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5.4.

Efeitos da decisão
5.4. J. Introdução


Anal isaremos neste tópico os efeitos das decisões prolatadas pelos diversos órgãos jurisdicionais participantes da jurisdição
constitucional difusa, tanto no aspecto temporal quanto no aspecto subjetivo.

Um alerta prévio, todavia, é cabível: já que a controvérsia constitucional é posta incidenter tantum e nunca como pedido principal
da ação, é cerco reconhecer que na via difusa não há uma declaração de inconstitucionalidade no dispositivo da decisão, mas sim
um afastamento da norma, com a consequente inaplicabilidade do diploma ao caso concreto, resolvido na fundamentação da
decisão.15

42. NOVELINO, Marcelo. Direito Constitucional. 61 ed. São Paulo: Método, 2012, p. 271.
➢ 43. Relatado pela Min. Ellen Gracie, cujo julgamento se deu em 02.03.2010.

44. Essa mesma opinião é a manifestada, precisa e lucidamente, por BERNARDES, Juliano Taveira; FERREIRA, Olavo
➢ Augusto Vianna Alves. Sinopses poro Concursos: v. 16 - Direito Constitucionol- Tomo 1. 2! ed. rev. amp. e atualizada.
➢ Salvador: Juspodivm, 2012, p. 373.

4S. NOVELINO, Marcelo. Direito Constitucionol. 61 ed. São Paulo: Método, 2012, p. 2S8.
5.4.2. Efeitos quanto ao aspecto temporal


Em conformidade com o que leciona a doutrina tradicional, a norma declarada inconstitucional é nula (e não meramente anulável),
de forma que a sentença que profere a inconstitucionalidade tem efeito declaratório e retroage à data da edição da norma.

Na lição de Alfredo Buzaid46:
➢ 46. BUZAID, Alfredo. Da ação direta de dec/oração de inconstitucionalidade no direito brasileiro. São Paulo: Saraiva, 1958, p. 128-130,
apud CUNHA JÚNIOR, Dirley. Curso de Direito Constitucional. 61 ed. Salvador: Juspodivm, 2012, p. 331.

Destarte, a decisão prolatada no controle difuso que reconhece a norma como inconstitucional está, em verdade, declarando-a nula.
➢ Se a norma é nula, por consequência são nulos todos os efeitos dela decorrentes, inclusive os pretéritos;

da mesma forma, deverão ser desconstituídas todas as relações jurídicas que nela se fundaram.
➢ Assim, pode-se concluir que a declaração de inconstitucionalidade opera efeitos ex tunc, isto é, retroativos.


No entanto, e em harmonia com o que Gilmar Mendes nos ensina47, nos Estados Unidos da América, berço do controle difuso de
constitucionalidade, admite-se, desde o leading case Likletter v. Walker, julgado pela Suprema Corte em 1965, a manipulação dos
efeitos temporais da decisão, sendo do órgão julgador a competência para avaliar as circunstâncias que culminariam na
necessidade de atribuição de efeitos ex nunc (não retroativos), ou mesmo efeitos prospectivos, à decisão.

A Suprema Corte dos EUA iniciou a discussão da modulação temporal dos efeitos a propósito de decisões prolatadas em processos
criminais e baseadas em leis inconstitucionais.
➢ Se uma específica lei é inconstitucional, pela teoria da nulidade ela nunca foi capaz de produzir nenhum efeito válido, o que
autorizaria a conclusão de que todas as condenações que nela se basearam são ilegítimas e, por isso, podem ser judicialmente
impugnadas - o que seria nitidamente desvantajoso sob o aspecto da segurança jurídica.

Por outro lado, se a manipulação dos efeitos temporais é permitida, não há que se cogitar em alteração dos julgados anteriormente
prolatados, de forma a preservar esse valor (da segurança), tão caro aos ordenamentos.

Com efeito, nota-se que o sistema difuso-incidental mais antigo e tradicional do mundo passou a admitir a mitigação dos efeitos
temporais da declaração de inconstitucionalidade, de forma a permitir efeitos não retroativos às decisões.

No direito pátrio, embora a Lei nº 9.868/1999 (em seu are. 27) tenha autorizado o Supremo Tribunal Federal a declarar a
inconstitucionalidade com efeitos temporais limitados tão somente no controle concentrado, é lícito indagar a admissibilidade do
uso dessa técnica de decisão também no controle difuso.
➢ Em suma, vale questionar se a orientação ali contida se revela apta a conformar os efeitos no tempo também em sede de controle
difuso.

Parece-nos que é possível, desde que se reconheça que o princípio da nulidade segue sendo a regra nas declarações de
inconstitucionalidade.

