe uma maior probabilidade de
desenvolvimento de sintomas neuropsiquiátricos após o trauma (PERRY et. al,
1995).
Os estudos de Schore (2001) sugerem uma relação direta entre vinculação
traumática, funções de regulação do hemisfério direito ineficazes e saúde mental
desadaptativa na infância e na idade adulta. Sabe-se, igualmente, que o trauma na
infância se encontra associado à comorbidade e cronicidade de perturbações
ansiosas e depressivas na idade adulta (HOVENS et al, 2012).
Esses problemas relacionados ao apego, além da estrutura de funcionamento
do enlutado e, por conseguinte, seu percurso no luto, também trazem influências ao
significado dado à perda e ao possível trauma dela advindo. Ademais, indivíduos
com dificuldades de apego são desafiadores para a prática clínica, em especial com
enlutados (KOSMINSKI; JORDAN, 2016), uma vez que o propulsor das mudanças é
uma separação. A forma como o enlutado vai reagir à separação depende
diretamente das experiências ao longo de seu desenvolvimento responsáveis pela
sensação de segurança e conexão. Essas experiências moldam a forma como
indivíduo maneja seus estados internos e suas experiências corporais, e determinam
sua capacidade na regulação das emoções, aspecto fundamental na psicoterapia
EMDR.
250

[...] Tanto o luto está ao lado da morte, como evento, quando está do lado
da vida, no processo. Importa que a alegria volte a ser possível, pelo
menos. O trabalho do luto é o que permite. Não há receita, e que cada qual,
em face do horror, se vire como puder. Pode-se superar sem esquecer –
aceitar sem trair. (NASCIMENTO, 2001, p. 92).

8.3 INTEGRIDADE DO TRATAMENTO PSICOTERÁPICO

Uma importante questão a ser discutida é a respeito da integridade de uma


intervenção psicoterápica, definida por Sanetti e Kratochiwll (2014) como a extensão
até que ponto componentes fundamentais da intervenção são aplicados de maneira
competente tal qual foram planejados, ao mesmo tempo em que os procedimentos
inadequados são evitados, de forma orquestrada pelo responsável pela intervenção.
Para esses autores, precisão e controle são imprescindíveis para o teste empírico da
eficácia de um tratamento.
Mas como fazer isso com pesquisas qualitativas em que as variações e a falta
de controle são mais difíceis? Inclusive pela presença do pesquisador de forma mais
próxima ao objeto estudado. A pesquisa aqui em tela manteve o rigor científico
concernente ao tema investigado, considerando que qualquer intervenção em luto
deve seguir padrões de cuidados adicionais em função da vulnerabilidade dessa
população.
A avaliação da integridade do tratamento oferecido nessa investigação pode
ser realizada observando a forma como ele foi delineado por meio do método.
Segundo Sanetti e Kratochwill (2014), uma definição operacional de um tratamento
deve oferecer a) um descrição clara dos procedimentos, estratégias e atividades a
serem implementadas, bem como aquelas que devem ser evitadas; b) a
especificação da duração da intensidade dos procedimentos ; e c) definição da
população-alvo. Acredita-se que o formato planejado para a pesquisa, com o passo
a passo bem detalhado, garante a clareza de todos os itens apontados pelos autores
de forma a poder inferir a integridade do trabalho realizado ao longo da investigação.
Por ser o EMDR uma abordagem psicoterápica baseada em procedimentos e
protocolos bem delimitados, que deve seguir o Manual de Treinamento Básico
(EMDR INSTITUTE, 2017), sua aplicação por si só proporciona a redução da
variabilidade na implementação do tratamento. A formação da investigadora como
Terapeuta Certificada, Facilitadora e Supervisora em EMDR também colabora para
251

essa redução de variabilidade bem como para o fortalecimento da integridade da


aplicação do EMDR.
O treinamento de um profissional no manejo do EMDR requer a compreensão
dessa abordagem em si, não apenas de uma ferramenta a mais, pois considera-se
que o EMDR é uma nova forma de entender um comportamento disfuncional por
meio da compreensão dos efeitos das memórias disfuncionais na saúde mental de
um indivíduo. Dessa forma, o terapeuta de EMDR deve conhecer o paradigma do
EMDR e suas bases teóricas enquanto desenvolve espontaneidade, empatia e
genuinidade, ao mesmo tempo em que se mantém fiel ao protocolo. Obviamente,
respeitando as idiossincrasias do seu cliente. Por esse motivo, há o incentivo à
formação continuada do terapeuta de EMDR, para além do treinamento básico, de
maneira a permitir um manejo construído sob medida para cada demanda. A
propósito, a realização dos atendimentos exigiu grande flexibilidade por parte da
pesquisadora, para que as diversidades de cada situação clínica apresentada
pudessem ser endereçadas de forma adequada. De acordo com Sanetti e
Kratochwill (2014), flexibilidade e criatividade do terapeuta são características
importantes para o quesito da integridade.
Além disso, o registro das sessões em vídeo e em áudio possibilitou a
checagem da adequação ao manual. Pode-se considerar que a constante avaliação
realizada a cada sessão de cada participante, em observância ao PTr de cada um,
direciona à reflexão de que os elementos do tratamento foram utilizados de forma
apropriada, bem como foram evitados os procedimentos que não seriam adequados.
A própria utilização das medidas de SUDS e VoC, bem como a formatação do
protocolo em fases, permite a verificação desses procedimentos em todo o processo
aqui apresentado. Toda a psicoterapia de EMDR oferecida a esse grupo de
enlutados foi ofertada de forma privada, construída de acordo com cada demanda e
adequando os procedimentos de maneira particular.
A observação que aqui se apresenta é da própria pesquisadora e de sua
orientadora, foi realizada de forma qualitativa, o que não garante que outros
observadores, ao olhar para o conjunto da obra, tenham outra opinião. Revendo
todos os procedimentos ao longo da análise dos dados obtidos, conclui-se que o
tratamento com EMDR foi aplicado conforme pretendido, observando consistência
entre as fases do tratamento, as situações, as sessões e os casos, como pode ser
observado na análise do conjunto de múltiplos casos.
252

Contudo, considerando que a qualidade da implementação do tratamento está


relacionada aos resultados positivos apresentados, então, é possível afirmar que
essa investigação está com uma alta integridade.
Para futuras pesquisas a respeito do tema, em especial de caráter qualitativo,
de forma a ultrapassar o limiar da ciência baseada em evidência, a padronização e
a aplicação dos procedimentos do tratamento, como parte do método, podem
colaborar para a obtenção de verbas para financiamento da pesquisa. Acrescentar
medidas formalizadas da integridade do pesquisador, como é frequente em alguns
ensaios, pode proporcionar uma maior abrangência para a criação de programas de
trabalho para enlutados usando o EMDR. Essas medidas seriam relacionadas a
habilidades, conhecimentos, atitudes ou intenções, o que sabemos que não é fácil
em se tratando de pesquisa qualitativa com o objetivo de colaboração do
conhecimento, sem querer provar nada.
É provável que algum outro profissional trabalhando com os mesmos
participantes escolhesse caminhos diferentes para o tratamento e, por isso,
obtivesse resultados diferentes , nem melhores ou piores . O EMDR , apesar de
usar protocolos , é considerado uma abordagem que requer sensibilidade do
terapeuta para elaborar o plano de tratamento a partir da própria relação terapêutica.
Quanto mais avançado o treinamento do terapeuta, mais ferramentas e recursos terá
na obtenção dos resultados.
O trabalho de Gamino e Ritter (2009), tendo observado o trabalho de
Allumbaugh e Hoyt’s (1999), deixa claro que os clientes que buscam ativamente
ajuda profissional para o luto são aqueles que mais se beneficiaram do processo
psicoterápico, seja ele aconselhamento ou psicoterapia, informações confirmadas
por estudos de Currier et al. (2008) e Schut et al. (2001), incluindo o
encaminhamento por parte de médicos. Esse fator pode ser um dos elementos pelos
quais o conjunto de casos estudados demonstrou resultados positivos, uma vez que
os participantes foram recrutados por autorreferência para o trabalho com o luto.
Rando (2013) considera que a maior parte dos clientes da prática clínica são os que
que chegam espontaneamente para o tratamento ou aqueles que são encaminhados
por seus médicos.
253

8.4 AVALIAÇÃO DA PESQUISA

Schut et al. (2010), em seu trabalho sobre a eficácia das intervenções em


luto, excluem descrições de intervenções e estudo de casos, mesmo reconhecendo
sua importância, pois o foco da atenção é nos testes empíricos. Considera-se que
esse procedimento de desvalorização da investigação qualitativa, embora frequente,
exclui importantes categorias de recursos na ajuda aos enlutados.
Ao contrário de problemas apresentados por Schut et al. (2010), em relação à
aderência de participantes na pesquisa, com alto grau de evasão, pesquisas
desenhadas como esta em curso indicam uma alta aderência ao tratamento, talvez
até pela proximidade com o terapeuta.
Os participantes que procuram por autorreferência a ajuda em intervenções
terciárias apresentam resultados que permitem concluir de que essa intervenção é
útil (SCHUT et al., 2010)
Para Schut et al. (2010), pesquisas qualitativas representam problemas
metodológicos em função de amostras pequenas e critérios de inclusão
inconsistentes. Geralmente, indicam resultados favoráveis, porém, apresentam
conclusão não tão é substancial quanto a dos estudos empíricos. Uma possível
explicação para as diferenças de intervenção é o recrutamento. As pessoas que
procuram ajuda tendem a ter maior motivação e maior confiança no profissional
assistente. As pessoas que pedem ajuda, provavelmente, são aquelas que dela
precisam mais. E é o que se vê na prática clínica, e o que parece ocorrer em relação
aos participantes desta investigação.
Conforme o planejamento dessa pesquisa, o uso de múltiplos instrumentos
para avaliação colaborou para a riqueza do material observado no estudo de caso
instrumental coletivo, uma vez que as informações de seus registros no início e no
fim do processo psicoterápico se entrecruzavam, complementando-se
A avaliação inicial, tal como formulada, permitiu levantar a história pregressa
com foco no luto, mesmo que não tenha entrado em detalhes da infância, pois os
dados coletados foram suficientes para tratar os seis com bons resultados. Permitiu
conhecer a história de perdas, a relação com o morto e a história da morte, bem
como o curso de luto de cada participante, com variações.
254

O BDI foi inicialmente inserido apenas como critério de exclusão e se mostrou


importante por permitir a observação entre os estágios inicial e final da terapia, com
redução para todos os participantes.
O DES-II, da mesma forma. Apesar de habitualmente ser usado na
comunidade EMDR apenas para verificar a adequação e os cuidados adicionais
para com o cliente, no caso de dissociação, por exemplo, sua aplicação ao final do
tratamento verificou a redução dos registros de iniciais, em especial as de
dificuldades de atenção e memória. Esse mesmo achado de redução nos escores do
DES-II foi registrado por Wong (no prelo) ao pesquisar o uso de um protocolo
intitulado flash technique, sem tradução para o português, o que pode se tornar uma
inovação entre os terapeutas de EMDR para avaliar sua intervenção com qualquer
população.
O HGRC como forma de avaliar as reações secundárias à perda e ao evento
deflagrador permite observar o enlutado em diversas áreas, por meio de suas
subescalas, permitindo uma boa avaliação qualitativa dos resultados alcançados
com a intervenção. Os gráficos dos participantes apresentados nos Apêndices J, L,
N, R, P e T, analisados nos estudos de caso realizados no primeiro movimento de
análise dessa intervenção, indicam bons resultados qualitativos no que concerne o
EMDR como prática psicoterápica para enlutados. Avaliando respostas adaptativas e
não adaptativas, revelou ao final um aumento das respostas adaptativas em todos
os participantes, e os itens que não sofreram alteração foram justificados em função
de características idiossincráticas dos enlutados. Aquelas que foram registradas na
contramão da adaptação, foram justificadas por um conhecimento aumentado de si
mesmo, em um movimento de aprender a dizer não, como observado em nas
avaliações finais de P2 e P3. No caso de P6, a única resposta não adaptativa estava
relacionada a um sintoma remanescente, que parece estar ligada a memórias
anteriores à morte do irmão, provavelmente, ligadas às brigas dos pais.
O HGRC facilita o detalhamento das queixas apresentadas no momento
inicial de avaliação, oferecendo informações importantes do ponto de vista clínico
individual e também como parte da discussão teórica e clínica sobre o enlutado. Tem
oferecido segurança nas decisões sobre as abordagens a empregar diante de
diferentes demandas (FRANCO, 2016) e foi um elemento imprescindível na hora de
observar as diferenças e semelhanças.
255

