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Síntese da Ciência, Conhecimento e Métodos

Parte Ciência, Conhecimento e 1. A Ciência e a Universidade;


Introdutória e Métodos 2. O Conhecimento e a Gestão do
conceitual Conhecimento;
3. Os Métodos de Pesquisa e
Levantamento de Dados.
 O homem sentiu a necessidade de saber o porquê dos acontecimentos e que, dessa
forma, surgiu a ciência (LAKATOS; MARCONI, 2003).
 A ciência não é o único caminho de acesso ao conhecimento e à verdade (Lakatos
& Marconi, 1992).
 A Ciência é o resultado pela busca da satisfação de determinadas necessidades
humanas.
 Cervo e Bervian (2002, p. 16) afirmam que: “A ciência é um modo de compreender
e analisar o mundo empírico, envolvendo o conjunto de procedimentos e a busca do
conhecimento científico através do uso da consciência crítica que levará o
pesquisador a distinguir o essencial do superficial e o principal do secundário”.

1. A Ciência, a Universidade e a Sociedade


Já foram abordados vários conceitos de Ciência no capítulo, mas vale ressaltar ainda que,
quando se faz referência à ciência, Oliveira (2002, p. 47) afirma que:
Trata-se do estudo, com critérios metodológicos, das relações existentes entre
causa e efeito de um fenômeno qualquer no qual o estudioso se propõe a
demonstrar a verdade dos fatos e suas aplicações práticas. É uma forma de
conhecimento sistemático, dos fenómenos da natureza, dos fenômenos sociais,
dos fenômenos biológicos, matemáticos, físicos e químicos, para se chegar a um
conjunto de conclusões verdadeiras, lógicas, exatas, demonstráveis por meio da
pesquisa e dos testes.
O termo ciência, segundo o Dicionário Aurélio, traduz-se em:
1. Verbete: ciência [do latim scientia.] S. f. 1. Conhecimento (3).
2. Saber que se adquire pela leitura e meditação; instrução, erudição, sabedoria.

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3. Conjunto organizado de conhecimentos relativos a um determinado objecto,
especialmente os obtidos mediante a observação, a experiência dos fatos e um
método próprio.
4. Soma de conhecimentos práticos que servem a um determinado fim.
5. A soma dos conhecimentos humanos considerados em conjunto.
6. Filos. Processo pelo qual o homem se relaciona com a natureza visando à
dominação dela em seu próprio benefício. [Atualmente este processo se configura
na determinação segundo um método e na expressão em linguagem matemática de
leis em que se podem ordenar os fenômenos naturais, do que resulta a possibilidade
de, com rigor, classificá-los e controlá-los.].
Para Ander-Egg (1978), a Ciência é o conjunto de conhecimentos racionais, certos ou
prováveis, obtidos metodicamente, sistematizados e verificáveis, que fazem referência a
objectos de uma mesma natureza.
O que domina a ciência é a racionalidade. Racionalidade é a essência do que é racional, é o
produto da razão. A raiz da palavra “racionalidade” (do latim ratio) significa “cálculo”.
Razão não é o mesmo que intuição, sensação, reação espontânea, emoção ou crença. A
razão começa com o senso comum e se desenvolve por meio da habilidade de contar,
medir, ordenar, organizar, classificar, explicar e argumentar.
O discurso racional, então, é aquele que é coerente, ponderado e construído numa espécie
de “cálculo” lógico, o que é bem diferente de uma opinião pessoal. Este tipo de discurso
deve ser universalmente verdadeiro.
A irracionalidade, porém, se recusa a estar submetida à razão. Um indivíduo irracional não
segue a lógica e age segundo propósitos desordenados. Suas decisões são frequentemente
incoerentes. O mundo irracional pode ser relacionado também ao mundo do desconhecido,
da superstição, do misticismo e do inacessível, incluindo o que acontece contra a razão.
“O cientista contemporâneo sabe bem que nada há de definitivo e indiscutível que tenha
sido assentado por homens” (Morais, 1988, p.24). A ciência não se reduz a experimentos,
pelo contrário, é extremamente abrangente e complexa. O experimento científico como
critério de cientificidade é ponto fundamental para o desenvolvimento das ciências exatas e
biológicas ou da natureza, mais bem representadas pela física e pela biologia
(especialmente através de seus desdobramentos disciplinares nas últimas décadas do século
XX).

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Universidade
A Universidade é criação original da Idade Média; o mundo antigo não conheceu
instituição análoga. O termo provém do latim universìtas, universitátis que significa
"universalidade, totalidade; corporação".
As universidades mais antigas foram instituídas no decurso da baixa Idade Média,
designadamente: no século XIII, as de Paris, Bolonha, Orleans, Toulouse, Montpellier,
Pádua, Nápoles, Oxford, Cambridge, Salamanca, Lisboa (Coimbra); no século XIV,
Avinhão, Grenoble, Pisa, Florença, Praga, Viena, Heidelberg, Erfurt, Colónia, Genebra,
Cracóvia; no século XV, Poitiers, Caen, Bordéus, Basileia, Leipzig, Lovaina, Upsala,
Saragoça. A fundação, ou mais propriamente, a instituição, apresenta-se com modalidades
diversas, em conexão, mais ou menos, com as situações nacionais e as circunstâncias
locais. O foco era atender (estudar) os fenómenos locais, da sociedade.
As IES em Angola são classificadas segundo o seu propósito de criação descrito no seu
estatuto ou regimento orgânico. Ainda assim, a que atender umas das categorias legalmente
previstas no artigo 31 do Decreto 90/09 são:
1. Universidades – ministram cursos em todas as áreas do saber, sendo no mínimo em
quatro áreas, conducentes à formação de especialistas e à obtenção dos graus
académicos de bacharelato, licenciatura, mestrado e doutoramento (art. 32). Não
tem restrição quanto às áreas do saber e emitem diplomas para todos os graus
(títulos) previstos no subsistema de ensino superior em Angola. Como exemplo
temos a UnIA, a UCAN, etc.
2. Academias – pautam a sua atuação pela articulação do estudo, da docência da
investigação aplicada e avançada, numa única área do saber, conducente à
formação de especialistas e à obtenção dos graus académicos de mestres e doutores
(art. 33). Tem restrição na área do saber (única) e, apenas emite diplomas para os
títulos de mestre e doutor. Devido à sua especificação, há poucas no mercado
nacional.
3. Institutos superiores – estes ainda são classificados por a) institutos superiores
técnicos – ministram cursos numa única área do saber, conducentes á formação de
especialistas e à obtenção dos graus académicos de bacharelato, licenciatura,
mestrado e doutoramento. Apenas tem restrição quanto à área do saber (única); b)
institutos superiores politécnicos – ministram cursos em duas ou três áreas do saber
conducentes à formação de especialistas e à obtenção dos graus académicos de

