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Nome: Turma: N.

PROVA MODELO DE PORTUGUÊS Ficha n.º 6


Ano Letivo
2020-2021
setembro 2020 11.º Ano

GRUPO I
Apresente as suas respostas de forma bem estruturada.
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PARTE A

Eu cantei já, e agora vou chorando 


o tempo que cantei tão confiado; 
10 parece que no canto já passado 
se estavam minhas lágrimas criando. 

Cantei; mas se alguém me pergunta: − Quando? 


− Não sei; que também fui nisso enganado. 
15 É tão triste este meu presente estado 
que o passado, por ledo, estou julgando. 

Fizeram-me cantar, manhosamente, 


contentamentos não, mas confianças; 
20 cantava, mas já era ao som dos ferros. 

De quem me queixarei, que tudo mente? 


Mas eu que culpa ponho às esperanças, 
onde a Fortuna injusta é mais que os erros? 
25  

Luís de Camões 
 
1. Explique a oposição passado/presente estabelecida na primeira estrofe, mostrando de que
30 modo o presente já se fazia anunciar no passado. 

2. Explicite o valor expressivo da metáfora presente no verso «cantava, mas já era ao som dos
ferros» (v. 11). 

3. Complete as afirmações abaixo apresentadas, selecionando da tabela a opção adequada a


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cada espaço.  

Na folha de respostas, registe apenas as letras e o número que corresponde à opção


selecionada em cada um dos casos.  
40  
No verso “onde a Fortuna injusta é mais que os erros?”, o sujeito poético afirma não ser o
responsável pelo seu ____a)____, pois é vítima da Fortuna ____b)____. 
  
a)  b) 

1.  contentamento  1. benigna. 

2.  sofrimento  2. imparcial. 

3.  saudosismo  3. arbitrária. 

4.  pacifismo  4. justa. 

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PARTE B

Leia as estâncias do Canto VII d’Os Lusíadas, de Luís de Camões. Se necessário, consulte o
glossário.
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82 Vede, Ninfas, que engenhos de senhores
O vosso Tejo cria valorosos,
Que assim sabem prezar com tais favores
A quem os faz, cantando, gloriosos!
Que exemplos a futuros escritores,
Para espertar engenhos curiosos,
Para porem as coisas em memória.
Que merecerem ter eterna glória!
[...]

84 Nem creiais, Ninfas, não, que fama desse


A quem ao bem comum e do seu Rei
Antepuser seu próprio interesse,
Imigo da divina e humana Lei.
Nenhum ambicioso que quisesse
Subir a altos cargos, cantarei,
Só por poder com torpes exercícios
Usar mais largamente de seus vícios;

85 Nenhum que use de seu poder bastante


Pera servir a seu desejo feio,
E que, por comprazer ao vulgo errante,
Se muda em mais figuras que Proteio.1
Nem, Camenas,2 também cuideis que cante
Quem, com hábito3 honesto e grave, veio,
Por contentar o Rei, no ofício novo,
A despir e roubar o pobre povo!

8 Nem quem acha que é justo e que é


6 direito
Guardar-se a lei do Rei severamente,
E não acha que é justo e bom respeito
Que se pague o suor da servil gente;
Nem quem sempre, com pouco experto4
peito,
Razões aprende, e cuida que é prudente,
Pera taxar, com mão rapace e escassa,
Os trabalhos alheios que não passa.
LUÍS DE CAMÕES, Os Lusíadas.

55(1) Proteio: divindade marinha com a capacidade de se disfarçar.


(2) Camenas: musas.
(3) hábito: aspeto; aparência; imagem exterior.
(4) experto: experiente.

4. Exponha, sucintamente, o conteúdo da estância 82, tendo em conta o desabafo irónico e


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amargo do poeta.

