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A noção de conflitos sociais – teoria sociológica

 A noção de conflitos evoca as antinomias clássicas entre integração e ruptura, consenso e dissenso,
estabilidade e mudança, de tal forma que a oposição entre conflito e ordem se inscreve no próprio
fundamento do sistema social. Simplificando um pouco, a ideia segundo a qual, através do conceito de
conflito, a questão que se coloca é tanto a da natureza do sistema social como a da própria sociologia.  
Na verdade, a abordagem do estudo do conflito significa, de urna maneira ou de outra, procurar explicar ao
mesmo tempo a lógica do sistema social e a lógica de sua história.
Segundo alguns autores existiria, portanto, uma analogia ou mesmo uma identidade entre sistema biológico
e sistema social, lutando os homens entre si à imagem dos animais, e construindo de um só golpe uma
ordem através de um conflito impiedoso. Esta visão da sociedade tem sua origem tanto em Darwin como em
um dos principais fundadores da teoria sociológica, a saber, Spencer, que dizia que o conflito enquanto
princípio permanente, anima qualquer sociedade e estabelece entre esta e seu ambiente um equilíbrio
precário. As incertezas da sobrevivência e o medo que suscitam dão origem, porém, a um controle religioso
que se transforma em poder político organizado sob uma forma militar. A integração social favorece então a
diferenciação das funções e dos papéis, permitindo no termo desta evolução a criação de uma sociedade
industrial enfim pacificada.
Summer apresenta-se como o teórico do laissez faire absoluto, em que apenas o conflito entre os indivíduos
permite, a seu ver, o enriquecimento geral. E quando coloca a questão: "O que as classes sociais devem
umas às outras?", sua resposta é clara: simplesmente a liberdade de entrar em boas condições na competição.
Nessas condições, as análises de Summer, como aliás as de Spencer, não podiam deixar de entusiasmar os
capitães da indústria, os novos heróis capitalistas que triunfam nessa seiva que é o mercado. Para eles, como
para inúmeros teóricos conservadores, o conflito entre homens é uma fonte de liberdade e de progresso, não
devendo o Estado adotar nenhuma legislação social suscetível de refreá-lo, já que então a liberdade é que
seria questionada (Barnes, 1966).
Outros autores europeus buscaram inspiração nesse darwinismo social para elaborarem, segundo a
expressão de Don Martindale, "ideologias do conflito". Segundo eles, a rivalidade não se manifesta mais no
contexto do mercado, ela põe em confronto as raças superiores e inferiores numa luta de morte pela
conquista do mundo. Autores baseados nesses princípios vão justificar, antecipadamente, os genocídios
hitlerianos, ao legitimarem um pretenso conflito de raças justificado por desigualdades biológicas. O
darwinismo social conduz, aqui, a um outro tipo de eliminação, gerador também do confronto máximo por
excelência, que será a II Guerra Mundial. Se tais fantasias pesaram sobre a história contemporânea, não
podem, contudo, ser entendidas como teorias sociológicas, de tal modo estão desprovidas de bases
científicas. 
Durante os anos 50 surgem novas teorias. Enquanto na França ou na Itália o marxismo surge como a teoria
dominante que explica o conflito em termos de classes sociais e de relações de exploração, nos Estados
Unidos e em grande número de países anglo-saxônicos, num momento em que a sociedade conhece as
vantagens da abundância e do consumo,  Daniel Bell ou Edward Shils lançam a ideia do fim das
ideologias, do desaparecimento das rupturas geradoras de visões de mundo fechadas, sistemáticas e
contraditórias. Para eles, a modernização econômica reduz enormemente a força das clivagens e diminui ao
mesmo tempo a intensidade dos conflitos, reforçando pelo contrário a força do consenso. No termo de sua
evolução, a sociedade industrial conheceria finalmente o apaziguamento, tanto o progresso como a
racionalização do mundo produziriam, inevitavelmente, o declínio da militância política e o refluxo dos
conflitos sociais.
De Durkheim a Talcott Parsons, os fundadores da sociologia contemporânea estão de acordo em considerar
a obra de Hobbes como a primeira a colocar, numa abordagem já, por assim dizer, sociológica, o problema
dos fundamentos da ordem.
Em Hobbes, a luta de todos contra todos é própria da sociedade natural em que a força se manifesta sem
reservas a fim de satisfazer os desejos de cada um, embora os homens sejam capazes por si só de refrear
suas paixões para construírem juntos uma ordem social em que se abandonam ao poder absoluto do Leviatã,
instaurando também entre eles uma paz civil, só ela é suscetível de aumentar sua prosperidade coletiva.
Nesse sentido, a ordem social implicaria o domínio absoluto e o controle social estrito, tornando possível
desde logo, na sociedade moderna, o desaparecimento dos conflitos. A ordem seria, portanto, incompatível
com a expressão dos desacordos, seria a sua antítese absoluta.
Aceitando essas premissas, Auguste Comte introduzirá no entanto a ideia de progresso que, em sua opinião,
permite uma evolução mais pacífica e favorece o advento de uma sociedade em que a ordem não pressupõe