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bacharelato, licenciatura, mestrado e doutoramento. Área do saber limitada em três
no máximo.
4. Escolas superiores – estas podem ainda podem ser classificadas em a) escolas
superiores técnicas; b) escolas superiores politécnicas. As escolas superiores
técnicas ministram cursos numa única área do saber, conducentes à formação de
especialistas e á obtenção dos graus académicos de bacharelato e licenciatura em
modelo bietápico1. As escolas superiores politécnicas ministram cursos em duas ou
três áreas do saber, conducentes à formação de especialistas e à obtenção dos graus
académicos de bacharelato e licenciatura em modelo bietápico.
Uma Universidade é um termo usado para significar instituição de ensino, pesquisa e
extensão que teve seu inicio na Europa medieval, como uma instituição pluridisciplinar de
formação dos quadros de profissionais de nível superior, de pesquisa e de extensão.
Sociedade
A sociedade corresponde aos diferentes agrupamentos humanos situados em determinado
espaço e das interações e da história dos homens mantidas entre esses agrupamentos.
A relação entre universidade e sociedade não se limita às aparências, não podemos
considerar a universidade como entidade independente que devesse encontrar mecanismos
ou instrumentos para se relacionar com a sociedade. Pelo contrário, a universidade é uma
instituição social e, como tal, expressa de determinada maneira a estrutura e o modo de
funcionamento da sociedade como um todo. Tanto é assim que, dentro da universidade
como instituição, encontramos opiniões, projetos e atitudes conflitantes, que refletem as
divisões e contradições da sociedade como um todo. Uma universidade enclausurada
expressa o modo como determinada sociedade concebe o saber; uma universidade
militante expressa o modo como uma parte de determinada sociedade pretende que o saber
esteja a serviço de determinadas políticas. Da mesma forma, uma universidade funcional e
operacional, que forma mão-de-obra especializada para o mercado de trabalho, espelha
uma sociedade que considera o mercado como a ratio última da vida social. Por outro lado,
uma universidade que considera o saber pelo prisma do direito do cidadão, faz o que pode
para refrear a despersonalização e valoriza a democratização, reflete uma sociedade em
que os valores democráticos da cidadania são imperativos éticos e político da vida
universitária. A relação interna ou expressiva entre a universidade e a sociedade é a que,

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Cursos organizados em dois ciclos letivos.
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ademais, explica o fato de que a universidade pública2 sempre foi, desde o início, uma
instituição social. Isto é, uma ação social, uma prática social baseada no reconhecimento
público da sua legitimidade e das suas atribuições, fundada em um princípio de
diferenciação que lhe assegura autonomia com respeito a outras instituições sociais.
É estruturada de acordo com a legislação, normas, regras e valores do reconhecimento e
legitimidade internos. A legitimidade da universidade moderna se fundamentava na ideia
da autonomia do saber face ao Estado e à religião e, portanto, a ideia de um conhecimento
guiado pela sua própria lógica, por necessidades inerentes, do ponto de vista tanto da sua
invenção quanto descoberta como da sua transmissão.
Pode-se dizer que, a partir da Revolução Francesa, a universidade pública é vista como
instituição secular (autônoma com respeito à religião) e republicana (autônoma com
respeito à vontade do governo).
O que se pretende é que o ensino, pesquisa e extensão beneficiem a sociedade, afinal, eles
geram conhecimentos que sempre “foram objeto de debate sobre a sua natureza, as suas
potencialidades, os seus limites e o seu contributo para o bem-estar da sociedade”
(SANTOS, 2004, p. 17). É a sociedade que ganha os privilégios de ter uma universidade
ou universitários a sua volta. Significa que, a UnIA deve instruir os candidatos sobre os
conhecimentos técnicos e científicos de cada área do saber; estimular os docentes a
envolverem os estudantes no desenvolvimento de pesquisas e, assim, ajudar a criar e a
fortalecer a visão crítica do futuro profissional; e, criar condições para que esse
conhecimento transmitido e as soluções sociais levantadas sejam aplicadas na comunidade
(universitária e local – o entorno). Se assim for, o futuro profissional já começa a lidar com
os problemas sociais e a buscar soluções a partir do processo de formação, aumentando
assim, a sua capacidade de raciocínio, reflexão e know-how para resolver problemas de
natureza diversa.

