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UNIVERSIDADE ÓSCAR RIBAS

FACULDADE DE CIÊNCIAS E HUMANIDADES


DEPARTAMENTO DE DIREITO

CAPÍTULO III
OS ACTOS DE COMÉRCIO
(MATERIAL DE APOIO PARA ESTUDO INDIVIDUAL)

DOCENTE: PROF. DOUTOR ALBERTO MABA CHOCOLATE

LUANDA, ABRIL - 2020

1
CAPÍTULO III
OS ACTOS DE COMÉRCIO

1. NOÇÃO

No seu perfil objectivo, fruto do tempo em que foi aprovado o Código Comercial,
determina o seu âmbito da aplicação com base, não no comerciante, nem na empresa, mas
fundamentalmente no “acto de comércio”1.

O Código Comercial elegeu a categoria dos actos de comércio como o primordial factor de
delimitação do âmbito material do Direito Comercial.2

Porém, logo no artigo 1.º, ao delimitar o âmbito material da lei comercial, estatui que, “a
lei comercial rege os actos de comércio, sejam ou não comerciantes as pessoas que neles
intervêm”.3

A opção legal é muito clara no sentido do objectivismo, sendo o acto de comércio a pedra
fundamental sobre a qual assenta o edificio legislativo seguido pelo Código Comercial.

A opção objectiva exige da lei o estabelecimento de um critério operativo quanto à


qualificação dos actos de comércio. Esse critério pode ser de genero proximo e à diferença
especifica se consegue determinar com a segurança necessária, quais, de entre os actos
jurídicos, seriam comerciais. O Código Comercial, não define o acto de comércio,
preferindo tipificar os actos que considera de comércio.

O Direito Comercial, desde da sua génese historico e tradicional, basea-se nos actos de
praticados pelos comerciantes, torna-se facil enumerar os que caracterizam a actividade
comercial com o objectivo de conseguir uma segurança necessária a um funcionamento
facil do sistema, por forma a evitar dúvidas no concernente a determinação do âmbito da
matéria jurídico-comercial.

A existência de uma jurisdição comercial especial que foi instituida 4, tornou necessária a
fácil determinação, de quais são os actos dos quais o Código Comercial se aplicava e cujos
litigios seriam da competência exclusiva dos Tribunais Comerciais.

De acordo com essa orientação, o Código Comercial, nos termos estabelecidos no artigo
2.º, estatui que, “são considerados actos de comércio todos aqueles que achem
especialmente regulados na presente e demais legislação complementar e, além deles,
todos os contratos e obrigações dos comerciantes que não forem de natureza
exclusivamente civil, se o contrário do próprio acto não resultar”. O Código Comercial,
na sua versão original, continha uma série de actos e de conjuntos ou áreas de actos que

1
Vasconcelos, Pedro Pais de, Direito Comercial, Vol. I, Parte Geral, Contratos Mercantis e Titulos de
Crédito, Almedina, 2011, pág. 58
2
Ibidem
3
Código Comercial de 1888
4
Código de Processo Comercial, aprovado por decreto de 14 de Dezembro de 1905

2
era, assim, tidos como actos de comércio5 e recepcionado pela República de Angola após a
sua independência em 11 de Novembro de 1975.

