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AULA 1

FUNÇÕES
NEUROPSICOLÓGICAS
COGNITIVAS – COGNIÇÃO E
APRENDIZAGEM

Profª Michele Müller


TEMA 1 – O DIFERENCIAL DO CÉREBRO HUMANO

O surgimento de novas tecnologias de neuroimagem nos permitiu, nas


últimas décadas, entender melhor os processos cerebrais envolvidos em qualquer
atividade. Assim, o desenvolvimento cognitivo hoje é compreendido para além de
especulações teóricas, pois boa parte dos processos de maturação do cérebro
podem ser verificados.
Isso nos permite adotar práticas educacionais baseadas na realidade de
como o cérebro se desenvolve, respeitando cada fase e todos os elementos
envolvidos nesse processo. No decorrer deste curso, vamos apresentar questões
fundamentais sobre como nossas capacidades cognitivas são moldadas e
aprimoradas, no nascimento e no decorrer da vida.
Você verá que crianças pequenas apresentam capacidades muito mais
sofisticadas do que se acreditava durante muito tempo. E que, também
contrariando o pensamento que até recentemente predominava nas ciências
cognitivas, o desenvolvimento do cérebro não se limita ao período de infância.
Apresentaremos a forma como aquilo que conhecemos como cognição se
inter-relaciona com fatores biológicos, sociais, ambientais, emocionais e físicos.
Para isso, iremos abordar algumas das principais teorias de desenvolvimento
infantil, mas sob uma perspectiva neurocientífica, procurando justificar tais teorias
com o que já sabemos sobre as transformações do cérebro.

1.1 O que nos faz humanos

Para entender melhor como diferentes operações mentais são envolvidas


na realização de determinadas tarefas, vamos abordar a neuropsicologia cognitiva
de um ponto de vista amplo e, em alguns momentos, dentro de uma linha
evolucionista. Começamos falando da forma como o cérebro humano evoluiu de
forma a nos possibilitar o domínio de capacidades complexas – o nosso diferencial
em relação às outras espécies. Isso irá permitir a compreensão do cenário mais
amplo da cognição, ou seja, do modo como competências cognitivas estão
entrelaçadas com outros aspectos que permitiram a evolução da nossa espécie
(em especial a convivência em grupos).
Assim, nesta aula, você aprenderá as principais diferenças entre o
cérebro de humanos e outras espécies; as funções do córtex pré-frontal e
uma breve introdução sobre a cognição humana.

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Antes de a neurociência ganhar ferramentas revolucionárias de
neuroimagem – o que nos permitiu estudar o cérebro humano com mais precisão
–, as pesquisas neurocientíficas eram focadas especialmente no desenvolvimento
neurológico dos animais. Eram muito esclarecedoras, mas deixavam espaço para
várias teorias acerca das habilidades que são a especialidade da espécie
humana, como a linguagem, a criação e o uso de ferramentas, que dependem de
estratégias complexas de resolução de problemas e planejamento, e também da
aprendizagem social.
Essas habilidades mentais superiores envolvem uma parte do cérebro
encontrada em primatas, conhecida como lobo frontal. Até recentemente,
acreditava-se que a complexidade da cognição humana estava relacionada ao
volume maior dessa região em relação ao resto do cérebro. Hoje sabe-se que as
diferenças entre os homens e as outras espécies de mamíferos não estão
necessariamente relacionadas ao tamanho do cérebro ou mesmo do lobo frontal,
como um todo.
Pesquisadores, como Semendelferi e Damásio (2002), concluíram que
alguns circuitos específicos do córtex podem ser maiores. Esses circuitos podem
ser mais interconectados, ou seja, apresentarem um número maior de sinapses
entre células da própria região frontal, e desta com outras áreas do cérebro.
A parte do cérebro responsável por atividades que caracterizam a cognição
humana, como flexibilidade cognitiva, planejamento, uso da linguagem,
pensamento abstrato, controle do impulso e comportamento social, situa-se em
na porção anterior do lobo frontal, a que está mais perto da testa. É a que
chamamos de córtex pré-frontal.
Pesquisas que compararam a área do córtex pré-frontal, conhecida como
lateral ou granular (também chamada de área 10), de humanos e chimpanzés,
constataram que nossa espécie apresenta, nessa região específica, aumento de
tamanho e de conectividade, uma vez que possuímos um volume muito maior de
massa branca no córtex pré-frontal. E a massa branca é formada por fibras
nervosas que facilitam a conexão entre as células do sistema nervoso.
Essa região específica nos dá a capacidade de pensar antes de agir, ou
seja, de tomar decisões que não sejam apenas movidas por um sistema
automático e, muitas vezes, inconsciente. É responsável pelo controle dos
impulsos, que chamamos de controle inibitório, e que nos permite tanto seguir