a coação externa, na medida em que o positivismo e o crescimento instauram o fim da era da racionalidade,
afastando a dos conflitos sociais e recriando as condições para uma comunidade pacificada.
Marx e Tõnnies, ao contrário, invertem a dicotomização social proposta por Hobbes e consideram ambos
que, na sociedade natural, nos encontramos em presença de uma comunidade harmoniosa onde reina a
concórdia, a solidariedade orgânica que impede os conflitos uma vez que os homens não têm naturalmente
entre si interesses contraditórios que os conduziriam inevitavelmente a confrontos. Para eles, pelo contrário,
é a sociedade que surge como lugar privilegiado dos conflitos entre os protagonistas sociais isolados entre si,
opostos pela busca desenfreada do lucro absoluto e a extensão ilimitada da propriedade pessoal. Logo, a
guerra de todos contra todos desencadeia-se na sociedade baseada na propriedade privada e não na
comunidade natural. O esvaecimento dos conflitos nessas perspectivas contraditórias surge como o fim
inelutável da história humana. A partir de pontos de vista opostos, tanto para uns como para outros, à
sociedade perpassada por confrontos sucede finalmente a sociedade pacificada.
A concepção durkheimiana da integração social desempenha papel central na realidade. Para Durkheim,
toda sociedade “normal” conduz à implementação de mecanismos de integração que limitam
consideravelmente a amplitude dos conflitos. Durkheim (1893) descreve a transição de uma forma de
integração baseada na solidariedade mecânica, em sociedades que conhecem a ausência de divisão de
trabalho, para uma nova forma de integração associada agora a realização de uma forte divisão do trabalho.
A primeira forma de integração depende da força da consciência coletiva externa, graças à qual se exerce um
controle social adequado, a segunda, pelo contrário, encontra-se mais ligada à interdependência dos próprios
atores. Num dos casos, a integração assume sobretudo uma dimensão vertical da ordem da coação, no outro
assenta-se numa dimensão horizontal inerente à própria sociedade. Essa concepção evolucionista de
transformação social acentua sobretudo, em cada uma das etapas, a integração social e ao mesmo tempo,
confere um lugar extremamente restrito aos diversos conflitos que surgem quase como que disfuncionais.
O conflito, no modelo de Marx, deriva mais da "patologia" do que do "normal". Para ele, com efeito, no
início da história da humanidade, como assinala nos Manuscritos de 1844, a harmonia reina nas sociedades
primitivas, harmonia que se irá repetir no fim da história humana, quando a sociedade comunista se
expandir, em que juntamente com o poder de opressão das classes desaparecerá também qualquer forma de
poder político, passando as demais formas de confronto para um segundo plano e deixando de ameaçar de
modo absoluto a nova integração social. Nesse sentido, o surgimento e a eclosão dos conflitos permanecem
circunscritos a um período intermediário da história, a que assiste ao triunfo do capitalismo e da propriedade
privada. Assim, ele é tão "patológico" em Marx como em Durkheim, constituindo o "normal", tanto para um
como para o outro, ao contrário, o processo de integração do sistema social. Num dos casos, uma sociedade
que tenha abolido a propriedade privada consegue eliminar as dissensões; no outro, a erradicação do
confronto está associada à implementação funcional da divisão do trabalho social. Para ambos, a existência
do conflito baseia-se num determinismo estrutural que pouco se preocupa com a intencionalidade dos atores:
nas sociedades onde reina uma certa forma de "patologia", o confronto é como que inferido de uma
distribuição disfuncional dos papéis sociais, provocada num dos casos pela propriedade privada dos meios
de produção, e no outro por sua transmissão hereditária ou ainda por um excesso de especialização. Segundo
Marx, "na produção social ao longo de sua existência, os homens estabelecem determinadas relações,
necessárias, independentes de sua vontade, relações de produção que correspondem a um determinado grau
de desenvolvimento de suas forças produtivas materiais... Num certo estágio de seu desenvolvimento, as
forças produtivas materiais entram em contradição com as relações de produção existentes... e então inicia-
se uma época de revolução social" (Marx, 1859). A natureza e o desenvolvimento dos conflitos que eclodem
no período intermediário da história em que o capitalismo se expande dependem igualmente, em sua
opinião, dos valores e das ideologias dos atores, de sua consciência "verdadeira" ou "falsa", de sua alienação
ou, ainda, de sua aptidão em se elevarem acima dos seus interesses e se empenharem, como alguns nobres
durante a Revolução Francesa, ao lado de atores que perseguem objetivos contraditórios. Esse marxismo da
escolha racional lança uma luz inteiramente nova sobre a análise dos conflitos, já que, ao levar em conta °
contexto social, apreende-o a partir de agora, quer em sua eclosão quer em seu processo e resultados, como
uma série de decisões individuais consideradas racionais e elaboradas a partir de múltiplas variáveis.