5. Identifique, comprovando, três dos vários alvos da crítica do poeta que estão subjacentes aos
comportamentos indignos de louvor através do seu canto.
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6. Transcreva duas expressões utilizadas pelo poeta para se referir à camada da sociedade que
é explorada, comentando a expressividade dos adjetivos usados.
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70 PARTE C

«Outro motivo para se conferir à literatura um lugar de destaque na vida das nações é que,
sem ela, a mente crítica – verdadeiro motor das mudanças históricas e melhor escudo da
liberdade – sofreria uma perda irreparável. Porque toda boa literatura é um questionamento
75radical do mundo em que vivemos. Qualquer texto literário de valor transpira uma atitude
rebelde, insubmissa, provocadora e inconformista.»
Mário Vargas Llosa, Sobre a Literatura

Escreva uma breve exposição sobre a afirmação de Mário Vargas Llosa na qual deve incluir:

80• uma introdução ao tema;

• um desenvolvimento em que relacione a opinião de Vargas Llosa à forma como o excertos
transcritos nas partes A e B traduzem uma atitude inconformista face à realidade,
fundamentando as ideias apresentadas em, pelo menos, dois exemplos significativos
subjacentes a cada uma das obras estudadas;

85• uma conclusão adequada ao desenvolvimento do tema.

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GRUPO II
Nas respostas aos itens de escolha múltipla, selecione a opção correta.
Escreva, na folha de respostas, o número do item e a letra que identifica a opção escolhida.
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Leia o texto. Se necessário, consulte o glossário.

EXORTAÇÃO APOSTÓLICA1 DO PAPA FRANCISCO


Uma crítica profunda ao capitalismo

120 «Por isso, quero uma Igreja pobre para os pobres», escreve o Papa Francisco no parágrafo 198 da
sua primeira «Exortação Apostólica» intitulada Evangelii gaudium (ou, traduzido, A Alegria do
Evangelho). Este documento não é um entre outros: constitui o programa da Igreja para os próximos
anos, como o Papa também diz, logo no primeiro parágrafo. Aliás, mais adiante, no n.º 25, Francisco
afirma que este texto deve ser entendido «num sentido programático e [com] consequências
125importantes.» Ora, do que este documento trata é de reformas dentro da Igreja (que o Papa considera
«inadiáveis» − n.º 27) e mudanças na sociedade. Muito haveria a escrever sobre as reformas internas
propostas por Francisco (espero poder fazê-lo noutra ocasião).
Concentrar-me-ei, contudo, aqui, apenas na crítica profunda que o Papa faz às sociedades
capitalistas, de consumo, e ao próprio capitalismo. E começarei por dizer que me parece importante
130destacar que o Papa não perspetiva as suas críticas à sociedade capitalista e de consumo no quadro de
um pensamento que não põe em causa o próprio sistema. Por isso, será, no mínimo, redutor e
«silenciador» da novidade do documento dizer que Francisco se limita a repetir o que a Igreja, na sua
Doutrina Social, diz desde Leão XIII 2, ou que é «maravilhoso» termos tido uma sequência de Papas que
vêm sempre dizendo o mesmo.
135 Perdoar-me-ão o facto de este texto ser tão abundante em citações do documento. Faço-o
deliberadamente, como um pequeno contributo para divulgar a radicalidade de um pensamento que
será, provavelmente, incómodo para alguns (se não muitos), incluindo dentro da Igreja Católica.
É que do que Francisco fala é da necessidade de mudar o sistema estruturalmente. Aliás, a
referência a esta necessidade aparece cinco vezes no documento, desde logo, numa sequência de
140«nãos»: «não à economia da exclusão» (n.º 53), que mata, porque serve a lógica do mais forte, na qual
os excluídos «sobram»; «não à nova idolatria do dinheiro» (n.º 55), que nega a primazia do ser humano
sobre o consumo (contexto, aliás, no qual o Papa refere a dívida e os seus interesses como
impossibilitando os países de viabilizar as suas economias e destituindo os cidadãos do poder aquisitivo
real): «não ao dinheiro que governa em lugar de servir» (n.º 57), isto é, a uma lógica que se esquece de
145que «não partilhar com os pobres os próprios bens é roubá-los e tirar-lhes a vida», porque «os bens que
possuímos não são nossos, são deles»; «não à iniquidade que gera violência» (n.º 59), quer dizer, não à
violência gerada por um sistema social injusto.
Face a tudo isto, o Papa afirma: «A necessidade de resolver as causas estruturais da pobreza não
pode esperar» (n.º 202). […]
150 Este documento programático, por muito que a dureza da sua linguagem custe, inclusivamente a
muitos católicos, afirma claramente que o lugar dos crentes ao lado dos pobres não é facultativo − é o
sinal de uma fé autêntica: «Uma fé autêntica − que nunca é cómoda e individualista − implica sempre um
profundo desejo de mudar o mundo» (n.º 183), isto é, «a Igreja não pode nem deve ficar à margem na
luta pela justiça» (idem). […]
155 Rush Limbaugh, uma das figuras de proa do Tea Party 3, já veio acusar o Papa de ser marxista, por
criticar radicalmente o capitalismo. Segundo o Huffington Post, corre neste momento uma petição entre
os católicos americanos exigindo que Rush Limbaugh peça desculpa. A petição intitula-se: «Tell Rush
Limbaugh: We Support Pope Francis» 4. Até agora, tenho visto pouca reação dos católicos portugueses
ao documento. Curiosamente, algumas das que tenho visto, criticam as leituras ao mesmo tempo que
160realçam a contundência do Papa no apelo às mudanças estruturais que aqui referi. Curioso, no
mínimo…
TERESA TOLDY, «Uma crítica profunda ao capitalismo», Jornal de Letras,
11 a 24 de dezembro de 2013, pp. 28 e 29 (com adaptações).
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(1) Exortação Apostólica: documento publicado por um Papa para esclarecer a sua comunidade de fiéis.
(2) Leão XIII: Papa de 1878 a 1903.
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(3) O Tea Party é um movimento político de natureza populista e conservadora que surgiu em 2009 nos Estados Unidos.
170(4) Tradução: «Digam a Rush Limbaugh: nós apoiamos o Papa Francisco.»