A seleção de casos dependeu de critérios previamente estabelecidos, visando


especialmente à segurança do participante. A partir do momento em que o
participante passou a integrar o conjunto de casos estudados, cada caso se tornou
relevante por si só, de forma a apresentar sua unicidade e sua diversidade nesse
contexto do conjunto. Esse recorte da realidade formado pelo conjunto de múltiplos
casos, com certeza, não representa a população enlutada que busca ajuda, mas
representa uma parte da população integrante do API/Vitória. Os integrantes do
API/Vitória podem ser considerados como indivíduos que ativamente buscam ajuda
sob a forma de apoio mútuo, independentemente da frequência assídua às reuniões.
Para representar a população que busca ajuda, a oportunidade desses seis
casos pode parecer pequena, mas espera-se que o percurso apresentado, com os
procedimentos detalhados, possam colaborar para o conhecimento da utilização do
EMDR em situações de luto. Stake (2006) pondera que o percurso metodológico do
estudo instrumental de caso coletivo é, por si só, um aprendizado em relação ao
conjunto. Na investigação em tela, os benefícios registrados por meio dos
instrumentos, bem como os relatos dos participantes, percorreram um caminho
possível de ampla aprendizagem.
É preciso considerar que a prática ética no trabalho com enlutados, tal como
preconizada por Gamino e Ritter (2009), foi observada em todos os passos dessa
investigação. Dessa maneira, é possível observar nesse conjunto de casos
estudados uma importante intervenção que colaborou para a construção de um
equilíbrio de todos os participantes. Integridade pessoal, responsabilidade, formação
profissional, atenção aos passos. Mas é sabido também que todos os profissionais
que trabalham com o ser humano são sujeitos aos seus próprios pontos cegos.
Suspiros, momentos de observar possíveis pontos cegos. Bem como durante a
avaliação de cada caso...repensar a prática.
Embora os resultados desta pesquisa possam ser vistos como um grande
avanço para o conhecimento a respeito da utilização do EMDR em termos
qualitativos, também devem ser vistos com humildade e crítica. Nesse contexto do
caso instrumental coletivo, o EMDR foi eficaz, reduzindo os sintomas inicialmente
apresentados, tal como observa Worden (2013) em seus critérios de avaliação de
resultados.
Segundo Hall e Irwin (2010), os possíveis benefícios clínicos de intervenções
com enlutados incluem melhorias no funcionamento fisiológico, resultado esse
256

observado no uso do EMDR com enlutados. Portanto, pode-se aferir que o EMDR
tem a possibilidade de potencializar a redução dos riscos médicos nessa população.
As decisões tomadas nesta pesquisa se apoiam em Beck e Konnert (2007),
que investigaram os efeitos da participação de enlutados em trabalhos que abordam
suas experiências. Esses autores concluem que a experiência apresenta efeitos
benéficos mais significativos do que os riscos potenciais, desde que respeitados os
princípios e cuidados adequados em relação à ética da pesquisa. Esses efeitos
benéficos também puderam ser observados por Silva (2009) e Pessoa (2017),
mesmo com as dificuldades encontradas para o recrutamento dos participantes.
De acordo com as recomendações de Worden (2013), para o
desenvolvimento de psicoterapia do luto, é preciso garantir que o enlutado não fique
pior do que quando chega para o tratamento. Nesse sentido, os resultados da
pesquisa apontam que nessa intervenção junto ao conjunto de múltiplos casos o
EMDR se mostrou satisfatório.
Em consonância com as observações de Rando (2013) entre a observação
clínica e as pesquisas empíricas, essa pesquisa, por seu caráter clínico e
exploratório, parece ser uma forma de integrar o melhor de cada uma dessas áreas.
Desta feita, mantém o rigor científico ao mesmo tempo em que permite conhecer o
que ensina a prática clínica de EMDR com enlutados.
Essa pesquisa permitiu reconhecer diferente roteiros no caminho comum das
complicações no processo de luto e, principalmente, cuidar do que não estava
funcionando bem, colaborando, como nos diz Worden (2013), para a adaptação à
nova realidade.
O trabalho de Franco, Tinoco e Mazorra (2017) respalda a relevância desta
pesquisa por estudar o luto por meio da experiência de quem é impactado por uma
perda nos vários níveis de sua existência. Estar frente à frente com os enlutados
possibilita conhecer a sua realidade ao mesmo tempo em que permite construir uma
intervenção adequada, sempre em observância a seus riscos e benefícios.
Os resultados podem ter sido influenciados pela presença de apenas uma
terapeuta; e uma fraqueza do estudo pode estar no fato de a avaliação final ter sido
feita pela mesma pesquisadora e não por pesquisadores cegos, como na pesquisa
de Meysner , Cotter e Lee (2016 ). Naquele estudo , a avaliação inicial também foi
feita por pesquisadores “cegos”, em contrapartida, esta investigação considerou que
a parte inicial realizada pelo mesmo profissional que realizaria a intervenção
257

proporcionaria também um melhor desenvolvimento dos plano de tratamento e alvos


a serem focalizados, bem como ao desenvolvimento e fortalecimento do vínculo
terapêutico, que também faz parte da abordagem do EMDR.
Ao longo de toda a análise dos elementos apresentados, observa-se a
ausência da estratégia de follow-up, como ponto crucial para a avaliação dos
resultados a longo prazo. Pois há a curiosidade de saber o que acontecerá com
cada enlutado e como a intervenção alterou o percurso de seu luto, para além da
redução da perturbação de cada alvo e extinção das crenças negativas.
Os estudos identificados por Hall e Irwin (2010) indicam grandes chances de
alterações após uma perda e vários fatores parecem induzir o tempo, a extensão e a
vulnerabilidade das mudanças relacionadas ao luto. Segundo os autores, para
prevenir sintomas de estresse e depressão, na qualidade de fatores protetores estão
associados ao uso de estratégias efetivas de enfrentamento, rede de suporte social
e perfil de sono saudável. Recomendam estudos longitudinais para avaliar o
funcionamento fisiológico, a morbidade e a mortalidade associada à perda. O maior
desafio aqui é construir um estudo longitudinal qualitativo que pudesse observar
esse período maior após a intervenção.
Não restam dúvidas de que o uso do EMDR atinge os critérios de avaliação
de Worden (2013) em relação aos resultados de uma psicoterapia para enlutados,
como exaustivamente identificado ao longo deste trabalho: mudanças na experiência
subjetiva, nos comportamentos e alívio dos sintomas.
É preciso expandir esse conhecimento e identificar, por exemplo, se existem
contraindicações no uso do EMDR com enlutados e quando começar sua aplicação.
O EMDR é compatível com um crescente campo de pesquisas sobre o luto e suas
complicações, e deve ser avaliado em comparação com outras abordagens
psicoterápicas. Sugere-se observar quais são as limitações deste estudo. Além
disso, deve-se encorajar outros pesquisadores a enveredar pelo caminho do EMDR
com enlutados, de forma a trazer ainda mais conhecimento prático. Não se pretende
provar que é melhor do que outras abordagens, mas apresentar suas possibilidades.
Ao adentrar no segundo século de desenvolvimento formal da psicoterapia do
luto, observa-se que os modelos de fases ou etapas a serem seguidos de forma
passiva perderam relevância, como nos diz Neimeyer (2011). Para ele, a
colaboração entre teóricos, pesquisadores, clínicos e os próprios enlutados em
posição ativa enfrenta o desafio duplo da perda e da restauração, dos aspectos
258

biopsicossociais e relacionais, bem como da construção do significado no caminho


do luto. E é esse caminho que é preciso observar na utilização do EMDR em
situações de luto: de uma psicoterapia possível, integrada à amplitude do trabalho
com enlutados, aliviando o sofrimento de uma perda. Isso porque,
independentemente das circunstâncias, sempre haverá impacto para o enlutado e
sua família.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
260

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Embora o EMDR não tenha sido inicialmente talhado para o trabalho com
enlutados, seu desenvolvimento por meio da prática clínica de outras pesquisas
qualitativas ou empíricas, assim também como o encerramento dessa investigação,
indicam a adequação do EMDR como intervenção possível e desejável para
enlutados.
A partir deste estudo, tem-se clareza de que, mais do que uma técnica ou
uma ferramenta para o trabalho com enlutados, o EMDR é uma abordagem
integrativa, por meio da qual deve ser feita a avaliação e o enquadramento
necessários para o levantamento dos objetivos da intervenção e a elaboração do
plano de tratamento.
Como outras intervenções no luto, a manutenção de um foco traz resultados
rápidos por meio de mudanças significativas nos aspectos pessoal, familiar, social e
físico. Assim, observa-se redução dos índices de perturbação relacionados aos alvos
do plano de tratamento, bem como indicativos de redução do isolamento social,
alívio dos sintomas físicos, melhor qualidade do sono, redução de ansiedade,
redução dos comportamentos compulsivos, além do surgimento de memórias
adaptativas.
A redução nos índices avaliados pelo BDI e pelo DES-II são compatíveis com
a redução da tristeza e com a mudança positiva a respeito da perspectiva de futuro,
bem como na melhoria da memória e da concentração. As avaliações
proporcionadas pelas medidas de SUDS e de VoC também indicam a direção para o
cumprimento de cada objetivo estabelecido no processo psicoterápico. As
avaliações proporcionadas pelas subescalas do HGRC indicam melhora nos
comportamentos relacionados ao Desespero, à Desorganização, a Culpa e Raiva,
ao Comportamento de Pânico e ao Desinteresse/Indiferença, em contrapartida com
o aumento de Crescimento Pessoal coadunam com todas as respostas que indicam
que o luto foi levado ao seu curso normal.
Tendo como base os resultados e a discussão apresentados, tanto dos casos
individuais quanto de seu conjunto, é possível considerar mais aspectos positivos do
que negativos em todo o processo. De acordo com o relato dos participantes, o
maior desconforto percebido foi lidar com memórias perturbadoras, mas que não
trouxeram maiores dificuldades do que as vivenciadas em seu cotidiano. Ao
261

perceberem o alívio ao longo do processamento dos alvos estabelecidos, este logo


se tornava o combustível necessário para seguir adiante em busca de uma melhor
adaptação. Por unanimidade recomendam a intervenção para outros enlutados.
O EMDR como abordagem psicoterápica para enlutados pode proporcionar,
por meio do Processamento Adaptativo de Informação, estratégias de
autorregulação, manejo da ansiedade, regulação do afeto e do pensamento, a
construção de significado, o equilíbrio entre a orientação para a restauração e a
orientação para a perda, bem como a representação interna do ente querido,
proporcionado a continuidade do vínculo.
Considerando o estudo do conjunto de múltiplos casos, pode-se afirmar que a
variedade apresentada, embora em pequeno número de participantes, pode
representar o EMDR como uma intervenção adequada para enlutados em função
dos resultados apresentados.
Embora com um pequeno quantitativo de participantes, os resultados
apresentados nesta pesquisa demonstram a eficácia do EMDR em todos os casos, o
que é motivo de celebração. Contudo, há que se ter parcimônia, pois os resultados
são limitados à quantidade, ao curto período, à ligação anterior com a pesquisadora,
o que pode ter influenciado os bons resultados. Esses resultados imediatos podem
sofrer alteração a médio e longo prazo, motivo pelo qual em replicação futura será
de fundamental importância monitorá-los.
O método proposto proporcionou uma visão direta do processo psicoterápico
do EMDR com enlutados, por meio da fundamentação teórica que o compõe. No
passeio oferecido por entre a apresentação do caso de cada participante, com o
detalhamento das avaliações, da construção do plano de tratamento, do
sequenciamento de cada sessão, bem como nos resultados apresentados,
oportuniza a reprodução da avaliação e da prática clínica com enlutados.
Um dos benefícios deste trabalho foi concluir que não há um protocolo de luto
propriamente dito, mas uma abrangente avaliação do processo de luto para a
determinação do que será trabalhado e de que forma. Um convite aos terapeutas de
EMDR para que conheçam mais desse universo tão grande. Em contrapartida, fica
também o convite para que os terapeutas de luto conheçam as grandes
contribuições do EMDR com enlutados.
Esta investigação indica, em meio ao crescimento do EMDR no Brasil e no
mundo, ao mesmo tempo em que já existe um crescente interesse em intervenções
262

com enlutados que possam ser consideradas efetivas, importantes contribuições


para a utilização do EMDR em situações de luto. E propõe de forma inovadora um
novo enquadramento para olhar o luto sob a perspectiva do EMDR.
Em função de as memórias trabalhadas estarem correlacionadas aos
momentos circundantes da morte, faz-se mister que trabalhadores de saúde, bem
como profissionais de segurança pública, recebam treinamento adequado para
fornecer o apoio apropriado aos enlutados nos momentos mais críticos de sua vida.
A partir de alguns dos resultados alcançados, é possível afirmar que cuidar de
situações traumatogênicas e de potencial risco para o desencadeamento de luto
complicado é disseminar os cuidados em relação à vida e à morte, para que o
indivíduo receba assistência adequada, evitando possíveis traumas. A morte será
sempre um possível trauma. Por que não minimizar seus efeitos?
Embora tenha sido adotado o mesmo procedimento para todos os
participantes, observa-se resultados diferentes. Isso indica a necessidade de
compreender os diferentes casos de luto em suas vicissitudes e a complexidade
para qualquer tipo de intervenção a ser programada e efetivada com enlutados.
Pode ser valioso refinar o conhecimento em relação ao uso do EMDR com
enlutados, o que requer uma complexidade em futuras investigações. Essas podem
colocar em tela as reações individuais ao luto e ao trauma, bem como ao
entrelaçamento desses dois elementos interdependentes, como forma de
compreender a natureza do luto, para além dos estudos já existentes a respeito do
apego.
A integridade do tratamento conferida à presente pesquisa possibilita a
disseminação dos resultados para seu uso na prática clínica. Dessa forma, espera-
se que este estudo possa ter funcionado como um grande incentivo para novas
pesquisas no futuro, quantitativas e/ou qualitativas. Essas novas investigações
podem incluir um número maior de participantes e de terapeutas, variações do
protocolo básico, protocolos específicos para luto já existentes, questões específicas
do processo do luto, o momento adequado de iniciar o EMDR com enlutados, quais
as indicações e contraindicações, bem como os cuidados necessários, entre muitas
outras.
Espera-se também que essa pesquisa abra novos caminhos para os
profissionais que utilizam EMDR em sua prática clínica com enlutados, a partir da
compreensão da complexidade do complexo do luto e de sua adequada abordagem.
263

A abordagem psicoterápica do EMDR demonstra ser uma intervenção adequada e


eficaz para preencher a lacuna das necessidades da saúde mental dos enlutados,
reduzindo os sintomas do sofrimento psíquico e colocando o processo de luto em
seu curso saudável.
Não se pretende que esta pesquisa seja um ponto final a respeito da
utilização do EMDR como abordagem psicoterápica com enlutados. Ao contrário, os
resultados encontrados e a discussão realizada indicam que foram dados os
primeiros passos para compreender esse complexo processo. Contudo, é provável
que a própria releitura do trabalho, bem como críticas e colaborações de outros
colegas que tenham interesse pelo tema, assim como novas investigações, tragam
novas contribuições.
Essas novas contribuições aliadas à riqueza do material obtido ao longo
dessa investigação tornaram todo o processo de verdadeiro testemunho de
crescimento e resiliência de cada participante. Desta feita, sobra motivação à
releitura de todo o conteúdo em futuro próximo. Como um incentivo para que sejam
elaboradas diferentes publicações para a comunidade de profissionais que trabalha
com EMDR e a comunidade de profissionais que trabalha com enlutados. É preciso
encerrar esses primeiros passos. Contudo, espera-se que tenham sido o começo de
uma longa jornada.
264

REFERÊNCIAS

ALVES-MAZZOTTI, A. J. Usos e abusos de estudo de caso. Cadernos de


Pesquisa, v. 36, n. 129, set./dez. 2006.

AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION (APA) Practice guideline for the


treatment of patients with acute stress disorder and posttraumatic stress
disorder. Arlington: American Psychiatric Association Practice Guidelines, 2004.

AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. Diagnostic and statistical manual of


mental disorders. 5th ed. Arlington: American Psychiatric Publishing, 2013 ARIÈS, P.
História da morte no ocidente. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1977.

ARTIGAS, L.; JARERO, I.; ALCALÁ, N.; CANO, T. L. The EMDR integrative group
treatment protocol (IGTP) for children. In: LUBER, M. (Ed.) Implementing EMDR
early mental health interventions for man-made and natural disasters: models,
scropted protocols and summary sheets. New York: Springer Publishing Company,
2014. p. 237-244

ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE EMDR (EMDR BRASIL).Cursos de Educação


Continuada. Disponível em: https://www.emdr.org.br/copia-cursos-de-formacao
Acesso em: 14 jan. 2019.

BAXTER, P. JACK, S. Qualitative case study methodology: study design and


complementation for novice researchers. The Qualitative Report. Vol. 13. Numer 4.
Dec. 2008. 544-559. Disponível em http://www.nova.edu/ssss/QR/QR13-
4/baxter.pdf.

BEAUMONT, E.; MARTIN, C. J. H. Using compassionate mind training as a resource


in EMDR: a case study. Journal of EMDR Practice and Research, volume 7,
number 4, 203. p. 186-199.

BECK, A. M.; KONNERT, C. A. Ethical issues in the study of bereavement: the


opinions of bereaved adults. Death Studies, Philadelphia, v. 31, n.9, p. 783-95,
2007.

BECK, A. T.; STEER, R. A; BROWN, G. K. Manual do inventário de depressão de


Beck – BDI II. Adaptação para o português, GORENSTEIN, C. et. al. 5ª. reimp. São
Paulo: Casa do Psicólogo, 2014.

BERGMAN, U. A neurobiologia do processamento de informação e seus


transtornos: implicações para a terapia EMDR e outras psicoterapias.
TraumaClinic: Brasília, 2014.

BERTHOUD, C. C. M. E. Re-significando a parentalidade: desafio para toda uma


vida.2000 368f. Tese de Doutorado. Pontifícia Universidade Católica de São Paulo,
São Paulo, 2000.
265

BLEICH, A. et al. A position paper of the (Israeli) National Council for Mental
Health: Guidelines for the assessment and professional intervention with terror
victims in the hospital and in the community. Jerusalem, Israel. 2002. Disponível em:
http://www.essentia.fr/blog/wp-content/uploads/2011/09/Israel-Council-of-MH.pdf.
Acesso em: 19 jun. 2013.

BONNANO, G.; NERIA, Y.; MANCINI, A.; COIFMAN, K. G.; LITZ, B.; INSEL, B. Is
there more to complicated grief than depression and posttraumatic stress disorder? A
testo f incremental validity. Journal of Abnormal Psychology. 2007. Vol 116 nº 2 p.
342-351.

BOWLBY, J. Formação e rompimento dos laços afetivos. 3. ed. São Paulo:


Martins Fontes, 1997.

BRAGA, D. T.; PROVIN, M. X.; ALVES, L. P. C. Dessensibilização e


reprocessamento por movimento ocular (EMDR) e hipnose. In: CORDIOLI, A. V.;
GREVET, E. H. (Orgs.) Psicoterapias: abordagens atuais. 4. ed. Porto Alegre:
Artmed, 2019.

BRASIL; Ministério da Saúde. CONSELHO NACIONAL DE SAÚDE. Resolução nº


510/2016. Ministério da Saúde, 2016.

BROMBERG, M. H. P. F. A psicoterapia em situações de luto. Campinas: Livro


Pleno, 2000.

BRUCK, N. R. V. A psicologia das emergências: um estudo sobre angústia


pública e o dramático cotidiano do trauma. Tese de Doutorado em Psicologia.
Pontifícia Universidade do Rio Grande do Sul, 2007.

BRUNNET, A. E. et al. Dessensibilização e Reprocessamento por Movimentos


Oculares (EMDR) para Transtorno de Estresse PósTraumático: uma revisão
sistemática. Rev. Interinst. Psicol. 7 (1), p. 119-131, jan./jun. 2014.

CALHOUN, L. G.; TEDESCHI, R.G. (Eds.) Posttraumatic growth in clinical


practice. New York: Routledge, 2014

CARDINALLI, I. E. Transtorno de estresse pós-traumático: um estudo


fenomenológico-existencial da violência urbana. 2011. 145 f. Tese (Doutorado em
Psicologia Clínica) – Faculdade de Ciências Humanas e da Saúde, Pontifícia
Universidade Católica de São Paulo, São Paulo, 2011.

CARLSON, E. B.; PUTNAM, F. W. An update on the dissociative experiences scale.


Dissociation, 6 (1), p. 16-27, 1993.

CARVALHO, E. R. S. Curando a galera que mora lá dentro: como o EMDR pode


curar nossos papeis. Brasília: TraumaClinic, 2013.

_______. Cure seu cérebro: cure seu corpo. Mais histórias da galera interna.
Brasília: TraumaClinic, 2015.
266

_______. Resolva seu passado: estudos de casos com terapia EMDR. Brasília:
TraumaClinic, 2016.

_______. O desenvolvimento de um processo terapêutico com terapia EMDR.


Brasília: Traumaclinic, 2017.

CASTELLO, A. L. G. Tratamento de fobias e traumas em crianças através do


EMDR. Resumo publicado nos anais eletrônicos do II Congresso Brasileiro de
EMDR. Brasília. 2012. Disponível em: https://www.emdr.org.br/ii-congresso-emdr
Acesso em: 14 Jan. 2019.

COLOSSI, P. M.; FALCKE, D. Gritos do Silêncio: A Violência Psicológica no Casal.


Psico. v. 44, n. 3, p. 310-318, jul./set. 2013.

COTTER, P.; MEYSNER, L.; LEE, C. W. Participant experiences of eye movement


desensitizetion and reprocessing vs. Cognitive behavioural therapy for grief:
similarities and diferences. European Journal of Psychotraumatology. 8:sup6,
1375838. DOI: 10.1080/20008198.2017.1375838 2017.

CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA. Resolução CFP nº 001/2009, de 30 de


março de 2009. Dispõe sobre a obrigatoriedade do registro documental da prestação
de serviços psicológicos. Disponível em: site.cfp.org.br/wp-
content/uploads/2009/04/resolucao2009_01.pdf. Acesso: em 21 set. 2016.

_______. Resolução CFP nº 010/2005, de 21 de julho de 2005. Aprova o código de


ética profissional do psicólogo.

_______.Nota Técnica – EMDR. 2013.

CONSELHO NACIONAL DE SAÚDE. Resolução nº 466/2012, de 12 de dezembro


de 2012.Aprova as diretrizes e normas regulamentadoras de pesquisas envolvendo
seres humanos.Disponível em:
http://bvsms.saude.gov.br/bvs/saudelegis/cns/2013/res0466_12_12_2012.html
Acesso em: Acesso: em 21 set. 2016.

_______.. Resolução nº. 510/2016, de 7 de abril de 2016. Dispõe sobre normas


aplicáveis a pesquisas em Ciências Humanas e Sociais.

CROITORU, T. A revolução EMDR mude sua vida uma lembrança de cada vez:
o guia para cliente. Brasília: TraumaClinic, 2014.

CORDIOLI, A. V. As principais psicoterapias: fundamentos teóricos, técnicas,


indicações e contra-indicações. In: CORDIOLI, A. V e cols. Psicoterapias:
abordagens atuais. Porto Alegre: Artmed, 2008. p. 19- 41.

CORDIOLI, A. V. COTTER, P.; MEYSNER, L.; LEE, C. W. Participant experiences of


eye movement desensitization and reprocessing vs. cognitive behavioural therapy for
grief: similarities and differences. Eur J Psychotraumatol. 2017; 8(1): 1375838.
Publicado online em 9 de outubro de 2017. Disponível em
https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC5687803/.
267

COUBARD, O. A. An integrative model for the neural mechanism of eye movement


desensitization and reprocessing (EMDR). Front Behav Neurosciense, 2016. 10:52
Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC4820440/ Acesso em
21. jun. 2017.

CREST. The management of post traumatic stress disorder in adults. Clinical


Resource Efficiency Support Team of Northern Ireland Department of Health ,
Social Services and Public Safety, Belfast, 2003. Disponível em:
http://211.103.242.133:8080/ziyuan/CDDPdf/evd/base/NeLH%20Guidelines%20Find
er/%E4%B8%B4%E5%BA%8A%E5%AE%9E%E8%B7%B5%E6%8C%87%E5%8D
%97/2383.pdf.Acesso em 23 dez. 2017.

CRESWELL, J. J. Revisão de literatura. In: _____. Projeto de pesquisa: métodos


qualitativo, quantitativo e misto. Porto Alegre: Artmed, 2010, p. 48-75.

CUNHA, J. A. Manual da versão português das Escalas Beck. São Paulo: Casa
do Psicólogo, 2016.

DESCILO, T. Relieving the naumatic aspects of death with naumatic incident


resolution and EMDR. In: FIGLEY, C. R. (Ed.) Traumatology of
grieving:conceptual, theoretical, and treatment foundations. p. 153-182.
Philadelphia: Brunner/Mazel, 1999.

EHNTHOLT, K. A.; YULE, W. Practioner review: assessment and treatment of


refugee children and adolescentes who have experienced war-related trauma.
Journal of Child Psychology ans Psychiatry 47:12 (2006) pp 1197-1210 doi:
10.111/j.1469-7610.2006.01638.x.

EMDR Institute. EMDR manual clínico e de capacitação. EMDR Institute:


Watsonville, 2015. Rev. jul. 2015. Trad. EMDR Treinamento & Consultoria.

EMDR Institute. EMDR manual clínico e de capacitação. EMDR Institute:


Watsonville, 2017. Rev. fev. 2017. Trad. EMDR Treinamento & Consultoria.

EMDR TREINAMENTO E CONSULTORIA. História do EMDR no Brasil. Brasília,


2016. Disponível em: http://emdrtreinamento.com.br/tudo-sobre-emdr/historia-do-
emdr. Acesso em:15 de ago. 2016.

FISZMAN, A. et al. A adaptação transcultural para o português do instrumento


Dissociative Experiences Scale para rastrear e quantificar os fenômenos
dissociativos. Rev. Bras. Psiquiatr, 26(3), p. 164-173, 2004.

FLEMING, S; Complicated grief and trauma: what to treat first? In: In: NEIMEYER, R.
A. (Ed.) Techniques of grief therapy: creative practices for counseling the
bereaved. New York: Routledge, 2012. p. 83-85.

FOA, E. B. et al. Effective treatments for PTSD: practice guidelines of the


International Society for Traumatic Stress Studies. New York: Guilford Press,
2009.
268

FRANCO, M. H. P. Por que estudar luto na atualidade? In: ______. (Org.) Formação
e rompimento de vínculos: o dilema das perdas na atualidade. São Paulo:
Summus Editorial, 2010.pp. 17-36.

FRANCO, M. H. P. A complexidade dos cuidados paliativos e a complexidade da


morte na contemporaneidade. IN: KAMERS, M. MARCON, H. H.; MORETTO, M. L.
(Orgs). Desafios atuais das práticas em hospitais e nas instituições de saúde.
São Paulo: Escuta, 2016a. p. 313-328.

FRANCO, M. H. P. Lidando com lutos complicados. In: TAVARES, E. C.; TAVARES,


G. R. (Orgs.) E a vida continua... Belo Horizonte: edição do autor, 2016b. p. 130-
139.

FRANCO, M. H. P. F; POLIDO, K. K. Atendimento psicoterápico no luto. São


Paulo: Zagodoni, 2014.

FRANCO, M. H. P.; TINOCO, V. U.; MAZORRA, L. Reflexões sobre os cuidados


éticos na pesquisa com enlutados. Revista M. v. 2, n. 3, p. 138-151, jan./jun. 2017.