2. O Conhecimento e a Gestão do Conhecimento


Conhecimento é um termo proveniente do latim cognoscere, que significa “ato de
conhecer” é, portanto, o ato ou efeito de conhecer. Por exemplo: conhecimento das leis;
conhecimento de um fato; conhecimento de um documento; conhecimento de uma receita
médica; informação ou noção adquirida pelo estudo ou pela experiência; consciência de si
mesmo.
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A universidade privada também é uma instituição social, porém, tende a responder, primeiramente, aos
interesses de seu proprietário. O seu funcionamento e regulamentação é empresarial.
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O conhecimento é dividido em uma série de categorias: conhecimento sensorial, que é o
conhecimento comum entre seres humanos e animais; conhecimento intelectual que é o
raciocínio, o pensamento do ser humano; conhecimento popular que é a forma de
conhecimento de uma determinada cultura; conhecimento científico que são análises
baseadas em provas; conhecimento filosófico que está ligado à construção de ideias e
conceitos e o conhecimento teológico que é o conhecimento adquirido a partir da fé.
Tipos de Conhecimentos
Conhecimento Empírico
É o conhecimento popular (vulgar), guiado somente pelo que adquirimos na vida cotidiana
ou ao acaso, servindo-nos da experiência do outro, às vezes ensinando, às vezes
aprendendo, num processo intenso de interação humana e social. É assistemático, está
relacionado com as crenças e os valores, faz parte de antigas tradições.Senso comum é um
tipo de conhecimento que está ao alcance das pessoas comuns, justamente por não serem
especialistas como o filósofo, o cientista ou o teólogo.
O conhecimento popular é valorativo por excelência, pois se fundamenta numa seleção
operada com base em estados de ânimo e emoções: como o conhecimento implica uma
dualidade de realidades, isto é, de um lado o sujeito cognoscente e, de outro, o ohjeto
conhecido, e este é possuído, de certa forma, pelo cognoscente, os valores do sujeito
impregnam o objeto conhecido. É também reflexivo, mas, estando limitado pela
familiaridade com o objeto, nã pode ser reduzido a uma formulação geral. A característica
de assistemático baseia-se na "organização" particular das experiências próprias do sujeito
cognoscente, e não em uma sistematização das idéias, na procura de uma formulação geral
que explique os fenômenos observados, aspecto que dificulta a transmissão, de pessoa a
pessoa, desse modo de conhecer. É verificável, visto que está limitado ao âmbito da vida
diária e diz respeito àquilo que se pode perceber no dia-a-dia. Finalmente é falível e
inexato, pois se conforma com a aparência e com o que se ouviu dizer a respeito do objeto.
Em outras palavras, não permite a formulação de hipóteses sobre a existência de
fenômenos situados além das percepções objetivas.
Para Ander-Egg (1978:13-4), o conhecimento popular caracteriza-se por ser
predominantemente:
 Superficial, isto é, conforma-se com a aparência, com aquilo que se pode
comprovar simplesmente estando junto das coisas: expressam-se por frases como
"porque o vi", "porque o senti", "porque o disseram", "porque todo mundo o diz";

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 Sensitivo, ou seja, referente a vivências, estados de âhimo e emoções da vida diária;
 Subjetivo, pois é o próprio sujeito que organiza suas experiências e conhecimentos,
tanto os que adquirem por vivência própria quanto os "por ouvi dizer";
 Assistemático, pois esta "organização" das experiências não visa a uma
sistematização das idéias, nem na fonna de adquiri-las nem na tentativa de validá-
las;
 Acrítico, pois, verdadeiros ou não, a pretensão de que esses conhecimentos o sejam
não se manifesta sempre de uma forma crítica.
Conhecimento Científico3
É o conhecimento real e sistemático, próximo ao exato, procurando conhecer além do
fenómeno em si, as causas e leis. Por meio da classificação, comparação, aplicação dos
métodos, análise e síntese, o pesquisador extrai do contexto social, ou do universo,
princípios e leis que estruturam um conhecimento rigorosamente válido e universal.
É um conhecimento factualporque lida com ocorrências ou fatos, isto é, com toda "forma
de existência que se manifesta de algum modo" (frujillo, 1974). Constitui um
conhecimento contingente, pois suas proposições ou hipóteses têm sua veracidade ou
falsidade conhecida através da experiência e não apenas pela razão, como ocorre no
conhecimento filosófico. É sistemático, já que se trata de um saber ordenado logicamente,
formando um sistema de ideias (teoria) e não conhecimentos dispersos e desconexos.
Possui a característica da verificabilidade, a tal ponto que as afirmações (hipóteses) que
não podem ser comprovadas não pertencem ao âmbito da ciência. Constitui-se em
conhecimento falível, em virtude de não ser definitivo, absoluto ou final e, por este motivo,
é aproximadamente exato: novas proposições e o desenvolvimento de técnicas podem
reformular o acervo de teoria existente.
Conhecimento Filosófico
É um conhecimento valorativo, pois seu ponto de partida consiste em hipóteses, que não
poderão ser submetidas à observação: "as hipóteses filosóficas baseiam-se na experiência,
portanto, este conhecimento emerge da experiência e não da experimentação" (Trujillo,
1974); por este motivo, o conhecimento filosófico é não verificável, já que os enunciados
das hipóteses filosóficas, ao contrário do que ocorre no campo da ciência, não podem ser
confirmados nem refutados. É racional, em virtude de consistir num conjunto de
enunciados logicamente correlacionados. Tem a característica de sistemático, pois suas

