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5.5.

A atuação do Senado Federal no controle difuso


Como já deixamos firmado, a decisão declaratória de inconstitucionalidade da lei (ou de outro ato normativo) federal, estadual
distrital ou municipal, no controle difuso de conscicucionalidade, produz eficácia somente entre as partes em litígio, portanto inter
partes.
➢ Os efeitos também são, normalmente, retroativos à data de edição da norma, ou seja, ex tunc.

Há, contudo, uma especificidade no sistema brasileiro, decorrente da previsão constitucional inserida no are. 52, X, CF/88, que
autoriza o Senado Federal, por meio da edição de uma resolução, a suspender a execução da lei (ou de outro ato normativo)
declarada definitivamente inconstitucional pelo Supremo Tribunal Federal no controle difuso, o que ampliará os efeitos da decisão
de modo a alcançar terceiros não integrantes da relação processual originária.

Vê-se, pois, que a decisão de inconstitucionalidade, por força do comando judicial emanado do STF, só produzia efeitos
meramente inter partes, mas, em virtude da participação do Senado, passará a produzir efeitos erga omnes.

Essa atribuição do Senado foi instituída pela Constituição de 1934 (e preservada nas subsequentes, com exceção da Constituição
do Estado Novo, de 1937), com dois propósitos centrais:

(i) impedir a proliferação de ações judiciais idênticas àquela apreciada pelo STF, por indivíduos que queiram obter semelhante
declaração de inconstitucionalidade,
➢ (ii) bem como para minimizar os conflitos de decisões fruto da amplíssima competência que informa a jurisdição constitucional
difusa.
Alguns pontos referentes à participação do Senado Federal no controle difuso, todavia, merecem ser destacados:
➢ (i) inicialmente, destacamos que compete ao Supremo Tribunal Federal comunicar a decisão definitiva (transitada em julgado) de
inconstitucionalidade prolatada no controle difuso para o Senado Federal.
➢ Aliás, essa obrigação para a Corte vem inscrita em seu próprio regimento interno (art. 178, RISTF);
➢ (ii) na sequência, vale enfatizar que a participação do Senado para ampliação subjetiva dos efeitos somente é possível no controle
difuso, não no concentrado-abstrato, afinal, neste último, a decisão de inconstitucionalidade do STF já é capaz, por si só, de
produzir eficácia erga omnes;

(iii} importante também afirmar o caráter discricionário da atuação senatorial: não há obrigatoriedade para que o órgão legislativo
promova a suspensão, tratando-se de um ato no qual o juízo de conveniência e oportunidade é exclusivo do Senado Federal50;

(iv) frise-se que tampouco há prazo para referida atuação, podendo o Senado cumprir a tarefa a qualquer tempo, quando entender
necessário e adequado;

{v) outra informação relevante é a de que o Senado atua no cumprimento dessa função como órgão nacional, de forma que é
possível que suspenda a execução de leis ou outros atos normativos declarados definitivamente inconstitucionais pelo STF
independentemente da esfera federativa que os produziu.
➢ Assim, se o STF, no controle difuso, declarar em definitivo a inconstitucionalidade de leis ou outros atos normativos municipais,
estaduais, distritais ou federais, o Senado Federal, se e quando desejar, pode atuar para promover a ampliação dos efeitos
subjetivos;

{vi) é válido também recordar que a suspensão da execução da norma pelo Senado será efetivada através da edição de uma
Resolus:ão;

(vii) a deliberação senatorial que suspende a execução do aco por meio da resolução é irretratável.
➢ Segundo o STF a resolução suspensiva é irrevogável, vez que o Senado esgota sua atribuição quando a expede, não podendo revê-
la;
➢ (v iii} o Senado somente está autorizado a suspender a norma quando o STF (no controle difuso, em decisão definitiva) a declara
inconstitucional.

Assim, quando a Corte reafirma a presunção de constitucionalidade da norma (entendendo-a constitucional, por exemplo, quando
emprega na decisão a técnica da interpretação conforme a Constituição)ou se manifesta pela não recepção de uma lei editada
anteriormente à norma constitucional eleita como parâmetro, não há que se falar em comunicação ao Senado Federal;

50. Em sentido contrário, temos: Manoel Gonçalves Ferreira Filho, Zeno Veloso, Lenio Luiz Streck, dentre outros.
➢ (ix) ainda hoje não há pacificidade doutrinária acerca dos efeitos da suspensão operada pelo Senado: em que pese renomados
aurores51 entenderem que a resolução possui efeitos retroativos (ex tunc), em nossa percepção, no passo da doutrina majoritária,
os efeitos da resolução não são retroativos, isto é, são ex nunc.

Isso porque a resolução não está declarando a inconstitucionalidade da norma, mas, cão somente, suspendendo a execução de uma
norma já previamente declarada inconstitucional.
➢ E a suspensão, via de regra, produz efeitos a partir de sua implementação.


Nada impede, todavia, que o Senado Federal edite uma resolução na qual o efeito retroativo seja expressamente estabelecido.
➢ Do mesmo modo, uma norma pode afirmar estes efeitos, como fez o Decreto n° 2.346/1997 que, em seu are. 1°, determinou que
no âmbito da Administração Pública Federal os efeitos serão retroativos (ex tunc).
➢ (x) Ainda sobre o assumo, cumpre salientar que o are. 52, X, CF/88, utiliza a seguinte expressão para delimitar o alcance da
resolução do Senado Federal: "no todo ou em parte".
➢ Apesar das severas divergências na inrerpreração, a doutrina majoritária compreende que a locução externa uma obrigatoriedade
de o Senado atuar nos estritos limites daquilo que foi decidido pelo STF.

Assim, se a Corre houver declarado a inconstitucionalidade "no rodo", isto é, da norma roda, o Senado a suspenderá "no rodo".
➢ Em conrraparrida, se o STF declarou a inconstitucionalidade "em parte'', isto é, s6 de um trecho da norma, o Senado suspenderá
exatamente esse trecho.

Percebe-se que a expressão "no rodo ou em parte" deve ser interpretada como sendo uma determinação de que ao Senado Federal
é impossível ampliar, interpretar ou restringir a extensão da decisão do STF52•

(xi) Em desfecho ao irem, é importante recordar que alguns Ministros do STF, capitaneados por Gilmar Mendes, vêm propondo
uma revisão do papel que o Senado Federal desempenha no controle difuso.

Segundo esta corrente, competiria ao Senado apenas conferir publicidade à decisão proferida pela Corte, que por si mesma seria
possuidora de eficácia erga omnes.
➢ Os principais argumentos sustentados pelos partidários e pelos refratários a essa mutação da função do Senado serão avaliados no
r6pico a seguir.