GAMINO, L. A. Putting to rest the debate over grief counseling. In: DOKA, K. J.;
TUCCI, A. S. Beyond Kübler-Ross: new perspectives on death, dying and grief.
Washington: Hospice Foundation of America, 2011. p. 113-129.

GAMINO, L. A.; RITTER JR., R. H. Ethical practice in grief coounseling. New


York: Springer Publishing Company, 2009.

GRAND, D. Cura emocional em velocidade máxima: o poder do EMDR. Brasília:


TraumaClinic, 2013. 2. ed.

GOMEZ, A. M. Dia ruim... vá embora! Um livro para crianças sobre trauma e


EMDR. EMDR Treinamento e Consultoria: Brasília, 2012. 3. ed.

______. Terapia EMDR e abordagens auxiliares com crianças: trauma complexo,


apego e dissociação. Brasília: TraumaClinic, 2014.

GUIMARÃES; S.; CASTELLO A. L. G.; SOBREIRA, C. B. EMDR e dor. Programa


de Especialização da Faculdade São Leopoldo Mandic. Em andamento. Início
2017

GUZ, S. Atualizações em EMDR. In: PONTES, N. O. (Org.) EMDR: breves


considerações. 2a. ed. São Paulo: Hyria, 2017.

HENSLEY, B. Francine Shapiro Library. Austin, 2018. Disponível em:


https://emdria.omeka.net/. Acesso em: 04 de mar. 2018.

HISPAGNOL, I. G. R. O impacto de uma situação potencialmente traumática na


relação de cuidados, sob a perspectiva da teoria do apego.2017. 89f. Tese
(Doutorado em Psicologia Clínica) – Faculdade de Ciências Humanas e da Saúde,
Pontifícia Universidade Católica, São Paulo, 2017.
269

HOGAN, N. S.; GREENFIELD, D. B; SCHIMIDT, L. A. Developmental and validation


of the Hogan Grief Checklist. Death Studies, 25:1-32, 2011. Brummer: Routledge.

HORNSVELD, H. K.; LANDWEHR, F.; STEIN, W.; STOMP, M. P. H.; SMEETS, M.


A. M.; VAN DEN HOUT, MARCEL, A. Emotionality of loss´related memories is
reduced after recall pus eye movement but not after recall plus music or recall only.
Journal of EMDR Practice and Research. Volume 4, number 3, 2010).

HOROWITZM N.; WILNER, N.; ALVAREZ, W. Impact of event scale: a measure of


subjective stress. Psychosom Med; 41:209-18, 1979.

HUTSCHEMAEKERS, G. J. M. Multidisciplinary guidelines in Dutch mental health


care: plans, bottlenecks and possible solutions. Int J Integr Care. 3 e10, oct./dec.
2003.

INTERNATIONAL SOCIETY FOR TRAUMATIC STRESS STUDIES. Posttraumatic


stress disorder prevention and treatment guidelines: methodology and
recomendations. Disponível em: http://www.istss.org/getattachment/Treating-
Trauma/New-ISTSS-Prevention-and-Treatment-Guidelines/ISTSS_Prevention
Treatment Guidelines_FNL.pdf.aspx. Acesso em: 03 jan. 2019.

JAGER, M. E.; DIAS, C. G. A paternidade na percepção de adolescentes de classes


populares. Psicologia: ciência e profissão, 35 (3), p. 694-710, 2015.

JARERO, I.; ARTIGAS, L. The EMDR protocol for recent critical incidents (EMDR-
PRECI). In: LUBER, M. (Ed.) Implementing EMDR early mental health
interventions for man-made and natural disasters: models, scropted protocols
and summary sheets. New York: Springer Publishing Company, 2014a. p.217-228.

JARERO, I.; ARTIGAS, L. The EMDR integrative group treatment protocol (IGTP) for
adults. In: LUBER, M. (Ed.) Implementing EMDR early mental health
interventions for man-made and natural disasters: models, scropted protocols
and summary sheets. New York: Springer Publishing Company, 2014b. p.253-260.

JARERO, I.; URIBE, S. Recent trauma response: actions for an early psychological
intervention. In: LUBER, M. (Ed.) Implementing EMDR early mental health
interventions for man-made and natural disasters: models, scropted protocols
and summary sheets. New York: Springer Publishing Company, 2014. p. 75-82.

KLASS, D.; SILVERMAN, P. S.; NICKMAN, S. L. Continuing bonds: new


understandings of grief. New York: Routledge, 1996.

KNOX, K. Case application of EMDR in trauma work. Brief treatment and crises
intervention. 2:1 Spring 2002. Oxford University Press.

KOSMINSKI, P.; MCDEVITT, R. Eye movement desensitization and reprocessing


(EMDR). In: NEIMEYER, R. A. (Ed.) Techniques of grief therapy: creative practices
for counseling the bereaved. New York: Routledge, 2012. p. 95-98.

KOSMINSKI, P; JORDAN, J. Attachment-informed grief-therapy: the clinician’s


guide to foundations and applications. New York: Routledge, 2016.
270

KÛBLER-ROSS, E. Sobre a morte e o morrer. São Paulo: Martins Fontes, 1969.

LANG, P. J. A bio-informational theory of emotional imagery. Psychoph. 1979 Nov.


16 (6): 495-512. PMID: 515293. The Society for Psychophysiological Research, Inc.
Disponível em: https://onlinelibrary.wiley.com/doi/epdf/10.1111/j.1469-
8986.1979.tb01511.x

LENFERINK, I. M.L.; PIERSMA, E.; KEIJSER, J.; SMID, G, E.; BOELEN, P. A.


Cognitive therapy and eye movement desesnsitization and reprocessing for reducing
psychopathology among disaster-bereaved individuals: study protocol for a
randomized controlled trial. European Journal of Psychotraumatology, 8:1,
138870, DOI:10.1080/20008198.2017.1388710

LEONARDI, J. L.; MEYER, S. B. Prática baseada em evidências em psicologia e a


história da busca pelas provas empíricas da eficácia das psicoterapias. Psicologia:
ciência e profissão, 35(4), p. 1139-1156, 2015.

LESCANO, R. (Org.) Trauma e EMDR: uma nova abordagem psicoterapêutica.


Brasília: Nova Temática, 2007.

LEONARDI, J. L.; MEYER, S. B. Prática baseada em evidências em psicologia e a


história da busca pelas provas empíricas da eficácia das psicoterapias. Psicologia
Ciência e Profissão, 2015, 35(4), 1139-1156.

LINDEMANN, E. Symptomatology and management of acute grief. American


Journal of Psychiatry. 1944. 101. p. 141-148.

LOPES, C. C.; CARVALHO, S. C.; BARBOSA, M. R. Tratamento de fobia específica


por dessensibilização de reprocessamento por meio dos movimentos oculares.
Revista Psicologia: Teoria e Prática, 16 (1), 31-42. São Paulo, SP, jan.-abr., 2014
http://dx.doi.org/10.15348/1980-6906/psicologia.v16n1p31-42.

LUBER, M. Prefácio. In: LUBER, M. (Ed.) Eye movement desensitization and


reprocessing: scripted protocols basics and special situations. New York: Springer
Publishing Company, 2009.p. xix-xxviii.

LUBER, M. (Ed.) Implementing EMDR early mental health interventions for man-
made and natural disasters: models, scropted protocols and summary sheets. New
York: Springer Publishing Company, 2014.

LUBER, M. Prefácio. In: LUBER, M. (Ed.) EMDR therapy: scripted protocols and
summary sheets. New Yor: Spring Publisher Company, 2016. p. xvi-xxii.

LUBER, M. Protocol for excessive grief (SHAPIRO, 2001). In: LUBER, M. (Ed.) Eye
movement desensitization and reprocessing: scripted protocols basics and
special situations. New York: Springer Publishing Company, 2009. p. 175-187.

LUBER, M. Protocol for excessive grief. Journal of EMDR Practice and Research,
volume 6, nº 3, 2012.
271

MACEDO, R. M. S.; KUBLIKOWSLI, I.; SANTOS, M; G.A interpretação em


pesquisa qualitativa: a construção do significado. Apresentado na 1ª. Conferência
Internacional do Brasil de Pesquisa Qulitativa. NPF – Núcleo de Pesquisa da
Família: Taubaté, 2004.

MACHADO, C. E. P. Psicoterapia psicodinâmica das depressões e psicoterapia do


luto normal e patológico. IN: CORDIOLI, A. V e cols. Psicoterapias: abordagens
atuais. Porto Alegre: Artmed, 2008. p. 398- 411.

MANFIELD, P. Recursos diádicos: criando uma base para processamento de


trauma. Createspace: não disponível, 2014.

MARALDI, E. O.; ZANGARI, W. Avaliação Psicológica, 15(1), 2016. p. 93-104.

MARICH, J. Trauma made simple: competencies in assessment, treatment and


working with survivors. Eau Claire/Winsconsin: PESI Publishing & Media, 2014.

MARTINS, L. W. F.; FRIZZO, G. B.; DIEHL, A. M. P. A constelação da maternidade


na gestação adolescente: um estudo de casos. Psicologia USP, São Paulo, v.5 (3),
p. 294-306, 2014.

MAZORRA, L. A. A construção de significados atribuídos à morte de um ente


querido e o processo de luto. 2009. 256 f. Tese (Doutorado em Psicologia Clínica)
– Faculdade de Ciências Humanas e da Saúde, Pontifícia Universidade Católica de
São Paulo, São Paulo, 2009.

MCDONNEL, F. EMDR and bereavement. EMDR Autum Workshop. Leeds, 2009.


Disponível em http://www.emdryorkshire.org/workshop.php Acesso em 14 Jan. 2019.

MCGUIRE, M. T.; LEE, C. W.; DRUMMOND, P. D. Potential of eye movement


desensitization and reprocessing therapy in the treatment of post-traumatic stress
disorder. Psychology Research and Behavior Management. 2014:7 273-283.

MESQUITA, M. I. Protocolo de EMDR integrado em grupo (EMDR-IGTP) no


trauma transgeracional: impacto no vínculo afetivo parental. Mestrado em
Psicologia Clínca. Universidade Federal do Rio Grande do Sul, RS. Em andamento.
Início 2018.

MEYSNER, L.; COTTER, P.; LEE, C. W. Evaluating the efficacy of EMDR with
grieving individuals: a randomized control trial. Journal of EMDR Practice and
Research. v. 10, n. 1. p. 2-12. 2016.

MOROZOW, L. Assisting individuals struggling with grief: a review of the


literature on grief and its treatment and Evaluating the efficacy of eye movment
desensitization and reprocessing (EMDR) with grieving individuals: a randomized
control trial, Murdoch University, Perth, Wetern Australia. 2014. Disponível em:
http://researchrepository.murdoch.edu.au/21980 Acesso em 14 Jan. 2019.
Dissertação Mestrado de Psicologia Clínica.
272

MOTTA, R. A., S. M. Dessensibilização e reprocessamento por movimentos


oculares baseada em interface natural, transparência e virtualidade para
tratamento do estresse pós-traumático. 2017. Tese (Doutorado em Engenharia de
Sistemas e Computação) – Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-Graduação e
Pesquisa de Engenharia (COPPE), Universidade Federal do Rio de Janeiro. Rio de
Janeiro, 2017. 203 páginas

MINAYO, M. C. S. O desafio do conhecimento: pesquisa qualitativa em saúde.


São Paulo: Hucitec, 2010. 10.ed.

MONTEIRO, A. M. (Org.) Conquistas na psicoterapia: estudos de casos com


EMDR. Associação Brasileira de EMDR: Brasília, 2012.

_______. (Org.) Conquistas na psicoterapia II: novos estudos de caso em terapia


EMDR. Associação Brasileira de EMDR: Brasília, 2015.

MORIN, E. O homem e a morte. Rio de Janeiro: Imago, 1997.

MURRAY, K. EMDR with grief: reflections on Ginny Sprang’s study. Journal of


EMDR Practice and Research, v. 6, n. 4, 2012. p. 187-191.

NADEAU, J. W. Families making sense of death. California: Sage Publications,


1998.

NASCIMENTO, Z. A felicidade, a alegria, o prazer, a dor e o luto. In: TAVARES, G.


R. Do luto à luta. Belo Horizonte: Casa de Minas, 2001. p. 91-92.

NATIONAL INSTITUTE FOR CLINICAL EXCELLENCE (NICE). Post traumatic


stress disorder: the management of adults and children in primary and secondary
care. Gaskell and the British Psychological Society: London, 2005.

NATIONAL REGISTRY OF EVIDENCE-BASED PROGRAMS AND PRACTICES


(NREPP). Eye movement desensitization and reprocessing. Estados Unidos:
2010. Disponível em: <www.nrepp.samhsa.gov>. Acesso em 05 de nov. 2014.

NEIMEYER, R. A. Lessons of love: a guide to coping. Memphis: Primis Custom


Publishing, 1998.

NEIMEYER, R. A. (Ed.) Meaning reconstruction and the experience of loss.


Washington: American Psychological Association, 2001.

NEIMEYER, R. A. Form stage follower to stage manager: contemporary directions in


bereavement care. In: DOKA, K. J.; TUCCI, A. S. Beyond Kübler-Ross: new
perspectives on death, dying and grief. Washington: Hospice Foundation of America,
2011. p. 131-156.

NEYMEYER. R. A. Techniques of grief therapy: creative practice for counseling


the bereaved. New York: Routledge, 2012.