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Já, amplamente, abordado no capítulo I.
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hipóteses e enunciados visam a uma representação coerente da realidade estudada, numa
tentativa de apreendê-la em sua totalidade. Por último, é infalível e exato, já que, quer na
busca da realidade capaz de abranger todas as outras, quer na definição do instrumento
capaz de apreender a realidade, seus postulados, assim como suas hipóteses, não são
submetidos ao decisivo teste da observação (experimentação). Portanto, o conhecimento
filosófico é caracterizado pelo esforço da razão pura para questionar os problemas
humanos e poder discernir entre o certo e o errado, unicamente recorrendo às luzes da
própria razão humana. Assim, se o conhecimento científico abrange fatos concretos,
positivos, e fenômenos perceptíveis pelos sentidos, através do emprego de instrumentos,
técnicas e recursos de observação, o objeto de análise da filosofia são ideias, relações
conceptuais, exigências lógicas que não são redutíveis a realidades materiais e, por essa
razão, não são passíveis de observação sensorial direta ou indireta (por instrumentos),
como a que é exigida pela ciência experimental. O método por excelência da ciência é o
experimental: ela caminha apoiada nos fatos reais e concretos, afirmando somente aquilo
que é autorizado pela experimentação. Ao contrário, a filosofia emprega "o método
racional, no qual prevalece o processo dedutivo, que antecede a experiência, e não exige
confirmação experimental, mas somente coerência lógica" (Ruiz, 1979). O procedimento
científico leva a circunscrever, delimitar, fragmentar e analisar o que se constitui o objeto
da pesquisa, atingindo segmentos da realidade, ao passo que a filosofia encontra-se sempre
à procura do que é mais geral, interessando-se pela formulação de uma concepção
unificada e unificante do universo. Para tanto, procura responder às grandes indagações do
espírito humano e, até, busca as leis mais universais que englobem e harmonizem as
conclusões da ciência.
Procura conhecer a realidade em seu contexto universal, sem soluções definitivas para a
maioria das questões; busca constantemente o sentido da justificação e a possibilidade da
interpretação a respeito do homem e de sua existência concreta. A tarefa principal da
filosofia resume-se na reflexão.
Conhecimento Teológico
O conhecimento religioso, isto é, teológico, apoia-se em doutrinas que contêm proposições
sagradas (valorativas), por terem sido reveladas pelo sobrenatural (inspiracional) e, por
esse motivo, tais verdades são consideradas infalíveis e indiscutíveis (exatas); é um
conhecimento sistemático do mundo (origem, significado, finalidade e destino) como obra
de um criador divino; suas evidências não são verificadas: está sempre implícita uma

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atitude de fé perante um conhecimento revelado. Assim, o conhecimento religioso ou
teológico parte do princípio de que as "verdades" tratadas são infalíveis e indiscutíveis, por
consistirem em "revelações" da divindade (sobrenatural). A adesão das pessoas passa a ser
um ato de fé, pois a visão sistemática do mundo é interpretada como decorrente do ato de
um criador divino, cujas evidências não são postas em dúvida nem sequer verificáveis. A
postura dos teólogos e cientistas diante da teoria da evolução das espécies, particularmente
do Homem, demonstra as abordagens diversas: de um lado, as posições dos teólogos
fundamentam-se nos ensinamentos de textos sagrados; de outro, os dentistas buscam, em
suas pesquisas, fatos concretos capazes de comprovar (ou refutar) suas hipóteses. Na
realidade, vai-se mais longe. Se o fundamento do conhecimento científico consiste na
evidência dos fatos observados e experimentalmente controlados, e o do conhecimento
filosófico e de seus enunciados, na evidência lógica, fazendo com que em ambos os modos
de conhecer deve a evidência resultar da pesquisa dos fatos ou da análise dos conteúdos
dos enunciados, no caso do conhecimento teológico o fiel não se detém nelas à procura de
evidência, pois a toma da causa primeira, ou seja, da revelação divina.
É o estudo de questões referentes ao conhecimento da divindade, implicando sempre em
uma atitude de fé diante de revelações de um mistério ou sobrenatural, interpretado como
mensagem ou manifestação divina. Esse conhecimento está intimamente relacionado a um
Deus, seja este Jesus Cristo, Buda, Maomé, um ser invisível, ou qualquer entidade
entendida como ser supremo, dependendo da cultura de cada povo, com quem o ser
humano se relaciona por intermédio da fé religiosa.
Em resumo, tem-se:

Gestão do Conhecimento
Gestão do conhecimento é o processo que visa à criação, armazenamento, disseminação e
utilização do conhecimento, integrando pessoas, processos e tecnologias, alinhados com os

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objetivos da organização, considerando fontes de conhecimento internas e externas à
organização (OLIVEIRA et al, 2009).
Tambem chamado de Knowledge Management é uma disciplina que tem suscitado cada
vez mais atenção nas últimas décadas, tendo originado inúmeros trabalhos de investigação
e investimentos cada vez mais significativos por parte das organizações que reconhecem a
sua crescente importância.Utilizando a gestão do conhecimento a empresa pode diminuir
os gastos em produtos investir em capital intelectual, o que, geralmente, tem um melhor
custo-benefício.
A Gestão do Conhecimento pode ainda ser entendia como o conjunto de esforços,
facilidades, processos dinâmicos e complexos, consensual e socialmente compartilhados,
por meio dos quais o conhecimento científico – em sua vertente tácita e explícita – é
criado, compartilhado e utilizado. Tais processos também oferecem meios e condições para
a interação social entre membros de comunidades científicas, contribuindo, portanto, para a
produção, disseminação e uso do conhecimento e, conseqüentemente, para o avanço da
ciência.
O processo de Gestão do Conhecimento pode ser feito por:
Socialização: processo de compartilhamento de experiências, possibilitando a criação de
conhecimento tácito, como modelos mentais ou habilidades técnicas compartilhadas.
Externalização: trata-se do processo em que o conhecimento tácito é articulado em
conceitos explícitos, expressando assim o conhecimento tácito na forma de metáforas,
analogias, conceitos ou hipóteses do modelo.
Combinação: processo que combina, acrescenta e caracteriza conhecimentos por meio de
documentos, formalizações, conversas à distância ou redes de comunicação
computadorizada;
Internalização: incorporação individual do conhecimento explícito para o âmbito tácito,
precisa-se aprender na prática, por meio do chamado learningbydoing (aprender fazendo).
A gestão de conhecimento é necessária em virtude da existência do conhecimento na
empresa, na mente das pessoas, nos departamentos e nos processos executados. Todos
esses elementos são fundamentais e presentes a uma empresa. Esse tipo de gestão consiste
numa modelagem de processos corporativos por meio de conhecimentos gerados, uma
maneira de estruturar as atividades organizacionais no ambiente interno e externo, trata-se
de um gerenciamento corporativo.