Desta forma, e excepcionalmente, se o STF, num severo e cuidadoso juízo de ponderação/proporcionalidade, concluir que deve
prevalecer a segurança jurídica ou algum outro princípio constitucional que revele haver na hipótese interesse social marcante,
poderá manipular os efeitos temporais da decisão de modo que a declaração de inconstitucionalidade não retroaja, mas sim valha
do trânsito em julgado da decisão em diante (efeito ex nunc) ou a partir de outro momento que a Corte venha a fixar (lembrando
que quando este momento for fixado para o futuro teremos o efeito pro futuro).

Esse é o teor do seguinte julgado do STF:

➢ Em princípio, a cécnica da modulação cemporal dos efeicos de decisão reserva-se ao concrole concencrado de conscicucionalidade,
em face de disposição legal expressa.

➢ Não obscance, e embora em pelo menos duas oporcunidades o Supremo Tribunal Federal tenha aplicado a técnica da modulação dos
efeitos da declaração de inconstitucionalidade no controle difuso da constitucionaJidade das leis, é imperioso cer presence que a Corce
o fez em situações extremas, caraccerizadas inequivocamence pelo risco à segurança jurídica ou ao interesse social"

➢ Por fim, no que se refere à possibilidade de modulação temporal dos efeitos quando a norma objeto de análise é pré-constitucional,
vale recordar que o Supremo Tribunal Federal recencemence alterou seu posicionamento ao autorizar a modulação temporal de
efeitos em um juízo de não recepção (ver icem 2, do cap. 3).

No RE 600.885-RS49, a Corre foi acionada para avaliar a compatibilidade da expressão "nos regulamentos da Marinha, do
Exército e da Aeronáutica" do are. 1 0 da Lei nº6.880/1980 com a Constituição da República de 1988.

Concluiu que o are. 142, § 3°, X, da Constituição é expresso ao atribuir exclusivamente à lei a definição dos requisitos para o
ingresso nas Forças Armadas, determinando que a expressão em análise fosse considerada não recepcionada.

A novidade, no encanto, ficou por conta do seguinte trecho da decisão

➢ O princípio d:i segurança jurídica impõe que, mais de vince e dois anos de vigência da Consriruiçáo, nos quais de-renas de concursos
foram realizados se observando aquela regra legal, modulem-se os efeitos da não-recepção: manucençáo da validade dos limices de
idade fixados em edicais e regulamentos fundados no are. 1 O da Lei nº 6.880/ l 980 acé 3 1 de dezembro de 201 1 (Grifo nosso).

Vê-se que o Plenário da Corre reconheceu a exigência conscicucional de edição de lei para o escabelecimenco de limite de idade
em concurso para ingresso nas Forças Armadas, mas determinou que os regulamentos e editais que o previssem vigorassem até 31
de dezembro do ano de 2011.
➢ Houve, pois, modulação temporal dos efeitos, de modo que a não recepção do are. 1 0 da Lei nº 6.880/1980 somente produziu
efeitos em data futura, posterior àquela em que foi prolacada.
5.4.3. Efeitos quanto ao aspecto subjetivo

➢ Tendo em vista que o intuito do controle difuso é solucionar uma controvérsia concreta, que coloca em risco direitos subjetivos,
sendo a questão de conscicucionalidade um mero incidente processual ou mesmo o fundamento do pedido, deve-se reconhecer sua
aptidão para produzir decisões cujos efeitos somente serão sentidos pelas partes que naquele processo estejam envolvidas.

48. AI 641.798-RJ, STF, Rei. Min. Joaquim Barbosa.


49. Julgado em 02.02.2011, tendo sido relatado pela Min. Cármen Lúcia.

A decisão prolacada no controle difuso, portanto, opera efeitos inter partes, não atingindo terceiros que não participaram daquela
específica relação processual.

Vale destacar que mesmo que a decisão tenha sido proferida pelo STF em recurso extraordinário (ou no exercício de alguma
competência originária) os efeitos se manterão adscritos às partes.

Desce modo, a lei ou ato normativo que foi declarado inconscicucional em uma ação (para aquelas partes integrantes da relação
jurídica), continua valendo no ordenamento e produzindo normalmente seus efeitos para as outras pessoas.

Isso nos permite concluir pela possibilidade de uma mesma norma ser constitucional para alguns e inconstitucional para outros.
● Cumpre informar que o efeito inter partes cem sido apontado como a principal desvantagem do controle difuso, pois oporcuniza o
surgimento de uma multiplicidade de questões idênticas (ou mesmo muito semelhantes), o que ocasiona a marcante morosidade do
Poder Judiciário, além de favorecer o surgimento de decisões judiciais contraditórias, o que enseja o descrédito na justiça pública

Não por outro motivo, duas questões adicionais sobre os efeitos inter partes ainda precisam ser avaliadas:
➢ (i) o papel do Senado Federal no controle difuso, e

(ii) a tendência da abstrativizaçáo (ou objetivação) do controle difuso, que cem angariado cada vez mais partidários e
entusiasmados defensores.
➢ Nos dedicaremos a esses dois tópicos nos próximos itens.