_______. Preface. In: ______. (Ed.) Techniques of grief therapy: assessment and
intervention. New York, Routledge, 2016. p. xv-xii.
273

NEYMEYER, R. A. Techniques of grief therapy: assessment and intervention. New


York: Routledge, 2016.

NEIMEYER, R. A.; CACCIATORE, J. Toward a developmental theory of grief. In:


NEIMEYER, R. A. (Ed) Techniques of grief therapy: assessment and intervention.
New York: Routledge, 2016. p. 3-17.

NEIMEYER, R. A.; HOGAN, N. S. Quantitative or Qualitative? Measurement issues


in the study of grief. In STROEBE, M.; HANSSON, R. O.; STROEBE, W.; SCHUT, H.
(Eds.) Handbook of bereavement research: consequences, coping and
care.Washington: American Psychological Association, 2001. p. 89-118.

NEIMEYER, R. A.; HOGAN, N. S.; LAURIE, A. The measurement of grief:


psychometric considerations on the assessment of reactions to bereavement. In:
STROEBE, M. S.; HANSSON, R. O; SCHUT, H.; STROEBE, W. (Eds.) Handbook of
bereavement research and practice: advances in theory and intervention.
Washington: American Psychological Association, 2008. p. 133- 161.

PANGEIRO, M. F.; TORRES, A. F. S.; FERNANDEZ, R. M.; TRAJANO, S. R.


Eficácia do EMDR na prevenção e cura do transtorno de estresse pós-
traumático em vítimas de terremoto. Resumo publicado nos anais eletrônicos do II
Congresso Brasileiro de EMDR. Brasília. 2012. Disponível em:
https://www.emdr.org.br/ii-congresso-emdr. Acesso em: 14 Jan. 2019.

PARKES, C. M. Luto: estudos sobre a perda na vida adulta. São Paulo: Summus,
1998.

_______. Amor e perda: as raízes do luto e suas complicações. São Paulo:


Summus, 2009.

PARKES, C. M. Introduction: the historical landscape of loss: development of


bereavement studies. In NEIMEYER, R. A; HARRIS, D. L.; WINOKUER, H. R.;
THORNTON, G. F. (Eds.) Grief and bereavement in contemporary society:
bridging research and practice. New York: Routledge, 2011. p. 1-5.

PERES, R. S.; SANTOS, M. A. Considerações gerais e orientações práticas acerca


do emprego de estudos de caso na pesquisa científica em psicologia. Interações,
vol X, nº 20, p. 109-126, jul./dez. 2005.

PESSOA, G. C. A percepção de adultos jovens sobre a perda de um irmão na


infância: um estudo exploratório. 2017. 95f. Dissertação (Mestrado em Psicologia
Clínica) – Faculdade de Ciências Humanas e da Saúde, Pontifícia Universidade
Católica, São Paulo, 2017.

PONTES, N. O. (Org.) S. EMDR: breves considerações. São Paulo: Editoria Hyria,


2017.

PONTES, N. O. (Org) EMDR na contemporaneidade. São Paulo: Editora Hyria,


2019.
274

PFEFFERBAUM, B.; et et al. Child disaster mental health interventions, part I:


techniques, outcomes, and methodological considerations. Disaster Health 2:1, 46-
57; January/February/March 2014.

PRIGERSON, H. G., SHEAR M. K., JACOBS S. C., REYNOLDS C. F., R. D.,


MACIEJEWSKI, P. K., DAVIDSON, J. R., et al. Consensus criteria for traumatic grief.
A preliminary empirical test. The British Journal of Psychiatry: The Journal of
Mental Science. 1999;174:67–73. [PubMed]

PRIGERSON, H. G.; JACOBS, S. C. Traumatic grief as a distinct disorder: a


rationale consensus criteria, and a preliminar empirical test. In: STROEBE, M. S.;
HANSSON, R. O. STROEBE, W.; SCHUT. K. (Eds). Handbook of bereavement
research: consequences, coping and care. Washington: American Psychology
Association, 2010. p.613-637.

RABONI, M. R. Tratamento para transtorno do estresse pós-traumático com a


técnica EMDR: seus efeitos dos aspectos psicológicos e na arquitetura do sono.
Doutorado em Psicologia Clínica da UNIFESP – SP. 2010.

RANDO, T. A. Treatment of complicated mourning. Illinois: Research Press, 1993.

RANDO, T. A. On achieving clarity regarding complicated grief: lessons from clinical


practice. In: STROEBE, M.; SCHUT, H.;VAN DEN BOUT, J. (Eds.) Complicated
grief: scientific foundations for health care professionals. East Sussex, UK:
Routlede, 2013. p. 41-54.

RANDO, T. A. Appendix I: comprehensive conceptual model of mourning. Full Day


Specialty Workshops: Prolonged grief disorder is not the whole story: the broader
spectrum of complicated mourning. In: ADEC 38th. Annual Conference. 13 abr.
2016a. Minneapolis, US.

RANDO, T, A. Prolonged grief disorder is not the whole story: the broader
spectrum of complicated grief. Full Day Specialty Workshops: Prolonged grief
disorder is not the whole story: the broader spectrum of complicated mourning. In:
ADEC 38th. Annual Conference. 13 abr. 2016b. Minneapolis, EUA.

RANDO, T. A.; DOKA, K. J.; FLEMING, S.; FRANCO, M. H. P.; LOBB, E. A.;
PARKES, C. M.; STEELE, R. A call to the field: complicated grief in DSM-5.
Omega, Vol 65(4) 251-255, 2012.

RANGEL, A. P. F. N. Amor infinito: histórias de pais que perderam seis filhos. São
Paulo: Vetor, 2008.

RODRIGUES, S. R. C. EMDR aplicado a tratamento com idosos. Resumo


publicado nos anais eletrônicos do II Congresso Brasileiro de EMDR. Brasília. 2012.
Disponível em: https://www.emdr.org.br/ii-congresso-emdr Acesso em: 14 Jan. 2019.

RUDGE, A. M. Destinos do método clínico na contemporaneidade. Latinoam.


Psicopat. Fund. São Paulo, v. 15, n. 3, p. 512-523, set. 2012.
275

SALOMONI, S. R. O casal em foco: um olhar clínico, abrangente e integrativo.


TraumaClinic: Brasília, 2017.

SANETTI, L. M. H.; KRATOCHWILL, T. R. Treatment integrity: A foundation for


evidence-based practice in applied psychology. Washington: American
Psychological Association, 2014.

STROEBE, M, SCHUT H. The dual process model of coping with bereavement:


rationale and description. Death Stud. 1999 Apr-May;23(3):197-224.

SCHUT, H.; STROEBE, M. S.; VAN DEN BOUT, J. TERHEGGEN, M. The efficacy of
bereavement interventions: who benefits. In: STROEBE, M. S.; HANSSON, R. O.
STROEBE, W.; SCHUT. K. (Eds). Handbook of bereavement research:
consequences, coping and care. Washington: American Psychology Association,
2010. p. 705-737.

SHAPIRO, E. Grief as a family process: a developmental approach to clinical


practice. New York: Guilford Press, 1994.

SHAPIRO, F; KASLOW, F.; MAXFIELD, L. EMDR e terapia familiar. TraumaClinic:


Brasília, 2016.

SHAPIRO, F. Introduction: paradigms, processing, and personality development. In:


SHAPIRO, F. (Ed.) EMDR as na integrative psychoterapy approach: experts of
diverse orientations explore the paradigma prism. Washignton: American
Psychological Association, 2002. p. 3-26.

SHAPIRO, F. (Ed.) EMDR as na integrative psychoterapy approach: experts of


diverse orientations explore the paradigma prism. Washington: American
Psychological Association, 2002.

SHAPIRO, F. EMDR: dessensibilização e reprocessamento através de movimentos


oculares. Brasília: Nova Temática, 2007. 2. ed.

SHAPIRO, F. Deixando o seu passado no passado. Brasília: TraumaClinic, 2015.

SHAPIRO, F. Protocol for complicated grief. In: SHAPIRO, F. Eye movement


desensitizetion and reprocessing (EMDR) therapy: basic principle, protocols and
procedures. New York: The Gulford Press, 2018a. 3.ed. p. 232-235.

SHAPIRO, F. Eye movement desensitizetion and reprocessing (EMDR) therapy:


basic principle, protocols and procedures. New York: The Gulford Press, 2018b.
3.ed.

SHAPIRO, F.; FORREST, M. S. EMDR: the breakthrough therapy for overcoming


anxiety, stress and trauma. New York: Basic Books, 1997.

SHEAR, M. K.; BOELEN, P. A.; NEIMEYER, R. A. Treating complicated grief:


converging approaches. In NEIMEYER, R. A. et al. (Eds.) Grief and bereavement in
contemporary society: bridging research and practice. New York: Routledge, 2011.
p. 139-162.
276

SIEGEL, D. The developing mind: how relationships and the brain Interact to shape
who we are. New York: Guilford, 1999.

SILVA, D. R. Impacto do Luto na Criança: uma questão para a Terapia Familiar


Sistêmica. In: MAZORRA, L.; TINOCO, V. (org.) Luto na infância:intervenções
psicológicas em diferentes contextos. Campinas: Livro Pleno, 2005. p.171-201.

_______. Famílias e situações de luto. In: OSORIO, L. C.; VALLE, M.E.P. (Orgs.)
Manual Brasileiro de Terapia Familiar. Porto Alegre: Artmed, 2008a. p. 376-398.

_______. Luto disfuncional: contribuições e intervenções da terapia familiar


sistêmica. In: MACEDO, R. M. S. (org.) Terapia familiar na última década. São
Paulo: Roca, 2008b. p. 562-571.

_______. E a vida continua… o processo de luto dos pais após o suicídio de


um filho.2009. 239 f. Dissertação (Mestrado em Psicologia Clínica) – Faculdade de
Ciências Humanas e da Saúde, Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São
Paulo.

_______. A atuação do psicólogo em situações de luto. In: LADVOCAT, C. (org.)


Psicologia: campo de atuação, teoria e prática. Rio de Janeiro: Booklink, 2010. v. 1,
p-128-134.

_______. Tramas do luto na família adotiva. In LADVOCAT, C.; DIUANA, S. Guia de


adoção: no jurídico, no social, no psicológico e na família. São Paulo: Roca, 2014.
p.179-200.

______. Na trilha do silêncio: múltiplos desafios do luto por suicídio. In:


CASELLATO, G. (Org.) O resgate da empatia: suporte psicológico ao luto não
reconhecido. São Paulo: Summus Editorial, 2015. p. 111-128.

_______. Os amigos que eu gostaria de nunca ter conhecido – API/Vitória. In:


TAVARES, E. C.; TAVARES, G. R. (Orgs.) E a vida continua... Belo Horizonte:
edição do autor, 2016. p 224-235.

SILVA, D. R.; FRANCO, M. H. P. Revisão sistemática de literatura sobre EMDR e


luto. Poster. III Congresso Brasileiro de EMDR. São Paulo. 2015.

_______, M. H. P. Using EMDR with bereaved Pople: a systematic literature review.


Poster. ADEC 38th. Annual Conference. Minneapolis, 2016.

SIMPSON, M. A. Traumatic bereavements and death-related PTSD. In: FIGLEY, C.;


BRIDE, E. B.; MAZZA, N. (Eds.) Death and trauma: the traumatology of grieving.
Washington: Taylor & Francis, 1997. p. 3-16.

SOBREIRA, C. D. B. (Org.) Conquistas na psicoterapia III: novos estudos em


terapia EMDR. Brasília: Associação Brasileira de EMDR, 2017.

SOLOMON, R. M. EMDR treatment of grief and mourning. Clinical


Neuropsychiatry, 2018, 15, 3, 137-150.
277

SOLOMON, R. M.; RANDO, T. A. Eye movement and desensitization and


reprocessing: an effective therapeutic tool for trauma and grief. In: FIGLEY, C. R.;
BRIDE, B. E.; NICHOLAS, M. (Eds.) Death and trauma: the traumatology of
grieving. Washington DC: Taylor and Francis, 1997. p. 231-247.

SOLOMON, R. M.; RANDO, T. A. Utilization of EMDR in the treatment of grief and


mourning, Journal of EMDR Practice and Research, 1(2), 109-117, 2007.

_______. Treatment of grief and mourning through EMDR: conceptual considerations


and guidelines. Revue européenne de psychologie appliquée, 62(2012) p. 231-
239.

______. EMDR Therapy and grief and mourning. In: LUBER, M. (Ed.) EMDR
therapy: scripted protocols and summary sheets. New York: Springer, 2016a. p.
231-252.

______. Summary Sheet: EMDR Therapy and Grief and Mourning. In: LUBER, M.
(Ed.) EMDR therapy: scripted protocols and summary sheets. New York: Springer,
2016b. p. 253 a 263.

SOLOMON, R. M.; SHAPIRO, F. EMDR and adaptative information processing


model potential mechanisms of change. Journal of EMDR Practice and Research.
2008 Nov; 2(4): 315-325. DOI: 10.1891/1933-3196-2.4.315

SOUZA, A. M. N. A. Técnica grupal integrativa – MGI: prevenção de TEPT –


transtornos de estresse pós-traumático em grupos. Resumo publicado nos anais
eletrônicos do II Congresso Brasileiro de EMDR. Brasília. 2012. Disponível em:
https://www.emdr.org.br/ii-congresso-emdr. Acesso em: 14 Jan. 2019.