Muitas destas matérias vieram e hoje são objecto de legislação extravagantes, tais como:
- a matéria das sociedades comerciais está regulada basicamente na Lei n.º 1/04, de 13
de Fevereiro - das Sociedades Comerciais e revoga os artigos 104.º a 206.º do Código
Comercial, a lei de 11 de Abril de 1901, Lei das Sociedades por Quotas, o Decreto-Lei n.º
598/73, de 8 de Novembro, sobre a fusão e cisão das sociedades comerciais, o Decreto-Lei
n.º 493/81, de 15 de Novembro, sobre a fiscalização das sociedades anónimas, o artigo 6.º
da lei n.º 9/91, de 20 de Abril, o artigo 3 do Decreto n.º 38/00, de 6 de Outubro.
- a conta em participação é hoje regida, na Lei n.º 19/03, de 12 de Agosto – Lei sobre
os contratos de conta em participação, consórcios e agrupamento de empresas e revoga os
artigos 224.º a 229.º do Código Comercial;
- no artigo 230.º, o Código Comercial alude às empresas comerciais, e qualifica como
tais aquelas que se propõe actuar em todo sector secundário (indústria transformadora) e
em actividades do sector terciário e exclui o sector primário e ainda as actividades artesenais,
artísticas e de criação autoral. Este preceito tem sido complementado por vária legislação
extravante, sobre empresas;
- as operações de bolsas estão hoje reguladas fundamentalmente pela Lei n.º 22/15,
de 31 de Agosto de 2015 – Código dos Valores Mobiliários (CodVM) e altera os artigos
112.º, 113.º, 177.º, n.º 7 do artigo 241.º, n.º 3 do artigo 304.º, 350., 369.º, 374.º, 375.º,
377.º e 449.º, todos da Lei n.º 1/04 de 13 de Fevereiro – Lei das Sociedades Comerciais e
o artigo 6.º do Decreto Presidencial n.º 6/13 de 10 de Outubro, que aprova o Regime
Jurídico das Sociedades Gestoras de Mercado Regulamentados e dos Serviços Financeiros
dos Valores Mobiliários e revoga a Lei n.º 12/15 de 23 de Setembro – Lei dos Valores
Mobiliários, o Decreto Legislativo Presidencial n.º 4/13, de 9 de Outubro, sobre o Regime
Jurídico do Mercado Regulado de Dívida Pública, bem como, o n.º 3 do artigo 167.º, o n.º
9 do artigo 309.º, o artigo 332.º, os n.º 3 e 4 do 335.º, os artigos 336.º, 337.º, 348.º, 349.º,
352.º a 362.º, os artigos 378º, 379.º, todos, igualmente, da Lei n.º 1/04, de 13 de Fevereiro
– Lei das Sociedades Comerciais.
- as Cooperativas são hoje regidas pela n.º Lei 23/15 de 31 de Agosto – Lei das
Cooperativas que revoga o Capítulo V do título II do Livro II do Código Comercial, o
Decreto-Lei n.º 115/75, de 22 de Setembro – Regime Jurídico das Cooperativas, bem como
todas as disposições que a contraiem.
- as operações bancárias, embora mantenham no Código Comercial, em vigor os
artigos 362º a 365.º, são hoje objecto de abundante legislação que se concentra
principlamente na Lei n.º 12/15, de 17 de Junho – Lei de Bases das Instituições
Financeiras, que regula o processo de estabelecimento, exercício de actividade, a supervisão,
o processo de intervensão e o regime sancionatório e revoga toda a legislação que a
contrarie, nomeadamente a Lei n.º 13/05, de 30 de Setembro – Lei das Instituições
Financeiras que contém o regime jurídico do direito bancário institucional,
complementado por inúmeros diplomas diplomas legais reguladores de matérias específicas
que seria excessivo mencionar aqui. De realçar, igualmente, que a Entidade Reguladora da
actividade bancária é o Banco Central, designado por Banco Nacional de Angola (BNA)
ver Lei n.º 16/10, de 15 de Julho – Lei Organica do BNA e revoga a lei n.º 6/97, de 11 de
Julho e toda legislação que a contrarie.

5
Vasconcelos, de Pedro Pai de, pág. 59.

3
- o seguro, vigora até a data presente a Lei n.º 1/00, de 3 de Fevereiro e revoga toda
a legislação que a contrarie.
- o contrato de transportes continua a manter, no Código Comercial, os artigos 366.º
a 393.º, sendo, porém, hoje, apenas uma parte ínfima do regime jurídico do contrato de
transportes que se contém em vários diplomas avulsas, a titulo de exemplo, a Lei n.º 20/03,
de 19 de Agosto – Lei de Bases de Transportes Terrestres. Igualmente, há existência de
vários diplomas legais que rege cada ramo dos transportes.
- As letras e livranças, bem como cheques, são objecto de legislação internacional.
As letras e livranças são regidas pela Convenção de Genebra de 7 de Agosto de 1930, bem
como pela Lei Uniforme Relativas às Letras e Livranças e os Cheques pela Convenção de
Genebra de 19 de Março de 1931 e pela Lei Uniforme Relativa ao Cheque.