Weber sustenta que, além da função, apenas conta realmente a ação fundada em valores que não podem ser
deduzidos simplesmente da função ocupada numa instituição qualquer. Assim a luta é "uma relação social
na medida em que a atividade é orientada pela intenção de fazer triunfar sua própria vontade contra a
resistência do ou dos parceiros". Esta luta pelo poder implica uma "concorrência quando é conduzida no
sentido de uma procura formalmente pacífica de um poder próprio para dispor de oportunidades que outros
também solicitam". Essa luta entre indivíduos que procuram, todos eles, impor sua própria vontade através
de elementos tão contrastantes não cessará jamais, porque "é impossível, de acordo com a experiência vivida
até os dias de hoje, eliminar a luta na realidade" (Weber, 1922).

Segundo as concepções sociológicas expostas anteriormente, a origem do conflito era uma só, uma vez que
tinha sua fonte nas relações de produção ou ainda no estado da divisão do trabalho; reduzida assim apenas
ao elemento econômico, pouca importância era atribuída à vontade, que é própria dos atores, de impor seu
poder específico enquanto simples indivíduos em rivalidade entre si na conquista de recursos tão distintos
como o poder, a riqueza e o prestígio, detidos de maneira não cumulativa. Por outro lado, o conflito é visto
agora como "normal" em todas as sociedades e não se concebe que possa acabar algum dia.

Simmel afirmava que "o conflito, uma das formas mais vivas de interações que não pode ser realizada por
um único indivíduo, constitui um processo de associação. Os fatores de dissociação — o ódio, a inveja, a
necessidade, o desejo — são as causas do conflito; o conflito eclode por causa deles. O conflito tem como
missão, por conseguinte, resolver esses dualismos divergentes; constitui uma maneira de reconstruir uma
certa unidade, ainda que através da destruição completa de uma das partes em conflito”. O confronto entre
os atores e não entre as estruturas funciona aqui como processo "positivo" da vida social: assegura sozinho a
unidade. Nem sempre conduz a uma sociedade reconciliada ou praticamente utópica; também não constitui
sinal de falta de integração do sistema social. Em suma, o conflito é plenamente normal e esta é uma
maneira de ser vital para o funcionamento da sociedade. O dualismo das relações humanas estende-se à
globalidade das relações sociais; não resulta de unia disfunção econômica ou outra, mas forma, em todos os
níveis, a própria trama da vida social.

Talcott Parsons conserva um evolucionismo spenceriano que apreende a história das sociedades a partir de
sua diferenciação progressiva (Chazel, 1974). Parsons considera a sociedade como uma reunião de um
conjunto de funções que surgem como tantos outros subsistemas integrados entre si a partir de um sistema
de valores legítimos a que, mediante uma socialização funcional, aderem todos os atores sociais
(Bourricaud, 1977). Nessa teoria geral que privilegia uma Permuta integradora entre os subsistemas, não é
reservado qualquer lugar ao poder em sua dimensão de pressão unilateral; por isso, Parsons não consegue
imaginar, no Plano analítico, a existência de conflitos estruturais geradores de descontinuidades definitivas
ou, ainda, de lutas e de ações coletivas que escapam à influência do controle social; apenas são possíveis as
tensões e o mal-estar geráveis pelos subsistemas e que não produzem verdadeiras rupturas internas no
sistema social. Para ele, na medida em que a igualdade de oportunidades socioprofissionais é "praticamente
impossível", há o risco de se criarem "culturas" conflituais, produzidas pela tendência constante dos
"poderosos" de "explorar os mais fracos e menos bem posicionados".

Segundo Lewis Coser, "o conflito, tal como a cooperação, tem funções sociais. Longe de surgir como
disfuncional, um certo grau de conflito constitui um elemento essencial da formação de grupos e de sua
persistência". O conflito vê-se então incumbido de uma função crucial, qual seja a de "estabelecer e manter a
identidade e as fronteiras entre as sociedades e os grupos" (Coser, 1956).

Para Dahrendorf as sociedades industriais que têm por base precisamente uma distribuição cada vez mais
desigual dos papéis de autoridade seriam, portanto, perpassadas por conflitos tão numerosos quanto
inevitáveis, na medida em que os indivíduos que ocupam uma posição de sujeição semelhante teriam cada
vez mais consciência de seu vínculo comum a um conjunto idêntico suscetível de provocar de uma só vez
conflitos no seio de todas as organizações.

Em suma os conflitos variam em função do grau de consciência dos atores que neles participam.