SPRANG, G. The use of eye movement desensitization and reprocessing (EMDR) in


the treatment of traumatic-stress and complicated mourning: psychological and
behavioral outcomes. Research on Social Work and Practice, 11, 300-320, 2001.

STAKE, R. E. Qualitative case studies. In: DENZIN, N. K.; LINCOLN, Y. S. (Eds).


Handbook of qualitative research. 2nd ed. Thousand Oaks: Sage, 2005. p. 443-
466.

STAKE, R. E. Case studies. In: DENZIN, N. K.; LINCOLN, Y. S. (Eds.) Handbook of


qualitative research. London: Sage, 1994. p. 236-247.

STAKE, R. E. Multiple case study analysis. New York: The Guilford Press, 2006.

STAKE, R. E. Qualitative research: studying how things work. New York: The
Guilford Press, 2010.

STAKE, R. E. Reproducicle worskheets. Suplementary material. Disponível em:


https://www.guilford.com/companion-site/Multiple-Case-Study-
Analysis/9781593852481 Acesso em: 05 Jan. 2019
278

STIPP, V. Efeitos da terapia de EMDR em pacientes com obesidade grave


submetidos à cirurgia bariátrica. Mestrado em Psicologia Clínica. HCFMUSP-SP.
Em andamento. Início 2018.

STROEBE, M. S. et al. (Eds.) Handbook of bereavement research and practice:


consequences, coping and care. Washington: American Psychological Association,
2001.

STROEBE, M. S. et al. (Eds.) Handbook of bereavement research and practice:


advances in theory and intervention. Washington: American Psychological
Association, 2008a.

______. Bereavement research: contemporary perspectives. In: STROEBE, M. S. et


al. (Eds.) Handbook of bereavement research and practice: advances in theory
and intervention. Washington: American Psychological Association, 2008b, p. 3- 25.

TARQUINIO, C.; HOUBRE, B.; FAYARD, A.; TARQUINIO, P. Application de l’EMDR


ai deliu traumatique après une collision de train. L’Evolution Psychiatrique 2009, 74.
doi:10.1016/j.evopsy.2009.09.004 14 páginas.

TAVARES, G. R. (Org.) Do luto à luta. Belo Horizonte: Casa de Minas, 2001.

TAVARES, E. C.; TAVARES, G. R. (Orgs.) E a vida continua... Belo Horizonte:


edição do autor, 2016.

TEDESCHI, R. G.; CALHOUN, G. L.; ADDINGTON, E. Positive transformations in


response to the struggle with grief. In: DOKA, K. J.; TUCCI, A. S. Beyond Kübler-
Ross: new perspectives on death, dying and grief. Washington: Hospice Foundation
of America, 2011. p. 61-75.

TOLEDO, L. A.; SHIAISHI, G. F. Estudo de caso em pesquisas exploratórias


qualitativas: um ensaio para a proposta de protocolo de estudo de caso. Rev. FAE.
Curitiba, v. 12 (1), p. 103-119, jan./jun. 2009.

USTA, F. D.; ABAMOR, A. E.; YASAR, A. B. A case study: treatment of prolonged


grief disorder with EMDR therapy. Anadolu Psikiyatri Derg 2016; 17(Ek.4):33
Disponível em: 91-1474604253 (1) Acesso em 14 Jan. 2019.

VAN DENDEREN, M.; KEIJSER, J.; STEWART, R.; BOELEN, P. A. Treating


complicated grief and posttraumatic stress in homicidally bereaved individuals: a
randomized control trial. Clin Psychol Psychoter. 2018. 25: 497-508. Disponível
em: https://onlinelibrary.wiley.com/doi/epdf/10.1002/cpp.2183 Acesso em: 14 Jan.
2019.

VASCONCELLOS, M. J. E. Pensamento sistêmico: o novo paradigma da ciência.


Campinas: Papirus, 2002.

WALSH, F.; MCGOLDRICK, M. A perda na família: uma perspectiva sistêmica. In:


______ . Morte na família: sobrevivendo às perdas. Porto Alegre: Artmed,1998. p.
27-55.
279

WONG, S. Flash technique group protocol in a homeless shelter for men with high
dissociation and substance abuse. Journal of EMDR Practice and Research. Fev.
2019 (no prelo).

WORDEN, J. W. Aconselhamento do luto e terapia do luto: um manual para


profissionais da saúde mental. São Paulo: Roca, 2013. 4. ed.

WORLD HEALTH ORGANIZATION (WHO). Guidelines for the management of


conditions specifically related to stress. Genebra: World Health Organization, 2013.

______ . ICD-11: International classification of diseases for mortality and


morbidity statistics. 11th Rev. Genebra: World Health Organization, 2018.

WORTMAN, C. B.; PEARLMAN, L. A. Traumatic bereavement. In: NEIMEYER, R. A


(ED.) Techniques of grief therapy: assessment and intervention. New York:
Routledge, 2016.

ZAMPIERI, M. A. J. Se amo demais, não amo: tratando a dissociação na


depressão e codependência com EMDR, psciodrama e terapia familiar. São José do
Rio Preto: Editora Raízes do Brasil, 2012.

ZAMPIERI, M. A. J.; ZAMPIERI, M. J.; GODOY, M.; ZAMPIERI, A. J. Bilateral brain


stimulation in trauma therapy: a randomized clinical trial. ClinicalTrials.gov ID:
0000-0002-5442-4488 Pesquisa apresentada na EMDRIA Conference, 2018.

ZAMPIERI, A. M. F. Terapia sexual conjugal: estupro e disfunções sexuais, uma


articulação. In: MONTORO, G. C. F.; MUNHOZ, M. L. P. O desafio do amor:
questão de sobrevivência. (pp. 295-313). São Paulo: Roca, 2010.

ZAMPIERI, A. M. F. A psicoterapia EMDR com adultos traumatizados por abusos sexuais


intrafamiliares. Revista Brasileira de Sexualidade Humana. RBSH 2017, 28 (2); 23-34.

ZAMPIERI, M. A. J. Fibromialgia e EMDR: Estudo de série de casos com


seguimento. Resumo publicado nos anais eletrônicos do II Congresso Brasileiro de
EMDR. Brasília. 2012. Disponível em: https://www.emdr.org.br/ii-congresso-emdr.
Acesso em: 14 Jan. 2019.

ZAMPIERI, M. A.; TOGNOLA, W. A. Frequencie of migraine, presence of


neuropsychiatric symptoms and attachment style: comparative study. J. Neurisci
Neuropsyc Vol 2: 203. Jul. 2018. 1-6 doi 10.18875/2577-7890 Disponível em:
https://www.researchgate.net/publication/326699341_Frequency_of_Migraine_Prese
nce_of_Neuropsychiatric_Symptoms_and_Attachment_Style_Comparative_Study.
Acesso em: 15. Jan. 2018

ZAMPIERI, M. A. J.; ZAMPIERI, A. J. ZAMPIERI, M. J. Trauma: estudo comparativo


de sessão única entre psicoterapia de fala e EMDR. Resumo publicado nos anais
eletrônicos do II Congresso Brasileiro de EMDR. Brasília. 2012. Disponível em:
https://www.emdr.org.br/ii-congresso-emdr. Acesso em: 14 Jan. 2019.

ZANONATO, A. S.; CARVALHO, E. R. O uso do EMDR na terapia de casais e


famílias. Pensando Famílias. 13(2), p. 117-129, dez. 2009.
281

ANEXO A – Termo de Consentimento de Utilização de Dados


282

APÊNDICE A – Avaliação Clínica Inicial

Nome:______________________________________________________________
Data de Nascimento: ____________Data da Avaliação: ________________________
Sexo:___________Etnia:____________Renda familiar:_______________________

Data da Perda:___________________________________
Causa: ( ) doença ( ) acidente ( )homicídio ( ) suicídio ( ) outro ____________

Relacionamento: ( ) Filho ( ) Filha ( )Pai ( ) Mãe ( ) Irmão ( )Irmã ( ) Avô


( ) Avó ( ) Cônjuge ( ) Amigo (a) ( ) outro membro da família (qual?) ____________________
Nome:____________________________________________________________________
Idade: ______________________

Descreva, brevemente, os motivos que o trazem aqui, ou o que você gostaria de trabalhar na
psicoterapia com EMDR, relacionadas ao seu processo de luto:

a.__________________________________________________________________________
___________________________________________________________________________
b.__________________________________________________________________________
___________________________________________________________________________
c.__________________________________________________________________________
___________________________________________________________________________

1. Você terá alguma reunião ou algum compromisso importante nos próximos dias?
( ) não ( ) sim

2.Você vai viajar ou tirar férias nos próximos dias ou semanas?


( ) não ( ) sim

3.Se você é mulher, você está grávida? ( ) não ( ) sim

4.Psicoterapias anteriores com poucos resultados? ( ) não ( ) sim

5.Já usou EMDR? ( ) não ( ) sim Quando:

6.Você considera estar com boa saúde? ( ) não ( ) sim

Se “não”, que tipo de problemas de saúde você está enfrentando?


___________________________________________________________________________
___________________________________________________________________________
___________________________________________________________________________
7.No presente, você faz uso de alguma substância química (álcool, drogas, medicações
psicotrópicas, entre outros.)? ( ) não ( ) sim . Em caso afirmativo, descreve o que está usando, em
que quantidade e
frequência:___________________________________________________________________
___________________________________________________________________________
___________________________________________________________________________
__
283

Assinale, a seguir, os itens que se aplicam a você (presente e passado):


8. ( ) Epilepsia
9. ( ) Dores nos olhos/problemas visuais
10.( ) Dores de ouvido/perda de audição
11.( ) Danos cerebrais/ traumas______________________________________
12.( ) Problemas neurológicos_______________________________________
13.( ) Problemas cardíacos _________________________________________
14.( ) Uso de anfetaminas
15.( ) Uso de cocaína
16.( ) Uso de benzodiazepínicos ( Diazepan, Valium, Rivotril, etc. )
17.( ) Doenças que os médicos não conseguem diagnosticar
18.( ) Dores de cabeça que não respondem a medicamentos/tratamentos
19.( ) Lembranças somáticas

20.Relacione os medicamentos que você está tomando


atualmente:__________________________________________________________________
___________________________________________________________________________
___________________________________________________________________________
___

Médico/Especialidade: _____________________________________________

Telefone: _______________________________________________________

Você tem história de:

21. Tentativas de suicídio? _________________________________( ) não ( ) sim


22. Pensamentos suicidas?________________________________( ) não ( ) sim
23. Automutilação (ferir-se propositalmente)? ____________________( ) não ( ) sim
24. Transtornos de alimentação Anorexia ( ) não ( ) sim
Bulimia ( ) não ( ) sim
Sobrepeso ( ) não ( ) sim
25. Transtornos do sono? Insônia? Pesadelos?__________________( ) não ( ) sim
26. Pressão alta?________________________________________( ) não ( ) sim
27. Crise de pânico?______________________________________( ) não ( ) sim
28. Ansiedade excessiva? __________________________________( ) não ( ) sim
29. “Nervoso”? “Ataques de fúria”?____________________________( ) não ( ) sim
30. Dificuldades para sair de casa?____________________________( ) não ( ) sim
31. Vê-se “diferente” no espelho?_____________________________( ) não ( ) sim
32. Sensação de não pertencer?______________________________( ) não ( ) sim
32. Ouve vozes ou diálogos dentro da cabeça____________________( ) não ( ) sim
33. Pensamentos persistentes/obsessivos/intrusivos, difíceis de se livrar? ( ) não ( ) sim

34.Como você costuma enfrentar situações difíceis ou de estresse? (estratégias que


funcionam)___________________________________________________________________
___________________________________________________________________________
___________________________________________________________________________
35.Cite algumas das suas qualidades que ajudam a lidar com a raiva:
___________________________________________________________________________
___________________________________________________________________________
_____________________________________________________________________
36.Quem são as pessoas que lhe dão apoio nos momentos difíceis?
284

___________________________________________________________________________
___________________________________________________________________________
_____________________________________________________________________
Se necessário, quem poderia chamar?
Nome: _________________________________________________________
Grau de parentesco: _______________________________________________
Telefone: _______________________________________________________
285

APÊNDICE B – Avaliação Clínica Final

Nome: ________________________________________ Data: ________________

Relate sua experiência em relação ao trabalho realizado numa escala de 0 a 10,


qual o nível de satisfação com os resultados alcançados?
Quando você pensa agora no que foi proposto trabalhar neste processo de
psicoterapia, o que percebe de mudanças em relação ao problema inicial
apresentado?

O que mudou?

Em relação a pessoa que morreu

Em sua vida pessoal

Em sua vida social

Em seu físico

O que não mudou?

O que ainda falta? Ou o que você gostaria ainda de trabalhar em psicoterapia?

Você indicaria essa psicoterapia para alguém?

Quais recomendações faria?