1. O subtítulo do artigo tem a intenção de


(A) enfatizar que o autor da Exortação repreende a alta finança e os países capitalistas.
175 (B) mostrar que o documento apreciado pela autora constitui uma censura ao modelo económico
capitalista.
(C) mostrar que os documentos da autoria do Papa Francisco constituem uma clara e estruturada
crítica à classe dos banqueiros.
(D) mostrar que os documentos da autoria do Papa Francisco não se dirigem aos fiéis da Igreja.
180
2. O segundo parágrafo do texto sublinha que
(A) a apreciação da autora apenas se centrará nas observações que o Papa dedica às sociedades
capitalistas e ao capitalismo enquanto sistema.
(B) o documento do Papa nada tem de inovador.
185 (C) o documento do Papa se inspira em escritos de Leão XIII.
(D) as críticas do Papa não põem em causa o sistema capitalista.

3. O advérbio «deliberadamente» (l. 17) refere-se


(A) ao facto de o Papa estabelecer uma crítica incómoda.
190 (B) ao facto de existirem muitas citações no texto de Teresa Toldy.
(C) ao facto de a abundância de citações no texto de Teresa Toldy ser intencional.
(D) à vontade que Teresa Toldy tem de ser propositadamente incómoda com o seu texto.

4. A função sintática desempenhada pelo segmento sublinhado em “redutor e «silenciador» da


195novidade do documento” (l. 13) é
(A) complemento do nome.
(B) complemento do adjetivo.
(C) modificador do nome restritivo.
(D) modificador do nome apositivo.
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5. A frase «que não põe em causa o próprio sistema» (l. 12) é uma oração subordinada
(A) adjetiva relativa explicativa.
(B) adjetiva relativa restritiva.
(C) substantiva relativa.
205 (D) substantiva completiva.

6. Identifique a função sintática desempenhada pelos constituintes seguintes.


a) «na sua Doutrina Social» (l. 14).
b) «uma petição» (ll. 39-40).
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7. Indique o processo de formação da palavra «inadiáveis» (l. 7).

215 Grupo III

“Nada nos ensina melhor do que os bons romances a ver nas diferenças étnicas e culturais a riqueza do
legado humano e a estimá-las como manifestação da multifacetada criatividade humana.”

220 Mário Vargas Llosa, Sobre a Literatura

Num texto de opinião bem estruturado, com um mínimo de duzentas e um máximo de trezentas e
cinquenta palavras, reflita sobre o valor da literatura enquanto tradução da cultura e da riqueza do legado
humano.
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No seu texto:
– explicite, de forma clara e pertinente, o seu ponto de vista, fundamentando-o em dois argumentos,
cada um deles ilustrado com um exemplo significativo;
– utilize um discurso valorativo (juízo de valor explícito ou implícito).
230

FIM

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