A desactualização do Código Comercial vigente, exige do interprete uma actitude


fortemente actualista. É assim, que o artigo 4.º da carta da lei de 28 de Junho de 1888, que
aprovou o Código Comercial, estatui que, “toda a modificação que de futuro se fizer sobre
matéria contida no Código Comercial será considerada como fazendo parte dele e inserida
no lugar próprio, quer seja por meio de substituição de artigos alterados, quer pela
supressão de artigos inúteis, ou pelo adicionamento dos que forem necessários.”6

A proliferação da legislação comercial extravagante obriga o intérprete a alargar a referência,


estabelecida no artigo 2.º, ao Código Comercial, para uma outra, mais ampla, a “legislação
comercial”. 7

A qualificação dos actos de comércio serve para determinar o âmbito do Direito Comercial.
Contudo, a palavra “acto” deve ser tomada num sentido mais amplo, o da conduta humana
e, ela abrange:
a) Qualquer facto jurídico em sentido amplo, verificado na esfera das actividades
mercantis e ao qual sejam atribuídos efeitos jurídicos, designadamente:
i– actos jurídicos naturais ou involuntários;
ii – actos jurídicos voluntários, isto é, actos jurídicos, quer lícitos, quer ilícitos;
iii – negócios jurídicos voluntários, mormente de carácter bilateral ou contratos.

b) Tanto os factos jurídicos isolados ou ocasionais, que podem ser praticados,


muitas vezes, por comerciantes ou por não comerciantes, como os actos que fazem parte de
uma actividade comercial, isto é, de uma massa, cadeia ou sucessão de actos jurídicos
interligados pela pertinência a uma mesma obrigação e, por visarem a prossecução de fins
comuns, quer do fim imediato (objecto) consiste na exploração de um determinado tipo de
negócio, quer o fim mediato que se traduz na consecução de lucros.

2. DISTINÇÃO ENTRE ACTOS E ACTIVIDADE MERCANTIL

O corpo do artigo 230.º Código Comercial, determina: “haver-se-ão por comerciais as empresas
individuais ou colectivas, que se propuserem:”seguindo-se uma série de números que referem
diversas espécies de actividades económicas. As actividades das empresas enumeradas neste
artigo estão classificadas como actos do comércio objectivos.

6
Vasconcelos, Pedro Pais de, Direito Comercial, pág. 63.
7
Ibidem, pág. 67.

4
O que em todo o caso ressalta evidente é que o artigo 230.º do Código Comercial, tem
destacada importância como norma qualificadora, quer pela relevância nele atribuída à
empresa no plano conceitual, que sobretudo por dele decorrer a sujeição ao Direito
Comercial de todos os actos que se enquadrem nas actividades das empresas em questão,
mesmo que não tivessem se encarados isoladamente.

Os actos praticados no exercício de uma das actividades abrangidas pelo artigo 230.º, serão
sempre actos de comércio, por não terem“natureza essencialmente civil” e por serem
praticados por um comerciante no âmbito com o seu comércio.

A actividade comercial é, um encadeado de actos interligados e duradouro, sendo o artigo


230.º do Código Comercial, que, no conjunto de actos que a integram, nos permite valorar
cada um deles em termos jurídico-comerciais.

3. CONCEITO MATERIAL DA ACTIVIDADE COMERCIAL

Não há, na lei comercial, uma definição material unitária de acto de comércio. E por outro
lado, na medida em que o artigo 2.º do Código Comercial8, “são considerados actos de comércio
todos aqueles que se acherem especialmente regulados na presente lei e demais legislação vigente
complementar e, além deles, todos os contratos e obrigações dos comerciantes que não forem de
natureza exclusivante civil, se o contrário do próprio acto não resultar”. Parece mais difícil
encontrar um conceito que a todos abrange, uma factualidade típica que englobe todos os
actos na sua multiplicidade.

Na interpretação do artigo 2.º do Código Comercial, pode-se repartir em duas partes, sendo
a primeira, a que estabelece que “são considerados actos de comércio, todos aqueles que se acharem
especialmente regulados na presente lei e demais legislação complementar”.