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Visa favorecer a organização por meio de seu próprio conhecimento adquirido e
desenvolvimento e a partir do conhecimento colhido no ambiente externo (experiência de
concorrentes, influencias culturais, inovações tecnológicas, etc). Essa gestão se preocupa
com as condições organizacionais, localização, geração e partilha do conhecimento, e das
ferramentas a serem utilizadas na comunicação e organização de determinado conteúdo.

A gestão de conhecimento amplia a vantagem competitiva e concorrencial da empresa,


reduz custos com P&D (Planeamento e Desenvolvimento), geração de novos modelos de
negócio, melhor aproveitamento e desenvolvimento do capital intelectual da empresa,
suporte às tomadas de decisão e melhorias na produção e na prestação de serviços.
A gestão do conhecimento é um processo complexo e intimamente relacionado com
processo de comunicação nas organizações (SMOLIAR, 2003; IVES et al., 1998;
THEUNISSEN, 2004). As duas abordagens – gestão do conhecimento e processos de
comunicação – possuem princípios compatíveis e objectivos convergentes em diversos
momentos, sobretudo durante a fase de compartilhamento ou disseminação de
conhecimento.
A gestão do conhecimento, de forma abrangente, referese ao planeamento e controlo de
ações (políticas, mecanismos, ferramentas, estratégias e outros) que governam o fluxo do
conhecimento, em sua vertente explícita – e para isso englobam práticas da gestão da
informação – e sua vertente tácita. O planeamento e controlo de ações pressupõem a
identificação, aquisição, armazenagem, compartilhamento, criação e uso do conhecimento
tácito e explícito, com o fim de maximizar os processos organizacionais em qualquer
contexto. Todo esse processo viabiliza-se mediante o substrato comunicacional.

3. Os Métodos de Pesquisa e Levantamento de Dados


Todas as ciências caracterizam-se pela utilização de métodos científicos; em contrapartida,
nem todos os ramos de estudo que empregam estes métodos são ciências. Dessas
afirmações pode-se concluir que a utilização de métodos científicos não é da alçada
exclusiva da ciência, mas não há ciência sem o emprego de métodos científicos.
Método é o conjunto das atividades sistemáticas e racionais que, com maior segurança e
economia, permite alcançar o objetivo – conhecimentos válidos e verdadeiros, traçando o
caminho a ser seguido, detectando erros e auxiliando as decisões do cientista.

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Método deriva do grego antigo μέθοδος, methodos, formado por μετά, μέt, metá, met-,
'depois' ou 'que segue' + οδός, hodós, 'caminho', significando 'seguir um caminho' (para
chegar a um fim).
Há vários métodos para melhor responder aos diversos problemas levantados. Os métodos
científicos são as formas mais seguras inventadas pelos homens para controlar o
movimento das coisas que cerceiam um fato e montar formas de compreensão adequada
dos fenómenos.
Método Científico – é a expressão lógica do raciocínio associada à formulação de
argumentos convincentes. Esses argumentos, uma vez apresentados, têm por finalidade
informar, descrever ou persuadir um fato.

Método Indutivo
Indução é um processo mental por intermédio do qual, partindo de dados particulares,
suficientemente constatados, infere-se uma verdade geral ou universal, não contida nas
partes examinadas. Portanto, o objetivo dos argumentos indutivos é levar a conclusões cujo
conteúdo é muito mais amplo do que o das premissas nas quais se basearam.
Uma característica que não pode deixar de ser assinalada é que o argumento indutivo, da
mesma forma que o dedutivo, fundamenta-se em premissas. Mas, se nos dedutivos, as
premissas verdadeiras levam inevitavelmente à conclusão verdadeira, nos indutivos,
conduzem apenas a conclusões prováveis ou, no dizer de Cervo e Bervian (1978), "pode-se
afirmar que as premissas de um argumento indutivo correto sustentam ou atribuem certa
verossimilhança à sua conclusão. Assim, quando as premissas são verdadeiras, o melhor
que se pode dizer é que a sua conclusão é, provavelmente, verdadeira".
Analisando os dois exemplos, pode-se tirar uma série de conclusões respeitantes ao método
indutivo:
a) De premissas que encerram informações acerca de casos ou acontecimentos
observados, passa-se para uma conclusão que contém informações sobre casos ou
acontecimentos não observados;
b) Passa-se pelo raciocínio, dos indícios percebidos, a uma realidade desconhecida
por eles revelada;
c) O caminho de passagem vai do especial ao mais geral, dos indivíduos às
espécies, das espécies ao gênero, dos fatos às leis ou das leis especiais às leis
mais gerais;

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d) A extensão dos antecedentes é menor do que a da conclusão, que é generalizada
pelo universalizante "todo", ao passo que os antecedentes enumeram apenas
"alguns" casos verificados;
e) Quando descoberta uma relação constante entre duas propriedades ou dois
fenômenos, passa-se dessa descoberta à afirmação de uma relação essencial e, em
consequência, universal e necessária, entre essas propriedades ou fenómenos.
Exemplo: observo que Pedro, José, João etc. são mortais; verifico a relação entre ser
homem e ser mortal; generalizo dizendo que todos os homens são mortais:
Pedro, José, João ... são mortais. Ora, Pedro, José, João ... são homens.
Logo, (todos) os homens são mortais. ou, O homem Pedro é mortal. O
homem José é mortal. O homem João é mortal.
(Todo) homem é mortal.
A indução apresenta duas formas:
a) Completa ou formal – estabelecida por Aristóteles. Ela não induz de alguns casos,
mas de todos, sendo que cada um dos elementos inferiores é comprovado pela
experiência. Exemplos: as faculdades sensitivas exteriores visual, auditiva, olfativa,
gustativa e táctil são orgânicas, logo, toda faculdade sensitiva exterior é orgânica;
Segunda, terça, quarta, quinta, sexta, sábado e domingo têm 24 horas. Ora,
segunda, terça, quarta, quinta, sexta, sábado e domingo são dias da semana. Logo,
todos os dias da semana têm 24 horas. Como esta espécie de indução não leva a
novos conhecimentos, é estéril, não passando de um processo de colecionar coisas
já conhecidas e, portanto, não tem influência (importância) para o progresso da
ciência.
b) Incompleta ou científica – criada por Galileu e aperfeiçoada por Francis Bacon4.
Não deriva de seus elementos inferiores, enumerados ou provados pela experiência,
mas permite induzir, de alguns casos adequadamente observados (sob
circunstâncias diferentes, sob vários pontos etc.), e às vezes de uma só observação,
aquilo que se pode dizer (afirmar ou negar) dos restantes da mesma categoria.
Portanto, a indução científica fundamenta-se na causa ou na lei que rege o
fenómeno ou fato, constatada em um número significativo de casos (um ou mais),
mas não em todos. Mercúrio, Vênus, Terra, Marte, Júpiter, Saturno, Urano, Neiuno