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como questionar regras, o que é necessário para o convívio social – e que,
conforme veremos mais tarde, é fundamental para a aprendizagem.
A cognição humana desenvolve-se por meio de estruturas biológicas,
combinadas com as experiências promovidas pelo ambiente. Ela nos é garantida
por uma base genética que, de acordo com psicólogos evolucionistas, passou
pelos mesmos processos evolutivos de outros sistemas, como órgãos e tecidos.
Assim como o sistema imunológico, a cognição garante o sucesso da
sobrevivência de nossa espécie. Além de habilidades como a memória, o controle
motor e o processamento visual, muitos acreditam que a aquisição da linguagem
também é fruto de um processo evolutivo, enquanto outros defendem que se trata
de uma característica descontinuada, ou seja, única da espécie, e, portanto,
inexiste a divisão dessa herança com outras espécies na linha evolutiva.
Importante ressaltar que nossos diferenciais cognitivos são fruto das
necessidades impostas por um mundo muito diferente daquele em que hoje
vivemos. Quando falamos da cognição humana, falamos de capacidades que
evoluíram ao longo de nossa história para que pudéssemos sobreviver em um
ambiente de colheita e caça. Por isso, nossa cognição, mesmo sendo aplicada a
problemas contemporâneos, ainda funciona dentro dos moldes de ancestrais que
precisavam se defender, saber quem é de fora da tribo, prever o perigo com base
em fatores como a frequência em que ele ocorre, construir ferramentas, identificar
faces, seduzir, proteger e colaborar com o grupo. Muitos problemas que
precisamos enfrentar hoje são relativamente novos; assim, os velhos esquemas
mentais podem nos levar a erros estatísticos, falácias ou dificuldades cognitivas.
Um bom exemplo disso é a leitura. Apesar de hoje em dia dedicarmos
grande parte do nosso tempo à leitura das mais diversas mídias, a capacidade de
ler é bastante recente na história humana. Tivemos que adaptar outros recursos
cognitivos para essa atividade, que requer uma transformação profunda em
diversas regiões do cérebro. Durante a maior parte da trajetória de nossa espécie,
as diferenças recentemente observadas no cérebro de pessoas com dislexia
garantiam vantagem na realização de diversas funções.
Da mesma forma, pessoas com dificuldade em sustentar a atenção em
tarefas monótonas por muito tempo e, ao mesmo tempo, atentas às sutis
mudanças de estímulos do ambiente, no mundo atual são diagnosticadas com
transtorno – e, no entanto, poderiam encontrar grande vantagem sobre outros

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membros do grupo em determinadas missões no decorrer de quase toda a nossa
história.