O legislador quer com isto referir que há “actos que devem a sua qualidade de actos de comércio
à circunstância de se acharem regulados em determinado diploma legal. Aqui se trata de
uma circunstância objectiva, que nada tem a ver com os sujeitos que praticam esse acto, o
importante que sejam previstos na legislação comercial e são designados como actos de
comércio objectivos.

De entre os actos de comércio objectivos, existem:


a) Os actos simultaneamente regulados na lei civil e na lei comercial: em princípio, estes
actos serão civis; no entanto, serão comerciais quando neles se verificarem aquelas
características específicas que a lei comercial estabelece como atributivas da comercialidade.
b) Os actos exclusivamente regulados no Código Comercial: são os que se acham directa
e explicitamente referidos, de forma genérica, na 1ª parte do artigo 2º Código Comercial;
c) Os actos regulados na legislação extravagante posterior ao Código Comercial.

Na interpretação do artigo 2º do Código Comercial, são igualmente considerados actos de


comércio “todos os contratos e obrigações dos comerciantes que não forem por natureza

8
Redação introduzida pela Lei n.º 6/03, de 3 de Março – Lei de Alteração ao Código Comercial, ver Marques,
António Vicente, Vol. Texto Editora, 2.ª Edição, pág. 15.

5
exclusivamente civil, se o contrário do próprio acto não resultar”. Trata-se pois, daqueles actos que
são comerciais, não pelo factor objectivo previsto na lei em que são regulados, mas sim pelo
elemento subjectivo consistente em serem praticados pelos comerciantes. Daí que se
denominem actos subjectivos: é a qualidade do sujeito que os pratica, que lhes confere
comercialidade. Realçar, também, que os comerciantes em nome individual têm vida pessoal
além do seu comércio e fora dele.9 Mas cabe ao comerciante o ónus de provar de que os
actos foram praticados fora do exercício do seu comércio10. E se não conseguir fazer essa
prova, os actos e as responsabilidades em questão são tidos como subjectivamente
comerciais11.

A lei parte do princípio de que, sendo o comerciante um profissional de comércio,


actividade complexa cujo exercício implica a montagem e orientação de uma organização
potencialmente absorvente, deve-se partir do pressuposto de que a sua actividade jurídica
é, em regra, inerente à sua actividade económica. Logo, até prova em contrário – pois a
presunção é iuris tantum, isto é, a presunção que admite prova em contrário, que os actos do
comerciante são actos de comércio por se presumir estarem ligados à sua empresa mercantil.
Precisamente por tal presunção deve ser ilidivel (contestada e/ou refutada), por que nesta
parte do artigo 2.º do Código Comercial, admite duas ressalvas (correções) ao postulado
base de que são actos de comércio “todos os contratos e obrigações dos comerciantes”. Deste
modo, estes actos não serão actos de comércio, nas seguintes situações:
a) Se forem de natureza exclusivamente civil; e
b) Se o contrário do próprio acto não resultar.

“De natureza exclusivamente civil”, é aquele acto que for essencialmente civil, ou seja, que não
possa ser praticado em conexão com o comércio, que não possa ser“comercializado”, por ser
impossível que tenha alguma conexão com o exercício do comércio, nem poder deste
derivar.

“Se o contrário do próprio acto não resultar”, isto é, os actos dos comerciantes que não forem
de natureza exclusivamente civil que serão comerciais, se deles mesmos não resultar que
não têm relação com o exercício do comércio do comerciante que os pratica. Esta
exegese/critica pretende-se com a própria redacção do artigo, segundo o qual, “o
contrário” reporta-se à frase do princípio do artigo, “serão considerados actos de comércio…”. Os
actos dos comerciantes serão considerados comerciais se deles não resultar o contrário, isto
é, que não são actos de comércio, por não terem relação alguma com o comércio de quem os praticou,
ou seja, que não têm natureza nem causa mercantil.