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Bacon, um dos fundadores do Método Indutivo, considera: as circunstâncias e a frequência com que
ocorre determinado fenômeno; os casos em que o fenômeno não se verifica; os casos em que o fenômeno
apresenta intensidade diferente.
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e Plutão não têm brilho próprio. Ora, Mercúrio, Vênus, Terra, Marte, Júpiter,
Saturno, Urano, Netuno e Plutão são planetas. Logo, todos os planetas não têm
brilho próprio.

Método Dedutivo
René Descartes (1596-1650) apresenta o Método Dedutivo a partir da matemática e de suas
regras de evidência, análise, síntese e enumeração. Esse método parte do geral e, a seguir,
desce para o particular.
O protótipo do raciocínio dedutivo é o silogismo5, que, a partir de duas proposições
chamadas premissas, retira uma terceira chamada conclusão.
Parte-se de princípios reconhecidos como verdadeiros e indiscutíveis, possibilitando chegar
a conclusões de maneira puramente formal, em virtude de sua lógica.
Este método tem larga aplicação na Matemática e na Física, cujos princípios podem ser
enunciados por leis. Já nas Ciências Sociais seu uso é mais restrito, em virtude da
dificuldade de se obterem argumentos gerais cuja veracidade não possa ser colocada em
dúvida (Gil, 1999).
Todo mamífero tem um coração. Ora, todos os cães são mamíferos. Logo, todos os cães
têm um coração.
Hipotético-Dedutivo
Para Karl R. Popper, o método científico parte de um problema (P1), ao qual se oferecesse
uma espécie de solução provisória, uma teoria-tentativa (TT), passando-se depois a criticar
a solução, com vista à eliminação do erro (EE) e, tal como no caso da dialética, esse
processo se renovaria a si mesmo, dando surgimento a novos problemas (P2).
O método hipotético-dedutivo pode ser explicado a partir do seguinte esquema:
PROBLEMA – HIPÓTESES – DEDUÇÃO DE CONSEQUÊNCIAS OBSERVADAS –
TENTATIVA DE FALSEAMENTO – CORROBORAÇÃO

Portanto, Popper defende estes momentos no processo investigatório:

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Significa "conexão de ideias", "raciocínio". composto de 3 proposições — Premissa Maior (P), Premissa
Menor (p) e Conclusão (c) — onde 3 termos, Maior (T), Médio (M) e Menor (t), são compostos 2 a 2. Num
silogismo, as premissas são um ou dois juízos que precedem a conclusão e dos quais ela decorre como
resultado consequente dos antecedentes. Ou seja, dos juízos prévios se infere a consequência. Nas
premissas, o termo maior (predicado da conclusão) e o termo menor (sujeito da conclusão) são comparados
com o termo médio, e assim temos a premissa maior e a premissa menor segundo a extensão dos seus
termos. Um exemplo clássico de silogismo é o seguinte:
Todo homem é mortal.
Sócrates é homem.
Logo, Sócrates é mortal.
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1. Problema, que surge, em geral, de conflitos ante, expectativas e teorias existentes;
2. Solução proposta consistindo numa conjectura (nova teoria); dedução de
consequências na forma de proposições passíveis de teste;
3. Testes de falseamento: tentativas de refutação, entre outros meios, pela observação
e experimentação.
Se a hipótese não supera os testes, estará falseada, refutada, e exige nova reformulação do
problema e da hipótese, que, se superar os testes rigorosos, estará corroborada, confirmada
provisoriamente, não definitivamente como querem os indutivistas. Einstein vem em
auxílio desta característica da falseabilidade quando escreve a Popper nestes termos "na
medida em que um enunciado científico se refere à realidade, ele tem que ser falseável; na
medida em que não é falseável, não se refere à realidade". (Popper, 1975ª, p. 346).
Síntese do Método de Popper

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A observação não é feita no vácuo. Tem papel decisivo na ciência. Mas toda observação é
precedida por um problema, uma hipótese, enfim, algo teórico. A observação é ativa e
seletiva, tendo como critério de seleção as "expectativas inatas". Só pode ser feita a partir
de alguma coisa anterior. Esta coisa anterior é nosso conhecimento prévio ou nossas
expectativas. Qualquer observação, escreve Popper, "é uma atividade com um objetivo
(encontrar ou verificar alguma regularidade que foi pelo menos vagamente vislumbrada);
trata-se de uma atividade norteada pelos problemas e pelo contexto de expectativas
('horizonte de expectativas')". "Não há experiência passiva. Não existe outra forma de
percepção que não seja no contexto de interesses e expectativas, e, portanto, de
regularidades e leis. Essas reflexões levaram-me à suposição de que a conjectura ou
hipótese precede a observação ou percepção; temos expectativas inatas, na forma de
expectativas latentes, que há de ser ativadas por estímulos aos quais reagimos, via de regra,
enquanto nos empenhamos na exploração ativa. Todo aprendizado é uma modificação de
algum conhecimento anterior" (1977:58). Podemos dizer que o homem é programado
geneticamente e possui o que se chama imprintação. Os filhotes dos animais possuem um
mecanismo inato para chegar a conclusões inabaláveis. A tartaruguinha, ao sair do ovo,
corre para o mar, sem ninguém tê-la advertido do perigo que a ameaça se não mergulhar
imediatamente na água; o animal, quando nasce no mato, sem ninguém tê-lo ensinado,
corre e procura o lugar apropriado da mãe para alimentar-se; o recém-nascido tem
expectativas de carinho e de alimento. Os processos de aprendizagem, pode dizer-se
sempre, consistem na formação de expectativas através de tentativas e erros (1977:50).
Concluindo, nasce-se com expectativas e, no contexto dessas expectativas, é que se dá a
observação, quando alguma coisa inesperada acontece, quando alguma expectativa é
frustrada, quando alguma teoria cai em dificuldades. Portanto, a observação não é o ponto
de partida da pesquisa, mas um problema. O crescimento do conhecimento marcha de
velhos problemas para novos por intermédio de conjecturas e refutações.
Método Dialético
Na Antiguidade e na Idade Média o termo era utilizado para significar simplesmente
lógica. A concepção moderna de dialética, no entanto, fundamenta-se em Hegel. Para esse
filósofo, a lógica e a história da humanidade seguem uma trajetória dialética, nas quais as
contradições se transcendem, mas dão origem a novas contradições que passam a requerer
solução.