TEMA 2 – MIELINIZAÇÃO E MATURIDADE

Nesta aula, iremos abordar o desenvolvimento do cérebro do bebê e alguns


dos principais termos neurocientíficos relacionados a esse processo, como
sinaptogênese, mielinização e arborização dendrítica.
Em comparação a qualquer outra espécie, os bebês humanos nascem
bastante prematuros. Lembre-se do filme Bambi, e da cena em que, logo após
nascer, encontra poucas dificuldades para andar. É exatamente isso que
acontece. Os filhotes de animais nascem quase prontos e levam apenas dias ou
meses para executarem tarefas semelhantes às de seus pais.
O cérebro de um bebê recém-nascido tem apenas 23% do tamanho do
cérebro de um adulto. Aos três anos, o cérebro atinge 90% do seu peso na fase
adulta. A expansão do órgão se estende até a adolescência. Essa prematuridade
dos humanos é o que garante a nossa grande capacidade de adaptação. Outros
animais nascem com comportamentos pré-programados para que possam
sobreviver em um determinado ambiente de forma previsível. Já a espécie
humana é altamente adaptável e imprevisível. Temos nossas capacidades
cognitivas moldadas de acordo com os estímulos que recebemos, o ambiente em
vivemos e as pessoas que nos cercam. Para tanto, viemos ao mundo ainda
despreparados, mas extremamente flexíveis.
O desenvolvimento do nosso cérebro, além de lento comparado ao de
outras espécies, prolonga-se por toda a vida, pois recebemos novas informações
o tempo todo, e precisamos processá-las, memorizá-las e adaptar a nossa visão
de mundo a elas.
Os ganhos cognitivos dependem de alguns processos neurológicos que
ocorrem nos primeiros anos de vida, quando o cérebro passa por profundas
transformações. Primeiramente, acontece um evento que chamamos de
ramificação (ou arborização) dendrítica, que irá permitir a comunicação entre
os neurônios. Como você já aprendeu, a base do funcionamento cerebral está na
comunicação entre neurônios, o que chamamos de sinapse.
A aprendizagem depende de um processo de formação de sinapses, que
chamamos de sinaptogênese. Ao longo do primeiro ano de vida, o cérebro chega
a formar cerca de 40 mil sinapses por segundo. Grande parte dessas conexões

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ocorrem nas áreas que processam e se relacionam ao comportamento visual e
motor.
O desenvolvimento do cérebro infantil também depende de um terceiro
processo, que conhecemos por mielinização. A camada de mielina que cobre os
axônios, aquela fibra mais comprida do neurônio, permite o aumento da
velocidade de propagação do sinal elétrico, que acontece do corpo da célula até
a sua extremidade, onde ocorrem as sinapses. Assim, a mielinização determina
quando o cérebro está maduro para processar determinados estímulos. A partir
do momento em que a camada de mielina permite a comunicação veloz entre as
células, em determinadas áreas do cérebro, a criança está pronta para
desenvolver as habilidades relacionadas a tais regiões.
A mielinização forma o que conhecemos como substância branca, que é
responsável, juntamente com as conexões sinápticas, pelo grande aumento de
volume no cérebro da criança nos primeiros de vida. Todos esses processos de
organização e reorganização do cérebro ocorrem de acordo com as experiências
que o ambiente propicia.
Quando isoladas do ambiente, como acontece com crianças que foram
privadas de contato social, o cérebro não se desenvolve normalmente. Nessa
fase, o cérebro é extremamente plástico, ou seja, ele se transforma facilmente de
acordo com os estímulos que recebe.
O cérebro continua plástico e adaptável a novas necessidades e
mudanças, sendo capaz de desenvolver habilidades sofisticadas ao longo de toda
a vida. No entanto, existem alguns períodos críticos em que devem ser aprendidas
certas competências.
Vários estudos de caso mostram que, se uma criança não for exposta à
linguagem ainda na infância, ela dificilmente aprenderá mais que palavras
isoladas. Isso demostra que, embora sejamos dotados de esquemas mentais que
favorecem o uso da linguagem, ela se desenvolve somente por meio de interações
– como veremos mais tarde – e durante o período crítico.
Vamos fixar os conceitos:

• Arborização dendrítica: processo biológico que permite a formação de


sinapses com base na ramificação dos dendritos.
• Sinaptogênese: processo que envolve a formação, a manutenção e o
refinamento de sinapses entre os neurônios.