É a interpretação que atende à razão de ser da norma: à presunção de que os actos jurídicos
praticados pelos comerciantes o são no exercício do comércio. Logo, quando do próprio acto
resultar que ele não tem qualquer ligação/conexão ou pertinência ao comércio de quem o
praticou, conclui-se que ele não é um acto de comércio.

Pode-se concluir que que são actos de comércio subjectivos todos os actos e
responsabilidades do comerciante que pertençam a um género que tenha, pelos menos,

9
Vasconcelos, Pedro Pais de, Direito Comercial, pág. 69.
10
Ibidem;
11
Ibidem.

6
uma especie comercial, e que tenham sido praticados ou assumidos no exercício do seu
comércio, presumindo-se, salvo prova em contrário, que efectivamente o foram, e cabendo
ao comerciante o ónus da prova ao contrário12.

Em resumo, o artigo 2.º do Código Comercial abrange como actos de comércio:

a) Os actos que estiverem regulados no Código Comercial e em outras leis em razão dos interesses
do comércio: actos objectivos;

b) Os actos que forem praticados por comerciantes – actos subjectivos, presumem-se por serem
praticados pelo comerciante no exercício do comercio e/ou estarem ligados com o comércio do
comerciante.

Essa presunção esta que será elidível pela demonstração: ou de que o acto é de natureza
exclusivamente civil, por não poder ser praticado em relação com o comércio; ou de que
do próprio acto resulta que é alheio à actividade comercial de quem o praticou.

CLASSIFICAÇÃO DOS ACTOS DE COMÉRCIO

Actos de Comércio subjectivos e objectivos

a) São actos de comércio objectivos, os que são regulados na lei comercial, em razão
do seu conteúdo ou circunstâncias.
b) São actos de comércio subjectivos, aqueles que a lei atribui comercialidade pela
circunstância de serem tais actos conexos com a actividade comercial dos seus
autores.

Actos de comércio absoluto e por conexão ou acessórios

Os actos de comércio absolutos ou por natureza são comerciais devido à sua natureza
intrínseca, que radica do próprio comércio, na vida mercantil. São actos gerados e
tipificados pelas necessidades da vida comercial. São porque a sua comercialidade não
depende, nem terem sido praticados por comerciantes, nem de terem especial ligação com
outro acto de comércio. São exemplos, tipicos de actos de comércio absoluto a compra e
venda mercantil, regida nos artigos 463.º e seguntes do Código Comercial. Trata-se das
compras para revenda ou para aluguer, bem como das revendas e dos alugueres de coisa
compradas com esse fim, e também das compras e vendas das acções de sociedades
comerciais.

A qualificação destes contratos como actos de comércio é independente de serem


praticados por comerciantes ou de terem alguma ligação com outro acto de comércio, isto
é, são comerciais de per si e desempenha um papel nuclear no comércio como actos de
intermediação nas trocas. Também, a conta-corrente, previsto no artigo 344.º, do Código
Comercial, é um acto de comércio absoluto.

12
Vasconcelos, Pedro Pais de, Direito Comercial, Vol. I, pág. 70.

7
Podem-se distinguir duas espécies de actos dentro desta categoria:

a) Uns, que são actos absolutos em virtude de serem os actos caracterizadores, típicos,
essencialmente integrantes das actividades comerciais que tornam o objectivo
material do Direito Comercial e são a maior parte;
b) Outros são actos absolutos em razão da sua forma, ou do objecto sobre o qual
incidem.

Os actos de comércio por conexão ou acessórios são comerciais apenas em virtude da sua
especial ligação a um acto de comércio absoluto ou a uma actividade qualificada de
comercial. São aqueles cuja comercialidade depende, ou de terem sido praticados por
comerciante - conexão objectiva – é o caso, de todos actos de comércio subsjectivos, ou de
terem uma especial ligação com outros actos de comércio ou com próprio comércio –
conexão objectiva – como é o caso do mandanto, previsto no artigo 231.º, do empréstimo,
artigo 394.º, do penhor, artigo 397.º ou do depósito, artigo 403.º mercantis, todos previstos
no Código Comercial, cuja qualificação depende de uma especial ligação/conexão com
outos actos de comércio.