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A concepção hegeliana de dialética é de natureza idealista, ou seja, admite a hegemonia
das ideias sobre a matéria. Essa concepção foi criticada por Karl Marx e Friedrich Engels,
que "viraram a dialética de cabeça para baixo" e apresentaram-na em bases materialistas,
ou seja, admitindo a hegemonia da matéria em relação às ideias.
O materialismo dialético pode, pois, ser entendido com um método de interpretação da
realidade, que se fundamenta em três grandes princípios (Engels, 1974):
a) A unidade dos opostos. Todos os objetos e fenómenos apresentam aspectos
contraditórios, que são organicamente unidos e constituem a indissolúvel unidade
dos opostos. Os opostos não se apresentam simplesmente lado a lado, mas num
estado constante de luta entre si. A luta dos opostos constitui a fonte do
desenvolvimento da realidade.
b) Quantidade e qualidade. São características imanentes a todos os objetos e
fenómenos e estão inter-relacionados. No processo de desenvolvimento, as
mudanças quantitativas graduais geram mudanças qualitativas e essa transformação
opera-se por saltos.
c) Negação da negação. A mudança nega o que é mudado e o resultado, por sua vez, é
negado, mas esta segunda negação conduz a um desenvolvimento e não a um
retorno ao que era antes.
A dialética fornece as bases para uma interpretação dinâmica e totalizante da realidade, já
que estabelece que os fatos sociais não podem ser entendidos quando considerados
isoladamente, abstraídos de suas influências políticas, económicas, culturais etc. Por outro
lado, como a dialética privilegia as mudanças qualitativas, opõe-se naturalmente a qualquer
modo de pensar em que a ordem quantitativa se torne norma. Assim, as pesquisas
fundamentadas no método dialético distinguem-se bastante das pesquisas desenvolvidas
segundo a ótica positivista, que enfatiza os procedimentos quantitativos.
Métodos para Ciências Sociais e Humanas
Há alguns métodos exclusivos para uma área do conhecimento, apesar de que o autor pode
combinar métodos. Para as Ciências Sociais e Humanas recomendam-se:
 Método indutivo –cuja aproximação dos fenómenos caminha geralmente para
planos cada vez mais abrangentes, indo das constatações mais particulares às leis e
teorias (conexão ascendente);
 Método dedutivo – que, partindo das teorias e leis, na maioria das vezes prediz a
ocorrência dos fenómenos particulares (conexão descendente);

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 Método hipotético-dedutivo – que se inicia pela percepção de uma lacuna nos
conhecimentos, acerca da qual formula hipóteses e, pelo processo de inferência
dedutiva, testa a predição da ocorrência de fenômenos abrangidos pela hipótese;
 Método dialético – que penetra o mundo dos fenômenos através de sua ação
recíproca, da contradição inerente ao fenômeno e da mudança dialética que ocorre
na natureza e na sociedade.
 Método Histórico – Partindo do princípio de que as atuais formas de vida social, as
instituições e os costumes têm origem no passado, é importante pesquisar suas
raízes, para compreender sua natureza e função. Assim, o método histórico consiste
em investigar acontecimentos, processos e instituições do passado para verificar a
sua influência na sociedade de hoje, pois as instituições alcançaram sua forma atual
através de alterações de suas partes componentes, ao longo do tempo, influenciadas
pelo contexto cultural particular de cada época. Seu estudo, para urna melhor
compreensão do papel que atualmente desempenham na sociedade, deve remontar
aos períodos de sua formação e de suas modificações. Exemplos: para efetuar uma
reportagem a respeito de um fenómeno na área indígena da Huíla, será preciso fazer
um levantamento histórico sobre a tradição daquela região, evitando classificar
dados como crime e que pela cultura local é normal.
 Método Comparativo – Considerando que o estudo das semelhanças e diferenças
entre diversos tipos de grupos, sociedades ou povos contribui para uma melhor
compreensão do comportamento humano, este método realiza comparações, com a
finalidade de verificar similitudes e explicar divergências. O método comparativo é
usado tanto para comparações de grupos no presente, no passado, ou entre os
existentes e os do passado, quanto entre sociedades de iguais ou de diferentes
estágios de desenvolvimento.
 Método Monográfico – Partindo do princípio de que qualquer caso que se estude
em profundidade pode ser considerado representativo de muitos outros ou até de
todos os casos semelhantes.O método monográfico consiste no estudo de
determinados indivíduos, profissões, condições, instituições, grupos ou
comunidades, com a finalidade de obter generalizações. A investigação deve
examinar o tema escolhido, observando todos os fatores que o influenciaram e
analisando-o em todos os seus aspectos. Exemplos: estudo dos delinquentes juvenis
no Kinaxixi. A vantagem do método consiste em respeitar a "totalidade solidária"