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• Mielinização: processo de formação da camada de mielina (formada de
lipídios e proteína), que envolve os axônios, garantindo a velocidade do
impulso nervoso.

TEMA 3 – PIAGET SOB A PERSPECTIVA NEUROCIENTÍFICA

Os processos que acabamos de descrever formam uma base neurológica


para a teoria do Piaget, autor que define diferentes estágios de desenvolvimento
infantil. Por isso, nesta aula, iremos traçar uma relação entre os ensinamentos do
psicólogo suíço e as evidências neurocientíficas sobre o desenvolvimento da
cognição humana.
Assim, entre os principais assuntos e conceitos que iremos abordar estão:
estágios de desenvolvimento segundo Piaget, processo de mielinização de
acordo com os estágios de desenvolvimento e poda sináptica.
Mesmo antes de entendermos como o ganho cognitivo pode ser descrito
em termos neurológicos, ele afirmava que a aprendizagem depende de uma
maturidade que se desenvolve ao longo de diferentes fases da infância, por meio
da combinação de sistemas biológicos predeterminados e da exploração do
ambiente. Essa exploração permite à criança que assimile novos conceitos e
então ajuste seu esquema mental para encaixar esse novo conhecimento, em um
processo que Piaget chama de assimilação, acompanhado de acomodação.
A mielinização, a ramificação dendrítica e sinaptogênese permitem a
conectividade e a integração dos sistemas visual e motor da criança no primeiro
estágio do desenvolvimento, que Piaget definiu como sensório-motor. Nesta
fase, que se estende por cerca de dois anos, à medida que interage com o
ambiente e tem seu cérebro rapidamente transformado, a criança aprende, entre
outras habilidades que formam a base da cognição, a coordenar seus próprios
movimentos.
No final desse período, a maturação de áreas do cérebro responsáveis por
tarefas mais sofisticadas, como neocórtex, tálamo e cerebelo, permite que a
criança comece a planejar suas ações e a fazer uso de simbologias em
brincadeiras e simulações. Quando entra no segundo estágio de Piaget, chamado
de pré-operatório, o cérebro da criança está passando por uma espécie de
refinamento das conexões, com o fortalecimento de algumas e a perda de outras.
É o que chamamos de poda sináptica, um processo semelhante à edição de um
texto confuso: o que é importante é refinado, o que é somente barulho é eliminado.

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Muito do desenvolvimento cognitivo nessa fase está relacionado a essa poda
sináptica.

Figura 1 – Formação sináptica

Fonte: Eagleman, 2017.

O processo de mielinização permite o amadurecimento emocional e sua


relação com o aspecto cognitivo. Existem estudos que mostram que a
mielinização de determinadas áreas do cérebro ocorre de forma mais intensa nas
mulheres até os 29 anos, o que explicaria por que muitos meninos parecem levar
mais tempo a amadurecer em alguns aspectos.
Outro ponto interessante que hoje sabemos é que a mielinização não
termina por completo depois dos 30 anos. Estudos da Harvard Medical School
mostraram que esse processo ainda pode ser percebido depois da sexta década
de vida em pelo menos uma região do cérebro.

3.1 Etapas do amadurecimento

Hoje a neurociência comprova que, conforme defendia Piaget, o


amadurecimento neurológico ocorre em etapas, de forma progressiva, bem como
a aprendizagem, e passa pelas seguintes fases:

• Sensório-motora: o mundo começa a ser decodificado por meio dos


sentidos e das habilidades motoras; do nascimento até dois anos.
• Pré-operatória: inicia-se o uso de símbolos e da linguagem, entre dois e
sete anos.