ALVOS TRABALHADOS (a partir do plano de tratamento):

SUDs atual (de cada alvo)

Encaminhamentos:
286

APÊNDICE C – Termo de consentimento livre e esclarecido – TCLE

Título da Pesquisa: EMDR como possibilidade de psicoterapia para o luto:


um estudo de caso instrumental coletivo

Você está sendo convidado a participar desta pesquisa. Ela está sendo realizada por mim,
Daniela Reis e Silva, CRP 16/517, sob orientação da Profa. Dra. Maria Helena Pereira Franco,
respectivamente pesquisadora e coordenadora do Laboratório de Estudos e Intervenção em Luto da
PUC-SP (LELu), como requisito parcial para a obtenção do título de Doutora em Psicologia Clínica,
pelo Programa de Estudos Pós-Graduados em Psicologia Clínica da PUC-SP.
A pesquisa tem como objetivo analisar os resultados da utilização da abordagem psicoterápica
do EMDR (EyeMovementDesensitizationandReprocessing, em português, Dessensibilização e
Reprocessamento Movimentos Oculares) em pacientes enlutados por morte de um ente querido.
O EMDR é uma abordagem psicoterápica utilizada com bons resultados para diversos tipos de
problemas psicológicos, mas ainda não existe no Brasil uma pesquisa de sua aplicação em situações
de luto. Você está recebendo maiores informações sobre o EMDR em anexo.
O estudo será desenvolvido com pessoas enlutadas, convidadas a partir de sua participação no
API/Vitória – Apoio a Perdas Irreparáveis, grupo de apoio a enlutados. Compreende uma pesquisa
quanti e qualitativa com enlutados que queiram se submeter a uma psicoterapia com foco em seu
processo de luto.
A partir da aceitação ao convite, será realizado um encontro de avaliação, com a aplicação de
um questionário com perguntas semiestruturadas, com perguntas gerais e específicas para obtenção
de informações para avaliar os critérios de seleção para participação na pesquisa. Os dados formais
serão registrados por escrito, pelo próprio participante, e a pesquisadora irá proceder a realização de
outras perguntas pertinentes nessa avaliação clínica Inicial.
Caso você atenda aos critérios de inclusão da pesquisa, serão agendados os próximos
encontros presenciais, no total de 10 a 14, que consistirão em avaliação, sessões de psicoterapia e
encerramento. Durante o processo de avaliação e no encontro de encerramento você será convidado
a preencher alguns questionários. Os momentos de contato com a pesquisadora serão registrados
por escrito pela mesma, e gravados em vídeo e áudio para garantir maior fidelidade do que acontece
nos diferentes encontros presenciais.
As informações coletadas serão utilizadas para os objetivos desta pesquisa, quais sejam: a
elaboração da Tese de Doutorado e publicação dos resultados obtidos. Apenas a pesquisadora terá
contato com este material, sendo garantido o total sigilo a respeito de seu conteúdo e de sua
identidade. Essas informações ficarão disponíveis para os participantes a qualquer momento do
desenrolar da investigação.
Cada encontro terá em torno de uma hora a uma hora e meia de duração e acontecerá no
consultório da pesquisadora, situado à Rua João de Souza Lima, 11 – Mata da Praia, Vitória-ES.
Todos os encontros serão registrados em áudio e vídeo para maior fidelidade das informações, bem
como a pesquisadora tomará notas pessoais tal como o faz durante seu atendimento clínico.
O maior desconforto para você é o tempo que participará das avaliações e dos atendimentos
psicoterápicos, bem como a lembrança de aspectos que podem ter sido difíceis e seus efeitos ainda
presentes.
Considera-se que o EMDR tem o potencial de oportunizar uma diferença positiva na sua
relação com o processo de luto. Embora haja um risco mínimo em sua participação, todos os
cuidados éticos foram realizados, bem como avaliações constantes durante todo o processo para
reduzir qualquer possível efeito negativo. Caso ocorra algum tipo de dano à saúde física ou psíquica
ou quaisquer que sejam as situações identificadas de desconforto, a pesquisadora se responsabiliza
por cuidar dos mesmos e fazer todos os encaminhamentos necessários para minimizá-los.
Sua participação é opcional e voluntária, sem qualquer custo, e caso você não queira participar
do presente estudo ou apresente algum critério durante a avaliação que impeça sua participação na
pesquisa e seja identificada a necessidade de acompanhamento profissional, você será encaminhado
para o tratamento psicológico em uma Unidade Básica de Saúde mais próxima de sua residência ou
para um profissional de psicologia que participe do API/Vitória para acompanhá-lo, de acordo com
sua preferência.
Este Termo de Consentimento Livre e Esclarecido representa sua concordância em participar
desta pesquisa, podendo deixá-la a qualquer momento, sem penalização ou prejuízo. Caso isso
ocorra, haverá a possibilidade de continuidade da psicoterapia, caso assim o queira, e os registros
das sessões psicoterápicas acordadas por meio deste documento serão excluídos da pesquisa.
287

Caso tenha alguma pergunta a fazer antes de se decidir, sinta-se à vontade para fazê-la
pessoalmente ou por meio dos contatos abaixo. Caso surjam dúvidas em relação à pesquisa a
qualquer etapa da mesma, você tem a liberdade de fazer contato com o Comitê de Ética em Pesquisa
da PUC-SP por meio dos dados informados abaixo.
Solicito, portanto, sua autorização para a participação na pesquisa, inclusive para o registro dos
encontros presenciais e a publicação dos dados.
O presente documento apresenta-se em duas vias, uma das quais ficará com você a outra, com a
pesquisadora responsável.
Desde já agradeço a atenção, colocando-me à inteira disposição para o que se fizer necessário.

Daniela Reis e Silva


CRP 16/517
Pesquisadora
Fone (27) XXXXXXXXXX
Email: drsilva@terra.com.br

Declaro que recebi de forma clara e detalhada os devidos esclarecimentos a respeito do presente
estudo, e ciente de que a minha participação é voluntária, e que minha aceitação ou recusa não
acarretará nenhum prejuízo, e que mesmo aceitando posso, a qualquer momento, desistir de
participar, eu___________________________________________________________________,
RG__________________________, CPF:____________________,concordo em participar da
pesquisa.

Vitória, ___de _________________de 20___.

_________________________
Assinatura

Comitê de Ética em Pesquisa da PUC-SP


Rua Ministro de Godói, 969 – Perdizes
Edifício Reitor Bandeira de Mello, sala 63-C
São Paulo – SP - CEP 05015-001
Tel: (11) 3670-8466
Email: cometica@pucsp.br
288

APÊNDICE D – Carta-convite

Título da Pesquisa: EMDR como possibilidade de psicoterapia para o luto:


um estudo de caso instrumental coletivo

Eu, Daniela Reis e Silva, psicóloga, CRP 16/517, sob orientação da Profa. Dra. Maria
Helena Pereira Franco, convido você que faz parte do API/Vitória – rede de Apoio a Perdas
Irreparáveis para participar desta pesquisa do Laboratório de Estudos e Intervenção em Luto
da PUC-SP (LELu), do Programa de Estudos Pós-Graduados em Psicologia Clínica da
PUC-SP.
A pesquisa, parte da minha tese de Doutorado, tem como objetivo analisar os resultados
da utilização da abordagem psicoterápica do EMDR
(EyeMovementDesensitizationandReprocessing, em português, Dessensibilização e
Reprocessamento Movimentos Oculares) em 3 pessoas enlutadas por morte de um ente
querido. Ou seja, você receberá uma psicoterapia com foco em seu processo de luto.
Para participar é preciso ter entre 18 e 65 anos e ter sofrido uma perda por morte há
mais de dois anos, independente da causa ou do grau de parentesco, estar sem
psicoterapia no mínimo há seis meses e nunca ter feito sessões de EMDR antes.
Caso seja de seu interesse, será agendado um primeiro encontro onde você receberá
maiores informações sobre a pesquisa. Após aceitar sua participação, serão agendados os
próximos encontros presenciais e individuais que consistirão em avaliação, sessões de
psicoterapia e encerramento, em um período não superior a seis meses.
Frequência: os encontros serão semanais e podem ter duração máxima variando entre
uma a uma hora.
Local: os encontros acontecerão em meu consultório, na Mata da Praia, região
metropolitana de Vitória, em local de fácil acesso por diferentes meios de transporte.
Horários e datas: serão estabelecidos de acordo com a disponibilidade e conveniência
de cada participante.
É importante informar que todos os dados que você fornecer serão mantidos sob sigilo,
respeitando todos os cuidados éticos de acordo com as Diretrizes e Normas
Regulamentadoras de Pesquisa envolvendo Seres Humanos, conforme a Resolução 510/16
do Conselho Nacional de Saúde do Ministério da Saúde.
O maior desconforto para você é o tempo que participará das avaliações e dos
atendimentos psicoterápicos, bem como a lembrança de aspectos que podem ter sido
difíceis e seus efeitos ainda presentes.
Caso tenha alguma pergunta a fazer antes de se decidir agendar nosso primeiro contato
pessoal, sinta-se à vontade para usar as formas de comunicação indicadas abaixo.
Desde já agradeço a atenção, colocando-me à inteira disposição para o que se fizer
necessário.

Daniela Reis e Silva


Fone (27) XXXXXXX Email: drsilva@terra.com.br

Comitê de Ética em Pesquisa da PUC-SP


Rua Ministro de Godói, 969 – Perdizes
Edifício Reitor Bandeira de Mello, sala 63-C
São Paulo – SP - CEP 05015-001
Tel: (11) 3670-8466
Email: cometica@pucsp.br
289

APÊNDICE E – Informações sobre EMDR

Tratamento de Memórias Traumáticas por meio de Dessensibilização e Reprocessamento por


meio de Movimentos Oculares (Eye Movement Desensitization and Reprocessing)

No final dos anos 80, a doutora em Psicologia Francine Shapiro observou, a partir de uma
experiência pessoal, que seus pensamentos perturbadores começaram a perder a intensidade
durante uma caminhada, enquanto fazia movimentos oculares bilaterais ao acaso. Ao experimentar o
procedimento com outras pessoas também observou a redução do desconforto. Depois de mais
experiências, observou haver um reprocessamento por meio da atribuição espontânea de novo
significado positivo a experiências traumáticas. Em vez de a pessoa pensar: “a culpa foi minha”, ao
pensar na mesma situação surgia o pensamento: “fiz o melhor que pude; era apenas uma criança”.
Por isso batizou o método de Reprocessamento e Dessensibilização por Movimentos Oculares.
Várias reformulações teóricas e práticas, bem como a ampliação de pesquisas científicas, tem
permitido ao EMDR tornar-se uma abordagem psicoterápica mais ampla e inclusiva, que permite o
tratamento de situações traumáticas recentes e passadas, bem como transtornos de ansiedade
(pânico, fobias, transtorno de estresse agudo e pós-traumático), depressão, distúrbios
psicossomáticos (fibromialgia, enxaqueca, fadiga crônica), situações que envolvem luto e, mais
recentemente, pacientes com transtornos de personalidade e psicóticos.
Um dos princípios fundamentais da psicoterapia com EMDR reside na tendência humana ao
equilíbrio físico e mental. O objetivo do EMDR é o de remover o bloqueio causado pelas imagens,
crenças negativas, sentimentos e sensações corporais perturbadores provenientes em geral de
traumas de infância, e permitir que a recuperação de seu estado normal de saúde emocional,
possibilitando à pessoa viver o presente, bem como planejar e organizar o futuro.
Às vezes a pessoa afirma não ter um trauma de passado. Esclarecemos que o trauma pode ser
conceituado como uma lembrança, a memória de um evento que deveria ser percebida como se
estivesse no passado distante, mas que ainda é percebida como algo recente, mesmo após
transcorridos vários anos. Um trauma não precisa ser algo trágico. Pequenas humilhações podem
provocar efeitos de longo prazo e terem impacto tão profundo quanto uma catástrofe.
Atualmente são utilizados diferentes estímulos bilaterais (visual, auditivo ou tátil) que promovem
melhor integração de informação nos hemisférios cerebrais, reorganizando e ressignificando
conteúdo emocional e racional. Com o EMDR auxiliamos o cérebro a retomar o que deveria
desempenhar normalmente. A estimulação bilateral ritmada ativa o sistema de relaxamento e o
indivíduo sai do estado crônico de alarme mais rapidamente.
Após uma fase de preparação onde é elaborado um plano de tratamento, inicia-se o
reprocessamento das lembranças que estejam direta ou indiretamente relacionadas à queixa atual. A
memória perturbadora que parecia ter ocorrido há pouco tempo deixa de incomodar quando é
acessada, podendo surgir memórias positivas ligadas à situação traumática.
O profissional, psicólogo ou médico, que emprega o método do EMDR deve ser certificado por
meio do EMDR®Institute, nos Estados Unidos e requer treinamento ministrado por treinadores
credenciados pelo EMDR®Institute ou EMDR Iberoamérica.

Para informações adicionais, conferir os sites:

Associação Brasileira de EMDR


www.emdr.org.br
EMDR Treinamento & Consultoria
www.emdrtreinamento.com.br
O que é o EMDR
https://www.youtube.com/watch? v=RhCwNZQbet0
Aspectos Fundamentais do EMDR
https://www.youtube.com/watch? v=hhfxPvhJ76k
Demonstrações de sessões de EMDR:
https://www.youtube.com/watch? v=U8P869yjg8I
https://www.youtube.com/watch? v=5q2vOpGTqsY
290

APÊNDICE F – Fluxograma para encaminhamentos


291

APÊNDICE G – Notificação para encaminhamentos necessários

Prezado Sr. (a) _________________________________________________

Durante a sua participação na Pesquisa de Doutorado intitulada “EMDR como


possibilidade de psicoterapia para o luto: um estudo de caso instrumental coletivo”,
conduzida por Daniela Reis e Silva, sob orientação da Profa. Dra. Maria Helena
Pereira Franco, os seguintes motivos impedem sua participação na presente
investigação e podem exigem cuidados adicionais:
( ) a avaliação dos resultados de um dos questionários observou a presença de
sintomas depressivos que podem indicar a presença de depressão, que necessita
de uma maior investigação
( ) a avaliação dos resultados de um dos questionários observou a presença de
sinais de dissociação que reque cuidados adicionais para a psicoterapia
( ) quaisquer outros critérios de exclusão
( ) não interesse em participar da pesquisa
( ) desligamento por interesse próprio a qualquer momento da pesquisa

Recomenda-se, portanto:
( ) Avaliação por um médico ________________________ (especialidade)
( ) Encaminhamento para outro profissional de psicologia que possa dar
seguimento ao seu tratamento

OBSERVAÇÕES ADICIONAIS:
__________________________________________________________________
__________________________________________________________________
__________________________________________________________________
__________________________________________________________________

Esta avaliação para posterior atendimento pode ser feita na rede pública por meio
de uma Unidade Básica de Saúde mais próxima de sua casa, ou em algum outro
local onde já esteja recebendo tratamento. Caso haja dificuldades com a marcação
no serviço público de saúde, é possível fazer a referência para profissionais que
possam conduzir esta avaliação de forma gratuita.

