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6.

CONTROLE CONCENTRADO
6.1. Introdução


O controle concentrado de constitucionalidade surge tardiamente, na Constituição da Áustria de 1920, tendo como principal idealizador Hans Kelsen.


Nos idos de 1919 o mestre austríaco contribui sobremaneira no projeto de "Redação da Constituição Austríaca" que foi definitivamente aprovada no ano seguinte.


Sem dúvida, o capítulo que mais lhe orgulhava versava sobre o controle de constitucionalidade - foi o principal teórico do controle na via concentrada -, pois o
compreendia como a garantia efetiva da Constituição e a marca distintiva do documento austríaco.


Como peça jurídica central da organização constitucional da Áustria foi previsto um Tribunal Constitucional e Kelsen, como criador e projetista desce, foi eleito por todos
os partidos da assembleia Nacional como membro vitalício da Suprema Corre Austríaca.


Em referido Tribunal, externo ao Poder Judiciário e absolutamente independente em relação aos três Poderes clássicos, inaugurou-se a tese de declaração de invalidade
das leis através da atuação dos "legisladores negativos".


Os membros deste Tribunal (e unicamente desce, e não dos demais órgãos do Poder Judiciário, para evitar um "governo de juízes") possuíam atribuição institucional de
julgar as leis e retirá-las do ordenamento jurídico, revogando-as cocal ou parcialmente.
➢ A adoção dessa fórmula de jurisdição constitucional por outros países67, cão diversa daquela engendrada pelo tradicional modelo escadunidense, representou a superação da
tradicional resistência europeia em permitir que um órgão não-eletivo invalidasse normas fruto de deliberações do Parlamento (até então considerado a instância representativa
máxima da nação).


Reforçando as explanações aqui apresentadas, Alexandre de Moraes diz ser a Constituição austríaca o documento que

➢ criou, de forma inédita, um Tribunal - Tribunal Constitucional - com exclusividade para o exercício do controle judicial de
constitucionalidade das leis e atos normativos, em oposição ao sistema adorado pelos Escados Unidos, pois não se pretendia a
resolução de casos concrecos, mas a anulação genérica da lei ou ato normacivo incompatível com as normas consticucionais611

67. José Gomes Canotilho registra que "esse sistema encontrou grande recepção no pós-Guerra, estando consagrado na Itália, Alemanha, Turquia, Iugoslávia, Chipre, Grécia, Espanha e Portugal".
CANOTILHO, J. J. Gomes. Direito Constitucional e Teoria da Constituição. 31 ed. Coilnbra: Livraria Almedina, 1999, p. 834


68. MORAES, Alexandre de. Jurisdição Constitucional e Tribunais Constitucionais. São Paulo: Editora Atlas, 2000, p. 22.


➢ Ressalte-se, ainda, que essa modalidade de controle desenhada por Hans Kelsen é realizada em abstrato e pela "via principal",


isto é, a questão de constitucionalidade configura o pedido principal da ação, sendo que a Corte Constitucional analisa, em tese, se há ou não contrariedade à Constituição.


Não há, neste processo, uma ocorrência fácica ou precensóes resiscidas, sendo o concrole realizado em um processo pela doucrina denominado "objecivo".


A decisão provenience desse processo possui eficácia erga omnes, ou seja, efeitos que se opõem a todos.


Em desfecho, cumpre informar que detalharemos, nos irens subsequences, o surgimento e desenvolvimento dessa modalidade de controle no direito pátrio, assim como as ações
que o compõem.
6.2. Controle concentrado no Brasil


No que se refere ao sistema pátrio de jurisdição constitucional, pode-se dizer que, a princípio, sofreu significativa influência norte-americana.


Nossa primeira Consciruição republicana, de 1891, com forre inspiração no sistema esradunidense, instituiu o controle difuso-incidental da constitucionalidade das leis
sob responsabilidade dos órgãos componentes do Poder Judiciário.


Em verdade, ances mesmo de a Constituição republicana ser promulgada, o Decrero nº 848 (de 1 1 /10/1890), que instituiu a Justiça Federal e o Supremo Tribunal
Federal, já salientava o princípio difuso de fiscalização da constitucionalidadé9•


69. ARNATES, Rogério Bastos. Controle de Constitucionalidade das Leis no Brasil: o construção de um sistema híbrido. 1994. Tese (Mestrado) - Universidade de São Paulo, São Paulo, 1994.


Nos documentos consricucionais subsequentes, concudo, alcerações relativas ao sistema de concrole são engendradas em percepcível e paulatino abandono do
paradigma que nos inspirou inicialmente: é o momento em que as atenções se voltam aos países europeus que criaram o modelo concentrado de jurisdição constitucional.