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• Operatório-concreta: são assimilados e aplicados conceitos mais
complexos, de acordo com a lógica, entre sete e onze anos.
• Operatório-formal: é possível raciocínio abstrato, planejamento,
construção de hipóteses e teorias. A partir da adolescência.

Um corpo consistente de estudos hoje mostra que, apesar de compatível


com o amadurecimento progressivo de determinadas regiões do cérebro, a teoria
de Piaget pode ter subestimado, em parte, a capacidade de crianças. Por isso, é
importante partir da ideia de que as idades estabelecidas em cada fase são
aproximadas, e que, portanto, as capacidades podem ser dominadas em
momentos diferentes, conforme cada criança.

TEMA 4 – PERCEPÇÕES E APRENDIZAGEM

Conforme vimos nas aulas anteriores, a aprendizagem envolve uma série


de fatores interdependentes – já abordamos os biológicos, como os processos
neurológicos de amadurecimento de determinadas áreas cerebrais e da interação
com o ambiente. Também existe certa dependência com interações sociais,
recursos cognitivos como atenção e memória, fatores emocionais e também a
percepção sensorial – nosso próximo assunto.
Nesta aula, você entenderá como são formadas as sensações e as
percepções. Toda a aprendizagem ocorre por meio do sistema sensório-motor,
conforme já havia concluído Piaget. No início da vida, aprendemos a enxergar e
ganhamos controle sobre os movimentos e as percepções de espaço,
profundidade e outras percepções básicas que nos permitem interagir com o
mundo. Todas essas funções dependem da exploração do ambiente por meio do
uso intenso do tato e de outros sentidos. Os órgãos dos sentidos funcionam como
tradutores das inúmeras fontes de informação que nos cercam.
O cérebro, dentro de uma caixa escura e sem contrato direto com o mundo,
precisa criar sentido para esses impulsos eletroquímicos que chegam até ele por
meio dos órgãos. Para isso, identifica padrões, compara estímulos e faz predições
o tempo todo.
Antes de continuar você sabe qual a diferença entre sensação e
percepção?

• Sensação: a experiência básica de detecção de um estímulo (como luz,


som, moléculas de odor, temperatura) e a transmissão da informação para

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o cérebro. Não envolve a interpretação da experiência.
• Percepção: é o processamento da informação sensorial, ou seja, sua
interpretação e organização de modo que faça sentido. É, portanto, a
experiência consciente do mundo físico e seus estímulos.

A sensação precede a percepção. Percepções são desenvolvidas por meio


da interação com o ambiente. Por exemplo, no momento em que você olha o
semáforo aceso, o estímulo é enviado dos olhos ao cérebro por sinais elétricos e
químicos. Você enxerga a luz verde – essa é a sensação. Então você processa a
informação, que significa: siga.
A percepção, portanto, é construída por meio de um processo cognitivo,
que envolve estruturas corticais. Você precisou aprender o que um símbolo
significa, associando esse símbolo a outras informações para que, então, pudesse
processar o estímulo automaticamente – como continuar a dirigir quando vê a luz
verde sem a necessidade de pensar sobre o seu significado ou ler uma palavra
automaticamente sem precisar decodificar cada letra. O processo cognitivo, que
envolve o córtex, é considerado top-down.
A percepção dos estímulos que processamos é influenciada pela
expectativa, criada com base em experiências anteriores. Ou seja, muito daquilo
que vemos ou sentimos é resultado é resultado daquilo que esperamos ver ou
sentir.
As ilusões de óptica representam muito bem isso. Veja, na figura abaixo,
uma ilusão de ótica criada pelo psicólogo Akiyoshi Kitaoka. A sensação de que a
figura está em movimento é construída pelo cérebro. O paladar é outro bom
exemplo: ele é profundamente influenciado pela expectativa que temos e por isso
pode ser facilmente enganado. Se alguém lhe oferecer um creme de abacate
avermelhado, sem lhe dizer o que é, dificilmente você conseguirá saber o que está
comendo.