Para quaisquer esclarecimentos, favor contactarDaniela Reis e Silva no telefone


(27) 3225-1776 ou por emaildrsilva@terra.com.br

Vitória, _______ de ___________________________ de ________

DANIELA REIS E SILVA


CRP 16/517
292

APÊNDICE H – Notas sobre a leitura do relato do estudo de caso

Identidade do Caso – Px

Resumo

Achados
I–

II –

III –

IV –

Unicidade do caso para o conjunto de múltiplos casos

Relevância do caso para os temas cruzados


Tema 1 Tema 2 Tema 3 Tema 4
Tema 5 Tema 6 Tema 7 Tema 8...
Possíveis exemplos para o relato cruzado dos casos

Influências gerais

Fatores situacionais

Comentários
293

APÊNDICE I – P1 Sessões de EMDR – P1


Sessão 1
Instalação LT
Metáfora -
MB’s
Memória Alvo - não ter percebido nada
I - quando chegou em casa e o viu agonizando
CN – eu deveria ter feito alguma coisa
CP – fui um bom pai
VoC - 7
E – tristeza/Impotência
SUDS – 10
S – dor de cabeça, cansaço no corpo todo, resfriado, desânimo, desalento
Sessão incompleta
Sessão 2
SUDS residual - 9,5. Relata que não teve sonho.
E – tristeza/impotência/angústia
SF - nó na garganta
Sessão incompleta
Sessão 3
SUDS residual - 10
SF - Nó na garganta
Sessão incompleta
Sessão 4
SUDS residual – 6
CL – se sente culpado por se divertir
Sessão incompleta
Sessão 5
SUDS residual – 10
E - angústia/sofrimento/tristeza
SF – nó na garganta
Sessão incompleta
Sessão 6
SUDS residual – 9,5
E – saudade/tristeza/perda
SF – nó na garganta
Sessão incompleta
Sessão 7
SUDS residual- 9,5 (ausência)/ 9 (cena)
E – impotência/incapacidade
SF - nó na garganta
Sessão incompleta
Sessão 8
SUDS residual – 6
SF - ombro
Sessão incompleta
Sessão 9
SUDS residual – 5
SF – ombro
Sessão incompleta
Sessão 10
SUDS residual - 5
SF – cansaço/aperto na garganta/ombros
Sessão incompleta
294

APÊNDICE J – Gráficos Comparativos dos Instrumentos Aplicados em AI e AF de


P1
295

APÊNDICE K – P2: sessões de EMDR

Sessão 1
Instalação Lugar Tranquilo
Metáfora: TV
MB’s - visuais
Memória Alvo – Morte do pai
I- no hospital, ele naquela mesa fria, só de fralda.
CN- deveria ter feito alguma coisa
CP- fiz o melhor que pude
VoC- 2
E- angústia/cobrança
SUDS- 9
SF- tremor no corpo, falta de ar, bolo no peito, como se tivesse alguma coisa presa
Sessão completa
Sessão 2
Reavaliação SUDS 0
Memória Alvo – Morte da mãe
I- ela no caixão e eu vendo ela. Fala da tia repreendendo-a: ela está sorrindo
CN- sou insensível
CP- sou capaz
VoC- 1
E- tristeza
SUDS- 7
SF- pressão na cabeça/na testa
Sessão completa
CP – sou vitoriosa – reforço com MB’s lentos
Sessão 3
Reavaliação – SUDS - 0
Memória Alvo – dificuldade com as irmãs
I- eu no quarto ouvindo todo mundo na cozinha
CN- sou sozinha
CP- posso me defender
VoC- 7
E- angústia/raiva/decepção
SUDS- 7
SF- cabeça
Sessão completa
Alívio + CPssou capaz, não mereço sofrer - sensação positiva da praia
reforço com MB’s lentos
Sessão 4
Reavaliação – SUDS - 0
Memória Alvo – Morte do marido 1ª. memória
I- eu olhando a fotografia
CN- eu deveria ter feito alguma coisa
CP- posso lidar com isso
VoC- 3
E- tristeza enorme
SUDS-10
SF- vontade de chorar incontrolável (não consegue localizar no corpo)
Sessão incompleta
Última medida de SUDS 4. LT
296

Sessão 5
SUDS residual 8
Memória Alvo – mesma
E- tristeza
SF – dor no peito
Sessão completa
Sessão 6
SUDS residual 2
SF – “facadinha no coração”
CP mudou – mereço viver
Sessão completa
Corpo melhor que praia – reforço com MB’s lentos
Sessão 7
Reavaliação – SUDS 0
Memória Alvo – contando para [filha 2]
I-filha chorando e colocando a cabeça no travesseiro
CN- não sou suficentemente boa
CP- posso confiar nas minhas decisões
VoC- 4
E- tristeza
SUDS- 8
SF- pressão na cabeça
Sessão completa
CP final– sou uma boa mãe – reforço com MB’s lentos
Sessão 8
Reavaliação – SUDS - 0
Projeção futuro – desenho
CP – sou a melhor mãe do mundo – reforço com MB’s lentos
+ AF
297

APÊNDICE L – Gráficos Comparativos dos Instrumentos Aplicados em AI e AF de


P2
298

APÊNDICE M – Sessões de EMDR P3

Sessão 1
Instalação LT
Metáfora – trem
MB’s – visuais diagonal/AUD+tátil
Memória Alvo - culpa
I – em casa, olhando a filha e pensando
CN – sou insensível
CP – fiz o melhor que eu pude
VoC- 7
E – arrependimento/tristeza/raiva
SUDS - 7
SF – peito/fadiga
Sessão completa
Sessão 2
SUDS residual – 7
E – angústia/tristeza/impotência
SF – peito
Sessão incompleta
Sessão 3
SUDS residual – 8
E – raiva
SF- peito
Sessão completa
Sessão 4
SUDS residual – 0
Memória alvo – última semana no hospital
I – ela intubada sorrindo pra mim
CN – sou egoísta
CP – fui uma boa mãe
VoC- 5
E – raiva/arrependimento
SUDS - 8
SF – cabeça/nuca
Sessão completa
Sessão 5
SUDS residual – 0
Memória alvo – dia anterior
I – aspirando a filha
CN – sou negligente
CP – fiz o melhor que eu pude
VoC - 1
E - culpa
SUDS - 8
SF – cabeça/pensamento
Sessão completa
Sessão 6
SUDS residual – 0
Memória alvo – fala da médica
I – ela falando
CN - sou insignificante
CP – posso aprender a lidar
299

VoC – 3
E – desprezo
SUDS 7
SF – na nuca
Sessão completa * fiz o melhor que eu pude
Sessão 7
SUDS residual – 3
E – angústia
SF – no peito
Sessão completa
Memória alvo – ela com os tubos
I – olhando para ela e pensando
CN – sou egoísta
CP- fui uma boa mãe
VoC - 3
E – angústia/tristeza
SUDS – 10
SF - peito/falta de ar
Sessão completa
Sessão 8
Memória alvo – filha com os tubos
I – quando entrou, escutou a respiração, de costas para ela
CN – sou fraca
CP – sou corajosa
VoC- 1
E - angústia
SUDS - 4
SF - pé
Sessão completa *eu posso seguir
Sessão 9
SUDS residual – 0
Memória alvo - necrotério
I – na hora que pediram para sair
CN – sou impotente
CP – posso seguir
VoC - 1
E – ansiedade/angústia
SUDS - 8
SF – fadiga/generalizada
Sessão completa
Sessão 10
SUDS residual – 0
Memória alvo – disparador/outras crianças
I – sogra na cama
CN – sou egoísta
CP – sou realista
VoC - 6
E - preocupação
SUDS - 5
SF - peito
Sessão completa
300

APÊNDICE N – Gráficos Comparativos dos Instrumentos Aplicados em AI e AF de


P3
301

APÊNDICE O – Sessões de EMDR P4

Sessão 1
Instalação do Lugar Tranquilo
Metáfora – TV
MB’s – tátil/visual
Memória Alvo – reprise
I – no centro cirúrgico (pior)
CN – sou culpada
CP – não sou culpada
VoC - 1
E – raiva, desprezo, nojo
SUDS - 10
SF- dor de cabeça/aperto no peito/tremor no corpo
Sessão incompleta
Sessão 2
SUDS residual – 8
Sessão incompleta
Sessão 3
SUDS residual – 10
SF – dor no estômago, arcada dentária
Sessão incompleta
Sessão 4
Retomada do PTr e história clínica
CL
Sessão 5
Protocolo Pilares da Vida (adaptado)
Container
Desenvolvimento de recursos
Sessão 6
Alvo – CL/presente
I – desenho
CN sou diferente/sou esquista
CP – posso ser normal
VoC – 1
E – impotência
SUDS – 10
SF – cabeça/peito
Sessão incompleta
Sessão 7
SUDS residual – 9 (com um pouco de esperança)
SF – peito
Sessão incompleta
Sessão 8
SUDS residual 7/8
Em relação à CL – 2 (desenho)
SF – corpo trêmulo/taquicardia
Sessão 9
SUDS residual 7
SF – “tava no corpo. Tá no sentimento”
Sessão incompleta
302

APÊNDICE P – Gráficos Comparativos dos Instrumentos Aplicados em AI e AF de


P4
303

APÊNDICE Q – Sessões de EMDR P5

Sessão 1
Instalação do Lugar Tranquilo
Metáfora – TV
MB’s – visual/tanto faz
Memória Alvo – receber a notícia
I – eu recebendo a notícia
CN – deveria ter feito alguma coisa
CP – fiz o melhor que eu pude
VoC- 6
E- culpa/tristeza/saudade
SUDS- 10
SF- coração
Sessão incompleta
Sessão 2
SUDS residual – 0
CP – fiz o melhor que eu pude
VoC – 5
Sessão incompleta
Sessão 3
SUDS residual – 0
CP – fiz o melhor que eu pude
VoC – 5
Sessão completa *não sou culpada
Sessão 4
SUDS residual – 0
Memória alvo – velório
I – ele no caixão
CN – sou culpada
CP – eu fiz tudo o que eu pude
VoC – 7
E – saudade
SUDS – 7
SF – peito
Sessão completa
Sessão 5
SUDS residual – 0
Memória alvo – cunhada/rituais funerários
I – ele falando que ia ficar com ela
CN – fiz algo errado
CP - fiz o melhor que eu pude
VoC – 7
E – saudade
SUDS – 2
SF – peito
Sessão completa
Sessão 6
SUDS residual 8
SF – cabeça
Sessão incompleta
Sessão 7
SUDS residual – 3
304

SF – peito
Sessão incompleta
Sessão 8
SUDS residual -0
CP – fiz tudo o que pude
VoC 7
SF – 0
Futuro – 3
Sessão completa
305

APÊNDICE R – Gráficos Comparativos dos Instrumentos Aplicados em AI e AF de


P5
306

APÊNDICE S – Sessões de EMDR P6

Sessão 1
Metáfora – trem
MB’s – visual/tátil
Instalação do Lugar Tranquilo/Respiração/ Abraço de Borboleta
Sessão 2
Memória Alvo – encontrar o corpo
I – a cena
CN – tenho que ser perfeita
CP – sou forte
VoC - 7
E- tristeza/medo
SUDS- 8
SF- cabça/coração
Sessão incompleta
Sessão 3
SUDS residual – 1
E – tristeza
SF – peito
Sessão incompleta
Sessão 4
SUDS residual – 1
E tristeza
SF – nuca/peito
Sessão completa *eu aprendi com isso/*fiz o melhor que pude
Sessão 5
SUDS residual – 0
Reavaliação do PTr
Sessão 6
Alvo – ritual funerário da cremação
I – caixão entrando
CN – deveria ter feito alguma coisa
CP – Faço o que eu posso
VoC – 7
E – tristeza
SUDS – 5
SF – peito
Sessão completa
Sessão 7
SUDS residual - 0
E - tristeza
SF – peito
I – ver a mãe triste
CN – não posso falhar
CP – eu faço o melhor que eu posso
VoC 7
E – ansiedade
SUDS – 10
SF – peito
Sessão completa
Sessão 8
SUDS residual – 2
307

SF – no peito
Sessão incompleta
Sessão 9
SUDS residual – 0
CP – sou uma boa filha
VoC – 7 * reforço MB’s lentos
SUDS residual – 0
Memória alvo – crise de pânico
I – se ver no meio das vozes
CN – tenho que ser perfeita
CP- eu sou equilibrada
VoC – 5
E – medo
SUDS – 3
SF – peito
Sessão completa *posso ser quem eu sou
308

APÊNDICE T – Gráficos Comparativos dos Instrumentos Aplicados em AI e AF de


P6