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dos grupos, ao estudar, em primeiro lugar, a vida do grupo na sua unidade concreta,
evitando, portanto, a prematura dissociação de seus elementos.
 Método Tipológico – Apresenta certas semelhanças com o método comparativo.
Ao comparar fenómenos sociais complexos, o pesquisador cria tipos ou modelos
ideais, construídos a partir da análise de aspectos essenciais do fenómeno. A
característica principal do tipo ideal é não existir na realidade, mas servir de
modelo para a análise e compreensão de casos concretos, realmente existentes.
Weber, através da classificação e comparação de diversos tipos de cidades,
determinou as características essenciais da cidade; da mesma maneira, pesquisou as
diferentes formas de capitalismo para estabelecer a caracterização ideal do
capitalismo moderno; e, partindo do exame dos tipos de organização, apresentou o
tipo ideal de organização burocrática. Para Weber, a vocação prioritária do cientista
é separar os juízos de realidade – oque é -e os juízos de valor -o que deve ser - da
análise científica, com a finalidade de perseguir o conhecimento pelo
conhecimento. Assim, o tipo ideal não é uma hipótese, pois se configura como uma
proposição que corresponde a uma realidade concreta; portanto, é abstrato; não é
uma descrição da realidade, pois só retém, através de um processo de comparação e
seleção de similitudes, certos aspectos dela; também não pode ser considerado
como um "termo médio", pois seu significado não emerge da noção quantitativa da
realidade. O tipo ideal não expressa à totalidade da realidade, mas seus aspectos
significativos, os caracteres mais gerais, os que se encontram regularmente no
fenómeno estudado.
 Método Funcionalista – É, a rigor, mais um método de interpretação do que de
investigação. Levando-se em consideração que a sociedade é formada por partes
componentes, diferenciadas, inter-relacionadas e interdependentes, satisfazendo,
cada uma, funções essenciais da vida social, e que as partes são mais bem
entendidas compreendendo-se as funções que desempenham no todo, o método
funcionalista estuda a sociedade do ponto de vista da função de suas unidades, isto
é, como um sistema organizado de atividades. O método funcionalista considera, de
um lado, a sociedade como uma estrutura complexa de grupos ou indivíduos,
reunidos numa trama de ações e reações sociais; de outro, como um sistema de
instituições correlacionadas entre si, agindo e reagindo umas em relação às outras.
Qualquer que seja o enfoque, fica claro que o conceito de sociedade é visto como

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um todo em funcionamento, um sistema em operação. E o papel das partes nesse
todo é compreendido como Junções no complexo de estrutura e organização. .
 Método Estruturalista – O método parte da investigação de um fenómeno concreto,
eleva-se a seguir ao nível do abstrato, por intermédio da constituição de um modelo
que represente o objeto de estudo retomando por fim ao concreto, dessa vez como
uma realidade estruturada e relacionada com a experiência do sujeito social.
Considera que uma linguagem abstrata deve ser indispensável para assegurar a
possibilidade de comparar experiências à primeira vista irredutíveis que, se assim
permanecessem, nada poderiam ensinar; em outras palavras, não poderiam ser
estudadas. Dessa forma, o método estruturalista caminha do concreto para o
abstrato e vice-versa, dispondo, na segunda etapa, de um modelo para analisar a
realidade concreta dos diversos fenómenos.
 Método observacional – O método observacional é um dos mais utilizados nas
ciências sociais e apresenta alguns aspectos curiosos. Por outro lado, pode ser
considerado como o mais primitivo, e consequentemente o mais impreciso. Mas,
por outro lado, pode ser tido como um dos mais modernos, visto ser o que
possibilita o mais elevado grau de precisão nas ciências sociais. Tanto é que em
Psicologia os procedimentos de observação são frequentemente estudados como
próximos aos procedimentos experimentais. Nestes casos, o método observacional
difere do experimental em apenas um aspecto: nos experimentos o cientista toma
providências para que alguma coisa ocorra, a fim de observar o que se segue, ao
passo que no estudo por observação apenas observa algo que acontece ou já
aconteceu. Há investigações em ciências sociais que se valem exclusivamente do
método observacional. Outras utilizam-no em conjunto com outros métodos. E
pode-seafirmar com muita segurança que qualquer investigação em ciências sociais
deve valer-se, em mais de um momento, de procedimentos observacionais.
 Método Etnográfico – enfatiza a análise cultural e, por isso, desempenha um papel
chave no entendimento dos sistemas simbólicos que articulam os objetos de
consumo e a vida cotidiana dos atores sociais na cultura contemporânea. Este
método consiste no levantamento de todos os dados possíveis sobre uma
determinada comunidade com a finalidade de melhor conhecer o estilo de vida ou a
cultura específica da mesma. Tal método tem como locus privilegiado a
Antropologia Social, exatamente porque nesta disciplina encontra-se a origem do

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mesmo, sendo que, hodiernamente, quando se fala em estudos de cultura, nesta área
de conhecimento, inevitavelmente, fala-se em método etnográfico, fazendo com
que as discussões mais aprofundadas acerca do mesmo aí se concentrem. Para
MARCONI & PRESSOTTO (1992, p.32), o método etnográfico: "Refere-se à
análise descritiva das sociedades humanas, principalmente das primitivas ou
ágrafas e de pequena escala. Mesmo o estudo descritivo requer alguma
generalização e comparação, implícita ou explícita. Refere-se a aspectos culturais.
Consiste no levantamento de todos os dados possíveis sobre sociedades ágrafas ou
rurais, e na sua descrição, com a finalidade de conhecer melhor o estilo de vida ou
acultura específica de determinados grupos".

Próxima Aula...
Parte Procedimentos Didáticos 1. Leitura;
Introdutória e 2. Análise de Textos;
conceitual 3. Ferramentas de Estudos;
4. Seminários.

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