Figura 2 – Ilusão de ótica

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Fonte: Lotan/shutterstok

Bebês já nascem com olfato, audição, paladar e tato capazes de processar


uma grande variedade de estímulos. À medida que o cérebro se desenvolve, vão
ganhando capacidades mais sofisticadas. O desenvolvimento do córtex auditivo
nos primeiros meses de vida, por exemplo, lhes permite aprender a identificar os
sons e localizá-los no espaço.

4.1 Visão e aprendizagem

A visão, por ser muito mais complexa e envolver cerca de um terço do


cérebro, se desenvolve mais lentamente. Nos primeiros meses, os bebês não
conseguem distinguir formas, padrões e cores com clareza, o que conhecemos
por acuidade visual. Ao pegarem nos objetos ao seu redor, não estão apenas
matando uma curiosidade do tato, mas desenvolvendo uma capacidade muito
mais complexa, que requer noção de profundidade e espaço – a visão.
Outras habilidades relacionadas ao processamento visual, como a
discriminação visual, a atenção visual, a memória visual e a habilidade de fixação,
vão sendo trabalhadas por meio de uma série de estímulos e são fundamentais
para o desenvolvimento de competências cognitivas complexas, como a leitura.
Dificuldades no processamento visual podem ocorrer em crianças que
enxergam aparentemente bem, e que, portanto, não precisam usar óculos. Assim
como acontece com o processamento auditivo, podem estar relacionadas a
problemas de aprendizagem, como desatenção e dificuldades na leitura.

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Como qualquer aprendizagem, aprender a enxergar não depende apenas
do amadurecimento do córtex visual. É preciso interagir com o mundo. Assim
como ocorre com algumas outras competências, como a linguagem, existe um
período crítico para a aprendizagem. Se não receber estímulos nesse período, é
muito mais difícil adquirir essa capacidade.
Casos de pessoas que, depois de décadas sem enxergar, passaram por
procedimentos que lhe devolveram a visão, exemplificam muito bem a
complexidade do sistema visual. Seus olhos podem estar curados, mas seu
cérebro não aprendeu a dar sentido aos estímulos visuais. Essas pessoas
geralmente levam muitos anos para conseguir diferenciar e identificar imagens e
reconhecer formas.

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TEMA 5 – A SINCRONIZAÇÃO DOS SENTIDOS

Nossos sentidos processam de forma simultânea uma grande quantidade


de informação. Você já parou para pensar que, para que as informações vindas
do lado de fora do cérebro tenham algum significado, elas precisam chegar à
consciência de forma sincronizada? Vamos ver, nesta aula, como o nosso
cérebro faz essa integração.
Com base nos sentidos, o cérebro cria a realidade. E toda aprendizagem é
construída tendo como base mapas neurais construídos por meio das
experiências que envolvem o sistema sensorial. Todo e qualquer conhecimento
novo é associado às nossas experiências sensório-motoras. Por isso, separar o
físico do intelectual é uma ilusão. O corpo, por meio dos sentidos e do movimento,
está diretamente envolvido na compreensão de conceitos que aos poucos são
incorporados ao processo de aprendizagem.
A cada segundo em que estamos acordados, recebemos uma enorme
quantidade de estímulos, muitas vezes envolvendo vários sentidos. Uma criança
brincando na areia sente a textura e o calor, ouve o colega, enxerga uma
infinidade de elementos e ainda pode “provar” o gosto daqueles que estão ao seu
alcance. Todas essas informações são processadas em velocidades diferentes.
Mas o cérebro faz o possível para sincronizar esses estímulos, de forma
semelhante ao que acontece com o som e a imagem de um filme. Você já assistiu
a um filme em que o som está levemente em desacordo com a imagem? Se há
um mínimo atraso na fala dos personagens, você percebe e sente-se incomodado,
não é? Fica mais difícil de prestar atenção e de se envolver na história.
Como você já aprendeu, o cérebro tem áreas especializadas no
processamento de estímulos enviados por alguns dos sentidos. Quando
engajamos em alguma atividade que envolve vários sentidos, cada uma dessas
regiões está trabalhando simultaneamente a outras. E cada uma leva um tempo
para ser processada. Se assistíssemos a um filme em câmera lenta de uma
criança na praia espetando o dedo em uma concha quebrada, por exemplo,
perceberíamos com nitidez que, entre o contato do dedo com a concha e o
momento em que ela começa a chorar, há um bom espaço de tempo. O estímulo
chega no órgão, é processado pelo cérebro, que envia sinais ao sistema motor,
que somente então reage. Tudo o que entendemos como agora, na verdade
aconteceu há milissegundos. O nosso agora é sempre passado, assim como as