Teoria do acessório

Partindo da constatação de que certos actos, civis pelas suas características, podem tornar-
se comerciais por serem praticados em ambiente comercial. Segundo a teoria do acessório,
são actos de comércio acessórios os actos praticados por um comerciante no exercício do seu
comércio, e além disso, os actos ligados a um acto de comércio absoluto.

Assim, para esta teoria há duas categorias de actos de comércio:


 os que estão ligados à actividade comercial de um comerciante; e
 os que adquirem comercialidade por terem relação com o de um acto de comércio
por natureza.

Desta teoria nada de novo resultaria que o direito não reconhecesse já: os actos acessórios
ligados à actividade comercial de um comerciante são os actos subjectivos que resulta na
interpretação da segunda parte do artigo 2.º do Código Comercial e, os actos que adquirem
comercialidade por terem relação com um acto de comércio por natureza, não serão
subjectivos, mas sim, serão objectivos, isto é, seriam os actos de comércio simultaneamente
objectivos e acessórios, os actos de conexão objectiva.

A teoria do acessório conduz a incluir na segunda categoria de actos acessórios, certos actos
que não são em face dos preceitos da legislação comercial vigente, por ela, são também actos
de comércio acessórios os actos conexos com os actos de comércio objectivos e absolutos
praticados por um não comerciante.

Actos substancialmente e formalmente comerciais

 Actos formalmente comerciais, os que são regulados na lei comercial como um


esquema formal, que permanece aberto para dar cobertura a um qualquer
conteúdo, mas abstraem no seu regime do objecto ou fim para que são utilizados.

8
 Actos substancialmente comerciais, os que têm comercialidade em razão da própria
natureza, ou seja, por representarem, em si mesmos, actos próprios de actividades
materialmente mercantis.

Actos de comércio causais e abstractos

Diz-se causal, todo o acto que a lei regula em ordem a preencher ou a realizar uma
determinada e específica causa-função jurídico-económica, isto é, todos os actos e negócios
jurídicos têm uma causa13. Os actos de comércio causais são aqueles em que causa é
relevante e invocável. São na generalidade dos actos de comércio.

É abstracto, aquele que se revela adequado a preencher uma multiplicidade indeterminada


de causas funções, podendo a relação jurídica que dele resulta ter uma vida independente
da relação que lhe deu origem. São aqueles cuja causa não é intocável e são poucos, por
sinal. São actos de comércio abstractos, a título de exemplo, os actos cambiários, como saque,
endoso e aval – nas letras, livranças e cheques. Também são actos abestracto, a compra e venda
na Bolsa de acções e outros títulos aí negociáveis, bem como as respectivas ordens de
compra e venda. As exigências da celeridade e de segurança na prática destes actos exige
que a sua causa não seja sindicável, isto é, são inveriguáveis.

Actos bilateralmente comerciais ou puros e actos unilateralmente comerciais ou mistos

a) São bilaterais ou puros os actos que têm carácter comercial em relação às duas partes.
Têm carácter mercantil na perspectiva de todas as suas partes, serem comercaintes.
Assim, sucede, por exemplo, sempre que um comerciante compra para revenda a
outro comerciante uma mercadoria que aquele havia já comprado para revender.
Ambos, comprador e vendedor estão a praticar um acto de comércio objectivo,
previsto no artigo 463.º do Código Comercial. Em relação a ambas partes, esta
compra e venda é mercantil. Trata-se, pois, de um acto de comércio objectivo bltarel e
puro.

b) São unilaterais ou mistos os actos que apenas são comerciais em relação a uma das
partes, e civis em relação à outra, nos termos do artigo 99.º14, do Código Comercial,
que estabelece que, “salvo disposição legal em contrário, os unilateralmente comerciais são
regulados pelas disposições da legislação comercial”.

13
Sobre a causa dos negócios jurídicos, Vasconcelos, Pedro Pais de, Teoria Geral do Direito Civil, cit., págs.
303 e segs, Direito Comercial, Vol. I, pág. 71.
14 Redação introduzida pela Lei n.º 6/03, de 3 de Março – Lei de Alteração ao Código Comercial, ver
Marque, António Vicente, Código Comercial Angolano, Texto Editores, pág. 36.

9
10