➢ A Constituição de 1934 já trouxe mudanças significativas, inovando nos seguinces pontos no que se refere ao modelo de controle de constitucionalidade no Brasil:


Atribuiu ao Senado o papel de suspender, no todo ou em parte, a lei ou aro normativo considerado inconstitucional pelo Judiciário;


atribuiu ao Procurador-Geral da República a faculdade de propor a representação interventiva junco ao STF para assegurar a observância e o respeito aos princípios
constitucionais sensíveis; e, por fim, estabeleceu a cláusula de reserva de plenário.


A Carta Constitucional posterior, a de 1937 (do Estado Novo) representou um retrocesso no controle concentrado, abolindo a representação interventiva.


O que de mais prejudicial, todavia, esra Carta engendrou, foi a possibilidade de o Parlamenco, por manifestação de 2/3 de cada Casa, após ser provocado pelo Presidente da
República, destituir de efeitos a decisão que prolatara a inconstitucionalidade de lei ou ato normarivo70.

➢ 70. Ver art. 96, parágrafo único, in verbis, "No caso de ser declarada a inconstitucionalidade de uma lei que, a juízo do Presidente da
República, seja necessária ao bem-estar do povo, à promoção ou defesa de interesse nacional de alta monta, poderá o Presidente da República
submetê-la novamente ao exame do Parlamento: se este a confirmar por dois terços de votos em cada uma das Câmaras, ficará sem efeito a
decisão do Tribunal".


➢ A Constituição democrática de 1946 mantém o controle difuso e restabelece o concentrado, recuperando a representação interventiva.


Mas o principal destaque para a via concentrada de controle que esse documento opera é fruto da Emenda Constitucional nº 16, de 1965.


Esta cria a representação de inconstitucionalidade, de legitimidade exclusiva do Procurador-Geral da República, apresentado à jurisdição constitucional brasileira o controle
concentrado abstrato.


De acordo com Gilmar Mendes, apesar da introdução do modelo concentrado, o controle permaneceu, durante cerco período, predominantemente difuso


➢ O monopólio de ação direra ourorgado ao Procurador-Geral da República no sisrema consrirucional de 1967/69 não provocou uma
alreração profunda no modelo incidenre ou difuso encáo exisrencc.

➢ Esre conrinuou predominanrc, inrcgrando-se a represenraçáo de inconsrirucionalidade a ele como um elemento ancilar, que
conrribuía muiro pouco para diferençá-lo dos demais sisremas "difusos" ou "incidenres" de conrrole de consrirucionalidade.

➢ Assim, se se cogirava de um modelo misro de conrrole de consrirucionalidade, é cerro que o forre acento residia, ainda, no amplo e
dominante sistema difuso de conrrole, resulrando o conrrole direto em algo acidencal e episódico denrro do sistema difuso ' 1 •

➢ 71. MENDES, Gilmar Ferreira. Moreira Alves e o controle de constitucionolidode no Brasil. São Paulo: Saraiva, 2000,p. 15.
➢ Foi, pois, com o advento da Constituição Federal de 1988 que o controle concentrado foi robustecido e aperfeiçoado.


De início, incrementou-se o rol de ações componentes da via concentrada: se antes somence concávamos com a representação de inconstitucionalidade (que com a nova Constituição
foi denominada ação direta de inconstitucionalidade - ADI), a partir de 1988 adquiriu-se a ADPF (arguição de descumprimento de preceito fundamental) e a ADO (açãodireta de
inconstitucionalidade por omissão).


A ação declaratória de constitucionalidade (ADC) surge, posteriormente, no ano de 1993, por meio da edição da EC nº 3/1993


Ademais, ampliou-se sobremaneira o leque dos legitimados à propositura das ações do controle concentrado, conforme é possível depreender da leitura do atual art. 103 da Carta
Maior.


Ou seja, foram habilitados mais legitimados à apresentação das ações (antes o único que manejava o instrumento era o Procurador-Geral da República).


Essas e outras tantas mudanças - que serão noticiadas ao longo do capítulo – serviram para dar mais concrerude a possibilidade de controle abstrato das leis.

Hoje, pois, o controle concentrado abstrato de constitucionalidade no Brasil – que é realizado exclusivamente pelo Supremo Tribunal Federal, na tutela da Constituição
Federal - possui como instrumentos, que serão detalhados nos próximos irens, os seguintes:


(i) a Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI - arr. 102, 1, "a", CF/88);


(ii) a Ação Declaratória de Constitucionalidade (ADC - are. 102, 1, "a", CF/88);


(iii) a Ação Direta de Inconstitucionalidade por Omissão (ADO - are. 103, § 2°,CF/88);


(iv} a Arguição de descumprimento de preceito fundamental (ADPF - art. 102, § 1°, CF/88).