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estrelas, cuja luz só chega à nossa retina muitas vezes quando elas nem existem
mais.
Se você considerar que o processamento auditivo, por ser mais simples, é
mais veloz que o visual, faria sentido que esse atraso, mesmo que muito pequeno,
fosse perceptível quando estamos vendo e ouvindo alguém falar. Mas por que os
movimentos labiais parecem estar sempre em perfeita sincronia com o som da
fala? O cérebro faz esse trabalho de edição, sincronizando os estímulos ao
construir uma história que faça sentido. É uma história que chega à nossa
consciência sempre com um pequeno atraso.
Portanto, a realidade, tal qual chega à nossa percepção, é como a
transmissão de um programa de tevê ao vivo: apesar de parecer instantânea,
apresenta um leve anacronismo. É que, para integrar as informações captadas
pelos sentidos e dar significado a elas, o cérebro precisa de tempo. Qualquer
desorganização que provoque um atraso no processamento da informação,
mesmo que se trate de milissegundos de diferença, pode provocar um desajuste
na percepção do mundo – o que, segundo alguns cientistas, pode estar por trás
de alguns transtornos, como problemas de aprendizagem, distúrbios de
linguagem e déficits de atenção.
Há estudos (Krauss, 2014; Stadler; Krauss, 2015) que sugerem que a
percepção de ritmo de uma criança pequena, que está relacionada com o
processamento temporal, ou com seu senso de timing, é um indicativo bastante
confiável de suas habilidades de linguagem. O fato de que a dificuldade em
acompanhar um ritmo está entre os sintomas comuns da dislexia sugere essa
relação. Da forma inversa, o trabalho com ritmo, por meio de atividades de
iniciação musical, pode facilitar a construção de habilidades necessárias para a
alfabetização.

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REFERÊNCIAS

EAGLEMAN, D. O cérebro: a descoberta de quem somos. Alfragide, Portugal:


Lua de Papel, 2017.

GAZZANIGA, M. Human: The Science Behind What Makes us Unique. New York:
Harper Collins, 2008.

GAZZANIGA, M.; HEATHERTON, T.; HALPERN, D. Psychological Science.


New York: W.W. Norton, 2016.

KRAUSS, N. Music Enrichment Programs Improve the Neural Encoding of Speech


in At-Risk Children. Journal of Neuroscience, v. 34, n. 36, p. 11913-11918, Sept.
2014.

LEFMAN, T.; COMBS-ORME, T. Early Brain Development for Social Work


Practice: Integrating Neuroscience with Piaget’s Theory of Cognitive Development.
Journal of Human Behavior in the Social Environment, v. 24, n. 640, 2013.

SEMENDEFERI, K.; DAMASIO, H. Humans and great apes share a large frontal
cortex. Nat Neurosci, v. 5, n. 3, p. 272-276, 2002.

STADLER, J.; KRAUSS, N. The role of rhythm in perceiving speech in noise: a


comparison of percussionists, vocalists and non-musicians. Cogn Process, Sept.
2015.

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